Efeito terapêutico da fibra goma-guar parcialmente hidrolisada na constipação
intestinal funcional em pacientes hospitalizados
COMUNICAÇÃO BREVE BRIEF COMMUNICATION
Efeito terapêutico da fibra goma-guar parcialmente hidrolisada na constipação
intestinal funcional em pacientes hospitalizados
Effect of partially hidrolized guar-gum in the treatment of functional
constipation among hospitalized patients
Geise Maria da Silva BeloI; Alcides da Silva DinizII; Ana Paula Campos PereiraI
IHospital da Restauração da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco
IIDepartamento de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE
Correspondência
INTRODUÇÃO
A constipação intestinal funcional (CIF) é uma síndrome decorrente de
distúrbios da motilidade enterocolônica e apresenta elevada prevalência na
população mundial(5). O papel da alimentação, como causa ou agravante da CIF,
requer atenção especial para melhor compreensão dessa entidade nosológica. A
industrialização de alimentos visando sua conservação, ocasionou a obtenção de
produtos de maior valor calórico e nutricional porém, como conseqüência, houve
maior refinamento dos alimentos, com conseqüente redução da oferta e ingestão
de fibras. Este fato resultou na diminuição dos estímulos propulsivos,
ocasionando incapacidade progressiva do intestino grosso para deslocar os
resíduos fecais para sua expulsão(2, 5).
O consumo de fibras alimentares é reconhecido como uma das bases para um estilo
de vida saudável, oferecendo proteção contra várias doenças e agravos(1).
Recentemente, a indústria alimentícia vem desenvolvendo uma variedade de
carboidratos de baixo peso molecular que se comportam no organismo como fibras,
a exemplo da goma-guar parcialmente hidrolisada (GGPH), embora seu efeito
terapêutico na CIF continue sendo avaliado(3, 4).
Este estudo objetivou testar o impacto da suplementação dietética com fibras
GGPH no tratamento da CIF em pacientes hospitalizados.
MÉTODOS
População de estudo
Pacientes internados no setor de traumatologia do Hospital da Restauração, em
Recife, PE, entre 18 a 64 anos, de ambos os sexos que, a partir do 7º dia em
regime de dieta normal, apresentaram CIF. Foram considerados os seguintes
critérios de exclusão: gravidez, doença psiquiátrica, neurológica ou metabólica
sistêmica, doença orgânica do cólon, úlcera péptica, fibroma uterino, diástase
de musculatura e hérnias abdominais, e cirurgia gastrointestinal prévia.
Desenho do estudo
Ensaio clínico, de base hospitalar, randomizado, cego, em que os pacientes com
diagnóstico de CIF foram alocados em dois grupos de tratamento: um grupo
recebeu a dieta laxante do hospital (DLI), com teor médio de fibras de 28,96 ±
5,86 g/dia; o outro dieta laxante institucional + goma-guar (DLIGG), ingeriu a
mesma quantidade de fibras, acrescida de 10 g de fibra GGPH.
Amostragem
Baseado nas estimativas de redução na CIF nos dois grupos de tratamento, a
partir do estudo piloto e adotando os níveis de significância de 5%, para o
erro alfa (a) e 10% para o erro beta (b), o tamanho da amostra foi calculado,
pela fórmula n= (p1q1 + p2q2 ).(za + zb)2/(p1 - p2)2; onde, p1, prevalência de
CIF com uso de DLI (50%) e p2, prevalência de CIF com uso de DLIGG (14%). Foi
obtido o número de 31 pacientes para constituir cada grupo de estudo. Em
virtude das perdas, corrigiu-se a amostra em 30%, totalizando 40 pacientes no
grupo DLI e 41 no grupo DLIGG.
Variáveis-resposta
O impacto do tratamento foi avaliado pela freqüência evacuatória, consistência
fecal dura, tempo de resposta da função intestinal, necessidade de uso de
laxativos e sintomatologia gastrointestinal.
Características da dieta e suplemento
O teor de fibras na dieta laxante foi calculado pela pesagem direta dos
alimentos, antes e após as refeições; a fibra GGPH (Novartis Consumer Health,
Suíça) foi pesada em balança digital e separada em porções individuais de 10 g,
oferecida diariamente, adicionada ao suco de frutas, às 9h da manhã pelo
copeiro, sob supervisão do nutricionista.
Análise dos dados
As variáveis contínuas, com distribuição normal e homocedasticidade, tiveram
suas médias inter e intragrupos comparadas pelos testes t de Student, para
dados não-pareados e pareados, respectivamente. As proporções foram comparadas
pelo teste do qui ao quadrado de Pearson. Foi adotado o nível de significância
de 5% para o teste de normalidade das variáveis, bem como para a rejeição da
hipótese de nulidade.
Considerações éticas
O protocolo do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital
da Restauração, conforme resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde sobre
pesquisas envolvendo seres humanos.
RESULTADOS
Foram estudados 81 pacientes. As perdas (n = 17) ocorreram em virtude da
solicitação de 1 paciente para sair do estudo, e 16 não completaram o tempo
previsto devido à alta hospitalar ou transferência para outra instituição.
Comparabilidade entre os grupos de estudo
As características biossociais, clínicas e terapêuticas no momento da
intervenção, foram semelhantes entre os dois grupos de estudo, exceto para a
ocorrência de fezes duras que predominou no grupo DLIGG. As perdas apresentaram
as mesmas características nos dois grupos de tratamento.
Efeitos da intervenção
Na análise do impacto intragrupo houve aumento na média semanal de evacuações,
após 7 dias da intervenção, tanto no grupo DLI (P = 0,001), quanto no grupo
DLIGG (P = 0,000), com estabilização dessas médias no 15º dia pós-intervenção.
No entanto, na comparação intergrupos, verificou-se que o incremento foi
similar entre os dois grupos de tratamento, tanto no 7º dia (P = 0,315), quanto
no 15º dia (P = 0,243). No entanto, o tempo médio de dias para resposta da
função intestinal foi similar entre os dois grupos (P = 0,274), bem como a
necessidade de uso de laxativos (P = 0,071). O grupo DLI relatou ocorrência
maior (P = 0,012) de queixas abdominais, principalmente flatulência, quando
comparado ao grupo que recebeu a DLIGG. Por sua vez, houve redução de fezes de
consistência dura, tanto no grupo DLI quanto no grupo DLIGG, porém sem
diferença estatística significante entre eles (P = 0,252) (Tabela_1).
A resposta global ao tratamento com fibras mostrou que 50 de 64 pacientes
normalizaram a função intestinal no final do estudo. Entretanto, não houve
potencialização no efeito terapêutico naqueles pacientes que receberam DLIGG (P
= 0,281).
DISCUSSÃO
O incremento significativo na média de evacuações semanais, observado já no 7º
dia de intervenção, assim como a manutenção desse efeito ao curso dos 15 dias
de tratamento, vem ratificar o papel terapêutico da fibra na CIF. Esse impacto
significativo tem sido relatado em estudos que fizeram uso de fontes
diversificadas de fibras. No entanto, o aporte adicional de fibra GGPH não
produziu nenhum efeito adicional, em termos de incremento na média de
evacuações, quando comparado ao tratamento com menor teor de fibras. Vale
salientar que o grupo de pacientes que recebeu a suplementação de fibra GGPH
apresentou, por ocasião da randomização, proporção significantemente maior de
indivíduos com relato de fezes com consistência dura, em relação aos pacientes
que receberam apenas a dieta laxante. Esse fato poderia, a princípio, mascarar
o potencial efeito da fibra GGPH. No entanto, resultados similares, descritos
por STASSE-WOLTHUIS et al.(2), mostraram que o acréscimo de 12 g de farelo de
trigo a uma dieta rica em vegetais e frutas, não apresentou nenhum efeito na
média de evacuações semanais. Deve-se destacar que, nesse estudo, a quantidade
de fibras presente no grupo que recebeu apenas a dieta com vegetais e frutas
tem sido considerada abaixo dos teores usualmente recomendados na conduta
dietoterápica frente à CIF. Nesse sentido, BADIALI et al.(1) demonstraram que
uma dieta contendo cerca de 15 g/dia de fibra foi tão efetiva na função
colônica quanto uma dieta similar acrescida de farelo de trigo.
Na presente série, a rápida resposta da função intestinal, tanto com a dieta
laxante exclusiva quanto com a dieta laxante acrescida de fibra GGPH, vem
demonstrar que a fibra teria, em princípio, ação reguladora do trânsito
intestinal, contribuindo para a reversão do quadro de CIF em pacientes
hospitalizados. No entanto, o tempo de resposta similar entre os dois
tratamentos, mostrou que não houve potencialização do efeito regulador com uso
da fibra GGPH.
A maior ocorrência de queixas gastrointestinais no grupo que utilizou apenas a
dieta laxante foi um resultado inesperado, uma vez que a literatura
especializada(1, 3)tem relatado que o aparecimento e a intensidade de sinais e
sintomas abdominais aumentam proporcionalmente com o incremento na quantidade
de fibras consumidas. No caso específico da flatulência, em que os pacientes
que receberam a dieta com fibra GGPH referiram menos queixas, quando comparado
àqueles que receberam apenas a dieta laxante, constitui-se também em achado não
previsível. Nesse sentido, TAKAHASHI et al.(3) observaram aumento significativo
da flatulência quando utilizaram fibra GGPH em mulheres constipadas. Do ponto
de vista fisiológico, este seria um achado clínico mais compatível, uma vez que
a fibra GGPH é solúvel, altamente fermentável e que pode ter, como possível
efeito adverso, o aumento da flatulência no início do tratamento, resultado da
fermentação bacteriana. Entretanto, BADIALI et al.(1) observaram que a
ocorrência e a intensidade de flatulência foram similares entre pacientes que
utilizaram tanto a dieta rica em fibras quanto a mesma dieta acrescida de
farelo de trigo.
A similaridade entre os grupos quanto à necessidade do uso de laxativos, mostra
que o uso de maior quantidade de fibra na dieta não potencializaria o seu
efeito terapêutico frente à CIF. A melhora significativa da consistência fecal,
com redução da ocorrência de fezes duras, observada durante o tratamento tanto
com a dieta laxante institucional quanto na dieta laxante acrescida de fibra
GGPH, poderia ser atribuída à ação das fibras, que levariam a maior retenção de
água nas fezes, como também ao aumento da própria massa bacteriana proveniente
da fermentação das fibras. No caso específico da fibra GGPH, TAKAHASHI et al.
(4), observaram aumento significativo da umidade fecal e que a correlação
inversa entre o pH e a umidade fecal resultou em fezes macias, com aumento
significativo da freqüência evacuatória em pacientes constipados.
CONCLUSÃO
A intervenção dietoterápica com fibras alimentares causou impacto significativo
na remissão do quadro de CIF em pacientes hospitalizados, com aumento
considerável na média de evacuações semanais, embora com percentual elevado de
sintomatologia gastrointestinal. Entretanto, o uso adicional de fibra GGPH não
resultou em maior impacto na função evacuatória.
Este impacto da dieta rica em fibras no tratamento da CIF nos pacientes
hospitalizados, vem demonstrar a eficácia desta conduta dietoterápica,
particularmente em pacientes acamados. Logo, uma dieta rica em fibras deveria
ser recomendada, como ação de primeira linha, no tratamento da CIF. Entretanto,
o papel terapêutico da fibra GGPH precisa ser melhor investigado para a sua
inclusão no manejo dietoterápico de pacientes com este distúrbio
gastrointestinal.