Helicobacter pylori e doença péptica: estudo comparativo de métodos
diagnósticos
COMUNICAÇÃO BREVE BRIEF COMMUNICATION
Helicobacter pylori e doença péptica. Estudo comparativo de métodos
diagnósticos
Helicobacter pylori and peptic disease. Comparative study of the diagnostic
methods
Alaor CaetanoI; Valter Nilton FelixII; Fernando Tadeu Vanucci CoimbraI; Arnaldo
José GancIII
IFaculdade de Medicina de São José do Rio Preto, SP
IIDepartamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo, SP
IIIDepartamento de Gastroenterologia da Universidade Federal de São Paulo,
Escola Paulista de Medicina, São Paulo, SP
Correspondência
INTRODUÇÃO
A endoscopia digestiva alta, complementada com biopsias da mucosa gástrica,
mantém-se como método prevalente na detecção do Helicobacter pylori (H.
pylori), no Brasil.
Este estudo teve o objetivo de comparar entre si os testes usuais de pesquisa
da bactéria, com base em expressiva casuística.
MÉTODO
Estudaram-se, prospectivamente, 150 pacientes, de um total de 1.043
atendimentos, por queixas compatíveis com doenças pépticas, no Serviço de
Endoscopia Multidisciplinar do Hospital de Base de São José do Rio Preto, SP.
Eram 76 homens e 74 mulheres, o tempo de evolução dos sintomas variava de
alguns dias até mais de 20 anos, sendo prevalente o período de 1 a 10 anos.
Foram excluídos pacientes que faziam uso de qualquer medicação com finalidade
antiinflamatória ou que apresentavam afecções que cursassem com imunodepressão,
tais como tuberculose, blastomicose e AIDS, neoplasias, gastrite atrófica ou
qualquer tipo de operação prévia relacionada com o sistema digestório.
Foram ainda excluídos os que relatavam hemorragia digestiva alta, uso de drogas
para tratamento de verminose, uso recente de antibióticos ou de qualquer
produto para alívio dos sintomas.
O exame endoscópico seguiu os ditames da Sociedade Brasileira de Endoscopia
Digestiva.
Jejum mínimo de 12 horas foi solicitado a todos os pacientes e, antes da
realização do exame, cada um aceitou ser incluído no protocolo, após
pormenorizada explicação do mesmo, assinando termo de consentimento.
Era colhido, com pinça endoscópica, um fragmento da mucosa antral para o teste
da urease, sendo transferido, com auxílio de agulha descartável, diretamente ao
tubo de ensaio contendo a solução de uréia, fornecido pela Probac do Brasil®, e
guardado em ambiente próximo a 36ºC. A verificação do resultado era realizada
após 6 horas.
Outro fragmento de biopsia antral, para o exame histológico, era depositado em
frasco com solução de formalina a 10% e levado a processo histológico
rotineiro, desidratação em álcool, diafanização em xilol, inclusão em parafina,
sendo depois submetido a cortes de 5 micra e corados por hematoxilina-eosina e
Giemsa.
Eram coletados 20 mL de sangue para o exame sorológico, que foram centrifugados
em tubo de ensaio por 10 minutos, à velocidade de 1.500 a 2.000 rotações/min,
para separação do soro, estocado a 20ºC. A leitura foi feita em bloco, pelo
método ELISA, para detecção e quantificação de anticorpos do tipo IgG.
Na análise estatística dos resultados obtidos, utilizou-se o teste do χ2, com
P<0,05 e intervalo de confiança (IC) de 95%.
RESULTADOS
O estudo endoscópico revelou gastrite crônica em 109 pacientes (72,6%), úlcera
gástrica em 6 (4%), duodenite crônica em 9 (6%) e úlcera duodenal em 26
(17,4%).
De acordo com os achados endoscópicos, foram compilados separadamente, de
início, os resultados do teste da urease, da histologia e da sorologia (Tabela
1).

Posteriormente todos os pacientes foram agrupados, tendo-se que 103 (68,67%)
apresentaram teste da urease positivo, 104 (69,33%), positividade histológica e
98 (65,33%) positividade sorológica para o H. pylori.
Não se observou diferença estatisticamente significante na comparação entre os
métodos diagnósticos, quer na casuística fragmentada em relação à doença, ou na
geral.
DISCUSSÃO
A alta prevalência de infecção pelo H. pylori, sua forte tendência à
cronicidade, bem como a aceitação de importante papel deste microorganismo na
patogênese de úlceras gastroduodenais, câncer gástrico e linfomas MALT
sustentam o interesse e a preocupação em relação ao assunto.
Há estudos que revelam correlação entre a infecção pelo H. pylori e alterações
anatomopatológicas na mucosa gástrica, não só com respeito à inflamação, que
varia em extensão e intensidade, como em relação à atrofia, à metaplasia
intestinal e à hiperplasia de folículos linfóides(2).
A distribuição focal ou segmentar do H. pylori na superfície da mucosa gástrica
pode ser responsável, em parte, pela diferença de sensibilidade dos diversos
testes diagnósticos.
Neste estudo, para busca diagnóstica do H. pylori, foram realizadas biopsias da
região pré-pilórica, pois o antro é o melhor local para a obtenção de amostras
para a pesquisa histológica da infecção, por conter a maior densidade de
bactérias.
O teste diagnóstico ideal deve ter grandes sensibilidade e especificidade,
baixo custo, fácil realização, uso de equipamento e técnica rotineiros e boa
aceitação pelo paciente.
Os métodos invasivos podem ser diretos, buscando demonstração histológica do
microrganismo, ou indiretos, dependentes da pesquisa da urease pré-formada, uma
das principais características do H. pylori.
O exame histológico oferece a possibilidade de visualização microscópica
concomitante da mucosa, com melhor definição da gravidade da inflamação.
Hematoxilina-eosina e Giemsa são as técnicas de coloração mais utilizadas,
depois da inclusão em parafina, na pesquisa do H. pylori, como feito neste
estudo.
O microorganismo produz grande quantidade de urease, que catalisa a degradação
da uréia em amônia e bicarbonato, levando a aumento do pH do meio, o que pode
ser detectado através de um indicador de pH, conferindo positividade ao teste.
Há ainda os métodos não invasivos, que não requerem endoscopia e são
representados pela sorologia neste estudo. Os anticorpos IgM podem não diferir
entre indivíduos atualmente H. pylori-positivos e negativos. Por esta razão, é
indicado o emprego de ELISA em busca da dosagem de anticorpos IgG, como foi
feito no presente trabalho.
A sorologia de fato mostrou-se eficaz na detecção do H. pylori, com
positividade de 65,33% na casuística geral, equiparando-se estatisticamente ao
teste da urease e à histologia, resultado semelhante ao de publicação recente
(5).
É teste preferencial para alguns, por ser não invasivo e atingir taxas de
detecção do H. pylori semelhantes às de métodos que utilizam biopsias(4).
O conhecimento atual de várias cepas do H. pylori, de sua capacidade de
produção de diferentes citotoxinas, da grande soropositividade de anticorpos
anti-CagA, em casos de neoplasia gástrica, os progressos de estudos com base em
dados genéticos e moleculares(1, 3) fazem prever que brevemente os métodos
laboratoriais ganharão terreno, em relação aos invasivos.
No entanto, neste momento, o teste da urease e o exame histológico mantêm lugar
de destaque na pesquisa do H. pylori, diante da realidade brasileira. Em função
disto e ainda considerando facilidade de realização e baixo custo, o teste da
urease se credencia como o de melhor indicação nos pacientes que também se
beneficiarão com o diagnóstico endoscópico.
A equiparação dos resultados do teste sorológico aos dos exames invasivos abre
perspectiva para sua indicação segura, caso a endoscopia digestiva alta não
possa ou não deva ser realizada.