História e Política Externa
História e Política Externa
Thiago Carvalho
Investigador do IPRI-UNL e do Centro de Estudos de História Contemporânea
Portuguesa (CEHCP). Mestre em História das Relações Internacionais pelo ISCTE,
prepara actualmente uma tese de doutoramento sobre as relações luso-brasileiras
entre 1968 e 1985.
Luís Machado Barroso, Salazar e Ian Smith. O Apoio de Portugal à Rodésia (1964-
1968).Lisboa, Instituto Diplomático, 2009, 191 pp.
As relações entre Portugal e a Rodésia, no período que vai de 1964 a 1968,
foram marcadas pelo apoio político e diplomático de Lisboa ao Governo de Ian
Smith. Na perspectiva portuguesa, a sobrevivência do regime de minoria branca
rodesiano era fundamental para assegurar um equilíbrio de forças favorável em
Angola e em Moçambique. Contrariando as pressões internacionais lideradas pela
aliada Inglaterra, o Governo português não só recusou sancionar a Rodésia, como
actuou de modo determinante para a viabilização da sua independência
unilateral.
Nos últimos anos, a historiografia portuguesa atribuiu atenção ao estudo do
posicionamento de outros países face à questão colonial. O trabalho de Luís
Barroso constitui uma mais-valia ao incorporar a esta análise a relação entre
Lisboa e Salisbúria, revelando como o vínculo bilateral assumiu importância
geoestratégica para os dois países. Em primeiro lugar, o autor demonstra que,
para além de ambicionar o reconhecimento e o apoio externo, a diplomacia
portuguesa também conseguia influenciar o sistema internacional, alterando os
equilíbrios regionais. Em segundo, Luís Barroso relativiza o isolamento de
Portugal, reforçando a perspectiva avançada por outros autores de que ocorreu
um redimensionamento das alianças internacionais do país, que se deslocaram do
eixo anglo-saxónico para a Europa ' França e Alemanha ' e para a África ' em
especial com os regimes de minoria branca, como a Rodésia. Em terceiro, apesar
de dispor de meios limitados para apoiar o Governo de Ian Smith contra o
embargo internacional que lhe era imposto, Portugal potencializou a capacidade
de influência que a geografia oferecia ao facultar à Rodésia o acesso ao
Índico. Esta decisão, que poderia resultar no aumento da hostilidade
internacional contra Portugal, é elucidativa de como a manutenção do império
colonial na África constituía o centro de gravidade da política externa
nacional. A independência do Malawi e da Zâmbia era percepcionada em Lisboa
como uma ameaça à luta contrasubversiva desenvolvida em Angola e Moçambique e
por isso importava auxiliar a sobrevivência do Governo de Salisbúria. O estudo
da relação luso-rodesiana concorre para a compreensão de como Portugal pôde
resistir a treze anos de guerra colonial e chama a atenção para a importância
da diplomacia na manutenção da presença portuguesa na África. A obra em análise
tem o mérito de revelar o quão importante foi o apoio de Salazar para a
sobrevivência do Governo de Ian Smith e o papel central que o
hinterlandrodesiano assumiu na defesa dos interesses portugueses na África
Austral.
Carlos Fico, O Grande Irmão. Da Operação Brother Sam aos Anos de Chumbo. O
Governo dos Estados Unidos e a Ditadura Militar Brasileira.Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 2008, 334 pp.
Carlos Fico tem desenvolvido um sólido trabalho de investigação sobre a
ditadura brasileira (1964-1985), contribuindo de modo significativo para
colmatar a lacuna existente na historiografia sobre o período. A obra em
questão centra-se nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil no período
que vai de 1964 a 1973, analisando as cumplicidades e dissensões entre a
Administração norte-americana e o regime militar brasileiro.
Um dos grandes méritos do livro é demonstrar como o apoio de Washington a
Brasília foi marcado por momentos de hesitação, sobretudo à medida que cresciam
as críticas internacionais às arbitrariedades da ditadura e que diminuía a
importância relativa do Brasil no contexto da Guerra Fria. Apesar de apoiar os
militares insurrectos, antes e após o derrube do governo constitucional, os
Estados Unidos mantiveram alguma equidistância em relação ao curso dos
acontecimentos. Para parte das elites brasileiras, que desde a II Guerra
Mundial aspiravam por uma relação privilegiada com os Estados Unidos, a posição
ambígua de Washington foi decepcionante e concorreu para reforçar o
nacionalismo antiamericano. O progressivo arrefecimento das relações bilaterais
não decorreu apenas da implementação de uma política externa autonomista por
Brasília, mas da conjuntura internacional que levou ao redimensionamento dos
interesses norte-americanos no subcontinente.
O envolvimento dos Estados Unidos no golpe de Estado brasileiro é elucidativo
do empenho norte-americano em manter a América Latina sob a sua órbita de
influência e explica, em parte, a sua participação nas várias conspirações de
direita que ocorreram no subcontinente nos anos seguintes. Apesar do apoio de
Washington ter sido relevante para o eclipsar da democracia brasileira, Carlos
Fico elucida que sem o consentimento e o empenho de segmentos civis e militares
nacionais a acção norte-americana teria ficado muito aquém do pretendido. Esta
análise demonstra não só o grau de complexidade na relação entre os
intervenientes dos dois países, como mitiga as responsabilidades externas no
estabelecimento do regime de excepção no Brasil.
Dos poucos reparos ao livro, entendemos que teria sido oportuno contrapor a
documentação norte-americana à brasileira e recorrer a um corpo documental
diversificado, com o propósito de apreender as diferentes sensibilidades
existentes em Washington e introduzir uma dimensão comparativa que talvez
proporcionasse uma interpretação ainda mais complexa do objecto. Apesar disso,
é inquestionável a importância do trabalho de Carlos Fico para a compreensão
não só das relações entre Brasília e Washington ' revelando as suas
contradições e assimetrias ' como das respectivas políticas externas. O autor
oferece uma análise fina das aspirações brasileiras em ver reconhecido, por
Washington, o seu estatuto internacional. Por sua vez, o Brasil tinha uma
importância relativa na agenda diplomática norte-americana, que diminuiu à
medida que a América Latina deixava de ser uma prioridade para a manutenção do
frágil equilíbrio bipolar.
Estevão C. de Rezende Martins e Miriam Gomes Saraiva (org.), Brasil-União
Europeia-América do Sul (Anos 2010-2020).Rio de Janeiro, Fundação Konrad
Adenauer, 2009, 267 pp.
A parceria estratégica celebrada entre a União Europeia (UE) e o Brasil,
durante a Cimeira de Lisboa (2007), consistiu num sinal de reconhecimento da
actuação da diplomacia brasileira, nomeadamente no que diz respeito à promoção
da estabilidade e do diálogo regional. Neste contexto, a parceria estratégica
assume um significado mais profundo se considerarmos que as relações entre a UE
e o Mercosul se encontram num impasse desde 2004 e que o Brasil tem consolidado
a sua liderança no subcontinente.
Em boa hora a Fundação Konrad Adenauer, em parceria com as universidades de
Brasília e do estado do Rio de Janeiro, acolheu a publicação da obra em análise
que reúne uma série de contributos produzidos para o colóquio internacional
«Brasil-União Europeia-América do Sul (Anos 2010-2020)». O objectivo do livro é
reflectir sobre a natureza e potencialidades desta relação triangular,
procurando estabelecer uma plataforma de debate que atenda aos desafios que se
colocam.
O livro está dividido em três partes. A primeira diz respeito à actuação do
Brasil enquanto membro do Mercosul e parceiro da UE, e reflecte sobre a tensão
inerente desta relação. Até que ponto pode evoluir a parceria estratégica entre
um Estado e uma organização multilateral? Em que medida é viável a parceria
bilateral entre países membros de blocos regionais? Quais têm sido os elementos
de continuidade e de mudança do Brasil face à UE e ao Mercosul? A segunda parte
centra-se nas rivalidades e convergências que podem surgir nesta relação
atlântica. São analisados: o relacionamento da UE com a Rússia e com os Estados
Unidos - nos marcos da NATO; as potencialidades e condicionalismos da liderança
regional brasileira; o estado da cooperação interparlamentar e os problemas de
representatividade existentes nos dois blocos. A terceira parte versa sobre
questões conceptuais do Estado - tanto no que diz respeito ao seu funcionamento
orgânico, quanto ao seu comportamento externo - considerando as condicionantes
constitucionais nos processos de integração regional.
No momento em que o relacionamento entre a UE e o Mercosul apresenta um baixo
perfil, a parceria estratégica com o Brasil é vista como um elemento
catalisador dos vínculos entre os dois blocos regionais. Menos evidente é como
compatibilizar a relação bilateral com a interregional e avaliar até que ponto
ela será capaz de desbloquear e fortalecer o diálogo entre a UE e o
subcontinente. A obra em questão apresenta algumas respostas e muitas pistas
para estas e outras interrogações acerca da relação Brasil-EU-América do Sul,
oferecendo subsídios importantes para a compreensão da política externa de cada
um dos intervenientes e dos sentidos do vínculo triangular.
David J. Francis (org.), US Strategy in Africa. Africom, Terrorism and Security
Challenges.Londres, Routledge, 2010, 224 pp.
A decisão da Administração Bush de criar um comando militar norte-americano
específico para o continente africano (Africom), em 2007, suscitou grande
controvérsia. Apesar de os Estados Unidos defenderem que o Africom representa
uma estratégia de defesa a longo prazo, que conjuga a segurança e o
desenvolvimento socioeconómico, a ênfase na cooperação militar deu azo a
inúmeras desconfianças quanto às reais intenções de Washington. Os seus
críticos receiam o impacto daquilo que julgam ser a progressiva militarização
da política externa norte-americana na África e que o continente seja novamente
transformado em palco de disputas entre potências, agora entre os Estados
Unidos e a China.
O empenho de Washington e a intensidade das reacções surpreendeu e despertou a
atenção da comunidade académica sobre o Africom. Com o propósito de esclarecer
estas questões e fomentar o debate, o editor da obra em análise, David J.
Francis, propôs uma abordagem holística ao objecto, que conjuga a opinião de
intervenientes políticos e académicos. Reunindo autores com percursos tão
diferentes como a secretária de Defesa adjunta dos Estados Unidos, Theresa
Whelan, e o director do African Security Research Project, Daniel Volman ' que
se tem distinguido nas críticas feitas ao comando ' a obra proporciona um
conjunto de perspectivas distintas mas ao mesmo tempo complementares sobre o
Africom.
O livro está dividido em duas partes. Na primeira, são analisados os
antecedentes à criação do comando e o debate à volta da sua concepção,
procurando compreender o seu significado geoestratégico e a crescente
importância que o continente africano assume na agenda de defesa e de segurança
dos Estados Unidos. A segunda parte diz respeito à reacção africana à
iniciativa norte-americana, com especial atenção para as respostas locais face
aos desafios colocados no domínio da segurança e do desenvolvimento
socioeconómico e para o impacto do comando militar na relação entre os Estados
Unidos e a África.
Num momento em que a bibliografia existente sobre o Africom ainda é diminuta, a
presente obra constitui uma mais-valia, e mesmo um título de referência para
todos os interessados nas questões da segurança e defesa, na política externa
norte-americana e no futuro do continente africano. O mérito é dos autores e do
editor que souberam congregar perspectivas tão diversas sobre o assunto num
mesmo livro. O resultado é uma análise equilibrada do Africom que abrange o
objecto na sua complexidade.
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