Efeito do manejo de plantas daninhas sobre Neoseiulus californicus (Acari:
Phytoseiidae) em pomar de macieira
INTRODUÇÃO
Os desequilíbrios ambientais causados pelo uso indiscriminado de agroquímicos
têm acarretado um aumento da população de ácaros fitófagos nas culturas
comerciais em todo o mundo (Van de Vrie, 1985). Em todas as regiões produtoras
de maçãs do Brasil, 3 a 4 pulverizações de acaricidas por ciclo vegetativo têm
sido realizadas, muitas vezes, de forma preventiva para o controle de ácaros
fitófagos (Monteiro, 1994).
Na região de Fraiburgo, em Santa Catarina, o ácaro vermelho, Panonychus ulmi
(Koch) (Acari: Tetranychidae), é uma importante praga em macieira. O ácaro
vermelho hiberna na forma de ovos sobre os ramos da macieira e as primeiras
eclosões de larvas ocorrem em meados de setembro (Carvalho, 1971). Em novembro,
a população alcança o nível de controle, provavelmente, devido ao desequilíbrio
do agroecossistema (Vet & Dicke, 1992). Uma alternativa ao controle químico
preventivo é o manejo integrado de pragas com a utilização de inimigos
naturais. Em 1995, o controle biológico do ácaro vermelho foi implantado em
pomares de macieiras em Fraiburgo, Santa Catarina, por meio de criações do
ácaro predador Neoseiulus californicus (McGregor) (Acari: Phytoseiidae) em
estufas e de liberações inoculativas. O ácaro predador permanece sobre as
folhas da macieira durante quase todo o ciclo vegetativo da cultura, passando o
inverno sobre plantas daninhas (Fauvel et al. 1993).
Normalmente, o controle de plantas daninhas é realizado com herbicidas na linha
de plantio, visando a facilitar os tratos culturais; em conseqüência, o solo
fica sem vegetação desde o outono até meados da primavera. As plantas daninhas
possuem um papel importante na manutenção de inimigos naturais, devido ao
fornecimento de abrigo, de umidade e de alimento (Altieri & Liebman 1986).
O objetivo deste trabalho foi determinar o impacto do manejo de plantas
daninhas sobre a população de ácaros em pomares de macieira.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzidos na Agrícola Fraiburgo SA., Fraiburgo (SC). A
variedade comercial do pomar era Gala, com a variedade Fuji como polinizadora,
em uma área de plantas com 9 anos de idade. O espaçamento de plantio foi de 1 m
entre plantas e de 4,5 m entre as linhas. Esta área estava sendo conduzida com
o controle biológico de ácaros, cujo ácaro predador, N. californicus, foi
criado massalmente em estufa, alimentando-se de Tetranychus urticae Koch
(Acari: Tetranychidae). Entre novembro de 1997 e abril de 1998, foram
realizadas 3 liberações de N. californicus na área do experimento, totalizando
aproximadamente 250000 formas móveis.
O experimento teve três tratamentos, correspondendo aos manejos de plantas
daninhas realizados na linha de plantio, definida como sendo a área da projeção
de copa foliar, com bordadura afastada 0,80 m do tronco da macieira. Cada
tratamento consistiu de 5 linhas de plantio de macieiras contendo 12 plantas em
cada linha. As amostragens foram realizadas em uma área delimitada entre as 3
linhas centrais, deixando o restante como bordadura. As repetições foram
definidas como sendo as plantas daninhas e as macieiras observadas. O
delineamento experimental foi inteiramente casualisado. Os dados obtidos foram
submetidos à análise de variância e as médias foram comparadas pelo teste de
Duncan, ao nível de 5% de probabilidade. Os tratamentos foram conduzidos da
seguinte forma:
Parcela herbicida (PH)' o manejo de plantas daninhas, na linha de plantio, foi
realizado com glifosate, na concentração de 4% de produto comercial, nos dias
17 de agosto e 23 de outubro de 1998 e 12 de janeiro de 1999, de maneira que a
área permaneceu sem vegetação durante todo o ciclo.
Parcela roçada (PR) 'o manejo de plantas daninhas ocorreu por meio de roçadeira
manual, realizada tantas vezes quanto necessárias, a fim de manter a vegetação
com 0,20 m de altura. O manejo de plantas daninhas nas entrelinhas foi
realizado com uma roçadeira acoplada a um trator. A faixa de roçada foi de 2,9
m de largura.
Parcela sem manejo (PSM)' não houve controle de plantas daninhas. Para
facilitar os tratos culturais, houve uma roçada em janeiro; entretanto, as
plantas daninhas foram mantidas a uma altura maior do que 0,40 m.
Ácaros sobre plantas daninhas -As observações sobre as plantas daninhas foram
realizadas em tanchagem (Plantago tormentosa) e buva (Erigeron sp), nos dias 9-
11-98, 14-12-98, 15-01-99, 1-2-99, 18-2-99, 19-3-99 e 14-5-99. Para cada
tratamento, foram coletadas 6 plantas daninhas, retirando-as do solo por meio
de um corte junto às raízes e contando os ácaros presentes em todas as folhas
com o auxílio de um estereomicroscópio (10 X). Não foi levado em consideração o
estágio de desenvolvimento da planta daninha ou o número de folhas, porque
ocorreram variações de tamanho das ervas daninhas em todos os tratamentos. As
plantas daninhas, nos três tratamentos, foram retiradas sobre a projeção da
copa da macieira; na parcela herbicida, não havendo exemplares na linha de
plantio, as plantas foram coletadas nas entrelinhas, o mais próximo possível da
projeção da copa. Todas as observações foram realizadas entre as 10 e 15 h,
quando o deslocamento diurno de ácaros é considerado mínimo (Purvis &
Curry, 1981).
Ácaros nas folhas de macieira 'Seis macieiras, localizadas na linha de plantio
central de cada tratamento, foram utilizadas para a coleta de 30 folhas de
macieira, localizadas no terço médio dos ramos do ano e situadas à altura de
1,7 m,. As folhas foram levadas ao laboratório para a contagem de todas as
fases de ácaros predadores e fitófagos, com o auxílio de um estereomicroscópio
(10 X), sendo os mesmos identificados e separados em dois grupos: N.
californicus e tetraniquídeos (T. urticae e P. ulmi). As amostragens foram
realizadas nos dias 19-10-98, 23-11-98, 21-12-98, 6-1-99, 20-1-99, 18-2-99 e
14-5-99. O nível de controle foi estabelecido em 50% de folhas com presença de
ácaros fitófagos, não levando em consideração o número de ácaros por folha. O
controle de ácaros foi realizado com Omite 720 CE (propargite), na concentração
de 100 ml/L (4/1/99), pois este acaricida está sendo utilizado em pomares de
macieira desde 1992, e não tem apresentado efeitos negativos sobre o
desenvolvimento de N. californicus (Monteiro, 1993; 1994).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Ácaros sobre plantas daninhas 'Nas observações sobre as plantas daninhas, foi
encontrado 71% de T. urticae, entre os tetraniquídeos. Estes ácaros foram mais
abundantes sobre P. tormentosa desenvolvendo-se na parcela sem manejo (PSM)
(Tabela_1), o que era esperado, por possuir o hábito de passar o inverno em
substrato herbáceo, sendo que sua migração e atividade aumentam com a
temperatura (Baillod & Guignard, 1980). No final do inverno, a maior
população de tetraniquídeos em PSM, está relacionada com a abundância de
plantas daninhas, contrastando com a reduzida população na parcela herbicida
(PH) (Tabela_1).
Todos os ácaros fitoseídeos coletados foram da espécie N. californicus, não
sendo encontradas outras espécies, provavelmente, devido às liberações
inoculativas no pomar e nas áreas adjacentes. N. californicus é uma espécie
dominante (Fauvel et al., 1993), podendo impedir o desenvolvimento de outros
ácaros predadores nas mesmas áreas. O mesmo foi observado nos pomares da
Pomifrai Fruticultura Ltda (Fraiburgo-SC), os quais apresentavam grandes
populações de Phytoseiulus macropilis (Banks) (Acari: Phytoseiidae) em
fevereiro de 1995; entretanto, após liberações de N. californicus, P.
macropilis não foi mais encontrado nos anos subsequentes (Monteiro, informação
pessoal).
Nas amostragens realizadas em 9-11-98 e 14-5-99, N. californicus foi encontrado
em maior quantidades sobre P. tormentosa do que Erigeron sp (Tabela_1). É
possível que P. tormentosa emita cairomônios mais atrativos para o ácaro
predador, como demonstrado no trabalho de Collier (1998), comparando esta
espécie com Sida rhombifolia e Taraxucum officinale. A permanência de N.
californicus no solo até meados de dezembro pode estar associada aos
cairomônios emitidos pelas plantas daninhas e à abundância de alimento
disponível no solo (Juvara-Bals, 1992; Collier, 1998), resultado encontrado na
PSM, onde houve correlação positiva (p< 0,79) entre as populações de
tetraniquídeos e de N. californicus (Castagnoli & Simoni, 1991).
Verificou-se a importância das plantas daninhas sobre a presença de ácaros,
pois as parcelas PSM e parcela roçada (PR) tiveram as maiores populações de
ambas as espécies de ácaros, exceção a P. tormentosa no tratamento PR para
tetraniquídeos, em 14-5-99. Em se tratando de manejo de plantas daninhas, os
resultados demonstram que a presença de P. tormentosa é importante em áreas de
controle biológico, pois, além de abrigar N. californicus e tetraniquídeos,
produz pólen, importante fonte de alimento para os ácaros predadores (Costa-
Comelles et al. 1986, Castognoli et al. 1995). Além disso, P. tormentosa é uma
planta de porte baixo que não interferiria nos tratos culturais realizados em
pomares de macieira, a exemplo da poda, do raleio e da colheita.
Macieira 'A distribuição das espécies de tetraniquídeos nas macieiras foi
oposta à encontrada sobre as plantas daninhas, de tal forma que P. ulmi
representou 95 % das ocorrências. O número de tetraniquídeos foi maior na PH
(24-11 e 21-12-98) (Tabela_2), isto porque o deslocamento de tetraniquídeos no
solo depende de sua cobertura vegetal (Zahner & Baumgårtner, 1988). Assim,
os tetraniquídeos que estavam sobre as plantas daninhas na entrelinhas, passam
diretamente para as macieiras por não haver plantas daninhas para refúgio e
alimentação na linha de plantio (Jusara-Bals, 1992). Na PSM, o deslocamento de
tetraniquídeos do solo para as macieiras foi mais lento do que o verificado na
PH, possivelmente, porque os ácaros fitófagos possuíam alimento em abundância
no solo. Observações de campo revelam que N. californicus migra para as
macieiras em meados de dezembro (Monteiro, informação pessoal), provavelmente
quando ocorre aumento da população de P. ulmi e do teor de cairomônios sobre as
macieiras, como mostrou Collier et al. (2000). Quantidades significativas de
ácaros predadores só foram observadas no levantamento de 6-1-99 (Tabela_2), nas
parcelas em que não houve controle químico das plantas daninhas. O
desenvolvimento de ácaros predadores foi lento e não representou obstáculos aos
tetraniquídeos, principalmente na PH, entre 21-12-98 a 6-1-99.
O nível de controle de tetraniquídeos nas macieiras foi alcançado na PH em 21-
12-98, o que levou à realização de uma pulverização em todas as parcelas (4-1-
99) com o acaricida propargite. A baixa redução de ácaros fitófagos no dia 6-
01-99 pode ser explicada pela lenta atividade de vapor de propargite sobre os
tetraniquídeos, pois o pico de mortalidade é verificada após 4 a 5 dias da
aplicação (Lachadenede et al., 1998). Observou-se, no levantamento de 20-1-99,
que o número de ácaros predadores diminuiu em todas as parcelas, em função da
redução da população de tetraniquídeos e não dos efeitos do acaricida, pois
Monteiro (1993; 1994) não verificou efeitos negativos deste acaricida sobre N.
californicus. Mesmo com a redução do ácaro predador, todas as parcelas não
apresentaram reinfestações significativas de tetraniquídeos.
CONCLUSÃO
Neoseiulus californicus foi mais abundante nas parcelas, cujos manejos
proporcionaram desenvolvimento de plantas daninhas na linha de plantio,
ocorrendo, igualmente, maiores quantidades de tetraniquídeos. O ácaro predador
teve preferência em permanecer sobre Plantago tormentosa a Erigeron sp. A
população de tetraniquídeos foi significativamente maior sobre as macieiras
cultivadas nas parcelas cujas plantas daninhas foram controladas por
herbicidas.