CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DE PEDÚNCULOS DE CAJUEIRO PARA COMERCIALIZAÇÃO IN
NATURA
INTRODUÇÃO
Apesar da importância socioeconômica para os estados do Ceará, Piauí e Rio
Grande do Norte, pela geração de emprego, renda e impostos, a cajucultura tem
se caracterizado pela baixa lucratividade para o setor produtivo, em razão da
baixa produtividade (240 kg/ha de castanhas), resultante principalmente do modo
de formação dos pomares por sementes (Barros & Crisóstomo, 1995).
A recuperação da atividade no campo vem sendo feita com o uso de clones, os
quais permitem não só aumento da produtividade como também a melhoria da
qualidade da castanha para a indústria e o aproveitamento do pedúnculo, pelo
cultivo dentro das modernas técnicas de produção (Araújo, 1990; Parente et al.,
1991).
O potencial produtivo desses clones tem permitido a obtenção de produtividade
média de 1.300 kg de castanhas/ha em regime de sequeiro (Barros et al., 1993),
podendo atingir 5.000 kg/ha sob irrigação. Além da maior produtividade, esses
clones apresentam como vantagem o porte baixo, já que os pedúnculos podem ser
colhidos diretamente da planta, diferindo do cajueiro comum, em que a colheita
é feita após a queda dos cajus.
O crescimento do consumo de pedúnculo como fruta de mesa vem aumentando
consideravelmente a cada safra, tanto pela abertura de novos mercados como pela
consolidação dos mercados tradicionais. Isto ocorreu devido principalmente aos
novos plantios feitos com cajueiro-anão precoce que, por apresentar porte
baixo, permite a colheita manual com maior aproveitamento e redução de perdas.
Até muito recentemente, os pedúnculos eram vendidos exclusivamente em feiras
locais, porém hoje alcançam supermercados em outras partes do País, localizadas
a mais de 4.000 km do local de produção, podendo ser mantidos em boas condições
por até quinze dias após a colheita (Filgueiras et al., 1997), devido ao
desenvolvimento de técnicas adequadas de manuseio e conservação pós-colheita
(Menezes, 1992; Menezes & Alves, 1995).
As características físicas são de fundamental importância para a definição de
técnicas de manuseio pós-colheita, assim como para a boa aceitação do produto
pelo consumidor. Com a grande variabilidade genética existente, faz-se
necessário selecionar pedúnculos que atendam às exigências da comercialização,
tais como: alta resistência ao manuseio, avaliada através da textura firme, e
formato piriforme, de fácil disposição nas embalagens utilizadas. Além disso, o
consumidor prefere pedúnculos de cor laranja a vermelha e de tamanho grande, ou
seja, dos tipos 4 ou 5 (de acordo com o número de cajus/bandeja). Esses tipos
alcançam os melhores preços no mercado.
Existe atualmente grande disponibilidade de genótipos de cajueiro anão precoce
em estudo. No entanto, o melhoramento foi direcionado para a produtividade e
qualidade da castanha, não considerando as características do pedúnculo. A
partir dos genótipos disponíveis e em avaliação, estão sendo selecionados
aqueles que, além de apresentarem alta produtividade, possam atender às
exigências acima descritas. Desta forma, esse trabalho teve os seguintes
objetivos: avaliar as características físicas de pedúnculos de clones obtidos
na Embrapa/Agroindústria Tropical, em competição sob irrigação, e identificar,
dentre estes, os que apresentem as melhores características para a
comercialização e consumo in natura.
MATERIAL E MÉTODOS
Os pedúnculos avaliados foram provenientes de clones de cajueiro-anão precoce
que se encontram em avaliação no Programa de Melhoramento da Embrapa/
Agroindústria Tropical, em experimento instalado numa empresa produtora,
localizada no município de Mossoró-RN. O experimento de competição de clones
sob irrigação foi instalado no campo, em 20-05-94, estando as plantas,
portanto, com mais de três anos, por ocasião da colheita. O ensaio foi
constituído de 32 clones, todos obtidos na Estação Experimental de Pacajus da
Embrapa/Agroindústria Tropical. Foram selecionados, para caracterização física,
nove destes materiais, incluindo-se o CCP 76 utilizado como testemunha, que
apresentavam pedúnculos de coloração laranja a vermelha.
Os pedúnculos foram colhidos manualmente em agosto de 1997. Em seguida, foram
transportados para o Laboratório do Núcleo de Estudos em Pós-Colheita (NEP) da
Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), em Mossoró-RN, onde foram
caracterizados fisicamente quanto à coloração, peso total (castanha +
pedúnculo), diâmetros basal e apical, comprimento e textura dos pedúnculos.
Após as primeiras determinações, os cajus foram congelados em freezer
doméstico, a aproximadamente - 20°C, e então transportados ao Laboratório de
Fisiologia e Tecnologia Pós-Colheita da Embrapa/Agroindústria Tropical, onde
foram realizadas as avaliações dos pigmentos da película. As avaliações foram
realizadas seguindo as metodologias abaixo:
Textura - realizada nos pedúnculos íntegros com penetrômetro manual FT011 com
ponteiras de 8 mm de diâmetro. A punção foi feita na porção basal do pedúnculo;
Tamanho_e_Formato - foram feitas medidas de diâmetro basal e apical e
comprimento, utilizando paquímetro, conforme Almeida et al. (1987);
Cor_da_Película - avaliada através da carta de cores - DIN 6164, comparando-se
a coloração predominante no pedúnculo com a coloração que mais se aproximava
das cores contidas nesta (Biesalski, s.d.), e pelo doseamento dos teores dos
pigmentos antocianinas totais e flavonóides amarelos, conforme metodologia
descrita por Francis (1982);
Peso - utilizando-se de balança semi-analítica, determinou-se peso total
(castanha e pedúnculo). Após o congelamento, fez-se o descastanhamento e pesou-
se separadamente a castanha. O peso do pedúnculo foi obtido por diferença.
O experimento foi conduzido em Delineamento Inteiramente Casualizado, com 09
tratamentos (clones). Para as características de cor, avaliada através de carta
de cores, tamanho, peso e textura, foram utilizadas 20 repetições, sendo cada
caju considerado individualmente, enquanto, para os pigmentos, foram utilizadas
3 repetições constituídas exclusivamente da película do pedúnculo. Após a
análise de variância, quando constatada a significância pelo teste F, os
tratamentos foram comparados através do teste de Tukey, ao nível de 5 %
(Banzatto, 1995).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As análises de variância revelaram efeito significativo dos tratamentos
(clones) sobre todas as características avaliadas. Os resultados obtidos
encontram-se na Tabela_1.
Avaliando-se a característica textura, observa-se que, dentre os clones
analisados, apenas CCP 09 (7,42 N) e END 157 (7,25 N) apresentaram pedúnculos
mais firmes que o CCP 76 (5,83 N), sendo que os demais são praticamente
equivalentes. A importância da firmeza está relacionada, do ponto de vista
econômico, principalmente ao fato de que a qualidade pode ser mantida por mais
tempo, tendo em vista a resistência ao transporte, manuseio e ataque de
microorganismos (Awad, 1993). Desta forma, espera-se que estes dois clones
tenham vida útil pós-colheita mais longa.
Os clones END 183, END 157 e P 47 não apresentaram diferença estatística entre
si, ao nível de 5%, com relação ao diâmetro basal (próximo à inserção da
castanha), se comparados ao clone testemunha. Com relação ao diâmetro apical,
estes mesmos clones e mais o END 189 não diferiram da testemunha. Em termos
absolutos, os valores médios para diâmetro basal (56,42 mm) obtidos nesse
experimento foram superiores aos encontrados por Ortiz & Arguello (1985)
que, desenvolvendo um experimento na Costa Rica com os tipos "local"
e "Trinidad", encontraram maiores valores para o "local"
onde os frutos vermelhos e amarelos apresentaram, respectivamente, 35,2 e 40,9
mm. O mesmo se verifica ao se comparar o diâmetro apical médio aqui obtido
(44,87 mm) aos observados na Costa Rica para a variedade Trinidad, tanto para
os pedúnculos vermelhos (40,6 mm) como para os amarelos (31,6 mm).
O clone END 157 obteve maior comprimento em relação aos demais com 84,04 mm em
média, superando significativamente inclusive a testemunha. Os pedúnculos
colhidos por Ortiz & Arguello (1985), na Costa Rica, apresentaram média de
comprimento em torno de 79 mm para a variedade Trinidad (pedúnculos vermelhos e
amarelos), sendo, portanto, menos longos que os avaliados neste trabalho. Esses
resultados também se aproximam dos obtidos por Pinto et al. (1997) para clones
cultivados em regime de sequeiro, nos quais foram encontrados comprimentos de
59,80 e 73,20 mm para os clones CCP 09 e CCP 76, respectivamente.
Dentre os clones avaliados, apenas quatro apresentaram o formato ideal
(piriforme) para utilização nas embalagens comerciais, sendo eles: CCP 76
(testemunha), CAP 6 (500), END 157 e END 183.
A avaliação da coloração dos pedúnculos através da Carta de Cores DIN 6164
(Biesalski, s.d.) demonstra que apenas o clone CCP 09, de cor alaranjado-clara,
apresentou cor inferior à testemunha, e os clones P 47 e END 183 (laranja-
escuros) apresentaram coloração idêntica a este (CCP 76), enquanto os demais
tiveram coloração mais intensa. Esses resultados estão de acordo com o
apresentado por Pinto et al. (1997) que também encontraram uma coloração do CCP
09 inferior ao do CCP 76 e foram confirmados pela avaliação dos pigmentos da
película.
Nos teores de antocianinas totais, responsáveis pela cor vermelha da película
dos pedúnculos, verificou-se que os clones END 189 e END 157 foram os que
apresentaram os maiores valores para esta característica, diferindo
estatisticamente da testemunha. Levando-se em consideração a preferência dos
consumidores por pedúnculos de coloração mais próxima ao vermelho, estes
materiais se apresentam mais promissores para o mercado de frutos in natura.
Convém ressaltar que não ocorreu uma correspondência entre os teores de
flavonóides amarelos e antocianinas totais, sendo o primeiro predominante sobre
o segundo em termos quantitativos. Porém, quanto mais vermelhos os pedúnculos,
maior a proporção de antocianinas totais em relação aos flavonóides amarelos.
Os clones END 189, 157 e 329 apresentaram maiores médias de teores de
flavonóides amarelos, apesar de não terem atingido diferença significativa em
relação à testemunha. O único clone que diferiu estatisticamente do CCP 76 foi
o END 183, com um teor de 80,62 mg/100g, sendo a média geral de 105,12 mg/100g.
De um modo geral, o teor de antocianinas totais encontrado na película do
pedúnculo de caju é baixo se comparado com outros frutos, que são inclusive
indicados como corantes, tais como açaí, que contém 336 mg/100g e a juçara com
1347 mg/100g (Iaderozat et al., 1992).
Os clones END 157, 183 e 189 não diferiram estatisticamente em relação ao clone
CCP 76 (testemunha) para a característica peso total, que é considerado como
padrão de peso para a comercialização in natura. Levando-se em consideração que
uma bandeja para comercialização de caju é composta de, aproximadamente, 500 a
600 g, todos os quatro clones atingem o tipo 4 (cajus/bandeja) que é o de maior
valor comercial (Filgueiras et al., 1997). Apesar de os clones CAP 6 (500), P
47, CAP 25 e CCP 09 terem diferido estatisticamente da testemunha, eles
apresentaram um peso próximo a 100 g, podendo ser classificados como tipos 5 e
6.
Pinto et al. (1997) encontraram, para o CCP 09 e CCP 76, pesos totais médios de
87,15 e 145,65 g, respectivamente, sendo, portanto, ligeiramente inferiores aos
encontrados neste experimento (91,72 e 150,82 g), talvez devido ao primeiro
experimento ter sido realizado em sequeiro e a colheita efetuada no final da
época seca, no mês de novembro, quando a disponibilidade de água é menor. Isto
fica evidenciado quando se comparam os resultados obtidos por Grangeiro et al.
(1997), trabalhando com pedúnculos de END 157 colhidos em março de 1997 na
mesma área, que observaram pesos médios de 139,38 g.
Dentre os clones analisados para peso de pedúnculo, pode-se destacar: END 157,
END 183 e END 189, que não apresentaram diferença estatística significativa,
assim como para peso total. No trabalho realizado por Pinto et al. (1997) foram
encontrados para os clones CCP 09 e CCP 76, pesos de 79,08 e 136,58 g,
respectivamente, sendo esses ligeiramente menores que os encontrados para os
mesmos clones neste experimento (83,15 e 141,80 g). Como discutido para peso
total, o maior peso encontrado aqui pode ter sido devido à irrigação contínua,
contribuindo para a diferença a favor das plantas irrigadas.
CONCLUSÕES
Considerando os critérios de comercialização, nas condições em que foi
realizado este trabalho, pode-se chegar às seguintes conclusões:
1) Dentre os materiais avaliados, apenas o CCP 09 apresentou coloração inferior
à testemunha (CCP 76), sendo que os clones CAP 6 (500), END 157, END 189 e END
329 destacaram-se com coloração mais intensa que a mesma.
2) Além da testemunha, apenas os clones END 157, 183 e 189 apresentaram
pedúnculos que podem ser classificados como tipo 4 (de maior valor comercial),
enquanto, com relação à forma, apenas os clones CAP 6 (500), END 157 e END 183
apresentaram formato piriforme.
3) O clone END 157 apresentou as melhores características para comercialização
in natura, inclusive quando comparado à testemunha.
4) Os clones END 183 e 189 apresentaram resultados semelhantes à testemunha,
com exceção da cor para o 183 e do formato para o 189.