Para Além da Fluidez e das Relações de Poder: O Caso do Sudão Do Sul
Este trabalho tem como objetivo analisar o processo de independência do Sudão
do Sul, a partir da imposição das fronteiras, tendo em conta a avaliação das
relações de poder estabelecidas naquela região. Buscar-se-á analisar os
reflexos dessa interação no povo sudanês. Para cumprir esses objetivos,
enquadraremos essas questões nos pressupostos pós-modernistas, por permitirem
lançar um novo olhar sobre o conflito fronteiriço. Por se tratar de um estudo
de caso relativa à discussão de fronteiras (física e simbólica) entre o Sudão e
o Sudão do Sul, a teoria pós-moderna contribui com postulados críticos, além de
apresentar novas nuancessobre o conceito da racionalidade nas relações
internacionais. Nesse aspecto, fazendo-se uma analogia ao estudo de caso em
apreço, a inserção da teoria pós-moderna nesse estudo se justifica em virtude
de proporcionar uma nova interpretação sobre a definição do Estado-territorial-
soberano contemporâneo, especialmente, na conjuntura em que estão inseridos os
estados sudaneses. Assim, começaremos por discutir brevemente o arcabouço
teórico pós-moderno, tomando-se por base as contribuições de alguns autores
clássicos, como Michel Foucault e Jürgen Habermas. Em seguida, será discutido o
caso da independência do Sudão do Sul e os reflexos dessa secessão no âmbito
político-econômico e suas consequências para o agravamento do conflito entre
esses dois estados. Considerando-se que a criação do Estado moderno foi um
projeto exclusivamente ocidental, o argumento perseguido neste estudo é que a
emblemática independência do Sudão do Sul representou um ponto de fluidez nas
rígidas fronteiras africanas. Desse modo, a partir das indagações que serão
empreendidas no decorrer desse trabalho, poderá se pensar a diferença, a não-
conformação, a contestação e o pluralismo das relações internacionais.
Destarte, a crítica pós-moderna, aqui inserida, buscará investigar as formas
pelas quais foram construídas as estruturas, sociais dos estados sudaneses.
A Perspectiva Pós-Moderna Nas Relações Internacionais
«Temos o direito a ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza; temos o
direito a ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza.»
1
O estudo das relações internacionais (RI) é relativamente novo no campo das
ciências que envolvem seu aparato analítico, se comparado à ciência política, a
economia, a sociologia ou a filosofia, já que teve seu desenvolvimento no
período posterior à I Guerra Mundial, momento no qual os estudiosos da época
contribuíram significativamente no sentido de estruturarem uma disciplina que
oferecesse uma ampla compreensão em torno do Estado como entidade soberana,
além de buscarem explicações para respaldar a recorrência da guerra no sistema
internacional. No entanto, nas últimas décadas do século xx, o que se observou
no campo das relações internacionais (RI) foi uma espécie de «choque teórico»,
pois ainda que os anseios explicativos das teorias dominantes, realismo e
liberalismo, se tenham pautado nas elucidações da realidade internacional, a
súbita emergência de outros eventos históricos, como o fim da Guerra Fria,
levaram os estudiosos da época a repensarem essas premissas teóricas
2
.
Somando-se a essas discussões surgiram outras críticas e questionamentos, não
apenas no campo das RI, mas também em outras áreas do conhecimento, em função
de uma junção de fatores conflituantes que surgiram simultaneamente na
conjuntura internacional culminando em um período de crise, especialmente no
que confere à «crise da modernidade, crise dos Estados nacionais, crise
ambiental, crise de paradigmas, crise do conhecimento»
3
. Dentro dessa nova realidade, nasceu uma nova geração de estudiosos críticos
buscando renovar os paradigmas dominantes. Assim, com as profundas
transformações espácio-temporais que ocorreram na contemporaneidade, surgiu o
discurso crítico pós-moderno. No entanto, faz-se necessário inicialmente
definir, ainda que de forma pormenorizada, o que se compreende por modernidade,
sobretudo, suas implicações para a produção de conhecimento. Desse modo, de
acordo com Giddens
4
, a modernidade pode ser entendida como o «período histórico subsequente à
Idade Medieval, que se caracteriza por: um conjunto de atitudes em relação ao
mundo, que passa a ser visto como suscetível de transformação pela mão do
homem; um conjunto de instituições econômicas, cuja maior inovação seria a
emergência do capitalismo como modo dominante de produção, o industrialismo e a
economia de mercado; e um conjunto de arranjos político institucionais, com
papel privilegiado para o Estado nacional e a democracia representativa de
massas»
5
.
O exposto acima também evidencia-nos outras importantes ideias intrínsecas ao
caráter dinâmico da modernidade e as transformações no tempo e no espaço, a
partir de um conjunto de elementos. Nesse sentido, ressalta-se que «o dinamismo
da modernidade deriva da separação do tempo e do espaçoe de sua recombinação em
formas que permitem o zoneamento tempo-espacial preciso da vida social; do
desencaixedos sistemas sociais (um fenômeno intimamente vinculado aos fatores
envolvidos na separação tempo-espaço); e da ordenação e reordenação
reflexivadas relações sociais à luz das contínuas entradas (inputs) de
conhecimento afetando as ações de indivíduos e grupos» (grifo do autor)
6
.
Nas sociedades pré-modernas, a noção de tempo e espaço é para quase todos os
efeitos coincidentes, mas com o advento da modernidade, os ambientes foram
socialmente moldados e influenciados, ou seja, «o que estrutura o local não é
simplesmente o que está presente na cena; a forma visível' do local oculta as
relações distanciadas que determinam sua natureza»
7
. Em virtude desses fatores, a modernidade não é apenas um período que se
inicia a partir do colapso dos sistemas medievais, mas um conjunto qualitativo
de novos paradigmas.
A crítica formulada pelos pós-modernistas resultou das crises epistemológicas
da modernidade, com as quais emergiram novas interpretações sobre a realidade e
um novo conceito de racionalidade, baseada no homem como sujeito. Tais fatores
contrastaram fortemente com os preceitos da modernidade que, por sua vez,
pautavam-se em uma visão antropocêntrica de mundo, mas que, ao mesmo tempo,
contrapunham-se à ordem teocêntrica característica da época medieval
8
.
Assim, o pensamento pós-moderno se pautou por um estado de constante descrença
em relação a vários aspectos da modernidade, desde a industrialização,
urbanização e a revolução tecnológica do mundo, às concepções de Estado-nação,
democracia liberal e humanismo, assim como, suas afirmações de neutralidade e
objetividade nos processos constitutivos da ciência
9
. Por outro lado, os autores pós-modernistas privilegiaram muitos elementos
marginalizados pela modernidade como, por exemplo, as emoções, a intuição, a
tradição e que, por sua vez, contribuíram para a construção do conhecimento.
Dentro da ideia moderna de história estão, implicitamente, as noções de
progresso, continuidade, evolução e razão, significando que o homem a construiu
para justificar suas ações no tempo. Já para os pensadores pós-modernos houve
um equívoco nessa noção de uma «história única», protagonizada pelo homem. Para
essa corrente teórica, o relato histórico seria considerado legítimo se as
percepções do «outro» também fossem expostas e analisadas, considerando-se que
qualquer amostra de unidade pressupõe um ato prévio de poder e dominação
10
. Nesse sentido, os pós-modernistas vêem a história como um conflito entre
diferentes perspectivas, isso porque a história, produto da modernidade, não é
mais considerada como uma força libertadora, mas antes como uma fonte de
subjugação, opressão e repressão.
As análises tradicionais das ri estiveram mais preocupadas em formular modelos
explicativos, assim como recomendações políticas do cenário internacional do
que, efetivamente, promover a restituição do caráter político às RI,
integrando-se, assim, o aspecto teórico na prática política. Nesse sentido, o
ponto de divergência entre os postulados tradicionais e os pós-modernos não
estaria na «presença ou ausência do Estado, mas sobre até que ponto o princípio
do Estado soberano oferece uma explicação plausível das práticas políticas
contemporâneas»
11
. Desse modo, o questionamento não se limitaria apenas à análise da
sobrevivência do Estado, mas do complexo «Estado-nação-autonomia» como uma
entidade desprendida dos horizontes discursivos westfalianos
12
. Nesse contexto, o desafio pós-modernista residiu em reconduzir a concepção
ética ao eixo político.
Assim, a ênfase da crítica pós-moderna recai sobre o discurso do poder estatal
das teorias dominantes, evidenciando que tal prática se reproduziu a partir das
relações de poder/ saber. Posto que, para essa corrente, «qualquer e toda
prática é uma prática arbitrária de poder e, portanto, uma prática política»,
considerando-se que em todos os níveis das relações humanas se observou a
dinâmica de um indivíduo tentando subjugar o outro pela busca do poder
13
. Deste modo, o posicionamento pós-moderno concebe o ser humano, antes de tudo,
como um produto resultante do ambiente social, contrapondo-se à ideia moderna
de sujeito autônomo e independente das estruturas sociais.
Por outro lado, sendo os pós-modernistas definidos como desconstrutivistas por
se referirem as teorias dominantes como metanarrativas, levou os críticos do
pós-modernismo a observarem algumas fraquezas nas análises contemporâneas dessa
corrente pós-moderna. A problemática recai, de certo modo, sobre a
possibilidade do pós-modernismo se tornar uma acusação niilista, ou seja, as
críticas tomariam um sentido negativo, por serem feitas pelo simples fato de
criticar, uma vez que esses pensadores rejeitam a perspectiva de uma realidade
objetiva, como, também, o valor do conhecimento
14
. Em contrapartida, os pós-modernistas afirmam que não buscam provar com
absoluta certeza aquilo que eles propuseram, mas apenas objetivavam levar à
pauta a incerteza das reivindicações absolutistas do conhecimento e os seus
possíveis danos para as ciências sociais e as relações humanas
15
.
Até onde vão as fronteiras? A independência do Sudão do Sul e os reflexos na
região
«Um dilema pode ser identificado quando um ator persegue objetivos
inconciliáveis, enquanto que uma disputa ocorre quando dois atores buscam o
mesmo objetivo.»
16
Nesta parte discutiremos o caráter inerentemente prático da teoria pós-moderna,
no que concerne a compreensão do conflito entre os estados sudaneses, nos
termos da imposição das fronteiras naquela região e, consequentemente, as
implicações dessa secessão para a população sudanesa. Assim, sustenta-se que
«toda interpretação traz em si imperativos políticos
17
, ou seja, as representações de um dado evento sugerem e delimitam as ações
possíveis em resposta a ele»
18
. Posto de outra forma, significa dizer que esse estudo buscará ratificar a
compreensão do conflito sudanês nos termos do princípio do Estado-territorial-
soberano, delineando não apenas os critérios preestabelecidos em torno da
territorialidade física do Estado-nação, mas também a percepção de «Estado» a
partir das insurgências no território sudanês, especialmente a que culminou na
independência do Sudão do Sul, clarificando a noção de fronteiras imaginárias
naquele território. Assim, perseguindo o argumento central desse estudo, busca-
se ratificar a hipótese de que a independência do Sudão do Sul representou um
ponto de fluidez nas rígidas fronteiras africanas, o que corrobora com a
argumentação pós-moderna, e escapa do âmbito da lógica positivista das teorias
das RI.
Nessa esteira, do ponto de vista do direito constitucional, a Paz de Vestefália
representou a instituição do statuslegal de Estado e a expansão das «fontes de
legitimidade constitucional do Estado, até então conferida pelo sistema
costumeiro da herança dinástica e conquista»
19
. Nesse ensejo, diferentemente das atribuições imputadas ao Estado régio da
conjuntura estratégica anterior, a nova percepção de Estado territorial não se
organizava em torno de um único indivíduo, mas respaldava-se numa noção de
território indivisível e, para tanto, nutria tamanha importância para a
manutenção de suas fronteiras.
É importante ressaltar que a Paz de Vestefália transplantou para a ordem
institucional internacional o princípio de descentralização, pautado em uma
diferenciação entre a esfera pública e a esfera privada. Nesse sentido, a
concepção de soberania para a comunidade internacional resultaria de uma
dinâmica contrastante entre as dimensões internas e externas do Estado
territorial, tomando-se por base alguns fatores mutuamente excludentes, a
exemplo do «monopólio da força pelo Estado dentro do seu território,
legitimação do uso da força entre estados, ordem e relações contratualizadas no
interior do Estado, anarquia e guerra de todos contra todos no exterior»
20
.
Corroborando com a ideia anterior, o caráter problemático do princípio da
soberania do Estado, no plano interno, assumiu duas formas primárias: primeiro,
envolveu tensões contínuas entre as dicotomias poder/autoridade e/ou entre
estados soberanos/ pessoas soberanas. Todavia, tais tensões têm vindo a ser
resolvidas por meio de distinções binárias entre o Estado e a sociedade civil.
O segundo princípio, diz respeito ao conceito de comunidade política
incorporado no princípio da soberania estatal e, para tanto, questionou-se o
nível de compatibilidade com os processos políticos, econômicos, sociais e
culturais
21
. Assim, diante de tais fatores, percebeu-se que a esfera doméstica foi
apresentada como o domínio do progresso e a origem da cidadania ética.
Em termos externos, as relações entre os estados são convencionalmente
entendidas como uma negação da comunidade, ou seja, considerando-se o caráter
anárquico da esfera internacional, tendeu-se a percebê-lo como um ambiente
construído a partir da ausência de progressos e princípios valorativos,
contrariando os pressupostos de uma comunidade
22
. Nesse sentido, o sistema internacional é definido pela não existência de uma
autoridade abrangente, segundo a qual, os conflitos de interesses seriam
resolvidos. Ao mesmo tempo, existe uma dupla argumentação na percepção de que
as relações internacionais são necessariamente uma questão de potencialidade,
presumindo-se, por sua vez, que os estados agem autonomamente segundo seus
interesses e que suas identidades são construídas embasadas nessas
características como uma afirmação de poder
23
.
Dessa forma, observa-se que o Estado e o poder se confundem em sua lógica
própria. Corroborando com tal afirmação, o pensamento de Foucault, ao delinear
a relação entre o poder e a governabilidade, pontua que o poder é a estrutura
basilar que organiza hierarquicamente a sociedade. Para Foucault, a sociedade é
formada por um conjunto de poderes menores, continuamente empregados e
imperceptíveis e, nesse caso, o poder do Estado é um deles. Assim, ao analisar
o Estado em sua forma constitutiva, geralmente não se considera o fato de que o
mesmo é resultado de «inúmeras mudanças internas provocadas pelas lutas
políticas que buscam se afirmar hegemonicamente»
24
. Não obstante, Foucault define que o governo não se refere estritamente ao
território, mas a «um conjunto de homens e coisas»
25
. Nesse sentido, a teoria característica dos «modelos de governo» ou a «forma
de governar» dos estados sempre procuraram se afirmar nessa lógica de disputa
de poder, gerando países cada vez mais complexos
26
.
Desse modo, a grande discussão em torno do princípio do Estado-territorial-
soberano gira em torno das consequências resultantes dessas relações de poder e
as prováveis consequências danosas para os cidadãos inseridos nesse território.
No tocante a essa questão, é importante tecer algumas argumentações em relação
à concepção contemporânea da chamada era pós-vestefaliana. Para tanto,
observou-se que o cenário internacional da atualidade atravessa um período de
grandes transformações políticas e uma acentuada ruptura com o modelo
estatocêntrico vestefaliano, considerando-se que houve uma «superação da
identidade tradicional da política com as fronteiras do Estado»
27
.
No tocante a essa questão, ressalta-se que o modelo político-institucional
instaurado durante o período de formação da, então, República do Sudão,
contribuiu consideravelmente para que houvesse uma bifurcação no poder estatal
desse país. Nesse caso, a lógica do conflito envolvendo o Norte e o Sul do país
partiu da premissa de que se unificaram povos distintos sob o comando de um
único governo, ao passo que a atuação política e econômica do mesmo teria sido
pouco efetiva fora de sua capital
28
. Tais fatores excludentes instigaram a emergência de movimentos separatistas
e, consequentemente, o emblemático conflito entre os dois estados sudaneses na
atualidade.
O conflito civil
29
envolvendo a República do Sudão e a República do Sudão do Sul teve suas raízes
remotas no período pré-colonial, onde existiam tensões divergentes entre o
Reino Unido e o Egito pelo controle administrativo do território colonial. Com
a invasão dos egípcio-otomanos, em 1821, o território do Sudão foi dominado por
uma «colcha de retalhos» de grupos pastoris, propiciando, assim, consequências
desastrosas para os povos do Sul do país, como a utilização de trabalhadores
dessa localidade no comércio de escravos, com vista à ascensão do Egito ao
statusde potência regional. Todavia, esse processo violento de construção do
Estado sudanês não se restringiu apenas à população sulista, mas também a
outras regiões que sofreram a mesma «combinação de marginalização político-
econômica e discriminação sociocultural», a exemplo de Darfur, Kordofan, Nilo
Azul, Beja e Núbia
30
.
Quanto a esse ponto, é pertinente salientar que o movimento separatista
consiste na «manifestação expressa de um grupo nacionalista em se desmembrar de
um Estado a que pertence com o intuito de formar um outro independente»
31
. Além disso, as razões que motivam a segregação de um território estão
atreladas a vários fatores, incluindo-se nesse processo os conceitos de
clivagem e lealdade, que para efeitos desse estudo, serão abordados
implicitamente. No entanto, o processo de reconhecimento da nova área
territorial se dá, na maioria das vezes, por meio de «rebeliões, revoltas,
revoluções e, em boa parte dos casos, na forma de guerras civis e desordens
institucionais»
32
. Nesse sentido, em virtude das tensões ininterruptas entre as elites nortistas
do Sudão (maioritariamente muçulmanas) e a minoria cristã e animista do Sul do
país, decidiu-se por um referendo consultivo na região Sul do Estado, em 9 de
janeiro de 2011, com vista à separação do território e ao estabelecimento de
uma nova fronteira internacional na região
33
.
Segundo Döpcke, as comunidades africanas pré-coloniais já incorporavam o
conceito de fronteiras políticas em seus territórios e, nesse sentido, havia
uma «espécie de soberania graduada, sendo absoluta no centro do Estado e
ficando mais fraca na periferia». É importante sublinhar que essas fronteiras
pré-coloniais funcionaram como mecanismos para separação de «entidades
políticas», e não «entidades culturais, linguísticas ou étnicas»
34
. Desse modo, o autor ressalta que apesar da etnicidade africana ter tido certa
relevância no processo de construção política desse continente, não se
constituiu como um fator preponderante da «identidade» do Estado. Nesse
sentido, o que se observou de fato foi sua definição por vias políticas para
que houvesse uma estruturação na sua hierarquia doméstica.
Cabe ainda acrescentar que o programa de fronteiras implementado pelas
potências colonizadoras no continente africano, «além de ignorar os interesses
dos povos nativos, amiúde não dispunham de conhecimentos geográficos detalhados
sobre extensas regiões», ou seja, traçavam seus novos limites territoriais sem
considerarem a hidrografia e a topografia local
35
. Em virtude desses fatores, no período de formação da Organização da Unidade
Africana (OUA), em 1963, muitos países desse continente reivindicaram
modificações no seu ordenamento territorial, a exemplo da Somália ' que
pretendia incorporar ao seu território as populações originárias da etnia
somali do Djibuti, da Etiópia e do Quênia; o Marrocos ' que «contestava a
independência concedida pela França à Mauritânia»; e Gana ' advogando que as
fronteiras herdadas da colonização não deveriam se consolidar, entre outros
exemplos
36
.
Dentro de uma perspectiva pós-moderna, Rosenau
37
enfatiza que a análise histórica deve ser orientada por uma explicação
relativista e, nesse caso, apoiando-se em uma «reorientação sobre o que foi
dado como certo, quais sejam, o que tem sido negligenciado, as regiões de
resistência, o esquecido, o irracional, o insignificante, o reprimido, [...] e
tudo que a idade moderna nunca se importou em entender em qualquer detalhe
específico»
38
. Assim, a questão da herança fronteiriça dos estados africanos,
particularmente, no que se refere aos estados sudaneses, seja no âmbito
político quanto no econômico, significou profundas mudanças no caráter
governamental desses países, fatores que serão melhor explicitados na secção
seguinte.
Outro aspecto importante no processo de formação das modernas fronteiras
africanas foi a Conferência de Berlim, entre 1884 e 1885. Apesar de a
conferência não ter tratado diretamente de questões de soberania e
reivindicações territoriais, alcançaram-se alguns impactos positivos nessa
ocasião, a começar pela popularização da «ideia de colonial», acelerando, desse
modo, o processo de corrida pela África. Outra questão importante a ser
observada na conferência foi a gradativa relevância do princípio da «ocupação
efetiva» durante a partilha da África. Apesar de não ter sido um princípio
inventado pela conferência, o mesmo adquiriu proporções expansionistas no
continente africano, ainda que tenha sido formulado apenas para o seu litoral
39
. Assim, a importância atribuída ao princípio da «ocupação efetiva» está
relacionada ao fato de que antes da Conferência de Berlim bastava-se apenas um
acordo com os chefes locais para que as potências reivindicassem algum
território. Esse princípio foi utilizado pela França e a Inglaterra «para
questionar a soberania da Libéria no interior e para alargar suas próprias
colônias»
40
.
Diante dessa conjuntura litigiosa, os dirigentes africanos elencaram tentativas
de reduzir os riscos de conflitos relacionados a essas questões fronteiriças e,
para tanto, na primeira sessão da Assembleia de Chefes de Estado e de Governo
da Organização da Unidade Africana (OUA), em 1964, criaram a Resolução AHG/Res.
16 (I). O objetivo dessa resolução foi condenar explicitamente as políticas de
revisão territorial e ratificar um compromisso entre os estados-membros,
segundo o qual, os estados acordariam em respeitarem as fronteiras
estabelecidas desde o período colonial. Posteriormente, esse acordo de respeito
às fronteiras foi reafirmado pela União Africana por meio de seu artigo 4,
inciso (b) do Ato Constitutivo, com base no princípio do uti possidetis juris
41
, com a finalidade de evitar novas tentativas de colonização e a expansão dos
Estados
42
.
Aprofundando a discussão sobre a soberania territorial de um Estado, é
interessante destacar que a implementação de modernas fronteiras,
particularmente no continente africano, nitidamente não inibiu o movimento
populacional, pelo contrário, em muitos casos, como os estados sudaneses,
provocou um expressivo deslocamento de pessoas naquela região. Nesse sentido,
pensando-se os impactos das fronteiras sob as populações fronteiriças,
observou-se que «para as pessoas comuns, as fronteiras na África não
representavam nem representam [...] barreiras significantes às atividades
cotidianas»
43
. Salvo, nos casos em que essas populações se encontravam em territórios
beligerantes, a exemplo dos cidadãos fronteiriços da região de Abyei
44
.
Ainda que seja correto afirmar que historicamente os negros africanos do Sul do
Sudão foram extremamente marginalizados pelas elites árabes e muçulmanas do
Norte, culpar única e exclusivamente o colonialismo pelas atuais divisões
territoriais nessa região seria também ignorar outros aspectos constitutivos do
Estado sudanês. Nesse sentido, ressalta-se o papel da imposição da
superioridade racial árabe (característica persistente até hoje), por meio do
comércio de «negros africanos do Kordofan e do Darfur para o Império Otomano, o
Exército de Mohammadi Ali e para o homem branco»
45
.
Desse modo, considerando-se os argumentos supramencionados, salienta-se que as
fronteiras africanas são consideradas permeáveis para as populações locais.
Todavia, essa permeabilidade não é simplesmente ignorada, mas assume uma
significação particular por meio de uma integração mental entre a identidade
étnica e as nacionalidades implicadas nesse contexto. Em outras palavras, a
identidade nacional se configura no mínimo «tão importante como a identidade
étnica»
46
.
Nesse sentido, fazendo-se uma alusão à problemática da nacionalidade de muitos
cidadãos sulistas que ainda residem na República do Sudão, ilustra-se que
segundo o Acordo Quatro Liberdades (FFA ' sigla em inglês), assinado em março
de 2012 entre os governos de Juba e Cartum, seria garantida a abrangência dos
direitos civis a essa população, ou seja, direitos de livre-trânsito, trabalho,
propriedade e residência para os cidadãos sul-sudaneses residentes no lado
errado das fronteiras recém-criadas. No entanto, embora o Governo de Cartum
tenha assinado o FFA, não tem reconhecido os direitos de cidadania plena para
as pessoas de nacionalidade sulista, forçando-os a saírem do território, com o
qual possuíam históricos laços identitários
47
.
Em função da noção de «artificialidade» na política de fronteira africana,
comumente se argumenta que os conflitos desse continente são resultantes dessa
conjuntura conceitual. Nesse sentido, este estudo tem buscado demonstrar que a
secessão do Sudão do Sul expôs esse caráter contestável das rígidas linhas
territoriais africanas e as relações de poder envolvidas nesse processo,
especialmente, no que se refere à contestação da província de Abyei.
Considerações Finais
No presente artigo, desenvolveu-se o argumento de que a emblemática
independência do Sudão do Sul representou um ponto de fluidez nas rígidas
fronteiras africanas. Com base nessa afirmação, procurou-se justificar tal
estudo, tomando-se como pressupostos a corrente teórica pós-moderna, cujas
percepções buscaram enfatizar o questionamento de que toda e qualquer prática
política é uma forma arbitrária de poder. Considerando-se que em todos os
níveis das relações humanas e, particularmente no caso do conflito entre o
Sudão e o Sudão do Sul, observou-se a dinâmica de um indivíduo tentando
subjugar o outro em busca do poder.
Nesse sentido, inicialmente, ressaltou-se que a criação do Estado moderno foi
um projeto exclusivamente ocidental. Corroborando com essa vertente, os povos
que sofreram o processo de colonização desses estados-nação tiveram que moldar
suas estruturas aos parâmetros estabelecidos por essas potências europeias. Em
seguida, buscou-se compreender o complexo contexto a partir do qual o Sudão do
Sul emergiu como nação soberana no cenário internacional. Conforme se observou
ao longo do trabalho, alguns fatores foram determinantes ao processo de
secessão do Sudão do Sul, entre os quais, destacou-se a unidade do movimento de
libertação dos povos do Sul, assim como o fato de que esse povo nunca se viu,
histórica e culturalmente, parte integrante do Norte do país.
Destarte, conforme argumentado em momentos anteriores, a declaração de
independência do Sudão do Sul incorporou um conjunto particular de suposições
sobre a «fixação» de um novo território. Nesse sentido, destacou-se que após a
separação dos dois estados, ainda persistem fortes tensões entre o Norte e o
Sul do Sudão. Somando-se a esses fatores, buscou-se refletir sobre o novo
sistema de estados soberanos, especialmente, a natureza mutável da soberania
nas relações internacionais, a partir da contestação de que a natureza de um
Estado em si está mudando. Portanto, as diversas questões levantadas ao longo
desse estudo, particularmente no que tange a problemática apresentada pelos
dois estados sudaneses, puderam ratificar ainda mais a característica crítica
dos pós-modernistas, fortalecendo essa corrente teórica.
Data de recepção: 11 de março de 2013 | Data de aprovação: 5 de novembro de
2013
Notas
1
Boaventura de Sousa Santos apudSantos, Ana Cristina ' «Orientação sexual em
Portugal: para uma emancipação». In Reconhecer para Libertar: Os Caminhos do
Cosmopolitismo Multilateral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p.
339.
2
Resende, Erica Simone Almeida ' A Crítica Pós-Moderna/Pós-Estruturalista nas
Relações Internacionais. Coleção Relações Internacionais. Vol. 2. Organizado
por Senhoras, Elói Martins, e Camargo, Julia Faria. BoaVista: ufrr, 2010, p.17.
3
Ibidem, p. 17.
4
Giddens, Anthony ' Conversations with Anthony Giddens: Making Sense of
Modernity. Stanford: Stanford University Press, 1998.
5
Anthony Giddens apud Resende, Erica Simone Almeida ' A Crítica Pós-Moderna/
Pós-Estruturalista nas Relações internacionais, 2010, p. 18.
6
Giddens, Anthony ' As Conseqüências da Modernidade. São Paulo: unesp, 1991, p.
21.
7
Ibidem, p. 22.
8
Jürgen Habermas apud Arre a z a, Catalina, e Tickner, Arlene ' «Postmodernismo,
postcolonialismo y feminismo: manual para (in) expertos». In. Revista Colombia
International. Bogotá. N.º 54, 2002, p. 16.
9
Pauline Marie Rosenau, apudArreaza, Catalina, e Tickner, Arlene '
«Postmodernismo, postcolonialismo y feminismo: manual para (in) expertos»,
2002, p. 16.
10
Arreaza, Catalina, e Tickner, Arlene ' «Postmodernismo, postcolonialismo y
feminismo: manual para (in) expertos», p. 17.
11
Rob B. J. Walker apud Alves, Ana Cristina Araújo ' «Além do Ocidente, além do
Estado e muito além da moral: por uma política eticamente responsável em
relação à diferença ' o caso ruandês». In Revista Contexto Internacional. Vol.
27, N.º 2, 2005, p. 416.
12
Ibidem, p. 416.
13
Richard Ashley apudAlves, Ana Cristina Araújo ' «Além do Ocidente, além do
Estado e muito além da moral: por uma política eticamente responsável em
relação à diferença ' o caso ruandês», p. 417.
14
Dornelles, Felipe Krause ' «Postmodernism and ir: from disparate critiques to a
coherent theory of global politics». In Rev. Global Politics Network. Primavera
de 2002, p. 10.
15
Ibidem.
16
Johan Galtung, apudLopes, Liana Araújo ' «A autoridade palestina e a resolução
do conflito com Israel». 2006. 278 f. Tese (doutorado em Relações
Internacionais) ' Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro, 2006, pp.
31-32.
17
Significando nesse contexto, dominação.
18
Alves, Ana Cristina Araújo ' «Além do Ocidente, além do Estado e muito além da
moral: por uma política eticamente responsável em relação à diferença ' o caso
ruandês», 2005, p. 421.
19
Bobbit t, Philip ' A Guerra e a Paz na História Moderna: O Impacto dos Grandes
Conflitos e da Política na Formação das Nações. Rio de Janeiro: Campus, 2003,
p. 111.
20
Pureza, José Manuel ' «Quem salvou Timor Leste? Novas referências para o
internacionalismo solidário». In Santos, Boaventura de Sousa (org.) '
Reconhecer para Libertar: Os Caminhos do cosmopolitismo multilateral. 2.ª
edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p. 517.
21
Walker, Rob B. J. ' Inside/Outside: International Relations as Political
Theory. Cambridge: Cambridge University Press, 1993, p. 170.
22
Ibidem, p. 171.
23
Ibidem, p. 172.
24
Silva, Ailton José ' «A idéia de poder em Foucault: o Estado e a arte de
governar». In Metávoia. N.º 12, 2010, p. 21.
25
Foucault, Michel ' Microfísica do Poder. 10.ª edição. Rio de Janeiro: Edições
Graal, 1979, p. 166.
26
Ibidem, p. 166.
27
Ibidem, p. 517.
28
Schneider, Luíza Galiazzi ' «As causas políticas do conflito no Sudão:
determinantes estruturais e estratégicos». Porto Alegre: Universidade Federal
Rio Grande do Sul, 2008, p. 41.
29
Desde a independência do Sudão do Sul, ainda persistem fortes tensões
envolvendo os dois estados sudaneses, isso porque não ficaram definidas as
questões relativas à partilha das riquezas provenientes do petróleo, definição
das fronteiras e o estatuto da região de Abyei.
30
Verhoeven, Harry ' «Understanding the implications of South Sudan's
independence». In Year One of a Nation ' South Sudan's Independence. A
Compendium of Pieces from e-International Relations, 2012, pp. 10-11.
[Consultado em: 20 de dezembro de 2012]. Disponível em: http://www.e-ir.info/
wp-content/uploads/Sudan-publication.pdf
31
Castro, Thales ' Teoria das Relações Internacionais. Brasília: funag, 2012, p.
136.
32
Ibidem, p. 136.
33
Iglesias, Mario A. Laborie ' Sudan Del Sur: Entre La violência y La esperanza.
IEEE.ES. Documento Informativo, 2011 pp. 3-4. [Consultado em: 20 de dezembro de
2012]. Disponível em: http://www.ieee.es/Galerias/fichero/docs_informativos/
2011/DIEEEI24-2011SUDANDEL_SUR.pdf
34
Döpcke, Wolfgang ' «A vida longa das linhas retas: cinco mitos sobre as
fronteiras na África Negra». In Revista Brasileira Política Internacional. Vol.
42, N.º 1, 1999, pp. 80-81.
35
Santos, Luís Ivaldo Viallafañe Gomes ' A Arquitetura de Paz e Segurança
Africana. Brasília: funag, 2011, p. 145.
36
Ibidem, pp. 47-48.
37
Rosenau, Pauline Marie ' Postmodernism and the Social Science.Insights,
Inroads, and Intrusions, p. 8.
38
Ibidem.
39
Döpcke, Wolfgang ' «A vida longa das linhas retas: cinco mitos sobre as
fronteiras na África Negra», p. 84.
40
Ibidem.
41
O uti possidetisfoi um princípio utilizado para governar as independências da
América Latina. Esse princípio foi aplicado originalmente «aos conflitos sobre
fronteiras e território entre Estados, mas, no decorrer do tempo, foi
tacitamente estendida para não reconhecer tentativas de secessão que, na visão
de alguns Estados africanos, expressariam um legítimo direito de
autodeterminação». In Döpcke, Wolfgang ' «A vida longa das linhas retas: cinco
mitos sobre as fronteiras na África Negra», p. 92.
42
Santos, Luís Ivaldo Viallafañe Gomes ' A Arquitetura de Paz e Segurança
Africana, p. 49.
43
Döpcke, Wolfgang ' «A vida longa das linhas retas: cinco mitos sobre as
fronteiras na África Negra», p. 94.
44
Abyei é um dos oito distritos do Estado do Kordofan do Sul, no Sudão. A região
é rica em petróleo e, por esse motivo, con-figura-se como o principal ponto de
divergência administrativa entre a República do Sudão e a República do Sudão do
Sul. Atualmente, ocupada pelas Forças Armadas do Sudão e o Exército de
Libertação do Povo do Sudão do Sul (spla). Causando a migração forçada de
milhares de habitantes da região.
45
Tynsley, Rebecca ' «Premature adulation in Sudan». In Year One of a Nation '
South Sudan's Independence. A compendium of pieces from e-International
Relations, 2012, p. 15. [Consultado em: 20 de Dezembro de 2012]. Disponível em:
http://www.e-ir.info/wp-content/uploads/Sudan-publication.pdf
46
Döpcke, Wolfgang ' «A vida longa das linhas retas: cinco mitos sobre as
fronteiras na África Negra», p. 95.
47
Mbaku, John Mukum ' «South Sudan: seeking the right formula for peaceful
coexistence and sustainable development». In Year One of a Nation ' South
Sudan's Independence. A Compendium of Pieces from e-International Relations,
2012, p. 48. [Consultado em: 20 de dezembro de 2012]. Disponível em: http://
www.e-ir.info/wp-content/uploads/Sudan-publication.pdf
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