CARACTERIZAÇÃO FÍSICA E QUANTIDADE DE NUTRIENTES EM FRUTOS DE MARACUJÁ DOCE
CARACTERIZAÇÃO FÍSICA E QUANTIDADE DE NUTRIENTES EM FRUTOS DE MARACUJÁ DOCE1
INTRODUÇÃO
A expansão do cultivo do maracujazeiro doce não tem sido acompanhada pela
geração tecnológica, fazendo com que, na maioria das vezes, o próprio produtor
tenha que desenvolver técnicas para solucionar os problemas surgidos. Estas
novas técnicas, geralmente, estão apoiadas nas informações disponíveis para o
cultivo do maracujazeiro-amarelo (Passiflora edulis Sims f. flavicarpa Deg.).
De acordo com Vasconcellos & Cerda (1994), os frutos do maracujazeiro doce,
devido às características de sua polpa, são consumidos principalmente como
fruta fresca, não sendo utilizados para elaboração de suco. A comercialização é
feita em caixetas de papelão (+/- 3,0 Kg), que recebem a classificação por
tipos, em função do número de frutos presentes no seu interior. Esse número
varia comercialmente de 8 a 24. Quanto maior for a classificação por tipo,
menor será então tamanho do fruto. Essa classificação garante ao produtor um
preço diferenciado pelo produto vendido.
Por apresentar uma exploração econômica recente, observa-se no campo grandes
variações nas características relacionadas à qualidade dos frutos, como
formato, peso, cor da polpa, sabor e o amolecimento basal dentre outros. A
fixação destas características é importante para viabilizar a identificação do
consumidor com o produto e, conseqüentemente, o sucesso comercial de sua
exploração.
Oliveira et al. (1982) relatam que os frutos do maracujazeiro doce apresentam
as seguintes características: formato piriforme; peso de 80 a 300 g; 200 a 300
sementes/fruto; 62,10% de casca; 9,74% de suco; e 26,20% de polpa residual. Num
estudo sobre o desenvolvimento de frutos do maracujá doce, Vasconcellos et al.
(1993) relatam os seguintes valores: peso médio de 270g; comprimento médio de
9,91 cm; largura média de 8,29 cm; 290 sementes/fruto, 24,22% de polpa e 75,78%
de casca .
Comparando a qualidade dos frutos de dez procedências de maracujá doce ,
produzidas no Distrito Federal, Anselmo et al. (1998) observaram, dentre outras
características: peso médio de fruto variando de 134 a 305 g e rendimento de
suco variando de 19,6 a 24,0%.
Com relação aos teores de nutrientes presentes nos frutos das diversas espécies
do gênero Passiflora, a literatura é escassa, reportando-se principalmente ao
maracujá-amarelo (Passiflora edulis Sims. f. flavicarpa Deg.) e maracujá-roxo
(Passiflora edulis Sims). De acordo com Fernandes et al. (1977), o fruto do
maracujazeiro-amarelo apresenta: 350 mg de N; 27 mg de P; 350 mg de K; 19 mg de
Ca; 19 mg de Mg; 30 mg de S; 194 mg de B; 72 mg de Cu; 718 mg de Fe; 268 mg de
Mn e 1290 mg de Zn.
Visando a um maior conhecimento sobre a quantidade de nutrientes presentes na
composição das diferentes partes do fruto (casca e polpa (suco+sementes)),
tendo em vista a importância das frutas como fonte de minerais na saúde humana,
além da possibilidade de utilização de frutos que não apresentem padrão para
comercialização e frutos atacados por pragas ou doenças para elaboração de
ração animal ou de substratos, o presente trabalho foi conduzido com o objetivo
de avaliar algumas características físicas do fruto do maracujá doce em função
da sua classificação por tipo, bem como a distribuição dos nutrientes na casca
e na polpa.
MATERIAL E MÉTODOS
No presente estudo, foram utilizados frutos de maracujá doce provenientes de um
cultivo comercial localizado no município de Lins - SP. As plantas estavam no
final do primeiro ano de produção, com uma produtividade de 15,7 t./ha (31,5 kg
de frutos por planta). O sistema de condução adotado foi o de espaldeira
vertical, sendo o espaçamento de plantio de 4,0m X 5,0m e a adubação e correção
de solo realizadas segundo as recomendações de Raij et al. (1996).
Para a análise das características físicas e da distribuição dos nutrientes, os
frutos foram classificados por tipos (8; 9 e 12), de acordo com seu tamanho,
sendo retirados 10 frutos ao acaso para avaliação de: comprimento e largura;
peso do fruto; peso da matéria fresca e seca da casca e da polpa
(semente+suco); e porcentagem de água na casca e na polpa.
A análise das concentrações dos nutrientes foi realizada segundo a metodologia
descrita por Malavolta et al. (1989), utilizando 10 frutos de cada tipo,
selecionados ao acaso, divididos em casca e polpa, colocados para secar em
estufa por 72 horas . No caso da polpa, o tempo de secagem foi de 5 dias para
permitir posterior moagem do material..
Para cada nutriente, foi realizada a análise de variância dos dados e
determinadas por comparação ortogonal as diferenças entre: Y1- quantidade dos
nutrientes na polpa dos 3 tipos de frutos (Polpa 8 X Polpa 9 X Polpa 12); Y2-
quantidade dos nutrientes na casca dos 3 tipos de frutos (Casca 8 X Casca 9 X
Casca 12); Y3- quantidade média dos nutrientes nas polpas versus nas cascas
(Polpas (8; 9 e 12) X Cascas (8; 9 e 12)); Y4- quantidade dos nutrientes na
polpa versus na casca do fruto tipo 8 (Polpa 8 X Casca 8); Y5- quantidade dos
nutrientes na polpa versus na casca do fruto tipo 9 (Polpa 9 X Casca 9); Y6-
quantidade dos nutrientes na polpa versus na casca do fruto tipo 12 (Polpa 12 X
Casca 12).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados das análises foliar e de solo do maracujazeiro doce obtidos no
presente experimento são apresentados nas Tabelas_1 e 2. Estes valores, quando
comparados com os valores relatados para o maracujazeiro-amarelo por
Baumgartner (1987), mostram que apenas o boro (com valores inferiores) e o
cobre (com valores 6 vezes superiores) foram os nutrientes que apresentaram
valores fora da faixa relatada por Baumgartner (1987).
Os dados apresentados na Tabela_3 mostram que os frutos do tipo 8 apresentaram
comprimento e largura superiores aos frutos tipo 9 e 12. Como conseqüência
desse maior crescimento, os frutos tipo 8 apresentaram peso médio superior ao
dos frutos tipo 9 e 12 (18,23 % e 31,95 %, respectivamente), assim como maiores
pesos de matéria fresca e seca de casca e polpa. Os frutos do tipo 8 apresentam
maior porcentagem de peso de matéria fresca e menor de matéria seca da casca
que os frutos tipo 9 e 12, mostrando a casca do fruto tipo 8 possuir maior
porcentagem de água. De forma contrária, a % de água na polpa dos frutos do
tipo 8 foi menor que a da polpa dos frutos 9 e 12, reflexo do maior número de
sementes formadas nos frutos do tipo 8, levando a um maior peso de matéria
fresca e seca de polpa, e não apenas de volume de suco formado. Os frutos,
independentemente de sua classificação, apresentaram em média 90% de água na
casca e 70% de água na polpa.
Os valores obtidos para os frutos tipo 8; 9 e 12 de: peso médio (273,3g,
223,4g, 185,9g), peso da casca (20,3g, 17,5g e 14,9g) e peso da polpa (67,1g,
60,2g e 49,3g), estão dentro dos valores relatados por Oliveira et al. (1982),
Vasconcellos et al. (1993) e por Anselmo et al. (1998).
Quanto ao comprimento e largura, os frutos do tipo 8 apresentaram valores
médios de 11,60 cm e 8,03 cm, respectivamente, que foram superiores aos
observados por Vasconcellos et al. (1993), possivelmente devido ao formato dos
frutos que, em sua maioria, apresentavam forma piriforme.
A análise de variância mostrou existir diferenças estatísticas para todos os
macronutrientes, nos contrastes propostos.
Com relação à distribuição dos macronutrientes na casca e polpa dos frutos
(Tabela_4), observa-se que, independentemente da classificação dos frutos, o
nitrogênio estava em quantidades estatisticamente superiores na polpa em
relação à casca, resultado este esperado por as sementes de maracujá possuírem
cerca de 10-12% de proteína, além da sua importância na formação de
aminoácidos, aminas e alcalóides. Por esse motivo, os frutos do tipo 8 diferem
estatisticamente dos frutos 9 e 12 quanto à quantidade de nitrogênio na polpa
por apresentarem maior número de sementes formadas. O mesmo ocorre com o
fósforo, presente nas sementes na forma de fosfatos e ácidos nucléicos dentre
outros, apresentando valores na polpa cerca de 2,5 vezes superiores aos da
casca.
O potássio, cálcio, magnésio e enxofre estavam em concentrações
significativamente superiores na casca, sendo que o cálcio, por estar presente
na formação da parede celular e pectina, apresentou valores 3,0 a 3,5 vezes
superiores na casca em relação à polpa. Em ambos os casos, essa relação diminui
com a redução na qualidade do fruto. O potássio foi encontrado em quantidade
estatisticamente superior na casca em relação à polpa, independentemente da
classificação dos frutos. Contudo, a diferença entre a quantidade de potássio
na casca e na polpa variou de 10-15 a 30%, sendo que os frutos tipo 12
apresentaram a maior diferença, reflexo do menor peso de polpa formada,
confirmando a importância do potássio na qualidade dos frutos. O enxofre também
esteve presente em quantidades estatisticamente superiores na casca em relação
à polpa, independentemente da classificação do fruto (+/- 35%). Contudo, na
comparação entre as quantidades presentes nas cascas dos três tipos de frutos,
os frutos tipo 8 apresentaram quantidades estatisticamente superiores aos dos
frutos tipo 9 e estes não diferiram dos frutos tipo 12, sendo o mesmo observado
em relação à polpa. Do mesmo modo, o magnésio foi encontrado em maior
quantidade na casca que na polpa dos frutos, independentemente de sua
classificação, assim como na comparação entre casca e polpa por tipo de fruto,
onde a diferença entre os valores da casca e polpa variou de 10 a 11,8%.
De forma geral, os frutos do maracujazeiro doce, considerando a média dos três
tipos de frutos classificados, apresentaram a seguinte quantidade de nutrientes
(casca+polpa): 578,6 mg de N; 81,9 mg de P; 740,6 mg de K; 56,8 mg de Ca; 64,6
mg de Mg; e 98,3 mg de S. Esses valores, para todos os macronutrientes, são
diferentes dos obtidos por Fernandes et al. (1977) para o maracujazeiro-
amarelo, com concentrações superiores, da ordem de 65,3 % N, 300,0 % P, 211,6 %
K, 298,9 % Ca, 340,0 % Mg e 327,6 % S .
Tabela5
Para os micronutrientes avaliados, a análise de variância mostrou diferenças
significativas nos contrastes propostos.
Os contraste Y1, Y2 e Y3 mostraram haver diferenças significativas para os
micronutrientes boro, cobre, ferro, manganês e zinco, onde, tanto as polpas
(contraste Y1) como as cascas (contraste Y2) dos frutos tipo 8, apresentaram
valores significativamente superiores aos dos frutos 9 e 12 . A comparação
entre as médias das polpas X as médias das cascas mostrou ocorrer diferenças
significativas para o boro, cobre, ferro e o zinco, onde estes apresentaram
maiores concentrações na polpa, enquanto o manganês foi encontrado em maiores
concentrações na casca dos frutos. Nas comparações entre polpa X casca, para
cada tipo de fruto, o cobre e o ferro não diferiram estatisticamente entre si
nas quantidades presentes na polpa e casca dos frutos tipo 12.
O Quadro 5 apresenta os valores da distribuição dos micronutrientes na casca e
polpa dos frutos, observando-se que o boro, cobre, ferro e zinco apresentaram
maiores concentrações nas polpas dos frutos do que nas cascas para os tipos de
frutos classificados. As maiores concentrações nas polpas e cascas foram
observadas nos frutos tipo 8, que diferiram estatisticamente dos frutos tipo 9
e estes dos frutos tipo 12, ressaltando que o cobre e o ferro não diferiram
entre si para os frutos tipo 12. A comparação entre as quantidades de boro,
cobre, ferro e zinco presentes na polpa dos três tipos de frutos mostrou que,
quanto maior o fruto, maior a quantidade dos referidos micronutrientes. Deve
ser ressaltado que a diferença nas quantidades de boro e zinco na polpa em
relação à casca, entre os diferentes tipos de frutos classificados, é reflexo
do maior peso de polpa, sendo esses valores conseqüência do número de sementes
formadas nos diferentes tipos de frutos, uma vez que esses micronutrientes
desempenham importante papel na maturação das sementes.
Para o manganês, as concentrações nas cascas dos frutos foram estatisticamente
superiores (cerca de 3 vezes) às das polpas, onde as maiores concentrações
foram observadas nas cascas dos frutos tipo 8, que apresentaram valores
estatisticamente superiores aos dos frutos 9 e estes aos do tipo 12.
Na média, os frutos do maracujazeiro doce apresentaram: 452,3 mg de B; 302,5 mg
de Cu; 1471 mg de Fe; 167,5 mg de Mn; e 644,1 mg de Zn. Quando comparadas com
os valores obtidos por Fernandes et al. (1977) para o maracujazeiro-amarelo,
observa-se que as concentrações dos micronutrientes foram superiores em 233,1 %
B, 420,1 % Cu, 204,8 % Fe. O Mn e o Zn apresentaram valores 62,5% e 49%
inferiores aos do maracujá-amarelo, respectivamente.
CONCLUSÕES
Pelos resultados obtidos, podemos concluir que:
1) Os frutos classificados como tipo 8 são maiores e mais pesados, apresentando
maior peso de casca e de polpa.
2) O nitrogênio e o fósforo estão distribuídos em maior quantidade na polpa do
que na casca dos frutos, ao inverso do potássio, cálcio, magnésio e enxofre,
que estão distribuídos em maior quantidade na casca do que na polpa dos frutos
.
3) O boro, cobre, ferro e zinco estão presentes em maior quantidade na polpa do
que na casca dos frutos.
4) O manganês está distribuído em maior quantidade na casca do que na polpa dos
frutos, com os frutos dos tipos 8 e 9 apresentando valores superiores aos
frutos do tipo 12.