Tolerância a baixas temperaturas de cultivares de abacate (Persea americana
Mill.)
Tolerância a baixas temperaturas de cultivares de abacate (Persea americana
Mill.)1INTRODUÇÃO
O abacateiro, da família lauraceae, subgênero Persea, compreende três espécies:
Persea americana var. americana; Persea nubigena var. guatemalensis e Persea
americana var. drymifolia, as quais correspondem, respectivamente, às raças
hortícolas conhecidas como antilhana, guatemalense e mexicana, que são
descritas como tropical, subtropical e semitropical, baseado na sua resistência
ao frio e adaptação climática (Campbell & Malo, 1976; Williams, 1976).
Um dos objetivos do melhoramento genético do abacateiro é selecionar cultivares
tolerantes ao frio para sua exploração econômica em áreas sujeitas a geadas.
Existe variabilidade de tolerância ao frio entre cultivares dentro de uma raça
e grande variabilidade entre cultivares dentre as raças (Bergh & Lahav,
1996).
Segundo Wolfe et al. (1942), plantas adultas da raça antilhana não suportam
temperaturas inferiores a -4,4°C e são injuriadas consideravelmente a '2,8°C,
enquanto a maioria das cultivares guatemalenses não suportam temperaturas
abaixo de '6,1° C, e algumas cultivares mexicanas, muito resistentes, suportam
temperaturas inferiores a '7,7°C. Krezdorn (1974) concorda com estas
afirmações, exemplificando que cultivares antilhanas, como a Waldin, são
injuriadas somente por temperaturas entre '1,1°C e '1,7°C, enquanto algumas
cultivares mexicanas, como a Mexicola, resistem a temperaturas entre '8 e -
11°C, apresentando apenas leves injúrias. Os híbridos entre as duas raças
apresentam resistência intermediária.
Segundo Bergh (1975), a cultivar Yama é considerada uma das mais resistentes
dentre as mexicanas, suportando temperatura de '8,5°C sem sofrer danos severos.
Knight Jr. (1976) relata que, há muito tempo, a cultivar mexicana Brooksville é
utilizada como porta-enxerto, na Flórida, por seus seedlings suportarem frio
artifical de '8,5°C.
Krezdorn (1974) observou que a cultivar Gainesville suportou temperatura de
'9,4°C em plantios comerciais, e Scorza & Wiltbank (1976) concluíram ser
esta a mais resistente cultivar dentre cinco submetidas ao frio artifical.
Plantas desta cultivar, formadas por estacas, suportaram, quando adultas,
temperaturas de até '7,8°C, valor bem superior a '6,7°C suportado pelas
cultivares Mexicola e Topa-Topa, pertencentes à raça mexicana.
Platt (1975) estabeleceu os limites de tolerância ao frio sob as condições
californianas, para as cultivares híbridas de mexicana x guatemalense: Fuerte,
que foi de '2,8°C, Bacon, -3,3°C e Zutano, 4,4°C.
Toohill & Alexander (1979) ponderam que a fixação de limites exatos de
tolerância ao frio é de difícil demarcação, visto que os danos causados a uma
dada cultivar são influenciados pelo grau e duração do frio e pelas condições
fisiológicas da planta no momento da ocorrência das baixas temperaturas. Esses
autores avaliaram a tolerância relativa de 19 cultivares de abacate submetidas
a uma severa geada, durante a qual a temperatura permaneceu abaixo de 0°C por
3h8 horas e alcançou um mínimo de '2,3°C, com a mínima na relva de -8°C.
Somente duas cultivares, Anaheim e Millicent, foram seriamente danificadas,
enquanto as demais, incluindo-se a Fuerte e a Hass, sofreram danos
desprezíveis.
O objetivo deste trabalho foi avaliar a tolerância de cultivares de abacate às
baixas temperaturas, visando à seleção de genótipos tolerantes para utilização
direta, ou como fontes de tolerância ao frio para utilização em programa de
melhoramento genético.
MATERIAL E MÉTODOS
O campo experimental foi instalado em 1994, no Núcleo de Agronomia do Sudoeste/
IAC, localizado em Capão Bonito-SP, de coordenadas de 24° 00' S e 48°22' W,
702 m de altitude e clima tipo Cfa (clima com chuvas do mês mais seco entre 30
e 60 mm; temperatura do mês mais quente inferior a 22°C e temperatura do mês
mais frio inferior a 18°C), visando a avaliar o comportamento agrofenológico de
13 cultivares de abacate, com as mudas formadas sobre o porta-enxerto
Collinson.
O delineamento experimental utilizado foi o de blocos ao acaso, com quatro
repetições e 13 tratamentos (cultivares): Geada, Pollock e Simmonds (raça
antilhana); Antoniolli, Breda, Campinas, Ermor, Jumbo, Margarida, Ouro Verde,
Reis e Solano (híbridos antilhana x guatemalense) e Fuerte (híbrido mexicana x
guatemalense). Na análise de variância, empregou-se o Módulo GLM (General
Linear Models) do SAS, segundo Freund & Littell (1981). Para a comparação
das médias dos tratamentos, foi utilizado o teste "t"de Student (á = 0,01), com
os dados originais transformados por
Em julho de 2000, com as plantas atingindo seis anos após o plantio, houve
sério resfriamento da temperatura do ar, nos dias 17; 18; 20 e 21, com os
termômetros no abrigo da estação meteorológica local marcando, respectivamente,
temperaturas de '2,8°C, -0,4°C, -0,2°C e '1,8°C, com a ocorrência de geada.
Os danos causados pelo frio foram avaliados, atribuindo-se notas para as
injúrias observadas na copa e para queda de frutos. A escala de notas de danos
variou de zero a 4, de acordo com a porcentagem da copa da planta injuriada, e
de zero a 2, de acordo com a porcentagem de frutos caídos ao solo, conforme
Tabela_1. As cultivares Breda, Ouro Verde, Geada, Pollock e Simmonds não foram
analisadas quanto à queda de frutos; as duas primeiras por apresentarem
produções nulas, e as três últimas, por suas colheitas já terem sido realizadas
antes da ocorrência das baixas temperaturas do ar.
O levantamento das injúrias às plantas, assim como a queda dos frutos, foi
realizado no dia 10 de agosto de 2000, sendo que a queda dos frutos foi
acompanhada até outubro do mesmo ano, quando normalmente termina a colheita das
cultivares tardias. As plantas bastante afetadas pelas baixas temperaturas
foram podadas, retirando-se os ramos e galhos queimados e tratando-se os cortes
com pasta cúprica.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A região de Capão Bonito, no Sul do Estado de São Paulo, pela latitude e
altitude, apresenta 45% de probalidade de ocorrência de temperaturas inferiores
a 2° C durante o mês de julho (Camargo et al., 1993). A ocorrência de
temperaturas negativas de até '2,8° C permitiu a avaliação de cultivares de
abacate em relação a níveis de tolerância às baixas temperaturas.
Na tabela_2, observa-se que o cultivar Fuerte, sem diferir significativamente
dos cultivares Jumbo, Ermor e Solano, foi o que apresentou maior tolerância às
baixas temperaturas, não se verificando injúria à copa das plantas. Esse
resultado é concordante com a literatura (Wolfe et al., 1942; Krezdorn, 1974;
Campbell & Malo, 1976), na qual se relaciona o grau de tolerância ao frio
com a raça da cultivar.
Dentre as cultivares híbridas entre as raças antilhanana e guatemalense, a
cultivar Jumbo, embora não diferisse significativamente de 'Ermor', 'Solano',
'Antoniolli' e 'Campinas', apresentou menor nível de injúria que 'Margarida',
'Reis' e 'Ouro Verde', mostrando a variabilidade de tolerância ao frio
existente dentro das raças e híbridos, como também observado por Bergh (1976).
Não houve diferença entre as cultivares antilhanas Geada, Pollock e Simmonds,
quanto à tolerância ao frio, tendo sido as três severamente injuriadas, com a
copa das plantas e ramos mais finos totalmente queimada. Porém, elas não
diferiram das cultivares híbridas Breda e Ouro Verde, cujas plantas
apresentaram grau de injúria semelhante. Este fato pode estar relacionado à
predominância de caracteres da raça antilhana nessas duas cultivares. Todas as
plantas podadas recuperaram-se, formaram copa e floresceram no ano seguinte.
Com relação à queda de frutos, não foi encontrada diferença estatística entre
as cultivares: Antoniolli, Fuerte, Solano, Reis, Jumbo, Margarida e Campinas.
Apenas a cultivar Ermor foi estatísticamente diferente das outras, apresentando
100% de queda de frutos(Tabela_2).
Em média, a cultivar Ermor teve queda de 100% dos frutos, seguida da cultivar
Campinas, cuja queda de frutos ficou em torno de 80%. As cultivares Margarida,
Jumbo e Reis tiveram queda de frutos entre 20 e 30%. As cultivares Breda e Ouro
Verde não produziram frutos neste ano; e a colheita das cultivares antilhanas
Pollock, Simmonds e Geada já havia sido feita antes da ocorrência das baixas
temperaturas, não permitindo a avaliação do efeito das baixas temperaturas na
queda dos frutos.
CONCLUSÕES
As cultivares Fuerte, Jumbo, Ermor e Solano mostraram menor grau de injúria na
copa. A cultivar Ermor foi a mais afetada pelas baixas temperaturas em relação
à queda de frutos. Ainda as cultivares Fuerte e Solano, pelo baixo nível
combinado de danos apresentados (injúria mais queda de frutos), são as mais
indicadas para a região.