Tipo de porta-enxerto e anelamento de ramos no pegamento da enxertia em
lichieira (Litchi chinensis Sonn.)
TIPO DE PORTA-ENXERTO E ANELAMENTO DE RAMOS NO PEGAMENTO DA ENXERTIA EM
LICHIEIRA (Litchi chinensis SONN.)1
INTRODUÇÃO
Comercialmente, a lichieira é propagada por processo vegetativo, sendo o mais
utilizado a alporquia, podendo-se também utilizar métodos como enxertia e
estaquia. Também esta planta pode ser propagada por sementes e esta propagação
via sexual confere às plantas uma alta variabilidade genética, embora a
lichieira apresente um longo período juvenil (levando de dez ou mais anos) para
produzir sementes.
Assim, a propagação vegetativa apresenta-se como uma alternativa para a
reprodução. Entretanto, é pouco utilizada na lichia devido às baixas
porcentagens de pegamento. Para obter-se um aumento do pegamento, na enxertia,
utiliza-se da aplicação de técnicas simples como, por exemplo, o anelamento do
ramo algumas semanas antes da enxertia. Na lichieira, apesar de a alporquia ser
mais utilizada, este método possui algumas desvantagens, entre elas o
depauperamento da planta-matriz quando se obtém um grande número de mudas, além
do método ser de execução bastante trabalhosa, restringindo e onerando a
produção de mudas.
O presente trabalho teve por objetivo avaliar o comportamento entre dois tipos
de porta-enxertos (pé-franco e alporque) e três épocas de anelamento dos ramos,
antes da retirada dos garfos, utilizando-se da enxertia por garfagem tipo
inglês simples.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi realizado sob condições de ripado, na Faculdade de Ciências
Agrárias e Veterinárias - UNESP, Câmpus de Jaboticabal, município localizado a
21o 15' 22" Sul e 48o 8' 58" Oeste, com altitude de 595 m, possuindo
clima subtropical-úmido com estiagem de inverno.
Os alporques (que originariam parte dos porta-enxertos) foram realizados
selecionando-se ramos firmes, conforme recomenda Garner (1976), com comprimento
aproximado de 40 cm entre a parte terminal e o local de anelamento, cuja
largura era de aproximadamente 2 cm, utilizando esfagno como substrato. O
porta-enxerto utilizado no experimento tinha cerca de 1 ano, foi obtido por
sementes e conduzido em ripado.
Os garfos para a enxertia (para ambos os tipos de porta-enxertos) foram obtidos
das duas árvores-matrizes que originaram os alporques, tendo sido executados os
anelamentos nos ramos que viriam a ser coletados como garfos anelados. O
sistema utilizado foi o de garfagem tipo inglês simples.
Os tratamentos consistiam no uso de três sistemas de anelamento do ramo doador
do garfo, e dois tipos de porta-enxerto. O experimento foi instalado de acordo
com o esquema fatorial 2X3 com os fatores porta-enxerto (alporque e pé-franco)
e anelamento (sem anelamento, anelamento de duas semanas, anelamento de quatro
semanas), em delineamento inteiramente casualizado, com três repetições,
totalizando 18 parcelas, com oito plantas cada. A porcentagem de pegamento do
enxerto foi avaliada aos 30 e 45 dias.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Após o período de 30 dias da operação de enxertia, determinou-se a porcentagem
de pegamento e verificou-se a sobrevivência dos enxertos (Tabela_1). Verifica-
se que houve diferenças no pegamento do enxerto, tanto em função do tipo de
porta-enxerto usado quanto devido ao anelamento do ramo doador do garfo, além
de mostrar uma interação de efeitos entre os dois fatores estudados (porta-
enxerto x anelamento). O teste de Tukey para as médias do fator tipo de porta-
enxerto mostra que houve diferença significativa entre os dois tipos de porta-
enxerto. Para as médias do fator época de anelamento, observa-se que o
anelamento de duas semanas foi mais propício para o pegamento que o de quatro
semanas, embora não tenha sido detectada diferença nos ramos que não foram
anelados. Contudo, quando se usa porta-enxerto proveniente de alporque, o
resultado é quase nulo; por sua vez, com a enxertia em cavalos originados de
sementes, obteve-se uma porcentagem de sucesso de cerca de 27,2%, número
bastante baixo, mas significativamente maior que o anterior (0,5%).
Vários fatores provavelmente influenciaram na superioridade dos tratamentos com
porta-enxerto tipo pé-franco, sendo que o vigor pode ser considerado como o
mais importante.
Venturieri et al. (1987) e Fachinello et al.(1995) mencionam a técnica de
garfagem em fenda simples como um dos métodos de enxertia com melhores
resultados, apesar de possuir o inconveniente de o enxerto danificar-se muito
facilmente, justamente pela fragilidade do contato das duas partes, o que pode
ter sido responsável pelos baixos índices obtidos no presente trabalho.
Com relação aos porta-enxertos provenientes de alporquia, pode-se citar o
desfolhamento parcial como uma das possíveis causas da menor porcentagem de
pegamento, uma vez que a muda perdia quase a totalidade de suas folhas ao ter o
ápice podado para a enxertia, região na qual se acumulava o maior número de
folhas do alporque. No entanto, os pés-francos continham mais folhas na região
basal do caule, o que pode ter estimulado o pegamento. Essas respostas
assemelham-se com as encontradas por Venturieri et al.(1987) e Sharma et al.
(1990). Em cupuaçuzeiro, Venturieri et al. (1987) concluíram que o
desfolhamento parcial diminuiu o pegamento dos enxertos. Sharma et al. (1990)
também obtiveram os piores resultados na sobrevivência de alporques de lichia
com 100% de desfolha. O mesmo não se verifica, entretanto, nos estudos de
Sharfuddin (1983), que constatou maior sobrevivência em alporques de lichia
quando tratadas com desfolha intensa.
No estudo do anelamento, duas semanas antes da enxertia, observa-se o maior
pegamento quando comparado ao de quatro semanas (Tabela_1). O anelamento
contrariou as expectativas, visto que, nos estudos de Ojima et al. (1984) com
nogueira-macadâmia, o melhor tratamento foi o do anelamento de quatro a oito
semanas antes da enxertia, com porcentagem de pegamento praticamente duas vezes
maior em relação aos ramos não anelados. Este foi um resultado relevante, pois
Villalobos e Peraza (1986) salientam que, de um modo geral, o anelamento em
frutíferas deve ser de seis a oito semanas.
Após 15 dias da primeira avaliação (45 dias após a enxertia), foi realizada uma
segunda coleta de dados, na qual se verificou a morte de alguns enxertos
(Tabela_2).
Em relação à sobrevivência de mudas e enxertos, é natural a ocorrência de morte
em uma pequena porcentagem de alporques, pois as novas raízes podem não estar
adaptadas ao novo ambiente no devido tempo (Oosthuizen, 1992).
Outro aspecto importante a considerar é a propriedade que muitas plantas
frutíferas possuem de eliminar substâncias tóxicas ao tecido por ocasião do
corte, o que acarreta dificuldades para a formação do calo, além de a própria
fragilidade do contato entre as partes enxertadas influenciar na manutenção do
enxerto (Fachinello et al., 1995).
A idade dos porta-enxertos também é um fator de relevância na sobrevivência dos
enxertos, uma vez que foram utilizados pés-francos com mais de hum ano e
alporques com seis meses. Os melhores resultados foram provenientes de porta-
enxertos de pés-franco. Esses resultados contrastam com os resultados obtidos
por Sampaio e Barbin (1980) e Dall'orto et al.(1988), em cultura da nogueira-
macadâmia, os porta-enxertos com mais de uma ano de idade tiveram eficiência de
pegamento inferior em relação aos porta-enxertos de seis meses de idade.
No presente trabalho, observou-se a importância da permanência de cobertura
plástica sobre os garfos por um período superior a 60 dias, devido à união das
partes ser muito lenta nesta espécie, retardando a conexão dos vasos e a
conseqüente translocação de água e nutrientes requeridos pela brotação
incipiente das gemas. Essas observações são coincidentes com as de Ojima et al.
(1984) em nogueira-macadâmia, na qual a proteção dos garfos nos primeiros 30 a
40 dias foi fundamental. Entretabto, Garner (1976), sugere que, para permitir a
expansão do broto sem prováveis danos, ao invés da retirada do plástico, se
execute um corte no próprio plástico, na altura da gema em brotação.
CONCLUSÃO
O tratamento que proporcionou melhores resultados aos 30 dias, foi a enxertia
com ramos anelados duas semanas antes em porta-enxerto tipo pé-franco. Os
resultados menos expressivos foram obtidos quando se utilizou garfos com quatro
semanas de anelamento enxertados em porta-enxertos provenientes de alporquia.
Em relação à sobrevivência das gemas do enxerto, 45 dias após a enxertia,
verificou-se que a alta porcentagem de mortalidade deve-se, provavelmente, ao
fator porta-enxerto tipo alporque, pois diferiu significativamente dos fatores
anelamento e porta-enxerto tipo pé-franco.