A medicação prescrita na internação hospitalar: o conhecimento do cliente
A medicação prescrita na internação hospitalar: o conhecimento do cliente
La medicación prescripta en la hospitalización: el conocimiento del cliente
Medication Prescribed to Inpatients: The Client's Knowledge
Ana Carolina Guidorizzi Zanetti;Sílvia Helena De Bortoli Cassiani; Izabela
Ramos Moreira Afonso; Claudia Câmara Freire; Paulo Celso Prado Teles Filho
IEnfermeiras graduadas pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto -
Universidade de São Paulo - EERP/USP
IIEnfermeira, Professora Associada junto ao Departamento de Enfermagem Geral e
Especializada da EERP/USP
III Enfermeiro, Doutorando da EERP/USP, Docente e Chefe do Departamento de
Pesquisa da UNICASTELO - Campus VIII - Descalvado - SP. E-mail do autor:
shbcassi@eerp.usp.br
1 Introdução
A equipe de enfermagem junto a outros profissionais de saúde, tais como,
médicos e farmacêuticos, são os principais responsáveis pelas atividades
terapêuticas ligadas à administração de medicamentos. É responsabilidade da
equipe de enfermagem compreender os efeitos da droga, administrá-la
corretamente e monitorar as respostas do cliente(1). A administração de
medicamentos, por se tratar de uma atividade diária da enfermagem, requer
experiência e exige responsabilidades(2).
Para sua execução, é necessária a aplicação de vários princípios científicos
que fundamentam a ação dos profissionais, promovendo a segurança do paciente e
do próprio profissional. O enfermeiro, para administrar medicamentos com
segurança, eficiência e responsabilidade, deve conhecer o paciente, compreender
os efeitos e ações dos medicamentos, administrá-lo corretamente e avaliar a
resposta do paciente (3).
A administração de medicamentos é um processo multidisciplinar e um
multissistema iniciando no momento da prescrição médica, continuando com a
provisão deste medicamento pelo farmacêutico e terminando com a sua preparação
e administração aos clientes(4). No Brasil cabe aos enfermeiros a supervisão de
auxiliares e técnicos de enfermagem durante a administração de medicamentos. No
entanto, foi constatado que esta supervisão nem sempre é realizada, podendo
levar a erros de medicação a qualquer momento.
Esses erros são motivos de preocupação no trabalho dos enfermeiros e um dos
indicadores da qualidade da assistência de saúde prestada aos pacientes
hospitalizados(5). O aumento da incidência de erros de medicação nos hospitais
e principalmente a subnotificação são preocupações de todos os profissionais.
Intervenções devem ser empreendidas para minimizar essa situação. A ocorrência
de erros pode trazer sérias conseqüências e até o óbito dos clientes(6).
Erros de medicação são incidentes associados com os medicamentos ocorridos
durante a prescrição, transcrição, distribuição e administração. São
classificados em dois tipos - erros de omissão e erros de condução(7). Esses
incidentes, sempre envolvem um enfermeiro ou equipe em associação com médico,
farmacêutico, provedores e a instituição de cuidado. Para evitá-los, tem-se de
utilizar os cinco certos na administração de medicamentos, os quais são as
bases da educação no ensino de administração de medicamentos em escolas de
enfermagem. Os cinco certos advertem o enfermeiro quanto a administração do
medicamento certo, para o paciente certo, com a dose certa, na via certa e no
horário certo. Além disso, a instituição do sistema de dose unitária e
preparação de endovenosos por farmácia pode diminuir a incidência dos erros de
medicação, além de proporcionar à enfermagem um tempo extra para o cuidado do
cliente(8).
O conhecimento do cliente sobre sua medicação, através da orientação fornecida
por enfermeiros, vem sendo apresentado como uma das soluções para que os erros
possam ser minimizados. O cliente bem informado pode evitar danos a si próprio
durante a administração de seus medicamentos. A educação é obviamente uma
importante parte na prevenção dos erros de medicação.
Assim, o paciente bem informado pode ajudar na prevenção de erros na medicação
e outros eventos adversos, o que depende do fornecimento de informações
fornecidas pelos enfermeiros, médicos e farmacêuticos(9). Alguns incidentes nos
quais o paciente ou seus familiares são suficientemente informados, podem ser
prevenidos.
Os enfermeiros devem dar ênfase na educação do paciente, pois ensiná-los é um
componente essencial para o seu cuidado. Além disso, os enfermeiros têm mais
oportunidades de ensinar e educar os pacientes em relação aos outros membros da
saúde. Algumas das melhorias que também podem ser feitas incluem a estruturação
de programas de aprendizado, redação de informações, realização de esquemas de
auto-medicação, aconselhamento e aumento da comunicação com os profissionais da
área farmacêutica. Diante dos aspectos apontados, este estudo teve o propósito
de identificar o grau de informação de clientes hospitalizados acerca dos
medicamentos que lhe são prescritos.
2 Objetivo
O objetivo deste estudo foi identificar o grau de informação de clientes
hospitalizados, acerca dos medicamentos que lhe são prescritos. O grau de
informação pretendido refere-se ao conhecimento do nome do medicamento, dose,
via de administração, horário e propósito.
3 Material e método
Trata-se de um estudo descritivo, com amostra conveniente de 76 clientes
adultos, de ambos os sexos, internados em um hospital universitário do interior
do estado de São Paulo, em dezembro de 2000. Foram excluídos os clientes das
clínicas psiquiátrica e UTI e os que não foram capazes de prestar informações
verbais. Para a coleta de dados, utilizou-se a técnica de entrevista
estruturada através de um questionário e do registro de dados da prescrição
médica. O roteiro de entrevista foi desenvolvido e avaliado por juízes no que
refere ao conteúdo e consistia de questões sobre a identificação, nome, via de
administração, horário, propósito e dose do medicamento prescrito.
Após o projeto ter sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da
instituição hospitalar em estudo, bem como após a obtenção do consentimento
informado dos clientes, a coleta de dados foi iniciada. Foram entrevistados os
clientes adultos, conscientes e hospitalizados durante a visita da primeira
pesquisadora na clínica. A seguir os dados foram organizados para análise,
utilizando-se o programa Epiinfo e apresentados de forma descritiva, utilizando
tabelas e quadros.
4 Resultados e discussão
Dos 76 (100%) clientes, 31,6% encontrava-se na faixa etária de 30 a 39 anos e
69,7% eram do sexo feminino. Dos sujeitos estudados, 46,1% tinham o primeiro
grau incompleto.
Em relação à internação: 45 (59,2%) dos clientes foram internados apenas uma
vez em hospitais, no ano de 2000. Dos clientes estudados, 56 (73,7%) foram
internados pelo menos uma vez no hospital em estudo. No que refere à via de
administração de medicamentos, a maioria 63,2% dos sujeitos a recebiam por via
oral, 5,3% por via intramuscular, 2,6% por via subcutânea e 28,9% por via
endovenosa.
Ao serem questionados sobre o medicamento que recebiam, 55 (72,4%) informaram
corretamente o nome do primeiro medicamento prescrito, 23,6% acertaram
parcialmente ou errou e 3,9% não citaram.
Em relação a via de administração de medicamentos 68 (89,5%) dos clientes
referiram corretamente a via de administração do primeiro medicamento
prescrito, 6,6% acertaram parcialmente ou erraram e 3,9% não citaram.
Quanto ao horário do primeiro medicamento prescrito 48 (63,2%) dos clientes
responderam corretamente, 32,9% acertaram parcialmente ou erraram e 3,9% não
citaram.
Ao analisar os dados obtidos constatou-se que o conhecimento dos clientes em
relação ao nome, via de administração e horário do primeiro medicamento
prescrito, mostrou-se satisfatório. Esse dado parece apontar um avanço nas
medidas de educação ao cliente hospitalizado, ou seja, o cliente informado é
capaz de evitar a ocorrência de possíveis erros de medicação durante a
administração de medicamentos e, nesse hospital, os clientes, em sua maioria
tem conhecimento das medicações. O uso incorreto de medicações é uma das causas
das reações das drogas e a orientação pode aumentar o conhecimento da
terapêutica medicamentosa, desse modo, diminuindo os problemas advindos dessa
prática(10).
Enfermeiros são preparados para realizar a ponte cliente-educação, pois, a
educação do cliente vem sendo uma tradicional atividade da prática de
enfermagem. Educar clientes sobre medicação requer uma parcela de cuidado e
planejamento(11).
Do total de entrevistados, 59 (77,6%) informaram corretamente o propósito do
primeiro medicamento prescrito. Em relação a dose 19 (25%) responderam
corretamente a dose do primeiro medicamento prescrito, o que pode ser observado
no gráfico_1.
A análise dos resultados mostrou que a maior parte 52 (68,4%) dos clientes não
acertaram a dose do primeiro medicamento prescrito, mostrando a necessidade de
implantação de medidas que sejam capazes de fornecer o conhecimento necessário
para que o cliente possa tornar-se um parceiro na administração de medicamento.
Contribuindo para a redução da ocorrência de erros.
Para educar o cliente em relação à medicação que está recebendo, a equipe de
enfermagem deve instruí-lo durante a administração de cada um dos medicamentos,
orientando-o sobre o nome, via de administração, dose, propósito e a forma do
medicamento. Nos EUA, foi desenvolvido um auxílio para o ensino, o qual
apresenta uma lista individual das medicações, com o propósito de cada um, a
freqüência de administração e potenciais efeitos adversos(10).
Foram instituídas nove regras para a equipe de enfermagem na educação de
clientes sobre medicação, as quais se seguem:
1. Encorajar o cliente a manter uma lista escrita das suas medicações. Ela deve
incluir os nomes e validade dessas medicações e horário de cada medicação.
2. Reforçar a importância de comunicar os membros da equipe de saúde sobre
alergias ou sensibilidades que tiveram com medicamentos passados.
3. Mostrar a necessidade de saber profundamente como os clientes devem tomar
suas medicações (à noite, pela manhã, com alimentos, e assim por diante).
4. Encorajar o cliente a ser um participante ativo no seu cuidado. O cliente
deve ter certeza que a equipe hospitalar, relatou o nome de alguma nova
medicação, seu propósito e possíveis efeitos adversos.
5. Mostrar ao cliente como controlar os dias em que tomará a medicação e as
chances de ingerir uma dose ou droga errada.
6. Encorajar o cliente a examinar todas as medicações que lhe são prescritas.
7. Os clientes têm todo direito de fazer perguntas e obter respostas sobre
procedimentos ou sobre o seu tratamento.
8. Não ter pressa para verificar se o cliente entendeu a sua prescrição.
9. Aconselhar o cliente a procurar uma farmácia onde conheça o farmacêutico,
para que este possa lhe esclarecer dúvidas se necessário.
O cliente deve ser encorajado a ter mais responsabilidade com seu próprio
cuidado e suas medicações. Assim o conhecimento sobre suas medicações pode ser
maximizado(12).
Ao relacionar o sexo dos clientes entrevistados com os erros obtidos, observou-
se que os clientes do sexo masculino obtiveram maior porcentagem (26%) de erros
do que os clientes do sexo feminino (5,6%). Ao investigar os sujeitos que
recebiam mais de uma medicação verificou-se que do total de entrevistados, 88%
receberam uma segunda medicação, 46,3% sabiam o nome do segundo medicamento
prescrito, 17,9% sabiam a dose, 76,1% acertaram a via de administração, 55,2%
acertaram o horário e 67,2% acertaram o propósito. Dos clientes que receberam
mais de duas medicações, 53,8% não citaram o nome do terceiro medicamento
prescrito, 72,2% o nome do quarto medicamento, 85% o nome do quinto
medicamento, 82,8% o nome do sexto medicamento, 76,5% o nome do sétimo
medicamento e 86,7% o nome do oitavo medicamento.
Pode-se identificar que o grau de informação de clientes, durante a internação
hospitalar, acerca dos medicamentos que lhe são prescritos é satisfatório. Faz-
se necessária a conscientização dos profissionais de enfermagem em relação à
importância da orientação ao cliente para a utilização de medicamentos durante
o período de internação, para aumentar ainda mais o referido grau.
Considerações finais
É sabido que danos iatrogênicos em administração de medicamentos ocorrem
freqüentemente em pacientes hospitalizados e, geralmente causam seqüelas(13).
Os dados obtidos nesse estudo mostram a importância da adoção de medidas que
tornem o cliente conhecedor de sua medicação, possibilitando minimizar a
ocorrência de erros durante a administração de medicamentos.
Conclui-se que existe necessidade de implementar um programa de educação junto
a clientes hospitalizados acerca do uso de medicação. E para que o programa de
educação seja efetivo é importante o empenho da equipe de enfermagem, buscando
novas tecnologias de ensino que auxiliem os clientes a buscar informação acerca
do seu cuidado à saúde, em particular, no que tange aos medicamentos a serem
administrados, bem como à informação diária e freqüente (a cada momento da
administração) acerca do nome, via, dose, horário e propósito da medicação.