Euro: um futuro incerto
O euro foi posto à prova pela emergência da crise económica e financeira que
teve início em 2007. E de tal forma e com tal intensidade foi sentido o impacto
da crise na moeda única europeia que, passados pouco mais de onze anos desde a
sua criação ' anunciada com suposto carácter irreversível, como sempre sucede
nos projectos utópicos ' já muitos põem em causa a permanência do euro como
moeda das economias europeias.
A União Monetária revelou uma fragilidade que surpreendeu alguns mas que, na
realidade, tem uma explicação, quer na própria viabilidade do projecto em si
mesmo quer na forma como foi prosseguido. Essa fragilidade está longe de estar
ultrapassada e daí a importância de reequacionar os fundamentos do projecto de
criação de uma moeda única (ou melhor, tendencialmente única) na Europa.
Com efeito, à medida que a actual crise se vai desenrolando e que os
desequilíbrios dentro da zona euro se vão acentuando ' falando-se já
abertamente de possíveis saídas quer pela porta «alta» (Alemanha) quer pela
porta «baixa» (Grécia, Portugal) ' duas interrogações essenciais vêm ao
espírito: a) é a moeda única um projecto justificado?
b) É a moeda única um projecto estável e com futuro? Nenhuma das interrogações
tem resposta fácil nem sequer a primeira, aparentemente menos complexa.
O objectivo deste artigo é o de constituir um contributo ' desenvolvido numa
óptica de economista ' para ajudar a dar uma resposta às duas questões.
Qual a justificação, no plano económico, de uma moeda única para a Europa?
Não é muito fácil dar resposta à questão da justificação da moeda única. À
partida, podemos tentar encontrar uma justificação no plano económico ou no
plano político. No entanto, vamos ver que nenhuma destas justificações é
convincente.
A nível económico, existe justificação teórica para a criação de uma moeda
única para um espaço formado por diversas economias quando esse espaço cumpre,
ainda que aproximadamente, as condições de uma zona monetária óptima.
Nessas condições ' e só nessas ' a introdução de uma moeda comum aumenta a
eficiência na alocação de recursos e, portanto, permite às economias que
compõem a União Monetária desenvolverem-se em melhores condições do que se
mantivessem as respectivas moedas próprias.
Desde os trabalhos pioneiros de Robert Mundell
1
nos anos 60 do século passado que os economistas se têm esforçado por
encontrar, teoricamente, as condições para um espaço formar uma zona monetária
óptima. Embora, como sempre sucede, existam diferenças de opinião, os
economistas parecem estar de acordo, com bons argumentos, que existem três
condições necessárias (embora não provavelmente suficientes) para que um espaço
possa ser considerado uma zona monetária óptima: em primeiro lugar, que exista
plena liberdade de circulação dos factores produtivos com total flexibilidade
dos respectivos preços; em segundo lugar, que exista nesse espaço um orçamento
comum suficientemente importante para permitir utilizar as finanças públicas
para estabilizar as economias desse espaço em caso de sofrerem choques
assimétricos (isto é, uma situação adversa do ponto de vista macroeconómico que
não afecta todas as economias do espaço mas apenas uma ou uma minoria delas);
em terceiro lugar, que as economias que se vão integrar monetariamente tenham
entre si uma razoável dose de homogeneidade. Ora, no caso da União Europeia
nenhuma destas três condições necessárias se verificava na altura da moeda
única, nem sequer aproximadamente.
A plena liberdade de circulação de factores (trabalho e capital), embora
formalmente existente por força do Tratado de Roma e, posteriormente, reforçada
pela realização do mercado interno determinada pelo Acto Único Europeu (que
entrou em vigor no início de 1987), se existe em relação aos capitais, está
muito longe de ser a realidade no que respeita ao factor trabalho.
Quando falamos da integração monetária das economias europeias estamos a ser
redutores. Na realidade, trata-se de uma visão necessariamente unidimensional
que os economistas têm de adoptar para tentarem compreender um fenómeno tão
complexo como este. Porém, embora necessária, uma simplificação arriscada.
Porque, na realidade, e quando se fala das economias europeias, o que está
verdadeiramente em causa é a integração, não apenas de economias mas de
paísescom uma longuíssima história de vida em comum e de autogoverno.
Ora, nessas condições histórico-culturais, o trabalho não tende a circular de
forma perfeita, muito longe disso. As pessoas dão prioridade em encontrar
emprego no seu próprio país ' onde confiam na solidariedade familiar ' e só em
situação extrema de inexistência de oportunidades é que emigram. Os próprios
governos, por seu turno, tentam prosseguir políticas de incentivo ao emprego de
modo a evitar que os respectivos países se desertifiquem.
No que respeita aos preços dos factores, mais uma vez, o preço do trabalho, ou
seja, o salário, está muito longe da plena flexibilidade que a teoria considera
essencial para existir uma zona monetária óptima. Os mercados de trabalho, um
pouco por todo o lado, são regulamentados através de legislações bastante
diferenciadas, impedindo que os salários se ajustem da forma que a teoria
descreve, nomeadamente devido à rigidez à baixa dos salários nominais e à não
liberalização total dos despedimentos.
Em maior ou menor grau, regulamentações deste tipo existem por toda a Europa.
Nem se perspectiva que, dados os factores histórico-culturais a que há pouco
fiz referência, este incumprimento das condições de flexibilidade do factor
trabalho venha alguma vez a ser anulado.
Como se vê, a primeira condição necessária para a criação de uma zona monetária
óptima, hoje, como em 1999, estava muito longe de se realizar. Vamos agora à
segunda condição.
No que respeita ao orçamento comum, a pequeníssima dimensão do orçamento
comunitário (pouco mais de um por cento do PIB, que compara com 40 por cento ou
50 por cento no que respeita aos orçamentos nacionais) impede qualquer
utilização das finanças comunitárias para efeitos de estabilização das
economias quando estas sofrem choques económicos assimétricos (isto é, choques
que afectam as economias de forma diferenciada).
Portanto, também a segunda condição necessária, hoje (como em 1999), não se
verifica. Finalmente, a relativa homogeneidade requerida para uma zona
monetária óptima também está longe de se verificar. Para além dos factores
histórico-culturais que já referi, as diferenças de nível de rendimento e
principalmente de produtividade entre os países são, e já eram em 1999, de tal
forma pronunciadas que não se pode falar, a nível europeu, de homogeneidade
mínima para se poder criar uma zona monetária óptima.
Por isso, podemos concluir (e esta conclusão estava longe de ser novidade nos
debates havidos ainda antes da realização da união monetária) que nenhuma das
três condições necessárias para que a moeda única se justificasse no plano
económico se verificava. E, repare-se, ficámo-nos pelas condições necessárias.
Nem sequer tivemos de entrar nas eventuais condições suficientes.
Este afastamento das condições de eficiência tornava o projecto, à partida, uma
utopia política, sacrificando a saúde económica a projectos políticos
supostamente grandiosos. Voltaremos um pouco mais adiante a este aspecto.
Face a esta evidência de que o espaço da União estava muito longe de poder ser
uma zona monetária óptima alguns economistas ' com muito pouco discernimento,
diga-se de passagem ' defenderam que, embora à partida a União não fosse uma
zona monetária óptima, a instituição e o funcionamento da moeda única iriam
criar, eles próprios, as condições para que a União se transformasse
gradualmente numa zona monetária óptima.
Esta afirmação ' sem nenhum fundamento, nem na teoria económica nem do que se
sabe dos processos históricos de integração económica e monetária ' não tinha,
por isso, à partida, qualquer credibilidade. Sem surpresa, a evolução das
economias desde 1999 veio provar que a afirmação era efectivamente falsa. Hoje,
os países da zona euro não se aproximaram e formam um espaço porventura mais
afastado ainda das condições de uma zona monetária óptima do que era o caso em
1999. Tal é especialmente patente no que respeita às segunda e terceira
condições acima apontadas.
Alguns outros economistas, sem irem tão longe como os anteriores, defenderam e
continuam a defender que os custos de se criar o euro num espaço que não era, à
partida, um zona monetária óptima, existem, sem dúvida, mas que os benefícios
da criação da moeda única mais que compensam esses custos. É uma afirmação que
hoje é difícil de defender, principalmente para países como Portugal que estão,
no presente, significativamente pior do ponto de vista económico e financeiro
do que estavam em 1999.
A principal razão que era e é apontada para afirmar que os benefícios
sobrelevam os custos tem a ver com a suposta protecção que uma moeda como o
euro, de peso na esfera mundial, daria ao equilíbrio monetário e financeiro dos
países que compõem a união monetária, resguardando-os dos impactes
destabilizadores da globalização financeira.
Na realidade, a actual crise e as suas sequelas demonstram que tal não tem
sucedido. O euro foi incapaz de assegurar o equilíbrio cambial, monetário e
financeiro. Mesmo antes da crise, os altos e baixos da sua cotação face a
outras moedas eram disso sintoma. Depois da crise, casos como o da Grécia, de
Portugal e até da Espanha, que estão a atravessar uma das fases mais difíceis
de desequilíbrio financeiro da sua história recente, demonstram bem a
incapacidade do euro e das suas instituições de protegerem o equilíbrio
financeiro das diversas economias.
Para além disso, é evidente que se esta suposta capacidade protectora fosse a
verdadeira justificação para a criação da moeda única, seria muito pouco
razoável, uma vez que teria sido possível e preferível, mantendo as moedas
nacionais, criar um novo sistema monetário europeu que protegesse
suficientemente as economias nacionais sem os custos associados à enorme
rigidez que uma moeda única acarreta.
Uma cooperação monetária estreita, mantendo as moedas nacionais, mas criando
uma instituição financeira comum, dotada de elevados recursos, que permitisse o
apoio a essas moedas seria certamente uma solução muito mais eficiente se o
objectivo pretendido fosse o da protecção em relação aos efeitos da
globalização financeira (continuo a pensar, diga-se de passagem, que esta é,
talvez, a única solução adequada para o problema económico e monetário
europeu).
Aliás, o primeiro projecto de realização da moeda única, quando teve o seu
arranque (que abortou) nos finais dos anos 60 do século passado (dando origem
ao Relatório Werner de 1970), foi decidido no contexto de uma época em que a
instabilidade monetária e cambial e, portanto, a necessidade de protecção era
muito menor que na actualidade. Com efeito, a inexistência de liberdade de
circulação de capitais (que na União, no seguimento da realização do mercado
interno, só foi estabelecida em 1992) impedia a explosão, que depois ocorreu,
dos grandes movimentos especulativos e de inovação financeira ' que são os
grandes responsáveis pela instabilidade que, a nível mundial se foi gerando no
domínio monetário e financeiro, desde os meados dos anos 1990.
Todas estas circunstâncias provam, a meu ver de forma inequívoca, que a
justificação da moeda única não estava na criação do suposto escudo protector e
que tal justificação só foi adiantada pelos economistas que mencionei porque,
na realidade, não dispunham de melhores argumentos do ponto de vista económico
para explicar por que se razão se instituía uma moeda comum numa zona que não
era, nem sequer aproximadamente, uma zona monetária óptima.
Podemos pois concluir que, à partida, o projecto da moeda única não tinha
qualquer racionalidade económica. Não parece, aliás, que essa tenha sido a
verdadeira motivação da sua realização. Tentemos, então, encontrar as
motivações políticas que estão na base do projecto.
Qual a justificação da moeda única no plano político?
Do meu ponto de vista, a principal motivação política que esteve na base do
projecto da moeda única foi a de, através dele, criar um factor suficientemente
poderoso para impulsionar a integração política na Europa.
A integração política na Europa, em última análise e não tomando a sério toda a
retórica subjacente, é um projecto federalista que aponta para a criação, a
prazo, de um super-Estado europeu mais ou menos federal. Só a dificuldade em
lidar com os eleitorados dos estados europeus, na sua grande maioria
profundamente avessos à criação de um super-Estado, tem justificado, por parte
das instituições comunitárias, a utilização da expressão eufemística integração
políticaem vez de Estado europeuou Estados Unidos da Europa.
A integração monetária, de acordo com os adeptos do federalismo europeu, seria
um factor determinante da integração política, ou seja, da criação do Estado
europeu. De facto, confiavam que a necessidade de fazer funcionar a união
monetária, impusesse a criação de instituições federais (por exemplo, um banco
central único e um orçamento europeu com dimensão suficiente) que gerassem um
movimento irreversível na constituição de um Estado europeu. Por isso, mal a
moeda única foi criada, apostaram, para esse efeito, na aprovação de uma
constituição europeia de pendor federal, elaborada por uma convenção à
semelhança de alguns casos históricos de criação de um Estado federal. Muita da
retórica dos debates da malfadada Convenção Europeia (cujos trabalhos
terminaram em 2003) convocada para elaborar a constituição, que foi rejeitada,
mostra, de forma transparente, como a moeda única era considerada o impulso
final para fazer entrar a Europa numa dinâmica federal.
Consciente ou inconscientemente, o modelo histórico do federalismo é ou foi o
da unificação alemã
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. Começando a CEE por ser fundamentalmente uma união aduaneira (embora mais
avançada, pois foi à partida dotada de outras políticas comuns), à semelhança
da união aduaneira alemã (Zollverein) de 1834, a integração monetária levaria,
tal como na Alemanha, a sedimentar a união política.
Note-se, no entanto, que a integração monetária alemã, ao contrário do que
sucedeu na União Europeia é posterior em dois anos à unificação política
(realizada em 1871, quando a união monetária alemã é de 1873). Este aspecto,
que, contudo, faz toda a diferença, foi desvalorizado pelo federalismo, que
continuou a crer que o papel histórico do euro seria o de criar condições para
a unificação política europeia.
Se o projecto da moeda única tivesse sido impulsionado, apenas, pelos meios
federalistas, nunca se teria realizado, dado o carácter minoritário, já na
altura, das concepções federalistas (embora menos minoritário do que é na
actualidade, circunstância que os referendos que rejeitaram a constituição
europeia bem mostraram).
Na realidade, a moeda única só se realizou porque foi possível, na década de
1990, uma convergência (à partida extraordinariamente improvável) entre as
concepções federalistas e as concepções neoliberais, então em ascensão nos
meios ligados aos negócios e às entidades formuladoras da política económica.
Essa convergência traduziu-se, na prática, na criação de instituições da união
monetária em que se reflectem as principais concepções neoliberais que, em
última análise, apontam para que todo o ajustamento macroeconómico seja feito à
custa do factor trabalho (através do aumento do desemprego ou através da
redução salarial) pondo em causa a sobrevivência do chamado modelo social
europeu, uma possibilidade bem-vinda pelo neoliberalismo, que considera que o
modelo social europeu não é compatível com a globalização.
Explicar como foi possível uma convergência entre concepções tão diversas, como
sejam o federalismo, com fortes apoios na esquerda do espectro político e o
neoliberalismo, associado à direita desse espectro, não é o objecto do presente
trabalho. Tal como não o é o de explicar como foi igualmente possível que o
projecto da moeda única ' que em última análise, da forma como foi
concretizado, põe em causa o modelo social europeu ' pudesse, pelo contrário,
ter sido justificado como sendo a forma de garantir uma protecção dos europeus
e das suas conquistas sociais face aos impactos negativos da globalização.
A complexidade das motivações políticas de criação da moeda única, que é bem
patente nesta coligação contra naturamnão se fica, no entanto, por aqui.
Quando já estava em andamento o caminho para a moeda única (recorde-se que a
decisão do Conselho Europeu de Hanôver de encomendar a uma comissão de peritos
presidida por Jacques Delors um relatório sobre a forma de realizar a moeda
única é de 1988) dá-se a queda do Muro de Berlim (1989) e a posterior
reunificação alemã (1990). Quase por milagre, surgiu então uma outra
argumentação política a favor da moeda única, com, verdade seja dita, o seu quê
de bizarro.
Tratava-se agora de justificar a criação de uma moeda europeia como forma de
impedir que a super-Alemanha que surgia da reunificação se desinteressasse do
ocidente da Europa e, em consequência, se alargasse economicamente pela sua
área de expansão, suposta natural, ou seja, o leste europeu. Por estranha que
possa parecer esta argumentação, ela teve uma consequência de peso, que foi a
de levar a que todos os governos europeus aceitassem que as instituições
monetárias da moeda única e nomeadamente o Banco Central Europeu fossem criadas
à imagem das instituições alemãs, ou seja, se pautassem por regras
ultraconservadoras na sua acção.
Cedendo, desta forma, à inteligente chantagem alemã, mas criando, ao mesmo
tempo, uma fonte inesgotável de conflitos e antagonismos posteriores entre os
estados-membros, antagonismos que, sabemos hoje, estão a pôr em causa a
sobrevivência da união monetária. Simultaneamente, o conservadorismo extremo
das instituições da moeda única, à alemã, definidas que foram no Tratado de
Maastricht (1992) agradou também às concepções neoliberais, pois davam corpo às
suas concepções, o que permitiu reforçar a convergência neoliberal-federalista,
uma vez que os federalistas o que temiam acima de tudo era que a Alemanha se
desinteressasse da União.
Sem surpresa, os eleitorados dos estados europeus que, prioritariamente,
pretendem conservar o seu estado social e que são muito cépticos em relação às
ideias federalistas, pronunciaram-se ' aqueles que foram solicitados para o
efeito ' de forma pouco entusiástica sobre a realização da moeda única e as
respectivas instituições. Foram estas as principais tendências políticas que se
cruzaram nas decisões relativas à criação de uma moeda europeia e à forma que
deveriam assumir as instituições que iam gerir essa integração monetária: uma
convergência precária entre as correntes federalista e neoliberal e uma
argumentação embrulhada relativamente à posição da Alemanha reunificada.
Aparentemente poucos se terão preocupado com o facto de as instituições, tal
como foram criadas, irem reforçar ainda mais a posição da Alemanha ' pois era
verdadeiramente o único país, de entre os maiores da União, para os quais as
instituições monetárias eram adequadas ' e portanto permitir-lhe ainda mais
facilmente a expansão económica para leste. Menos ainda se terão interrogado se
a união monetária então criada teria condições efectivas de sustentação.
É justamente esta questão que abordaremos a seguir.
As condições de sustentabilidade da zona euro
A falta de justificação económica da integração monetária, como seria de
esperar, tem gerado disfunções importantes nas economias europeias que, não
sendo causadas pela crise, esta tornou muito mais evidentes.
De facto, até ao momento, a moeda única está longe de poder ser considerado um
projecto bem-sucedido. Nos onze anos de existência o euro não resolveu nenhum
problema económico europeu importante, agravou alguns e fez surgir outros.
Assim o crescimento económico na zona euro desacelerou fortemente na última
década face à anterior, o desemprego continuou em níveis elevados (actualmente,
mesmo, muito elevados), agravaram-se os défices comerciais com o exterior da
União por parte das maiores economias europeias (com excepção da Alemanha) e
surgiu um problema gravíssimo de sustentabilidade financeira de estados do Sul
da Europa, com origem em grande parte na inadequação das instituições da zona
do euro.
Uma boa parcela destes desequilíbrios tem, com efeito, directamente a ver com a
moeda única e com a ausência de mecanismos de reacção a choques assimétricos,
ausência que se faz sentir, justamente, num momento crucial da economia
mundial, em que o impacto da aceleração da globalização faz acentuar a dimensão
e frequência dos choques assimétricos.
Feito este breve diagnóstico, é a altura de olharmos então para a questão que
pusemos, ou seja, da sustentabilidade da moeda única.
Há fortes razões para admitir que, a não haver alteração significativa das
regras de funcionamento, a união monetária se poderá desintegrar a prazo não
muito longo. Em primeiro lugar, uma razão de carácter geral. A experiência
histórica demonstra que subordinar a economia a uma utopia política leva
normalmente a uma situação tal em que o mau funcionamento da economia põe em
causa todo o projecto utópico que deveria servir. É dispensável elencarmos os
múltiplos exemplos que existem. Por isso, a utopia federal europeia poderá ela
também levar a uma séria regressão da economia e da própria aceitação da ideia
de integração europeia em diversas zonas da Europa. Em segundo lugar, a falta
manifesta de condições políticas impede que se avance no sentido do federalismo
fiscal (ou seja, da utilização das finanças comuns para combater choques
assimétricos e estabilizar as economias), uma das condições necessárias para
uma união monetária poder funcionar, como vimos no início.
Aliás, não é por acaso que esta foi uma das condições mais difíceis de realizar
no processo de unificação alemã no século XIX
3
e só se conseguiu muito depois da integração política e da integração
monetária, originando sérios problemas de funcionamento das instituições.
Alemanha que, convém salientar, partia de uma integração política já realizada
e cujo Estado emanava de uma verdadeira nação e que mesmo assim atravessou
sérias dificuldades no processo. Sem integração política ' ele própria
bloqueada devido à inexistência de uma nação europeia ' a União Europeia não
tem qualquer possibilidade de avançar no federalismo fiscal.
Em terceiro lugar, não faz qualquer sentido económico dotar o espaço da União
de uma política monetária e cambial única para economias tão díspares como, por
exemplo, a economia alemã ou a economia portuguesa. A taxa de câmbio do euro em
relação às restantes moedas mundiais, se for adequada para a economia alemã,
não será certamente adequada para a economia portuguesa e vice-versa. Este tem
sido o principal veículo de efectivação da responsabilidade da moeda única no
processo de agravamento, sem precedentes nos tempos modernos, do desequilíbrio
financeiro de alguns estados.
Em quarto lugar, as instituições da moeda única são extraordinariamente
deficientes. Por um lado, o seu ultraconservadorismo leva a que exista um
enviesamento recessivo na zona euro, uma vez que a prioridade é dada ao combate
à inflação em claro prejuízo do crescimento económico e do emprego. Por outro
lado, as regras estabelecidas não prevêem qualquer forma de permitir que um
país que entre em défices continuados da sua balança de pagamentos venha a
reverter a situação. A ausência de moeda própria obriga a que o instrumento
normal a utilizar, que seria a desvalorização cambial, não exista. Pelo que um
país, por ausência de instrumentos de actuação, se vai endividando
progressivamente em relação ao exterior até que esse processo tenha fim quando
o nível de endividamento atinge o limite a partir do qual o crédito dos bancos
e outras instituições financeiras internacionais deixa de fluir para o país,
seja para o respectivo Estado, seja para os agentes económicos privados. Segue-
se um ajustamento que só poderá ser feito através de uma recessão profunda e
com consequências que são difíceis de prever. A Grécia terá entrado nessa fase
em resultado da falta de crédito público e Portugal não está muito longe dela
no que respeita ao financiamento total da economia, público e privado.
Em quinto lugar ' e é um aspecto que, do meu ponto de vista, não tem sido
suficientemente salientado ' o ultraconservadorismo das políticas económicas
ligadas à moeda única (tal como são plasmadas nos estatutos do Banco Central
Europeu e no Pacto de Estabilidade e Crescimento) e o consequente impacto sobre
o modelo social europeu tem alienado parte importante dos eleitorados europeus,
nomeadamente os que têm mais simpatia pelas concepções de esquerda, sendo hoje
visível que o colete-de-forças comunitário nesta matéria impede os governos de
seguirem políticas menos conservadoras.
A prazo, isto significa que o apoio dos cidadãos ao projecto terá tendência a
decrescer uma vez que, à partida, sensivelmente metade do eleitorado do
conjunto dos estados europeus não se identificará com as políticas
prevalecentes. Esta é uma alteração significativa das condições políticas de
sustentabilidade da integração europeia pós-Maastricht face ao que foi o
processo nos seus primeiros trinta e cinco anos de vida, que reunia apoios da
esquerda e da direita do espectro político.
Por todas estas razões, é de crer que o projecto da moeda única, nas condições
actualmente prevalecentes, não se consiga estabilizar.
Esta eventualidade é cada vez mais previsível se tivermos em conta as lições
que se podem retirar do recente caso grego. As dificuldades da economia e das
finanças gregas (e também em menor grau as da Espanha e de Portugal) levaram a
que toda a zona euro se ressentisse em resultado dos consequentes ataques ao
euro. Isto foi uma grande lição. Significa que para uma união monetária ser
estável é necessário que todos os países tenham condições para eles próprios
estabilizarem financeiramente as suas economias, antes dos problemas se
tornarem quase irresolúveis.
De outra forma, será toda a zona que sofre, mesmo que as dificuldades surjam
num país de relativamente pequena dimensão. Ora, como as instituições da zona
euro actualmente existentes não permitem que esta estabilização se faça de
forma eficaz e não se vê grande possibilidade do problema ter solução numa zona
de uma moeda única aplicada a economias tão diferenciadas, é o futuro do euro e
da própria União Europeia que está em risco. Para já, para evitar o desastre
imediato, foi necessário que o Banco Central Europeu, em clara violação do
espírito dos seus estatutos, financiasse de forma indirecta a dívida dos
estados europeus. Mas esta é uma situação que não é susceptível de se repetir
permanentemente. Ao mesmo tempo, é mais que provável que o colete-de-forças da
moeda única não permita às economias menos competitivas da União ganhar a
competitividade que lhes permita aguentar os embates da globalização. Por isso,
é previsível um agravamento ainda mais acelerado das desigualdades e dos
correspondentes antagonismos no espaço comunitário, entre um Norte mais
competitivo, para o qual o euro e as respectivas instituições são adequados, e
um Sul em dificuldades económicas e financeiras, dificuldades crescentes até
atingirem um certo limite, a que se seguirá uma recessão profunda e prolongada.
Não é por isso imprevisível que a zona euro tenha de enfrentar em breve, como
disse no início, a possibilidade de saída de um ou outro Estado, seja pela
porta alta, seja pela porta baixa, pois não parece possível acomodar economias
tão estruturalmente diferentes em políticas macroeconómicas únicas.
Por custoso que seja este cenário (e a verificar-se terá custos muito grandes)
é preferível que ele se encare desde já, porque não é ignorando-o que se
conseguirá prolongar de forma artificial um projecto que não tem nem condições
políticas, nem económicas para se sustentar. Se nada se fizer, quanto maiores
forem as tensões acumuladas maior será o desastre quando o momento da verdade
chegar.
Quando nasceu, o euro foi apresentado, com pompa e circunstância, com sendo uma
moeda para a Europa. A verdade é que dificilmente conseguiremos encontrar uma
Europa para o euro.
Notas
1
MUNDELL, R. A. ' «A theory of optimum currency areas». In American Economic
Review. Vol. 51, Nº 4, 1961.
2
AMARAL, João Ferreira do ' «O impasse da Europa: o esgotamento do Zollverein».
In Novas Fronteiras da União Económica e Monetária. n.º 1, Centro Jacques
Delors, 1997
3
JAMES, Harold ' «Monetary and fiscal unification in nineteenth century Germany:
what can Kohl learn from Bismarck». In Essays in International Finance.
Princeton University, 1997, p. 32.
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