Determinação da qualidade e do teor de sólidos solúveis nas diferentes partes
do fruto da pinheira (Annona squamosa L.)
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
No Nordeste brasileiro, a pinha é comercializada para o consumo "in
natura" ou para o preparo de sucos e sorvetes (Carvalho et al., 2000). O
interesse pela exploração da pinha com irrigação nessa região tem crescido
porque existe interesse na exploração de um maior número de espécies, visando à
retenção de mão-de-obra e à redução dos problemas de doenças e pragas, que
ocorrem com mais freqüência nas monoculturas. Além disso, com o aperfeiçoamento
dos meios de comunicação e de transporte, estão surgindo novos e amplos
mercados para uma grande gama de frutos tropicais e subtropicais.
O teor de sólidos solúveis é um parâmetro que tem sido usado como indicador da
qualidade dos frutos, incluindo melão (Grangeiro et al., 1999) e pinha (Maia et
al., 1986), dentre outros. O teor de sólidos solúveis é de grande importância
nos frutos, tanto para o consumo "in natura" como para o
processamento industrial, visto que elevados teores desses constituintes na
matéria-prima implicam menor adição de açucares, menor tempo de evaporação da
água, menor gasto de energia e maior rendimento do produto, resultando em maior
economia no processamento (Pinheiro et al., 1984). Métodos baseados em
espectroscopia têm sido usados para a avaliação do teor de sólidos solúveis em
vários tipos de frutos (Martinsen e Schaare, 1998). Contudo, os métodos
destrutivos, isto é, baseados no processamento do material e posterior uso do
refratômetro ainda são os mais usados (Maia et al.,1986; Granjeiro et al.,
1999) por serem simples, baratos e fáceis de serem empregados. No uso de tais
métodos, a porção do fruto a ser avaliada deve ser obtida de tal maneira que o
teor de sólidos solúveis nela determinado represente o teor de todo o fruto. Em
alguns tipos de frutos, isto é importante, mesmo para o agricultor. Por
exemplo, para ser exportado, o melão necessita ter um teor de sólidos solúveis
mínimo de 8 % caso o mercado importador seja o europeu. No caso do mercado
norte-americano, este valor passa a ser de 9 % (Bleinroth, 1994). Desta
maneira, a determinação do teor de sólidos solúveis passa a ser uma atividade
rotineira entre agricultores.
Apenas dois trabalhos (Araújo, 1986; Simão & Pimentel Gomes, 1996) sobre o
assunto foram encontrados na literatura consultada. Araújo (1086) constatou
variabilidade da percentagem de sólidos solúveis no bulbo da cebola. De modo
semelhante, Simão & Pimentel-Gomes (1996) verificaram diferenças nas
distribuições de açúcares e acidez no fruto da mangueira (Mangifera indica L.)
O objetivo do presente trabalho foi estimar o teor de sólidos solúveis em três
frações do fruto da pinheira, bem como a determinação de sua qualidade
Em junho de 2000, foram colhidos três frutos de cada uma de dez árvores de dois
pomares (cinco árvores em cada pomar), sendo um localizado em Mossoró-RN e o
outro em Aracati-CE. As árvores, com seis a oito anos de idade, e obtidas a
partir de sementes, identificadas daqui por diante por Aracati-1, e Mossoró-5,
foram selecionadas com base em rendimento de frutos, sanidade e vigor, e
forneceram sementes para serem utilizadas em trabalhos de melhoramento
genético. Os frutos foram colhidos em estádio próximo ao de consumo e neles,
dois a três dias depois de armazenamento sob condições ambientais, foram
avaliados o tamanho, o diâmetro máximo, os pesos total, do pericarpo, do total
de sementes e da polpa, e o rendimento de polpa (peso da polpa/peso total do
fruto). Depois de descascados, os frutos foram divididos em três partes
aproximadamente iguais, tomando-se a altura como base para divisão, obtendo-se
frações denominadas, daqui por diante, de basal (ligada ao pedúnculo), mediana
e apical. Após a retirada das sementes, a polpa (mesocarpo + endocarpo) foi
triturada em pilão de alumínio, e o material resultante filtrado em tecido de
nailon. Três gotas do suco obtido em cada fração foram usadas para realização
de cada uma de três determinações do teor de sólidos solúveis, em refratômetro
digital.
Foram feitas análises de variância individual e conjunta. Cada planta foi
considerada um bloco, e os tratamentos foram combinados em parcelas
subdivididas, isto é, os frutos foram considerados parcelas e as porções,
subparcelas. Na análise conjunta, os 89 graus de liberdade foram desdobrados
em: 1 grau para locais (L) (pomares), 8 graus para blocos (plantas) dentro de
locais, 2 graus para frutos (F), 2 graus para a interação L x F, 16 graus para
o resíduo (a), 2 graus para porções do fruto (P), dois graus para L x P, 4
graus para F x P, 4 graus para L x F x P e 48 graus para o resíduo (b) (Carmer
et al., 1989).
Houve variação ampla nas características de qualidade dos frutos avaliados
(Tabela_1). A altura média do fruto variou de 6,6 cm a 8,7 cm, enquanto o
diâmetro máximo variou de 7,8 cm a 10,1 cm. Maia et al.(1986), em 30 frutos
adquiridos em mercado e usados para avaliação de características físicas e
químicas, encontraram dimensões de 4,3 cm x 5,3 cm e de 7,4 cm x 7,8 cm para os
frutos menores e maiores analisados, respectivamente. O peso médio dos frutos
variou de 226 g a 418 g. Estes valores são relativamente elevados se comparados
aos valores observados por Carvalho et al. (2000) em frutos de dez matrizes de
pinheira, colhidos durante um período de cinco anos (variação foi de 202 g a
235 g). As diferenças podem ser devidas ao fato de que, no presente trabalho,
os frutos foram selecionados pelo tamanho, visando-se a obter maior quantidade
de sementes para trabalhos de melhoramento. Maia et al. (1986) verificaram que
o peso médio dos frutos variou de 138 g a 393 g, com média de 201 g. Observaram
ainda que o rendimento de polpa variou de 41,8% a 65,3%, com média de 54,2 %.
No presente trabalho, o rendimento de polpa variou de 45,0% a 53,5%. No
trabalho de Maia et al. (1986), as médias de epicarpo e de sementes foram de
38,2% e 7,6% do peso do fruto, respectivamente. Neste artigo, a percentagem
média de epicarpo variou de 38,8% a 49,2%.
A análise de variância indicou efeito significativo de locais (pomares), blocos
(plantas) dentro de locais, porções e da interação locais x frutos x porções. O
efeito significativo de locais significa que o teor de sólidos solúveis dos
frutos do pomar de Aracati (28,90 %) foi, em média, superior ao teor dos frutos
de Mossoró (25,80 %) (Tabela_2). Tanto diferenças genéticas entre plantas como
diferenças ambientais explicam as diferenças entre os dois teores. O teste de
Tukey não indicou diferenças entre plantas de Aracati, mas, entre as plantas de
Mossoró, constatou-se que a planta 2 foi inferior às plantas 1 e 3, em média. O
teor de sólidos solúveis na porção basal dos frutos foi inferior aos teores das
porções mediana e apical, mas somente diferiu significativamente do teor da
porção mediana. De qualquer forma, o teor de sólidos solúveis na porção apical
foi maior que o teor da porção basal, desde que o da porção apical não diferiu
do teor da porção mediana. Não foram encontrados, na literatura consultada,
trabalhos sobre a variação do teor de sólidos solúveis nas diferentes partes da
pinha. Em kiwi (Actinidia deliciosa), Martinsen & Schaare (1998)
verificaram que a concentração de sólidos solúveis na porção central do fruto
foi 15% maior que nas porções interna e externa do pericarpo. Araújo (1986)
observou que a percentagem de sólidos solúveis aumenta do ápice para a base e é
maior nas partes internas do que nas externas do bulbo da cebola. Simão &
Pimentel-Gomes (1996) verificaram que as partes mais doces e menos ácidas foram
a seção basal e o terço externo da seção mediana da manga. A seção apical e o
terço interno da porção mediana, mais próxima ao caroço, foram as porções mais
ácidas e menos doces.
Pode-se concluir que os frutos avaliados apresentaram características
superiores aos relatados na literatura e que a amostragem para avaliação do
teor de sólidos solúveis da pinha deve incluir as frações basal, mediana e
apical.