Influência de substratos na formação dos porta-enxertos: limoeiro-Cravo (Citrus
limonia Osbeck) e tangerineira-Cleópatra (Citrus reshni Hort. Ex Tanaka) em
ambiente protegido
INFLUÊNCIA DE SUBSTRATOS NA FORMAÇÃO DOS PORTA-ENXERTOS: LIMOEIRO-CRAVO (Citrus
limonia Osbeck) E TANGERINEIRA-CLEÓPATRA (Citrus reshni Hort. Ex Tanaka) EM
AMBIENTE PROTEGIDO1
INTRODUÇÃO
A citricultura paulista, responsável por divisas da ordem de US$ 1,5 bilhão/
ano, ocupa área de aproximadamente 840 mil hectares de 340 municípios, sendo a
principal zona exportadora de suco de laranja concentrado do mundo (Escobar et
al., 1999).
Contudo, doenças como o Cancro-Cítrico (Xanthomonas axonopodispv. citri) e a
Clorose Variegada dos Citros (Xylella fastidiosa), além do Declínio dos Citros
(agente causal desconhecido), gomose (Phytophtora sp) e nematóides, que atingem
as mudas, podem alterar este panorama.
Levantamento efetuado pelo Fundo Paulista de Defesa da Citricultura
(FUNDECITRUS), em janeiro de 2001, mostrou que, das 19,324 milhões de mudas
produzidas na região citrícola paulista, apenas 162 viveiros telados produziam
3,139 milhões.
Visando a solucionar em parte esses problemas, busca-se, atualmente, a formação
de mudas em ambientes protegidos, utilizando sementes oriundas de plantas
sadias e borbulhas de origem conhecida.
A escolha do substrato é de fundamental importância, pois é onde o sistema
radicular irá desenvolver-se, determinando o crescimento da parte aérea em
tubete, até o momento do transplantio. Este substrato deve ser isento de
patógenos, possuir bom equilíbrio entre macro e microporos para um bom
desenvolvimento radicular, boa capacidade de retenção de água, boa consistência
visando à obtenção de torrões intactos quando retirados do recipiente, baixo
custo e fácil obtenção.
Este trabalho tem por objetivo estudar os efeitos de diferentes misturas de
substratos (húmus de minhoca oriundo de esterco de curral e vermiculita média)
em ambiente protegido (telado), na produção de porta-enxertos de citros
(tangerineira-Cleópatra e limoeiro-Cravo), com a adição de adubo de liberação
gradual de nutrientes Osmocote®, como contribuição à adequada formação de mudas
de qualidade.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi instalado na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de
Jaboticabal UNESP, em 1999, em ambiente coberto com tela (sombrite de cor
preta) sem proteção lateral, para formação de porta-enxertos de citros,
distante mais de 200 metros do pomar de citros mais próximo.
As sementes de tangerineira-Cleópatra (CL) e de limoeiro-Cravo (CR) foram
obtidas, respectivamente, de frutos colhidos na FCAVJ-UNESP e Estação
Experimental de Citricultura de Bebedouro, sendo retiradas de plantas
reconhecidamente sadias, lavadas sob água corrente e secas à sombra em local
ventilado, em abril e maio de 1999 e classificadas por peneiras redondas.
Obteve-se o número suficiente para a instalação do ensaio com as retidas pelas
peneiras 13 (CR) e 15 (CL). Após, efetuou-se o tratamento com Vitavax-Thiram
200 SC, 250 mL/100 kg de sementes e armazenamento em câmara fria até a
instalação do experimento, que se deu em 24 de setembro de 1999, que, segundo
CARLOS et al. (1997), não acarreta perda do poder de germinação.
A semeadura foi efetuada em recipientes de plástico (tubetes) cônicos, com
capacidade para 50 cm3, 12,1 cm de altura e 6 estrias longitudinais internas, a
1,5 cm da borda, coberta com a mesma mistura de cada substrato e colocados em
bandejas a 1 m do solo, sobre bancadas de madeira. Irrigou-se, manualmente, até
o escorrimento de água pelo orifício inferior do recipiente, diariamente,
durante todo o experimento.
O material húmico utilizado foi esterco de curral oriundo de minhocultura e,
como material inerte, vermiculita média, encontrada no comércio.
O delineamento experimental adotado foi o inteiramente casualizado, em esquema
fatorial 5x2, com 4 repetições e 20 plantas por parcela, constituindo área útil
os 6 tubetes centrais. Pelas dimensões do ensaio, o ambiente protegido pode ser
considerado uniforme, sendo estudados os seguintes tratamentos: 5 substratos
(em % de húmus e vermiculita, respectivamente): S1=0 e 100; S2=25 e 75; S3= 50
e 50; S4=75 e 25; S5=100 e 0; e 2 porta-enxertos (CL= tangerineira-Cleópatra e
CR = limoeiro-Cravo).
No preparo dos substratos, foi adicionado adubo de liberação gradual Osmocote®
(mini-prill), fórmula e quantidade mínima indicadas pelo fabricante (19-06-10
(liberação de 3 a 4 meses), à base de 3 kg/m3 de substrato). Foi observado
diariamente o ensaio, visando a determinar-se o início da germinação, o que se
deu aos 30 dias após a semeadura (DAS). Após serem computadas, as plântulas e
seus respectivos tubetes, se porventura estivessem na bordadura, eram trocados
com os centrais, visando a obter-se as 6 plantas da área útil de cada parcela.
A altura das plantas foi obtida através de medições da região do colo até a
folha mais alta, com régua graduada em milímetros, semanalmente. Iniciou-se aos
80 DAS, quando se obteve o número mínimo de plantas da área útil da última
parcela (tratamento S2-CL, aos 76 DAS), e terminando aos 132 DAS), quando as
plantas atingiram estabilidade quanto ao parâmetro.
O diâmetro do caule de cada parcela foi determinado a cada duas semanas,
iniciando-se aos 104 DAS e findando aos 132 DAS, utilizando-se de um
paquímetro.
As massas fresca e seca de raiz e da parte aérea foram obtidas aos 134 e 139
DAS, respectivamente, pela pesagem em balança de precisão. A raiz e a parte
aérea foram separadas com corte na região do colo. As raízes foram lavadas em
água corrente para a eliminação dos substratos e secas com papel absorvente e
as partes aéreas pesadas diretamente. Estes mesmos materiais foram
posteriormente utilizados para a obtenção das massas secas respectivas, sendo
levados a estufa de circulação forçada de ar a 65-70 oC até atingirem peso
constante.
Os valores de temperatura foram obtidos em termômetros de máxima e mínima
previamente calibrados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As emergências de plântulas, bem como as médias das temperaturas máximas,
encontram-se na Figura_3, onde se pode observar que tais valores estão de
acordo com os descritos por vários autores como ótimos para a germinação, ou
seja, 25 a 35oC por RADHAMANI et al. (1991) ou 30 a 35oC por DAVIES &
ALBRIGO (1994). As mínimas foram sempre superiores a 14oC, não interferindo,
portanto, na germinação (RADHAMANI et al., 1991).
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Os dados de germinação para tangerineira-Cleópatra (CL) e limoeiro-Cravo (CR)
encontram-se, respectivamente, nas Figuras_1 e 2, que demonstram os valores
médios das plantas das 4 repetições e as curvas de tendência determinadas pela
análise de regressão. Observa-se que, para CL, o máximo de germinação (10
plantas (50%)) ocorreu aos 80 dias após a semeadura (DAS) no melhor tratamento
(S1), seguido de S3 (7,75 (38,75%) aos 83 DAS), S5 (7,25 (36,25%) aos 73 DAS),
S4 (6,25 (31,25%) aos 69 DAS) e S2 (6,00 (30%) aos 76 DAS). Para CR, S1 mostrou
o máximo de germinação aos 66 DAS (l4,25 plantas (71,25%)), acompanhado de S2
(10,26 (51,30%) aos 76 DAS), S3 e S4 (9,75 (48,75%) aos 73 DAS) e S5 (7,75
(38,75%) aos 69 DAS). Os valores encontrados estão de acordo com a literatura
quanto à germinação, uma vez que, para todos os tratamentos, houve maior número
médio de plântulas emergidas de CR em relação a CL (LIRA, 1990; CARVALHO,
1994). Pela análise dos resultados para ambas as espécies, o tratamento que
proporcionou melhor germinação foi S1, ou seja, apenas vermiculita. Isto sugere
que, quando da semeadura, devam-se colocar as sementes em contato apenas com
este material.
Os valores de alturas de plantas encontram-se na Tabela_1 e nenhuma diferença
significativa foi observada tanto para espécies quanto para substratos. A
altura de 10 cm, recomendada para repicagem, foi alcançada aos 111 DAS para CL
e, como não houve diferença significativa entre os valores, o mesmo vale para
CR. Quanto aos substratos, S3 destacou-se dos demais, embora não tenha diferido
aos 125 e 132 DAS. A temperatura raramente ultrapassou os 36oC (Figura_3),
quando a atividade vegetativa das plantas de citros diminui, nem tampouco
atingiu 42oC, a partir da qual se reduz a uma taxa mínima. O limite inferior
foi sempre maior que 12,8oC (zero vegetativo), proporcionando condições ideais
para o desenvolvimento das plantas (NOGUEIRA, 1979)
Os dados obtidos concordam com os de CARVALHO (1994) para altura até os 104 DAS
para ambas as espécies, sendo o mesmo verificado para CL aos 118 DAS.
Entretanto, para CR, nesta época, os valores descritos por aquele autor são
maiores, devido, provavelmente, à capacidade dos recipientes de poliestireno
expandido utilizados pelo mesmo (75 cm3) e do substrato "Plantmax"
proporcionarem um maior desenvolvimento do sistema radicular, com conseqüente
altura das plantas. Já JOAQUIM (1991), que trabalhou com recipientes de isopor
e células de 35 cm3 de capacidade, mesmo aos 163 DAS, não obteve plantas, de
ambas as espécies, aptas ao transplantio. O mesmo ocorreu com Lira (1990) que,
embora tenha utilizado recipientes de 80 cm3, porém terra e vermiculita como
substrato, aos 135 DAS não obteve plantas próprias ao transplantio. Nenhuma
diferença estatística foi observada entre substratos nem para a interação
espécies x substratos para esse parâmetro.
Os valores encontrados para diâmetro de caule encontram-se na Tabela_2, onde,
como era de se esperar, aos 104 e 118 DAS, CR mostrou-se com diâmetros maiores
que CL, embora aos 132 DAS, nenhuma diferença estatística fora detectada. Este
fato deve-se às características próprias de cada espécie, pois o primeiro é
tido como um porta-enxerto vigoroso, de crescimento mais rápido que CL. Esta,
por sua vez, caracteriza-se por apresentar crescimento em altura sem o
correspondente engrossamento do caule, conforme foi demonstrado nas duas
primeiras épocas de avaliação. Estes dados condizem com a literatura (CARVALHO,
1994; JOAQUIM, 1991). Não ocorreram diferenças entre substratos e interação E x
S.
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Para massas fresca e seca de raiz e parte aérea, não foi encontrada diferença
significativa entre espécies; porém, dentre os tratamentos, S3 mostrou-se
superior a S1 (parte aérea), não diferindo, contudo, dos demais (Tabela_3).
Embora todos os tratamentos que contivessem húmus em sua composição não tenham
diferido estatisticamente entre si, os valores obtidos demonstram a importância
de cada componente na mistura, quanto à aeração para o desenvolvimento
radicular. Uma análise conjunta mais acurada dos dados obtidos, tanto para
massa fresca quanto seca de raiz e de parte aérea, indicam destaque para S3,
sugerindo que, para esses parâmetros, foi o melhor substrato. Os valores
encontrados neste estudo estão aquém dos obtidos por CARVALHO(1994) e por LIRA
(1990), porém, acima dos relatados por JOAQUIM (1991), provavelmente devido ao
volume dos recipientes e composição dos substratos. Para CL, os valores
concordam com os de CARVALHO (1994), porém não com os de JOAQUIM (1991) para
massa seca de parte aérea, devido às características da espécie, que possui
desenvolvimento mais lento que CR e o primeiro autor descreveu dos dados aos
120 DAS, ocasião em que o sistema radicular ainda estava em fase de expansão,
havendo espaços no interior do recipiente a serem preenchidos pelo mesmo. O
desenvolvimento da parte aérea em altura é determinado pelo comprimento do
sistema radicular (simetria). JOAQUIM (1991), utilizando recipientes de 6 cm de
altura, não obteve plantas superiores a 7,22 cm (CL) e 8,21 cm (CR) mesmo aos
163 DAS. A importância do substrato, além da altura do recipiente, ficou
demonstrada no trabalho de Lira (1990) que, apesar de utilizar recipientes de
12 cm e misturas de terra e vermiculita, além de "Plantmax"
comercial, só obteve plantas com altura superior a 10 cm aos 135 DAS, tendo
como média 8,5 cm. O húmus de minhoca como componente de misturas para
substrato é indicado por SEMPIONATO et al. (1997), que recomendam 3% na mesma.
Quanto à composição física do húmus e da vermiculita, ambos possuem alta
porosidade, porém o primeiro apresenta apenas microporosidade elevada, enquanto
a segunda mostra equilíbrio entre a macro e a microporosidades (GONÇALVES &
POGGIANI, 1996). Esta característica do húmus pode levar a uma redução na
aeração e prejuízo para o desenvolvimento do sistema radicular. Isto deve ter
ocorrido em S5 e S4. Pela predominância de vermiculita em S1 e S2, a aeração
foi melhor, porém elevou a drenagem e não permitiu a formação de torrões com
alta consistência, prejudicando a estrutura das raízes por ocasião do manuseio,
o que não é recomendável. O equilíbrio desta característica (porosidade) foi
conseguido em S3, motivo pelo qual se destacou nos parâmetros analisados neste
estudo, embora não diferisse estatisticamente dos demais para altura de
plantas, diâmetro de caules e massas fresca e seca de raízes.
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Com relação à praticidade e à operacionalidade, recomenda-se a utilização de
tubetes ao invés de bandejas de poliestireno expandido, pois a germinação das
sementes das espécies estudadas não ocorre de maneira uniforme, e os
recipientes em unidades móveis permitem padronização por lotes.
Quanto à contribuição nutricional do húmus pela sua composição química, esta
não ficou evidente devido à eficiência do adubo encapsulado de liberação
gradual que, provavelmente, supriu as necessidades das plantas em todos os
tratamentos. Como neste estudo se trabalhou com a dosagem mínima recomendada (3
kg de 19-06-10/m3 de substrato), sugerem-se mais pesquisas quanto à dosagem,
pois pode ocorrer de se necessitar de quantidades diferentes desta para
conseguir resultados melhores.
CONCLUSÕES
Pela a interpretação dos resultados e análise dos dados neste estudo, conclui-
se o seguinte:
1. a. Para massas fresca e seca de raiz, 50% de húmus e 50% de vermiculita
destacou-se dos demais substratos, embora não diferisse estatisticamente dos
outros tratamentos.
b. Para a parte aérea (massas fresca e seca), o substrato constituído de 100%
de vermiculita foi igual aos demais, exceto a 50% de húmus e 50% de
vermiculita, ao qual se mostrou inferior.
2. Com relação à precocidade, obtiveram-se plantas aptas ao transplantio (10 cm
de altura) de tangerineira-Cleópatra e de limoeiro-Cravo aos 111 DAS nas
condições em que foi desenvolvido este trabalho.
3. Quanto ao diâmetro do caule, aos 104 e 118 DAS, as plantas de limoeiro-Cravo
mostraram-se superiores às de tangerineira-Cleópatra (características das
espécies), porém, o mesmo não ocorreu aos 132 DAS.