Os Estados Unidos e a Primavera Árabe
O Departamento de Estado é o local adequado para assinalar um novo
capítulo na diplomacia americana Hoje gostaria de falar desta
mudança e de como podemos responder de forma a que desenvolva os
nossos valores e fortaleça a nossa segurança.1
O discurso de 19 de Maio de Barack Obama sobre as prioridades da política
externa no Médio Oriente e no Magrebe, descrito pelo Presidente como
assinalando um novo capítulo na diplomacia americana, pode ser visto como o
epílogo de um acidentado processo de reavaliação das prioridades da agenda
americana para o mundo árabe, imposto pela necessidade de resposta adequada à
explosão antiautoritária que abalou as ilusões de estabilidade de muitos
regimes árabes.
A nova agenda da Casa Branca parte da admissão de que uma estratégia baseada
unicamente na persecução de interesses nacionais estreitos ' o combate ao
terrorismo e à proliferação nuclear, a manutenção da liberdade comercial e da
segurança regional, a procura da paz entre Israel e o mundo árabe ' se tem
vindo a revelar insuficiente face aos desafios do presente. Reconhecendo que «a
negligência em considerar as mais amplas aspirações das pessoas comuns só faz
aumentar a suspeita, alimentada durante anos, de que os Estados Unidos
prosseguem os seus interesses à custa dos delas», o Presidente enunciou uma
estratégia de apoio às tendências reformadoras da região implementada em dois
eixos, um político e outro económico. Prometendo apoio prático aos processos de
transição para a democracia, na Tunísia e no Egipto, Obama anunciou programas
de modernização e investimento, ajuda à integração de mercados e à estabilidade
financeira, bem como, no caso do Egipto, o perdão da parcela americana da
substancial dívida externa contraída pelo regime deposto.
Apresentando o apoio aos esforços de democratização como sendo no interesse
nacional dos Estados Unidos, o Presidente afirmou-se «do lado dos que estão a
lutar pelos seus direitos, sabendo que o seu sucesso tornará o mundo mais
pacífico, mais estável e mais justo»2.
Até este discurso, a narrativa das hesitações americanas parece estruturada por
avanços e recuos, afirmações contraditórias em que membros da Administração
eram corrigidos por declarações de porta-vozes presidenciais3 e em que a
diplomacia americana parecia incapaz de prever o desafio seguinte a que teria
de responder, privada de um mapa estratégico e de um script consensual,
avançando por saltos qualitativos inesperados, como o surpreendente inflectir
de posições face à Zona de Exclusão Aérea sobre a Líbia.
Revisitar as críticas à política de Obama face à Primavera Árabe permite
identificar um conjunto de possíveis explicações para a aparente incapacidade
de resposta coerente por parte da sua Administração, que se podem resumir a
três hipóteses.
Os Estados Unidos teriam sido apanhados de surpresa por movimentações populares
dentro de regimes autoritários em que algumas das suas mais importantes
alianças regionais assentavam, um erro de omissão que sugeriria ou uma
insensibilidade particularmente aguda por parte do aparelho diplomático e de
outros serviços cuja função primordial é a de ler as dinâmicas das sociedades
observadas, ou, ainda mais grave, um grau de autismo analítico por parte dos
processadores dessas informações e dos decisores políticos que nelas se
baseiam.
A este défice cognitivo, alguns analistas acrescentam um preconceito analítico
que resulta de uma aderência a uma visão redutiva da região, mediada unicamente
pelas dinâmicas do conflito israelo-árabe e do combate ao islamismo extremista,
que necessariamente hipervalorizaria a estabilidade dos regimes aliados
(Egipto, Barém, Iémen) independentemente do preço pago internamente pelas
populações respectivas. O imperativo de sustentar essas alianças parecia
traduzir-se na contradição entre o apelo geral à iniciativa civil e ao respeito
pelos direitos humanos constante na Declaração do Cairo de 2009 e o pragmático
modus vivendi com regimes autoritários, que responderiam a cada tímida crítica
americana com o espectro da ameaça jihadista.
Uma terceira hipótese aponta para um retraimento político global; os Estados
Unidos de Obama teriam deixado de aspirar a um tipo de liderança internacional
mais característico de um sistema unipolar do que do sistema misto pré-
multipolar que se desenha, preferindo não tomar a iniciativa a menos que os
seus interesses nacionais estivessem em causa, substituindo o modelo
intervencionista da «nação indispensável» enunciado nos anos 1980 por Madeleine
Albright, por paradigmas multilaterais e alianças formais e informais que
reduzissem os riscos inerentes a uma liderança solitária.
Há inegavelmente um razoável valor explicativo nestas hipóteses, mas elas são
manifestamente inadequadas para explicar o percurso que conduziu ao discurso de
19 de Maio. Sem o enquadramento do debate interno no seio do Partido Democrata
e da Administração Obama, não parece possível compreender o significado das
palavras de Obama, nem prever as respostas americanas aos cenários que o futuro
próximo certamente gerará.
EMPENHO CONSTRUTIVO: RECUO DO IDEALISMO NA ADMINISTRAÇÃO OBAMA
Quando, em 2008, Madeleine Albright lamentava, no seu memorando ao Presidente
eleito, o facto de uma das vítimas da política da Administração Bush ser a
agenda da promoção da democracia, já que «quando falamos de democracia muitos
pensam no Iraque, que não é o modelo desejado por ninguém»4, os seus
comentários reflectiam uma preocupação comum tanto a intervencionistas liberais
como neoconservadores, de que uma nova administração se afastasse dos
parâmetros idealistas que, embora de formas diferentes, tinham pautado as
administrações Clinton e Bush. Outros liberais como Anne Marie Slaughter já se
tinham feito eco das mesmas preocupações. Slaughter alertara para a necessidade
de desmontar a aparente associação entre intervencionistas liberais e
neoconservadores através de uma clarificação meteorológica entre
«democratização ou mesmo promoção da democracia», que define como um processo
imposto ou impulsionado por forças externas a uma sociedade, e «apoio aos
democratas» dessa mesma sociedade, sem necessariamente «apelar a mudanças de
regime»5. A incapacidade de reabilitar o intervencionismo liberal do estigma
associado à agenda da promoção da democracia poderia conduzir, avisa Slaughter,
a uma conjuntura em que «os realistas poderão dominar de novo a agenda,
valorizando a ordem e a estabilidade acima das ideologias e dos valores»6.
É significativo que Barack Obama, geralmente associado pela opinião pública
internacional a uma retórica idealista, tenha utilizado, tanto nos seus ataques
à intervenção no Iraque antes da sua candidatura como durante as primárias, nos
debates com Hillary Clinton, uma retórica primordialmente realista, defendendo
a necessidade de «uma estratégia não definida pela ideologia e pela política
mas pela leitura realista dos factos no terreno e dos nossos interesses»,
explicando a sua oposição à Guerra do Iraque em termos «desse tipo de
realismo»7.
A distribuição de cargos na Administração Obama parecia indiciar a anunciada
retracção da agenda idealista. Enquanto algumas figuras de proa do
intervencionismo liberal (nomeadamente Samantha Power) foram nomeados para
cargos secundários, para os cargos dirigentes do Conselho Nacional de Segurança
(CNS) foram indigitados realistas tradicionais como Thomas Donilon. As
prioridades da política externa definidas pela Administração reflectiam o
sóbrio realismo do Conselho Nacional de Segurança ' restabelecer a reputação
dos Estados Unidos, sair o melhor possível do Médio Oriente e do Afeganistão e
virar a sua atenção para o que era verdadeiramente importante do ponto de vista
do interesse nacional ' a Ásia e a crescente influência internacional da China.
Por seu lado, no Departamento de Estado, Clinton combinava iniciativas de soft
power, nomeadamente nas áreas do apoio ao desenvolvimento, com um alinhamento
com a doutrina realista do CNS e sobretudo de Robert Gates8, o último
secretário da Defesa da Administração Bush que transitara para o Governo Obama,
promovendo uma doutrina de empenho construtivo em relação tanto a poderes
tradicionalmente hostis aos Estados Unidos como a países aliados não
democráticos.
O caso do Egipto é paradigmático das dificuldades tanto da admoestação e
pressão públicas como do empenho construtivo. Em 2005, quer George W. Bush quer
Condoleezza Rice tinham criticado abertamente o regime de Mubarak, pressionando
o Cairo no sentido da reforma política. Depois do referendo que mudava o
processo de eleição presidencial (da ratificação do candidato único nomeado
pelo Parlamento para uma eleição a que se podiam apresentar vários candidatos),
os Estados Unidos instaram publicamente o regime, nas palavras de Rice, a
«liderar e definir o futuro democrático do Médio Oriente» garantindo que o
processo fosse livre e justo, que a oposição tivesse «acesso aos media e que
houvesse um verdadeiro sentido de competitividade» durante a campanha9.
A corrupção desse processo eleitoral, com a exclusão à partida de alguns
candidatos, a não participação de algumas forças políticas que não confiavam na
sua integridade, a alegada manipulação dos resultados e a repressão que se
seguiu contra opositores, nomeadamente do candidato Ayman Nour, preso depois
das eleições apesar do desagrado manifesto dos Estados Unidos10, parecer ter
evidenciado os limites da influência da agenda da promoção da democracia da
Administração Bush quando aplicada a um regime aliado.
Mas o empenho construtivo, com a sua lógica de não ingerência nos problemas
internos dos estados, e inevitável silenciamento de críticas, que tanto sucesso
teve na melhoria das relações dos Estados Unidos com a Rússia e a China,
esbarrou no Egipto com as realidades de um tipo de poder que não pode tolerar
qualquer significativa mudança democrática, porque fazê-lo implicaria o seu fim
inevitável. Assim, os apelos de Obama em 2008 para o levantamento do Estado de
sítio em vigor desde 1967 foram ignorados, como o tinham sido os mais robustos
protestos de 2005. No discurso proferido no Cairo em 2009, a retórica da
aproximação com o mundo islâmico aborda a questão da democracia com a máxima
das prudências. Dizer aos dirigentes da região que se está consciente de
«existir uma controvérsia sobre a promoção da democracia... e que muita dessa
controvérsia está relacionada com a guerra no Iraque» para rematar com a
promessa de que «nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto a uma nação
por outra», sendo verdade por si mesmo, não deixa de acarretar uma mensagem
implícita de não ingerência, que só podia tranquilizar os regimes autoritários
da região. A paciência estratégica, resultado de um desejo de recomeçar as
relações com países hostis e aliados não democráticos, estendendo a mão aos
primeiros e estimulando os segundos à auto-reforma, delineada como uma nova
postura, sóbria, construtiva e «não moralista», viria no entanto a encontrar o
seu primeiro desafio significativo pouco tempo depois, na sequência das
fraudulentas eleições iranianas e da explosão antiautoritária da Revolução
Verde.
LIMITES DO EMPENHO CONSTRUTIVO E DA NÃO INGERÊNCIA
A história da resposta americana aos protestos no Irão parece cristalizada numa
imagem convincente ' a de um governo que mantém uma sóbria distância pública
dos acontecimentos, consciente de que um apoio declarado aos jovens opositores
de Ahmadinejad poderia destruir o apoio popular ao seu movimento, tirando-lhe
legitimidade, enquanto não publicamente tudo faz para facilitar a sua campanha
de desobediência. A narrativa é ilustrada pelo famoso exemplo da intervenção
junto da Twitter, pedindo que a companhia suspendesse a planeada operação de
upgrade que fecharia temporariamente o serviço que tão indispensável estava a
ser aos jovens iranianos. O único problema com esta narrativa é que ela não
conta toda a verdade. De facto, o jovem funcionário do Departamento de Estado
que tomou a iniciativa de contactar a Twitter violou, com esta diligência, o
que era ainda então a política oficial do Governo de «não interferência» na
política iraniana. Uma fonte da Casa Branca confidenciou recentemente à revista
New Yorker11 que o funcionário em causa quase perdeu o seu posto devido a essa
actuação, que contrariava o distanciamento que a Administração desejava manter,
quer para proteger o movimento da acusação de influência estrangeira, quer para
manter operativa a hipótese de um diálogo com o Irão.
No entanto, o debate interno que dividiu a Administração Obama durante a crise
iraniana deixou marcas profundas não só na burocracia governamental como no
próprio Presidente, em quem a prudência realista centrada na importância das
relações entre estados parece coexistir com alguma sensibilidade à realidade
das sociedades e dos povos. A insuficiência dos resultados da doutrina do
empenhamento construtivo e a aparente passividade perante a repressão da
revolta dos opositores iranianos forçou Obama a despoletar o processo de
revisão dos parâmetros da estratégia americana para o Médio Oriente que
culminou no discurso de 19 de Maio passado.
Num memorando interno de Agosto de 2010 intitulado «Reforma Política no Médio
Oriente e Norte de África», enviado a um conjunto de membros da sua burocracia
de política externa, o Presidente diagnostica a insatisfação que prevê vir a
traduzir-se em actos de revolta popular no Médio Oriente: «Há evidência», diz o
memorando, «de um crescente descontentamento dos cidadãos contra os regimes da
região» e é provável «que se as presentes tendências continuarem» os regimes
aliados «recorram à repressão em vez de à reforma para gerirem a sua
dissidência doméstica». O texto acrescenta que existe um perigo real para a
credibilidade regional e internacional dos Estados Unidos se «formos vistos ou
interpretados como apoiando regimes repressivos e ignorando os direitos e
aspirações dos cidadãos»12.
No mesmo memorando, Obama dá instruções ao CNS para iniciar um processo de
reavaliação da leitura americana da região, traçando uma estratégia sobre
reforma política detalhada, país a país, recalibrando a sustentabilidade do
tradicional apoio a regimes aliados na região com um impulso no sentido da
reforma dos mesmos.
Na sequência deste memorando, um grupo de estudo de que faziam parte tanto
defensores da agenda intervencionista, como Samantha Power, como peritos
experimentados no Médio Oriente com uma distinta folha de serviço a várias
administrações, como Dennis Ross, prepara um relatório detalhado que é
concluído em Dezembro de 2010, pouco tempo antes do início das manifestações na
Tunísia.
Não é portanto possível sustentar a teoria da surpresa. Os Estados Unidos não
só previram o que poderia vir a acontecer no Médio Oriente e no Magrebe, como
se procuraram preparar politicamente para uma resposta mais calibrada, que
partisse de uma visão mais alargada do interesse nacional, que incluísse
intangíveis como o prestígio e os valores. Mas entre as leituras detalhadas de
cada situação nacional e o traçar de uma política prática consensual dentro de
um governo e aparelho decisório dividido por tendências, filosofias e grupos de
interesse diferentes, há um vasto espaço em que hesitações, recuos e avanços e
equívocos parecem quase inevitáveis.
UM NOVO OLHAR SOBRE AS SOCIEDADES ÁRABES
Sinais da mudança em preparação cedo emergiram. Tendo passado quase
despercebido então, o discurso que Hillary Clinton profere em Doha a 13 de
Janeiro de 2011 ganha retrospectivamente um enorme significado.
Depois de um périplo pelo Iémen, Emirados Árabes e Omã, Clinton dirige-se ao
Fórum para o Futuro (um espaço de diálogo anual entre os Estados Unidos e o
mundo árabe estabelecido pela anterior administração), reunido em Doha, em
linguagem muito mais reminiscente da retórica da promoção da democracia do que
do realismo do empenho construtivo.
Depois de se ter encontrado com activistas regionais de organizações que lutam
pelos direitos humanos, Clinton critica a relutância de muitos regimes árabes
em proceder a reformas significativas, avisa-os de que «enquanto alguns países
deram grandes passos no sentido do bom governo, em muitos outros as pessoas
estão cansadas de instituições corruptas e de uma ordem política estagnada»,
exigindo «reformas que tornem os seus governos mais efectivos, mais atentos e
mais abertos». Num apelo directo à reforma, Clinton desafia os dirigentes
presentes a «ajudar a construir um futuro em que os vossos jovens acreditem,
que os faça ficar e que queiram defender», e insta-os a «verem a sociedade
civil não como uma ameaça mas como um parceiro»13.
As promessas de uma estratégia Obama para a promoção da democracia vão ser
testadas semanas mais tarde na Tunísia mas sobretudo no Egipto, onde as
incertezas da possível consequência de uma mudança temperaram a reacção
americana. No discurso do Estado da União, depois do afastamento de Ben Ali, e
no início dos protestos no Cairo, o Presidente americano parece distinguir
entre os manifestantes da Tunísia, que elogia como exemplo do poder das
aspirações democráticas de todos os povos, e os da Praça Tahrir, a quem não faz
ainda qualquer referência, sugerindo que o debate interno estava longe de ter
chegado a conclusões definitivas. Se o processo de decisão de qualquer
presidente é inevitavelmente marcado pelo espectro da analogia histórica, esta
administração parecia, durante a crise egípcia, sentir o peso de dois desaires
históricos que tinham manchado a presidência Carter ' a retirada tardia e
atabalhoada de apoio a autocratas no Irão e na Nicarágua, em que as hesitações
americanas tinham gerado o pior de dois mundos ' o derrube de ditadores pró-
americanos e a sua substituição, não por democratas pró-ocidentais, mas por
governos igualmente autoritários, desta vez hostis aos Estados Unidos. Por
outro lado, neste como noutros processos de tomada de decisão semelhantes, os
Estados Unidos tinham de ter em conta não só a imagem que projectavam do valor
que atribuíam aos seus aliados, como o desfecho provável da insurreição, já que
movimentações populares são altamente imprevisíveis podendo perdurar ou
deflacionar depois de um aparente crescendo.
Nestas condições e tendo em conta o padrão de decisões anteriores, a
Administração Obama (contra influentes sectores da opinião política
doméstica14) acabaria por abandonar Mubarak suficientemente cedo para parecer
ter sido instrumental na sua queda, preservando assim um razoável capital de
boas vontades que lhe poderão dar uma capacidade de influência nos futuros
desenvolvimentos no Egipto. Mas não deixa de ser significativo que, numa
reunião recente que Clinton teve com movimentos que organizaram a revolta da
Praça Tahrir, alguns grupos manifestamente pouco fluentes das complexidades do
Governo americano se tenham recusado encontrar-se com a secretária de Estado,
acusando-a pessoalmente de ter apoiado Mubarak, ao mesmo tempo que afirmavam
que Obama sempre os tinha apoiado, e que não teriam qualquer reserva em
conversar com o Presidente.
Parece assim evidente que as hipóteses do défice cognitivo e do preconceito
analítico não parecem ter o mesmo poder explicativo que uma leitura superficial
ou parcial do processo de decisão presidencial sugere. No entanto, a terceira
hipótese, a da retracção de um estilo de liderança global que caracterizou a
relação dos Estados Unidos com o resto do mundo desde o fim da II Guerra
Mundial, merece ser considerada com atenção.
ENCRUZILHADAS DE UMA LIDERANÇA AMBÍGUA
Se é errado olhar para as revoltas árabes triunfantes como uma só onda de
insatisfação, ignorando as dinâmicas das tensões sociais étnicas e tribais, a
distribuição de poder, o papel das forças armadas, a demografia dos opositores
em cada uma das sociedades, também não é possível, como a história recente está
a provar, traçar uma narrativa optimista em que a vitória antiautoritária é
inevitável e o progresso segue em linha recta. Vistas a meses de distância, as
insurreições da Tunísia e do Egipto assumem uma aura de romantismo
revolucionário se comparadas com a violência da Líbia, da Síria, para já não
falar do Barém e do Iémen, onde interesses americanos estão directamente em
jogo e a ambiguidade é mais evidente15.
O caso da Líbia ilustra claramente as tensões entre as alas realista e
idealista no seio da burocracia governamental americana, bem como uma acentuada
relutância em assumir uma postura tradicional de liderança.
É evidente que os interesses dos Estados Unidos na Líbia eram quase
insignificantes, aquando do início da campanha de contestação a Khadafi. A
Líbia apresentava também um cenário interno muito mais complexo do que a
Tunísia ou o Egipto, com um enfraquecimento efectivo de instituições do Estado,
substituídas por redes baseadas nas estruturas tribais e uma liderança rebelde
incoerente e difusa. Em comparação com o Egipto, onde o sucesso ou fracasso do
impulso democrático árabe se joga, a Líbia só podia ser lida inicialmente como
um cenário secundário. Como comentaria um diplomata do Médio Oriente, «O que
acontece na Líbia fica na Líbia, o que acontece no Egipto afecta toda a
região»16.
A brutalidade de Khadafi asseguraria que o que acontece na Líbia viria a ter
impacto global quando o «imperativo de proteger» populações civis empurra os
Estados Unidos para uma decisão que pareciam não querer ter de tomar ' a de
intervir de facto numa guerra civil, favorecendo um dos lados sobre o qual
pouco sabiam, numa intervenção militar de desfecho incerto. As pressões sobre a
Administração para que actuasse, apoiando a criação de uma zona de exclusão
aérea que implicava um acto de agressão militar, vinham não só dos
intervencionistas liberais como também dos sectores neoconservadores, que
descreviam como humilhante o embaraço de uma Administração incapaz de tomar uma
decisão a menos que, como apontaria Bill Kristol na Fox News, «um bando de
ditadores árabes nos peça que intervenhamos contra um ditador terrível».
Contra a intervenção alinhavam-se o aparelho militar, em especial o secretário
da Defesa Robert Gates, e quase todo o establishment crítico associado ao
estudo da política externa, nomeadamente o prestigiado Council on Foreign
Relations que chamava a atenção para os riscos do empenhamento americano na
zona de exclusão aérea, e para a indefinição da missão, em que o objectivo de
proteger a população de Benghazi de um massacre anunciado se confundia com o
desígnio não expresso de mudança de regime.
Quando a decisão de apoiar a zona de exclusão aérea foi finalmente tomada, a
capacidade negocial do Departamento de Estado, em particular da embaixadora
Susan Rice, garantiu os «dentes» que o enunciado inicial não tinha,
transformando uma resolução tímida numa autorização de uso musculado de força
militar no que, num sentido lato do termo, podia ser entendido como uma acção
preemptiva. Enquanto isso, Clinton persuadia a Rússia, que tinha avisado que
nunca apoiaria uma zona de exclusão aérea, a optar pela abstenção, calculando
que, sem o apoio russo, a China optasse por não exercer o direito de veto.
Mas se os episódios no Conselho de Segurança só foram possíveis pela qualidade
da diplomacia americana e pelo acumular de boas vontades que o engajamento
construtivo com a Rússia e a China gerara, os Estados Unidos pareciam de novo
empurrados para a liderança de uma intervenção militar em que tinham tentado
não se envolver. O espectro da analogia histórica com os massacres do Ruanda e
de Srebrenica ditou a urgência da acção (Obama quereria certamente evitar que o
seu mandato fosse manchado, como o de Bill Clinton foi, pela acusação de
negligência perante dois desastres humanitários) e só os Estados Unidos estavam
em condições de exercer poder militar de imediato.
O facto de terem passado o comando militar à NATO o mais depressa que foi
política e militarmente possível, não diminui o dilema que os Estados Unidos
parecem não poder evitar ' o de serem a «nação indispensável» sem a qual a
comunidade internacional não parece ser capaz de enfrentar crises de grande
dimensão.
Dizer que no caso da Líbia os Estados Unidos lideraram «indirectamente»,
levando o resto da comunidade internacional a prosseguir os seus objectivos sem
os terem de anunciar como seus é manifestamente insuficiente. Essa é certamente
a mais hábil de todas as lideranças, desde que se tenha um modelo claro do que
se quer que aconteça e um plano que outros possam adoptar. No caso da Líbia, as
circunstâncias não parecem favorecer a existência de um plano coerente, e as
duas alternativas que se parecem alinhar no horizonte ' uma participação mais
directa na guerra civil com o armamento dos rebeldes e envio de conselheiros
militares (o que obrigaria a uma interpretação do mandato do Conselho de
Segurança para além do que parece possível), ou a aceitação de uma divisão
efectiva do país, usando o modelo do Curdistão iraquiano ' são igualmente
intragáveis para os Estados Unidos e para a comunidade internacional.
Até que ponto um insucesso na Líbia dará um novo impulso às correntes realistas
na Administração Obama, contrariando os propósitos enunciados no discurso de 19
de Maio, é ainda uma incógnita. Nesse discurso, o Presidente pareceu
distanciar-se do objectivo de depor Khadafi, preferindo referir o facto de este
ter perdido o controlo do país e de a oposição ter organizado uma estrutura
legítima e credível. Ao contrário de vários países europeus, o Presidente não
declarou o Conselho Interino como o único representante do povo líbio, nem
ofereceu um cenário de endgame, protegendo-se claramente da perspectiva de um
fracasso ou do prolongamento do status quo.
Será pois no Egipto que o destino da doutrina Obama para promoção da democracia
no mundo árabe será posta à prova. Os obstáculos são muitos ' o timing do
processo eleitoral para o novo Parlamento planeado para Setembro é considerado
precipitado pelas forças políticas seculares e modernizantes que, ao contrário
da Irmandade Muçulmana e do Partido Democrático Nacional de Mubarak, têm de
adquirir aceleradamente a capacidade organizativa necessária a uma boa
prestação eleitoral. As reformas económicas sugeridas por Obama irão chocar com
os interesses das Forças Armadas que construíram ao longo de décadas um império
de influência, baseado no Ministério para a Produção Militar, que só encontrava
rival no império paralelo de Gamal Mubarak, agora dissolvido pelo Conselho
Supremo das Forças Armadas, e por si absorvido.
Mais importante do que o sucesso da incipiente doutrina Obama será certamente o
sucesso dos democratas no Egipto, na Tunísia, na Líbia, na Síria e em todos os
outros cenários onde velhos e novos ditadores se viram obrigados a lutar pela
sobrevivência contra os seus próprios povos. Mas ao aceitar o desafio de ajudar
a democratizar o Médio Oriente, Obama tem agora a oportunidade de provar que
pode ter sucesso onde George W. Bush falhou, prosseguindo os mesmos fins por
outros meios.
NOTAS
1 OBAMA, Barack ' «Speech at the State Department». [Consultado em: 19 de Maio
de 2011]. Disponível em: http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2011/05/19/
remarks-president-middle-east-and-north-africa
2 Ibidem.
3 O mais evidente destes equívocos envolveu o enviado especial ao Egipto Frank
G. Wisner, que, fazendo-se eco da política oficial da Administração no início
de Fevereiro, enunciou os argumentos para a necessidade constitucional de uma
transição liderada por Mubarak, viria a ser desautorizado pelo porta-voz da
Casa Branca então acompanhando a secretária Clinton numa conferência em
Munique, que afirmaria que as declarações do enviado presidencial eram as de um
cidadão privado. Clinton tinha dito precisamente o mesmo 10 dias antes,
acrescentada ser convicção dos Estados Unidos que o governo do Cairo era
estável e se esforçava por corresponder às necessidades e interesses legítimos
do povo egípcio.
4
ALBRIGHT, Madeleine ' Memo to the President Elect: How We Can Restore
America's Reputation and Leadership. Nova York: HarperCollins, 2088, p. 9.
5
SLAUGHTER, Anne Marie ' «Podhoretz's compliant». In Democracy Journal, Inverno
de 2008, p. 78.
6
Ibidem, p. 74.
7
Comunicação do senador Barack Obama ' «A Way Forward in Iraq», Chicago Council
on Global Affairs. [Consultado em: 20 de Novembro de 2006]. Disponível em:
http://www.swamppolitics.com/news/politics/blog/2006/11/
obamas_iraq_exit_strategy.html
8
Este entendimento entre Clinton e Robert Gates seria confirmado durante o
processo de revisão da política em relação ao Afeganistão, em que apoiou o
pedido de reforço significativo da capacidade militar no terreno defendido por
Gates e as Forças Armadas, em oposição às reservas publicamente expressas por
Richard Holbrooke, o enviado especial para o Afeganistão, e pelo embaixador
americano em Cabul.
9
RICE, Condoleeza ' American University of Cairo Speech. [Consultado em: 21 de
Junho de 2005]. Disponível em: http://articles.cnn.com/2005-06-20/world/
mideast.rice_1_sharm-presidential-election-rice-speech?_s=PM:WORLD
10
Rice suspenderia uma visita ao Cairo em protesto, e a Casa Branca viria a
emitir um protesto oficial após a sua condenação.
11
LIZZA, Ryan ' «The consequentialist: how the Arab Spring remade Obama's
foreign policy». In The New Yorker, 2 de Maio de 2011, p. 50.
12
Ibidem, p. 51.
13
Discurso de Hillary Clinton no Forum for the Future in Doha. [Consultado em:
13 de Janeiro de 2011. Disponível em: http://still4hill.wordpress.com/_2011/01/
28/worth-a-second-look-secretary-clintons-speech-of-jan-13-at-forum-for-the-
future-in-doha/
14
Um número significativo de ex-diplomatas e especialistas de várias áreas
políticas, entre eles Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski, instaram o
Presidente a não retirar o apoio a Mubarak, e importantes aliados como Israel e
a Arábia Saudita mostraram grande desconforto, embora por razões muito
diferentes, com a forma como a Administração abandonou o seu antigo aliado.
15
No Barém, os Estados Unidos têm de ter em consideração que o território serve
de base à sua 6.ª Frota do Mediterrâneo. No Iémen, o Presidente Saleh tem sido,
nos últimos anos, um precioso aliado americano na luta contra a Al-Qaida.
16
Cit. KLEIN, Joe ' «Washington's policy sandstorm». In Time. Vol. 177, N.º 12,
28 de Março de 2011, p. 14.
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