Eficiência de substâncias atrativas na captura de moscas-das-frutas (diptera:
tephritidae) em goiabeiras no município de Itapecuru-Mirim (MA)
O Brasil destaca-se como o maior produtor mundial de frutas, mas sua
participação nas exportações ainda é pequena, em parte, devido às exigências
fitossanitárias por parte dos países importadores. As moscas-das-frutas
constituem-se num dos principais entraves para a exportação das frutíferas, por
causarem danos diretos à produção, afetando a qualidade final do produto.
As espécies de moscas-das-frutas de maior importância no Brasil pertencem aos
gêneros Ceratitis e Anastrepha, sendo que C. capitata é a única espécie desse
gênero que ocorre no Brasil, principalmente em frutíferas introduzidas
(Malavasi et al., 1980; Carvalho et al., 1991).
O gênero Anastrepha contém 193 espécies descritas, das quais, 94 ocorrem no
Brasil (Zucchi, 2000), preferencialmente, em fruteiras nativas (Malavasi et
al., 1980). No Maranhão, foram constatadas as espécies Anastrepha amita Zucchi,
A. distincta Greene, A. flavipennis Greene, A. obliqua Macquart, A. serpentina
Wiedemann, A. sororcula Zucchi, A. striata Schiner, A. turpiniae Stone, A.
zenildae Zucchi e C. capitata (Oliveira et al., 2000).
Diante das exigências do mercado consumidor, os produtores têm adotado uma
série de medidas, que visam à redução das pulverizações convencionais, tais
como: práticas de cultivo, monitoramento dos pomares, uso de variedades e
porta-enxertos resistentes, ensacamento dos frutos (goiaba para mesa), bem como
a preservação dos inimigos naturais, que atuam na regulação da população da
praga, pela utilização de produtos químicos seletivos.
Segundo Nakano et al. (1981), o monitoramento através de atraente alimentar é
considerado importante por relacionar-se diretamente com o instinto primário
desses insetos, cujas fêmeas necessitam de compostos protéicos para atingirem
sua maturidade sexual. Os atrativos alimentares mais utilizados são melaço de
cana-de-açúcar, suco de frutas, açúcar mascavo ou feromônios (Nascimento &
Carvalho, 1998).
Segundo Pereira & Martinez Júnior (1986), a utilização de armadilhas
contendo atraentes alimentares na cultura da goiabeira é inviável, já que a
atração exercida pelos frutos de goiaba é mais forte que a exercida pelas iscas
artificiais ou mesmo naturais, sendo mais úteis para verificar a intensidade da
infestação do que para a eliminação das moscas.
Lima (1992) afirmou que armadilhas contendo tais atraentes são utilizadas com
as finalidades de detectar e monitorar a população no campo e obviamente
capturar e remover a maior quantidade possível de indivíduos.
De acordo com Bleicher et al. (1982) e Carvalho (1988), os modelos de frascos
caça-moscas tradicionais, como Valenciano e Biológico, capturam o dobro de
moscas do que as garrafas de álcool, água mineral ou soro, comumente adaptados
para captura desses insetos. No entanto, Lorenzato (1984) verificou que o
frasco caça-moscas modelo garrafa plástica é mais prático para o monitoramento
dos tefritídeos que o modelo Valenciano, por ser de fácil aquisição, adequação,
reposição, uso específico em pomares e oferecer perspectivas promissoras para
uso extensivo no meio rural.
Lorenzato (1984), estudando a eficiência de frascos e atrativos no
monitoramento e combate às moscas-das-frutas, observou que, independentemente
do modelo de frasco utilizado, o suco de maracujá foi o atrativo alimentar mais
eficiente.
Trabalhando em pomar de citros, Moraes et al. (1988) constataram que os
atrativos mais eficientes para Anastrepha sp. foram: melado de açúcar (7%),
melado de sorgo (7%) e vinagre de laranja (25%), enquanto os sucos de laranja e
maracujá a 25%, vinagre de vinho tinto (25%) e açúcar cristal (4%) não
apresentaram boa atratividade na captura dessa praga.
Veloso et al. (1994) verificaram que o frasco de álcool capturou maior
quantidade de tefritídeos, quando comparado com frascos de soro e água mineral.
Dentre os substratos utilizados pelos autores, o suco de maracujá (30%)
apresentou maior atratividade para esses insetos, seguido dos sucos de
serigüela (30%), laranja (50%), solução de açúcar mascavo (10%) e sucos de
manga, goiaba e jabuticaba, todos na concentração de 30%. Nas armadilhas
contendo solução de açúcar cristal (10%), não houve captura de moscas-das-
frutas.
Devido à grande importância dos tefritídeos, torna-se necessário estimular a
adoção de práticas de manejo para esta praga, através do monitoramento com
armadilhas e atraentes de alimentação, que possam contribuir com os produtores
maranhenses para o uso racional de inseticidas e preservação do ambiente. Dessa
forma, a realização deste trabalho tem por objetivo verificar o efeito de
diferentes substratos na atratividade de moscas-das-frutas, na cultura da
goiabeira, com vistas a estabelecer para o município de Itapecuru-Mirim (MA) um
programa de manejo adequado para esta praga.
Este trabalho foi desenvolvido em pomar comercial de goiaba (Psidium guajava
L.) cultivar 'Pêra Vermelha', com idade de 3 anos, pertencente à Comunidade
Magnificat, localizada no Município de Itapecuru-Mirim (MA), em área de cultivo
de goiaba, acerola e limão. Os solos da região são Argissolo vermelho-amarelo e
plintossolo pétrico concrecionado, com coordenadas geográficas de 30 27' S e
440 27' W. Quanto às condições climáticas, prevalecem os climas tropicais, com
temperatura média de 320C, variando de 280 C a 340C, onde duas estações são bem
definidas: período chuvoso (fevereiro a maio e umidade média de 80%), com meses
de transição pós-chuva (junho a julho), seguida de uma estação seca (agosto a
novembro) com meses de transição, pré-chuva (dezembro a janeiro). A
precipitação média anual varia de 1100 a 1800mm (NMRH, 2001).
O experimento foi conduzido de setembro a dezembro/2000, período de maturação
dos frutos e de maior incidência das moscas-das-frutas. As armadilhas
utilizadas para testar os substratos foram do tipo frasco caça-moscas,
adaptando-se recipientes plásticos transparentes de soro fisiológico com
capacidade para 500 ml, contendo três aberturas circulares de 1,5 cm de
diâmetro, localizadas no terço mediano do mesmo. Os substratos testados como
atraentes de alimentação e suas concentrações foram: solução de açúcar cristal
(10%), suco de Laranja-Pêra (50%), e sucos de Maracujá-Amarelo, Goiaba-Pêra e
Acerola-Vermelha (seleção local), na concentração de 30%, sendo acrescido 10%
de açúcar cristal a todos os sucos de frutas.
O delineamento experimental adotado foi o de blocos casualizados, com cinco
tratamentos e quatro repetições, e cada bloco foi constituído por parcelas
contendo doze plantas (3 ruas de 4 plantas e espaçamento entre plantas de 6 x
6m). No total, foram utilizados 60 frascos caça-moscas, sendo distribuídas 3
armadilhas ao redor da planta central de cada parcela, a uma altura aproximada
de 1.80 m, colocando-se 250 ml de substrato por armadilha
As coletas foram semanais, ocasião em que as armadilhas eram lavadas e o
substrato alimentar renovado. Os insetos capturados foram colocados em vidros
fechados e levados para o laboratório para serem lavados e conservados em
álcool 70%, até o momento da separação, contagem e identificação das moscas-
das-frutas, considerando-se as espécies do gênero Anastrepha. Os dados obtidos
foram submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo Teste de
Tukey, ao nível de 5% de probabilidade.
Os dados de captura estão apresentados na Tabela_1. Verificou-se que o suco de
maracujá foi eficiente na captura das moscas-das-frutas nas avaliações
realizadas nas 1a, 2a e 4a semanas, diferindo significativamente dos demais
tratamentos, fato também observado para o total de insetos capturados. Na
avaliação realizada na 3a semana, observou-se que o número médio de tefritídeos
capturados no suco de maracujá, foi semelhante à solução de açúcar cristal
(10%). No entanto, esses dois tratamentos diferiram significativamente dos
sucos de goiaba (30%), laranja (50%) e acerola (30%).
Os resultados obtidos estão de acordo com os de Lorenzato (1984), em que o suco
de maracujá foi o substrato alimentar mais eficiente na captura desses
tefritídeos e concordam parcialmente com os de Veloso et al.(1994), que
consideraram os sucos de laranja (50%) e maracujá (30%) como mais atrativos.
Moraes et al. (1988) verificaram que esses dois substratos na concentração de
25% não apresentaram boa atratividade na captura dessa praga.
A solução de açúcar cristal (10%) também apresentou boa eficiência em
comparação aos sucos de goiaba, laranja e acerola, embora nas avaliações
realizadas na 1a e 2a semanas tenha sido estatisticamente igual ao suco de
goiaba (30%) e ao suco de acerola (30%), respectivamente. Esses resultados
discordam de Veloso et al. (1994), em que a solução de açúcar cristal (10%) não
apresentou atratividade às moscas-das-frutas.
De todos os substratos utilizados, o suco de goiaba foi o que mais dificultou a
limpeza dos insetos coletados, devido aos resíduos deixados na peneira,
concordando com observações feitas por Veloso et al. (1994).
As espécies identificadas para o município de Itapecuru-Mirim (MA) foram:
Anastrepha striata, A. serpentina, A. distincta, A. obliqua e A. sororcula
(Figura_1). De acordo com Malavasi & Morgante (1980), essa diversidade de
Anastrepha pode ser atribuída a vários fatores, como fase de amadurecimento do
fruto, variação sazonal e diversidade hospedeira com disponibilidade de frutos
por um período longo.
Das espécies registradas no Maranhão, para os municípios de Caxias e Santa Inês
por Oliveira et al. (2000), observou-se a predominância de A. obliqua, sendo
identificadas 91,2% e 61,2%, respectivamente, enquanto, neste trabalho, a
espécie predominante foi A. striata (49,1%), seguida de A. serpentina (20,7%),
A. distincta (12%), A. obliqua (10,8%), A. sororcula (7,4%) (Figura_1).
Considerando-se que este ensaio foi conduzido em pomar de goiaba, a
predominância A. striata justifica-se em função de as goiabeiras constituírem-
se no principal hospedeiro dessa espécie, de acordo com observações de Selivon
(2000).
Conclui-se portanto que o suco de maracujá (30%) e a solução de açúcar cristal
(10%) são substâncias atrativas eficientes para o monitoramento das mosca-das-
frutas em pomar de goiaba na região de Itapecuru-Mirim (MA).