Uma abordagem historiográfica do herói da democracia portuguesa
RECENSÕES
Uma abordagem historiográfica do herói da democracia portuguesa
António Muñoz
Investigador de pós-doutoramento no Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa. Doutorou-se em História pelo Instituto Universitário
Europeu de Florença. É autor dos livros El amigo alemán. El SPD y el PSOE de la
ditadura a la democracia (Barcelona, 2012) e Von der Franco-Diktatur zur
Demokratie.Die Tåtigkeit der Friedrich-Ebert-Stiftung in Spanien (Bona, 2013).
Trabalha sobre a política oficial da República Federal para com Portugal e
Espanha, os contactos entre movimentos socialistas e a emigração laboral
David Castaño, Mário Soares e a Revolução, Publicações Dom Quixote, Alfragide,
2013, 559 páginas
Do alto dos seus 90 anos, Mário Soares é um monumento vivo da história
portuguesa. Filho de um ministro da I República, ativista desde a juventude
contra o Estado Novo, fundador do socialismo português moderno, perseguido,
exilado e, numa idade mais madura, ministro, primeiro-ministro, Presidente e
elder statesman com projeção internacional, Soares ergue-se como referência
incontornável do Portugal da segunda metade do século xx. Viveu num período
histórico denso, em que a velha nação ibérica passou de metrópole imperial a
província da Europa, do vergonhoso subdesenvolvimento ao hedonismo consumista e
da ditadura à democracia. A vertiginosa transição entre duas épocas teve como
momento crítico a Revolução dos Cravos, de que o secretário-geral do Partido
Socialista foi um dos atores mais relevantes.
O DIFÍCIL PASSO DA MEMÓRIA À HISTÓRIA
Longe de ser uma figura consensual e indiscutível, Mário Soares ocupa, por
mérito próprio, um lugar de honra na narrativa épica que a democracia lusa foi
modelando sobre si mesma e sobre o seu lugar na história. Nesta narrativa, o
Portugal atual surge-nos como estação terminal da longa marcha da nação lusa
até à liberdade. O caminho não terminara com o colapso do fascismo,
prolongando-se por mais dois anos, enquanto se exconjurou o perigo de outra
ditadura, agora de pendor comunista.
O próprio Mário Soares terá contribuído para fixar na memória coletiva o seu
desempenho nesta epopeia nacional. Escritor prolífico consumado, dotado de um
verbo envolvente e torrencial, Soares deu forma, através de livros, artigos,
declarações públicas e entrevistas imensas convertidas em best sellers, a uma
interpretação equilibrada e verosímil, e ao mesmo tempo muito poderosa e
influente, sobre a sua participação e a da sua família política na construção
da democracia. A grandeza da personagem, a força de certos mitos em redor do 25
de abril por ele alimentados, a inacessibilidade de fontes primárias relevantes
que permitiriam fixar os factos tal como realmente ocorreram ou a escassez de
estudos sobre a Revolução explicam, em parte, porque é que durante muitos anos
os historiadores do tempo presente olharam de soslaio para Mário Soares e não
lhe dedicaram a atenção que indubitavelmente merece. O livro que aqui nos traz
rompe, felizmente, com essa tendência e lança uma pedra na construção de uma
interpretação historiográfica, por definição limpa dos preconceitos ideológicos
da memória histórica, sobre o contributo de Mário Soares para a configuração do
Portugal pós-25 de abril. O jovem investigador David Castaño, cuja tese de
doutoramento está na base desta monografia, merece ser reconhecido por se ter
lançado a tão ambiciosa tarefa.
Mário Soares e a Revolução tenta dar resposta à questão de como foi possível
que o líder de uma organização política que a 25 de abril de 1974 não tinha
mais do que cinquenta filiados conseguisse aglutinar em torno de si uma massa
heterogénea da população que se opôs ao processo em curso de construção de um
socialismo à portuguesa e que, no seu lugar, impulsionou a implantação de uma
democracia liberal europeia. Por outras palavras, procura esclarecer as
circunstâncias que levaram o ps a converter-se no ator que alcançou maiores
responsabilidades na criação de uma nova ordem política sobre as cinzas do
Estado Novo. Para articular o seu relato, que gira em torno da ideia de que um
homem pode determinar, com as suas ações, o destino de um país, Castaño decide-
se pelo enfoque da história política, na sua versão mais elevada. Aqui
interessa exclusivamente a atividade de Mário Soares na alta política. O nosso
protagonista contacta com estadistas de meio mundo, negoceia a independência
das colónias, discute com os seus colegas ministros, marca a agenda do ps com
os camaradas de direção, reúne-se com o embaixador americano, recebe os
dirigentes do socialismo europeu, dá conferências de imprensa, redige
documentos, manifestos ou artigos de imprensa, e discursa na onu ou em
encontros em Lisboa. De uma forma exaustiva, quase enciclopédica, reconstrói-se
o labor de Mário Soares como estadista durante o prec. Tudo o que fica sob a
espuma da alta política permanece na obscuridade. Não vemos o líder do ps, por
exemplo, reunido com camaradas da província ou com os escassos quadros
sindicais socialistas. Mas nem sequer o encontramos misturado com o povo, esse
protagonista coral do 25 de abril a quem Soares fascinou por razões que se dão
aqui como subentendidas. O relato avança ao ritmo da Revolução, ainda que cada
capítulo tenda a articular-se em torno de uma temática dominante. Esta
estrutura narrativa evita reiterações e permite pôr ordem numa história
complexa e caleidoscópica, que o leitor segue com agrado, graças também à
qualidade e fluidez da escrita de Castaño. Entre as fontes primárias utilizadas
destacam-se pela sua qualidade as procedentes dos arquivos nacionais do Reino
Unido e dos Estados Unidos, consultadas através da internet. Na bibliografia
sente-se a falta de autores estrangeiros com importantes estudos sobre o 25 de
abril, como Rainer Eisfeld e Mario Del Pero.
DO EXÍLIO ÀS NECESSIDADES
O capítulo i1 traça a biografia de Mário Soares como opositor ao Estado Novo.
Centra-se na descrição do seu paciente e obstinado trabalho na formação de um
partido socialista num país sem tradição socialista, e na procura de apoio
internacional. O exílio revelar-se-ia fundamental para o êxito deste projeto e
para a projeção política de Mário Soares na Europa e em Portugal, onde a
campanha de difamação lançada contra ele pelo regime o converteu no opositor
mais popular. À falta de documentação de arquivo, o autor recorre profusamente
à que ainda é a principal fonte sobre Soares antes do 25 de abril: as suas
próprias publicações e livros de entrevistas. Eis um exemplo que evidencia como
é problemático utilizar estas fontes: na página 74 indica-se que durante o seu
exílio Mário Soares foi recebido em Bona pelo chanceler Willy Brandt; a
documentação de arquivo alemã desmente-o.
Os capítulos 2 a 4 ocupam-se do regresso a Portugal após a queda do regime, do
trabalho como ministro dos Negócios Estrangeiros e da atividade partidária até
ao início de 1975. Desde o relato dos primeiros dias da Revolução é clara a
imprescindibilidade da documentação de arquivo, que a partir daqui o autor
utiliza abundantemente, para historiar Mário Soares no prec. As declarações
públicas, os manifestos e as entrevistas possuem um valor relativamente pequeno
na reconstrução da história política desta Revolução em que a impostura e a
camuflagem ideológica eram a norma. Neste sentido, a documentação de arquivo
estrangeira (e sobretudo os telegramas trocados pelas embaixadas dos Estados
Unidos em Portugal e na Europa com o Departamento de Estado) revela-se
especialmente preciosa. E isto por duas razões. Em primeiro lugar, porque aí
descobrimos um Mário Soares que transmitia a interlocutores estrangeiros as
suas opiniões sobre o processo político em Portugal e as suas próprias
intenções de forma muito mais explícita do que o fazia no País, inclusive
perante alguns camaradas de partido. Em segundo lugar, porque esta documentação
permite entender até que ponto Soares procurou, e em boa parte conseguiu, fazer
do apoio internacional ao ps o motor da sua estratégia política durante a
Revolução. Para mobilizar este apoio externo Soares jogou desde muito cedo a
carta anticomunista. Logo na digressão pela Europa de início de maio, o líder
do ps expressou a dirigentes socialistas a convicção de que sem uma
solidariedade generosa da sua parte Portugal acabaria nas mãos do pcp. A
procura do reforço da sua posição interna através do favor de atores externos é
um padrão de comportamento em Soares que vamos descobrindo a cada passo. Assim,
por exemplo, vemos Soares como ministro dos Negócios Estrangeiros a tentar
mobilizar a onu e os Estados Unidos para que o ajudem a frustrar o plano de
Spínola para uma lenta descolonização. Em certas ocasiões, o ministro chegou a
informar a Embaixada americana do conteúdo das suas negociações com a Frelimo
antes de o fazer com o Presidente de Portugal. Noutros assuntos abordados
nestes capítulos, como os debates no congresso do ps ou a polémica com o ppd em
torno do tema socialismo/social-democracia, a exaustividade na exposição das
diversas posições e polémicas públicas é feita à custa da profundidade
analítica requerida para extrair a essência do que mais não era que lutas de
poder articuladas no esperanto radicalizado do prec. Colocar a questão de se
Soares foi ou não marxista na primeira metade dos anos 1970, só porque ele
assim se declarava, não parece, perante a sua trajetória de vida, relevante
para a historiografia.
NA LOITA ABERTA PELA ALMA DE PORTUGAL
Os capítulos 5 a 9 ocupam-se do ano crítico de 1975 e do caminho até à vitória
do ps nas primeiras eleições legislativas. Também aqui as fontes de arquivo
consultadas trazem revelações interessantes e abrem novas perspetivas para
compreender a meteórica ascensão de Mário Soares a figura central do prec. A
ação internacional do líder do ps adquire nesses meses um protagonismo
absoluto. Castaño documenta como, apesar de estar consciente de que o pcp não
tinha estado implicado no 11 de março, Mário Soares lançou um apelo de socorro
desesperado aos governos ocidentais. Advertindo-os de que o golpe fazia parte
de uma operação de Álvaro Cunhal para implantar uma ditadura, reclamou uma
mobilização massiva dos países amigos para salvar a democracia portuguesa. A
reação ao 11 de março e à petição de Soares foi muito diferente em ambos os
lados do Atlântico. Em Washington, Henry Kissinger deu Portugal como perdido e
defendeu que se deixasse que se convertesse num mísero soviete que vacinaria o
resto da Europa Ocidental contra o comunismo. Nas capitais europeias a proposta
americana foi recusada e apostou-se num fabuloso impulso às medidas de
cooperação dirigidas a "abraçar Portugal", para evitar que se
afastasse da esfera ocidental. Instrumento-chave nesta estratégia foi ligar as
ajudas à esgotada economia portuguesa, que o mfa travara no processo de
construção do socialismo. Através das fontes americanas, Castaño reconstrói
parcialmente a estratégia europeia liderada pelos governos socialistas (e à
qual Washington acabaria por se aliar), da qual fazia também parte uma promoção
consistente da imagem e do peso político de Mário Soares. Os arquivos de
governos, partidos, fundações e sindicatos de França, Alemanha, Grã-Bretanha,
entre outros, revelar-nos-ão nos próximos anos todas as peças necessárias à
compreensão desta " intervenção pacífica " ocidental em Portugal,
que contribuiu para converter Mário Soares no herói da Revolução ou, conforme
outros sempre o verão, da contrarrevolução.
Este é, definitivamente, um livro maior sobre uma figura central do Portugal
contemporâneo e que será durante bastante tempo uma obra de referência para
todos os interessados no socialismo português, no prec e em Mário Soares.
Tradução: Marta Amaral