Validade da amilasemia e da lipasemia no diagnóstico diferencial entre
pancreatite aguda/crônica agudizada e outras causas de dor abdominal aguda
ARTIGO ORIGINALORIGINAL ARTICLEINTRODUÇÃO
A amilasemia e a lipasemia podem estar elevadas em várias doenças abdominais
que cursam com abdome agudo(7, 24, 45). No entanto, acredita-se que, quando há
aumento destas enzimas acima de 3 vezes o limite superior de referência (LSR),
associado a quadro clínico característico (dor abdominal, hipersensibilidade,
náuseas e vômitos), o diagnóstico de pancreatite aguda (PA) deve ser
considerado(8, 18, 28). Os estudos avaliando, concomitantemente, amilasemia e
lipasemia para o diagnóstico da PA, apresentam resultados conflitantes com
relação à sensibilidade e a especificidade de cada uma dessas enzimas. Além
disso e de acordo com alguns autores, a determinação simultânea da amilasemia e
da lipasemia aumenta a sensibilidade no diagnóstico da PA(9, 16, 24, 27), mas
outros não observaram vantagem nela(44, 46).
Não se encontrou nenhum estudo brasileiro avaliando a validade da amilasemia e
da lipasemia no diagnóstico da PA. O objetivo deste trabalho foi avaliar o
comportamento e a validade destas enzimas nos diagnósticos diferenciais entre
PA e doenças das vias biliares, úlcera gastroduodenal perfurada e apendicite
aguda. Estas patologias foram escolhidas por serem mais freqüentes e, com
exceção da apendicite aguda, terem quadro clínico semelhante ao da PA.
CASUÍSTICA E MÉTODO
Este estudo prospectivo foi realizado no Hospital de Clínicas da Universidade
Federal de Uberlândia (HC-UFU), Uberlândia, MG, no período de novembro de 1998
a novembro de 2000. Foram incluídos 194 indivíduos, sendo 99 do sexo masculino
e 95 do sexo feminino, com idade variando de 15 a 89 anos. Destes, 60 eram
assintomáticos e doadores do Hemocentro Regional de Uberlândia e os outros 134,
por queixas clínicas de dor abdominal aguda, foram atendidos no Pronto-Socorro
do HC-UFU e distribuídos nos seguintes grupos, de acordo com o diagnóstico:
Grupo I: 38 indivíduos portadores de PA ou pancreatite crônica agudizada (PCA),
sendo 17 do sexo masculino e 21 do feminino, com idade média (desvio padrão) de
42,4 ± 17,7 anos e intervalo de 17 a 85 anos. Destes, 29 eram de etiologia
biliar, 8 alcoólica e 1 idiopática. O diagnóstico foi confirmado através de
ultra-sonografia (USG), utilizando-se aparelhos com análise espectral Doppler
da marca Siemens, modelo Sonoline Versa PRO ADC e transdutores de 3,5 mHz, e/ou
tomografia computadorizada (TC) em aparelhos Somaton Art ou Artx da marca
Siemens e/ou durante laparotomia. Os critérios diagnósticos ultra-sonográficos
de PA foram baseados no aumento volumétrico do pâncreas, diminuição de sua
ecogenicidade e/ou presença de coleção líquida peripancreática ou
retroperitonial(13). Para a TC os critérios foram de edema localizado ou difuso
do pâncreas, irregularidade do contorno pancreático, borramento da gordura
peripancreática, áreas heterogêneas com alterações de densidade no parênquima
pancreático e presença de coleções líquidas peripancreáticas e/ou
retroperitoniais, associadas ou isoladas(4). Os critérios cirúrgicos basearam-
se, macroscopicamente, no aumento de volume e consistência do pâncreas com
edema difuso ou localizado, acompanhado ou não de hemorragia, esteatonecrose
peripancreática, necrose focal ou difusa do parênquima e presença de coleções
líquidas peripancreáticas e/ou retroperitoniais e/ou intraperitoniais(34).
Grupo II: 35 indivíduos com dor abdominal aguda por doenças das vias biliares
(colelitíase, coledocolitíase, com ou sem icterícia, e colecistite aguda),
confirmadas pelos dados clínicos e por USG e/ou TC, nos mesmos aparelhos
descritos no grupo I, e/ou laparotomia e que não mostraram sinais de PA.
Destes, 9 eram do sexo masculino e 26 do feminino, com idade média de 46,7 ±
18,3 anos e intervalo de 19 a 88 anos.
Grupo III: 17 indivíduos com úlcera gastroduodenal perfurada, confirmada
durante a laparotomia, sendo 9 do sexo masculino e 8 do feminino, com idade
média de 47,8 ± 12,0 anos e intervalo de 28 a 69 anos.
Grupo IV: 44 indivíduos com apendicite aguda, com confirmação diagnóstica por
laparotomia e exame anatomopatológico, sendo 33 do sexo masculino e 11 do
feminino, com idade média de 33,7 ± 17,8 anos e intervalo de 15 a 89 anos.
Grupo V (normais): formado por 60 indivíduos, sendo 31 do sexo masculino e 29
do feminino, com idade média de 33,6 ± 9,2 anos e intervalo de 19 a 56 anos.
Fizeram parte desse grupo indivíduos doadores de sangue do Hemocentro Regional
de Uberlândia que eram assintomáticos, não-etilistas e apresentavam sorologias
negativas para doença de Chagas, para os vírus da hepatite e da
imunodeficiência humana. Também não eram acometidos de dislipidemias e tinham
avaliação hepática normal. Este grupo foi estudado somente para avaliar os
limites de referência, principalmente para a lipase, cujo teste não é
padronizado no HC-UFU.
Para as determinações da amilasemia e lipasemia, duas amostras de sangue foram
colhidas de todos os indivíduos, de cada um dos grupos estudados, à admissão no
pronto-socorro, ou durante a entrevista no caso dos indivíduos do Grupo V.
Utilizou-se o método colorimétrico enzimático com 2-cloro-4-nitrofenil-b-D-
maltoheptaoside (Cl-PNP-G7), com kits fabricados pela Roche Diagnostics GmbH,
D-68298, Mannheim, Alemanha, para aparelhos Cobas Integra, e o método
turbidimétrico com substrato de trioleína, em kits Unimate 3 LIP, fabricados
pela Roche Diagnostics GmbH, D-68298, Mannheim, Alemanha, para aparelhos Cobas
Mira, respectivamente para a amilasemia e a lipasemia. A fim de se verificar o
comportamento destas determinações na evolução da PA, foi colhido soro também
nos 3º, 5º, 7º e 9º dias após a internação, exceto nos casos submetidos a
cirurgia naquela ocasião, naqueles cuja evolução clínica permitiu alta
hospitalar antes deste período, portanto com exames normais, e nos casos de
óbito. Para analisar a importância e a validade da amilasemia e da lipasemia no
diagnóstico da PA ou PCA, avaliaram-se sensibilidade, especificidade, valor
preditivo positivo (VPP) e valor preditivo negativo (VPN) dos testes
utilizados, no 1º dia de internação, comparando os valores encontrados no grupo
I (PA ou PCA) com os controles (doenças das vias biliares, úlcera
gastroduodenal perfurada e apendicite aguda). A sensibilidade de qualquer teste
é o quão freqüente ele é positivo na presença da doença e é calculada pela
relação entre os resultados verdadeiros positivos divididos pelos verdadeiros
positivos mais falso-negativos (verdadeiros positivos/todos com a doença). A
especificidade é definida como a capacidade de um teste para identificar
corretamente aqueles que não têm a doença e é calculada pela relação entre os
resultados verdadeiros negativos divididos pelos verdadeiros negativos mais
falso-positivos (verdadeiros negativos/todos sem a doença). O VPP é o quanto o
resultado positivo de um teste prediz o evento em questão e é calculado pela
relação entre os verdadeiros positivos divididos pelos verdadeiros positivos
mais falso-positivos (verdadeiros positivos/todos com teste positivo). O VPN é
o quanto o resultado negativo de um teste prediz a ausência da doença e é
calculado pela relação entre os resultados verdadeiros negativos divididos
pelos verdadeiros negativos mais falso-negativos (verdadeiros negativos/todos
com teste negativo)(2). Utilizaram-se valores acima e abaixo de cinco níveis de
corte (cut-off) para a amilasemia e a lipasemia, considerando apenas uma delas
elevada, e também ambas elevadas simultaneamente. Cada um dos indivíduos foi
informado sobre os objetivos do trabalho e obtido seu consentimento para ser
incluído neste estudo.
RESULTADOS
Os resultados mostraram que no 1º dia de internação, 37 pacientes (97%) do
Grupo I (PA ou PCA) tiveram amilasemia ou lipasemia acima do LSR e somente um
paciente apresentou as duas enzimas normais. Para o diagnóstico da PA ou PCA, a
sensibilidade da amilasemia (92%) e da lipasemia (92%) é alta quando se
considera qualquer aumento acima do LSR e diminui à medida que se aumenta o
nível de corte. Quando se considera a elevação da amilasemia ou da lipasemia,
também há uma diminuição da sensibilidade, à medida que se aumenta o nível de
corte, porém menos acentuada (Tabela_1). A especificidade elevou-se com o
aumento do nível de corte para a amilasemia e a lipasemia e para quando foi
considerada a amilasemia ou a lipasemia. A especificidade da amilasemia foi
sempre discretamente superior à da lipasemia para todos os níveis de corte e
foi maior também do que a especificidade encontrada, quando se considera uma ou
outra enzima, também para todos os níveis de corte (Tabela_1). O VPP elevou-se
com o aumento do nível de corte, seja isoladamente para a amilasemia e para a
lipasemia, considerando a amilasemia ou lipasemia e também para amilasemia e
lipasemia. Foi numericamente superior para a amilasemia tanto em relação à
lipasemia, quanto também quando se considerou a elevação de uma ou outra
enzima, para todos os níveis de corte. Quando foram comparadas as elevações da
amilasemia com aquelas da amilasemia e lipasemia, observou-se que o VPP foi
semelhante entre elas (Tabela_1). O VPN diminuiu discretamente com o aumento do
nível de corte para a amilasemia, a lipasemia e praticamente não diminuiu
quando se considerou uma ou outra enzima (Tabela_1).
Analisando os níveis séricos da amilase e da lipase na evolução das
pancreatites nos dias subseqüentes à internação, notou-se que a lipasemia, de
modo geral, permaneceu elevada por mais tempo que a amilasemia. A queda dos
níveis da amilasemia foi mais acentuada e mais rápida que a da lipasemia; esta
última, em alguns casos, manteve valores elevados até o último dia do estudo
(9º dia).
No grupo II (doenças das vias biliares), 12 (34,3%) dos 35 pacientes avaliados
tiveram hiperamilasemia e/ou hiperlipasemia: 10 tiveram aumento da amilasemia
de até 5 vezes o LSR e os 12 tiveram aumento da lipasemia de até 17 vezes o
LSR, sendo que 5 deles tiveram hiperlipasemia acima de 10 vezes o LSR. No grupo
III (úlcera gastroduodenal perfurada), 7 (41,2%) dos 17 pacientes avaliados
tiveram hiperamilasemia e/ou hiperlipasemia: 4 tiveram aumentos da amilasemia
de até 2 vezes o LSR, enquanto os 7 tiveram hiperlipasemia de até 6,4 vezes o
LSR. No grupo IV (apendicite aguda) nenhum paciente apresentou aumento de
amilasemia e, em apenas dois, houve discreta elevação da lipasemia, com valores
abaixo de 2 vezes o LSR, o que também ocorreu com o grupo de "normais"
avaliados, em que dois pacientes tiveram discretos aumentos de lipase (1,1 e
1,2 vezes o limite superior de referência).
DISCUSSÃO
Devido ao fato de que a amilasemia e a lipasemia possam se elevar em várias
doenças não-pancreáticas, alguns autores consideram que se deve suspeitar de PA
quando estas enzimas estiverem aumentadas acima de 3 vezes o LSR(8, 18, 28, 37)
ou, ainda, acima de 5 vezes o LSR(17, 29). No presente estudo, se fosse
considerado somente o aumento da amilasemia ou da lipasemia com valores acima
de 3 vezes o LSR, como fator de triagem para o diagnóstico de PA, este não
teria sido feito em seis pacientes (16%), uma vez que três tiveram amilasemia
ou lipasemia normais e três tiveram aumentos menores que 3 vezes o LSR, para
amilasemia ou lipasemia. Nestes casos, o diagnóstico foi suspeitado pelo quadro
clínico e confirmado por exames de imagem ou cirurgia. Achado de amilasemia
normal tem sido descrito na PA, de etiologia alcoólica ou biliar, em
freqüências variadas, tais como 19%(10), 21%(31) e 32%(38). Nos três pacientes
com PA da presente série, que tiveram amilasemia normal, todas eram de
etiologia biliar. Os estudos que avaliaram a sensibilidade e especificidade
destas enzimas para o diagnóstico da PA apresentaram conclusões conflitantes,
uma vez que não houve uniformidade nos métodos utilizados, as populações de
estudo eram variadas e foram usados diferentes níveis de corte para estas
enzimas. Estes fatos fundamentalmente dificultam a interpretação e a comparação
entre esses trabalhos. Assim, tem sido descrito que: a) a amilasemia teria
sensibilidade semelhante(7, 22, 42, 44, 46) ou maior(24, 27, 30, 39) que a
lipasemia; b) a amilasemia teria especificidade semelhante(18, 24, 41) ou maior
(22, 29, 30, 32, 40) do que a lipasemia; c) que a lipasemia teria sensibilidade
maior(7, 11, 18, 28, 31, 32, 40, 41) que a amilasemia; d) que a lipasemia teria
especificidade maior(7, 11, 31, 39, 42, 44) que a amilasemia e, ainda, f)
alguns autores concluíram que a determinação de ambas as enzimas aumentaria a
sensibilidade no diagnóstico da PA(16, 24, 27), o que também é concordante com
os dados deste estudo, enquanto outros acharam que não haveria vantagem nesta
determinação simultânea(41, 44, 46).
Analisando os resultados encontrados, a escolha de 2 vezes o LSR para as duas
enzimas avaliadas parece ser o nível de corte mais adequado a ser utilizado
para a suspeita diagnóstica de pancreatite aguda, por ser o nível em que a
sensibilidade e especificidade da amilasemia e da lipasemia atingiram os mais
altos valores concomitantemente (89%). No entanto, cada caso deve ser analisado
com prudência, uma vez que a PA é doença grave e pode cursar com valores
normais destas enzimas(10, 16, 31, 38). Alguns autores(2) preferem aumentar a
sensibilidade dos testes diagnósticos à custa da especificidade, por ser a PA
uma doença potencialmente grave.
As comparações entre os resultados de diferentes trabalhos em relação aos VPP e
VPN da amilasemia e da lipasemia no diagnóstico da PA dependem de alguns
fatores, entre eles a prevalência da doença na população estudada e os níveis
de corte utilizados para estas enzimas. Assim, tem sido descrito em população
com baixa prevalência de PA, VPP muito baixo tanto para a amilasemia(2, 30),
quanto para a lipasemia(30) e VPN elevado(2). Por outro lado, enquanto em
alguns estudos observou-se que, dependendo do nível de corte, ou seja, acima do
LSR(31, 39) ou acima de 2 vezes o LSR(32), o VPP da lipasemia seria
numericamente superior ao da amilasemia(31, 32, 39); outros referiram que o VPP
da amilasemia é maior que o da lipasemia quando se considera qualquer nível de
corte acima de 2 vezes o LSR(7, 28), ou ainda, semelhantemente aos resultados
do presente estudo, o VPP da amilasemia é numericamente superior ao da
lipasemia para todos os níveis de corte(40).
Os resultados do presente estudo mostram que o aumento acima de 2 vezes o LSR
para a amilasemia ou para a lipasemia seriam os níveis que oferecem,
simultaneamente, as melhores sensibilidades e especificidades para o
diagnóstico da PA; porém, neste nível de corte elas não apresentam altos
índices de VPP (Tabela_1). Os piores VPP e especificidade da lipasemia em
relação à amilasemia encontrados neste estudo são explicados pelo fato de a
lipasemia ter se elevado mais do que a amilasemia em alguns casos de patologias
das vias biliares e de úlcera perfurada.
Em relação aos tempos necessários para as normalizações dos níveis séricos de
ambas as enzimas na PA, um estudo mostrou que seriam semelhantes(12). No
entanto, outros estudos verificaram que a amilasemia retorna aos valores
normais, em tempos variáveis, mais rapidamente do que a lipasemia(14, 15, 19,
25, 43). Entre os pacientes de alta hospitalar, 15,8% podem ter hiperamilasemia
e 86,5% hiperlipasemia(31). No presente estudo também se observou normalização
mais rápida da amilasemia que da lipasemia. Assim, acredita-se que em paciente
que seja encaminhado a um hospital com história de dor no andar superior do
abdome há mais de 5 dias, sem diagnóstico etiológico e com lipasemia elevada,
mesmo discretamente, e amilasemia normal, o diagnóstico de PA em resolução deve
ser considerado.
Tem sido descrito, em freqüências variáveis, hiperamilasemia e/ou
hiperlipasemia, em pacientes portadores de enfermidades das vias biliares, sem
sinais de PA, com aumentos menores de 3 ou 5 vezes o LSR(1, 47), mas que também
podem estar acima de 3(5), de 5(1, 47), de 9(20), podendo atingir até 20 vezes
o LSR(26). Os resultados deste estudo também mostram que os níveis de
amilasemia e lipasemia podem estar bastante elevados em enfermidades das vias
biliares e na úlcera gastroduodenal perfurada, compatíveis com aqueles
encontrados na PA. Isto, no setor de urgência, pode dificultar a diferenciação
entre estas doenças, que não raro apresentam quadros clínicos semelhantes. Além
disso, as dificuldades técnicas para visualização do pâncreas em pacientes
avaliados por ultra-sonografia e tomografia computadorizada fazem com que o
diagnóstico da PA possa não ser feito em cerca de 19% a 27% dos casos(36) e que
14% a 29% dos pacientes com diagnóstico clínico de PA, geralmente nas formas
leves, apresentam tomografia normal(21). Por estes motivos, devido à gravidade
potencial da PA, acredita-se que pacientes com amilasemia e/ou lipasemia acima
de 2 vezes o LSR e com colelitíase ou coledocolitíase, mesmo com exames de
imagens normais para o pâncreas, deveriam, a princípio, ser tratados como PA,
como foi feito neste estudo. Em pacientes com úlcera gastroduodenal perfurada
foram observados aumentos de amilasemia e lipasemia acima de 2 vezes o LSR em
14,3% e 57,1%, respectivamente. Isso está de acordo com alguns estudos que
mostram alterações importantes destas enzimas, com aumentos que variaram desde
abaixo de 2 vezes o LSR, até picos de 3, 5, 6 e 8 vezes acima do LSR(1, 3, 6,
23, 33, 35), sendo que o maior valor encontrado foi de 18 vezes o LSR para a
lipasemia(7).
No grupo IV, apendicite aguda, nenhum paciente apresentou aumentos da
amilasemia e apenas dois tiveram aumentos discretos da lipasemia (1,3 e 1,9
vezes o LSR), resultado semelhante ao encontrado no grupo V (normais), em que
todos tinham amilasemia normal e discreta hiperlipasemia em dois (1,1 e 1,2
vezes o LSR).
Diferentemente destes resultados, níveis discretamente elevados de amilasemia
(menos de 2 vezes o LSR) já foram descritos em até 33%(7) e 37%(6) dos casos de
apendicite aguda, que não tinham relação com a gravidade do caso(6). Não se
observaram aumentos da lipasemia(7). Apesar de alguns autores acreditarem que
as elevações destas enzimas na apendicite aguda seriam decorrentes da
peritonite, nos pacientes deste estudo os dois casos com aumentos da lipasemia
não apresentaram essa complicação.
Conclui-se que: 1) para o diagnóstico de PA/PCA, o melhor nível de corte para
os parâmetros analisados foi 2 vezes o LSR; 2) a amilasemia e a lipasemia têm
sensibilidades semelhantes no diagnóstico da PA, para qualquer nível de corte
utilizado; 3) a especificidade da amilasemia é discretamente maior que a da
lipasemia, bem como o seu valor preditivo positivo; 4) no diagnóstico da PA,
para qualquer nível de corte, a sensibilidade, mas não a especificidade,
aumenta quando se considera a elevação de uma ou outra enzima; 5) níveis
elevados de amilasemia e/ou lipasemia podem ser encontrados em pacientes com
doenças das vias biliares e úlcera gastroduodenal perfurada, sem evidências de
PA; 6) não são comuns aumentos da amilasemia ou lipasemia em apendicite aguda,
e 7) a lipasemia persiste elevada, pelo menos discretamente, por mais tempo que
a amilasemia na evolução da PA, o que pode ser útil para o diagnóstico tardio.