Avaliação do desempenho da colonografia tomográfica computadorizada
(colonoscopia virtual) no diagnóstico de pólipos colorretais
ARTIGO ORIGINAL ORIGINAL ARTICLE
Avaliação do desempenho da colonografia tomográfica computadorizada
(colonoscopia virtual) no diagnóstico de pólipos colorretais
Evaluation of computed tomographic colonography for detection of colorectal
polyps
Gustavo Kuhn PfeiferI; Oly CorletaII; Pedro GusII
IDepartamento de Ciências Morfológicas da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS)
IIDepartamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFRGS, Porto Alegre, RS
Correspondência
INTRODUÇÃO
O câncer colorretal é a segunda neoplasia maligna mais prevalente nos países
desenvolvidos(26) e o terceiro mais freqüente câncer no mundo em ambos os
gêneros(4). Nos Estados Unidos permanece como a segunda causa de morte por
câncer, precedido apenas pelo câncer de pulmão(2). No Brasil, a estimativa de
novos casos e de óbitos por câncer ainda se encontra em fase de evolução
metodológica, visto que suas bases de cálculo vêm sendo continuamente
melhoradas. O número de casos novos de câncer de cólon e reto estimados pelo
Instituto Nacional de Câncer (INCA) para este país no ano 2008 é de 12.490
casos em homens e de 14.500 em mulheres(14). Na região sudeste, sem considerar
os tumores de pele não-melanoma, é o terceiro câncer mais freqüente. A tese da
seqüência adenoma-carcinoma indica que a maioria dos cânceres colorretais
origina-se de pólipos adenomatosos, lesões benignas que se desenvolvem
lentamente por períodos de vários anos(19). Como conseqüência, se indivíduos
são submetidos a rastreamento, com extirpação dos pólipos pré-malignos, o risco
de carcinoma de intestino grosso pode ser reduzido, se não eliminado totalmente
(27).
Atualmente, a colonoscopia é considerada "padrão-ouro" no diagnóstico de
pólipos colorretais. Porém é teste invasivo, operador-dependente, podendo
resultar em complicações, inclusive o óbito(8). Conseqüentemente, a introdução
de um método seguro, não-invasivo e efetivo para detecção de neoplasias
colorretais torna-se extremamente atraente.
Estudos em vários centros estão explorando o potencial da tomografia
computadorizada helicoidal (TCH) na detecção das neoplasias colorretais(23).
Várias técnicas têm sido descritas, sempre com a utilização de insuflação do
intestino grosso (pneumocólon) e análise das imagens em duas (2D) ou três
dimensões (3D), esta última denominada colonoscopia virtual(25), pois simula
imagens semelhantes àquelas observadas na colonoscopia.
Este estudo teve como objetivo principal a avaliação da colonografia
tomográfica computadorizada (TC colonografia) na detecção de pólipos do
intestino grosso, considerando a colonoscopia, teste "padrão-ouro".
MÉTODOS
Este estudo prospectivo foi realizado de julho de 1999 a julho de 2000, tendo
sido aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto
Alegre, RS. A população estudada constou de 20 pacientes, sendo 14 homens e 6
mulheres (2,3:1), todos com indicação de avaliação endoscópica de todo o
intestino grosso, haja vista seguimento de polipectomia (n = 2), sangramento
digestivo baixo (n = 5), diagnóstico prévio de pólipos colorretais (n = 6), dor
abdominal (n = 1), seguimento de cirurgia de câncer colorretal (n = 5) e
história familiar de câncer colorretal (n = 1). A idade dos pacientes do gênero
masculino variou de 35 anos a 78 anos, com média de 55 anos. No gênero
feminino, a idade variou de 46 anos a 67 anos, com média de 59 anos.
A TC colonografia e a colonoscopia foram realizadas, nesta seqüência, no
Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre. A aferição dos testes foi
independente, sendo vetado ao médico que realizou as colonoscopias o resultado
obtido por ocasião do estudo radiológico, assim como ao único radiologista
responsável pela interpretação da TC colonografia, dados referentes referente à
história e eventuais outros resultados de investigações diagnósticas.
As dimensões dos pólipos foram estratificadas em três grupos para fins de
análise: categoria 1- menores do que 5 mm; categoria 2- iguais ou maiores do
que 5 mm e menores do que 10 mm; categoria 3- com 10 mm ou maiores.
Os pacientes realizaram inicialmente TCH do abdome superior e da pelve, com
insuflação de ar ambiente através do reto, após preparo intestinal com solução
de manitol por via oral. Imagens bidimensionais (2D) e tridimensionais (3D)
foram geradas do mesmo conjunto de dados obtidos de secções finas helicoidais
de tomografia computadorizada abdômino-pélvica. Todos os estudos foram
realizados com equipamento de TCH (Pro-Speed - GE Medical Systems - Milwaukee,
EUA). Após a seleção do volume a ser estudado, foram obtidos aproximadamente 40
cortes, utilizando-se um feixe de raios X colimado em 5 mm, com deslocamento da
mesa de 7 mm por segundo ("pitch" 1,4), abrangendo o intestino grosso, do ceco
ao reto. O escaneamento foi realizado no sentido crânio-caudal durante uma
única inspiração sustentada, na dependência da capacidade de cada paciente.
Posteriormente, foi realizada nova série de 40 cortes com o paciente em
decúbito ventral, com o intuito de otimizar a visualização do retossigmóide e
dos cólons ascendente e descendente. Nesse momento, foi concluída a aquisição
de dados, sendo o paciente liberado, após esvaziamento parcial dos cólons e
retirada do cateter retal.
As imagens foram, então, enviadas para uma estação de trabalho (computador
Advantage Windows - GE Medical Systems - Milwaukee, EUA) para o pós-
processamento, onde foram reformatadas com espessura de 2,5 mm, em 2D e 3D,
sendo analisadas em um monitor de 21 polegadas. Nas imagens em 3D, com a
aplicação do programa Navigator (GE Medical Systems - Milwaukee, EUA), foi
possível realizar a navegação virtual anterógrada e retrógrada no lúmen
intestinal, mediante o deslocamento de um cursor, em que uma das extremidades
apontava para o local que se desejava visualizar. Assim procedendo, foram
inspecionadas ambas as faces das pregas semilunares. Quando da análise das
imagens em 3D, concomitantemente eram apreciadas imagens de secções
transversais, frontais e sagitais. A medida do maior diâmetro de lesões
polipóides encontradas foi feita pela análise da imagem com o software
referido.
Por fim, foram selecionadas imagens demonstrativas, registradas em filme
radiográfico revelado em câmera laser (3M, EUA). A investigação foi realizada
sempre pelo mesmo radiologista.
Após intervalo de tempo não superior a 3 horas, o paciente foi submetido a
colonoscopia, sob sedação com a utilização de videoendoscópios eletrônicos
projetados para o trato gastrointestinal inferior (Fujinon® EC-410 HL e
Olympus® CF tipo VL). Foram realizados registros fotográficos das lesões
encontradas. A localização dos pólipos foi registrada e o tamanho dos mesmos
foi avaliado endoscopicamente por comparação com a extremidade de uma pinça de
biopsia (Olympus® biopsy forceps) fechada (diâmetro externo de 2,3 mm) ou
aberta (diâmetro de abertura de 8 mm). Nos casos de pólipos com diâmetros
superiores ao da pinça de biopsia aberta, a medição foi realizada com régua,
uma vez removidos integralmente. Todos os pólipos observados à endoscopia foram
completamente removidos para que fossem apreciados na sua totalidade por
ocasião do exame anatomopatológico. Imediatamente após a conclusão da
colonoscopia, o pesquisador confrontou seus achados com aqueles da TCH. Quando
um ou mais pólipos identificados na TCH não encontrassem correspondência no
exame endoscópico, este era repetido para que fosse verificada a veracidade ou
falsidade dos achados radiológicos, impedindo, dessa forma, que fossem
erroneamente taxados de falso-positivos. Em condições de receber alta, os
pacientes deixavam o hospital acompanhados por um adulto.
Uma a duas semanas após a realização dos exames, os pacientes foram contatados
por telefone por uma pessoa estranha aos mesmos, que não participou diretamente
dos testes, sendo inquiridos sobre qual dos dois procedimentos prefeririam
repetir no futuro, em caso de necessidade.
Análise estatística
O desempenho do teste em estudo, a TC colonografia, foi avaliado calculando-se
a sensibilidade, a especificidade, o valor preditivo positivo, o valor
preditivo negativo e a precisão, todos em relação à colonoscopia.
Para a análise das propriedades do teste radiológico, os pacientes foram
considerados individualmente. Um resultado foi definido como verdadeiramente
positivo sempre que, pelo menos um pólipo fosse percebido pela TC colonografia
em um paciente com diagnóstico endoscópico de uma ou mais dessas lesões, mesmo
não havendo correspondência dos locais entre os dois testes. Foram definidos
como resultados falso-negativos aqueles em que houvesse qualquer registro de
pólipo pelo exame radiológico em indivíduos sem confirmação endoscópica dessas
lesões.
Análise secundária foi também realizada com base nos pólipos. Na avaliação de
características comparando os pólipos detectados ou não pelo teste radiológico,
foram usados o teste t de Student para amostras independentes para os dados de
natureza numérica e o teste do qui ao quadrado para as variáveis categóricas.
RESULTADOS
Os dois testes foram realizados adequadamente nos 20 pacientes, com intubação
da valva ileocecal em 95% das colonoscopias. Resultado falso-positivo
radiológico foi ratificado através de uma segunda endoscopia até a porção
aboral do íleo.
A colonoscopia convencional detectou o total de 85 pólipos em 19 dos 20
pacientes (95%); todos os observados foram removidos e submetidos a exame
anatomopatológico. A maioria das lesões (88,2%) mediu menos do que 10 mm de
diâmetro. Aproximadamente metade dos pólipos eram adenomas. O grupo "outros"
foi constituído por três casos de hiperplasia folicular linfóide, dois de
hiperplasia glandular focal, dois de inflamação crônica, um de mucosa erosada e
um de retenção de muco.
A maioria dos pólipos adenomatosos observados tinha diâmetro inferior a 10 mm,
embora representassem o tipo histológico mais freqüente entre os pólipos com 10
ou mais milímetros de diâmetro (Tabela_1).
A TC colonografia, na análise por pólipo, com base no tamanho e localização,
detectou corretamente 11 (12,9%) das 85 lesões diagnosticadas pela
colonoscopia. Houve apenas um caso de resultado falso-positivo.
Os adenomas constituíram a proporção maior de pólipos identificados no exame
radiológico (Tabela_2).
O desempenho da TC colonografia esteve relacionado com o diâmetro do pólipo,
com 80% das lesões detectadas medindo 10 mm de diâmetro ou mais (Tabela_3). Um
pólipo hiperplásico plano e um adenoma tubular pediculado constituíram as duas
lesões com essas dimensões não identificadas no teste radiológico.
Quando somente os adenomas foram considerados, resultados semelhantes foram
observados. Dos pólipos percebidos na TC colonografia, uma proporção maior foi
constituída por adenomas (72,7%).
O diâmetro médio dos pólipos colorretais observados na TC colonografia foi
significativamente maior do que o das lesões não detectadas (Tabela_4).
Das lesões identificadas no exame tomográfico, 77,8% foi constituída por
pólipos pediculados.
Quando os resultados da TC colonografia são analisados com base nos pacientes,
observa-se melhora no desempenho do teste. Se a detecção de pólipos de
quaisquer dimensões for considerada, o resultado de 10 exames será
verdadeiramente positivo (Tabela_5).
O desempenho do teste radiológico foi mais adequado quando considerados apenas
os pólipos com 10 ou mais milímetros de diâmetro (Tabela_6), ocorrendo
diminuição sensível da especificidade do teste radiológico quando considerados
os resultados em indivíduos com pólipos de quaisquer dimensões (Tabela_7).
As prevalências das lesões, com estratificação com base no tipo histológico e
na categoria, estão expostas na Tabela_8 para melhor interpretação das medidas
de desempenho do teste radiológico.
Dezenove dos 20 pacientes (95%) submetidos a ambos os testes manifestaram
preferência por se sujeitar a nova colonoscopia, se necessário, ao invés de uma
TC colonografia, quando inquiridos.
Algumas imagens obtidas em 2D e 3D (colonoscopia virtual) TC colonografia,
acompanhadas de fotografias endoscópicas das lesões, são demonstradas abaixo
(Figuras_1 e 2).

[/img/revistas/ag/v45n4/08f2.jpg]
DISCUSSÃO
Este estudo avaliou, de maneira prospectiva, a performance da TC colonografia
em uma população com alta probabilidade pré-teste de pólipos colorretais (95%),
muito acima das prevalências observadas em outros estudos semelhantes. Esse
teste radiológico tem recebido considerável atenção em virtude da possibilidade
de seu emprego para rastreamento desde sua introdução em 1994(25). Estudos
preliminares têm estabelecido a exeqüibilidade da visualização de pólipos de
intestino grosso com ambas imagens reformatadas em 2D e 3D. Alguns estudos
clínicos prospectivos para detecção dessas lesões têm sido publicados, com
resultados estratificados tanto por paciente como por pólipo, indicando que a
precisão desse exame radiológico pode exceder a do enema opaco, ficando próxima
daquela da colonoscopia(6).
No presente estudo, de forma semelhante àquele executado por KAY et al.(15), a
interpretação da TC colonografia foi realizada somente por um radiologista.
Como citado previamente, o mesmo não teve conhecimento de antemão dos achados
dos exames endoscópicos. Entretanto, em pelo menos três outros, a variabilidade
entre observadores foi avaliada. HARA et al.(12) reportaram 67% e 73% de
sensibilidade entre dois radiologistas que avaliaram 70 pacientes com 115
pólipos (15 pólipos > 1 cm) com a utilização de imagens em 3D. DACHMAN et al.
(5) reportaram sensibilidade aproximadamente idêntica (83%) entre dois
examinadores em uma série de 44 pacientes com 22 pólipos (6 pólipos > 8 mm). Em
um estudo envolvendo 70 TC colonografias, em que dois experientes radiologistas
independentemente interpretaram os exames, a sensibilidade por pólipo foi de
20% e 44% para lesões com 6 mm a 9 mm de diâmetro e de 60% e 78% para aquelas
com diâmetro igual ou superior a 10 mm(17), respectivamente. Esses resultados
demonstram existir alta variabilidade entre observadores, questão que merece
adequada investigação. Porém, isto também ocorre com a colonoscopia. Estudos
(13, 21) com pacientes submetidos a duas colonoscopias no mesmo dia revelam
taxas de falhas na detecção de adenomas de 15% a 25%, embora a maioria desses
erros ocorra com lesões menores do que 1 cm.
No presente estudo, a aquisição de imagens foi realizada com os pacientes em
decúbito dorsal e em decúbito ventral, para maximizar a distensão colônica e a
visualização de toda a superfície mucosa. O escaneamento em ambos os decúbitos
também foi adotado no trabalho de FENLON et al.(7), divergindo de outros
estudos em que somente um dos decúbitos foi utilizado(5, 15, 10), com prejuízo
sensível da qualidade do exame(3).
Na avaliação por paciente, a TC colonografia apresentou, para o diagnóstico de
pólipos de intestino grosso, sensibilidade geral de 53% e especificidade de
100%. Deve-se salientar que, para fins de análise, foi considerado como
verdadeiro-positivo um caso cujo exame radiológico detectou, de forma
equivocada, duas lesões no ceco comprovadamente inexistentes à endoscopia. Este
paciente tinha pólipos em outros segmentos do intestino grosso. Dessa maneira,
o valor preditivo positivo resultou 100%, enquanto que o valor preditivo
negativo foi de 10%, com uma precisão de 55%. Resumindo, considerando a alta
especificidade encontrada, a TC colonografia parece ser um teste útil na
detecção de pólipos colorretais em geral, somente quando resulta positiva para
essas lesões.
Entretanto, quando considerados apenas os indíviduos com pólipos de 10 ou mais
mm de diâmetro (n = 9), os resultados melhoraram dramaticamente, com
sensibilidade e valor preditivo positivo iguais a 89% e especificidade e valor
preditivo negativo de 91%. A precisão, nesse caso, resultou em 90%. Caso o
paciente com o pólipo hiperplásico plano fosse excluído dessa análise ou
somente os pacientes com adenomas fossem considerados, a sensibilidade
atingiria 100%. Esses resultados são comparáveis aos de outros estudos já
publicados(7, 10, 15).
São enfatizados, em grande parte dos estudos que avaliam o desempenho da TC
colonografia, os pólipos com diâmetro igual ou superior a 10 mm, embora seja
improvável que um limite estabelecido de 1 cm seja aceito por médicos e
pacientes. Os estudos publicados de TC colonografia sobre a importância clínica
da detecção de pólipos com essas dimensões são baseados em estudo realizado com
espécimes coletados antes do advento da colonoscopia na prática clínica(19). A
dificuldade imposta na percepção de pólipos pequenos fez com que alguns autores
sugerissem, inclusive, que prováveis pólipos menores do que 5 ou 8 mm,
dependendo dos critérios institucionais estabelecidos, fossem ignorados na
tentativa de diminuir o tempo despendido na interpretação das imagens axiais
(5).
No presente estudo, a TC colonografia apresentou desempenho muito baixo quando
considerados os pólipos menores do que 10 mm de diâmetro. Portanto, como método
para o rastreamento do câncer colorretal, esse teste radiológico tem ainda um
longo caminho a percorrer.
Embora a freqüência de displasia de alto grau e, por inferência, de carcinoma
invasor seja substancialmente menor em adenomas tubulares pequenos do que em
lesões vilosas maiores, esse risco ainda existe, dessa forma apoiando o ponto
de vista aceito na atualidade de que todos os adenomas, quando descobertos,
devem ser removidos(20).
Pólipos menores do que 10 mm têm probabilidade que varia de 1% a 10% de conter
câncer, dependendo do tipo histológico(19). Caso pólipos com essas dimensões
sejam ignorados ou não detectados(5), desenvolver-se-á forte ímpeto para
realizar TC colonografia em intervalos de tempo menores, o que tornaria o
método impraticável sob a perspectiva de custos.
As publicações sobre a TC colonografia habitualmente não avaliam a intensidade
da dor provocada pelo teste diagnóstico, somente referindo que o mesmo é
"amigável ao paciente", parecendo ser bem tolerado, ressaltando que a dor
abdominal, determinada pelo pneumocólon (normalmente com insuflação dos cólons
até o limite de tolerância máxima dos pacientes), não foi motivo para que os
pacientes solicitassem a suspensão do exame. Entretanto, em estudo de AKERKAR
et al.(1), 221 pacientes submetidos a TC colonografia e a colonoscopia no mesmo
dia graduaram a endoscopia como procedimento melhor do que o exame radiológico
em relação à dor e ao desconforto.
Como pôde ser verificado na pesquisa realizada por telefone no presente estudo,
dos 20 pacientes submetidos a ambos os testes, 19 (95%) prefeririam submeter-se
a nova colonoscopia, se necessário, ao invés da TC colonografia.
Aspecto normalmente não considerado como vantagem pertinente à colonoscopia é
que durante a mesma, diante de preparo inadequado, torna-se possível efetuar a
remoção de resíduos fecais aderidos à superfície mucosa da parede intestinal,
assim como proceder à diluição do resíduo observado no lúmen do intestino
grosso, com a injeção de água através do canal de biopsia do instrumento. Em
ambos os casos, o resíduo líquido é aspirado. Essas alternativas de otimização
das condições de preparo intestinal durante o exame endoscópico inexistem por
ocasião da TC colonografia. Outra vantagem permitida pela endoscopia é a
aspiração de parte do volume gasoso durante a retirada do instrumento,
minimizando a possibilidade de desconforto abdominal após o procedimento.
Já a interatividade possível entre as imagens em 2D e 3D é vantagem relevante
da TC colonografia, comparada com a colonoscopia convencional. Dessa forma, uma
anormalidade focal qualquer, observada nas imagens reformatadas em 3D, pode ter
sua localização adequadamente determinada através de pontos de referência
extraluminais com a utilização das imagens reformatadas correspondentes em 2D.
Equívocos na localização endoscópica de lesões foram demonstrados em estudo em
que, de 17 pacientes com neoplasia maligna colorretal, 3 tiveram os sítios de
suas lesões incorretamente definidos(23). Em um paciente, um carcinoma de cólon
transverso foi reportado como cecal, em um segundo, um carcinoma no ceco foi
referido como situado na porção média do cólon transverso e, em um terceiro
indivíduo, um carcinoma na flexura esplênica foi descrito como localizado no
cólon sigmóide. Entretanto, em 8 dos 20 pacientes incluídos naquele trabalho, a
colonoscopia foi incompleta, em 6 casos como conseqüência de carcinomas
obstrutivos.
Na TC colonografia, fezes retidas nos cólons são identificadas se houver
presença de ar no interior da massa em imagens em 2D. Essa possibilidade
diagnóstica deve também ser considerada se a massa em questão tem forma não
usual, se está localizada em superfície inferior em imagem 2D transaxial ou se
se desloca por ocasião da mudança de decúbito(11). Entretanto, mesmo grandes
pólipos adenomatosos podem ser confundidos com matéria fecal residual(12). Este
fato foi registrado em estudo em que um pólipo adenomatoso pediculado de 25 mm
foi erroneamente interpretado como massa fecal, em decorrência da dramática
diferença de sua posição nas imagens obtidas com o paciente em decúbito dorsal
e ventral(7).
A valva ileocecal é uma estrutura com variados aspectos à endoscopia. As
imagens de 2D e 3D TC colonografia são complementares na identificação da
mesma. Sua forma e suas dimensões são demonstradas de maneira mais adequada com
imagens tridimensionais. Entretanto a valva de Bauhin pode ser percebida de
forma equivocada como um pólipo cecal(11). Neste estudo, esse fato pode ter
ocorrido quando dos dois resultados falso-positivos do teste radiológico em um
mesmo paciente (Figura_3). As imagens bidimensionais permitiriam a
identificação correta dessa estrutura, demonstrando o trajeto da porção final
do íleo na valva.
[/img/revistas/ag/v45n4/08f3.jpg]
Os lipomas são os tumores submucosos mais comuns no intestino grosso(22), sendo
constituídos por tecido adiposo e envoltos por uma cápsula fibrosa, originando-
se mais freqüentemente no ceco e no cólon sigmóide(9). A TC colonografia
permitiria, em tese, um diagnóstico fidedigno dos mesmos, pela atenuação
característica da gordura em imagens reformatadas em 2D(11). Neste estudo,
nenhum dos três lipomas identificados e removidos por ocasião das colonoscopias
foi caracterizado como tal nas tomografias, salientando-se que os dois
radiologicamente detectados, localizados no cólon sigmóide, pertenciam à
categoria 3, o maior medindo 19 mm de diâmetro. Pelo contrário, foi considerada
a possibilidade de lipoma pela TC colonografia no caso de um adenoma tubular
pediculado com 17 mm de maior diâmetro, localizado no cólon sigmóide.
Embora fuja do escopo deste trabalho, alguns autores propõem a TC colonografia
como método de investigação do intestino grosso nos casos de colonoscopias
incompletas(16, 18). MORRIN et al.(18), avaliando o papel da TC colonografia em
pacientes com câncer colorretal e estenoses de intestino grosso, advogam sua
utilização em pacientes com cânceres colorretais obstrutivos, no intuito de se
detectar lesões sincrônicas situadas oralmente ao segmento estenosado. A
relevância clínica dessa proposição pode ser questionada com base em estudo de
SOLLENBERGER et al.(24). Esses autores estudaram, retrospectivamente, 104
pacientes submetidos a colectomia por carcinoma colorretal e, posteriormente, a
colonoscopia, verificando que os carcinomas sincrônicos existentes em 6
indivíduos foram diagnosticados corretamente por palpação transoperatória. Os
pólipos adenomatosos existentes foram posteriormente removidos por ocasião da
colonoscopia.
A TC colonografia está recém iniciando o seu desenvolvimento, e os resultados
deste estudo devem ser analisados nessa perspectiva. Sua viabilidade tem sido
demonstrada, existindo a necessidade de se avaliar seu desempenho fora de
centros altamente especializados. Atualmente as maiores limitações do método
ocorrem por conta do processamento e análise das imagens após a aquisição dos
dados.