Criatividade e relação pedagógica: em busca de caminhos para a formação do
profissional crítico criativo
REFLEXÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS
Criatividade e relação pedagógica: em busca de caminhos para a formação do
profissional crítico criativo
Creativity and the pedagogical relationship: searching for new paths to train a
creative and critical professional
Creatividad y relación pedagógica: búsqueda de caminos para la formación del
profesional crítico y creativo
Kenya Schmidt ReibnitzI; Marta Lenise do PradoII
IEnfermeira, Mestre em Enfermagem, Docente do Departamento de Enfermagem e
Coordenadora Didático-pedagógica do Curso Técnico de Enfermagem da UFSC,
Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da UFSC, E-mail:
kenya@nfr.ufsc.br_
IIEnfermeira, Doutora em Filosofia da Enfermagem, Docente do Programa de Pós-
graduação em Enfermagem e do Departamento de Enfermagem da UFSC Coordenadora
Didático-pedagógica do Curso de Mestrado em Enfermagem/ PEn - UFSC
1 Introdução
Este texto nasceu com a finalidade de organizar o pensamento e a ação, sobre o
que entendemos ser o trabalho docente. O título tem muito a ver com nossas
incursões na literatura pedagógica, principalmente contemporâneas, que discutem
o trabalho docente como ofício.
Ao longo de nossa caminhada pelo ensino de Enfermagem, refletindo o papel do
Enfermeiro e a responsabilidade política e social dos docentes no processo de
formação, julgamos importante contribuir para o debate nesta área, tendo em
vista a estreita relação entre o trabalho em saúde e o trabalho em educação,
pois ambos estão situados no setor produtivo, como serviços.
E o que caracteriza o setor de serviços?
[...] os serviços definem-se essencialmente por sua utilidade
imediata: servem, em primeiro lugar, em uma relação de exterioridade
com o usuário, para recuperar um bem, para preservar um conjunto de
bens, para tornar melhor, no plano da eficácia ou da estética, alguma
coisa que já se possui como um bem. Em segundo lugar, servem ao
usufruto mais pessoal, em uma relação direta com a personalidade do
usuário, no qual o sentido de utilidade está condicionado
estreitamente por valores e comportamentos socialmente reconhecidos
[...](1:72).
Assim, educação e saúde possuem uma característica fundamental no qual o
consumo dá-se imediatamente na produção da ação; não produzimos bem materiais,
mas um bem simbólico que se evidencia no ato(2). Neste processo, o fenômeno
está sempre em transformação e é um processo contínuo. Teoricamente, o trabalho
não se esgota no produto.
Neste trabalho, nós docentes de Enfermagem, relacionamos os fatos e decidimos
como vamos fazer; temos momentos instituíntes1, quer seja na educação ou na
assistência. Nosso trabalho se dá num espaço de autonomia do trabalhador e
independente da sua função, sempre existirá a possibilidade de criar, de ir
além.
Neste processo de trabalho, o consumo pelo usuário dá-se imediatamente na
produção da ação; ele não está sendo ofertado como uma coisa externa. Deste
modo, no processo pedagógico temos a construção de um espaço interseçor,
compreendido como o espaço das relações; um espaço de encontro e negociação
entre professor e aluno, em ato. O espaço pedagógico é, portanto, um espaço de
interseção, o qual não é um somatório de um - aluno, com o outro - professor,
mas um produto de quatro mãos, um "inter". Designa o que se produz
nas relações entre sujeitos, espaços das suas interseções, que é um produto que
existe para os "dois" em ato e não tem existência sem o momento da
relação em processo e no qual os inter se colocam como instituintes na busca de
novos processos e a presença do trabalho vivo em ato se traduz na criatividade
em ação(2).
Sendo assim, todos nós professores (enfermeiros ou não), precisamos estar
cientes do significado do processo educativo, das suas interferências na
formação profissional e sua relação com a sociedade, pois a educação se
evidencia em qualquer contexto; não só nas escolas; é um processo que faz parte
do social e por isso não pode ser considerado neutro em seus objetivos.
Percebemos que estas relações profissionais e/ou sociais, interferem no
resultado deste processo pedagógico, influenciando a nossa forma de atuação.
A política neoliberal restringe educação à formação - incentivo a certificação,
isto é, em seu discurso está embutido que me fazendo melhor técnico, me torno
um melhor cidadão. Entretanto, devemos entrar no mundo tecnológico com uma
educação que capacite os indivíduos à responder ao avanço da tecnologia,
ampliando seus horizontes, aumentando o conhecimento e não se contentando com
uma formação meramente técnica, reducionista.
Como entendemos, então, a Educação?
Educação é um ato político. Esta afirmação é defendida por vários autores da
pedagogia crítica, tais como Freire, Gadotti, Perrenoud, Apple, Shon dentre
outros. "A escola faz política não só pelo que diz, mas também pelo que
cala; não só pelo que faz, mas também pelo que não faz"(3:22), isto
reflete a ação política da escola. Ao analisarmos as atividades desenvolvidas,
percebemos que em nossa tarefa de educar, seja no ensino ou na assistência, a
forma de atuar estará identificando uma postura política, podendo ser de
acomodação ou de transformação. Quando estamos assumindo que a enfermagem é uma
profissão eminentemente técnica, que precisamos desenvolver nossas atividades
num contexto tecnicista e eficiente, sem questionar seus efeitos, estamos
fazendo uma opção política de acomodação, pois estamos compactuando com o
sistema dominante, isto é, estamos formando profissionais tecnicamente
competentes que irão servir para perpetuar as relações sociais já existentes.
Por outro lado, ao assumirmos uma postura mais crítica e criativa, refletindo
sobre as questões que estão sendo apresentadas, procurando fazer relações
históricas dos fatos e analisando suas implicações, estaremos também fazendo um
ato político, pois além de reconhecermos a importância da competência técnica,
estaremos buscando favorecer a reflexão acerca da realidade vislumbrando
possibilidades de mudança. Competência aqui entendida como "a capacidade
do sujeito mobilizar o todo ou parte de seus recursos cognitivos e afetivos
para enfrentar uma ´família' de situações complexas"(4:21) Saber mobilizar
está relacionado com sinergia, com a orquestração destes recursos cognitivos e
atitudinais, ampliando o significado do saber fazer. Não se traduz num
conhecimento acumulado, mas na "capacidade de recorrer ao que se sabe,
para realizar o que se deseja, o que se projeta"(5:145).
A Educação, portanto, é um processo que vai além de ensinar, instruir ou
treinar; ela é essencialmente um processo de formação que precisa estimular a
curiosidade, desenvolver a autonomia crítica e criativa do sujeito histórico
competente. "É preciso reconhecer que somos seres condicionados e não
determinados. Reconhecer que a História é tempo de possibilidade e não de
determinismo, que o futuro, é problemático e não inexorável"(6:21).
Assim, o processo educativo é compreendido como um exercício de reflexão da
realidade, reflexão esta, fundamentada em conhecimentos adquiridos ao longo da
vida, de maneira formal (escola, livros...) e informal (no processo de
viver...). Esta reflexão possibilita uma releitura da prática anterior,
relacionando o conhecimento com a realidade, descobrindo equívocos e erros
cometidos, provocando necessariamente uma melhoria da compreensão do que
deveria ter sido praticado. Nesta relação existem duas opções:
ou se pensa e se reflete sobre o que se faz e assim se realiza uma
ação educativa consciente, ou não se reflete criticamente e se
executa uma ação pedagógica a partir de uma concepção mais ou menos
obscura e opaca existente na cultura vivida do dia-a-dia, e assim se
realiza uma ação educativa com baixo nível de consciência(7:32).
Neste processo de trabalho educar não pode haver respostas prontas, porque elas
não existem. O que se pode fazer é estimular, ajudar a pensar. Quem pensa
geralmente faz a educação na qual acredita:
a meta da instrução é o fim da instrução, quer dizer, a invenção. A
Invenção é o ato intelectual verdadeiro, a única ação inteligente. O
resto? Cópia, impostura, reprodução, preguiça, convenção, batalha,
sono. Só a descoberta desperta. Só a invenção prova que se pensa de
verdade a coisa que se pensa, seja qual for essa coisa. Penso,
portanto invento; invento, portanto penso: única prova de que um
sábio trabalha ou de que um escritor escreve. Para que trabalhar,
para que escrever, se não assim? Nos outros casos, eles dormem ou se
batem e se preparam mal para morrer. Repetem. Só o sopro dá vida,
pois a vida inventa. A ausência de invenção prova, pela contraprova,
a ausência de obra e de pensamento(8:23).
Portanto, não adianta copiar; é necessário compreender e assimilar a
necessidade de participar do processo, estimulando a criação.
Diante destas afirmações, nessa perspectiva de educação, como fica o papel do
professor?
O professor é aquele que facilita esse processo; ele é um criador de
oportunidades para as situações de aprendizagem, um oportunizador das
experiências intensas e adequadas, capazes de despertar no aluno a motivação
para a pergunta, para uma atitude investigativa que busque soluções e que
fundamente sua intervenção na realidade.
Esta função docente não tem como princípio a domesticação através de artifícios
que podem camuflar esta intencionalidade (memorização mecânica do educando),
mas sim os princípios da arte que liberta, fundamentado no estímulo à
curiosidade. Reconhecemos aqui, o trabalho do professor como um
"ofício".
A arte de diagnosticar, auscultar, perceber; é tão importante nos
profissionais da saúde quanto a capacidade e o tino para regular e
intervir. Todo ofício é uma arte reinventada que supõe sensibilidade,
intuição, escuta, sintonia com a vida, com o humano(9:47).
O professor é, enfim, um estimulador da capacidade crítico-criativa e, neste
papel, deve promover a liberdade e desafiar a razão.
A liberdade e a responsabilidade andam sempre juntas. A capacidade de
reconhecer limites em si, nos outros e para si e para os outros, possibilita o
indivíduo agir livremente. A liberdade está associada à possibilidade de
escolha e esta possibilidade está presente nas atividades humanas, além do
pensamento e criação, ela se expressa quando exercemos a autogovernabilidade
O estímulo ao pensar possibilita esta construção do sujeito, pois integra as
dimensões do conhecimento e da aprendizagem(10). Para que isto ocorra é preciso
provocar o exercício do pensamento, no qual envolve o pensar crítico (fazer
julgamento, baseado em critérios já estabelecidos como verdades, leis...), o
pensar criativo que busca o significado do fenômeno baseado em valores, nos
aspectos culturais, busca a contextualização e promove o pensamento divergente.
A articulação destas duas formas de pensar associado ao agir, reflete o pensar
complexo(11) ou pensar de ordem superior(10). Assim, no pensar complexo, existe
uma associação do pensamento com a ação; ocorre a investigação dentro da
investigação como um processo contínuo articulando o holístico com o
contexto.Este movimento do pensar crítico e criativo, do pensar complexo,
possibilita uma nova forma de enfrentar os desafios do conhecimento, significa
assumir uma atitude não contemplativa, ou seja, uma prática questionadora.
O requerimenrto em desenvolver o pensar complexo está em sintonia com a
compreensão do trabalho docente como um trabalho vivo, pois envolve dar luz aos
espaços interseçores (das relações) com o locus priveligiado para a prática de
duvidar, analisar e procurar revelar (através de dispositivos interrogadores) o
sentido e a direcionalidade (intencionalidade) do processo pedagógico e os seus
modos de operar cotidianamente nos processos formativos.
O processo de trabalho em saúde precisa mudar, precisa ressaltar a
subjetividade através do acolhimento e do vínculo com o usuário(2). Sendo
assim, como é que nossos egressos vão desenvolver esta atitude utilizando a
proposta de articular o pensamento, estar atento aquilo que não está
instituído, se ele não vivenciou isto no seu cotidiano acadêmico? E mais que
isso, como favorecer as mudanças no processo de trabalho em saúde, se no
processo educativo os professores não estão instrumentalizados para isto, não
vivenciam esta prática?
2 A criatividade e o processo educativo
Ao analisarmos um projeto político-pedagógico que contenha em seus princípios
filosóficos a formação de um profissional enfermeiro preocupado com a realidade
de saúde da população e com as condições de vida destes sujeitos, percebe-se a
necessidade deste indivíduo ser um agente de mudança e para que isto ocorra é
primordial trabalhar com a renovação de idéias, estimulando o pensamento
criativo.
A busca do conhecimento se reflete numa mudança de atitude pois queremos que
nossos alunos façam mais que simplesmente pensar, é importante que sejam
capazes de analisar e apreender o que uma situação apresenta, declara, implica
e/ ou sugere(12).
O discurso social afirma que o desenvolvimento e a expressão do potencial
criativo são de grande importância, não só para o indivíduo como também para a
sociedade, pois é da criatividade que depende o próprio desenvolvimento da
humanidade. Porém, a prática pedagógica mostra que o potencial criativo tem
sido usualmente inibido e bloqueado(13).
E como tem sido entendido o conceito de criatividade? Sabe-se que os conceitos
modificam, evoluem através dos tempos(14), e atualmente criatividade está sendo
o foco da moda sempre presente no discurso neoliberal e da globalização.
Percebemos esta realidade ao analisarmos as diretrizes curriculares nacionais
para os cursos da área da saúde, em qualquer um dos níveis de formação, que
focalizam a necessidade da formação do profissional crítico-criativo. Portanto,
é de fundamental importância que se analise o significado desta proposta, para
não continuarmos somente na retórica e sim partirmos para uma relação
pedagógica que se apresente como uma importante ferramenta para a formação
deste profissional.
Ao estabelecermos como um perfil profissional desejado, a formação de um
indivíduo crítico-criativo, há coerência entre o que pensamos e o que fazemos?
Estamos pensando a mesma coisa?
Estudando sobre a dinâmica do processo criativo, encontrei uma proposta que
inter-relaciona estes vários fatores(15). E coloca a criatividade nesta
perspectiva e a compreende como um processo dialético/interativo em que
participam três elementos: talento individual, campo e domínio/disciplina
representados esquematicamente sob a forma de um triângulo, onde estes três
vértices se inter-relacionam.
O talento individual relaciona-se com potencial de cada indivíduo para realizar
determinada coisa; contudo este potencial precisa ser estimulado e uma das
maneiras de fazê-lo é propiciar um espaço de liberdade para procurar o que lhe
dá prazer. O processo educativo, tanto em casa como na escola, pode inibir este
potencial (podando e amoldando conforme o referencial cultural do que é certo e
errado). Para ilustrar um pouco melhor este processo, recomendamos a leitura da
história infantil Quando a escola é de vidro, no qual a autora propõe, de
maneira lúdica, uma reflexão acerca dos efeitos bloqueadores da criatividade,
fazendo uma analogia ao modelo pedagógico que homogeneíza os indivíduos,
colocando-os em vidros exatamente iguais, sem considerar as diferenças, até
corriqueiras, como peso e tamanho.
O Campo relaciona-se com a área de atuação, podendo ser a escola ou o trabalho;
neste setor, o indivíduo sofre a ação dos juízes que julgam a qualidade e
utilidade dos produtos e processos desenvolvidos; é aqui que ocorrem as maiores
pressões para o desenvolvimento da criatividade. Na Enfermagem, onde o processo
de formação ainda é fortemente tecnicista, percebemos estas pressões nos
espaços da Escola repetitiva, descontextualizada, sem considerar os
determinantes sócio-econômicos, político-culturais dessa prática.
O terceiro vértice do triângulo, o domínio/disciplina, relaciona-se com a
escolha da área de trabalho, que se coincidir com o talento individual, irá
estimular o desenvolvimento de um sujeito mais criativo. Ou seja, quando se
trabalha com o que se gosta, este trabalho passa a ser um trabalho motivado,
prazeroso e, portanto, mais criativo.
Como um movimento de dentro para fora, a disciplina passa a ser um
profundo exercício interior, de habilitar, exercitar o aluno para
conseguir criar um foco de atenção em torno de algo motivador e
significativo em sua vida, que mereça, pois, toda a sua energia.
Criar este direcionamento e a energia interior é um profundo
exercício de disciplina. É o exercício de que o artista necessita
para compor uma música, para pintar um quadro, de que o cientista
precisa para estruturar uma teoria. Esse movimento disciplinador
fortalece a auto -organização, parte importante desse movimento
criativo e transdisciplinar(8:73).
Desta forma, percebemos a criatividade para além da competência de alguma
disciplina, sendo necessário diversos tipos de análise para à compreensão desse
fenômeno. Conforme já ressaltamos, para Gardner, a criatividade não está
somente na idéia, no processo ou na habilidade do artista, nem no domínio de
uma prática e tampouco no grupo de juízes, mas sim numa interação entre todas
essas dimensões(16).
Com este entendimento, ressaltamos que os fatores culturais influenciam no
processo criativo, que este processo é dinâmico e resulta em potencial para
mudança, ação ou produto. Todo indivíduo tem capacidade de ser criativo e cada
pessoa tem uma maneira diferente de expressá-la. Portanto, a criatividade não
pode ser só definida em termos de novidade, mas também em termos de
melhoramentos individual e da sociedade.
Um importante pesquisador sobre a criatividade e talento criativo constatou que
o estímulo em sala de aula repercute diretamente no processo ensino-
aprendizagem(17). Este estudo ressalta a importância da aprendizagem através do
estímulo à criatividade, que se processa a partir do interesse do próprio
indivíduo e de sua motivação interna, tendo, portanto, efeito mais duradouro.
Para que isto aconteça, deve-se estimular a produção do pensamento divergente,
ou seja, a busca da solução de problemas através de várias alternativas e
possibilidades, estimulando a imaginação. Assim, a criatividade está
intimamente relacionada a fatores como espontaneidade, entusiasmo e motivação
(18).
Entendemos o fenômeno criativo não como um dom ou talento, mas sim como algo
que pode ser estimulado ou inibido a partir das relações que o indivíduo
estabelece ao longo da vida, e por isso a importância da relação pedagógica.
Nessa perspectiva, entra em foco a capacitação docente, de modo a favorecer a
concretização do jogo dialético ação-pensamento, pensamento-ação para alcançar
a educação integral dos sujeitos ali envolvidos - professores e alunos.. Desta
forma, o processo educativo é mais do que uma reflexão. Ele é a práxis(19).
Retornamos, então a compreensão do ofício do professor no processo de trabalho
educar, no qual o conceito de trabalho ligado à competência compreende o
trabalho como possibilidade de liberdade, com criação de projetos a partir das
finalidades estabelecidas no contexto de sua realidade. E que apesar de ter
alguns momentos de tensão e fadiga, nos traz satisfação e alegria, pois nos
completa como seres humanos, satisfazendo uma das dimensões do desenvolvimento
do homem, que é o processo de criação.
Neste aspecto, ao refletir sobre a importância do resgate da docência como
ofício de mestre afirma que o professor não pode ser confundido com um cata-
vento que gira a mercê da vontade política e do avanço tecnológico.
Percebemos que
cada nova ideologia, cada nova moda econômica ou política, pedagógica
ou acadêmica, cada novo governante, gestor ou tecnocrata até de
agências de financiamento se julgam no direito de nos dizer o que não
somos e o que devemos ser, de definir o nosso perfil, de redefinir o
nosso papel social, nossos saberes e competências, redefinir o
currículo e a instituição que nos formarão através de um simples
decreto(9:24).
Neste processo de trabalho educar, é de fundamental importância a valorização
do espaço interseçor, como um privilegiado espaço de liberdade e autonomia,
onde a relação pedagógica favorece o ensino prático-reflexivo, resgatando o
potencial criativo, o potencial dos indivíduos, a autogovernabilidade. O
processo pedagógico se realiza num dado momento, não se repete, não retorna,
pois cada indivíduo é um e cada momento é único; valoriza e destaca a
subjetividade nas relações, tão necessária, também, no processo de trabalho em
saúde.
A relação pedagógica associada ao ensino prático-reflexivo, como instrumento do
trabalho educar, poderá possibilitar um resgate da cidadania, envolvendo uma
sinergia com os quatro pilares da educação, ou seja: aprender a conhecer;
aprender a fazer; aprender a conviver e aprender a ser(20).
Com base neste referencial, entendemos que aprender a conhecer
envolve desenvolver competências para a compreensão (exercitar o
pensamento, a atenção e a memória) o aprender a aprender; aprender a
fazer compreende o despertar e estimular a criatividade para que se
descubra o valor construtivo do trabalho e não para preparar alguém
para executar determinada tarefa; aprender a conviver corresponde às
estratégias para um trabalho coletivo, com projetos solidários e
cooperativos, modificando esta aparência da escola como um disfarçado
campo de competição; e aprender a ser, que além de envolver os demais
pilares, fundamenta-se na visão holística do homem, constitui-se em
despertar o poder de decisão, envolvendo para isto inteligência e
sensibilidade, espirito e corpo, estilo estético e responsabilidade
pessoal, ética e espiritualidade(21:18).
Para atingirmos esta finalidade, sem dúvida, se faz necessário uma
revitalização da relação pedagógica como espaço de autonomia e liberdade para
que junto educador e educando possam transformar-se, transformando as relações
com o saber, com a aprendizagem e com a realidade em que se inserem. Precisamos
entender que o processo de trabalho educar constitui-se, portanto, num trabalho
vivo em ato, que se concretiza no momento da relação pedagógica e é o lócus
privilegiado para a construção de sujeitos crítico-criativos, comprometidos com
a construção de uma sociedade justa, igualitária e livre, que garanta o alcance
da felicidade que o humano em sua humanidade requer.