Nas trilhas da etnografia: reflexões em relação ao saber em enfermagem
REFLEXÃO
1 Introdução
A preocupação da Enfermagem com a produção do conhecimento não é recente. No
Brasil, desde o seu surgimento como disciplina, as enfermeiras têm realizado
investigações, buscando diagnosticar problemas e maneiras de cuidar de
pacientes, famílias e comunidades. A partir da década de 70, com a expansão dos
cursos de pós-graduação stricto sensu, houve não só aumento considerável do
número de estudos, como um aprofundamento das discussões em torno do
conhecimento de Enfermagem.
As publicações internacionais e nacionais têm documentado os debates sobre
temas polêmicos como: a relevância das teorias de Enfermagem para a disciplina;
o ensino e a prática profissional; o objeto de estudo e da prática da
Enfermagem; os diferentes tipos de conhecimento presentes no fazer
profissional; a Enfermagem ciência e/ou arte, entre outros.
Neste sentido, de forma provisória, como todo conhecimento precisa ser
considerado, formou-se um certo consenso em torno de quatro conceitos básicos
(construtos) que, de certo modo, definem e ao mesmo tempo delimitam o campo do
saber-fazer: enfermagem, ser humano (indivíduo/família, grupo, comunidade),
ambiente/sociedade e saúde-doença. Tais conceitos e suas inter-relações
consubstanciam o paradigma da Enfermagem(1). Suas conceituações, inter-relações
e pressupostos, variam ao longo da história e das linhas teóricas, porém, são
eles que têm dado especificidade ao conhecimento de Enfermagem.
Essas discussões em torno da construção de um conhecimento caracterizado como
sendo próprio da disciplina ou inerente a ela, tiveram reflexos substanciais na
pesquisa. Aqui, como no exterior, estudos e eventos científicos comprovam a
constante preocupação das enfermeiras com os modos de pensar-fazer-refletir a
pesquisa em Enfermagem. Um exemplo disto são os Seminários Nacionais de
Pesquisa em Enfermagem (SENPE) promovidos pela Associação Brasileira de
Enfermagem. O referencial teórico e seu papel no processo de pesquisa, as
linhas e grupos de pesquisa, os métodos e técnicas de coleta de dados, as
questões relacionadas à ética e ao rigor na pesquisa, são alguns dos temas
exaustivamente debatidos e que contribuíram para o aperfeiçoamento do processo
investigativo em Enfermagem.
Desta forma, podemos constatar que o aperfeiçoamento dos projetos de pesquisa
e, conseqüentemente, do processo de pesquisar e do seu produto final, não tem
sido resultante apenas de requerimentos externos, provenientes dos órgãos
financiadores, mas principalmente do esforço coletivo da comunidade de
Enfermagem na busca de um saber-fazer próprio que oriente e redimensione
constantemente a sua prática. Isto, sem deixar de manter vigília às dimensões
técnicas, éticas e humanísticas que se acham profundamente imbricadas na ação
da Enfermagem, em todos os campos de atuação profissional.
Neste momento, entretanto, é necessário que nos detenhamos em torno da
etnografia, cuja origem remonta à antropologia, e que tem sido empregada em
investigações de enfermagem.
Ao longo deste texto, tentaremos, numa primeira incursão reflexiva, identificar
e comentar semelhanças e diferenças a respeito do conceito "etnografia",
conforme alguns autores antropólogos, bem como as formulações desenvolvidas por
enfermeiras que optaram por fazer uso da etnografia em seus estudos, para, em
seguida, retomarmos alguns aspectos apresentados nesta introdução.
2 Buscando caminhos na antropologia
O encontro entre a Antropologia e a Enfermagem não ocorreu ao acaso.
Enfermeiras americanas, ao realizarem seus cursos de doutorado em Antropologia,
optaram por adotar uma abordagem cultural aos seus problemas de pesquisa,
provenientes de suas práticas profissionais. Esta aproximação resultou, por um
lado, em estudos antropológicos (etnografias) sobre problemas relacionados ao
ser humano e seu processo saúde-doença, tendo entretanto um impacto direto na
disciplina e profissão de Enfermagem. Madeleine Leininger, a precursora desta
associação, desenvolve uma teoria sobre o cuidado, escreve artigos e livros
sobre pesquisa qualitativa em Enfermagem que tem servido de referência a mais
de uma geração de enfermeiros, no qual consta a etnografia(2-5), funda
juntamente com outras enfermeiras, antropólogas e não antropólogas, a
"Transcultural Nursing Society", e cria o periódico "Journal of Transcultural
Nursing", que vem se mantendo ativo há aproximadamente vinte anos.
Metodologias e técnicas da Antropologia são analisadas e adaptadas à
Enfermagem, como história de vida, observação participante, uso de documentos,
fotografias(6-9). Assim, aos poucos, instrumentais teóricos e metodológicos
originários ou bastante freqüentes na Antropologia começam a ser introduzidos
nos estudos de enfermeiras em diferentes países, inclusive no Brasil. Podemos
destacar como ponto de referência em nosso país para pesquisas de natureza
qualitativa, nela incluindo-se a etnografia, o Seminário Internacional de
Pesquisa Qualitativa promovido em parceria pela USP e UFSC, em 1989. Alguns
aspectos dessa discussão, por exemplo, encontram-se publicados por Leininger,
sob o título "Ethnomethods: the philosophic and epistemic bases to explicate
transcultural nursing knowledge"(10).
3 A etnografia segundo os antropólogos
Genericamente, o termo "ethnos" provém do grego e denota um povo, uma raça ou
grupo cultural. Quando combinado com "graphic", o significado faz referência à
disciplina conhecida como Antropologia descritiva o que equivale a dizer que
é a ciência devotada a descrever as formas de viver das pessoas(11).
O uso original da palavra "etnografia" provém do campo da Antropologia, quando
os estudiosos começaram a pesquisar os estilos de vida das pessoas, em
diferentes lugares do mundo.
Os pioneiros no uso da etnografia foram W. Rivers, Franz Boas, Bronislau
Malinowski e Margarete Mead. Mas, foi com Malinowski o pai da moderna
Antropologia inglesa que o trabalho de campo surgiu como referência para a
construção etnográfica e para o fazer do antropólogo, principalmente no estudo
clássico denominado "Argonauts of the Pacific Islands"(12,2).Na história da
Antropologia, diz-se que Malinowski inventou a pesquisa de campo e trouxe
legitimação ao próprio empreendimento investigativo(13).
Muitos autores contemporâneos, mesmo considerando que os estudos desse
antropólogo refletem concepções funcionalistas, enfatizam a enorme importância
de seu trabalho, tanto pelas bases metodológicas dele oriundas, quanto pela
riqueza das experiências transmitidas. Malinowski, ao desenvolver suas
investigações, fundamentou-se na necessidade da bagagem científica do
estudioso; enfatizou os valores da observação participante, bem como das
técnicas de coleta, ordenação e apresentação daquilo que denominou "evidências"
do trabalho de campo(14). O antropólogo enfatizou a importância do pesquisador
distinguir os resultados da observação direta em relação aos depoimentos dos
nativos e suas interpretações dos fatos, e as interpretações e inferências do
pesquisador. Estas premissas continuam válidas até os dias atuais e se
revigoram no cotidiano dos trabalhos de campo de pesquisadores de diversas
áreas de saberes e arenas de investigações.
De acordo com a antropóloga Jean Langdonª, a etnografia é a descrição de um
grupo étnico, vale dizer, a construção textual final (embora sempre provisória)
do fenômeno sócio-cultural estudado ou observado (o produto).
A etnografia não é algo que se faz espontaneamente, mas carrega consigo alguns
critérios para sua realização, como disciplina, criatividade e algum talento
para o desenvolvimento do ofício da etnografia. Realça-se que a etnografia não
é só para conhecer o curioso, o exótico, mas também e principalmente para
universalizá-lo(13). São estas duas direções - a especificidade do caso
concreto e o caráter universalista de sua manifestação - que levam a
Antropologia a um processo de refinamento de problemas e conceitos(13:19).
Alguns estudiosos admitem ainda que as etnografias são construídas dentre
inúmeras possibilidades, que deixam transparecer o percurso intelectual do
pesquisador e que permitem situá-lo em determinado contexto disciplinar e, mais
importante, fazer justiça ao autor porque, dando a ele a palavra, admitem
eventualmente nele redescobrir uma riqueza inesperada(13).
Na compreensão de autores contemporâneos, o fazer antropológico inicia seu
percurso a partir de uma determinada maneira de olhar a realidade, extraindo
dela as interrogações. Esse olhar, referido como olhar disciplinado é aprendido
durante a formação do profissional, e funciona como uma espécie de prisma, por
meio do qual a realidade sofre um processo de refração, sendo que esta, advém
da disciplina, compreendida como o conhecimento da área. Este olhar
disciplinado é o que direciona, inclusive, a problematização e a definição do
objeto de estudo(15).
Quando no campo (fieldwork) o antropólogo, ainda que exercite a interpretação
sobre a interpretação que os informantes fazem, ele continua o processo de
olhar disciplinado, considerando-o como um ato cognitivo. Esse olhar (também
denominado de etnográfico), sensibilizado pela teoria adotada ou disponível, é
que vai animar o pesquisador para compreender pessoas, relações, organizações,
ambiente, estruturas, poderes, dentre outros(15).
Mas o olhar não é suficiente; há necessidade de outro ato cognitivo tão
importante quanto o primeiro, e que mantém relação quase que de
interdependência com ele - que é o ouvir. São portanto, duas bases de
sustentação ao trabalho de campo, que permitem ao antropólogo, caminhar na
estrada do conhecimento(15:21).
O ouvir, tal qual o olhar, não é um escutar qualquer, mas permanece eivado de
significação, principalmente para permitir compreender o outro. Para ouvir é
preciso haver um diálogo, ou seja, uma relação dialógica que cria um espaço
semântico partilhado por ambos interlocutores (o genuíno encontro etnográfico).
Ao trocarem idéias e informações, o antropólogo e o informante abrem-se a um
diálogo diferente metodologicamente falando, onde "o ouvir ganha em qualidade e
altera uma relação, qual estrada de mão única, e uma outra de mão dupla,
portanto, uma verdadeira interação"(15:24).
Os atos cognitivos de olhar e ouvir são parte do estar lá (being there); ou
seja, o antropólogo presente no cenário onde ocorre o fenômeno sócio-cultural,
e integram a observação participante necessária à compreensão do fenômeno sob
estudo.
Finalmente, o ato de escrever, que ocorre após o trabalho de campo, acontece na
situação de being here,isto é, fora do campo propriamente dito, quando o
antropólogo retorna à universidade ou à academia e então inscreve a realidade
observada. É o inscrever que cumpre a mais alta função cognitiva, porque aí
ocorre a textualização dos fenômenos sócio-culturais observados no estar-lá
(being there), ou seja, a etnografia(15).
Mais do que traduzir a cultura nativa para a disciplina, o ato de escrever
realiza uma interpretação, balizada pelas categorias ou pelos conceitos básicos
constitutivos da disciplina.
4 O olhar das(os) enfermeiras(os) à etnografia
4.1 A problematização
Podemos identificar através de seus escritos que as enfermeiras que decidem
realizar uma pesquisa etnográfica inclinam-se por temas e problemas próximos,
advindos de sua prática profissional, de ensino ou de assistência. Todas fazem
referência, na introdução ou na problematização, a busca de respostas para o
problema através de estudos anteriores, cujos resultados foram insuficientes
para esclarecer a questão, podendo-se daí concluir que a etnografia surge como
um_novo_caminho_a_ser_percorrido, resultante de uma trajetória de buscas com
resultados incompletos. Várias autoras fazem referência a esta história e a
necessidade de se buscar novas perspectivas, novos olhares para um velho e
persistente problema(16-19).
Mas existem outras similaridades entre as enfermeiras etnógrafas ao
apresentarem a problemática. Uma delas é a inquietude provocada pela permanente
necessidade de conhecer o outro, a sua visão de mundo, suas crenças, seus
valores, seus saberes e práticas, enfim, seu modo de viver. Este outro não é um
ser distante, desconhecido, pelo qual se tem curiosidade. É a equipe de
enfermagem, de saúde, o cliente, grupos, famílias, trabalhadores, profissionais
e clientes, um coletivo que tem uma história, inserido em um contexto sócio-
cultural, com crenças, valores e significados compartilhados e que, em muitos
aspectos, diferem daqueles incorporados tradicionalmente em seu saber
profissional.
Quando o interesse se volta para o encontro entre profissionais e clientes, a
inquietude se concentra em como se dão as interações entre os dois grupos, uma
vez que pertencem a dois mundos simbólicos diferentes. Além disso, há a
preocupação com o outro e com o seu modo de ser e viver, seu estilo de vida,
seus modos de relacionar-se e em situações que enfrenta em seu cotidiano. Daí
advindo a necessidade do problema ser estudado no próprio ambiente/contexto em
que ocorre.
Outro aspecto que ainda chama atenção do leitor no que se refere à explicitação
da problemática é o posicionamento questionador das pesquisadoras quanto aos
modelos presentes nas instituições de saúde. Elas se mostram cépticas quanto às
possibilidades do modelo biomédico ser capaz de responder satisfatoriamente a
questões de interações, de diversidades de visões de mundo, de saúde e doença,
das experiências de conviver com a dor, a morte e a exclusão de diferentes
naturezas.
A formulação de perguntas de pesquisa de algumas pesquisadoras podem nos ajudar
a entender suas inquietações:
Qual o significado da regulação da fecundidade para os adolescentes residentes
no bairro X, a partir de seus valores, crenças e práticas no que se refere a
ter ou não filhos?(20)
- qual a percepção dos adolescentes em relação às normas e práticas dos
serviços estatais de saúde relativos ao Planejamento Familiar, no que se refere
ao controle da fecundidade?(20)
- quais as relações que se estabelecem entre as trabalhadoras de enfermagem e
as famílias que vivenciam o período pós-parto em Unidade de Alojamento
Conjunto?(19)
- quais as perspectivas ou referências que as trabalhadoras adotam, ao
interagirem com as famílias que vivenciam o pós-parto, durante a
hospitalização?(19)
- como se dá a interface entre a equipe de enfermagem e a família em uma
unidade de internação clínica de um hospital pediátrico?(21)
Pode-se constatar que muitas vezes as enfermeiras têm buscado compreender o
outro em um contexto próximo, como num hospital/unidade de saúde do município,
num distrito, numa área rural, que permite um deslocamento mais fácil. Pode-se
pensar que a proximidade do campo seja decorrente da impossibilidade de se
afastar de suas famílias, do trabalho, ou mesmo, a falta de financiamento para
seus projetos(13). Mas é preciso também suspeitar que o desejo de quem pesquisa
seja exatamente o de estudar contextos conhecidos e interagir com pessoas que
possam auxiliar na busca de respostas às suas inquietações.
A opção por esta proximidade certamente implica em cuidados especiais a serem
tomados pelas pesquisadoras no que se refere ao estranhamento. Algumas autoras,
por exemplo, fazem referências sobre suas dificuldades em realizar o estudo em
comunidades com as quais compartilham muitos símbolos, significados e práticas
de saúde(17). Outras, em complementação, descrevem algumas medidas que
permitiram minimizar a familiaridade com o campo e os sujeitos de seus estudos
(19,21).
É importante ressaltar que as enfermeiras, ao optarem por pesquisa etnográfica,
têm objetivos a curto e a médio prazo, isto é, com o estudo propriamente dito,
desejam compreender o universo simbólico do outro, suas perspectivas em relação
à vida, saúde, doença. Mas, terminada a etnografia, esperam modificar suas
próprias práticas profissionais e, de certa forma, promover uma transformação
no sentido de garantir um cuidado culturalmente congruente.
4.2 O quadro teórico das etnografias das enfermeiras
As enfermeiras, de maneira geral, sentem a necessidade de tecer um referencial
teórico em que suas áreas de interesse clínico (fecundidade, obstetrícia,
gravidez, crescimento e desenvolvimento, epidemiologia, doenças crônicas etc.)
se interconectem com os conhecimentos advindos de outros campos, como a
educação e a psicologia, com aqueles que darão o pano de fundo para o trabalho
etnográfico, ou seja, a antropologia.
Percebe-se que a Enfermagem, iniciante neste aspecto, tem algumas vezes
encontrado dificuldades nesta tecitura teórica, levando algumas autoras a
fragmentar seu referencial em dois ou três conjuntos separados de literatura.
Por outro lado, aquelas que utilizam conceitos/construtos de teorias
antropológicas e sociológicas como a enfermeira que estudou o suicídio em uma
comunidade rural(22), ou a que investigou o significado da fecundidade para
adolescentes de uma comunidade urbana, a partir da teoria transcultural de
Leininger(20), transitam mais facilmente neste importante, porém ainda
problemático componente do processo de pesquisa.
De qualquer modo, se confrontamos os conceitos que integram o paradigma da
enfermagem(1) amplamente aceito por nossos pares com as etnografias
consultadas, podemos constatar que os mesmos estão presentes no quadro teórico,
sendo que a dimensão cultural está sempre permeando estes conceitos.
Embora em alguns estudos o quadro teórico das etnografias das enfermeiras,
ainda se apresente de forma estanque, concentrado em um capítulo isolado, em
outros, já se percebe as articulações entre o problema, a teoria e a pesquisa
propriamente dita.
4.3 A opção das enfermeiras pela etnografia como caminho metodológico
É no capítulo da metodologia que as enfermeiras se detém a descrever suas
concepções sobre etnografia e os motivos de suas opções pela mesma. Uma das
estudiosas, por exemplo, assim se refere em seu percurso metodológico: "tendo
ao longo de minha trajetória profissional interesse pela maneira com que o
cliente entende o cuidado, o estudo etnográfico tornou-se a opção pela qual não
poderia afastar-me para ..."(21:52).
Já, outra, afirma em seu referencial metodológico:
para este estudo escolheu-se como metodologia a etnoenfermagem [...]
com o fim de explorar a perspectiva única dos/das adolescentes quanto
a seus valores, crenças e práticas, sobre a regulação da fecundidade
(20:53).
Da mesma forma, outra autora ainda, em seucaminho metodológico, assume o estudo
com uma abordagem qualitativa pelo fato da mesma viabilizar a incorporação da
rede de símbolos e da intencionalidade, como inerente aos atos, às relações e
às estruturas sociais(19).
Mais adiante, na fundamentação do trabalho de campo, declara que por ter seu
estudo bases teóricas, fundadas no campo antropológico, além de ter o propósito
de compreender o universo cultural que permeia as relações entre as
trabalhadoras de enfermagem e as famílias em um campo de saber-fazer
específico, o "método etnográfico" foi utilizado como um amplo caminho de
descoberta para compreender o fenômeno sob investigação(19).
Percebemos destes três recortes, que as investigações das enfermeiras vinculam-
se ao conhecimento antropológico e/ou à teoria transcultural de Leininger que
se fundamenta em pressupostos da antropologia cultural. Além disso, as
aproximações das enfermeiras com a etnografia levam-nas a realizar cursos em
disciplinas sobre cultura, e a aprofundar seus conhecimentos antropológicos,
através de leituras de textos publicados nessa área(21).
Fica ainda constatada a articulação entre o problema, a questão de pesquisa,
seus objetivos e propósitos, o referencial teórico e a opção metodológica das
autoras.
Leininger, a precursora dos estudos antropológicos em enfermagem, situa a
etnografia com um dos etnométodos mais antigos das ciências sociais e argumenta
que a mesma continua a ser usada como o método nuclear, seja na antropologia e
ainda por muitas outras disciplinas. Esta teórica tem definido etnografia como
sendo um relato denso e sistemático de
como as pessoas de diferentes culturas ou subculturas vivem em seus
ambientes familiares, naturais e não naturais, com referência às suas
crenças, valores e estilos de vida(10:46).
Já, para uma estudiosa brasileira(21), a etnografia se constitui na metodologia
de estudo, que tem por objetivo conhecer o ponto de vista do outro, sendo a
cultura um conceito chave deste processo. Outra enfermeira, assumindo
significado similar, afirma que o
lançar-se no percurso etnográfico significa não ter pretensões de
captar explicações derradeiras, ou verdades absolutas; o desenho é
aberto à invenção, à obtenção de dados, ao descobrimento, à análise e
à interpretação (19:70).
4.4 O trabalho de campo: o pesquisar das enfermeiras
As enfermeiras referem-se ao campo como o espaço geográfico, simbólico e de
relações aonde se desenvolve uma parte significativa do seu fazer-pesquisar.
Este campo pode ser uma unidade de internação, uma clínica, um posto de saúde,
uma empresa, uma comunidade. Para que possa nele entrar, a enfermeira negocia
com clientes, direção, apresenta seu projeto, solicita permissão para seu
trabalho, compromete-se a garantir os direitos dos sujeitos envolvidos e a
apresentar o texto final aos interessados.
É no campo que as enfermeiras desenvolvem a observação participante, que
compreende o olhar e o ouvir do antropólogo. No entanto, no interstício mesmo
da pesquisa, enfrentam situações em que são chamadas a intervir. Portanto, o
campo de estudo, inevitavelmente, é o mesmo campo do cuidado, da ação
profissional, e não apenas e tão somente o ato cognitivo, como referem os
antropólogos. Deste modo, as enfermeiras enfrentam dilemas de diversas ordens,
e que são próprios de sua disciplina.
As enfermeiras, durante o trabalho de campo, revelam em seus textos, a
dificuldade que têm em assumir algumas atitudes que para o antropólogo seriam
esperadas, como por exemplo, o desempenho do papel de aprendiz, quando, na lida
cotidiana do cuidado, são elas que tomam a frente, lideram, localizam-se em
posições hierárquicas mais tendentes à verticalização, de acordo com o modelo
hegemônico de assistência à saúde.
No que se refere ao processo de registro, as enfermeiras são unânimes em
argumentar que os atos de olhar e de ouvir se dão em concomitância com o
processo inicial de análise etnográfica.
4.5 O texto - a construção do conhecimento
Nas primeiras etnografias havia uma preocupação em descrever de forma detalhada
os achados da pesquisa, porque se entendia que, deste modo, se estaria
garantindo as vozes dos sujeitos da pesquisa. Na atualidade observa-se que, com
a maior articulação e domínio da relação entre teoria e pesquisa, as
etnografias das enfermeiras, além de descrever em pormenores os achados
(considerando-os aqui, do ponto de vista emic)b, articulam o processo
descritivo com a interpretação desses achados à luz das teorias antropológicas
e de enfermagem, o que vem a se constituir num novo conhecimento para guiar a
prática.
5 Síntese reflexiva
Um olhar apressado às etnografias das enfermeiras pode nos levar a concluir que
as mesmas são semelhantes, ou seja, que procuram reproduzir o fazer do
antropólogo. Entretanto, aguçando um pouco mais o olhar, percebemos que algo
mais particular acontece aí e que este algo deixa entrever uma interface entre
a antropologia e a enfermagem, possibilitando uma forma própria de se fazer
etnografia, que aqui chamamos de etnoenfermagem, inspiradas nos estudos de
Madeleine Leininger. Além disso, a etnografia em enfermagem se focaliza nos
entornos do cuidado humano. Este modo de fazer particularizado não se dá apenas
no trabalho de campo, mas principia ainda nos primeiros delineamentos do
problema.
Em suma, a etnoenfermagem mostra-se como um processo que emerge da prática e a
ela retorna, com indicações, propósitos, pressupostos, fundamentação no
conhecimento antropológico e em enfermagem transcultural, um fazer-pesquisar
próprio, um campo específico e um texto próprio da disciplina de enfermagem que
procura dar respostas à prática e às exigências das construções dos saberes
profissionais.