Reflexão sobre a importância da temática saúde da família no ensino da
graduação em enfermagem
PESQUISA
Reflexão sobre a importância da temática saúde da família no ensino da
graduação em enfermagem*
Reflections on the importance of the theme family health in the nursing
undergraduation course
Reflexión sobre la importancia de la temática salud de la familia en la
enseñanza de enfermería
Clarissa Irineu de Sousa CarrijoI; Daniela Oliveira PontesII; Maria Alves
BarbosaIII
IEnfermeira do Programa Saúde da Família do município de Bela Vista de Goiás-Go
IIEnfermeira do Programa Saúde da Família do município de Piracanjuba-Go
IIIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente da Faculdade de Enfermagem da
Universidade Federal de Goiás
1 Introdução
Os cuidados domiciliares constituíam-se como a principal prática das ações de
saúde, sendo que na Europa, na virada do século XVIII, a enfermagem domiciliar
era majoritária e autônoma na área de saúde(1). No Brasil, no início do século
XX as visitas domiciliares foram largamente utilizadas para o combate às
endemias que assolavam os grandes centros do país(2).
Deste modo, o domicílio configurava-se como o local de prática da enfermagem e
das ações de saúde. Entretanto, com a expansão dos hospitais, ainda no século
XIX, este exercício liberal foi se reduzindo e a enfermagem foi se enquadrando
em uma hierarquia de saberes, poderes e funções na área hospitalar, sendo que
no Brasil em meados do século XX houve grande transferência do trabalho da
enfermagem domiciliar para a área hospitalar(1), respaldada pelo modelo de
ensino biomédico e hospitalocêntrico, atendendo à política assistencial então
vigente no país.
Entretanto, tornou-se evidente que o atendimento primário, base de entrada para
o sistema público de saúde, necessitava de uma nova abordagem, uma vez que a
estrutura clássica de unidades básicas de saúde vinha apresentando, em diversos
locais do país, uma baixa resolutividade(3).
Para construir uma nova maneira de prestar assistência, mais próxima da
necessidade da comunidade, criou-se o Programa Saúde da Família (PSF), baseado
em Equipes de Saúde da Família - ESF, que são constituídas de no mínimo, por
médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde.
Desde meados dos anos 80, a temática Saúde da Família tem sido foco de atenção
seja na assistência, ensino ou na pesquisa. Percebe-se que nestas duas décadas,
o assunto Saúde da Família tem sido discutido tanto na graduação, como na pós-
graduação de enfermagem, sendo neste último nível de modo mais expressivo(4).
Essa estratégia vem não só melhorando o acesso da população ao sistema, como
tem proporcionado considerável melhoria na qualidade do atendimento oferecido,
traduzido por um atendimento mais resolutivo e integrado das equipes de saúde
com a comunidade a que assiste, o que traz um admirável grau de satisfação da
população e das próprias equipes de saúde(5).
Para a implementação deste novo modelo é imprescindível a qualificação de
profissionais. Torna-se então necessário instrumentalizá-los, reparando as
deficiências de conhecimentos, habilidades e fortalecendo práticas referentes à
atenção primária de saúde.
O PSF tem sua atenção centrada na família e isso exige da equipe de saúde uma
compreensão ampliada do processo saúde - doença e da necessidade de
intervenções que vão além das práticas curativas.
Influenciada pelo paradigma cartesiano, a formação dos profissionais da saúde
foi construída de forma fragmentada, ocasionando incompatibilidade com o
cuidado à família e ao trabalho em equipe(6). Portanto, vale questionar, por
exemplo: como os profissionais estão enfrentando esta nova realidade de atenção
à saúde?
Uma das importantes interseções entre saúde e educação diz respeito à adequação
dos "produtos" acadêmicos - graduandos, conhecimento produzido e serviços
prestados - às necessidades sociais, situação que ainda está longe da ideal. Os
órgãos de formação superior seguem, na maioria das vezes, sua lógica própria,
reafirmando sempre a tradição de autonomia. Se, por um lado, essa autonomia foi
positiva, livrando as universidades de imposições conjunturais, por outro
propiciou o afastamento de seu constituinte principal, que é a sociedade, na
qual prevalecem vários problemas de resolução complexa. Uma das traduções dessa
autonomia indesejada é fortemente expressa nos perfis da formação dos médicos,
cuja tendência, ao longo das últimas décadas, foi de extensão e de segmentação
(7).
Procurando investir na qualificação profissional, o Ministério da Saúde começou
a apoiar financeiramente cursos de especialização e residência em Saúde da
Família em nível de pós - graduação na tentativa de atingir os profissionais
inseridos no PSF. Ao mesmo tempo em que se investe nos profissionais, é preciso
induzir mudanças ainda na graduação, para que os futuros profissionais recebam
formação adequada ao novo perfil de trabalho(8).
Em 2002, foi lançado o Programa de Incentivo a Mudanças Curriculares nos Cursos
de Medicina (Promed). Com esse programa, o Ministério da Saúde estará apoiando,
financeiramente, iniciativa de escolas médicas que estejam reorientando a
formação de seus alunos, com ênfase nas mudanças no modelo de atenção à saúde,
em especial naqueles voltados para o fortalecimento da atenção básica.
Logicamente outras áreas de formação em saúde, a exemplo dos cursos de
enfermagem, deverão ser contempladas, uma vez que diante desta mudança de
assistência à saúde, torna-se inquestionável a necessidade de adaptação nos
currículos frente ao surgimento de um novo paradigma.
2 Objetivo
- Analisar as contribuições do processo de formação em saúde da família para a
prática do enfermeiro no PSF.
2.1 Objetivos Específicos
- Verificar se os enfermeiros sentem-se capacitados para trabalhar no Programa
de Saúde da Família, tendo em vista o currículo vigente no curso de graduação;
- Discutir as dificuldades enfrentadas pelos enfermeiros frente à vivência do
Programa de Saúde da Família.
3 Metodologia
Pesquisa qualitativa do tipo descritivo exploratória, considerada adequada para
esta investigação, os locais de coleta de dados foram as Unidades Básicas de
Saúde integrantes da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia- Goiás.
Participaram da pesquisa 15 enfermeiros inseridos no Programa Saúde da Família
a partir de 1997, ano em que o Programa foi implantado em Goiânia.
A coleta de dados foi iniciada com levantamento na Secretaria Municipal de
Saúde para localizar os enfermeiros inseridos no PSF a partir de 1997 que,
posteriormente, foram entrevistados individualmente, através de entrevista
semi-estruturada, gravada em fita cassete, com permissão dos participantes. A
entrevista constituiu-se da seguinte pergunta norteadora: "Como você se sentiu
ao sair da faculdade e imediatamente se inserir no PSF?"
Segundo normas da Resolução 196 de 1996, do Conselho Nacional de saúde foram
cumpridas todas as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo
seres humanos. Sendo assim, o presente artigo passou pelo Comitê de Ética em
Pesquisa Médica, Humana e Animal do Hospital das Clínicas da Universidade
Federal de Goiás UFG de Goiânia/GO. O termo de Consentimento Livre e
Esclarecido dos participantes foi obtido mediante entrega e informações
adicionais sobre o mesmo aos que se dispunham a participar do trabalho.
Os resultados encontrados deram origem a duas categorias: qualificação do
profissional enfermeiro para a atenção primária e dificuldades e satisfação dos
enfermeiros na prática de saúde da família, apresentadas a seguir:
4 Qualificação do profissional enfermeiro para a atenção primária
Os princípios que regem a formação do enfermeiro devem passar por questões
contextuais, eliminando-se a dicotomia entre pensar e fazer(9). O mercado de
trabalho tem exigido uma mudança na formação e no exercício profissional, o que
vem demandando, por parte das escolas, mudanças em seus currículos e em suas
práticas pedagógicas. Esta constatação pode ser evidenciada na fala dos
enfermeiros: A formação acadêmica em si, foi pobre, não por negligência da
faculdade, mas porque PSF é uma coisa nova.(Enfermeiro 2).
Não tive informação nenhuma na faculdade, nem mesmo sobre o que era o PSF. Saí
da faculdade, recebi informação de colegas sobre o Programa.(Enfermeiro 7)
O desafio é construir a prática de enfermagem dentro do PSF e capacitar os
enfermeiros para atuarem segundo essa prática. A tarefa educativa deve buscar
ensinar os enfermeiros a aprender a aprender. Ou seja, construir profissionais
que sejam capazes não só de executar técnicas de trabalho, mas que sejam
críticos de sua prática e interpretem e construam as mudanças que forem
necessárias segundo a realidade em que vivem.
No presente estudo alguns enfermeiros tiveram durante a graduação disciplinas
como saúde coletiva, vigilância epidemiológica, entre outras, cujo enfoque era
essencialmente teórico, não oferecendo subsídios para a prática da saúde
pública, o que dificultou o ingresso destes profissionais na estratégia de
Saúde da Família.
Parece haver um consenso no mundo hodierno sobre a impossibilidade de
convivência entre o modelo médico anteriormente citado já que esse influencia a
formação dos profissionais de saúde como um todo e o acesso universal e
eqüitativo da população ao serviço de saúde. Nem sempre maiores gastos revertem
melhores condições de saúde, o que leva a revisão deste paradigma
organizacional da prática médica, mudando o discurso e tendo como caminho a
conscientização de que é melhor promover a saúde e prevenir a doença do que
remediar posteriormente, levando a gerar a exclusão de um bem essencial como é
a saúde(10).
A formação desses profissionais em sua maior parte aconteceu sob as bases do
modelo tradicional de assistência, orientado para a cura de doenças e centrado
no hospital. Os relatos que se seguem evidenciam estas questões:
Quando fazia faculdade, tinha uma visão meio errada do que era
trabalhar com a comunidade até mesmo trabalhar com a saúde pública;
porque a gente vê aquelas disciplinas de saúde pública é muita
teoria.(Enfermeiro 12)
Nos últimos anos, o Brasil vem implementando uma política de inclusão social
que tem expressões concretas nas áreas sociais do Governo, especialmente nas de
saúde e educação. Na saúde, há um consistente esforço para reorganizar e
incentivar a atenção básica. No âmbito educacional, programas de fortalecimento
da educação básica apontam na mesma direção(7).
Esta nova política de inclusão social é extremamente importante para adequar os
profissionais que trabalham no PSF com o propósito do programa de oferecer um
cuidar holístico à comunidade. Alguns enfermeiros relatam suas experiências da
graduação frente a uma formação acadêmica descontextualizada com o novo enfoque
da assistência à saúde:
Se eu tivesse que usar o conhecimento adquirido dentro da faculdade,
não teria muito a oferecer. A própria formação da Universidade é
muito na área curativa, e no PSF não é por aí que a gente caminha, é
na prevenção, é na promoção, é na fala, é na mobilização social, na
formação de grupo, é na mudança de conscientização das pessoas, e
isso a faculdade não preparo.(Enfermeiro 1)
Diante dos novos paradigmas assistenciais, os profissionais enfermeiros, assim
como os outros profissionais, enfrentam o desafio de rever sua prática, isso
pode gerar, por um lado, inseguranças e frustrações, mas por outro,
expectativas. Baseando-se na complexidade que é considerar a família e seu
contexto como núcleo básico da abordagem e não o indivíduo isoladamente;
assistir de forma integral, resolutiva, contínua e com boa qualidade; intervir
sobre os fatores de risco; humanizar as práticas de saúde, criar vínculos de
compromisso e co-responsabilidade entre os profissionais de saúde e a
comunidade; desenvolver ações intersetoriais por meio de parcerias;
democratizar o conhecimento do processo saúde-doença, da organização do serviço
e da produção social da saúde; lutar para o reconhecimento da saúde como um
direito do cidadão e contribuir com a organização da comunidade para efetivo
exercício do controle social(11). O enfermeiro depara-se com sentimentos que
revelam sua deficiência de conhecimentos, como demonstram os relatos abaixo:
tive que trabalhar do jeito que achava que era PSF, porque não tinha nenhuma
orientação do que devia fazer (Enfermeiro 15).
Considerando-se o ensino das profissões da saúde diante das mudanças do modelo
assistencial, a formação e educação de médicos, enfermeiros e outras categorias
profissionais para as equipes do PSF é um desafio crucial para o êxito da
proposta(12). O relato abaixo evidencia esta realidade:
Nós vamos levar um tempo muito grande pra chegar a essa formação,
ainda que fizesse um curso sobre PSF, os profissionais que dariam
esse curso têm uma visão curativa, uma formação tradicional, então as
cabeças das pessoas que dariam esse curso, não é completamente
voltada para o PSF, e vão formar profissionais com uma miscigenação
de conhecimentos, uma coisa tradicional misturada com a inovação do
PSF.(Enfermeiro 3)
Com o tempo é que esses profissionais vão poder estar formando outros
com visão de PSF. Eu tenho uma perspectiva de mais ou menos 10 anos
pra gente estar caminhando e estar formando profissionais com
concepção de PSF.(Enfermeiro 9)
É preciso voltar às nossas origens para compreendermos as razões pelas quais a
Enfermagem vem assumindo, em linha de frente, o processo de formulação,
implantação e implementação do PSF no Brasil. Se analisarmos a prática de
enfermagem anterior ao século XIX, nos deparamos com uma assistência voltada às
famílias sem recursos para cuidar de seus doentes, portanto, uma Enfermagem
independente da Medicina, pois suas ações não pressupõem ordens médicas ou
planos terapêuticos e sim uma origem e finalidade de cunho comunitário,
religioso(11).
A principal atividade da enfermagem, o cuidado, deve ser pensada como um
fenômeno contextual, valendo afirmar que se difere entre culturas e envolve
dimensões antropológica e histórica.
O cuidado é uma atividade profissional de extrema importância para quem o
recebe, contribui para a cura e mesmo se não houver cura proporciona conforto.
A retomada dessa assistência histórica, em conjunto com outras disciplinas
abordadas durante a graduação faz vislumbrar a possibilidade de construir o
pilar da estratégia de Saúde da Família, como novo modelo de atenção básica e
diante dele, o profissional vem acumulando experiências positivas: Não foi um
impacto que me deixou preocupado, eu já vinha sendo preparado pra essa
medicina, pra essa saúde preventiva. (Enfermeiro 4)
A Enfermagem está retomando a visão sistêmica e integral do indivíduo em seu
contexto familiar e social, desenvolvendo ações de promoção, proteção
específica, diagnóstico precoce, rápida limitação do dano de recuperação da
saúde e de reabilitação. Ela deve trabalhar com as reais necessidades locais,
por meio de uma prática apropriada, humanizada e tecnicamente competente,
sincronizando o saber popular com o saber técnico científico, em um verdadeiro
encontro de gente cuidando de gente(11).
5 Dificuldades e satisfação dos enfermeiros na prática de saúde da família
O processo de formação tem sofrido críticas, entre as quais se destacam:
descontextualização entre realidades regionais e às práticas que realiza;
desconsideração do trabalho como princípio pedagógico; valorização excessiva do
domínio da habilidade técnica em contextos de alta complexidade em detrimento
da visão macro do sistema; reduzida ênfase no trabalho multiprofissional apesar
da prática assim o exigir; currículos pouco flexíveis; dicotomia teoria/
prática, pensar/fazer, cuidar/administrar, apesar da necessidade de que na
prática tudo isto aconteça de forma integrada.
O encontro entre o ensino, o serviço e a comunidade pode tornar-se o vetor de
construção de uma utopia, que é a de fazer chegar saúde a todas as famílias
brasileiras(13).
Nos relatos percebe-se que as instituições, cujo ensino está mais voltado para
o social, facilitam a adaptação de seus egressos no PSF. Vale considerar a
diversidade de projetos pedagógicos existentes nas instituições de ensino do
Brasil encontrando-se enfoques diferenciados, conforme a realidade de cada
curso.
Diante da problemática que envolve a formação do enfermeiro, para atuar no PSF,
a inadequação dos currículos gera o despreparo dos profissionais, sendo
detectadas as dificuldades com relação ao trabalho com a comunidade, trabalho
em equipe, compreensão das diretrizes do programa e trabalhar a prevenção.
Apesar disto, há satisfação dos profissionais em trabalhar no programa. Eu
senti dificuldade até de saber direito o que fazer, até onde fazer, qual o
papel do PSF e do enfermeiro do PSF.(Enfermeiro 13)
O acompanhamento sistemático das necessidades de saúde dos indivíduos não é uma
tarefa fácil. Os profissionais precisam conhecer o modo de viver e de adoecer,
as crenças, os pensamentos e as experiências das famílias que assistem. Além
das informações científicas, eles devem ter noções sobre os conhecimentos
populares e sua cultura(5).
Na tentativa de superar a precária disponibilidade de profissionais dotados de
visão humanística e preparados para prestar cuidados contínuos e resolutivos à
comunidade, os gestores do SUS e das instituições acadêmicas vêm empreendendo
esforços para resolver os urgentes problemas da incorporação de profissionais à
estratégia de Saúde da Família, por intermédio da implantação de Pólos de
Capacitação em Saúde da Família, na maioria das Unidades Federadas(7).
A atuação tradicional da saúde conduz a comunidade a uma compreensão
fragmentada da sua realidade familiar e comunitária, gerando dependentes
sociais. Dessa forma, tem-se enfrentado problemas com o desenvolvimento de um
novo modelo assistencial: A comunidade não entende o que é o PSF, como o PSF
trabalha. O PSF não é uma medicina curativa ela é uma medicina preventiva.
(Enfermeiro 5)
O modo de vida das pessoas e das famílias é diversificado, tornando mais
complexo o trabalho no PSF. Para não adotar condutas centradas apenas no seu
próprio modo de ver a vida, o profissional necessita adquirir uma visão mais
ampliada da realidade.
Acostumada com a complexidade da medicina curativa, a comunidade, não percebe a
importância e a simplicidade da atenção primária(5). Por muitos séculos, os
únicos instrumentos de que os médicos dispunham para exercer sua prática eram
os sentidos, a astúcia, a perspicácia, entre tantos outros dons que a natureza
lhes concedia. A prática se iniciava e se encerrava no médico enquanto ser, e
nestas condições, ele estabelecia diagnóstico e tratamento(14).
Atenção primária não pode ser entendida como assistência de menor custo. Vale
lembrar que os gastos em prevenção muitas vezes podem ser superiores a
procedimentos tecnológicos utilizados para diagnósticos e tratamentos. Tampouco
deve ser confundida com medicina "simplista" conforme é explicitado no
depoimento:
Quanto à questão de prevenção, eles querem mais é remédio, querem o
tratamento na hora, querem um resultado imediato e o PSF não é
resultado imediato é um programa a longo prazo.(Enfermeiro 10)
Outra questão que demanda do profissional adequação no programa refere-se ao
trabalho em equipe, um dos pressupostos mais importantes do PSF, que requer o
estabelecimento de respeito profissional muito grande entre todos os membros.
Quando a equipe é multiprofissional, há que se considerar as interfaces
existentes entre as intervenções técnicas peculiares de cada profissional, bem
como a preservação das respectivas especificidade. A integração da equipe
demanda simultaneamente preservar as diferenças técnicas e flexibilizar as
fronteiras entre as áreas profissionais. A complexa conjugação entre
especificidade, flexibilidade e articulação torna-se ainda mais desafiadora à
medida que, para além das diferenças técnicas entre as distintas áreas
profissionais, expressa desigualdade entre os trabalhos especializados.
É importante que ocorra interação entre os profissionais que formam a equipe
visando o desenvolvimento de um objetivo comum.
Trabalhar em equipe foi um desafio porque cada um tem uma cabeça,
cada um pensa de forma diferente mas, quando a gente senta e tem um
diálogo com a equipe o trabalho fica melhor, flui melhor só
conversando e dialogando para dar certo em uma equipe.(Enfermeiro 14)
O maior desafio dos profissionais que compõem o PSF é a mudança de abordagem,
principalmente de médicos e enfermeiros no trabalho diário das equipes. Não
basta ser generalista, a grande mudança, a que realmente importa, está na forma
de atender, de conversar com as pessoas. A idéia de equipe não tem que ser de
complementação de papéis, mas de integração de responsabilidade(15). Os
depoimentos abaixo retratam a dificuldade do trabalho em equipe e como as
diferenças individuais podem gerar tensão e conflito se não forem evitadas.
Trabalhar em equipe não é fácil, é super difícil, você está lidando
com várias pessoas, cada um tem um temperamento diferente.(Enfermeiro
11)
É difícil trabalhar em equipe e você tem que tentar levar da melhor
maneira possível, mas não é fácil.(Enfermeiro 8)
É necessário construir consensos sobre um plano de ação para que a equipe
partilhe valores éticos comuns, além de um novo enfoque, capaz de preparar
profissionais habilitados para trabalhar em nível individual e coletivo a fim
de formar profissionais conscientes de sua cidadania e de seu direito em suas
próprias relações cotidianas de trabalho. Também é preciso profissionalizar
enfermeiros tecnicamente capacitados, que estejam inseridos em seu contexto,
exercendo e fazendo exercer o controle social sobre as prioridades que a
população elege. Estes profissionais devem estar voltados para o interesse da
comunidade, como elemento indissociável de sua prática.
A experiência brasileira com o modelo de atenção voltado para a Saúde da
Família tem proporcionado mudanças positivas na relação entre os profissionais
e a população, bem como na estruturação dos serviços e no padrão de assistência
oferecida à população pelo sistema público de saúde(8).
Assim, o PSF elege como ponto central o estabelecimento de vínculos e a criação
de laços de compromisso e de co-responsabilidade entre os profissionais de
saúde e a população(7).
A maioria dos profissionais entrevistados relatou sua satisfação de trabalhar
no PSF, colocando em prática o conhecimento adquirido na graduação, demonstrado
no relato que se segue: O PSF é o melhor programa que caracteriza a prevenção e
a promoção da saúde, um programa novo, diferente. É um programa pelo qual eu
sou apaixonada.(Enfermeiro 6)
A multiprofissionalidade e interdisciplinaridade são componentes fundamentais
para a formação dos trabalhadores de saúde e implantação do PSF. Vivenciar
estes componentes no cotidiano durante a formação acadêmica aproxima e mescla o
"saber e fazer", possibilitando a ampliação do conhecimento e a visão do outro
integrante da equipe profissional. Assistência domiciliar é uma ferramenta que
exige uma permanente reflexão, pois toca em questões de cunhos ético,
cognitivo, do contexto social e da infra-estrutura familiar(16).
Os profissionais que receberam durante a graduação um preparo para o trabalho
em equipe, com a comunidade, dentro dos princípios do SUS, demostraram maior
segurança e preparo para trabalhar no PSF, uma vez que as pessoas tiveram a
oportunidade de desenvolver suas aptidões num contexto previamente conhecido.
6 Considerações finais
O Brasil de hoje é, sem dúvida, diferente do país de apenas duas décadas atrás.
Mudanças internas, associadas à globalização, que envolvem todos os países do
mundo, criaram uma nova realidade política e econômica, que se reflete nas
condições de vida e de saúde da população. Paralelamente, observa-se uma maior
consciência quanto aos valores sociais e entende-se que mudanças expressivas só
ocorrerão com um forte engajamento do governo e da sociedade civil na
construção de uma democracia na qual combata, de maneira vigorosa, as intensas
desigualdades sociais que ainda persistem e dificultam uma considerável parcela
dos brasileiros a ter acesso a instrumentos sociais que lhes permitam viver com
dignidade.
A experiência destes primeiros anos de PSF mostrou, entretanto, que existe uma
dificuldade de se arregimentar enfermeiros com o devido preparo para as
abrangentes funções por eles desempenhadas. No presente estudo, os enfermeiros
sentem-se satisfeitos com a proposta do PSF, pois diante dos profissionais que
compõem a equipe mínima, o enfermeiro recebe uma formação generalista. Porém
reconhecem as dificuldades enfrentadas devido à abordagem fragmentada
trabalhada na graduação. Embora pólos de capacitação estejam sendo instalados
em todo o país para treinar os profissionais que atuam no PSF, ressente-se da
falta de material instrucional para auxiliá-los no processo decisório do dia-a-
dia. Uma vez que se trata de mudança de paradigma assistencial, faz-se
necessário também que os próprios professores e instrutores já estejam imbuídos
da nova concepção de assistência requerida para o PSF.
É necessário reforçar o perfil do enfermeiro contemplando a competência técnica
comprometida com a ética da responsabilidade e a ética da solidariedade,
engajando-se nos processos de transformação da realidade e rompendo com a
herança de uma prática subordinada aos interesses institucionais, ou ainda, a
outras práticas profissionais(17).
Considerando-se o processo de formação, verifica-se a necessidade da construção
de um profissional dotado de competências, fornecendo conhecimentos,
habilidades e atitudes que possibilitem a compreensão do trabalho em saúde,
autonomia, a iniciativa, a capacidade de resolver problemas, trabalhar em
equipe multiprofissional, aprender continuamente e pautar-se pelos princípios
éticos.