Relação lipase/amilase nas pancreatites agudas de causa biliar e nas
pancreatites agudas/crônicas agudizadas de causa alcoólica
ARTIGO ORIGINALORIGINAL ARTICLE
Relação lipase/amilase nas pancreatites agudas de causa biliar e nas
pancreatites agudas/crônicas agudizadas de causa alcoólica
Lipase/amylase ratio in biliary acute pancreatitis and alcoholic acute/acutized
chronic pancreatitis
Ricardo Custódio PachecoI; Luiz Carlos Marques de OliveiraII
IDepartamentos de Cirurgia
IIClínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de
Uberlândia, Uberlândia, MG
Correspondência
INTRODUÇÃO
O diagnóstico de pancreatite aguda (PA) habitualmente é feito pelo quadro
clínico de dor no andar superior do abdome, aumento dos níveis séricos de
amilase e/ou lipase e confirmado por achados sugestivos em exames de imagem,
como ao ultra-som (US) e/ou tomografia computadorizada (TC) de abdome. No
entanto, estes exames podem não definir a causa da PA, exceto se forem
observados cálculos biliares, principalmente na ausência de outras causas
conhecidas de PA. Em nosso meio, as causas mais comuns de pancreatite aguda e
pancreatite crônica agudizada (PCA) são a litíase biliar e o alcoolismo,
respectivamente(16). O reconhecimento da causa da pancreatite é importante para
a abordagem terapêutica. O paciente com PA biliar (PAB) poderá, algumas vezes,
se beneficiar com a esfincterotomia endoscópica e, sempre que possível, deverá
ser submetido a colecistectomia antes da alta hospitalar para se evitar a
recurrência de PA(15). O paciente etilista necessitará de aconselhamento e/ou
outra forma de tratamento para não voltar a beber. Essas diferenças nas
abordagens terapêuticas justificam a busca por exames não-invasivos que possam
auxiliar a história clínica e os exames de imagem no diagnóstico diferencial
destas duas causas de pancreatite.
Para diferenciar a causa alcoólica de outras causas de PA, GUMASTE et al.(5),
em 1991, propuseram que, na admissão do paciente no hospital, a existência de
uma relação lipase/amilase (L/A) maior do que 2 seria característica da PA
alcoólica. Posteriormente, esses mesmos autores relataram que para o
diagnóstico da PA alcoólica a determinação da lipasemia seria melhor do que a
da amilasemia(6). Os estudos que foram realizados a seguir mostraram resultados
conflitantes; enquanto em alguns se confirmou que a relação L/A era útil em
diferenciar a causa alcoólica de outras causas(7, 10, 14, 23), em outros(1, 3,
9, 11, 12, 17, 18, 20, 21) foi observado que essa relação não apresentava alta
sensibilidade e/ou especificidade, o que não justificaria o seu uso com essa
finalidade.
O objetivo do presente estudo foi verificar a validade da relação L/A em
diferenciar a causa alcoólica da biliar na PA/PCA, na admissão do paciente no
serviço de emergência.
MÉTODO
Foram avaliados 38 pacientes com PA ou PCA, divididos em dois grupos. O grupo I
foi composto por nove pacientes com PA alcoólica, todos do gênero masculino,
com idade média e desvio padrão de 39,8 ± 7,0 anos, e intervalo de 30 a 47
anos. Desses, seis tinham evidências à TC de pancreatite crônica, e por isso
tiveram o diagnóstico de PCA; dois não tinham evidências tomográficas de
pancreatite crônica e o outro faleceu antes ser submetido a esse exame. O grupo
II foi constituído por 29 pacientes com PAB, sendo 8 homens e 21 mulheres, com
idade média e desvio padrão de 43,6 ± 19,9 anos, e intervalo de 17 a 85 anos.
Os pacientes com sintomatologia no máximo há 48 horas, foram avaliados
consecutivamente no Pronto Socorro do Hospital de Clínicas da Universidade
Federal de Uberlândia, MG, e incluídos no estudo após as confirmações dos
diagnósticos de PA e de sua causa. Os diagnósticos de PA ou de PCA basearam-se
no quadro clínico de dor intensa no andar superior do abdome, com ou sem
elevações dos níveis séricos de amilase e/ou de lipase, e foram sempre
confirmados através de US e/ou TC de abdome ou durante laparotomia exploradora.
Para o exame ultra-sonográfico de abdome foram utilizados aparelhos com análise
espectral Doppler da marca Siemens modelo Sonoline Versa PRO ADC e transdutores
de 3,5 MHz, e os critérios para o diagnóstico de PA se basearam no aumento
volumétrico do pâncreas, diminuição de sua ecogenicidade e/ou presença de
coleção líquida peripancreática ou retroperitonial(4). As TC foram realizadas
com aparelhos Somaton ART ou ARTX da marca Siemens e os critérios considerados
para o diagnóstico de PA incluíam edema localizado ou difuso do pâncreas,
irregularidade do contorno pancreático, borramento da gordura peripancreática,
áreas heterogêneas com alterações da densidade no parênquima pancreático e
presença de coleções líquidas peripancreáticas e/ou retroperitoniais(2). Para o
diagnóstico de PA durante a laparotomia, os critérios basearam-se,
macroscopicamente, no aumento do volume e da consistência do pâncreas, com
edema difuso ou localizado, acompanhado ou não de hemorragia, esteatonecrose
peripancreática, necrose focal ou difusa do parênquima e presença de coleções
líquidas peripancreáticas e/ou retroperitoniais e/ou intraperitoniais(19). O
diagnóstico de pancreatite crônica ao exame tomográfico foi feito pela
observação de atrofia glandular e/ou presença de calcificações e/ou dilatação e
saculações dos ductos pancreáticos(8).
A PA foi considerada como sendo de causa biliar quando se detectava colelitíase
e/ou coledocolitíase nos exames de imagem ou durante laparotomia, e ausência de
outras causas conhecidas de PA. O diagnóstico de PA/PCA alcoólica baseou-se na
história de elevada ingestão etílica e ausência de litíase biliar ao US, além
de outras causas de PA; todos os pacientes com PA/PCA alcoólica eram etilistas
crônicos e ingeriam mais de 80 g de etanol por dia, por período maior que 6
anos. Nenhum dos pacientes tinha insuficiência renal e foram excluídos deste
estudo aqueles em que se teve dúvida do diagnóstico de PA ou de sua causa.
As amostras de sangue para as determinações da amilasemia e da lipasemia foram
coletadas na admissão do paciente no Pronto Socorro. As amilasemias foram
determinadas utilizando-se o método colorimétrico enzimático com 2-cloro-4-
nitrofenil-b-D-maltoheptaoside (Cl-PNP-G7), com kits fabricados pela Roche
Diagnostics GmbH, Mannhein, Alemanha, para aparelhos Cobas Integra. As
determinações das lipasemias foram realizadas utilizado-se o método
turbidimétrico com substrato de trioleina, com kits Unimate 3 LIP, fabricados
pela Roche Diagnostics GmbH, Mannhein, Alemanha, para aparelhos Cobas Mira.
Para o cálculo da relação L/A de cada um dos pacientes, inicialmente foram
divididos os valores absolutos encontrados para a amilasemia e para a lipasemia
pelo respectivo limite superior de referência (LSR) de cada um dos testes (200
U/L e 190 U/L, respectivamente). Quando os valores da amilasemia ou da
lipasemia estavam dentro da faixa de normalidade, considerou-se que sua divisão
pelo LSR era igual a um (1,0). Posteriormente, o resultado encontrado para a
lipasemia foi dividido por aquele da amilasemia, obtendo-se o resultado final
da relação. De cada paciente ou de familiares foi obtido o consentimento
informado para divulgação dos dados encontrados. Para o cálculo estatístico
foram utilizados os testes não-paramétricos de Mann-Whitney e o exato de
Fisher.
RESULTADOS
No grupo I, PA/PCA alcoólica, foram observados níveis de amilasemias que
variaram entre 283 e 2.902 U/L, com média e desvio padrão (DP) de 1.282 ± 777
U/L. Esses valores foram estatisticamente semelhantes aos do grupo II, PAB, no
qual os níveis das amilasemias variaram entre 59 e 5.000 U/L, com média (DP) de
1.878 ± 1.319 U/L. As lipasemias no grupo I, com valores mínimo e máximo de 37
e 10.900 U/L, respectivamente, e média (DP) de 4.814 ± 3.670 U/L, também foram
semelhantes às do grupo II, no qual as lipasemias variaram entre 94 e 9.180 U/
L, com média (DP) de 2.697 ± 2.391 U/L. A média (DP) das relações L/A do grupo
I (4,4 ± 3,6) foi maior (P<0,05) do que a do grupo II (2,2 ± 2,2) (Tabela_1).
Relação L/A maior do que três ocorreu mais freqüentemente (P<0,05%) no grupo I
(em seis dos nove pacientes - 66,7%) do que no grupo II (em 7 dos 29 pacientes
- 24,1%), e diferenciou o grupo I do grupo II com sensibilidade de 67%,
especificidade de 76%, valor preditivo positivo de 46% e valor preditivo
negativo de 88% (Tabela_2). Relação L/A >3 foi observada em quatro dos seis
pacientes com diagnóstico de pancreatite crônica à TC de abdome e em dois nos
quais este diagnóstico não foi confirmado. Quando se comparou as médias das
amilasemias, lipasemias e relação L/A entre os gêneros masculino (1.298 ± 824
U/L, 2.618 ± 2.682 U/L e 2,4 ± 1,8; respectivamente) e feminino (2.100 ± 1.419
U/L, 2.728 ± 2.341 U/L e 2,2 ± 2,4; respectivamente), no grupo II, foi
observado que não havia diferença estatisticamente significante entre elas.
DISCUSSÃO
Os resultados do presente estudo mostram que não foi possível diferenciar as
causas alcoólica ou biliar da PA com relação aos níveis das amilasemias ou
lipasemias. A média das amilasemias do grupo com PAB foi discretamente superior
àquela do grupo com PA/PCA alcoólica, enquanto que, a média das lipasemias do
grupo com PA/PCA alcoólica foi quase o dobro daquela observada no grupo com
PAB. Apesar disso, a diferença entre as médias das lipasemias nos dois grupos
não foi estatisticamente significante, provavelmente, devido à variabilidade
observada entre os valores individuais desta enzima, o que pode ser percebido
pelo grande desvio padrão encontrado em ambos os grupos. Estes resultados são
semelhantes àqueles encontrados por GUMASTE et al.(6), quando descreveram que a
determinação da lipasemia é melhor do que a da amilasemia para o diagnóstico da
PA alcoólica. No entanto, também já foi descrito que na PA alcoólica o aumento
da amilasemia é significantemente mais baixo do que naquelas de outras causas
(5, 23) e, ainda, que tanto a amilasemia quanto a lipasemia estariam mais
elevadas na PA de causa não-alcoólica do que naquelas de causa alcoólica(9, 18)
e isto, provavelmente, seria decorrente de lesões crônicas no pâncreas
ocasionadas pelo álcool.
Desde o estudo inicial de GUMASTE et al.(5), no qual observaram que uma relação
L/A >2 seria útil em diferenciar a causa alcoólica da não-alcoólica na PA, com
altas sensibilidade (91%), especificidade (78%) e valor preditivo positivo
(85%), outras investigações foram conduzidas nesse sentido e apresentaram
resultados conflitantes. Enquanto em algumas se confirmou a importância desta
relação(7, 14, 23), em outras foram encontradas baixas sensibilidade e/ou
especificidade(1, 3, 9, 11, 12, 17, 18, 20, 21) e concluíram que a relação L/
A não seria útil na diferenciação das causas das pancreatites agudas. GUMASTE
(7), revendo alguns trabalhos, descreveu que apesar da relação L/A não ser um
teste padrão-ouro na diferenciação da causa da PA, conclui que uma relação L/
A <2 seria improvável indicar PA alcoólica, sendo sugestiva de causa não-
alcoólica; relação L/A >3 mais provavelmente se associaria à causa alcoólica e
uma taxa entre 2 e 3 estaria em faixa de não especificidade. Outros
investigadores observaram que a relação L/A poderia ser útil na diferenciação
das causas da PA desde que utilizada em conjunto com alterações concomitantes
de outros exames laboratoriais, como a aspartato aminotransferase (AST)(10), ou
ainda, AST, alanina-aminotransferase (ALT), fosfatase alcalina e volume
corpuscular médio das hemácias, em um sistema de escore(22).
No presente estudo foi observado que tanto a média das relações L/A, quanto a
freqüência da relação L/A >3 foram significantemente maiores no grupo I do que
no grupo II, no entanto, a sensibilidade (67%), a especificidade (76%) e o
valor preditivo positivo (46%) não foram tão altos quantos aqueles descritos
por GUMASTE et al.(5).
As explicações para esta maior freqüência da relação L/A >3 na PA/PCA alcoólica
do que na PAB, e ainda, para os diferentes resultados encontrados na
literatura, não estão claras. No estudo de GUMASTE et al.(5) todos os pacientes
com PA alcoólica eram homens e o grupo com PA não-alcoólica era formado somente
por mulheres, o que levou alguns autores a supor que a relação L/
A diferenciasse PA entre homens e mulheres. No entanto, os resultados do
presente estudo mostram que as médias das amilasemias, das lipasemias e das
relações L/A foram semelhantes entre os gêneros, masculino e feminino, o que já
havia sido observado em outros trabalhos(1, 11, 18) e, portanto, esta não seria
a razão para as diferenças descritas anteriormente. Também já foi descrito que
a relação L/A não diferencia PA leve de PA grave, assim como não é influenciada
pelas idades dos pacientes(18).
Outro fator a ser considerado é o intervalo de tempo entre o início dos
sintomas da PA e o momento da coleta de sangue para as determinações da
amilasemia e da lipasemia. Na evolução dessa doença, a amilasemia volta ao
nível normal mais rapidamente do que a lipasemia(16), portanto, a coleta de
sangue para as determinações dessas enzimas em fases mais tardias, no curso da
PA, pode ser motivo para se encontrar elevada relação L/A. Para se evitar esse
viés, somente foram avaliados pacientes que tinham sintomatologia há menos de
48 horas, cuidado que também foi tomado na maioria dos trabalhos citados
anteriormente.
Seis dos nove pacientes com PA alcoólica tinham sinais sugestivos de
pancreatite crônica à TC, ou seja, a PA foi provavelmente agudização de um
processo crônico; dois pacientes não tinham sinais tomográficos de pancreatite
crônica e um outro não foi avaliado posteriormente porque faleceu durante a
internação. Esses achados são concordantes com aqueles descritos em estudo
recente(13), no qual se observou que a PA alcoólica se desenvolve em pâncreas
já comprometido com pancreatite crônica. Acredita-se que as fibroses e a
diminuição do tecido acinar, decorrentes das alterações crônicas do pâncreas
ocasionadas pelo álcool, possam por mecanismos fisiopatológicos ainda não
esclarecidos, prejudicar mais a síntese pancreática da amilase do que a da
lipase(1). Isso poderia ser melhor observado durante o episódio de agudização
da pancreatite crônica, e ser o motivo pelo qual, em alguns estudos, a relação
L/A >3 foi mais freqüente em pacientes com PA alcoólica do que naqueles com PA
biliar. Nesse sentido, o fato de dois dos pacientes do grupo I, na presente
casuística, não possuírem sinais de pancreatite crônica à TC, mas terem relação
L/A >3, pode ser indício de que eles já tenham tido lesões pancreáticas
crônicas decorrentes do alcoolismo. As alterações crônicas do pâncreas
produzidas pelo álcool poderiam explicar, inclusive, porque ocorrem aumentos
discretos da amilasemia e da lipasemia em alguns grupos de pacientes com PA
alcoólica(17). No entanto, nos trabalhos anteriores não há descrições de que os
pacientes com PA alcoólica tivessem pancreatite crônica, como foi agora
observado neste estudo. Para se comprovar esta hipótese, futuras investigações
serão necessárias, avaliando inclusive pacientes com pancreatite crônica de
outras causas.
CONCLUSÕES
Os resultados do presente estudo permitem concluir que, na população estudada:
1) não foi possível diferenciar PAB de PA/PCA alcoólica em relação às
amilasemias e às lipasemias; 2) a relação L/A >3 é mais freqüente em pacientes
com PA/PCA alcoólica do que naqueles com PAB, e pode ser útil na diferenciação
dessas duas causas de pancreatite.