Vascularização na cirrose hepática: estudo imunoistoquímico baseado em
necropsias
ARTIGO ORIGINAL ORIGINAL ARTICLE
Vascularização na cirrose hepática: estudo imunoistoquímico baseado em
necropsias
Vascularization in hepatic cirrhosis: an immunohistochemical study on
necropsies
Mariane de Fátima Yukie Maeda; Camilla Duarte Silva; Leila Suemi Harima; Luiz
Fernando Ferraz da Silva; Bruno Ctenas; Venâncio Avancini Ferreira Alves
Laboratório de Investigação Médica em Patologia Hepática, Departamento de
Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP
Correspondência
INTRODUÇÃO
A cirrose é hoje uma das principais causas de morte no mundo ocidental,
contabilizando cerca de 27.000 mortes nos EUA em 2004 e mais de 228.145 anos
potenciais de vida perdidos(6). No Estado de São Paulo registrou-se, em 2002,
mortalidade de 10,31 por 100.000 habitantes, principalmente na faixa dos 50 aos
59 anos(4). O paciente com cirrose alcoólica perde, em média, 12 anos de vida
produtivos, mais do que aqueles com cardiopatias (2 anos) e neoplasias (4 anos)
(6).
O processo patológico mais discutido da cirrose é a fibrose progressiva.
Trabalhos precedentes(1, 3, 8, 31, 37) têm mostrado que a fibrose, antes tida
como processo irreversível e determinante na evolução e complicações clínicas
da cirrose, pode regredir com o tempo, estabelecendo-se um modelo em que
fatores adicionais estariam envolvidos na progressão da doença. As alterações
na micro e macrovasculatura do órgão têm sido apontadas como elementos
fundamentais na fisiopatologia da doença, incluindo lesões como a capilarização
dos sinusóides(29, 32, 38), a formação de desvios (" shunts" ) anastomóticos
pré e pós-sinusoidais e a perda de ramos da veia porta.
A capilarização dos sinusóides envolve desde alterações no endotélio vascular,
como perda de fenestrações e depósitos na membrana basal(39), até mudanças nas
interações célula-célula e célula-matriz nos sinusóides hepáticos(7, 32). Na
transformação neoplásica do fígado, uma das principais complicações da cirrose,
observa-se que a capilarização dos sinusóides pode ser parte inicial de
processo, no qual nódulos displásicos passam a receber suprimento
predominantemente arterial, padrão vascular dominante no carcinoma
hepatocelular (CHC), o que indica possível relação do desenvolvimento anômalo
da microvasculatura com a evolução para um processo neoplásico(30).
As alterações vasculares do fígado cirrótico têm despertado crescente
interesse, mas ainda pouco se sabe sobre sua relação com as principais
complicações, como a hipertensão portal, insuficiência hepática e o carcinoma
hepatocelular e, a partir daí, sua implicação prognóstica, evidenciando-se
então, a necessidade de caracterização mais detalhada de aspectos arquiteturais
e celulares dessas alterações. Além disso, não se encontrou na literatura
revista padronização de métodos para a quantificação da microvasculatura do
fígado cirrótico, levando a uma dificuldade tanto na caracterização das
estruturas quanto na comparação dos resultados obtidos nos diferentes estudos.
Entre os vários procedimentos descritos para o estudo da arquitetura vascular
hepática, destaca-se a marcação imunoistoquímica das células endoteliais. O
antígeno CD34 é importante marcador de células endoteliais, presente, segundo
FINA et al.(14), nos capilares da maioria dos tecidos, não sendo demonstrado no
endotélio sinusoidal normal, mas tornando-se visível nos sinusóides
capilarizados, inclusive na neoangiogênese dos nódulos displásicos(30). Na
literatura disponível, não se encontrou comparação da sensibilidade da detecção
do CD34 com outros marcadores endoteliais como fator VIII, CD31 ou lectina de
Ulex europeaus na demonstração da capilarização de sinusóides hepáticos, mas
HOLLINGSWORTH et al.(19) e TANIGAWA et al.(34), estudando ovário e estômago,
respectivamente, observaram maior número de vasos corados com o anticorpo anti-
CD 34 do que com o anti-fator VIII, mostrando ser a detecção do CD34 abordagem
mais sensível e com melhores resultados, tanto funcional quanto
morfologicamente.
O objetivo deste estudo foi avaliar, em fígados de necropsias, a densidade da
microvasculatura do fígado cirrótico através da imunoistoquímica com anticorpo
anti-endotélio CD34 a fim de comparar os informes obtidos mediante semi-
quantificação em graus com aquelas registradas por método quantitativo
morfométrico, no intuito de relacionar as alterações vasculares encontradas com
os principais agentes causais, com os padrões de lesão e com as complicações
clínicas da doença.
MÉTODOS
Pacientes
O presente estudo foi desenvolvido através da análise de 35 casos selecionados
retrospectivamente(20) de necropsias realizadas no Serviço de Verificação de
Óbitos da Capital (SVOC/USP), São Paulo, SP, no período de março de 2002 a
junho de 2003. Para cada caso foram colhidos os dados clínicos, exames
laboratoriais, características macroscópicas e laudo final de autopsia.
Foram incluídos pacientes com diagnóstico de cirrose hepática de qualquer causa
e idade superior a 20 anos. Foram excluídos da casuística, fígados de pacientes
com história prévia ou diagnosticada em autopsia de lesão por esquistossomose,
bem como casos em que a amostragem histológica disponível apresentava apenas o
tecido hepático neoplásico ou peritumoral, já que essas regiões não
representariam o padrão microvascular do fígado cirrótico como um todo.
O projeto foi aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de
Pesquisa ' CAPpesq da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas e da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo em 28 de julho de 2005 - Protocolo de
Pesquisa n° 582/05.
Agrupamento de casos
Padrão anatomopatológico
Todos os casos selecionados para o estudo foram analisados quanto ao padrão
anatomopatológico e classificados em dois grandes grupos: o de cirroses
associadas a hepatites crônicas e o daquelas associadas às esteatohepatites,
conforme os seguintes critérios:
Esteatohepatites: englobam esteatose macro e microvascular, fibrose
perivenular, balonização e necrose de hepatócitos em áreas
centrolobulares, infiltrado inflamatório e número variável de
hepatócitos com material hialino denso e acidófico em seu citoplasma
(hialino de Mallory). Macroscopicamente são relatadas como mais
freqüentemente associadas a cirroses micronodulares. O
desenvolvimento de esteatohepatite relaciona-se freqüentemente ao
etilismo crônico, podendo também se associar a outras causas como
diabetes mellitus, dislipidemias e obesidade(5, 17, 23).
Hepatites crônicas: o diagnóstico histológico se aplica aos quadros
de comprometimento difuso do fígado por infiltrado inflamatório
portal, predominantemente linfocitário, com quantidade variável de
histiócitos e plasmócitos concomitantes. Além das alterações portais,
existem ainda graus variáveis de lesões parenquimatosas. As formas
mais freqüentes são as hepatites crônicas virais (VHB e VHC),
hepatites auto-imunes, hepatites crônicas por drogas e os distúrbios
genéticos, como a doença de Wilson(16, 35).
Os casos apresentando concomitância de marcadores histológicos dos dois padrões
foram classificados de acordo com as características predominantes.
Apenas 1 dos 35 casos não pôde ser classificado, mesmo após a avaliação dos
dados clínicos disponíveis quanto ao processo etiológico da cirrose, por
apresentar características de ambos os grupos de maneira equivalente.
Análise sorológica
Entre os pacientes previamente internados no Hospital das Clínicas da FMUSP
(HC-FMUSP) e cujos dados do prontuário estavam disponíveis, foi anotado o
resultado da pesquisa de AgHBs, indicando infecção presente pelo VHB, e anti-
VHC, marcador indireto de infecção pelo VHC. Na ausência destes dados do
prontuário, a pesquisa de antígeno AgHBs no tecido hepático foi efetuada pelo
sistema imunoistoquímico da streptavidina-peroxidase (LSAB+, Dako, EUA).
Ingestão alcoólica
A presença de ingestão alcoólica foi pesquisada nos dados do prontuário, quando
disponível, ou através de entrevista realizada pelos profissionais do SVOC-SP
com os familiares dos indivíduos necropsiados, como procedimento padrão do
serviço. Considerou-se etilismo a ingestão média diária acima de 40 g de álcool
etílico para homens e de 20 g para mulheres, conforme preconizado por COATES et
al.(9).
Análise da ocorrência de complicaçõesdo processo cirrótico:
A ocorrência de complicações da cirrose foi pesquisada no prontuário, no caso
de pacientes previamente internados no HC-FMUSP, ou através do atestado de
óbito, no caso de pacientes que não dispunham de prontuário médico. Para tais
comparações, foram excluídos os casos nos quais não foi possível esclarecer tal
ocorrência.
Histologia
Cortes histológicos de 4 µm do material coletado previamente fixado em solução
de formalina a 10% e incluído em parafina foram corados pelos métodos da
hematoxilina e eosina, tricrômico de Masson, impregnação pela prata pelo método
de Gomori e reação pelo Picro-Sirius(21, 22)para avaliação de matriz extra-
celular, além da coloração de Perls para pigmentos.
Também foram preparadas lâminas para realização da reação imunoistoquímica com
anticorpo dirigido contra o antígeno endotelial, clone CD34(13, 18, 27), clone
Q-Bend (Dako, EUA), (com amplificação pelo sistema streptavidina-peroxidase
LSAB+, Dako, EUA), com objetivo de identificar células endoteliais, quer em
artérias ou veias pré-existentes, quer em vasos septais neoformados. Tal reação
demonstra também, com especial precisão, o delineamento contínuo de endotélio
nos sinusóides capilarizados.
Análise semi-quantitativa
A análise semi-quantitativa dos vasos foi feita atribuindo-se graus de 0 a 4
(ausente, quantidade muito pequena, pequena, moderada e abundante) por dois
observadores diferentes em cada caso.
Quantificação
A análise quantitativa dos vasos foi feita por meio de contagem manual
realizada por cinco observadores instruídos de maneira equivalente. Em cada
lâmina foram analisados 15 campos aleatórios, utilizando objetivas de 20x
(aumento total de 200x) de cada um dos compartimentos definidos (septo e
parênquima). Os valores encontrados foram divididos em quartis e submetidos a
análise estatística.
Avaliação imunoistoquímica da vascularização
Em cada caso foram analisados 15 campos aleatórios sob aumento total de 200x,
sendo analisados de modo compartimentalizado os septos, onde foram pesquisados
neovasos e a região do parênquima hepático, onde foram pesquisados os
sinusóides capilarizados. Foram adquiridas imagens digitais através de uma
câmera JCV TK-C1380 Color Vídeo - câmera acoplada a um microscópico Leica DMR e
realizada a análise morfométrica computadorizada de imagens utilizando-se o
software Image Pro Plus© 4.1.
A densidade dos vasos foi expressa como a razão entre o número de vasos corados
e a área total dos septos ou parênquimas mensurados (vasos/µm2). Foi analisada
ainda a contagem do número de vasos presentes em cada um dos campos analisados
(Figuras_1 e 2)
Análise estatística
Os dados foram submetidos a análise estatística utilizando o Software SPSS 13.0
(SPSS inc®). Os dados quantitativos foram avaliados utilizando-se o teste t de
Student ou Mann-Whitney na dependência de se mostrarem paramétricos ou não. Os
dados categóricos e semiquantitativos foram avaliados através do teste do Qui
ao quadrado (c2). Correlações diretas foram obtidas através do coeficiente de
correlação de Pearson ou Spearman, na dependência da distribuição da amostra.
Foi estabelecido o nível de significância estatística para P<0,05.
RESULTADOS
1) Caracterização da casuística
O estudo teve por base 35 casos, 27 (77,14%) do sexo masculino, sendo a média
de idade de 57,6 anos.
A padronização anatomopatológica definiu os grupos das hepatites crônicas (22
casos ou 62,86%) e das esteatohepatites (12 casos ou 34,28%) (Figura_3). Apenas
um caso (2,86%) não foi alocado em qualquer destes grupos por apresentar
eqüitativamente características de ambas as classes. Dentre estes casos, apenas
aqueles cujos dados clínicos e epidemiológicos puderam ser levantados foram
incluídos nas análises descritas a seguir.
Em 24 casos foi possível obter informes sorológicos, sendo que destes, 12
(50,00%) mostraram-se positivos para VHC, 1 dos quais com co-infecção pelo VHB.
Infecção exclusiva pelo VHB foi detectada em 2 casos (8,33%) e os 10 restantes
(41,67%) mostraram-se negativos. Os 11 casos sem dados sorológicos foram
previamente testados para a presença do AgHBs no tecido por imunoistoquímica,
todos com resultados negativos.
Dezesseis casos (47,06%) apresentavam história positiva para etilismo, 16
(47,06%) história negativa, não tendo sido possível a obtenção deste informe em
2 casos (5,88%).
Entre os casos previamente selecionados, foram encontrados macronódulos em 22
casos (62,86%), sendo 8 diagnosticados como nódulos macroregenerativos ou como
nódulos displásicos e 13 como carcinomas hepatocelulares. Achado digno de nota
foi o encontro de um caso de colangiocarcinoma, em paciente com cirrose
associada à esteatohepatite. Em um dos casos de CHC, surpreendeu-se a
concomitância de carcinoma epidermóide de base de língua metastático no fígado
cirrótico.
A análise conjunta dos prontuários e da necropsia permitiu o estudo de
complicações da cirrose em 29 casos. Destes, a hipertensão portal isolada
ocorreu em 8 casos (27,59%) e a insuficiência hepatocelular isolada em 5 casos
(17,24%). Havia registro de ambas em 12 casos (41,38%), estando ausentes em
outros 4 casos (13,79%) (Figura_4). Para os casos que não apresentavam sinais
de hipertensão portal ou insuficiência hepatocelular no momento do óbito, as
causas de morte foram broncopneumonia (dois casos) e sepse (dois casos, sendo
um decorrente de apendicite supurada e outro de pancreatite aguda
necrohemorrágica).
2) Análise conjunta dos dados referentes ao parênquima
A quantidade de vasos no parênquima em 15 campos de 200x, apresentou mediana de
4,03 (0,20-9,20), sendo que sua densidade (número de vasos corrigido pela área
de parênquima analisada) teve mediana de 7,01 x 10-5 vasos /µm2 (0,37 x 10-5-
17,59 x 10-5).
Houve correlação direta significante (P = 0,032) entre a semiquantificação dos
vasos pelo CD 34 e o estudo morfométrico da densidade de vasos do parênquima
hepático. Entretanto, a correlação entre a semiquantificação dos vasos com o
número absoluto esteve no limite da significância estatística (P= 0,072)
(Figura_5).
Dentre os casos estudados, 25 possuíam alguma complicação relacionada à
cirrose. Estes casos foram correlacionados com os dados semiquantitativos do CD
34 no parênquima hepático, não tendo sido observado nenhum resultado
significativo. Procurou-se, então, estabelecer correlação entre a densidade e o
número absoluto de vasos do parênquima com alguma das complicações e com cada
uma delas individualmente, não tendo sido encontrado nenhum resultado
significativo (Tabela_1).
3) Análise conjunta dos dados referentes aos septos
A análise dos septos demonstrou que a mediana da quantidade de vasos neste
segmento foi de 6,67 (0,20-15,60), enquanto sua densidade foi de 16,44 x 10-
5 vasos /µm2 (0,11 x 10-5- 30,97 x 10-5).
De modo similar aos achados encontrados no parênquima, os elementos
semiquantitativos dos septos fibrovasculares demonstraram correlação direta
estatisticamente significante apenas com o número absoluto de vasos (P =
0,013), mas não com a densidade (P = 0,102) (Figura_6).
Os casos com alguma complicação também não apresentaram diferença
estatisticamente significante quando comparados às seguintes variáveis nos
septos fibrovasculares: análise semiquantitativa pelo CD 34, densidade e número
absoluto de vasos. Cada uma destas complicações ainda foi correlacionada
individualmente com o número absoluto e a densidade de vasos dos septos, não
tendo sido encontrado nenhum resultado significativo (Tabela_2).
4) Comparação da neovascularização nas cirroses originadas em esteatohepatites
ou em hepatites crônicas
Os casos de cirrose previamente agrupados conforme originados em hepatite
crônica ou em esteatohepatite foram comparados entre si em relação ao número e
a densidade de vasos no parênquima e nos septos.
No parênquima, houve densidade significativamente maior (P = 0,016) de vasos na
hepatite crônica [10,27 x 10-5vasos /µm2 (3,73 x 10-5- 17,6 x 10-5vasos /µm2]
em relação à esteatohepatite [4,36 x 10-5(0,921 x 10-6/11,1 x 10-5)], assim
como maior contagem absoluta de vasos nos casos com esta causa [hepatite
crônica: 5,6 (0,20-9,20); esteatohepatite: 2,33 (0,67-5,93), P = 0,016] (Tabela
1).
Nos septos fibrosos dos casos de hepatite crônica, a mediana do número absoluto
de vasos encontrados foi 7,33 (1,67/5,60), sendo que a mediana de sua densidade
foi de 1,9 x 10-4µm2(0,379 x 10-4/3,09 x 10-4). Em relação aos casos de
esteatohepatite, encontraram-se 6,07 (0,2/8,6) vasos por campo analisado, o que
representa uma densidade cuja mediana é de 1,5 x 10-4 vasos/µm2 (0,112 x 10-4/
2,08 x 10-4). A comparação entre os dois grandes grupos cuja origem era a
cirrose hepática com as variáveis número e densidade de vasos no septo não
mostrou diferença estatisticamente significante (P = 0,117 e P = 0,105) (Tabela
2).
Os casos foram avaliados adicionalmente quanto à história positiva ou negativa
para etilismo. No grupo das esteatohepatites, obtiveram-se quatro casos com
história de etilismo anterior e quatro que o negavam. No grupo de hepatites
crônicas, obteve-se história positiva de etilismo em 10 casos e informe de
ausência do mesmo em 11. A história de etilismo não se correlacionou com a
densidade de vasos, quer no fígado como um todo, quer em cada compartimento
(parênquima ou septo) individualizado (P = 0,839 e P = 0,874).
DISCUSSÃO
A cirrose hepática é responsável por elevada morbimortalidade, tanto no Brasil
como em todo o mundo. A literatura tem valorizado, principalmente, a extensão
e, por vezes, os padrões de deposição de matriz extra-celular, em especial dos
colágenos, daí o jargão " grau de fibrose" , extremamente usado na avaliação de
estádio das lesões, como na própria classificação de hepatites crônicas pelo
grupo francês METAVIR(2), que gradua as hepatites de F0 (arquitetura normal)
até F4 (cirrose).
É importante reconhecer que grande parte das complicações da cirrose deve-se às
alterações microvasculares observadas tanto como aumento do número, do calibre
ou da luz dos vasos septais, quanto como capilarização dos sinusóides no
parênquima, com conseqüente formação de curto-circuitos (" shunts" ) artério-
venosos(11). Situações como estas, bem como alterações na permeabilidade e
perfusão dos sinusóides ou presença de trombose vascular, levam à hipóxia que
por sua vez, culmina com a formação de neovasos já em fases iniciais da doença.
Além disso, a hipóxia hepática agrava a progressão da fibrose, gerando um
círculo vicioso que ocasiona ruptura no processo normal de reparação tecidual,
levando à progressão da doença para estágios terminais(10).
Os trabalhos que se propuseram a estudar as alterações microvasculares do
fígado cirrótico através de marcadores histoquímicos e imunoistoquímicos são
relativamente escassos, não apresentando padrão homogêneo que pudesse validar
os modos de semiquantificar ou de propriamente quantificar tais alterações na
cirrose hepática(10, 32, 38). A proposta do presente estudo foi avaliar tais
alterações através do método imunoistoquímico mediante detecção do antígeno
endotelial CD 34, método amplamente utilizado como marcador endotelial em
diversas outras entidades patológicas, especialmente nas neoplasias(19, 34).
No presente estudo, assim como observado em outros órgãos, a utilização da
detecção do CD 34 como método quantitativo e semiquantitativo em fígados
cirróticos mostrou-se adequada para a avaliação de alterações microvasculares.
O uso de escala semiquantitativa mostrou-se útil na avaliação dos vasos do
parênquima hepático, com relação direta com a densidade de vasos pela
quantificação morfométrica. No entanto, nos septos, a grande variação de
espessura do tecido conjuntivo tornou-se uma variável de confusão, resultando
em correlação positiva da análise semiquantitativa com o número absoluto de
vasos nos septos, mas não com sua densidade.
Com relação ao padrão microscópio da vasculatura hepática, são raros os
trabalhos que abordam este tema sob o prisma da histopatologia. Trabalhos em
animais têm mostrado que amostras hepáticas in vivo são semelhantes às
postmortem em relação à atividade necroinflamatória, fibrose(36) e
vascularização(28). Assim, apesar da literatura escassa, parece adequado o
estudo da microvascularização hepática baseado em necropsias.
Sabe-se que as principais causas de morte da cirrose são ligadas a fenômenos
circulatórios, principalmente relacionadas a complicações da hipertensão
portal, como a presença de ascite, esplenomegalia e circulação colateral. As
alterações microvasculares do fígado cirrótico, juntamente com lesões
fibróticas, representam o componente mecânico na patogênese da hipertensão
portal, implicando possível relação destas com as principais complicações da
doença(12).
No entanto, a proposta do presente estudo de correlacionar as complicações da
cirrose (insuficiência hepática ou hipertensão portal) com a presença de
neovascularização, não demonstrou associações estatisticamente significantes.
Este dado pode ser resultante da escolha desta casuística, visto que se
planejou aqui comparar apenas casos de necropsias de pacientes com cirrose,
sempre em estágio avançado, em sua maioria com o próprio óbito decorrente das
complicações da cirrose. Tal seleção permitiu constituir um grupo relativamente
homogêneo, no qual se caracterizaram as alterações microvasculares gerais da
cirrose, mas tal seleção de casos pode ter sido responsável por não terem sido
refletidas todas as fases de evolução da doença. Uma alternativa para futuro
estudo, mais concentrado na fisiopatologia das complicações, será a seleção
criteriosa de pacientes cujo óbito não apresente relação com a cirrose
hepática, a fim de se poder registrar adequadamente as alterações vasculares em
cada apresentação clínico-funcional da cirrose.
Na ótica dos autores, o principal achado do presente trabalho foi a
demonstração de que a neoformação vascular no parênquima é significativamente
maior nas cirroses associadas a hepatites crônicas que naquelas de padrão de
esteatohepatite.
O significado fisiopatológico da angiogênese associada à hepatite viral crônica
ainda é desconhecido. MEDINA et al.(25)propuseram recentemente que a
neoformação vascular apresenta papel benéfico na reparação tecidual e
regeneração pós-dano hepático, podendo, por outro lado, representar possível
fator de risco na progressão para CHC em pacientes com hepatite C crônica. Os
mecanismos moleculares envolvidos no processo ainda não estão completamente
identificados. A produção local de óxido nítrico (ON) como resultado de uma
hiperexpressão de ON-sintase, pode participar do processo induzindo
vasodilatação. O aumento de expressão dos fatores de crescimento de hepatócitos
e de endotélio vascular recentemente detectado nas hepatites B e C, também
contribui aumentando a permeabilidade vascular; o VEGF ainda parece atuar
mediando a vasodilatação induzida pelo ON(26). Ainda, fatores pró-inflamatórios
e pró-fibrogênicos, além do próprio vírus, induzem à produção de MMPs (matrix
metalloproteinase), também envolvidas no processo de angiogênese(26).
MEDINA et al.(25) mostraram correlação entre neovascularização e expressão de
fator de crescimento de endotélio vascular, enquanto SHIMODA et al.(33)
encontraram uniformidade na expressão tecidual deste fator nos grupos com
esteatohepatite, hepatite crônica por vírus C e carcinoma hepatocelular. O
presente estudo, no entanto, observou aumento significativo de
neovascularização no parênquima dos casos com hepatite viral crônica
comparativamente aos casos com esteatohepatite. Tal diferença pode indicar a
presença de outros fatores envolvidos no processo de angiogênese em cirroses
causadas por hepatites crônicas, não incluídos neste estudo, e que deverão ser
motivo de novas pesquisas.
Procurou-se ainda, através da comparação entre a presença/ausência de etilismo
em cada um desses grupos, observar se este seria fator com influência direta na
angiogênese do fígado cirrótico, e não se obteve resultado significativo. Este
dado confirma a hipótese dos autores de que o padrão de lesão da cirrose é o
fator mais relevante no processo de neovascularização.
Ao contrário da fibrose, que parece ser reversível, distorções arquiteturais e,
principalmente, anastomoses arteriovenosas nos septos fibrosos parecem regredir
de forma tão demorada que, do ponto de vista de sobrevida humana, podem ser
considerados irreversíveis(11). Dessa forma, uma nova perspectiva que se abre é
o possível valor prognóstico do estudo do rearranjo da microcirculação hepática
através de marcadores como o CD34. Futuros estudos conjuntos clínicos e
anatomopatológicos devem abordar tal possibilidade.
AGRADECIMENTOS
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela
Bolsa de Iniciação Científica.