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Representação em texto

BrBRCVAg0100-29452004000100028

variedadeBr
ano2004
fonteScielo

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Caracterização morfomecânica para beneficiamento do fruto da castanha-de-cutia (Couepia edulis) PROCESSAMENTO INDUSTRIAL

INTRODUÇÃO A árvore da castanha-de-cutia (Couepia edulis (Prance) Prance) (Prance, 1975) é uma Chrysobalanaceae de porte mediano, atingindo até 25 m de altura por 50 cm de Diâmetro à Altura do Peito, tronco raramente reto, com pequenas sapopemas basais; a casca é parda e áspera; a copa é aberta com 12 a 15 m de diâmetro. As folhas são alternadas e simples; a lâmina ovalado-elíptica, de 7 a 17 cm de comprimento e 4 a 12 cm de largura, o ápice arredondado e acumiado. A inflorescência é uma panícula curta e muito ramificada, com 5 a 10 cm de comprimento, com umas vinte pequenas flores assimétricas e bissexuais. O fruto é uma drupa, ovóide alongada, de cor pardo-escura, formada de uma casca espessa, lisa, dura, mas esponjosa, que encerra uma castanha com testa escura, quase preta, envolvendo a amêndoa de cor branca. O peso médio de uma fruta é, aproximadamente, 82 g, e o peso médio de uma amêndoa é 15,5 g (19 % do fruto).

As dimensões médias do fruto são 9 a 10 cm de comprimento por 5,5 a 6 cm de diâmetro (Souza et al., 1996).

Esta espécie é originária da bacia do médio Solimões e médio Purus. Adapta-se bem em solos pobres e argilosos da floresta úmida de terra firme, incluindo áreas que normalmente alagam. Floresce e frutifica entre fevereiro e março, e os frutos novos necessitam de um ano para amadurecer. Nos arredores de Manaus, essa espécie floresce entre fevereiro e novembro, e frutifica entre fevereiro e agosto.

As amêndoas dessa espécie são consumidas assadas, misturadas ou preparadas com farinha de mandioca. Tem sabor similar ao da castanha-do-pará (Bertholletia excelsa H & B), ainda que a textura seja um pouco mais branda. A composição da amêndoa é: óleo (74,1 %), água (3,6 %), proteína (16,6 %) e azoto (2,7 %). O óleo extraído das amêndoas é claro, inodoro, utilizado para cozinhar. Pelo índice de iodo, o óleo de castanha-de-cutia é classificado como secativo. Os óleos secativos são usados largamente na indústria de tintas, vernizes, lacas, linóleos, substitutos de couro impermeáveis, e em todos os ramos de impressão e indústrias semelhantes.

Os frutos maduros caem no solo e devem ser coletados imediatamente, pois são muito apreciados por roedores. Os frutos podem ser armazenados por um curto período de tempo em um lugar seco e ventilado.

A castanha-de-cutia cresce bem em sistema de monocultura e, até o momento, não se tem notícias de pragas e doenças. Em solos férteis, uma árvore adulta chega a produzir mais de 2.400 frutos, equivalente a 200 kg (Fao, 1987), com 38 kg de amêndoas ou 28 kg de óleo. Em um plantio com 100 árvores/ha, pode-se produzir o equivalente a 20 t/ha/ano de frutos (3,8 t de amêndoas ou 2,8 t de óleo). É importante destacar que um bom ano de produção é geralmente seguido por um pobre, que a árvore utiliza a maioria de suas reservas acumuladas e leva mais de um ano para recuperá-las.

Atualmente, a extração da amêndoa de dentro do fruto é feita pela associação de impacto e corte, utilizando-se de uma marreta e de um terçado, em uma atividade puramente extrativista. Apesar do alto potencial de comercialização desta espécie nativa da Amazônia, sua inserção no mercado é insignificante e uma das razões é a falta de tecnologia de beneficiamento. Com este trabalho, observou- se o comportamento viscoelástico do fruto e obtiveram-se informações sobre sua morfologia, o que contribuirá para o desenvolvimento das tecnologias necessárias a seu beneficiamento agroindustrial. É possível que estas tecnologias possam ser usadas também para a castanha-de-galinha, ou castanha- pêndula (Couepia longipendula Pilger), que apresenta características semelhantes à castanha-de-cutia.

Com este trabalho, esperamos dispor de parte das informações necessárias para o desenvolvimento tecnológico do beneficiamento, que viabilize o desenvolvimento regional deste setor e melhore as condições socioeconômicas das famílias envolvidas nesta atividade.

MATERIAL E MÉTODOS Na caracterização morfológica da castanha-de-cutia, determinamos a esfericidade (e) da seção transversal do fruto, um parâmetro geométrico que indica o quanto uma forma (ou secção gráfica) se aproxima do padrão circular. Ela é definida como a razão e = Ri/Rc, onde Ri é o raio da maior circunferência inscrita e Rc o raio da menor circunferência circunscrevente, com eixos concêntricos em seu centro de massa. A esfericidade é, portanto, um número adimensional com valores no intervalo 0 < e < 1, sendo 1 para a forma circular perfeita.

A excentricidade é uma medida da relação de comprimento dos eixos de uma elipse. Elipses mais longas têm excentricidade menor, e as bojudas, mais parecidas com um círculo, tendem a apresentar excentricidade mais próxima de 1.

Foram realizados dois tipos de ensaio: o primeiro, qualitativo, para avaliar a reologia e a facilidade de hidratação do mesocarpo, e o segundo, quantitativo, para determinar a morfologia do perfil transversal do fruto, sua esfericidade e relação de área com a amêndoa. O perfil longitudinal foi caracterizado quanto à excentricidade e relação de área com a amêndoa. Para avaliar qualitativamente a reologia, o fruto intacto foi comprimido ao longo dos eixos primários e secundários com uma prensa, até duas toneladas. O efeito deste ensaio sobre o fruto foi registrado em fotografia. Para avaliar qualitativamente a hidratação do mesocarpo, o correspondente a meio fruto (sem a amêndoa) foi mergulhado em água durante 24 horas à temperatura ambiente (~25 °C) e inspecionada quanto ao molhamento e flexibilidade.

Para avaliação morfológica do perfil transversal, foi montado um sistema para a rotação do fruto em torno do seu eixo maior, consistindo de motor elétrico (12 V, 7 A, rotação máxima 110 rpm), uma garra para fixação do fruto no eixo do motor e uma ponta de giro livre entre as quais o fruto girava. A velocidade de rotação do motor e, portanto, do fruto foi escolhida arbitrariamente em torno de 1 giro/s e mantida constante durante todo o ensaio. Perpendicularmente ao eixo de rotação, foi instalado um LVDT (Linear Voltage Diferential Transformer) montado e calibrado para medir deslocamentos maiores que 10 mm. Ao núcleo do LVDT foram acopladas duas hastes de alumínio, uma à frente para contato com o fruto através de um rolopressor, e outra atrás para sustentação de uma mola comprimida. Desta forma, o núcleo permanecia pressionado contra a superfície do fruto, acompanhando suas irregularidades, enquanto aquele girava. O sinal correspondente à posição do núcleo do LVDT foi retificado e amplificado em circuito dedicado, cuja saída foi conectada a uma entrada analógica de uma placa para aquisição automática de dados. A taxa de aquisição do sinal do LVDT foi a mesma durante todo o ensaio, em torno de 100 pontos/s, durante pelo menos cinco rotações.

O ponto imaginário de cruzamento entre os eixos principais do fruto e do núcleo do LVDT distou 40 mm de uma das extremidades do fruto e o ponto de contato do rolopressor com o fruto definiu o perímetro menor, usado para análise das irregularidades. Neste trabalho, a irregularidade foi definida como a posição relativa dos pontos na superfície do fruto, determinada pela normalização do sinal do LVDT.

Os frutos foram seccionados no plano formado pelo perímetro menor para a obtenção das imagens da seção transversal obtidas com um scanner da Hewlet Packard, HP Scanjet 4C. A digitalização simultânea da escala em centímetros permitiu estabelecer uma relação entre o número de pixels da região de interesse e a área em cm2 (Figura_1). Com auxílio do programa Image Tool for Windows, v. 3.0 (Freeware da Universidade do Texas, 1995), foram medidos o raio do maior círculo contido pelo fruto e o raio do menor círculo que contém o fruto. A relação destes valores forneceu a esfericidade da seção transversal.

Os frutos foram seccionados, novamente, ao longo do eixo maior para a obtenção das imagens da seção longitudinal, das quais foi possível determinar o comprimento dos eixos maior e menor da elipse que melhor se ajusta ao perfil do fruto, e, portanto, sua excentricidade em função da área total. Foi também determinada a distância entre a superfície do fruto e da amêndoa em duas posições: a partir da inserção do pedúnculo e a meia distância entre os extremos do fruto.

Ambos os conjuntos de imagens foram usados para determinar a relação entre a área do fruto e da amêndoa. Em todos os ensaios, o espaço amostral foi de 25 frutos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Nos testes de compressão, o fruto foi submetido a pressões de até 2 ton.

Durante estes ensaios, a casca apresentou apenas pequenas fraturas conseqüentes da mudança de formato durante o esmagamento, tanto na compressão ao longo do eixo principal como ao longo do secundário, sendo que, no primeiro, a deformação foi maior. O fruto apresentou um comportamento viscoelástico, e a maior deformação relativa ao longo do eixo principal indica que as fibras devam estar dispostas preferencialmente ao longo deste eixo. Pode-se deduzir também que a abertura do fruto pelo método de impacto e corte deve ser mais eficiente quando aplicada ao longo do eixo principal, como é com o Coco (Cocos nucifera L.), uma drupa com epicarpo liso e um mesocarpo espesso e fibroso.

O mesocarpo da castanha-de-cutia é composto de estruturas básicas lignocelulósicas entrecruzadas e firmemente interligadas. Sua imersão em água por 24 horas à temperatura ambiente não mostrou sinais de hidratação.

O relevo ao longo do perímetro menor de três dos 25 frutos estudados foi normalizado para facilitar a comparação morfológica (Figura_2). No espaço amostral dos 25 frutos, o perímetro variou entre 96 e 136 mm, e as variações de altura em relação ao ponto mais baixo foram de 1,3 ± 0,3 mm. Levando em conta que o fruto apresenta um comportamento viscoelástico, podem-se identificar pelo menos dois procedimentos para a remoção da amêndoa de dentro do fruto: impacto e corte (como é feito atualmente); e escarificação, seja por serra, seja por desbaste.

A esfericidade média no espaço amostral foi de 0,4 ± 0.1 e a distribuição de valores em função do perímetro indica um comportamento do tipo exponencial (Figura_3a), em função do perímetro das amostras, com grande variabilidade para frutos pequenos e tendência de menor esfericidade para frutos maiores.

A excentricidade média da seção longitudinal foi de 0,65 ± 0,02, e a Figura_3b mostra que frutos maiores tendem a ser mais bojudos. O corte longitudinal permitiu também determinar a distância entre as superfícies do fruto e da amêndoa em duas posições: a partir da inserção do pedúnculo e a meia distância entre os extremos do fruto. A partir da inserção do pedúnculo, o envoltório da amêndoa tem espessura de (11 ± 1) mm e a meia distância (9,7 ± 0,9) mm.

As imagens dos cortes longitudinal e transversal do fruto revelam a relação entre o tamanho do fruto e da amêndoa. Na seção longitudinal (Figura_4a), a área ocupada pela amêndoa é quase a metade da área total do fruto (45 ± 8) %, e na seção transversal, Figura_4b, a amêndoa corresponde a aproximadamente (35 ± 5) % da área total. Ambos os gráficos mostram que existe uma relação linear entre os tamanhos do fruto e da amêndoa, e a dispersão dos dados sugere que o comprimento do fruto tem mais influência no tamanho da castanha do que em sua largura.

As informações morfodimensionais aqui apresentadas são subsídios para o desenvolvimento de diferentes aspectos de uma instrumentação eficiente de beneficiamento. A viscoelasticidade do fruto, suas dimensões e as pequenas irregularidades de sua superfície indicam que a escarificação pode ser um método viável para a abertura do fruto e extração da amêndoa inteira se o corte for pouco menor que a espessura mínima observada do mesocarpo. Este método não poderia ser usado, por exemplo, com a macadâmia (Macadamia integrifolia), que é aberta, submetendo o fruto a pequenas compressões (Liang, 1977, 1980) ou a diferentes taxas de deformação (Tang et al., 1982). A esfericidade da seção transversal permite que o fruto seja rotacionado em torno do seu eixo maior na máquina de beneficiamento, reduzindo sobremaneira o risco de acidentes com ferramentas de corte, procedimento que não pode ser usado, por exemplo, na abertura da castanha-do-pará (Bertholletia excelsa H & B). A análise das seções transversais forneceu um parâmetro de produtividade: frutos com seção longitudinal mais excêntrica tendem a ter amêndoas maiores. Finalmente, a distribuição da esfericidade e da excentricidade mostrou que existe uma relação entre o tamanho e a forma, potencialmente útil em uma etapa preliminar de classificação dos frutos.

CONCLUSÕES 1) A casca do fruto da castanha-de-cutia apresenta comportamento viscoelástico, não significativamente influenciado pela imersão em água por 24h. A característica hidrofóbica provavelmente decorre da grande compactação das fibras.

2) O formato circular da seção transversal mediana é função do tamanho do fruto. Frutos maiores tendem a ter seções menos circulares, mas frutos menores apresentam uma alta dispersão em relação à esfericidade. A excentricidade da seção longitudinal indica que frutos maiores se aproximam mais de uma esfera.

Portanto, uma classificação por tamanho também seleciona os frutos quanto à esfericidade da seção transversal e a excentricidade da seção longitudinal.

3) A área relativa das seções transversais e longitudianais ocupada pela amêndoa é constante, independentemente do tamanho do fruto, e, portanto, frutos maiores tendem a conter amêndoas maiores.

4) As irregularidades ao longo do perímetro da seção transversal mediana não consistem em uma dificuldade importante para o desenvolvimento de uma metodologia de abertura do fruto por escarificação.


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