Parcelamento da adubação NPK em abacaxizeiro
INTRODUÇÃO
A produção de abacaxi no Brasil é superior a 1,5 milhão de toneladas/ano (Nehmi
et al., 1999), a qual coloca o País entre os três maiores produtores mundiais.
A despeito da importância econômica da cultura, a experimentação sobre adubação
de abacaxizeiro é pequena no Brasil e, ainda menor, no Estado de São Paulo.
A cultura é relativamente exigente em nutrientes. Segundo Hiroce et al. (1977),
são extraídos aproximadamente 350 kg ha-1 de N, 30 kg ha-1 de P e 500 kg ha-
1 de K em cultivos com 50.000 plantas ha1. Paralelo a essa exigência, tem-se
que o ciclo de produção pode durar mais de 20 meses, exigindo que a aplicação
de fertilizantes seja parcelada. O parcelamento da adubação com N e K
possibilita fornecer esses nutrientes de acordo com as exigências da planta,
minimizando, especialmente, as perdas por lixiviação (Lacoeuilhe, 1978;
Lacoeuilhe et al., 1978). Para Giacomelli & Py (1981). O fracionamento das
doses de adubos a serem aplicadas em abacaxizeiro aumentaria a eficiência das
adubações.
Em São Paulo, recomenda-se a aplicação de 300 a 600 kg ha-1 de N, conforme a
produtividade esperada, 40 a 140 kg ha-1 de P2O5 e 100 a 600 kg ha-1 de K2O de
acordo com resultados de análise de solo e meta de produtividade para o local
(Spironello & Furlani, 1996). É prescrito, também, que a adubação
nitrogenada e potássica (plantios de março/abril) seja parcelada em quatro
aplicações (10% em abril-maio, 20% em novembro, 40% em janeiro e 30% em março-
abril). Num experimento realizado em condições de cultivo semelhantes às deste
trabalho, Spironello et al. (1998) constataram incrementos de produtividade em
resposta à aplicação de N e K. Entretanto, o aumento na dose de N causou
diminuição no teor de sólidos solúveis e na acidez dos frutos.
O objetivo deste trabalho foi comparar esquemas de parcelamento da adubação com
N, P e K em abacaxizeiro, estimando seus efeitos qualitativos e quantitativos
sobre a produção de frutos.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi desenvolvido em Agudos (SP), num Argissolo Vermelho-Amarelo,
com textura média, em condições de cultivo típicas dessa região, que é uma das
mais importantes produtoras do Estado. O clima é mesotérmico de inverno seco
(Cwa-Köppen). Em amostragem anterior à instalação do experimento, foram obtidos
os seguintes valores médios para alguns atributos químicos do solo: matéria
orgânica = 17 g kg-1; pH (CaCl2 0,01 mol L-1) = 4,1; P(resina)= 8 mg dm3; K =
7,5 mmolc dm3; Ca = 7 mmolc dm3; Mg = 3 mmolc dm3; H+Al = 31 mmolc dm3 e
saturação por bases = 27%, segundo metodologia de análise descrita por Raij
& Quaggio (1983).
Empregou-se o delineamento experimental em blocos ao acaso, com seis
tratamentos (Tabela_1) e cinco repetições. O esquema de parcelamento do
tratamento 1 (testemunha) correspondeu aproximadamente à recomendação de
adubação para a região definida por Spironello & Furlani (1996). As
quantidades totais de fertilizantes empregadas em todos os tratamentos foram
550 kg ha-1 de N (uréia), 550 kg ha-1 de K2O (cloreto de potássio) e 160 kg ha-
1 de P2O5 (superfosfato simples no plantio e superfosfato triplo na útima
aplicação do tratamento 6). O P foi aplicado no fundo do sulco na época do
plantio; os demais fertilizantes, em cobertura, na base das plantas,
procurando-se atingir as axilas das folhas mais velhas. Complementou-se a
quantidade de S no tratamento 6 com CaSO4. Cada parcela constou de seis linhas
duplas, com nove plantas por linha, espaçadas de 0,4 m entre plantas, 0,5 m
entre linhas simples e 1,15 entre linhas duplas (108 plantas). Nas avaliações,
foram consideradas 56 plantas (18,5 m2) das quatro linhas centrais.
O experimento foi instalado em 04-05-95, empregando-se mudas do tipo
"filhote", tamanho médio, da variedade Smooth Cayenne (Havaí ou
Bauru). Ocorreu indução floral natural entre 80 e 90% das plantas; nas
restantes, foi aplicado Ethrel (etephon a 21,7%) na dose de 3 L ha-1 e uréia na
concentração de 20 g L-1 de calda.
Antes da emissão da inflorescência, amostraram-se 20 folhas "D"
(folha mais nova totalmente desenvolvida) por parcela, tomando-se 20 cm
centrais. As amostras foram processadas e analisadas quanto aos teores de N, P,
K, Ca, Mg, B, Cu, Fe, Mn e Zn de acordo com Bataglia et al. (1983).
A colheita deu-se aos 21,5 meses após o plantio (07/02/97), quando os frutos de
cada parcela foram contados e pesados. Para estimar a produtividade, os frutos
e plantas atacados por fusariose (Fusarium subglutinans) foram descartados.
Para as análises químicas da polpa, amostraram-se quatro frutos por parcela. O
teor de sólidos solúveis (°Brix) foi estimado com refratômetro manual em
amostras das regiões basal, mediana e apical dos frutos. A partir do suco da
base e do ápice dos frutos, extraído por centrífuga, fizeram-se as
determinações de vitamina C (mg de ácido ascórbico/100 g de amostra) e de
acidez titulável (g de ácido cítrico/100 g de amostra), fazendo-se duas medidas
por amostra de suco, segundo Carvalho (1990).
Os efeitos dos tratamentos foram avaliados empregando-se o teste F. A
significância de contrastes entre médias, estabelecidos a priori, foi estimada
com o teste t para contrastes. Nas análises de variância e contrastes,
empregou-se o módulo GLM (General Linear Models) do SAS, segundo Freund &
Litttell (1981). Foram, também, estabelecidas equações de regressão,
relacionando teor foliar de N, teor de sólidos solúveis e massa média dos
frutos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os tratamentos de parcelamento da adubação tiveram efeitos significativos sobre
a massa média de frutos, produtividade e teor de sólidos solúveis. De outro
modo, a distribuição de tamanho dos frutos, acidez e teor de vitamina C não foi
influenciada pelos diversos parcelamentos (Tabela_2).
A massa média de frutos, que variou de 2,55 a 2,84 kg, e a produtividade (77,2
a 86,1 t ha-1) cresceram com o aumento no número de parcelamentos das
adubações. O fracionamento da adubação nitrogenada e potássica em somente três
aplicações (junho, novembro e janeiro) mostrou-se inferior quanto à
produtividade e à massa média de frutos. O parcelamento em cinco aplicações,
estendendo-se até maio, propiciou produção de frutos mais pesados e
produtividade mais elevada do que os tratamentos com três (T3) ou quatro
parcelas (contraste T1 vs.T4) (Tabelas_2 e 3).
Por meio da análise dos contrastes (Tabela_3), observou-se que a aplicação mais
tardia de potássio não diferiu da testemunha (T1 vs. T5), tanto em relação à
quantidade como à qualidade da produção. De outro modo, a adubação nitrogenada
tardia fez diminuir o teor de sólidos solúveis dos frutos (T5 vs. T4). Esses
resultados divergem do que foi apresentado por Lacoeuilhe (1984). Esse autor
afirmou que aplicações mais tardias de K, até mesmo depois da indução floral,
seriam úteis para melhorar a qualidade dos frutos. Verificou-se, também, que
fracionar a adubação nitrogenada e potássica com aplicações crescentes ao longo
do ciclo(T2) não diferiu do tratamento testemunha (T1 vs. T2). O fracionamento
da dose de fósforo em duas aplicações (T6), em comparação com a aplicação única
no plantio (contraste T1 vs. T6), não teve efeito sobre nenhuma das variáveis
estudadas.
Com relação aos teores foliares dos nutrientes analisados, apenas N, Ca e Mg
variaram (p<0,05) em função dos diferentes parcelamentos da adubação (Tabelas_4
e 5).
As médias de N foliar variaram de 9,6 a 13,9 g kg-1 (Tabela_4), estando abaixo
da faixa de teores considerada adequada para a cultura, que é de 15 a 17 g kg-
1, segundo Quaggio et al. (1996). O parcelamento da adubação com aplicação de
frações crescentes ao longo do ciclo (T2) e o aumento no número de aplicações
(T4), em relação ao tratamento 1, determinaram um significativo incremento no
teor foliar de N. Por outro lado, a redução no número de aplicações (T3)
diminuiu o teor foliar de N (Tabela_5).
A concentração foliar de P variou de 0,9 a 1,1 g kg-1, valores considerados
adequados, segundo Quaggio et al. (1996). O fracionamento da adubação fosfatada
em duas aplicações não influenciou o teor foliar de P, ao ser comparado com o
tratamento 1, provavelmente devido às plantas já estarem adequadamente nutridas
com esse elemento com o seu fornecimento em dose única no plantio.
A concentração foliar de potássio não variou em função dos tratamentos (Tabela
4), situando-se próximo ao limite inferior da faixa de suficiência (22 a 30
g kg-1, segundo Quaggio et al., 1996). Nem mesmo a aplicação mais tardia de K
(T4 e T5) aumentou o teor foliar de K (contrastes T1 vs.T4 e T1 vs.T5 na Tabela
5). Segundo Uexküll (1985), o potássio, além de ser o nutriente absorvido em
maior quantidade pela cultura, teria efeito direto sobre a qualidade dos
frutos. O fato de os esquemas de parcelamento não apresentarem efeito sobre o
teor foliar de K (p>0,05, Tabela_4), justificaria, em parte, a ausência de
efeitos da aplicação tardia de K sobre a qualidade dos frutos K (contrastes T1
vs.T4 e T1 vs.T5 na Tabela_3).
Os teores foliares de Ca em todos os tratamentos ficaram abaixo da faixa de
suficiência (8 a 12 g kg-1, segundo Quaggio et al., 1996); para Mg, esses
teores foram mais adequados à cultura, situando-se quase sempre acima de
3 g kg-1. O parcelamento da adubação com N e K teve efeito sobre os teores
foliares de Ca (p<0,0021) e Mg (p<0,0759). O aumento no número de aplicações
(T1 vs. T4) e a adubação potássica mais tardia (T1 vs. T5) causaram incrementos
significativos nos teores foliares de Ca e Mg (Tabelas_4 e 5).
Na Figura_1, é demonstrado que a massa média de frutos aumentou linearmente com
o incremento no teor foliar de N (p<0,0098). Incrementos de produção em
abacaxizeiro relacionados à nutrição nitrogenada foram constatados em vários
trabalhos (Bezerra et al., 1981; Obiefuna et al.,1987; Paula et al., 1991;
Spironello et al., 1998). Segundo Lacoeuilhe (1975; 1978), o crescimento e
desenvolvimento das plantas seriam diretamente dependentes do suprimento de N,
e o rendimento de frutos estaria relacionado com essas variáveis. Como o efeito
dos tratamentos sobre o teor foliar de N foi altamente significativo (p<0,0001;
tabela_4), é possível que os aumentos de produção obtidos com o fracionamento
das adubações em maior número de aplicações estejam relacionados à melhoria na
nutrição nitrogenada das plantas.
Observa-se, na Figura_1, que o teor de sólidos solúveis apresentou uma resposta
linear e negativa ao aumento do teor de N foliar (p<0,0024). O N, ao propiciar
maior crescimento dos frutos, teria afetado o teor de sólidos solúveis (efeito
diluição). Esses resultados são semelhantes aos descritos por Spironello et al.
(1998), que observaram que aumentos na massa média de frutos, em resposta à
aplicação de N, estiveram associados à diminuição no teor de sólidos solúveis.
Outrossim, Martin-Prével (1961) observou que a qualidade dos frutos (coloração,
aroma, sabor e resistência ao transporte) melhorava à medida que a relação
entre os teores foliares de K/N (em porcentagem) se aproximava de três,
indicando que eventuais aumentos no teor foliar de N, sem o correspondente
incremento de K, poderiam afetar a qualidade da produção.
Aparentemente, a principal diferença entre os esquemas de parcelamento das
adubações foi decorrente de alterações na acumulação de nitrogênio nas plantas.
Esses efeitos manifestaram-se na qualidade e massa de frutos produzidos. O
parcelamento com cinco aplicações (T4) mostrou-se vantajoso quanto à
produtividade, pois o fornecimento de N até 12 meses após o plantio permitiu
que as plantas absorvessem quantidade maior desse nutriente (Tabela_4), com
reflexos positivos sobre o tamanho médio dos frutos produzidos (Tabela_2).
Entretanto, a maior absorção de N e o incremento no tamanho dos frutos foram
acompanhados por redução no teor de sólidos solúveis (Figura_1, Tabelas_2 e 3).
A decisão de qual esquema de parcelamento adotar, depende, portanto, de como a
produção será comercializada. Caso o mercado remunere melhor os frutos mais
doces, o mais indicado seria evitar a aplicação tardia de nitrogênio.
Entretanto, se o preço pago ao produtor depender somente do tamanho médio dos
frutos, a melhor opção seria parcelar a dose de nitrogênio em cinco vezes, com
aplicações até 12 meses após o plantio.
CONCLUSÕES
1. A qualidade e massa média dos frutos e os teores foliares de N, Ca e Mg
foram influenciados pelo parcelamento da adubação nitrogenada e potássica.
2. O parcelamento da adubação fosfatada não influenciou a nutrição e a produção
de frutos.
3. A aplicação tardia de N proporcionou aumento na produção; entretanto, o
efeito sobre o teor de sólidos solúveis dos frutos foi negativo.
4. A massa média dos frutos aumentou linearmente com o incremento no teor
foliar de N; por outro lado, o teor de sólidos solúveis dos frutos apresentou
comportamento inverso.