A Alemanha e as intervenções militares internacionais: a persistência da Kultur
der Zurückhaltung
A política de segurança da Alemanha revela, no que se refere à participação de
tropas da Bundeswehr em intervenções militares internacionais, uma persistente
continuidade quanto à relutância no uso da força militar. Na procura pela
legitimação do papel da Bundeswehr na política internacional a Alemanha
continua a ter dificuldade em reunir um consenso estratégico que defina os
parâmetros de atuação em intervenções internacionais. Durante a Guerra Fria, a
política de segurança da Alemanha assentou em fundamentos normativos e
desenvolveu-se de acordo com normas de «multilateralismo», «lealdade de
aliança» (à NATO e aos Estados Unidos) e uma «aversão ao uso da força militar»
no meio de uma «cultura de discrição» (Kultur der Zurückhaltung)1. Após a
unificação alemã, em 1990, sucessivos governos mantiveram esta política baseada
em princípios normativos cujos objetivos continuavam a ser a preservação da paz
e da segurança internacionais, a integração europeia e o relacionamento
multilateralista transatlântico. Apesar das mudanças que ocorreram no contexto
euroatlântico, os decisores alemães mantiveram-se fiéis à lógica fundacional da
RFA, ou seja, uma preferência contínua por meios não militares e uma relutância
no uso da força militar em intervenções internacionais. Este facto não era
criticável em si, mas ia ao desencontro daquilo que, na década de 1990, estava
a emergir como a norma da «intervenção humanitária», e que levou os países
membros da NATO e posteriormente da União Europeia (UE), assim como uma
comunidade internacional mais lata a considerar legítimo e importante por
razões de prevenção do genocídio, assim como por razões de restabelecimento da
ordem regional, e global ' a optar por uma política de intervencionismo militar
' por razões humanitárias primordialmente ' e de responsabilização pela
estabilidade da ordem internacional. Pelas características da própria
identidade internacional da Alemanha, este país seria, a priori, um ator
relevante nesta nova abordagem da política internacional.
O facto de a Alemanha não estar, contudo, recetiva a esta nova interpretação do
uso da força militar em intervenções militares internacionais deve-se a um
misto de fatores internos e externos. Em primeiro lugar, a memória histórica da
Alemanha nacional-socialista durante a II Guerra Mundial transformou o povo
alemão e preparou-o para um código genético de aversão ao uso da força militar
e definição de instrumento da política apenas como último recurso, ligado a uma
cultura política do multilateralismo, da preferência pela cooperação e sanções
económicas como instrumentos privilegiados da política externa.
Em segundo lugar, os alemães não se querem ver envolvidos, prolongadamente, num
conflito internacional, que a maioria deles não compreende; qualquer decisor
alemão tem dificuldade em explicar à opinião pública ' maioritariamente avessa
a intervenções internacionais per se' a razão e necessidade de participação da
Alemanha e menos ainda a possibilidade de ocorrência de baixas nas tropas da
Bundeswehr. Em terceiro lugar, a desconfiança dos países vizinhos face às
intenções da Alemanha não desapareceu com a unificação e os alemães sabem que
um envolvimento militar internacional alemão será sempre escrutinado quanto a
possíveis ambições hegemónicas na Europa ou fora dela.
Por último, falta aos decisores alemães uma «vontade de coliderança» que um
papel ativo de participação em operações militares internacionais pressupõe.
Assim, a identidade internacional alemã projeta uma crescente autoconfiança, ao
mesmo tempo que nunca é desprovida de elementos de hesitação e prudência. No
plano da política de segurança, esta combinação entre a autoconfiança assertiva
e a hesitação e prudência refletiram-se principalmente na posição da Alemanha
nas intervenções internacionais no Iraque e na Líbia, como abordaremos mais à
frente.
O objetivo deste artigo é explicar porque é que as decisões sobre o envio de
tropas da Bundeswehr para missões humanitárias e de combate no exterior
permanecem um domínio problemático da política de segurança alemã, sendo sempre
justificadas como decisões singulares, aprovadas pelo Bundestag e muitas vezes
fiscalizadas pelo Tribunal Constitucional Federal. Mais decisivamente, o artigo
visa demonstrar como a natureza ad hocdas decisões é o reflexo profundo da
ausência de uma estratégia de intervenção internacional por parte da potência
central europeia. Esta relutância está longe de sugerir a consolidação de um
novo paradigma de segurança alemão: a chamada «normalização» da política de
segurança ainda não ocorreu.
O artigo argumenta que persistem paradoxos na política externa alemã, que se
refletem principalmente na sua política de segurança, entre uma Alemanha que se
consolidou como a potência central europeia, como se verifica atualmente na
crise da zona euro, e na sua capacidade económico-financeira de resistir a essa
crise e emergir como potência geoeconómica2, por um lado, e, por outro, o
desconforto evidente na afirmação de uma política de segurança e defesa mais
assertiva, que passaria pela definição e cumprimento de uma estratégia de
segurança ' que a Alemanha não possui. Verifica-se a ausência de um pensamento
estratégico na Alemanha que não é comparável com as políticas de segurança da
França e da Grã-Bretanha, os outros dois grandes estados europeus, e que
posiciona a Alemanha numa posição de ser o odd one out. Esta debilidade define
a cultura estratégica alemã, que os seus próprios interlocutores políticos
caracterizam como uma «cultura de discrição» (Kultur der Zurückhaltung), para
justificar as reservas alemãs de participar em intervenções militares
internacionais. Ligada a esta relutância no uso da força militar identifica-se
também a ausência de uma estratégia de coliderança, com a França e/ou Grã-
Bretanha. Apesar dos constrangimentos morais e legais decorrentes da memória
histórica do papel agressor da Alemanha nacional-socialista, muitas vezes
invocados, e da contínua oposição da opinião pública alemã a tais intervenções,
os parceiros da Alemanha cada vez mais criticam o que veem como justificação
insuficiente.
O artigo analisa, na primeira secção, os paradoxos da política de segurança da
Alemanha. De seguida, aborda, em detalhe, as operações militares no Kosovo e no
Afeganistão onde a Alemanha teve um papel como ator relevante, e analisa as
principais motivações da participação alemã. Como contraste, a secção seguinte
estuda os casos do Iraque e da Líbia como exemplos da oposição e abstenção da
Alemanha em colocar-se ao lado dos seus aliados na Aliança Atlântica. Por
último, são tecidas algumas considerações quanto à contínua singularidade da
política de segurança alemã.
Os paradoxos da Política de Segurança da Alemanha
A política de segurança da Alemanha assenta em cinco paradoxos que evidenciam
contradições entre si e produzem implicações para o relacionamento de Berlim
com os seus parceiros e o seu posicionamento no sistema internacional. Em
primeiro lugar, vinte e três anos após a unificação e a recuperação completa da
soberania política, a Alemanha mantém uma abordagem conceptual muito própria
sobre as intervenções internacionais que diverge da dos seus principais
parceiros na Aliança Atlântica e que é cada vez menos explicável pelos dois
tabus que condicionaram a margem de ação da Bundeswehr durante a Guerra Fria:
primeiro, que a Alemanha não devia participar ativamente em operações militares
fora da área da NATO, e nunca em missões de combate, e segundo, que não podia
enviar tropas para locais onde o exército alemão tinha agido como Estado
agressor durante a II Guerra Mundial. Após 1990, as expectativas dos parceiros
e aliados da Alemanha quanto à participação futura em intervenções militares
fora da Europa aumentaram; isto coincidiu com a predisposição da comunidade
internacional liberal, refletida nas Nações Unidas, em iniciar missões de ajuda
humanitária e operações de manutenção de paz num clima de otimismo generalizado
de asserção da universalidade dos direitos humanos e valores democráticos.
Neste novo contexto internacional, o conceito de «potência civil» que definia a
Alemanha como privilegiando o multilateralismo, a atuação nas instituições
internacionais e o recurso à força militar apenas como último recurso,
encontrava um terreno fértil possibilitando à Alemanha recém-unificada projetar
para o domínio da política externa e da política de segurança estes princípios
identitários3. Neste sentido, a Alemanha tinha adquirido «poder normativo»
durante a Guerra Fria, uma forma diferente mas efetiva de poder que, através da
preferência por normas de cooperação multilateralista e pela construção de
instituições internacionais, amorteceu a consolidação da Alemanha como a nova
potência na Europa4. Neste processo de normalização do papel internacional da
Alemanha, uma nova «normalidade» da sua política de segurança ' que pressupunha
que a Alemanha deixasse de ser importadora de segurança para passar a ser
exportadora de segurança, na Europa e fora dela, e que participasse em
intervenções internacionais aprovadas pelo Conselho de Segurança das Nações
Unidas (CSNU) ' ainda não se consolidou até hoje.
Um segundo paradoxo da política de segurança, decorrente do primeiro, é que até
hoje ainda não ocorreu um debate estratégico nacional na Alemanha. O acelerado
crescimento do poderio económico poderia sugerir uma política de segurança mais
afirmativa; contudo, os governos alemães desde a unificação evitaram um debate
político-societal fundamental sobre o novo papel da Alemanha no mundo e as
condições para a intervenção das suas forças armadas. Ao contrário dos seus
parceiros europeus, existe uma surpreendente convergência entre a aversão da
opinião pública ao uso da força militar (mesmo em operações de caráter
humanitário) e as decisões políticas dos governos (tendencialmente mais contra
do que a favor de intervenções, principalmente de combate). Este alinhamento
ajuda a explicar porque é que não houve até hoje um sério debate público sobre
as opções da política de segurança alemã. Por outro lado, apesar da reforma
militar que levou ao fim do serviço militar obrigatório, em 2011, e de os
cortes no orçamento de defesa terem tornado o exército alemão mais flexível,
eficiente e global e com uma maior capacidade de deslocação para missões da
ONU, a política de segurança permanece uma política reativa e ad hoc, mais
condicionada por constrangimentos internos ou acontecimentos externos do que
por objetivos políticos assentes numa estratégia que oriente a política de
segurança e defina um conceito de intervenção operacional.
Em terceiro lugar, para um país tão dependente das suas exportações e da
estabilidade internacional para a fluidez do comércio externo e a
acessibilidade das rotas comerciais, poder-se-ia conceber uma maior
disponibilidade para intervenções militares, precisamente em circunstâncias que
exigissem a defesa dessas rotas. No entanto, quando o então Presidente da
Alemanha, Horst Köhler, em maio de 2010, se referiu à importância da proteção
de relações económicas e das rotas comerciais e do futuro papel da Bundeswehr,
ao sugerir que em casos extremos as intervenções militares poderiam ser
necessárias para salvaguardar interesses alemães e garantir o acesso a rotas
comerciais, foi criticado por todos os quadrantes políticos e pela opinião
pública. Um argumento que fora da Alemanha seria visto como o desempenho normal
das forças armadas de um país, acabou por desencadear uma polémica que levou à
demissão de Köhler5. Este episódio é mais uma vez revelador das dificuldades
com que a elite política alemã tem em lidar com questões de política externa,
que não constituem dilemas para outras nações, mas que continuam a ser
problematizadas em Berlim ao ponto de ameaçar a paralisia das instituições e a
incapacidade da tomada de decisões.
Um quarto paradoxo da política de segurança alemã reside na contradição entre a
ambição alemã de atribuição de um lugar permanente no Conselho de Segurança das
Nações Unidas (CSNU), justificada pela vontade em assumir responsabilidades
acrescidas na gestão de crises internacionais, por um lado, e a falta de
vontade em aumentar a sua contribuição financeira, enviar tropas alemãs para
zonas de conflito, ou, crucialmente, a abstenção numa votação tão importante
como sobre a aplicação de uma zona de exclusão aérea na Líbia, em março de
2011, por outro. A ambição da Alemanha quanto ao Conselho de Segurança não é
inocente, já que desde a unificação sucessivos governos alemães se têm
esforçado por obter não apenas um lugar temporário, mas permanente para a
Alemanha. As razões que levam Berlim a ambicionar um lugar permanente são
várias.
Em primeiro lugar, como terceiro maior contribuinte para as finanças das Nações
Unidas, e segundo maior contribuinte para a ajuda ao desenvolvimento, vê-se no
direito de participar no processo de decisão quanto à utilização desses
recursos financeiros. Em segundo lugar, o aumento da participação da Bundeswehr
em missões internacionais, como nos Balcãs, no Afeganistão, Líbano e golfo de
Adem, ligado ao contributo financeiro, legitima, aos olhos de Berlim, o direito
de tornar-se um membro permanente.
Em terceiro lugar, este novo estatuto implica ter o poder para introduzir
perspetivas alemãs nas questões internacionais, como, por exemplo, na resolução
dos conflitos internacionais. Segundo Peter Wittig, embaixador da Missão
Permanente da Alemanha junto das Nações Unidas quando esta integrou o CSNU no
biénio 2011-2012, «aqueles que contribuem significativamente para a manutenção
da paz e segurança internacional devem assumir o seu lugar merecido entre os
membros permanentes»6. Como afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Guido
Westerwelle, no dia da eleição da Alemanha como membro não permanente, em 25 de
setembro de 2010, no discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas:
«como os alemães são o terceiro maior contribuinte nas Nações Unidas, são uma
nação que vive da exportação e depende da sua interligação internacional, só é
consequente que assumam responsabilidade e queiram participar na configuração
das relações internacionais, principalmente também na resolução de
conflitos.»7Também o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Klaus
Kinkel, defendeu no dia da votação, que a Alemanha deveria prosseguir o
objetivo de alcançar o estatuto de membro permanente, já que
«um lugar permanente para a UE nunca irá materializar-se porque a
Inglaterra e a França nunca abdicarão das suas armas nucleares ou dos
seus lugares permanentes no Conselho de Segurança. Por isso nós temos
de tornar-nos um membro permanente ' como décimo segundo maior país
do mundo. Não se trata tanto daquilo que nós podemos pôr em marcha,
mas antes que estejamos presentes e que participemos quando se trata
de intervenções militares ou da utilização de dinheiro»8.
Na mesma linha de argumentação, contudo, o Auswärtiges Amt (Ministério dos
Negócios Estrangeiros alemão) demonstrava pouca disponibilidade em assumir
maiores custos financeiros e humanos em missões internacionais, quando
Westerwelle afirmou que a Alemanha não iria disponibilizar mais dinheiro ou
soldados para futuras missões militares da ONU porque a presença alemã no
Afeganistão e nos Balcãs Ocidentais já era suficiente9. Esta posição, que, de
resto, refletia a postura crítica do partido liberal, FDP, de Westerwelle, mas
também do Governo, não deixava de evidenciar esta contradição alemã entre uma
ambição de poder ' querer integrar o grupo de membros permanentes do CSNU ' e a
fraca disponibilização de recursos ' financeiros como militares ' para a
satisfazer. Meio ano depois, quando a Alemanha exercia o mandato de membro não
permanente, a votação da aplicação de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia
serviu de contraste à retórica ambiciosa quando a Alemanha, contra todas as
expectativas, se absteve10. Isto revelava não apenas uma discrepância entre as
capacidades e expectativas, como também entre a ambição declarada e a assunção
das responsabilidades no terreno. Berlim não foi capaz de exercer influência
política no processo de decisão do Conselho de Segurança e decidir, juntamente
com os outros membros, de forma efetiva sobre intervenções militares
internacionais e a «autorização de guerras», a imposição de sanções económicas
e a definição de missões de manutenção e imposição de paz. Ao abster-se,
isolou-se nesse grémio dos seus parceiros europeus e norte-americano. A
presença como membro não permanente do CSNU não foi assim aproveitada por
Berlim para aumentar o poder da Alemanha no palco internacional ou, como um dos
financiadores, influenciar uma gestão mais eficaz da atribuição de recursos a
operações de peacekeepingou missões de peacebuilding.
Um último paradoxo na política de segurança da Alemanha prende-se com o
entendimento de Berlim sobre a sua relação bilateral com Washington. Em 1989, a
poucos meses da queda do Muro de Berlim, os Estados Unidos reconheceram à
Alemanha (então RFA) um papel de «parceria na liderança» (partnership in
leadership)11. Este reconhecimento do Presidente George Bush prendia-se com o
aumento de poder económico e crescentemente político da RFA que projetaria a
Alemanha para o estatuto de primus inter paresdos Estado Unidos, na política de
segurança no espaço euroatlântico como na política internacional. Mas a reação
do chanceler Kohl foi de recusa ténue, preferindo ancorar a RFA ainda mais nas
estruturas institucionalizadas, principalmente comunitárias, e evitar uma
singularização da posição da Alemanha. Desde então, tanto os governos de
Gerhard Schröder como de Angela Merkel têm sistematicamente evitado privilegiar
o estatuto da relação bilateral. Para além desta recusa em sobrevalorizar a
relação bilateral é paradoxal como a Alemanha não desempenhou um papel de
relevo no desenvolvimento da Política Europeia de Segurança e Defesa (PESD)/
Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD) onde o papel embrionário e
motivador da afirmação da UE enquanto ator de segurança internacional é
definido pela relação bilateral entre a França e a Grã-Bretanha.
Duas implicações alternativas decorrem destes cinco paradoxos. Uma primeira
leitura sugere que a Alemanha não desenvolveu, desde a sua unificação, uma
política de segurança fundada num pensamento estratégico correspondente ao de
uma potência ordenadora do sistema internacional. Isto tem produzido decisões
ad hoc e erráticas, que revelam uma Alemanha continuamente cautelosa e
hesitante quanto ao uso da força militar em operações internacionais e que
muitas vezes se encontra de costas voltadas às políticas dos seus parceiros.
Como consequência, isto sugere uma Alemanha potencialmente menos
multilateralista, menos previsível e mais ambivalente quanto ao
multilateralismo no seu comportamento de aliança na previsibilidade das ações
de política externa alemã. Com o aumento da sua margem de manobra, resultado do
seu crescente poderio geoeconómico, a lealdade de aliança e o clássico
multilateralismo parecem ceder à prioritarização do interesse nacional alemão,
onde a rejeição do uso da força parece esconder, por detrás do discurso da
«prudência» e da «cautela» uma secundarização dos interesses conjuntos dos
parceiros da Aliança Atlântica. Esta continuidade da relutância quanto a
intervenções internacionais, aliada a uma potencial menor previsibilidade na
política de alianças e no multilateralismo sugere menor predisposição em honrar
compromissos de aliança e, em última instância, uma falta de vontade de
liderança estratégica.
Uma segunda leitura contrasta com a leitura da indefinição e incerteza, e
sugere que a Alemanha já alterou o seu paradigma de segurança ao seguir uma
estratégia nova: a do alargamento do contexto de atuação para as novas
potências emergentes. Se analisarmos o grau de cooperação económica (com a
China) e energética (com a Rússia) ou as posições sobre a Líbia, o Mali e a
Síria, verificamos que a posição alemã não é diametralmente oposta à destes
países e que Berlim não mostra hesitação em posicionar-se, por vezes, ao seu
lado. Isto tem consequências para a relevância que as instituições políticas e
securitárias tradicionais como a NATO e a União Europeia (UE) têm nesta nova
estratégia alemã: se bem que a NATO e a UE se mantenham como o fundamento da
política de segurança da Alemanha, Berlim já não se vê condicionada a atuar
apenasde acordo com a leitura dos seus parceiros ocidentais e os princípios
normativos do Ocidente. Desta forma consegue aumentar a sua margem de manobra
na política internacional, ao alargar o contexto da sua política
multilateralista. Esta mudança corresponderia a mais do que uma mera
transformação de uma «cultura de relutância», herdeira do período pós-1945,
para uma «cultura de prudência»12: nesta leitura, Berlim não irá ser
considerado um aliado sério enquanto mantiver uma postura de ambiguidade quanto
aos objetivos da sua política de segurança, à sua posição dentro da Aliança
Atlântica no que se refere a missões internacionais e, no contexto da UE quanto
ao seu papel na PCSD.
Estas duas leituras alternativas implicam, no entanto, alterações no
posicionamento da Alemanha no seio das políticas da Aliança Atlântica e da UE.
Mais paradoxal parece, por isso, a contínua hesitação de Berlim de definir
claramente a orientação estratégica da sua política de segurança ' face a
intervenções militares internacionais, à Aliança Atlântica e à posição de
Berlim na PCSD.
Alemanha e as Intervenções Militares Internacionais
Desde a unificação, a normalização da política de segurança da Alemanha,
principalmente no que dizia respeito ao crescente número de intervenções
militares internacionais, como vimos, tem sido lenta. Durante a Guerra do
Golfo, em fevereiro de 1991, quando uma coligação internacional de 34 estados,
liderada pelos Estados Unidos, forçou o Iraque de Saddam Hussein a recuar do
Koweit, restabelecendo assim a soberania deste país, a Alemanha do chanceler
Helmut Kohl não contribuiu com forças militares, apenas com apoio financeiro, o
que provocou críticas internacionais por esta cheque book diplomacy13.
Em 1993, a Bundeswehr participou na missão humanitária e de manutenção da paz
da ONU no Camboja, com o envio de pessoal médico. Nesse ano, a Bundeswehr
participou ainda na missão da NATO, sob um mandato do Conselho de Segurança da
ONU, na aplicação militar da zona de exclusão aérea sobre a Bósnia. Mas a
ausência de uma estratégia face às novas exigências e expectativas dos aliados
assim como a forte resistência interna, no Bundestag e na opinião pública, a
uma participação militar, particularmente na Bósnia, forçou a adoção de um
veredito do Tribunal Constitucional Federal. A decisão de 12 de julho de 1994
estipulou a legalidade da participação da Bundeswehr em operações fora de área,
em missões da NATO e da ONU. Até então, e segundo o artigo 87a da Lei
Fundamental, a Bundeswehr estava apenas mandatada para atuar na defesa do
território da RFA14. Isto foi uma mudança significativa, jurídica antes de ser
política facilitando, por isso, o fim (jurídico) do tabu alemão. No campo da
política de defesa, a Alemanha tem vindo a normalizar a sua linha de atuação
quando comparada com as limitações existentes no período da Alemanha dividida.
O documento que estipulou as linhas orientadoras da defesa
(Verteidigungspolitische Richtlinien),de 2003, definiu as forças armadas alemãs
como um exército em ação, com um campo de atuação no exterior e já não
direcionadas principalmente para a proteger o território nacional de ataques
armados convencionais, e também o Livro Branco da Defesa, de 2006, sublinhou a
necessidade de a Alemanha adquirir uma capacidade expedicionária com capacidade
de combate de alta intensidade. A participação da Bundeswehr na operação
internacional no Afeganistão transformou as forças alemãs numa força de
combate, e as recentes reformas implementadas pelo Ministério da Defesa foram
feitas para agilizar a Bundeswehr e flexibilizar a sua capacidade de
intervenção. No decorrer deste processo de normalização da política de
segurança, os poderes do Bundestag foram reforçados. Em finais de 2004, o
mecanismo para enviar tropas para o exterior foi substancialmente facilitado,
quando o Bundestag aprovou uma lei para o envio de tropas alemãs para operações
internacionais (Entsendegesetz). Enquanto as operações militares ainda teriam
de ser sancionadas pelo Bundestag, o voto parlamentar poderia agora ocorrer
após o início da missão e do envio de tropas tor-nando o processo mais
expediente15. Pelo Parlamentsbeteiligunsgesetz(Lei sobre a Participação do
Parlamento), de 2005, os poderes do Bundestag foram reforçados: os deputados
alemães têm de concordar com a missão, assim como podem terminar uma missão se
as condições no terreno representarem um perigo para a segurança das tropas
alemãs.
Contudo, permanecem constrangimentos na cultura estratégica alemã que perpetuam
o grande desfasamento entre a ambição declarada e as capacidades existentes. O
maior Estado da UE contribui insuficientemente para a defesa dentro do espaço
euroatlântico: o seu orçamento de defesa centra-se em 1,4 por cento do PIB, o
que significa que a Alemanha é um dos países que, apesar de ter o nono maior
orçamento de defesa do mundo, e deter 2,6 por cento dos gastos militares
globais, é, depois do Japão, o país que menos gasta em despesas militares em
termos de proporcionalidade em relação ao seu PIB16. O envio de tropas da
Bundeswehr para missões internacionais é feito de forma seletiva, evitando
zonas de combates de elevada intensidade, como aconteceu no caso do
Afeganistão, onde Berlim, na defesa dos seus interesses e para minimizar
custos, humanos e financeiros, colocou as suas tropas em áreas comparativamente
mais seguras do que aquelas onde tropas dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá
e a Holanda, por exemplo, estavam colocadas. O próximo ponto analisa as
participações alemãs na intervenção da NATO no Kosovo e na Guerra do
Afeganistão.
A Intervenção no Kosovo: evitar o Genocídio
A aprovação de um mandato do Bundestag para a participação da Bundeswehr na
operação «Allied Force» da NATO, contra a Sérvia e em defesa da população
albanesa kosovar foi tomada em 16 de outubro de 1998, pouco antes de o novo
governo SPD-Os Verdes, liderado por Gerhard Schröder, assumir o cargo. A
Alemanha foi o último país-membro da NATO a decidir a sua participação na
intervenção militar17. Quais foram as razões da participação alemã?
Primeiro, uma sensação generalizada de repúdio face às violações sistemáticas
dos direitos humanos dos albaneses do Kosovo por parte das forças da Sérvia,
ligada ao reconhecimento da má gestão das crises nos Balcãs no início da década
de 1990 serviu como catalisador, impulsionado pelo fracasso dos estados
europeus em lidar com a guerra na Bósnia e pela dependência dos EUA na mediação
do acordo de paz de Dayton, em dezembro de 1995. Para o ministro dos Negócios
Estrangeiros, Joschka Fischer, a fórmula da Guerra Fria, «nunca mais guerra»,
deveria ser ampliada pela fórmula «nunca mais Auschwitz», segundo a qual um
Estado democrático tinha a obrigação moral de intervir militarmente num
conflito por razões humanitárias para evitar um genocídio18. Neste sentido, a
guerra tinha «deixado de ser o epítome de falha ou dominação para ser um
instrumento necessário do humanitarismo»19.
Segundo, as expectativas internacionais para que a Alemanha assumisse um novo
papel levaram o chanceler Schröder a declarar perante o Bundestag, a 15 de
abril de 1999, vinte e três dias após o início da intervenção, que
«não pode haver dúvidas quanto à nossa confiança, à nossa
determinação e à nossa firmeza. A inserção da Alemanha na comunidade
ocidental de estados faz parte da raison d'Étatalemão. Não pode e não
haverá connosco um Sonderweg. [ ] Não podemos fugir à nossa
responsabilidade. Esta é a razão pela qual, pela primeira vez desde a
II Guerra Mundial, os soldados alemães estão numa missão de
combate»20.
A antiga política de responsabilidade (Verantwortungspolitik) de Hans Dietrich
Genscher, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, que, noutro contexto,
pressupunha a não intervenção, deixara de ser válida; ser um membro responsável
da comunidade internacional significava agora assumir uma responsabilidade mais
interventiva. Daí que a participação alemã tenha assumido também uma elevada
carga simbólica, tendo sido interpretada como o culminar de um processo de
normalização da política de segurança da Alemanha unificada21.
Terceiro, a Alemanha optou pelo multilateralismo e o compromisso de aliança
secundarizando o papel do CSNU e do direito internacional. Dada a ameaça do uso
de poder de veto pela Rússia, por causa da sua relação de proteção tradicional
para a Sérvia, a questão não foi votada no Conselho de Segurança, e a operação
da NATO ocorreu sem mandato da ONU22. Nesta colisão entre as normas da
fidelidade da Aliança e a preservação dos direitos humanos, por um lado, e o
respeito pelo direito internacional, por outro, a Alemanha optou por colocar-se
ao lado dos seus parceiros. Finalmente, o envolvimento da Alemanha explica-se
pelo seu interesse em garantir a ordem e estabilidade regional dos Balcãs23. As
contínuas violações dos direitos humanos no Kosovo tinham provocado um elevado
número de refugiados, e tendo em conta a experiência da Bósnia, poucos anos
antes, a Alemanha poderia tornar-se o destino de milhares de albaneses do
Kosovo. Assim, o Pacto de Estabilidade para a Europa do Sudeste, impulsionado
pela presidência alemã da UE, em 10 de junho de 1999, foi também um mecanismo
preventivo para antecipar possíveis implicações sociais e financeiras
domésticas, devido à questão dos refugiados24.
A operação no Kosovo produziu consequências significativas para a política de
segurança da Alemanha. Em primeiro lugar, a intervenção abriu um precedente na
forma como a Alemanha se posicionava perante um conflito internacional: pela
primeira vez, desde 1945, participou numa ação militar ofensiva da NATO, de
bombardeamentos aéreos contra a Sérvia, para garantir o sucesso de uma missão
humanitária. Esta decisão representou uma mudança profunda na política de
segurança alemã, ao acabar com um duplo tabu militar no retorno gradual à
normalização da política externa. Ajudou os alemães a superar o legado de
Auschwitz, não pela sua erradicação da memória coletiva, mas como forma de o
país começar a tomar parte em operações humanitárias que poderiam envolver
missões de combate. A participação no Kosovo demonstrou ainda que o poder
militar se afirmou como um instrumento eficaz de política externa e poderia ser
utilizado em conflitos fora da Europa. A intervenção foi um momento decisivo
também para a política interna alemã pelos acesos debates em todas as
estruturas partidárias. A decisão de participação foi ainda mais relevante pelo
facto de ter sido tomada pelo governo de coligação SPD-Os Verdes sob liderança
do chanceler Schröder e numa missão da Aliança Atlântica que a ONU não
mandatou. A decisão foi tomada num clima de grande contestação interna,
principalmente da ala esquerdista do SPD, e da ala «fundamentalista» dos Verdes
(os «Fundis», contra os «Realos», de maior pragmatismo, de Joschka Fischer). A
questão do Kosovo exigiu uma mudança de atitude a favor de uma maior aceitação
do novo papel internacional.
Em segundo lugar, a norma de intervenção humanitária tornou-se parte da
diplomacia alemã, ao mesmo tempo que aumentou a autoconfiança e maturidade na
política externa e de segurança. Schröder pretendeu aumentar a margem de
manobra política do seu país e alcançar a paridade internacional entre as
grandes potências, esperando Schröder mais direitos de consulta sobre questões
da NATO por parte de Washington. Como afirmou Wolfgang Ischinger, então
secretário de Estado no Ministério dos Negócios Estrangeiros, «a Alemanha
emergiu desta crise como um parceiro cuja voz hoje tem mais peso do que
antes»25. Finalmente, a guerra do Kosovo revelou a eficácia das capacidades de
gestão de crises da Alemanha, ao mesmo tempo que acentuou a necessidade de
reforma da Bundeswehr de um exército de defesa territorial para um exército
mais flexível e com maior capacidade de intervenção. Consequentemente, a Guerra
do Kosovo representou um momento de sucesso e de emancipação para a política de
segurança alemã, com Berlim a sentir-se legitimada a defender os seus
interesses de forma mais assertiva26. Dois anos mais tarde, esta nova
autoconfiança foi seriamente posta à prova.
A intervenção no Afeganistão: solidariedade de aliança
A participação alemã na operação da International Security Assistance Force
(ISAF), liderada pela NATO, no Afeganistão foi, durante mais de uma década, a
questão crucial para a política de segurança global da Alemanha. Na sequência
dos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, o Governo de
Schröder proclamou a «solidariedade incondicional» ao aliado transatlântico e
preparou o apoio de Berlim à intervenção da coligação internacional no
Afeganistão. Pela dimensão da participação alemã numa intervenção militar fora
da Europa, e para evitar uma crise política em Berlim, Schröder combinou o voto
sobre a participação de até 3900 soldados da Bundeswehr na operação «Enduring
Freedom» a um voto de confiança ao Governo. O voto de confiança foi a resposta
de Schröder à resistência dentro da coligação governamental face à participação
alemã. Enquanto Schröder era favorável à intervenção e também a oposição de
CDU/CSU e FDP sinalizavam concordância à participação militar alemã, a
perspetiva de uma participação Bundeswehr numa operação militar fora da área da
NATO era recusada por um número significativo de deputados do SPD e da Aliança
90/Os Verdes. Para convencer os indecisos, principalmente os membros do SPD, a
votarem favoravelmente, a moção de confiança seria um teste à robustez do
Governo. A participação militar alemã na guerra contra o terrorismo
internacional no Afeganistão foi aprovada por uma pequena margem de 336 dos 662
membros do Bundestag. Dos 326 votos contra, quatro eram de Os Verdes, um do
spd, juntamente com todos os votos da CDU e FDP27. A participação alemã
representou, nas palavras do chanceler, um ponto de viragem da política de
segurança alemã e o reconhecimento político de que a Alemanha tinha de assumir
responsabilidades na política internacional ' mesmo que isso implicasse o envio
de tropas para uma missão militar prolongada e fora do território da NATO.
Quando o ministro da Defesa, Peter Struck, afirmou que a segurança da
Alemanha também é defendida [nas montanhas do] Hindukusch confirmou o
alargamento do parâmetro de atuação da Bundeswehr em missões militares
internacionais segundo o qual as ameaças terroristas deviam ser combatidas na
fonte e não apenas em território da NATO, devendo a Alemanha envolver-se em
missões que impliquem o envio de tropas da Bundeswehr para fora do território
da NATO28. A frase de Struck sinalizava que quando interesses nacionais alemães
estavam em causa, a tradicional cultura da relutência deixava de ter lógica
de aplicação. Esta frase, repetida inúmeras vezes no discurso político, marcou
a necessidade para a saída do cocoon de segurança que construía a
argumentação apenas em torno da segurança da Alemanha no espaço da Aliança
Atlântica e não em função dos interesses de segurança alemães e do contributo
como exportador de segurança. Se o Kosovo mostrara que a Alemanha tinha que
pensar geograficamente até aos Balcãs, a intervenção no Afeganistão obrigava os
alemães a pensarem estrategicamente em termos globais.
Antecipando críticas da oposição política, dos media e da opinião pública, o
ministro da Defesa sublinhava, no entanto, que
«este conceito ampliado de defesa não significa que a Alemanha e a
Bundeswehr devem participar em todas as operações internacionais.
Cada uma das operações será ainda sujeita a um exame minucioso.
Continua a ser um facto indiscutível que a nossa responsabilidade
para manter a paz é condicionada pela nossa capacidade de assumi-la.
Isso vai obrigar-nos ainda mais a evitar enviar as nossas forças para
demasiadas missões ao mesmo tempo.»29
Cada nova operação militar da ONU, da NATO ou da PCSD/UE continuaria sujeita ao
controlo parlamentar. Esta rejeição de estar «em todos os lugares e a qualquer
hora», como dizia Struck, serviu também para justificar o não envolvimento da
Alemanha no Iraque. Assim, apesar do envolvimento alemão, a condução militar da
operação da Bundeswehr no Afeganistão foi condicionada pela existência de pelo
menos três caveats(ressalvas): as tropas atuavam apenas nas operações da ISAF
no Norte do território e em Cabul, o recurso à força por parte dos soldados
alemães apenas podia ocorrer segundo um princípio de proporcionalidade num
sentido muito restrito e a Bundeswehr não participava ativamente na luta contra
a droga30. Devido à pressão de vários parceiros da NATO para a redução dos
caveats, a Alemanha aumentou, de forma pouco significativa, a participação
alemã: em 2006, o Bundestag aumentou o número de tropas em 500 soldados,
necessários ao estacionamento de Tornadosutilizados em voos de reconhecimento.
No verão de 2008, soldados alemães substituíram um grupo norueguês de
intervenção rápida para proteção dos Provincial Reconstruction Teams (PRT) no
Comando Regional do Norte. Isto não significou uma alteração do mandato, mas
introduziu uma nova qualidade na natureza da operação, aproximando a missão
alemã de uma missão de combate para proteção das medidas de reconstrução civil.
Ainda assim, a participação da Bundeswehr no Afeganistão era tratada
internamente apenas como um esforço de estabilização e reconstrução do país. Os
políticos alemães evitavam falar nos riscos de combate, por receio da reação da
opinião pública alemã, cada vez mais cética e continuamente favorável à
imediata saída das tropas do país. Esta posição reforçou-se após o episódio de
Kunduz, a 4 de setembro de 2009. O desvio de dois tanques cisterna pelos
Taleban fez com que a missão alemã ordenasse uma operação de bombardeamento
levada a cabo por dois aviões da força aérea norte-americana tendo daí
resultado a morte de quase uma centena de civis afegãos. Até então, tanto a
chanceler Merkel como o seu ministro da Defesa na altura, Franz-Josef Jung,
tinham evitado falar numa guerra caracterizando a presença alemã na ISAF como
«missão de estabilização» e não como uma missão de combate. A morte de soldados
alemães, quando ocorria, era transmitida como consequência infeliz do esforço
de reconstrução pós-conflito alemão no Afeganistão e não como consequência do
envolvimento da Bundeswehr numa guerra. Após o episódio de Kunduz ' que
provocou a demissão do ministro da Defesa ' tornou-se evidente que a presença
alemã no Afeganistão era mais do que uma mera operação de estabilização e
manutenção de paz31. Apesar de a elite política em Berlim permanecer largamente
favorável à manutenção do compromisso da Aliança, a opinião pública alemã era
menos favorável. Numa sondagem de abril de 2010 responderam à pergunta «Deve a
Bundeswehr permanecer no Afeganistão ou ser retirada o mais rapidamente
possível?», 70 por cento colocaram-se a favor da retirada imediata, e apenas 26
por cento defenderam a continuidade da presença militar alemã. Em setembro de
2011, 66 por cento apoiavam a retirada imediata e 32 por cento eram contrários
a uma retirada imediata32.
O sucessor de Franz-Josef Jung, Karl-Theodor zu Guttenberg, foi o primeiro
ministro da Defesa alemão a falar na participação da Bundeswehr no Afeganistão
como envolvimento numa guerra. Na primeira entrevista que deu enquanto
ministro, em novembro de 2009, Zu Guttenberg foi claro na abordagem da questão:
as tropas da Bundeswehr estão numa missão de combate, e participam numa
«situação parecida a uma guerra» (kriegsähnlichen Zuständen)33. Zu Guttenberg
quebrou assim o tabu quanto à verdadeira natureza da missão da NATO e da
Alemanha: até então a palavra «guerra» não fora utilizada para descrever o
envolvimento de soldados alemães em missões internacionais. Num discurso, em
Washington, a 19 de novembro de 2009, Zu Guttenberg sublinhou que «O que até
agora é ainda excecional ' as operações militares alemãs ' tem de tornar-se
mais comum e tem por isso de ter maior aceitação [ ] por isso tentei encontrar
uma nova linguagem que é direta, clara e que tenta descrever o que eu considero
ser a realidade»34. Contudo, o Governo alemão, em conjunto com a ISAF, já
estava a preparar o início da retirada das forças alemãs do Afeganistão.
Em visita a Cabul, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Guido Westerwelle,
anunciou, a 19 de novembro de 2009, no mesmo dia em que Zu Guttenberg falava em
Washington, uma exit-strategy,ou seja, o início de uma estratégia de saída da
Alemanha do Afeganistão, realizada de acordo com a missão ISAF e em conjunto
com os aliados da NATO, o que correspondia a uma estratégia de «afeganização»
na política de segurança alemã para o Afeganistão35. A concretização da
estratégia de saída, até finais de 2014, pressupunha um aumento inicial do
número de soldados: na sequência do anúncio do aumento de tropas norte-
americanas para o Afeganistão, pela nova Administração norte-americana de
Barack Obama, em inícios de dezembro de 2009, a Alemanha, como terceira maior
força no Afeganistão, enviou, no entanto, apenas mais 850 homens. Esta decisão
de, temporariamente, aumentar o número de soldados deveu-se mais à pressão
norte-americana do que por convicção, já que parte da elite política, assim
como uma ampla maioria da opinião pública alemã estava desejosa de retirar a
Bundeswehr do Afeganistão. Em inícios de outubro de 2013, a Bundeswehr, que
ainda mantém cerca de 3100 soldados no Afeganistão, retirou-se do comando
regional norte, em Kunduz, transferindo o comando para as forças nacionais
afegãs. Na cerimónia de despedida, em Kunduz, o ministro da Defesa, Thomas de
Maizière, afirmou que a missão no Afeganistão foi um ponto de viragem para a
Bundeswehr e toda a sociedade alemã. «Kunduz é para nós o lugar onde a
Bundeswehr lutou pela primeira vez, teve de aprender a lutar»36. A participação
no Kosovo (onde a Alemanha liderou a força kfor da nato nos últimos quatro
anos, até setembro de 2013) e no Afeganistão, assim como no combate à pirataria
nas costas da Somália (operação «PCSD Atalanta», desde 2008) demonstram que
nestes casos a Alemanha segue uma política de segurança em estreita cooperação
com os seus parceiros(o quadro_1 apresenta as atuais missões em curso da
Bundeswehr). Em contrapartida, os casos do Iraque e da Líbia revelam as
reservas que Berlim tem face a algumas das intervenções internacionais
lideradas pelo Ocidente.
Alemanha entre a Oposição e a Abstenção: os casos do Iraque e da Líbia
A intervenção militar no Iraque liderada pelos Estados Unidos, entre 2003 e
2010, representou para o Governo de Gerhard Schröder e Joschka Fischer um
desafio à definição alemã de ameaça internacional, de aliança e solidariedade
transatlânticas. A oposição de Berlim a Washington no duplo «não» à
participação da Alemanha numa guerra contra o Iraque ' com ou sem mandato da
ONU ' marcou uma cesura importante no relacionamento bilateral
transatlântico37. «I am not convinced» foram as palavras de Joschka Fischer ao
secretário da Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, na Conferência de
Segurança de Munique em 2003, ao argumentar que não existiam provas credíveis
da existência de armas de destruição maciça em território iraquiano38. Para
além da oposição aberta a Washington, Berlim tentou criar um eixo continental
europeu, o eixo da paz com a França e com a Rússia, para contrabalançar os
Estados Unidos39. A Alemanha liderou um duplo processo de emancipação dos
Estados Unidos e na sua política externa e contribuiu para a maior crise
transatlântica desde a criação da aliança.
Esta emancipação não correspondeu, no entanto, a uma definição clara dos
interesses estratégicos do que a Alemanha seria a favor, mas antes aquilo a que
Berlim se opunha. Mais do que ter constituído o resultado de uma crescente
autoconfiança europeia40, ou ter sido um caso excecional da política de
segurança alemã face aos Estados Unidos41, tratou-se de um ato de emancipação
da Alemanha de Schröder. A participação num crescente número de operações da
NATO, ONU ou da PESD/PCSD deveria servir de instrumento para consolidar a nova
posição da Alemanha na política internacional e reivindicar junto dos Estados
Unidos e dos parceiros europeus um maior direito de consulta na NATO. Nessa
perspetiva, a recusa alemã em participar na guerra contra o Iraque inseria-se
na reivindicação de uma maior paridade de poder entre os parceiros
transatlânticos, que possibilitasse também uma discordância com uma opção
política dos Estados Unidos. Apesar da gravidade da crise transatlântica, e das
consequências que ela teve no relacionamento transatlântico e intraeuropeu, a
Alemanha dos subsequentes governos de coligação da chanceler Merkel identificou
a relação bilateral americano-alemã como prioritária para Berlim, assim como a
NATO como instituição de consulta e cooperação transatlântica, mesmo que isto
não anulasse a persistência de divergências quanto à intervenção no
Afeganistão, ao alargamento da NATO, ao projeto de defesa antimíssil e a
identificação de novas ameaças e medidas para as combater.
Que o uso da força militar continua um tema problemático verificou-se também em
março de 2011, quando a Alemanha, presente na altura como membro não permanente
do Conselho de Segurança das Nações Unidas, absteve-se na votação da Resolução
1973, a 17 de março, no CSNU, sobre a aplicação de uma zona de exclusão aérea
da NATO sobre a Líbia. A abstenção resultou de uma análise divergente que
Berlim fez da aplicação de uma zona de exclusão aérea decretada pela NATO e que
levou a França e o Reino Unido a intervirem militarmente na operação aérea
«Unified Protetor» para deposição do líder líbio Muamar al-Khadafi42. Os
Estados Unidos, que se mantiveram reticentes quanto à intervenção mudaram de
postura poucas horas antes da votação. A Alemanha, que se posicionara ao lado
dos Estados Unidos, não seguiu Washington na mudança de posição, e acabou por
encontrar-se ao lado das abstenções da Rússia, China, Índia e Brasil, os
restantes quatro países que se abstiveram43.
No discurso perante o Bundestag, aplaudido na altura por todo o espectro
político parlamentar, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Guido Westerwelle,
afirmou que após «avaliação dos perigos e riscos militares consideráveis» o
Governo chegou à conclusão «lógica» de que não iria enviar soldados alemães
para uma «missão de combate na Líbia»44. Numa entrevista a um jornal alemão, o
ministro da Defesa, Thomas de Maizière, justificou a posição alemã da seguinte
forma:
«Quem fez campanha para a missão na Líbia? Nem um único soldado. Isso
geralmente é um desenvolvimento que me preocupa: o uso de soldados em
todo o mundo é cada vez mais exigido não por soldados, ou políticos,
mas por organizações de direitos humanos. E isso pode sobrecarregar
os nossos soldados. Em geral, é preciso manter em aberto a
possibilidade de uma ação militar numa base ampla. Mas ao mesmo tempo
deve-se considerar em cada caso o que é justificável e apropriado. Na
Líbia, na nossa opinião, não foi esse o caso.»45
À luz da necessidade da NATO atuar como uma instituição de defesa coletiva que
combate ameaças através de uma estratégia conjunta como uma estratégia de
intervenção aérea, com um mandato limitado (no boots on the ground) das Nações
Unidas (se bem que aberto a interpretações diferentes) a decisão alemã foi uma
decisão unilateral e reveladora de um fraco pensamento estratégico. Perante a
incerteza do sucesso da operação a Alemanha preferiu manter-se alheia. Isto não
revela uma estratégia de segurança de uma grande potência. O argumento do
ministro dos Negócios Estrangeiros, de que o objetivo de uma intervenção
militar da NATO na Líbia deveria limitar-se a uma intervenção humanitária e não
incluir a mudança de regime político em Trípoli não parece convincente. Tendo
em conta que a Alemanha não tinha uma justificação consistente para a abstenção
' semelhante à justificação alemã de opor-se aos Estados Unidos na guerra do
Iraque baseada em relatórios científicos que revelavam a inexistência de armas
de destruição maciça, não é claro que a Alemanha teria participado numa
intervenção se esta se tivesse limitado a uma intervenção humanitária.
A posição da Alemanha foi duramente criticada pelos seus parceiros, mesmo que
os decisores políticos dos Estados Unidos, França e Reino Unido tentassem
desdramatizar o voto46. A abstenção, preferida em vez de um voto a favor com a
declaração de não intenção de envio de tropas alemãs, posição que aliás foi
assumida por Portugal, foi vista, para uns, como um sinal contrário à
solidariedade entre os membros da Aliança Atlântica, de ingratidão e de
imprevisibilidade, se não mesmo de isolamento da Alemanha no sistema
internacional. Para outros, a abstenção foi vista como característica da nova
imagem da Alemanha, «um país que se recusa a agir como um parceiro assertivo na
política de segurança internacional mesmo quando isto implica grandes riscos
militares e morais»; consequentemente a Alemanha já não podia ser considerada
«um aliado completamente fiável»47. As sondagens à opinião pública revelavam
uma predisposição para uma intervenção da NATO. Em 8-9 de março de 2011,
responderam à pergunta «Deve a NATO, ao serviço da ONU, atuar contra o regime
de al-Khadafi ou deixar a resolução da guerra civil aos líbios?». Cinquenta e
quatro por cento responderam favoravelmente, enquanto 40 por cento se opunham a
uma intervenção da NATO48. Mais decisivo era que 59 por cento consideravam que
a Alemanha, contudo, não deveria participar49.
A opinião pública alemã permanece assim avessa não necessariamente à política
de intervenções militares internacionais, mas apenas ao envolvimento militar
internacional do seu país. Concebe-o, em teoria, nas situações de defesa do
território, e no exterior, em situações de estabilização ou manutenção de paz '
que são analisadas caso a caso, com ceticismo quanto aos objetivos e
instrumentos. A imposição da paz é vista com menos entusiasmo. A ameaça do
terrorismo, no exterior, também é percecionada de forma diferente da dos
parceiros europeus. Enquanto a França, por exemplo, decidiu, em janeiro de
2013, enviar unilateralmente uma força para o Mali, para combater a ameaça do
terrorismo islâmico no Norte de África e evitar a instalação de um governo de
radicalismo islâmico em Bamaco, a Alemanha limitou-se a participar com o envio
de dois aviões Transall. Por outras palavras, a perceção das ameaças assim como
a importância da definição clara de interesses estratégicos europeus e
transatlânticos e globais detêm junto da opinião pública alemã mas também junto
dos decisores políticos alemães ' no Governo ou na oposição ' um significado
qualitativamente inferior ao dos parceiros da Alemanha.
No decorrer dos doze anos que medeiam as intervenções internacionais no Kosovo
e na Líbia, o que se verifica é uma lógica alemã quase inversa à do Kosovo:
agora, mesmo missões militares motivadas por razões humanitárias podem ser
insuficientes para garantir uma participação alemã, como o caso da Líbia
demonstrou. Nesse sentido, a participação alemã na missão da NATO no Kosovo e a
operação da ISAF da NATO no Afeganistão acabarão por ser a exceção à regra. Uma
mudança de atitude não ocorreu, e pouco após a intervenção no Kosovo voltou a
prevalecer no discurso securitário alemão a tendência para uma posição
reservada quanto às intervenções50. Por outro lado, o fim do serviço militar
obrigatório, que entrou em vigor a 1 de julho de 2011, criou um contexto
favorável a esse debate, que, no entanto, não ocorreu.
A 27 de maio de 2011 o Ministério da Defesa de Thomas de Maizière publicou uma
nova revisão das «Verteidigungspolitische Richtlinien» da política de segurança
e defesa da Alemanha. Deste documento consta um alargamento conceptual quanto
às futuras intervenções militares internacionais decididas pela Alemanha:
«desenvolvimentos nas regiões periféricas da Europa e fora do espaço de
segurança e estabilidade europeu podem afetar diretamente a segurança da
Alemanha»51. Segundo o novo critério, as futuras intervenções devem ser
decididas já não apenas por critérios exclusivamente nacionais, mas serem
justificáveis também por questões de responsabilidade internacional. Como
afirmou De Maizière, «há missões que são justificáveis mesmo quando os
interesses nacionais imediatos não são afetados»52. À semelhança do Presidente
Köhler, também De Maiziére referiu-se à proteção de rotas comerciais
internacionais, e do documento consta que: «possibilitar o comércio mundial
livre e irrestrito, bem como o acesso livre ao alto mar e aos recursos
naturais» faz parte dos interesses de segurança alemães53. Quanto ao número de
tropas, o documento previa a disponibilização de dez mil e não apenas sete mil
soldados para operações, com o objetivo de desenvolver a capacidade para gerir
duas operações grandes em simultâneo ou até seis pequenas operações. Estas
«linhas de orientação» foram publicadas dois meses após a abstenção da Alemanha
na Líbia. No discurso de apresentação do documento perante o Bundestag, o
ministro da Defesa explicou a posição alemã:
«As operações militares têm consequências de longo alcance, mesmo
politicamente. Isto deve ser considerado antes de cada operação. Além
disso, deve-se considerar o propósito da intervenção. Portanto, em
cada caso, é necessário obter uma resposta clara à pergunta sobre que
interesses alemães diretos ou indiretos estão envolvidos assim como
qual é a perceção da responsabilidade internacional que cada
intervenção requer e justifica, mas também avaliar as consequências
de uma decisão de não participar numa intervenção. Continuamos
cautelosos e responsáveis ' em qualquer direção.»54
Esta postura assertiva do ministro da Defesa não era, no entanto, partilhada
pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Guido Westerwelle era defensor de uma
cultura da limitação ou constrangimento militar, como ficou patente nas
questões da Líbia e da Síria, e nas operações de que a Alemanha fazia parte,
isto acontecia muitas vezes após pressão dos aliados, para participarem e para
aumentarem o número das tropas. Isto revela uma ausência de consenso
estratégico entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério da
Defesa, evidenciada nas operações militares que aqui foram analisadas.
A nova orientação estratégica da Alemanha fez crer que a «normalização» da
política externa da Alemanha ' o fim dos constrangimentos normativos da Guerra
Fria e a consolidação da Alemanha enquanto potência europeia, como a França ou
o Reino Unido, que recorreria à força militar de forma semelhante à dos seus
parceiros europeus ' tinha encontrado o seu culminar no domínio da intervenção
militar e que a partir daí a Alemanha iria participar regularmente com os seus
parceiros europeus em ações semelhantes. Mas nem da operação no Kosovo nem da
operação no Afeganistão emergiu uma estratégia de segurança nacional, ou um
debate profundo sobre os interesses estratégicos da Alemanha na segurança
internacional ou a definição de uma linha de atuação futura. Enquanto houve a
«normalização das expectativas» dos parceiros da Alemanha, ocorreu apenas
parcialmente a «normalização do cumprimento» dessas expectativas por parte de
Berlim. Por outro lado, a opinião pública alemã mantém-se cética quanto ao
envio de tropas alemãs para locais de combate ou missões humanitárias ou de
reconstrução pós-conflito e, após treze anos de presença da Bundeswehr no
Afeganistão, esta postura tenderá a acentuar-se. Por isso, o recurso a
intervenções militares internacionais, de natureza humanitária,
responsabilidade de proteger, missões de estabilização e operações de
manutenção e imposição da paz, e menos ainda missões de combate, não são
(ainda) um instrumento «normal» da política de segurança alemã. No palco
internacional, a Alemanha continua assim a não exercer uma política de
segurança «normalizada», o que a ampliação da sua margem de manobra política
assim como a sua capacidade económica e o seu multilateralismo institucional
poderiam, sem grandes dificuldades, ter permitido nas duas décadas após a
unificação. A relutância alemã em envolver-se em opções militares ' veja-se os
casos da Líbia, Mali e Síria ' é para os parceiros da Alemanha um sinal da
crescente imprevisibilidade da política de segurança de Berlim.
Considerações Finais
Depois do entusiasmo inicial da comunidade internacional com as intervenções
humanitárias militares internacionais nas décadas de 1990 e 2000, os estados
ocidentais têm vindo a consciencializar-se de que as consequências de tais
intervenções são de longa duração, envolvendo-os em situações de pós-conflito
complexas, bem como levantam questões de princípio no sistema internacional.
Não há garantias de que os esforços internacionais de estabilização possam
perpetuar a paz no local. A instabilidade causada pela proclamação da
independência do Kosovo, em 17 de fevereiro de 2008, na Sérvia e no Kosovo,
revelou as dificuldades de uma missão de dez anos de imposição da paz. A
instabilidade que persiste na Líbia após a recente operação «Unified Protetor»
estava na mente dos decisores políticos no debate em curso, no verão de 2013,
sobre a hipótese de uma intervenção militar na Síria. O fim da missão ISAF no
Afeganistão, em 2014, sugere que, apesar dos compromissos quanto à permanência
de um nexo securitário com o Afeganistão ' ao qual a Alemanha já se comprometeu
com 800 tropas ' a estabilização e pacificação permanente do país não é uma
consequência garantida da prolongada intervenção militar internacional.
A Alemanha é ainda um país com pouca experiência política no palco mundial
enquanto nação democrática. As mudanças decisivas na política externa alemã a
que temos assistido nos últimos vinte e três anos sempre provocaram ansiedade
na elite política alemã e não foram adotadas de forma consensual. Por razões de
constrangimento histórico, a elite política alemã tem dificuldade em seguir uma
política internacional de grande potência, como a maioria dos estados vizinhos
e parceiros esperam. Assim, os governos alemães presentes e futuros enfrentam o
dilema de conciliar duas posições contraditórias. Por um lado, a predisposição
para continuar o envolvimento em operações militares internacionais é
suscetível de diminuir, dado o ceticismo da opinião pública em canalizar
recursos para essas operações e a impopularidade do uso da força, com a elite
política em dificuldades para justificar as operações de combate e as mortes de
soldados da Bundeswehr ao público alemão. Por outro lado, os governos de
Gerhard Schröder e de Angela Merkel deram início a uma abordagem mais
utilitária da política externa e de segurança alemãs e é improvável que
sucessivos governos adotem uma postura menos assertiva. Mas, para continuar a
ser um jogador relevante na política internacional, a Alemanha terá de
permanecer comprometida com a projeção da paz e da estabilidade no exterior e
manter o seu envolvimento nas operações da UE, da ONU, e da NATO se pretender
afirmar-se como parceiro credível e previsível.
A política de segurança não reflete o potencial político ou económico acrescido
da Alemanha. As decisões são reativas ou tomadas a reboque das decisões dos
seus parceiros ou em antagonismo com estas. A Alemanha mantém-se refém de uma
cultura estratégica relutante, com aversão ao uso da força militar revelando
falta de maturidade estratégica, o que se vai tornar problemático numa altura
onde os desafios na Europa vão aumentar e não diminuir. Do contínuo
relacionamento problemático da Alemanha em envolver-se em missões militares
internacionais resultam duas implicações paradoxais, a primeira relacionada com
o papel da Alemanha na PCSD, a segunda com o papel da Alemanha na NATO. No que
se refere à UE e à PCSD, a Alemanha espera que a PCSD venha a desempenhar um
papel mais decisivo, onde os interesses e as responsabilidades da Alemanha
venham a ser aninhados. Contudo, ao mesmo tempo que espera este novo papel da
UE, pouco tem contribuído para o desenvolvimento da PCSD, deixando o
protagonismo à França e à Grã-Bretanha, ao ponto de estes terem, através da
cooperação bilateral, e fora do contexto da PCSD, assinado os Acordos de
Lancaster House, em novembro de 2010, sobre a cooperação nas políticas de
defesa e segurança. Num contexto mais amplo, as debilidades da PCSD não se
devem apenas à falta de convergência estratégica entre os três grandes
europeus, mas repousam no facto de a maior parte das operações civis e
militares da PCSD serem missões mais pequenas e muitas vezes simbólicas, com
falta de capacidades estratégicas e não poderem constituir uma alternativa às
operações militares da NATO de maior envergadura. Numa altura em que os EUA se
estão a reposicionar estrategicamente para o palco asiático, a Grã-Bretanha tem
sérias dúvidas existenciais quanto ao seu papel na Europa e a França se
encontra economicamente e estruturalmente enfraquecida, é do interesse dos
países europeus conceberem um novo relacionamento entre a NATO e a PCSD e
reforçarem a aliança com os EUA. Inevitavelmente, cabe aqui à Alemanha um
papel-chave, que ela até agora não tem exercido. Num clima em que muitos
criticam que a política alemã está a tornar-se mais unilateralista, menos
europeísta, mais intergovernamental e mais defensora dos interesses
especificamente alemães, a Alemanha devia ter a consciência de que pode liderar
de forma multilateralista e responsável ' o que tem de incluir o campo da
política de segurança, assente numa conceção de estratégia correspondente às
potencialidades e ao poder da Alemanha.
Data de receção: 21 de junho de 2013 | Data de aprovação: 18 de outubro de 2013
Notas
1
A expressão Kultur der Zurückhaltungé por vezes traduzida por «cultura da
relutância». Na realidade, Zurückhaltungé traduzido de forma mais correta por
discrição ou moderação. A expressão Kultur der Zurückhaltungfoi primeiro
desenvolvida por políticos alemães, que não iriam optar por falarem numa
relutância alemã quanto ao uso da força em intervenções militares
internacionais. Na prática, contudo, o que os atores políticos intitulam de
«cultura de discrição» é visto criticamente como uma relutância em recorrer à
força militar.
2
KUNDNANI, Hans ' «Germany as a geo-economic power». In Washington Quarterly.
Vol. 34, N.º 3, 2011, pp. 31-45. Disponível em: http://www.twq.com/11summer/
docs/11summer_Kund-nani.pdf
3
Sobre o conceito de «potência civil», cf. MAULL, Hanns W. ' «Germany and Japan:
the new civilian powers». In Foreign Affairs. Vol. 69, N.º 5, 1990, pp. 91-106; HARNISCH, Sebastian e MAULL, Hanns W.' Germany as a Civilian
Power? The Foreign Policy of the Berlin Republic. Manchester: Manchester
University Press, 2001.
4
Sobre o conceito de «poder normative» da Alemanha, cf. Daehnhardt, Patrícia '
«The continuous recovery of power: Germany as a European great power in the
post-Cold War World», IPRI ' UNL Working Paper n.º 28, 4 de junho de 2007.
Disponível em: http://www.ipri.pt/publicacoes/working_paper/
working_paper.php?idp=120; CRAWFORD, Beverly ' «The normative
power of a normal state: power and revolutionary vision in Germany's post-Wall
Foreign Policy». In German Politics and Society, Issue 95, Vol. 28, N.º 2,
2010.
5
«Das böse Wort vom Wirtschaftskrieg». In Frankfurter Rundschau, 27 de maio de
2010. Disponível em: http://www.fr-online.de/politik/aerger-um-koehler--
aeusserungen-das-boese-wort-vom-wirtschaftskrieg,1472596,4436262.html
6
Discurso do embaixador Peter Wittig on the Question of Equitable Representation
on and Increase in the Membership of the Security Council and other Matters
related to the Security Council, Nova York, 21 de outubro de 2010.
7
Disponível em: http://www.dradio.de/dlf/sendungen/interview_dlf/1294627/, 13 de
outubro de 2010.
8
Entrevista a Klaus Kinkel ' Mitteldeutsche Zeitung, 12 de outubro de 2010.
Disponível em: http://www.mz-web.de/servlet/ContentServer?pagename=ksta/
page&atype=ksArtikel&aid=1286541132293&calledPageId=987490165154
9
«Wir sind bekannt für unsere Zuverlässigkeit». Entrevista a Guido Westerwelle
ao Deutschlandfunk, 13 de outubro de 2010. Disponível em: http://www.dradio.de/
dlf/sendungen/interview_dlf/1294627/
10
Cf. MISKIMMON, Alister ' «German foreign policy and the Libya crisis». In
German Politics. Vol. 21, N.º 4, 2012, pp. 392 -410.
11
DAEHNHARDT, Patricia ' «O fim da Guerra Fria e a unificação alemã». In Relações
Internacionais. N.º 23, setembro de 2009, pp. 39-52.
12
Sperling, James ' «Germany and European security governance: how well does the
Birmingham model perform?». In European Security,Vol. 18, N.º 2, junho de 2009,
pp. 125-150.
13
HYDE-PRICE, Adrian ' Germany and European Order: Enlarging NATO and the
EU.Manchester: Manchester University Press, 2000, pp. 144-145.
14
As operações adotadas pelas forças armadas alemãs do Governo Federal,
pressupõem um mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas e encontr am u
m f u n d am ent o ju r ídic o--constitucional no artigo 24.º n.º 2 da Lei
Básica, que autoriza o governo federal a atuar num sistema de segurança
coletiva mútua.
15
«Bundestag beschließt Entsendegesetz». In Süddeutsche Zeitung,3 de dezembro de
2004. Disponível em: http://www.sueddeutsche.de/deutschland/arti-kel/123/44079/
16
Stockholm International Peace Research Institute (sipri). Disponível em: http:/
/www.sipri.org/research/armaments/milex/milex_database
17
PHILIPPI, Nina ' «Civilian Power and war: The German debate about out-of--area
Operations 1990-99». In Harnisch,Sebastian, e Maull,Hanns (eds.) ' Germany as a
Civilian Power? The Foreign Policy of the Berlin Republic. Manchester:
Manchester University Press, 2001, p. 63.
18
Cf. FISCHER, Joschka ' Die rot-grünen Jahre. Deutsche Aussenpolitik ' vom
Kosovo bis zum 11. September.Colónia: Kiepenheuer & Witsch, 2007, pp. 161-
251.
19
HILL, Christopher ' The Changing Politics of Foreign Policy. Hampshire:
Palgrave Macmillan, 2003, p. 238.
20
Discurso do chanceler Schröder perante o Bundestag sobre a situação no Kosovo,
15 de abril de 1999, Plenarprotokoll 14/32.
21
Cf. ARORA, Chaya ' Civilian Power Diplomacy: NATO Expansion and the Art of
Communicative Action. Nova York: Palgrave Macmillan, 2006, pp. 25-34.
22
Contudo, dois meses antes do início da intervenção, Kofi Annan, secretário-
geral das Nações Unidas, esclareceu que apesar da provável ausência de um
mandato da ONU intervenção seria vista como legítima pela comunidade
internacional e não rejeitou explicitamente o uso da força: «The bloody wars of
the last decade have left us with no illusions about the difficulty of halting
internal conflicts ' by reason or by force ' particularly against the wishes of
the government of a sovereign state. But nor have they left us with any
illusions about the need to use force, when all other means have failed. We may
be reaching that limit, once again, in the former Yugoslavia». Discurso de Kofi
A nnan, secretário-geral das Nações Unidas ao North Atlantic Council, NATO
Headquarters, 28 de janeiro de 1999. Disponível em: http://www.nato.int/docu/
speech/1999/s990128a.htm
23
Em 5 de junho de 1999, o Conselho de Segurança adotou a Resolução 1244 que pôs
fim à operação da NATO. Em 6 de junho de 1999, o Bundestag aprovou a
participação Bundeswehr na KFOR, força da NATO para a estabilização do Kosovo,
num contingente multinacional composto por 8500 soldados.
24
Ver o discurso de Joschka Fischer perante o Bundestag sobre o Pacto de
Estabilidade do Sudeste Europeu, 27 de janeiro de 2000. Disponível em: http://
www.auswaertiges-amt.de/6%5Farchiv/2/r/r000127a.htm
25
ISCHIBGER, Wolfgang ' «Keine Sommerpause der deutschen Außenpolitik.
Zwischenbilanz nach dem Kosovo-Krieg». In Internationale Politik. n.º 10, 1999,
pp. 59 -63.
26
Em 13 de junho de 2013 o Bundestag renovou o mandato da Bundeswehr na kforpor
mais um ano. A Alemanha tem. O maior contingente no Kosovo, com 700 soldados da
Bundeswehr na missão de manutenção da paz e estabilidade na região e de apoio
ao desenvolvimento de estruturas de segurança democráticas e multiétnicas, em
cooperação com as autoridades locais e organizações internacionais.
27
Plenarprotokoll 14/202, Deutscher Bundestag, 16 de novembro de 2001. A CDU/CSU
e a FDP indicaram antes da votação que, apesar de serem favoráveis à
participação militar da Alemanha no Afeganistão, iriam votar contra se o
chanceler ligasse a votação sobre a intervenção a um voto de confiança sobre o
seu governo, o que veio a acontecer.
28
Citado em Der Spiegel, 5 de dezembro de 2002. Disponível em: http://
www.spiegel.de/politik/deutschland/bundeswehrreform-struck-bastelt-an-eigenen-
schulterklappen-a225810.html
29
Discurso proferido por Peter Struck, na conferência «Impulse 21 ' Berlin Forum
on Security Policy», Berlim, 23 de junho de 2003.
30
NOETZEL, Timo, e ZAPFE, Martin ' «Aufstandsbekämpfung als Auftrag. Instrumente
und Planungsstruktures für den ISAF-Einsatz». SWP Studie S 13. Berlim: Stiftung
Wissenschaft und Politik, 2008, p. 16.
31
DEMPSEY, Judy ' «Pressure builds on Merkel and Defense Minister Over NATO
bombing». In The New York Times,16 de dezembro de 2009. Disponível em: http://
www.nytimes.com/2009/12/16/world/europe/16iht-germany.html
32
Disponível, respetivamente, em: http://www.infratest-dimap.de/de/umfragen-
analysen/bundesweit/umfra-gen/aktuell/sieben-von-zehn-deutschen--fuer-einen-
schnellstmoeglichen-abzug--der-bundeswehr-aus-afghanistan/; http://
www.infratest-dimap.de/umfragen-analysen/bundesweit/umfra-gen/aktuell/
afghanistan-einsatz-der--bundeswehr-mehrheit-fuer-sofortigen--abzug-der-
deutschen-soldaten/
33
«Kriegsähnliche Zustände». In Frankfurter Allgemeine Zeitung, 3 de novembro de
2009. Disponível em: http://www.faz.net/aktuell/politik/inland/afghanistan--
einsatz-guttenberg-kriegsaehnliche--zustaende1883496.html
34
Discurso de Karl Theodor zu Guttenberg, «The future of the transatlantic
relationship», no Center for Strategic and International, Washington DC, em 19
de novembro de 2009. Disponível em: http://csis.org/files/attachments/
091120_zuguttenberg.pdf
35
Esta estratégia de «afeganização» assentava nos seguintes pressupostos.
Primeiro, o comprehensive approach:por um lado, o conceito vernetzte Sicherheit
(networked security,segurança interligada) assenta na interligação entre a
componente militar e a componente civil no Afeganistão (peace-making, state-
building e good governance) e orienta a estratégia do novo governo para o
Afeganistão; por outro, a regionalização, ou seja, a cooperação com os países
vizinhos na Ásia Central, o Paquistão, o Irão e a Índia que deverão ser mais
incluídos na estratégia. Segundo, a self-sustaining security: transferência
gradual da responsabilidade e gestão da segurança para as forças militares e
policiais afegãs.
36
«Abzug aus Afghanistan: Deutsche übergeben Camp Kunduz». In Der Spiegel,6 de
outubro de 2013. Disponível em: http://www.spiegel.de/politik/ausland/
afghanistan-de-maiziere-und--westerwelle-uebergeben-camp--kunduz-a926300.html
37
Cf. DALGAARD-NIELSEN, Anja ' «Gulf War: the German resistance». In Survival.
Vol. 45, N.º 1, 2003, pp. 99-116; DETTKE, Dieter ' Germany
Says «No»: The Iraq War and the Future of German Foreign and Security Policy.
Washington, DC: Woodrow Wilson Center Press, 2009; Forsberg,
Tuomas ' «German foreign policy and the war on Iraq: anti-americanism, pacifism
or emancipation?». Security Dialogue. Vol. 36, N.º 2, 2005, pp. 213-231; LARRES, Klaus ' «Mutual incomprehension: U.S.--German value
gaps beyond Iraq». In Washington Quarterly. Vol. 26, N.º 2, 2003, pp. 23-42; MULLER, Harald ' «German national identity and WMD
proliferation». In The Nonproliferation Review. Vol. 10, N.º 2, 2003, pp. 1-20; NAU, Henry R. ' «Iraq and previous transatlantic crises.
Divided by threat, not institutions». In ANDERSON, Jeffrey, Ikenberry, G. John,
e Risse, Thomas (eds.) ' The End of the West? Crisis and Change in the Atlantic
Order. Ithaca, NY: Cornell University Press, 2008, pp. 82-110.
38
FISCHER, Joschka ' «I am not convinced». In Der Irak-Krieg und die rot-grünen
Jahre.Colónia: Kiepenheuer & Witsch, 2011.
39
Ver Declaração Conjunta da Rússia, Alemanha e França sobre o Iraque, 10 de
fevereiro de 2003. Disponível em: http://www.ambafrance-uk.org/Joint-
declaration-by-Russia
40
HEISBOURG, François ' «Von der Atlantischen Allianz zur europäisch--
amerikanischen Partnerschaft». In Aus Politik und Zeitgeschichte. N.º 38-39,
2005, pp. 3 -15.
41
HELLMANN, Gunther ' «Von Gipfelstürmernund Gratwanderern: Deutsche Wege'in der
Aussenpolitik». In Aus Politik und Zeitgeschichte. N.º 11, 2004, pp. 32-39; Maull, Hanns W. '«Normalisierung oder Auszehrung? Deutsche
Aussenpolitik im Wandel». In Aus Politik und Zeitgeschichte. N.º 11, 2004, pp.
17-23.
42
GOLER, Daniel, e Jopp, Matthias ' «L'Allemagne, la Libye et l'Union
Européenne». In Politique Étrangère. N.º 2, 2011, pp. 417-428.
43
UNSC Resolution 1973 (2011), 17 março 2011. http://daccess-dds-ny.un.org/doc/
UNDOC/GEN/N11/268/39/PDF/N1126839.pdf?OpenElement. Ver também Rousseau, Richard
' «Why Germany abstained on un resolution 1973 on Libya». In Foreign Policy
Journal, 22 de junho de 2011. Disponível em: http://www.foreign-
policyjournal.com/2011/06/22/why--germany-abstained-on-un--resolution1973-on-
libya/.
44
WESTERWELLE, Guido ' «Regierungserklärung von Bundesaußenminister Guido
Westerwelle zu den aktuellen Entwicklungen in Libyen». Plenarprotokoll 17/97,
18 de março de 2011, pp. 11137-11139.
45
Entrevista de DE MAIZIÈRE ao jornal Welt am Sonntag,22 de maio de 2011.
Disponível em: http://www.welt.de/print/wams/politik/article13386561/Wir--
Dienen-Deutschland.html
46
GOLER, Daniel ' «Die uropäische Union in der Libyen-Krise: Die responsibility
to protect als Herausforderung für die strategischen Kulturen in Europa». In
Integration, 2012. Disponível em: http://www.integration.nomos.de/fileadmin/
integration/doc/Aufsatz_integration_12_01.pdf
47
VINCOUR, John ' «Der falsche Instinkt der Angela Merkel». In Cicero, 28 de
abril de 2011. Disponível em: http://www.cicero.de/weltbühne/der-falsche-
instinkt-der-angela-merkel/41925?print
48
«NATO-Einsatz in Libyen», Disponível em: http://www.infratest-dimap.de/
umfragen-analysen/bundesweit/ard-deutschlandtrend/2011/maerz/
49
Disponível em: http://de.statista.com/statistik/daten/studie/182541/umfrage/
meinung-zur-enthaltung-deutschlands-im-libyen-konflikt/
50
BAUER, Thomas, e SEEGER, Sarah ' «Politische Kommunikation zwischen politischen
Eliten und Bevölkerung. Leitfaden für eine sicherheitspolitische Debatte in
Deutschland». In CAP: Centrum für Angewandte Politikforschung,2008.
51
Die Verteidigungspolitischen Richtlinien 2011, Defence Policy Guidelines.
Safeguarding National Interests ' Assuming International Responsibility '
Shaping Security Together, 27 de maio de 2011, p. 2.
52
Entrevista do ministro da Defesa, Thomas de Maizière, ao jornal Welt am
Sonntag, 22 de maio de 2011. Disponível em: http://www.welt.de/print/wams/
politik/article13386561/Wir-Dienen--Deutschland.html
53
Die Verteidigungspolitischen Richtlinien 2011, Defence Policy Guidelines.
Safeguarding National Interests ' Assuming International Responsibility '
Shaping Security Together,27 de maio de 2011, p. 5.
54
Plenarprotokoll 17/112, Deutscher Bundestag, 27 de maio de 2011, p. 12816.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt