«Democratização» e consolidação do poder político em Angola no pós-guerra
«Hoje, quando ouvem que vão haver eleições, as pessoas vão comprar sal. Porquê?
A última vez fugimos sem sal»3 «Votar significa mudar o rumo das coisas»4
Angola está a conseguir uma certa estabilidade após o conflito militar que
perdurou ao longo de quase trinta anos. No período posterior à independência,
dois movimentos de libertação ' o formalmente marxista, Movimento Popular para
a Libertação de Angola (MPLA), que representa o atual Governo de Angola, e o
grupo «rebelde» da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA)
' envolveram-se numa tremenda e quase ininterrupta luta pelo controlo do país.
A morte de Jonas Savimbi, líder da UNITA, pelas tropas governamentais em 2002,
abriu caminho para a assinatura de um «memorando de entendimento» entre as
partes implicadas no conflito, que proporcionou a tão almejada paz. Mas qual é
o verdadeiro significado desta paz? A vitória militar do MPLA deu descanso a
uma população profundamente dividida e extremamente afetada pela guerra,
vivendo num país devastado pelo conflito militar. País cuja economia é
totalmente dependente do petróleo, com um sistema governamental pouco
transparente e sem sentir necessidade de prestar contas5.
Entretanto, o fim da guerra fazia antever mudanças por que todos ansiavam. A
realização das eleições parlamentares em setembro de 2008 ' as primeiras desde
1992 ' poderia ser vista como um passo para o pluralismo democrático. Embora as
eleições tenham sido consideradas «credíveis e transparentes» pelas missões da
União Europeia e da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC),
a vitória do MPLA não foi uma surpresa6. Apesar da relativa tranquilidade e
ordem do processo, as condições para que as eleições fossem «livres e justas»
não foram criadas. O voto resultou na vitória esmagadora do partido do poder, o
MPLA, o qual obteve 191 dos 220 assentos parlamentares, com o total de 81,6 por
cento de votos. A UNITA, o antigo inimigo de guerra do MPLA e maior rival
eleitoral, falhou claramente na sua tentativa de se converter num partido
político capaz de representar uma alternativa possível ao MPLA, conseguindo
apenas 16 assentos no parlamento. Os restantes assentos foram divididos entre o
Partido de Renovação Social (PRS) ' oito assentos, a histórica Frente Nacional
para a Libertação de Angola (fnla) ' três assentos, e a coligação Nova
Democracia ' dois assentos7.
Tendo por base observações e entrevistas a representantes da sociedade civil
angolana, este artigo pretende demonstrar como o Governo angolano usou os
discursos de democratização predominantes para consolidar o seu poder,
controlando todos os aspetos da vida social, económica e política do país e
abrindo caminho para uma vitória eleitoral sem par. Sem a contestação de
opositores militares e políticos e apoiado pelas linhas de crédito da China
garantidas com petróleo, a posição do Presidente da República apresentou-se
mais forte do que nunca, não mostrando este qualquer intenção em deixar o
poder. A confirmação da sua posição através de eleições democráticas foi apenas
o último passo para o processo de consolidação da atual estrutura do poder em
Angola, que é predominantemente orientada pela presidência e resulta numa
distinção cada vez menos evidente entre o partido dominante, o Governo e o
Estado.
O artigo analisa o processo de registo eleitoral que se realizou entre novembro
de 2006 e setembro de 2008. O trabalho de campo foi realizado em março e agosto
de 2007, no contexto de uma tese de mestrado no Centro de Estudos Africanos da
Universidade de Basilea. O autor teve o privilégio de trabalhar com uma das
maiores organizações não governamentais (ong) angolanas e dessa forma teve
acesso a uma rede de organizações parceiras, tendo a investigação sido
realizada de forma independente, principalmente por intermédio de contactos com
organizações de cariz eclesiástico (Church-Based Organisations, CBO). A
investigação incluiu a observação participante das atividades das ONG e
entrevistas livres com interlocutores selecionados. Com a exceção de um dos
entrevistados, que na altura esteva a trabalhar para a administração
provincial, todos concordaram em revelar as suas identidades e a maioria das
declarações apresentadas neste artigo devem-se às suas contribuições diretas.
Decorrem desta estratégia duas limitações: em primeiro lugar, com a exceção do
entrevistado anónimo, houve pouco tempo ou oportunidade para entrar em contacto
com os funcionários administrativos ou estatais. Deste modo, muitas das
declarações são baseadas nas visões «políticas» das pessoas ativas em ONG e
igrejas mas não refletem necessariamente as opiniões dos funcionários públicos
ou «cidadãos comuns». Em segundo lugar é difícil transcender a dicotomia
Estado/sociedade, uma oposição que é claramente refletida e reforçada nas
declarações dos entrevistados.
O processo de registo eleitoral teve uma dinâmica própria e articulou um vasto
número de atores não estatais, assim como ONG angolanas, igrejas, organizações
de doadores internacionais e grupos de advocacia, cada qual a desempenhar um
papel no processo e a tentar influenciar o seu resultado. Concentrar o estudo
neste conjunto relativamente restrito de atores, permite-nos ter uma visão mais
próxima das interações que foram surgindo antes das eleições de 2008. As
eleições decorreram em arenas que são relevantes para o Estado e permitiram que
Angola entrasse em diálogo com o sistema internacional de estados-nação, que
postula a democracia como fator de legitimidade e desenvolvimento8. Como o
Governo está empenhado em melhorar a sua reputação regional e internacional, é
do seu interesse parecer democraticamente legítimo. De igual modo, ao entrar
neste domínio, as associações da sociedade civil utilizam os recursos e redes
que estão disponíveis no sistema internacional de estados e as agências
multilaterais para a «sociedade civil e democratização».
De facto, tiveram lugar certos processos de negociação. Embora Angola tenha
características de uma democracia eleitoral, um autoritarismo competitivo, uma
democracia semiautoritária, não é, claramente, um regime totalitário9. É
necessária uma certa forma de acomodação entre diferentes atores no processo
político para que se mantenha um sistema estável e exista uma certa abertura
para as ONG que lhes permita levar a cabo as suas atividades. A falta de
transparência do Governo angolano tem sido muitas vezes discutida10 ' mas tem
de ser dada maior atenção à forma como esta autoridade estatal é percebida,
especialmente pelos atores envolvidos ativamente no «processo democrático».
Outra questão tem a ver com as estratégias adotadas pelo Estado com o objetivo
de manter esse processo sob o seu controlo. As eleições podem ser vistas como
um processo decisivo para reequilibrar influências, talhar nichos para
atividades concorrentes e negociação de autoridade política.
O propósito deste artigo é então o de fazer uma descrição de como as lutas pela
influência se desenvolvem no cenário contemporâneo de Angola e de descrever as
estratégias do Governo relativamente ao processo do registo eleitoral. Isto
demonstrará de que maneira a influência governamental é encenada nesta área
específica e como, subsequentemente, o Governo exerce o seu controlo sobre a
sociedade civil11. Deste modo, poderemos verificar como tais tendências
encaixam numa discussão mais a MPLA sobre a democracia e a mudança e quais são
as possíveis implicações na assistência dos doadores para a democratização.
Desta forma podemos dizer que Angola se caracteriza por uma partidarização da
vida pública e de todos os setores sociais. A maior parte dos entrevistados
utilizaram esta expressão para descrever a forma como o partido permeava todas
as instituições ou estruturas sociais; uma permeação que resulta na
parcialidade do respetivo órgão ou ator12. Do mesmo modo, não existe uma
separação clara entre partido, governo e Estado, o que pode ter sido o caminho
prescrito para um autêntico «partido de vanguarda» durante o tempo do partido
único, no contexto dos discursos contemporâneos e expectativas de democracia.
Consequentemente, muitos representantes da sociedade civil angolana queixam-se
de que o aumento da partidarização afeta as suas atividades diárias.
Para detalhar os processos que aconteceram durante e à volta do registo
eleitoral, o argumento é desenvolvido da seguinte forma: primeiro, descrevemos
como o quadro jurídico e a organização administrativa do processo eleitoral
distribuiu as cartas a favor do Governo em funções. A secção seguinte fornece
uma descrição sobre o modo como decorreu o registo eleitoral. Depois são
analisadas as atividades de educação cívica desenvolvida pelas ONG angolanas
durante o registo, de modo a ilustrar como o Governo mantém um rígido controlo
sobre essas atividades. Subsequentemente, destacamos alguns aspetos relevantes
na relação entre governo e sociedade civil em Angola naquela altura, e também
alguns nichos ou espaços disponíveis para o exercício de agência pela sociedade
civil. Por fim, é apresentada uma reflexão sobre a importância das eleições e
da sociedade civil nas negociações da legitimidade política para os estados
africanos para além de Angola, num contexto mais amplo e dos discursos de
desenvolvimento da democracia.
O PACOTE ELEITORAL: O QUADRO JURÍDICO
O espaço jurídico necessário para que a sociedade civil seja ativa na
preparação das eleições é limitado e está sujeito a um rígido controlo por
parte do Governo. O quadro jurídico e constitucional para as eleições baseia-se
nos Acordos de Bicesse de 1991, mas em 2002 um novo pacote de leis eleitorais
foi aprovado com vista a regulamentar o processo eleitoral de 2008. Este pacote
incluía uma série de leis que diziam respeito à nacionalidade, partidos
políticos, registo eleitoral e código de conduta eleitoral. Por conseguinte,
este código de conduta estabelecia as obrigações, direitos e deveres de todos
os agentes eleitorais13. O mesmo pacote definia os atores envolvidos no
processo eleitoral, bem como as suas funções: partidos políticos, candidatos,
delegados, a Comissão Nacional Eleitoral (CNE), cidadãos, sociedade civil, os
media, autoridades tradicionais e órgãos da ordem pública (polícia e forças
armadas). De acordo com a lei, todos esses atores desempenham um papel em todas
as fases do processo ' mas, na verdade, a realidade parece muito diferente.
Apesar das pequenas vitórias alcançadas pelas associações da sociedade civil
(como é o caso desta revisão da lei eleitoral de 1991) o Governo manteve todos
os aspetos desse processo sob um rígido controlo14.
A supervisão do processo de registo e do subsequente processo de consolidação,
no qual todos os registos eleitorais são compilados, esteve sob controlo de
dois corpos administrativos diferentes. A CNE é responsável pela observação
independente do processo, bem como pela garantia da compilação de acordo com a
legislação e regras do respetivo processo. A Comissão Interministerial para a
Preparação das Eleições (CIPE) era responsável pela área técnica do processo.
Tal como o nome sugere, vários ministérios estão envolvidos no processo, e
portanto é composta por membros da administração. Todavia, a primeira, como uma
comissão de monitorização supostamente independente, tem uma composição
diferente: dois membros são nomeados pelo Presidente da República, seis membros
são nomeados pelo Parlamento (três pelo partido maioritário, dois pelo maior
partido da oposição e um pelo segundo maior partido da oposição), um é nomeado
pelo Tribunal Supremo (o qual, por sua vez, foi nomeado pelo Governo), um é
designado pelo Ministério da Comunicação Social e outro pelo Ministério da
Administração do Território, ambos estão sob o controlo do MPLA. Segundo a lei,
o presidente da comissão, o juiz Caetano de Sousa do Tribunal Supremo, deveria
suspender a sua atividade jurídica, mas na realidade, o mesmo continuou a
acumular funções15. Com oito dos 12 membros ligados ao partido no poder, esta
situação assemelha-se efetivamente a «um jogo de futebol de 10 jogadores contra
um guarda-redes»16.
A nível regional, os representantes da Comissão Provincial Eleitoral (cpe) e da
CIPE que tinham a responsabilidade de se supervisionar e controlar-se uns aos
outros, são muitas das vezes uma e a mesma pessoa. Em todos os níveis é
manifesto o potencial conflito de interesses. Com apenas uma exceção, as
subdivisões da comissão eleitoral provincial são lideradas por elementos do
MPLA, preferencialmente membros da Segurança (os serviços de informação
internos)17. Adicionalmente, e ao contrário de ser uma organização
independente, o Governo controla ambos os órgãos e a distribuição das tarefas
entre duas entidades separadas complica cada vez mais o processo e confunde as
responsabilidades dos incumbentes. O fórum parlamentar da SADC fez referência a
essa fraqueza após a missão de procura de factos de Angola em 200718.
O REGISTO ELEITORAL
Até dezembro de 2007 não havia uma data para as eleições, e o processo de
registo eleitoral ficou apenas completo no momento do trabalho de campo
realizado nesta investigação. O registo teve início a 15 de novembro de 2006 e
previa-se a sua conclusão para 15 de junho de 2007. Entretanto, em meados de
maio de 2007, o processo não estava a decorrer a um ritmo satisfatório. Das 350
brigadas de registo planeadas, apenas 135 estavam operacionais em abril de
2007, e dos 4,5 milhões de eleitores que se pretendia registar só em Luanda,
apenas cinco por cento tinham sido registados até aquela data19 . Parece que a
CNE foi surpreendida pela intensidade das chuvas de abril que tornaram a maior
parte dos «musseques» (a periferia, bairros informais de Luanda) inacessíveis e
quase paralisaram a cidade. Muitos dos entrevistados consideraram esta
justificação como uma indicação de que a CNE não conhecia as realidades locais,
ou que era um plano sinistro destinado a excluir possíveis eleitores da
oposição. Nas zonas rurais, raramente foram disponibilizados meios de
transporte para as pessoas que se dirigiam às brigadas de registo. Em alguns
casos os membros das próprias brigadas de registo pediram ao staff de ONG
internacionais para que lhes facultassem materiais de escritório ou boleia20. A
perceção foi a de que, em termos logísticos o Governo não prestou a assistência
necessária ao trabalho das brigadas.
Embora a lentidão do processo do registo eleitoral no interior do país pudesse
ter sido consequência das chuvas (as áreas remotas das zonas rurais do país são
tradicionalmente vistas como fortes apoiantes da UNITA), o Governo não poderia
contudo arriscar uma participação insignificante de eleitores na capital21. Sob
pressão de alcançar a meta de 7,5 milhões de eleitores registados em todo o
país, o Ministério da Administração do Território anunciou o prolongamento por
mais noventa dias para o registo22. Para alcançar o seu objetivo, o Governo
recorreu a outros mecanismos para chegar às populações. As igrejas ' uma forte
força social em Angola ' foram ativamente integradas no processo de registo e
os pastores foram incentivados a encorajar os seus membros a registarem-se.
Foram também estabelecidas brigadas de registo em igrejas depois dos cultos
dominicais. Após o período de registo finalmente terminar, a 15 de setembro de
2007, o Governo orgulhou-se do sucesso do processo e anunciou que mais de oito
milhões de eleitores tinham sido registados23.
Mesmo assim, ao considerar o modo como o processo foi executado, é duvidoso que
todos os potenciais eleitores tenham sido realmente registados. Para se
registar, um indivíduo deveria apresentar-se com algum tipo de documentação que
o identificasse: o passaporte, o bilhete de identidade ou a cédula de
nascimento, o cartão das Forças Armadas, a carta de condução, o atestado de
residência ou o cartão de refugiado do Alto Comissariado das Nações Unidas para
os Refugiados (ACNUR). Num país onde a grande maioria da população não possui
qualquer tipo de documento de identificação, também foi possível provar-se a
identidade do indivíduo por meio de testemunho. Uma autoridade tradicional ou
religiosa, ou dois membros qualificados da comunidade em posse de um cartão de
eleitor poderiam confirmar a identidade da pessoa que desejava votar. Se por um
lado este método oferecia solução ao problema de falta de documentação formal,
por outro significou que afiliações políticas das testemunhas por vezes
influenciassem o registo, ou não, do indivíduo24.
Além disso, todos os partidos políticos tinham o direito de enviar fiscais para
as brigadas, para garantir que os seus apoiantes não estavam a ser impedidos de
se registar. Todos os partidos receberam 300 mil dólares antes do registo com
aquele objetivo, mas é difícil saber como o dinheiro foi utilizado. Na prática,
apenas a UNITA teve a capacidade de enviar fiscais para algumas brigadas. Além
disso, registaram-se repetidas acusações de práticas irregulares. Em
particular, a UNITA reivindicava que o MPLA sabotava cartões eleitorais e
redigia um registo paralelo para monitorar quem votava no seu partido25. O
Governo negou sempre tais acusações26.
Por último, os angolanos que viviam na diáspora foram incapazes de se registar
nas embaixadas, apesar de tal direito ser garantido pela Lei do Registo
Eleitoral. Oficialmente, este facto justificou-se com razões de custo e de
logística, embora os rumores fossem de que o Governo receava que a maior parte
dos indivíduos residentes na diáspora apoiariam a oposição.
EDUCAÇÃO CÍVICA E ELEITORAL SOB O OLHAR DO MPLA
Além dos aspetos técnicos do processo de registo eleitoral, a campanha
publicitária do registo e o acompanhamento das atividades de educação
eleitoral, ao contrário de ser um ato não partidário, fez com que o processo se
assemelhasse a uma campanha política a favor do MPLA. A «Primeira Conferência
Regional do Povo San de Angola», a 26 de abril de 2007 no Lubango, foi um
exemplo disso27. Embora a intenção desta conferência fosse a de dar um palco ao
povo San de Angola (um grupo minoritário particularmente marginalizado do Sul
de Angola), para os pôr em contacto com grupos de advocacia de países vizinhos
e atrair a atenção internacional para a sua situação, a mesma foi rapidamente
transformada em evento político. Oficiais do Estado estiveram presentes nas
declarações de abertura e de encerramento; membros do parlamento e da
administração local falaram de igualdade de todos os angolanos e no final foi
entregue formalmente um título de terra para a delegação dos San. Sem
surpresas, vários membros da delegação apareceram nas fotos da imprensa
vestidos com t-shirts brancas com o rosto do Presidente e a bandeira do MPLA.
Observações de eventos similares bem como as declarações dos entrevistados
sugerem que tal permeação da esfera pública aconteceu a todos os níveis e foi
executada sistematicamente.
O Governo dirigiu as suas atividades de educação eleitoral principalmente aos
membros do partido que, como já referido, muitas vezes pareciam comícios do
MPLA. A pouca educação cívica e eleitoral não partidária que decorreu foi
executada por um número limitado de associações da sociedade civil que foram
autorizadas a atuar nessa área28. O «delegar» desta tarefa às ONG permitiu ao
Governo transferir grande parte destes custos aos doadores internacionais e de
manifestar, simultaneamente, liberdades civis ao mundo exterior29. Ao mesmo
tempo, manteve um controlo rigoroso sob o processo ao ordenar o registo das
atividades de educação eleitoral das ONG antes da sua implementação30.
Os obstáculos institucionais para as associações da sociedade civil serem
legalmente reconhecidas eram muitos. Existia uma longa lista de ONG à espera de
aprovação pelo Ministério da Assistência e Reinserção Social (MINARS); o
processo é complicado e pode levar anos31. Se por um lado existem mecanismos
formais para o estabelecimento das associações, os mesmos não são aplicados de
forma consistente e muitas vezes são interpretados de forma que mantêm as ONG
num estado de incerteza relativo ao seu estatuto legal e às atividades que lhes
são permitidas executar32. Contudo, muitas organizações da sociedade civil
tentaram encorajar o povo a votar, através de várias atividades de educação
eleitoral que foram mantidas sob estrito controlo. Por exemplo, a Associação
para o Desenvolvimento Ambiental e Rural (adra), uma das maiores ONG angolanas,
preparou um manual de educação cívica durante a fase de registo, o qual foi
adaptado para um manual utilizado nas eleições moçambicanas de 1994. No
entanto, este material foi proibido por conter uma frase que suscitou suspeita
por parte do Governo: «Votar significa mudar o rumo das coisas.»33 A ADRA
continuou a exercer as suas atividades mas com uma brochura fornecida pelo
Governo34.
Mesmo assim a educação cívica foi uma oportunidade para a sociedade civil, que
poderá quiçá abrir caminho para uma maior liberdade civil. Era evidente uma
necessidade genuína para desenvolver um mais amplo entendimento sobre o
processo eleitoral e uma maior confiança. Os receios da população devem ser
tidos em conta já que para muitas pessoas «as eleições são sinónimo de
morte»35. Antes do ato eleitoral de 1992 tinha-se verificado grande entusiasmo
e um alívio manifesto, mas de repente a situação piorou. Com uma população
profundamente traumatizada, era necessário transmitir a ideia de que as
eleições não levam necessariamente a um conflito e que o debate político não
precisa degenerar em violência. Além disso, era necessária a transmissão de um
conhecimento técnico básico sobre o funcionamento de uma democracia
multipartidária36. No entanto, também é crucial reconhecer que a educação
cívica é uma área atrativa para as ong, onde os financiamentos dos doadores
internacionais foram prontamente disponibilizados.
A observação das atividades cívicas realizadas pela ADRA nas zonas rurais da
província da Huíla demonstra como a educação eleitoral pode oferecer
oportunidades às ONG angolanas locais. Ao exercer as atividades cívicas com o
consentimento das autoridades tinham a oportunidade de ter um acesso legítimo
às comunidades rurais37. Enquanto naquele momento o foco estava apenas na
promoção do registo eleitoral, a ONG esperava ter acesso às comunidades locais
e ganhar a sua confiança, para garantir que estariam em condições de, mais
tarde, abordar outras prioridades e preocupações. Na verdade, existiam outros
assuntos mais urgentes: na aldeia da Huíla onde o trabalho de observação foi
feito, a bomba de água não funcionava há dois ou três anos. Após uma série de
questões colocadas, o grupo não conseguiu explicar quem era o responsável pela
manutenção da bomba de água. Igualmente as instalações escolares, os serviços
de saúde e as infraestruturas de transporte apresentavam-se inadequados ou
inexistentes. Mas embora as pessoas reconheçam tais problemas, não sabiam a
quem dirigir-se com vista à resolução daqueles problemas. Tal como o
coordenador explicou: «Se as pessoas conhecessem os seus direitos, tinham
pedido a reparação da bomba de água já há muito tempo. Tudo isto pode ser parte
da educação cívica ' é importante que nos reunamos a fim de discutir os
nossos assuntos juntos.»38
O compromisso na educação cívica da ADRA pode ser visto criticamente como uma
ação fora da sua agenda principal ' desenvolvimento rural e proteção ambiental
' seguindo as prioridades dos doadores internacionais. Entretanto, a perceção
que eles próprios tinham era de que o Governo abrira portas para esta área, e
que portanto deveriam aproveitar tal oportunidade para começar a trabalhar com
as comunidades rurais ao nível comunitário, visto que na fase prévia ao registo
para as eleições de 2008 tais atividades não foram permitidas. Mas enquanto há
uma certa abertura para discussões comunitárias a esse nível «de
desenvolvimento», o Governo mantém-se muito atento no controlo de todos os
espaços públicos em torno das eleições. A legislação relativa às atividades de
educação cívica das ONG não é tão clara e a sua implementação é
propositadamente arbitrária. Em julho de 2007, Pedro Ualipi Calenga, diretor da
Unidade Técnica para a Coordenação da Ajuda Humanitária (utcah), um
departamento do Ministério da Assistência Social e Reintegração Social,
responsável pela supervisão de todas as ONG nacionais, afirmou na Rádio
Nacional que certas ONG estavam a trabalhar na área da educação cívica de forma
ilegal e que o Governo iria encerrar as suas atividades. Tal cenário ilustra o
clima de incerteza e insegurança fazendo com que as associações da sociedade
civil tenham de ser cautelosas para evitar a fúria do Governo.
O LEGADO DO TEMPO DO PARTIDO ÚNICO E A «CULTURA DO MEDO» E DA CORRUPÇÃO
Mais do que o controlo ativo por parte dos funcionários do Estado e as
regulações administrativas e burocráticas para o registo de uma ong, é a
«cultura do medo» que impede expressões públicas de discórdia. Fora da capital
do país, os atos de violência política continuavam. Membros da oposição eram
frequentemente perseguidos ou presos39. O Governo recorria à polícia para
controlar e intimidar a população, que muitas vezes fazia o uso da força para
conter manifestações de protesto popular. Um dos entrevistados referiu que «é a
polícia que mata pessoas, simula assaltos, que faz as pessoas desaparecer [...]
a polícia e os órgãos de comunicação social são as duas armas do Governo»40.
Mesmo na capital as pessoas eram detidas em caso de manifestação, tal como
aconteceu várias vezes depois dos desalojamentos forçados em bairros da
cidade41.
Devido ao elevado índice de criminalidade, ataques violentos aos membros da
oposição ou ameaças individuais podem ser atribuídos a «bandidos». Em fevereiro
de 2007, houve uma tentativa de assassinato a Isaías Samakuva, presidente da
UNITA. Depois de alegar que os tiros foram disparados porque um secretário
municipal da UNITA tentou atacar um agente da polícia, as autoridades
declararam mais tarde que «elementos desconhecidos» eram responsáveis pelo
ataque e prometeram uma investigação profunda do caso42. É muito improvável que
os culpados tenham sido detidos. Tais acontecimentos contribuem para um clima
de medo, e a violência aleatória e a insegurança judicial desencoraja ONG e
individualidades a manifestar o seu descontento. Um antigo taxista em Luanda
disse o seguinte: «Este país é mesmo anarquia [sic]. O Governo não faz nada, só
existe para que as pessoas tenham medo e só aparece quando quer qualquer coisa:
se quer um terreno, ou uma casa, manda as pessoas desaparecer. É como que uma
casa onde o pai está, mas está sempre bêbedo.»43
Mesmo não sendo sujeitos a violência física, as ameaças de violência e
obstáculos estruturais, financeiros e administrativos são colocados perante os
indivíduos que falam abertamente dessas situações. As janelas das casas são
partidas durante a noite, créditos bancários não são concedidos, automóveis não
são reparados, o fornecimento de luz e de água são cortados e os salários não
são pagos44. E eventualmente, para muitos indivíduos, a única solução é aderir
ao partido. Para afastar as críticas, o Governo não precisa apenas de recorrer
à violência e à intimidação45. O rendimento do petróleo faz com que seja fácil
comprar apoios, e devido às dificuldades económicas e ao elevado custo de vida,
a sociedade civil pode simplesmente ser corrompida. A intelligence é muitas
vezes cooptada em «comités especiais» do partido tornando-a ineficaz.
Alguns dos entrevistados contaram episódios de representantes de organizações
da sociedade civil ou de igrejas que depois de uma fase de crítica intensa
atraíram a atenção do Estado. E embora não tenham sido ameaçados, tornaram-se
diretor do «departamento de não sei quê, receberam um novo 4x4, e as propinas
da escola dos seus filhos já estão pagas»46. Desta forma o Governo atinge
simultaneamente dois objetivos: hoje, as críticas são silenciadas, e amanhã
institucionaliza-se uma cultura da corrupção. No caso pouco provável de alguma
vez serem responsabilizados pelas suas ações, podem sempre dizer «aquele de nós
que não tiver cometido nenhum pecado que atire a primeira pedra»47. Criara-se
um clima de impunidade que invade todos os setores da sociedade e corrompe a
oposição, fazendo com que seja extremamente difícil para a sociedade civil
manter a sua autonomia e integridade moral48.
A partidarização quotidiana não estava limitada às associações da sociedade
civil. Os críticos, no domínio político, eram eventualmente afastados das
posições de influência, despedidos, presos ou acabavam por serem silenciados
como «cadáveres políticos»49. Posições de influência económica e política
ficavam restritas a adeptos leais ao Presidente: militares e quadros de
segurança, chefes dos ministérios e empresas públicas, os quais se converteram
em empresários, «tirando proveito da cumplicidade do Estado, criando redes
complexas de colusão mútua»50. Esta «cumplicidade do Estado» institucionaliza a
cultura da «gasosa» ' o omnipresente «refrigerante» que é preciso para que se
obtenha qualquer coisa que se necessita: uma informação, um carimbo no
documento, um registo e por aí adiante. Ao mais alto nível os «prínCIPEs» '
filhos e filhas do Presidente, ministros e generais ' tiram proveito dos
benefícios de deterem parte de todos os negócios lucrativos, sem serem
impedidos por restrições judiciais ou morais51. O que o jornalista, autor e
ativista Rafael Marques chamou de «samba da promiscuidade» ' a partidarização
da esfera económica ' é altamente visível nos novos negócios que nasceram deste
grande boom económico pós-guerra, dominados por uma estreita rede de elites do
partido e familiares do Presidente52.
De igual modo, as autoridades tradicionais são politicamente seduzidas com
ofertas e demonstrações de respeito durante as visitas oficiais53. Os sobas que
são selecionados nas aldeias são certamente chefes legítimos, escolhidos
segundo as suas famílias e o seu prestígio dentro da comunidade; no entanto, o
seu posto requer aprovação por parte do Governo54. Esta partidarização das
estruturas e administrações do Estado é claramente visível ao nível das
aldeias. As bandeiras do MPLA encontram-se por todo o país, mesmo nas aldeias
mais pequenas, enquanto a bandeira nacional e as bandeiras dos partidos da
oposição estão muitas das vezes ausentes55.
Finalmente, o Governo criou e fomentou associações da sociedade civil de acordo
com os seus interesses e necessidades. De acordo com os entrevistados, existe
uma grande divisão dentro da sociedade civil. Há associações que «cresceram da
base» e que tentam ter acesso a financiamentos, mas as suas atividades são
limitadas por uma quantidade enorme de decretos e regulamentos. Por outro lado,
existem ONG angolanas que são manifesta ou secretamente criadas e sustentadas
pelo Governo, «cujo objetivo é branquear a imagem do Presidente da República e
do seu governo» por realizar ações de caridade em seu nome56. O exemplo mais
paradigmático é o da fundação do Presidente, a FESA (Fundação Eduardo dos
Santos), que vai construindo hospitais e escolas, e fomentando atividades
culturais, e assim presta serviços que geralmente seriam da responsabilidade do
Governo. A fundação tem um apoio generoso de empresas petrolíferas
internacionais57. Do mesmo modo, a fundação de caridade da primeira-dama, a
Fundação de Solidariedade Social Lwiny, funciona no mesmo registo. E naquela
altura, algumas das filhas do Presidente tinham-se também destacado a
patrocinar campanhas sociais. Existiam ainda associações como a Causa Solidária
ou a Associação de Jovens Angolanos Provenientes da Zâmbia (ajapraz) que operam
como ONG independentes mas são financiadas indiretamente pelo Governo.
A AJAPRAZ apresentava-se como um exemplo especialmente intrigante e ao mesmo
tempo um exemplo típico dos investimentos do Governo angolano na sociedade
civil. A organização definia-se como sendo constituída por antigos refugiados
regressados da Zâmbia para contribuir para o processo de reconstrução do país.
Quando ocorria um desastre natural a AJAPRAZ enviava alimentos, tendas e
cobertores para os necessitados e ajudava na reconstrução das casas. A
organização parecia ter acesso a fundos ilimitados, alcançava as zonas afetadas
em aeronaves do Exército e distribuía artigos de luxo, como televisores,
entoando slogans políticos e fardados com bonés do MPLA. Essas ações tinham
sempre uma enorme cobertura mediática por parte dos media públicos58.
Considerando todos os aspetos acima descritos, não é de estranhar que
geralmente os cidadãos receiem falar abertamente, em particular os das zonas
rurais. Embora o Governo abra áreas específicas para algumas atividades da
sociedade civil, mantém simultaneamente um controlo rígido sobre o conteúdo
dessas atividades59. Em Luanda, verificava-se que os indivíduos começavam a
exprimir as suas opiniões com uma certa liberdade e a manifestar, em programas
de rádio, a sua insatisfação quanto às falhas do Governo, mas nas províncias a
liberdade de expressão era ainda muito limitada. Embora existissem discussões
públicas sobre o que a população desejava, as pessoas calavam-se quando um
membro da sinfo aparecia. Depois de muitos anos de repressão, a acusação de
«reacionário» é logo ativada e intimida os cidadãos60 . Se por um lado as
pessoas podem discutir sobre os assuntos de forma livre, por outro, ainda se
verifica algum receio em conversar sobre algo que pudesse estar relacionado com
a política. Ao nível local verificámos que existia um certo espaço para
exprimir as opiniões, mas sem qualquer interação com os órgãos eleitorais. A
sociedade civil parece ser aceite apenas como um interlocutor quando se trata
de questões relativas à prestação de serviços delimitados, mas não é bem-vinda
nas questões fundamentais como: o significado das eleições, a escolha política
e questões de governação, responsabilidade, transparência orçamental e direitos
humanos61.
QUAIS AS PERSPETIVAS PARA A SOCIEDADE CIVIL?
Após trinta anos de guerra e sob um estrito controlo governamental a perceção é
da existência de uma sociedade civil ainda muito fraca. Além disso, os desafios
impostos pela mudança no ambiente doador pós-conflito são consideráveis. De que
forma as associações da sociedade civil ' tais como igrejas ou ONG ' podem
trabalhar e desenvolver as suas atividades sob circunstâncias tão difíceis? Na
opinião dos entrevistados, tal passa pela abertura de espaços de discussão,
aliviando o sofrimento da população e pelo desenvolvimento de uma visão sobre o
futuro de Angola. Apesar de as atividades de educação cívica serem controladas
de perto pelo Governo, as atividades explicitamente «não políticas» talvez
ofereçam espaços para as pessoas desenvolverem uma consciência política e
experimentarem a governação ao nível local. Este é, por exemplo, o caso de um
projeto de infraestruturas desenvolvido pela ONG angolana Development Workshop
(DW) nos bairros de Luanda. Ao instalar comités de gestão residentes formados
tanto por homens como por mulheres, o programa contribuiu para a capacitação e
a gestão de conflitos dentro das comunidades. Além de melhorar o acesso à água,
promoveu também uma «cultura de compromisso e participação» ao nível local.
Ajudou também a criar uma certa esperança de que no futuro, a administração do
governo local consultará esses comités antes de tomar uma decisão62. Tal como
outros projetos da DW e de outras organizações locais similares, em outras
áreas, o facto de alguém ouvir as reclamações da população garante algum espaço
protegido para discussões abertas sobre questões que afetam as comunidades,
podendo ter impacto para lá das metas específicas do programa de qualquer
atividade de «educação cívica».
No entanto, estas são apenas pequenas aberturas a um nível «não político».
Muitos entrevistados realçaram a importância de se desenvolver uma visão comum
e mais abrangente sobre o futuro de Angola. Diariamente, a maior parte das
associações da sociedade civil só pode fazer «o que os outros [os doadores] nos
mandam fazer»63. Porém, para muitos não é suficiente simplesmente desafiar os
políticos e apontar os erros do Governo. As associações sentem a necessidade de
especificar quais as suas propostas para o futuro de Angola64. Entre as
igrejas, verificámos que a atitude dominante era a de que os cristãos não podem
envolver-se em política. Por um lado, esta «política de acomodação» é oriunda
do período do Estado de partido único e do medo residual então instalado. Por
outro lado, este padrão tem raízes mais profundas no tempo colonial, quando os
missionários foram autorizados a expandir as suas atividades em Angola, desde
que se abstivessem de declarações políticas. Isto promoveu uma tradição
teológica focalizada na salvação individual no Além, que tinha a tendência de
ignorar o meio ambiente socioeconómico e as realidades políticas das
congregações65. Atualmente, jovens funcionários da igreja sentem que isto não é
suficiente, que é necessário mais ação e que um diálogo construtivo sobre o
desenvolvimento do país deve ser comprometido para que se produza uma mudança
sustentável. Defendem ainda que as igrejas, com as suas raízes profundas na
sociedade, estão numa posição privilegiada para chegar às populações e
continuam a ser a instituição que goza de maior confiança, pois são conhecidas
por resolver os problemas do povo, e têm uma autoridade moral que poderiam
oferecer ao debate66. Conforme afirmou o reverendo Abias, secretário-geral da
Aliança Evangélica de Angola (AEA), as igrejas deveriam tratar não apenas dos
aspetos administrativos, mas também dos aspetos eleitorais, éticos e
governamentais, bem como questionar publicamente a integridade dos seus
líderes: «Como é que alguém que tem uma catorzinhapode ser um bom líder e uma
pessoa de integridade?»67
Assim, algumas igrejas veem as eleições como uma oportunidade de falar não
apenas das modalidades do processo eleitoral, mas também das qualidades morais
dos seus líderes e duma visão para o futuro de Angola. Sobretudo porque a
questão da reconciliação nacional foi completamente desconsiderada no Memorando
de Luena68. Contudo, a guerra civil deixou um legado complexo de comunidades
divididas, conflitos entre as populações ainda não resolvidos, bem como
atrocidades cometidas por todas as partes do conflito que continuam ainda por
resolver. Começaram a reemergir as reivindicações populares, que nunca foram
discutidas durante a guerra e na era do partido único. Os acontecimentos de
1992, quando os resultados das eleições foram utilizados para acertar velhas
contas, permaneceram como uma ferida aberta na alma coletiva. Estes conflitos
resultaram da «história de intolerância» e não houve um processo de
reconciliação ou de resolução pós-conflito. Segundo um dos entrevistados,
«Quando a guerra terminou, não lhe foi dito [ao morador na aldeia] que, agora
tens que coabitar com aquele que matou o teu pai»69. A esse respeito, apesar
de o processo eleitoral ter sido muito circunscrito, os processos anexos
criaram uma oportunidade para que se abrissem espaços onde assuntos
comunitários ou questões de reconciliação poderiam ser abordados.
CONCLUSÃO
A vitória do MPLA nas eleições legislativas de setembro de 2008 não foi uma
surpresa. Tal como um recauchutador à beira da estrada em Luanda nos disse, em
agosto de 2007: «Todos sabem quem vai ganhar. Eu só não posso dizer em quem
votarei.» Com o número de parlamentares da oposição reduzido quase à
irrelevância, o MPLA pode mudar a Constituição sem se comprometer em qualquer
forma de debate político significativo70. Os ativistas da sociedade civil
previam naquela altura um regresso à era do Estado de partido único, onde a
única oposição possível ao partido no poder vinha da sociedade civil e das
igrejas, e que teria de realizar-se fora do sistema parlamentar71. Muitos
angolanos descreviam o Estado, naquela altura, como uma monarquia, onde o
Presidente governa por decretos e através de uma rede de patronado poderosa,
para um grupo exclusivo de familiares, ministros e generais, com pouca ou
nenhuma responsabilidade perante o Parlamento, o poder judicial ou a população.
Com este artigo, tentámos demonstrar como o Governo angolano tem reforçado o
seu controlo sobre a sociedade civil após o fim do conflito armado. O regime
pode regulamentar quaisquer liberdades concedidas uma vez que define muito
restritamente quais os espaços abertos para atividades associativas. Ao
penetrar em todos os níveis da sociedade, o Governo instrumentaliza as
atividades cívicas para alcançar os seus objetivos, enquanto exibe uma atitude
aberta relativamente a «democratização».
Como podemos então interpretar a relação entre o Governo e a sociedade civil em
Angola? Será que o autoritarismo «benigno» de José Eduardo dos Santos (apenas
atos raros de repressão, combinados com um massivo crescimento económico pós-
guerra que provavelmente ajudou o Governo a evitar uma oposição maior e mais
organizada até agora) e os poucos espaços que o mesmo abriu à sociedade civil,
adormeceram a oposição popular?72 Existe realmente um consentimento tácito
entre diferentes grupos de interesses, uma interação «complementar e [ ]
mutuamente benéfica entre os dois», de modo a que as ONG possam operar e
desempenhar os seus programas livremente e ter acesso ao apoio de doadores,
desde que não ameacem as verdadeiras hierarquias do poder?73
Pode argumentar-se que, tal como a sociedade civil se está a adaptar
gradualmente ao novo contexto pós-conflito, o Governo também está a passar por
uma «curva de aprendizagem». Na perceção de um dos entrevistados em 2007, o
Governo parecia estar disposto a abrir espaços mas ainda está «esquizofrénico»,
porque receia perder o controlo ao mesmo tempo que tenta superar as suas
tradições de partido único74. A experiência das eleições de 1992, percebidas
como precipitadas e impostas pelo exterior, fez com que o regime se
determinasse a manter tudo sob estrito controlo. Nesta perspetiva, o sucessivo
adiamento das eleições de 2008 seria uma tentativa de abrir um diálogo com a
sociedade civil, para que se testassem as reações e cuidadosamente se
orientasse a evolução dos acontecimentos75.
Embora concordemos que o Governo estivesse a sondar as reações, não estamos tão
convencidos que seja uma atitude «esquizofrénica». Parece antes uma estratégia
consistente e coerente para conduzir eleições que podem ser classificadas como
«livres e justas» enquanto o controlo do partido no poder se estende por todas
as áreas da sociedade. As eleições podem ter consequências na distribuição de
assentos parlamentares diferentes ' as subjacentes relações de poder, por sua
vez, permaneceram inalteradas.
O Governo do MPLA é certamente muito hábil a manipular a sociedade civil.
Paralelamente à sua aproximação às igrejas em meados de 1980, o regime
prosseguiu uma estratégia de manter as ONG num estado de permanente insegurança
judicial; abraçando algumas e reprimindo outras. Ao fazer isso, o Governo
exibiu uma abertura democrática para a comunidade internacional e ao mesmo
tempo devolveu alguns dos aspetos mais «incómodos» da governação (prestação de
serviços, infraestruturas, educação cívica) a atores financiados por recursos
estrangeiros76. Do mesmo modo, pode atuar democraticamente para ganhar
legitimidade internacional (e simultaneamente controlar as fações internas).
Enquanto o registo eleitoral e as eleições aparentam ter ocorrido com sucesso
em termos da participação dos eleitores e a relativa ausência de fraude
eleitoral e violência, parece extremamente duvidoso que a «democracia»
eleitoral possa trazer tanto uma mudança política como uma melhoria tangível
das condições de vida dos angolanos, pelo menos a curto ou médio prazo. O poder
real continuou a estar concentrado nas mãos do Presidente e é escondido pelas
relações cada vez mais turvas entre o Estado, o Governo, o partido no poder, os
generais e a economia.
A situação política de Angola não parece ser particularmente excecional em
comparação com outros países africanos que adotaram uma democracia
multipartidária. Poderíamos citar, por exemplo, o Togo, o Gabão ou a Guiné
Equatorial como paralelos. Mais perto, na África Austral, o Zimbabwe e a Zâmbia
são, em diferentes graus, definidos numa dinâmica equivalente. Na Namíbia, uma
mudança na Constituição que permitiria a Sam Nujoma um terceiro mandato foi
evitada à última hora,e em Moçambique, que durante muito tempo foi saudado como
excelente exemplo de transição democrática bem-sucedida, constatou-se um
aumento da concentração do poder nas mãos do partido no governo77. Mesmo na
África do Sul, este «farol da democracia» na sub-região, mostra tendências
marcadas para um sistema de partido dominante que não precisa, mas poderia,
facilmente, induzir o partido no poder a exibir «menos vontade de compartilhar
o poder, mais disposição de questionar a própria legitimidade da oposição, e
uma forte tendência de abusar os recursos do estado [ ]»78.
O «autoritarismo competitivo» está a emergir internacionalmente como uma forma
de governo que já não pode ser vista como uma transição incompleta ou
prolongada para a democracia79. Estes regimes «jogam pelas regras» da
democracia ostensivamente, enquanto na prática subvertem e mudam o seu
significado. Isso é possível porque a democracia é tida quase como um valor
universal a que todos os estados aspiram, e é ativamente promovida pela
comunidade internacional.
Angola apresenta uma fachada de legitimidade da democracia, mas tem
características de um Estado «semiautoritário» ou de um «regime autoritário
eleitoral» e o Governo aplica todas as «táticas-modelo» para se manter no
poder80. Neste sentido, não pode ser vista como uma «democracia imperfeita» que
se desenvolverá com o tempo, mas como um produto de escolhas deliberadas de uma
classe dominante determinada a assegurar a sua sobrevivência no poder e os
benefícios resultantes disto. Nestas circunstâncias, tendo em conta a
investigação realizada, pareceu-nos existir uma necessidade crescente para que
os doadores internacionais reconceptualizem o significado de «democracia» e
reavaliem o valor da sua assistência nos processos eleitorais.
Poderão os referidos casos ajudar-nos a ganhar novos conhecimentos sobre a
natureza do Estado em África? Com uma compreensão normativa da democracia, a
relevância das eleições em África tem sido questionada, como exemplificada por
todos aqueles estados descritos como democracias «formal», «eleitoral», «de
fachada», ou «pseudo», que todas sofrem de um severo «défice democrático». Em
detrimento dessas suposições normativas de Estado democrático, a recente
história da África sugere que as «eleições são firmemente estabelecidas no
sentido que os governantes tentam estabelecer ou demonstrar legitimidade»81.
Apesar de o Governo angolano ser relativamente impermeável à pressão externa de
agências de doadores multilaterais, pareceu estar claramente à procura de
influência no sistema internacional de estados, e assim submeter-se a certas
regras e convenções. Eleições «livres e justas» são uma das regras centrais
deste jogo que deve ser observada de modo a ser-se respeitado como parceiro na
arena internacional. Deste modo, as eleições tornam-se um palco de negociações
onde não só a autoridade interna mas também internacional são negociadas e onde
uma variedade de atores mobiliza diferentes repertórios a fim de ganhar
influência. Ao olhar para tais cenários e tendo em conta o caráter da
«democracia» como um recurso num discurso cada vez mais transnacional, podemos
ganhar novos conhecimentos sobre a relevância das eleições para as sociedades e
as formas pelas quais essas contestações são encenadas.
Por outro lado, para as ong, o seu papel como «prestadores de serviços» também
justifica a sua existência. Certamente, pelo seu empenho nas atividades
cívicas, as ONG angolanas exploram os discursos de desenvolvimento da
democratização para ter acesso a financiamentos e redes jurídicas
internacionais ' mas mesmo assim esta interligação com as redes mundiais de
cooperação internacional de desenvolvimento não nega a legitimidade das ONG
angolanas ou desvaloriza o trabalho que desenvolvem com as suas comunidades-
alvo. Ao contrário, demonstra o aumento do caráter transnacional dessas
organizações, o que lhes dá mais peso para seguirem as suas próprias agendas.
Trinta anos de guerra ensinaram os angolanos a encontrar soluções individuais
para problemas coletivos. Especialmente fora das cidades, a relação entre o
Estado e a população é muito débil, há pouco ou nenhum sentido de
responsabilidade e nenhuma ligação recíproca entre estas duas esferas, que
parecem completamente desconectadas82. Existe pouco reconhecimento das
obrigações do Estado em termos de prestação de serviços e infraestruturas. O
conhecimento das funções de um sistema democrático e direitos da participação
política é limitado. As associações podem trabalhar para sensibilizar a
população sobre direitos humanos e políticos83. Desta forma, a educação cívica
é um começo. As mesmas podem criar espaços abertos para discussões84. Aí onde a
consciencialização política é pouca, pode promover-se o diálogo e o debate
levando a um maior compromisso político no futuro.
As pessoas estão a desenvolver os direitos que lhes são devidos como cidadãos,
e cada vez mais têm coragem para os reivindicar. O facto de uma esmagadora
maioria da população ter participado no processo eleitoral não pode ser
ignorado. Mas os resultados previsíveis dificilmente indicam um avanço da
democracia em Angola; ao invés, refletem a falta de políticas alternativas, uma
resignação com o statu quoe o receio da discórdia, da instabilidade e da
violência. Com um grande número de armas de pequeno porte espalhadas por todo o
país, antes das eleições havia um medo generalizado de uma eventual repetição
da violência de 1992.
Neste sentido, a tranquilidade do processo, bem como a complacência da
participação dos angolanos foram indiscutivelmente os aspetos mais notáveis das
eleições. Os observadores eleitorais elogiaram a disciplina dos eleitores, a
energia do pessoal da assembleia de voto, e a sensação geral de calma e
segurança durante a votação. Por fim, a renovação do Parlamento através do voto
democrático poderá impulsionar a população a exigir a prestação de contas ao
Governo para que cumpra as suas promessas nas futuras eleições85. Enquanto o
resultado das eleições de 2008 foi dececionante ' não houve realmente muitas
hipóteses para uma mudança política ', existem razões para um otimismo que os
angolanos estão a recriar na sua sociedade após muitos anos de interrupção.
Entretanto, realizaram-se em Angola as segundas eleições desde o fim da guerra,
a 31 de agosto de 2012. O que mudou desde 2008 foi o surgimento de protestos
populares abertos contra o regime em 2011 e 2012, que foram fortemente
reprimidos, assim como a criação de um novo partido, a Convergência AMPLA pela
Salvação de Angola ' Coligação Eleitoral (CASA-CE), que ambiciona quebrar a
bipolarização MPLA-UNITA. Também a CIPE foi extinta, e a composição da Comissão
Nacional Eleitoral alterada. A aprovação da nova Constituição em 2010
institucionalizou sobretudo a posição dominante do Presidente da República. E,
sem grandes surpresas, as eleições de 2012 também resultaram numa vitória
esmagadora para o partido no poder.
Por isso, poderemos reafirmar que as dinâmicas de «partidarização» descritas e
analisadas no presente artigo continuaram, e até se intensificaram antes das
legislativas de 2012, ou seja, as conclusões retiradas a partir da análise das
eleições de 2008 podem ser mantidas.
Uma análise aprofundada das eleições de 2012 ainda fica por fazer, e permanece
por responder a pergunta sobre se os novos impulsos proporcionados pelos
movimentos de estudantes e os partidos da oposição, agora com maior
representação na Assembleia Nacional, poderão mudar fundamentalmente o quadro
do jogo político em Angola, dominado por um partido hegemónico. Por um lado,
pudemos assistir à emergência de uma nova geração de cidadãos com maior
consciência dos seus direitos políticos e sociais, e que tem menos receio de
reivindicar esses direitos ' as manifestações de ativistas estudantes sobretudo
em Luanda, mas por outro lado, os resultados das eleições não alteraram
fundamentalmente a distribuição do poder devido a essa mesma partidarização.
Desta forma, tudo nos leva a crer que para a grande maioria dos angolanos a
luta continua.
Data de receção: 17/01/2012 | Data da aprovação: 19/07/2012
NOTAS
1
A versão em inglês deste artigo foi publicada no Journal of Southern African
Studies. Vol. 36, N.º 3, 2010, pp. 657-672 (http://www.tandfonline.com/doi/abs/
10.1080/03057070.2010.507572). A tradução para o português foi feita por Márcia
Yolanda, para a DW ' Development Workshop Angola, em agosto de 2011, e editado
pelo autor em janeiro de 2013.
2
O autor agradece à DW por traduzir o artigo, a Ruy Llera Blanes, Harry West,
Claudia Gastrow, Tobias Hagmann, Patrick Harries, Didier Péclard, e Agathe
Mora, bem como aos referee anónimos do jsas pelos seus comentários nas prévias
versões deste artigo. Também agradece à Theodor Engelmann-Stiftung, Basel, pelo
apoio financeiro concedido à investigação.
3
Entrevista com anónimo,chefe de Comissão Eleitoral Provincial, 27 de abril de
2007.
4
ADRA ' Manual Porquê Votar?. Luanda: adra, 2005.
5
Mcmillan, John ' «Promoting transparency in Angola». In Journal of Democracy.
Vol. 16, N.º 3, 2005, p. 155.
6
European Union Electoral Observer Mission Angola, Final Report, Parliamentary
Elections, 5, 2008. Disponível em: http://www.eueom-ao.org/EN/PDF/
FR_EUEOM_ANGOLA_08_EN.pdf
7
Roque, Paula Cristina ' «Angola's façade democracy». In Journal of Democracy.
Vol. 20, N.º 4, 2009, pp. 137-150.
8
Cf. Lund, Christian ' «Twilight institutions: an introduction». In Development
and Change. Vol. 37, N.º 4, 2006, pp. 673-684.
9
Schedler, Andreas ' «The menu of manipulation». In Journal of Democracy. Vol.
13, N.º 2, 2002, pp. 36-50; Levitsky, Steven, e Way, Lucan A.
' «The rise of competitive authoritarianism». In Journal of Democracy. Vol. 13,
N.º 2, 2002, pp. 51-65; Ottaway, Marina ' Democracy
Challenged. The Rise of Semi-Authoritarianism. Washington, DC: Carnegie
Endowment for International Peace, 2003.
10
Messiant, Christine ' «The mutation of hegemonic domination». In Chabal,
Patrick, e Vidal, Nuno (eds.) ' Angola: The Weight of History. Londres: Hurst
& Company, 2007, pp. 93-123; Oliveira, Ricardo Soares de
' «Business success, Angola-style: postcolonial politics and the rise and rise
of Sonangol». In The Journal of Modern African Studies. Vol. 45, N.º 4, 2007,
pp. 595-619.
11
Hagmann, Tobias, e Péclard, Didier ' «Negotiating statehood: dynamics of power
and domination in Africa». In Development and Change. Vol. 41, N.º 4, 2010, pp.
539-562.
12
Outros entrevistados falaram da «putinização» da esfera política.
13
Resolução n.º 10/05 (aprova o Código de Conduta Eleitoral). Luanda: República
de Angola, 2005.
14
Entrevista a Sizaltina Cutaia, coordenadora de projetos eleitorais, osisa
Angola: Instituto Sociedade Aberta da África Austral, Luanda, 19 de abril de
2007: «Os angolanos fazem leis muito bonitas, mas a implementação é muito,
muito pobre.»
15
Entrevista com o Dr. Fernando Macedo, presidente de direção da Associação
Justiça Paz e Democracia (ajpd), Luanda, 17 de abril de 2007.
16
Entrevista com Celestino Onésimo Setucula, coordenador nacional da Plataforma
Eleitoral, Luanda, 19 de abril de 2007.
17
Entrevista, anónimo.
18
«SADC Parliamentary Forum Voter Registration Mission to the Republic of
Angola, 19th-24th March, 2007», Interim Report, Windhoek: SADC, 2007, p. 3.
19
Afirmação não oficial de um membro do MPLA depois duma convenção comunal do
MPLA na província de Luanda.
20
Conferência de imprensa, Plataforma Nacional da Sociedade Civil Angolana para
as Eleições (pnascae), «Processo do Registo Eleitoral», Hotel Trópico, Luanda,
18 de abril 2007.
21
Entrevista, anónimo.
22
«Governo prolonga para mais de 90 dias o registo eleitoral». In Jornal de
Angola, 31 de março 2007.
23
Agência Angola Press, 16 de setembro de 2007.
24
Entrevista com o reverendo Eduardo Chiquete, secretário-geral da União das
Igrejas Evangélicas de Angola, Lubango (uiea), 24 de abril de 2007.
25
Entrevista a Celestino Onésimo Setucula.
26
Portanto, acusações similares surgiram antes das eleições de 2012.
27
Observação, Primeira Conferência Regional das Comunidades, «Angola, os San e o
Desenvolvimento», Rádio Huíla, Lubango, 26 de abril de 2007.
28
Nomeadamente adra, DW ' Development Workshop Angola, pnascae, osisa, ndi
(através de ONG locais), igrejas (informalmente) ' veja abaixo os limites
dessas atividades.
29
Discussão de grupo 1: Luanda, 20 de abril de 2007. Dia de treino para os
participantes no estudo de base do pece-ii, DW ' Development Workshop Angola.
Participantes: oito de Luanda, um do Zaire, três do Kwanza Norte ' 11 homens e
uma mulher. Associações representadas: ceast, fonga, gbeca, várias igrejas e
uma associação de autoajuda para mulheres.
30
Entrevista Fernando Macedo: «Há pouco tempo atrás, o ministro da Fontes
Pereira [do MAT] disse que as associações que não estão propriamente
registradas não deveriam fazer declarações sobre o processo eleitoral.»
31
Entrevista com Ranca Tuba,líder da equipa Democracia e Governação. usaid
Angola, Luanda, 11 de abril de 2007.
32
Schubert, Benedict ' A Guerra e as Igrejas: Angola, 1961-1991. Basel: P.
Schlettwein Pub., 2000, cap. 5.
33
ADRA ' Manual Porquê Votar?, pp. 61, 63 e 77.
34
Cartilha do Cidadão Eleitor. Luanda: República de Angola, 2006.
35
Entrevista a Eduardo Chiquete.
36
Entrevista com Isabel S. Emerson, diretora nacional do Instituto Nacional
Democrático, Luanda, 11 de abril de 2007: «Se as pessoas dizem ah, tem 124
partidos políticos em Angola, mas não sabem o que os partidos fazem ou quais
são os programas deles, não faz muito sentido, não é?»
37
Observação de uma intervenção de educação cívica da adra, «o registo
eleitoral», localidade do Vikenji, município do Lubango, província da Huíla (a
18 quilómetros do Lubango), 27 de abril de 2007.
38
Observação de atividade de educação cívica da ADRA,«o registo eleitoral».
Localidade de Viquenji, município de Lubango, Provincia da Huíla (a cerca de
18km do Lubango), 27 de abril de 2007.
39
Entrevista a Eduardo Chiquete.
40
Entrevista a Sizaltina Cutaia.
41
«They pushed down the houses. Forced evictions and insecure land tenure for
Luanda's urban poor». Nova York: Human Rights Watch, 2007. http://www.hrw.org/
news/2008/12/10/angola-end-torture-and-unfair-trials-cabinda
42
«Incidente marca visita de Samakuva a Catumbela». In Jornal de Angola, 5 de
março de 2007.
43
Declaração informal de um antigo taxista, nascido em 1980, Luanda, em abril de
2007.
44
Entrevistas a Sizaltina Cutaia, reverendo José Evaristo Abias, secretário-
geral, Aliança Evangélica de Angola, Luanda, 18 de abril de 2007.
45
Entrevistas a Sizaltina Cutaia,reverendo Luís Nguimbi, secretário-geral do
Conselho das Igrejas Cristãs em Angola, Luanda, 13 de abril de 2007; Angola:
Pre-Election Assessment Report.Washington DC: ifes, 2002, p. 51.
46
Entrevistas a José Evaristo Abias,Sizaltina Cutaia,reverendo Daniel Ntoni-
Nzinga, secretário-geral do coiepa, Comité Inter-Ecclesial pela Paz em Angola,
Viana (Luanda), 22 de abril de 2007.
47
Entrevista a Celestino Onésimo Setucula.
48
Mcmillan, John ' «Promoting transparency in Angola». In Journal of Democracy.
Vol. 16, N.º 3, p. 166.
49
Entrevistas a José Evaristo Abias e aSizaltina Cutaia; Miranda, Armindo '
Angola 2003/2004: Waiting for Elections. Vol. 11. Bergen: Chr. Michelsen
Institute, 2004, p. 26.
50
Ferreira, Manuel Ennes ' «Development and the peace dividend insecurity
paradox in Angola». In The European Journal of Development Research. Vol. 17,
N.º 3, 2005, p. 518.
51
AJPD Human Rights Annual Report 2005. Luanda: Associação Justica Paz e
Democracia, 2005, p. 20, http://www.ajpdangola.org/PDFs/Annual_Report2005.pdf. ; ver também «O rosto de Angola». In Expresso, 20 de julho de
2007.
52
Morais, Rafael Marques de ' Operation Kissonde: The Diamonds of Humiliation
and Misery. Londres: Business & Human Rights Centre, 2006, Disponível em:
http://www.business-humanrights.org/Links/Repository/953521/link_page_view; Oliveira, Ricardo Soares de ' «Business success, Angola-
style»; Hodges, Tony ' Angola: Anatomy of an Oil State. Oxford: Indiana
University Press, 2004; Chabal, Patrick, e Vidal, Nuno (eds.)
' Angola: The Weight of History. Londres: Hurst & Company, 2007, pp. 11-13; Sogge, David ' «Angola: reinventing pasts and futures». In
Review of African Political Economy. Vol. 38, N.º 127, 2011, p. 87.
53
Vidal, Nuno ' «Landmines of democracy: civil society and the legacy of
authoritarian rule in Angola». In Minnie, Jeanette (ed.) 'Outside the Ballot
Box: Preconditions for Elections in Southern Africa, 2005/6. Windhoek: misa,
2006, p.67; entrevista a Eduardo Chiquete: «Muitos sobas são
politizados. Eles vestem as camisolas do partido, não as do govern.»
54
Cf. Florêncio, Fernando ' «Pluralismo jurídico e estado local em Angola: um
olhar crítico a partir do estudo de caso do Bailundo». In Antropologia
Portuguesa. Vol. 28, 2011, pp. 95-134.
55
Observações e declarações da província do Uíge; observações de viagens pelas
províncias do Uíge, Malanje e Cuanza Norte.
56
Entrevista a Celestino Onésimo Setucula.
57
Messiant, Christine ' «La Fondation Eduardo dos Santos (fesa): à propos de
«l'investissement de la société civile par le pouvoir Angolais». In Politique
Africaine. N.º 73, 1999, pp. 81-101.
58
Entrevistas a Isabel S. Emerson ,aoreverendo Luís Nguimbi: «São supostamente
refugiados da Zâmbia ' como é que eles poderiam possivelmente obter milhões de
dólares?»; eaFernando Macedo: «Eles fazem distribuição de televisores gritando
Viva o MPLA' ' Isto é brincadeira!».
59
Discussão no grupo 1.
60
Entrevista a Sizaltina Cutaia.
61
Entrevista a Luís Kandongongo Jimbo, supervisor do programa de extensão
comunitária, Search For Common Ground Angola, Luanda, 19 de abril de 2007.
62
Observations and Recommendations on a Visit to Angola. Londres: Chatham House,
2006.
63
Discussão no grupo 2, encontro do grupo bíblico de estudantes cristãos de
Angola, grupo do Lubango, Lubango, 24 de abril de 2007.
64
Vines, Alex, Shaxson, Nicholas, Rimli, Lisa, e Heymans, Chris ' Angola:
Drivers of Change ' An Overview.Londres: Chatham House, 2005, p. 39; entrevistas a Isabel S. Emerson e Daniel Ntoni-Nzinga.
65
Schubert, Jon ' A Guerra e as Igrejas, cap. 5.
66
Amundsen, Inge, e Abreu, Cesaltina ' Civil Society in Angola: Inroads, Space
and Accountability. CMI Report, Vol. 14, Bergen: Chr. Michelsen Institute,
2006, p. 25; Miranda, Armindo ' Angola 2003/2004: Waiting for
Elections, pp. 11-30; entrevista a José Evaristo Abias.
67
«Catorzinha» é uma expressão coloquial para uma prostituta menor de idade '
entrevista a José Evaristo Abias.
68
Cf. Pearce, Justin ' An Outbreak of Peace: Angola's Situation of Confusion.
Claremont: David Philip, 2005. O «tratado de paz» que culminara no fim da
guerra foi um acordo técnico entre o MPLA e a UNITA sobre a implementação das
medidas previstas pelos Acordos de Lusaka de 1994.
69
Entrevista a Celestino Onésimo Setucula.
70
De facto, desde que esta pesquisa foi feita, a Assembleia Nacional ' dominada
pelo MPLA ' aprovou uma nova constituição (em janeiro de 2010) ' sem muito
debate público ou parlamentar.
71
Constantino-David, Karina ' «Development ngos and civil society». In Rudebeck,
Lars, e Törnquist, Olle (eds.) ' Democratization in the Third World. Concrete
Cases in Comparative and Theoretical Perspetive. Londres: Macmillan, 1998, p.
197; Ottaway, Marina ' Democracy Challenged.The Rise of Semi-
Authoritarianism, 2003.
72
Portanto, pudemos ver que, em 2011 e 2012, essa estratégia já não funcionou.
73
Chabal, Patrick, e Daloz, Jean-Pascal ' Africa Works: Disorder as Political
Instrument. Indianapolis: James Currey, Indiana University Press, 1999, p. 21.
74
Entrevista a Ranca Tuba.
75
Em novembro de 2006, o Presidente da República de Angola, José Eduardo dos
Santos, anunciou que as eleições legislativas decorreriam em 2007. Um mês
depois, o Presidente afirmou que, devido a problemas logísticos, as eleições
não poderiam realizar-se tendo sido adiadas para 2008. O mesmo aconteceu com as
eleições presidenciais que estavam previstas para 2009, até à votação da nova
Constituição em janeiro de 2010.
76
Entrevista a Isabel S. Emerson.
77
Soiri, Iina ' «Namibia: Swapo wins, apathy rules». In Cowen, Michael, e
Laakso,Liisa (eds.) ' Multi-Party Elections in Africa. Oxford: James Currey,
2002, pp. 187-216; Gould, Jeremy ' «Contesting democracy: the
1996 elections in Zambia». In Cowen, Michael, e Laakso,Liisa (eds.) - Multi-
Party Elections in Africa, pp. 299-323; Laakso,Liisa ' «When
elections are just a formality: rural-urban dynamics in the dominant-party
system of Zimbabwe». In Cowen, Michael, e Laakso,Liisa (eds.) ' Multi-Party
Elections in Africa, pp. 324'345.
78
Giliomee, Herman ' «South Africa's emergent dominant-party regime». In
Diamond, Larry, e Plattner, Marc F. (eds.) ' Democratization in Africa.
Baltimore MD: Johns Hopkins University Press, 1999, pp. 140-156; Brooks, Heidi ' The Dominant Party System: Challenges for South
Africa's Second Decade of Democracy. EISA Occasional Paper Series, Auckland
Park: EISA, 2004.
79
Levitsky, Steven, e Way, Lucan A. ' «The rise of Competitive
authoritarianism». In Journal of Democracy. Vol. 13, N.º 2, 2002, pp. 51-65. Ottaway, Marina ' Democracy Challenged. The Rise of Semi-
Authoritarianism, 2003.
80
Schedler, Andreas ' «The menu of manipulation», 2002.
81
Ellis, Stephen ' «Elections in Africa in historical context». In Abbink, Jon,
e Hesseling, Gerti (eds.) ' Election Observation and Democratization in Africa.
Nova York: Palgrave Macmillan, 2000, p. 47.
82
Vines, Alex, Shaxson, Nicholas, Rimli, Lisa, e Heymans, Chris ' Angola:
Drivers of Change ' An Overview, 2005, p. 5.
83
Entrevista a Joyce Kayala, ativista do Movimento Juvenil pela Paz, Lubango, 24
de abril de 2007.
84
Entrevista a Sizaltina Cutai.
85
Lindberg, Staffan I. ' «The surprising significance of African elections». In
Journal of Democracy. Vol. 17, N.º 1, 2006, p. 139.
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