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Representação em texto

BrBRCVAg0100-29452002000100017

variedadeBr
ano2002
fonteScielo

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Efeito da "mancha-chocolate" nas características físico-químicas e químicas de frutos de abacaxizeiro-'Pérola' EFEITO DA "MANCHA-CHOCOLATE" NAS CARACTERÍSTICAS FÍSICO-QUÍMICAS E QUÍMICAS DE FRUTOS DE ABACAXIZEIRO-'PÉROLA'1

INTRODUÇÃO A "mancha-chocolate" constitui-se em um novo problema surgido na abaxicultura brasileira, cuja causa ainda é desconhecida. Tem-se detectado este problema em abacaxis produzidos nos Estados do Tocantins, Maranhão e Pará.

Apesar de a ocorrência da "mancha-chocolate" restringir-se a estas regiões e à cultivar Pérola, que é a única explorada nestas regiões, poderá futuramente tornar-se uma ameaça à abacaxicultura brasileira.

Os sintomas da "mancha-chocolate" caracterizam-se pelo escurecimento da polpa, tornando o fruto impróprio para a comercialização. De acordo com observações de produtores, o problema acontece no início do período chuvoso, o que corresponde aos meses de outubro e novembro, e começou a surgir em meados da década passada. Foram feitos alguns estudos, porém não foram publicados.

Segundo relatos de alguns pesquisadores, não indicações de que o problema seja de causa biótica, uma vez que nenhum possível patógeno foi isolado a partir de frutos sintomáticos.

A suscetibilidade ao escurecimento ou a tendência ao escurecimento enzimático em frutas e hortaliças tem sido relacionada diretamente ao teor de polifenoloxidase presente, à concentração de compostos fenólicos endógenos no tecido ou a uma combinação especifica destes fatores (Esckin, Henderson e Townsend, 1971).

A expansão da produção brasileira e o incremento da exportação de frutas frescas mostram a necessidade e o interesse de estudos básicos de preservação da qualidade do fruto no sentido de garantir uma oferta contínua, e com um padrão de qualidade que atenda às exigências do comprador. Partindo-se do princípio de que ainda não se sabe a causa da "mancha-chocolate", torna-se importante o conhecimento das transformações físico-químicas e químicas que ocorrem no fruto afetado, a fim de oferecer subsídios às pesquisas objetivando o seu controle.

MATERIAL E MÉTODOS Foi escolhida uma lavoura de abacaxi-'Pérola' afetada pela "mancha- chocolate", localizada no Município de Miranorte-TO. Foram colhidos, aleatoriamente, 340 frutos da cultivar Pérola. Foram selecionados 320 frutos em 4 estádios de maturação aparente, sendo considerado o estádio 1- verde; estádios 2 e 3 ¾ intermediários; e o estádio 4- maduro. Todos os frutos foram cortados no sentido vertical, sendo então efetuada uma avaliação visual das lesões decorrentes da "mancha-chocolate", separando-se frutos afetados e aparentemente sadios. Os frutos afetados foram separados em três categorias: frutos com manchas fracas (MF), frutos com manchas moderadas (MM) e frutos com manchas intensas (MI). Todos os frutos foram picados, separando-se a região com sintomas. Da amostra composta, foram retiradas 4 amostras que compuseram as repetições. Após serem congeladas em nitrogênio líquido, foram transportadas, sob refrigeração, até o Laboratório de Pós-Colheita da Universidade Federal de Lavras, onde foram feitas as seguintes avaliações: a) Acidez titulável total (%) ¾ ATT, determinada por titulação com NaOH 0,1N, de acordo com a técnica preconizada pela AOAC (1992) e expressa em porcentagem de ácido cítrico por 100 mL de suco; b) pH - determinado por potenciometria em eletrodo de vidro, segundo técnica da AOAC (1992); c) Sólidos solúveis totais (%) ¾ SST, determinados por refratometria, conforme as normas da AOAC (1992), utilizando-se de refratômetro digital, com compensação de temperatura automática; d) Açúcares totais, redutores e não redutores - extraídos pelo método de Lane - Enyon, citado pela AOAC (1992) e determinados pela técnica de Somogy, adaptada por Nelson (1944); e) Vitamina C total (mg/100g) - determinada pelo método colorimétrico de Roe e Kutether, citado por Strohecker e Henning (1967); f) Compostos fenólicos totais (mg/100g) - extraídos e doseados segundo a técnica de Goldstein e Swain (1963), com algumas modificações. Foram feitas três extrações sucessivas, usando como meio extrator o metanol 80% e determinados pelo método de Follin-Denis, conforme recomendação da AOAC (1992); g) Atividade peroxidase (PER) - a extração da enzima e determinação da sua atividade foram realizadas pelo método preconizado por Matsuno e Uritani (1972). A atividade da enzima foi expressa em unidade por minuto por grama de tecido fresco (U/min/g); h) Atividade polifenoloxidase (PFO) - a extração foi feita de acordo com método proposto por Matsuno e Uritane (1972), sendo a atividade expressa em unidade por minuto por grama de tecido fresco (U/min/g), segundo método proposto por Teisson (1979).

O delineamento experimental adotado foi o inteiramente casualizado, com 12 tratamentos, compostos da seguinte forma: a) frutos sadios estádio1; b) frutos sadios estádio 2; c) frutos sadios estádio 3; d) frutos sadios estádio 4; e) frutos MF estádio 2; f) frutos MF estádio 3; g) frutos MF estádio 4; h) frutos MM estádio 2; i) frutos MM estádio 3; j) frutos MM estádio 4; k) frutos MI estádio 3; l) frutos MI estádio 4. Foram utilizadas três repetições, perfazendo um total de 36 tratamentos.

Os valores obtidos de cada variável foram submetidos à análise de variância e a comparação das médias foi realizada utilizando-se do teste de Scott & Knott, ao nível de 1% de probabilidade.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Dos 320 frutos avaliados, divididos em 4 lotes de 80 frutos referentes aos 4 estádios de maturação (1; 2; 3 e 4), constatou-se a "mancha- chocolate" em um percentual de 0; 20; 31 e 54 %, respectivamente. Tais resultados confirmam relatos de produtores que observaram que a incidência do problema se intensifica à medida que o fruto vai amadurecendo.

Os teores médios de compostos fenólicos totais apresentaram-se significativamente mais altos nos frutos mais afetados pela "mancha- chocolate". Observou-se um maior valor naqueles pertencentes ao estádio 4 (maduro), nos quais as manchas apresentavam-se mais severas, e menores nos frutos de estádio 1 (verde), sem sintomas (Figura_1).

As enzimas polifenoloxidase e peroxidase também apresentaram maiores atividades nos frutos com grau de maturação mais avançado (sintomas severos) e menores nos frutos aparentemente sadios. Entretanto, verificou-se também que a polifenoloxidase foi mais ativa no processo de escureci-mento da polpa, atingindo um valor máximo de 146,97 U/g/min nos frutos mais atacados pela "mancha- chocolate", enquanto a enzima peroxidase apresentou atividade de 86,40 U/g/min. Demonstrou-se, dessa forma, que dentre as duas enzimas avaliadas, a polifenoloxidase aparentemente é a que, tem um maior envolvimento com a presença dos sintomas (Figura_1). Perante tais resultados, pode-se inferir que a "mancha-chocolate" é um distúrbio fisiológico causado por oxidação de compostos fenólicos e catalisada pela ação das enzimas polifenoloxidase e peroxidase. Este trabalho está de acordo com Esckin et al.

(1971), que citam que a suscetibilidade ao escurecimento ou a tendência ao escurecimento enzimático em frutas e hortaliças têm sido relacionadas diretamente com uma maior atividade da polifenoloxidase, maior concentração de compostos fenólicos endógenos no tecido ou uma combinação específica destes fatores.

O escurecimento dos tecidos vegetais deve-se ao rompimento da membrana celular, liberando as enzimas que entram em contato com os substratos (fenólicos), havendo, assim, uma oxidação descontrolada dos mesmos com utilização do oxigênio molecular. A principal enzima que tem sido detectada no escurecimento da polpa do abacaxi, decorrente de armazenamento em baixas temperaturas, é a polifenoloxidase, que apresenta a capacidade de oxidar inicialmente monofenóis para o-difenóis, com posterior oxidação de o-difenóis para o-quinonas, formando pigmentos escuros que vão depreciar o produto (Scoot e Wills, 1975; Wheatley, 1982; Paull e Rohrbach, 1985; Botrel, 1992 e Gonçalves, 1998). A oxidação de fenóis pode resultar também da atividade da peroxidase, cuja oxidação se em presença de peróxido de hidrogênio A acumulação dos produtos das reações das peroxidases pode ocorrer durante a senescência dos frutos (Dilley, 1979; Wheatley, 1982; Awad, 1993). Apesar de a "mancha-chocolate" ser uma desordem observada no campo, verifica-se que, de forma similar ao distúrbio causado pelo frio, rompimento de membrana celular e maior contato das enzimas oxidativas com seus substratos, resultando dessa forma no escurecimento do tecido vegetal.

A polifenoloxidase é encontrada praticamente em todos os tecidos vegetais. Sua atividade pode variar em função da espécie, variedade, estádio de maturação, condições de cultivo e mesmo com as práticas de manuseio e armazenamento adotados. Estima-se que 50% das perdas de frutas tropicais no mundo devem-se à sua ação, que resulta na formação de pigmentos escuros, proporcionando mudanças indesejáveis na aparência e nas características organolépticas dos produtos (Fenema, 1993). Verificou-se, nesse trabalho, que os frutos nos estádios mais avançados de maturação apresentaram-se mais suscetíveis à "mancha- chocolate", tornando-os totalmente inaceitáveis à comercialização.

No que se refere ao teor de vitamina C, verifica-se, através da Figura_2, que os frutos mais maduros e, conseqüentemente, mais afetados pela "mancha- chocolate", apresentaram menores teores de vitamina C. Os maiores teores desta vitamina foram detectados nos frutos verdes e aparentemente sadios, sendo que o inverso ocorreu com os frutos em estádio de maturação mais avançada, nos quais se verificou uma maior expressão dos sintomas. A vitamina C é um antioxidante natural encontrado nos vegetais que, na sua forma reduzida, recebe nome de ácido ascórbico. O abacaxi não é um fruto rico em ácido ascórbico; entretanto, a sua concentração tem sido associada aos distúrbios de escurecimento causado pelo "chilling", podendo variar de acordo com a cultivar, estádio de maturação, peso do fruto, nutrição mineral e tratamentos pós-colheita (Miller e Marsteller, 1953; Teisson e Combres, 1979; Paull e Rohrbach, 1982; Botrel, 1991, Abreu, 1995). Diante do exposto e dos resultados alcançados, verifica-se que os níveis de ácido ascórbico também demonstraram exercer influência na intensidade do escurecimento causado pela "mancha- chocolate", notando-se estreita relação entre os níveis de vitamina C e a intensidade da desordem dos sintomas.

Em relação à acidez titulável total, não se verificou relação direta com a incidência da "mancha-chocolate", detectando -se oscilações nos valores entre os diversos tratamentos analisados (Figura_3). Quanto ao pH, verificou-se uma tendência de os frutos aparentemente sadios apresentarem valores mais elevados (Figura_4). De acordo com Salunke e Desai (1984), a injúria causada por "chilling" em abacaxis está relacionada, entre outros fatores, a decréscimos no pH, o que de forma similar pode-se observar nos frutos com sintomas da "mancha- chocolate".

O teor de açúcares totais foi maior nos frutos mais maduros (estádio 4), com uma certa redução do mesmo à medida que a intensidade dos sintomas foi tornando-se mais acentuada. Obteve-se um valor de 14,55 % nos frutos aparentemente sadios, 13,70 % nos frutos com manchas fracas, 12,98% nos frutos com manchas moderadas e 12,72% no frutos com manchas intensas (Figura_5). Esta constatação coincide com relatos de Van Lelyveld e De Bruyn (1976) e Vukomanovic (1988), que observaram que os sintomas da injúria de "chilling", que também causa escurecimento da polpa, se encontram associados a valores mais baixos de açúcares totais. Quanto ao teor de açúcares não redutores, verificou-se um aumento deste nos frutos sem sintomas, do estádio 1 para o estádio 4, ao passo que, nos frutos afetados pela desordem, foi observado o inverso. A concentração de sacarose apresentou-se maior nos frutos mais afetados. Não foi observada relação entre o teor de sólidos solúveis totais e os sintomas da desordem.

CONCLUSÕES 1) Os sintomas da "mancha-chocolate" foram mais intensos nos frutos mais maduros e caracterizaram-se por um aumento acentuado no teor de compostos fenólicos e maiores atividades para as enzimas polifenoloxidase e peroxidase, o que sugeriu ao problema características de um distúrbio de natureza fisiológica.

2) Menores teores de vitamina C e de açúcares totais também foram observados nos frutos com manchas severas, quando comparados aos frutos com manchas fracas e com os aparentemente sadios.


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