Os brics e África: Dois lados da mesma moeda
RECENSÕES
Os brics e África.Dois lados da mesma moeda
Pedro Seabra
Doutorando em Política Comparada pelo Instituto de Ciências Sociais-
Universidade de Lisboa (ICS-UL) e Investigador Visitante do Instituto de
Relações Internacionais-Universidade de Brasília (IREL-UnB).
Ian Taylor, Africa Rising?BRICS - Diversifying Dependency,Suffolk: James
Currey, 2014, 194 páginas.
Pádraig Carmody, The Rise of the BRICS in Africa: The Geopolitics of South-
South relations,Londres/Nova Iorque: Zed Books, 2013, 176 páginas.
Um quadro global de crescente demanda pela inclusão de novos polos de decisão,
qualquer tentativa de posicionar África neste contexto tem resultado,
invariavelmente, num exercício de soma zero, em que a adição de quaisquer novos
intervenientes no continente é perspetivada como implicando uma perda
significativa para os interesses preestabelecidos de potências associadas à
manutenção da atual ordem internacional. Com frequência, o enfoque é colocado
na presença chinesa em África bem como na sua diversificação de instrumentos de
apoio ao desenvolvimento, por norma, inter-relacionados com interesses pela
extração de recursos minerais locais1. No entanto, e mais recentemente, o
interesse por novas categorias de análise que agreguem um número crescente de
potências emergentes, tem despertado o interesse de novos trabalhos de fundo
sobre o tema. Nesse sentido, os brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do
Sul), em particular, surgem como uma sigla extremamente apelativa, suscitando
posições quer mais entusiastas quer mais comedidas sobre o seu efetivo alcance
e capacidade de atuação2.
Com The Rise of the brics in Africa: The Geopolitics of South-South Relations e
Africa Rising?BRICS - Diversifying Dependency, qualquer observador atento
destas realidades é assim convidado a aderir a duas visões que, embora
diametralmente opostas com relação à viabilidade dos brics enquanto conceito
operacional, versam simultaneamente sobre a atuação desse grupo de países em
África bem como sobre as potencialidades e/ou perigos que os seus mecanismos de
inserção e expansão acarretam para o continente3.
DUAS VISÕES DOS BRICS EM ÁFRICA
Das duas obras, Pádraig Carmody assume indiscutivelmente uma posição mais
abonatória deste novo conjunto de dinâmicas. Ao se debruçar sobre a suposta
criação em curso de um imaginário regional distinto (por ele denominado de
"espaço do Sul"), o autor procura contextualizar a presença dos
brics em África no contexto de uma globalização evolutiva, enquanto elemento
coletivo distinto e, por vezes, até bem-vindo face a outros atores, com
ligações prévias ao continente. Carmody encontra, aliás, nas diferenças
estruturais internas dos brics, a razão do seu apelo e do seu contributo
positivo para a presente ordem internacional e, por inerência, para o próprio
continente africano. A ascensão de tais países - ansiosos pelo acesso a
mercados e recursos africanos, ele reconhece, mas menos prescritivos e
intrusivos quanto à substância concreta das políticas económicas adotadas a
nível local (p. 133) - em conjunto com a consolidação de um mundo
multipolar é por isso assumida como quase absoluta numa lógica prospetiva de
médio prazo. Ironicamente, a obra de Carmody posiciona-se como um alvo fácil
para Ian Taylor que não se coíbe de criticar agudamente a "moda" em
torno de tal imparável ascensão dos brics. Com efeito, o argumento de Taylor é
claríssimo: no seu entender, qualquer pretenso automatismo de vantagens para
África subjacente à troca de relações privilegiadas com o Ocidente por maiores
interações com os brics, é ilusório e tem sido alimentado por uma retórica
mediática que mascara uma relação de dependência económica, em tudo igual
àquela que tem caracterizado de forma sustentada o desenvolvimento africano
contemporâneo. É demonstrado assim como muito do renovado interesse em África,
amplamente mediatizado, se baseia sobretudo na exportação de recursos minerais
para as potências emergentes do Sul, o que permite adivinhar a manutenção da
posição de subordinação do continente face à economia global (p. 153). Um
argumento reforçado por referências ocasionais a Marx e a Lenine que podem
surpreender os mais insuspeitos mas que são habilmente utilizadas para traçar
paralelos entre o percurso atual dos brics e relações de dependência passadas,
entre potências coloniais e África. Nos dois casos, as obras seguem uma
estrutura de análise semelhante, dividida por estudos individualizados de cada
um dos brics com relação a África. É discutível uma exceção notória: Taylor
opta por não abordar a África do Sul, argumentando que a sua inclusão nos brics
corresponde a um "acidente de geografia" (p. 17) e não a uma
verdadeira economia emergente. No que concerne aos restantes países, no
entanto, as diferenças encontram-se mais ao nível do tom adotado do que
propriamente do conteúdo apresentado.
Com efeito, relativamente ao Brasil, ambos os autores reconhecem tanto os
vínculos histórico-culturais bem como as dinâmicas políticas internas na base
do atual investimento político e económico em África ao mesmo tempo que
salientam o aproveitamento dessa relação com vista a objetivos maiores de
representatividade internacional e a falta de capacidades materiais suficientes
para enfrentar outros competidores (i. e. a China) pelos mesmos mercados no
continente. A Rússia, por sua vez, é apresentada como o elemento mais
desconectado de África, tentando recuperar a credibilidade perdida no pós-
Guerra Fria e ainda extremamente dependente do comércio de armas com inúmeros
países africanos. Contudo, Taylor sugere um elemento adicional interessante ao
apontar o "viés europeu" com que a Rússia observa África,
procurando concentrar os seus investimentos em potenciais ou atuais
fornecedores de energia africanos à Europa, assegurando assim a manutenção do
seu protagonismo nesta área em múltiplas frentes. Por outro lado, e como que
acusando a crescente atenção pública, a presença chinesa em África acaba por
merecer uma visão relativamente realista de parte a parte. Com efeito, se
Cardogy faz uso do caso da Zâmbia para demonstrar as diversas vertentes da
China em termos de iniciativa pública e privada (pese embora a sempre difícil
distinção entre uma e outra), Taylor, por sua vez, ambiciona um equilíbrio
periclitante entre a desconstrução das particularidades do "modelo
chinês" face às propostas do Ocidente e a desmistificação de um suposto
"neocolonialismo" associado às suas ações no terreno. Final-mente,
ambos os autores optam ainda por salientar de forma bastante crítica o papel da
Índia, quer em termos de política de aquisição de terras no continente quer em
termos das fragilidades internas do próprio processo de desenvolvimento
indiano, com reflexos numa eventual estratégia consistente relativamente a
África. Independentemente da sequência de lei-tura, as duas obras almejam
apresentar-se como guias incontornáveis para melhor compreender estas dinâmicas
em evolução, se bem que com diferentes bases de sustentação. O nível de detalhe
de Taylor e o recurso a inúmeros dados quantitativos de múltiplas fontes
institucionais, por exemplo, não encontram paralelo no trabalho de Cardogy.
Contudo, é também possível questionar se a criação recente do banco dos brics e
a expectativa eufórica gerada quanto à utilização das suas futuras linhas de
financiamento com vista ao desenvolvimento Africano4, não suaviza, de algum
modo, acusações de uma falta de abordagem/interesse coerente dos brics para com
o continente. Sem resultados concretos ainda para apresentar, é um facto, mas
tal iniciativa terá de ser acompanhada e forçosamente tida em conta em linhas
de pesquisa subsequentes sobre o tema.
A ESCOLHA AFRICANA
Isto dito, a dúvida transversal que emerge por entre ambas as obras permanece:
serão os BRICS capazes de efetivamente constituir uma alternativa ao modelo de
desenvolvimento económico e às parecerias adotadas por África nas últimas
décadas? A resposta mais em voga parece subscrever por inteiro os benefícios
associados à não-condicionalidade e não-interferência, entusiasticamente
professos por esse grupo na sua expansão para África e cada vez mais amplamente
reconhecidos por variadas organizações internacionais como elemento positivo
para a transformação económica e desenvolvimento sustentável locais5. Contudo,
também se configura como evidente que tal tipo de avaliação laudatória corre o
risco de ignorar prematuramente o ciclo económico vicioso sustentado por uma
mera diversificação de novos destinos consumidores de recurso naturais. A
resposta mais plausível para este puzzle parece assim situar-se algures entre
os dois lados da mesma moeda, acabando por refletir essencialmente o prisma de
competição aguda que o continente Africano tem despertado no contexto
internacional bem como as dúvidas e questões que estes novos atores em ascensão
suscitam no caminho para uma maior representatividade e assertividade
internacionais. Em qualquer dos casos, e quer se considere este conjunto de
países individualmente ou de forma coletiva, os BRICS constituem hoje parte
integrante e ativa das relações externas Africanas e nesse sentido, as duas
obras posicionam-se, indubitavelmente, como os primeiros capítulos meritórios
de uma análise que se afigura tanto atual quanto necessária.
NOTAS
1
Cf. ALDEN, Chris, LARGE, Daniel e SOARES DE OLIVEIRA, Ricardo - China
Returns to Africa: A Superpower and a Continent Embrace. Londres: Hurst, 2008;
BRAUTIGAM, Deborah - The Dragon's Gift: The Real Story of China in
Africa. Oxford: Oxford University Press, 2011.
2
Para posições contrastantes ver, por exemplo, KORNEGAY, Francis e BOHLER-
MULLER, Narnia - Laying the BRICS of a New Global Order: from
Yekaterinburg 2009 to Ethekwini 2013. Pretoria: Africa Institute of South
Africa, 2013; BEAUSANG, Francesca - Globalization and the BRICs: Why the
BRICs Will Not Rule the World For Long. Hampshire/Nova Iorque: Palgrave
Macmillan, 2012.
3
A evolução do interesse pela inclusão dos BRICS como tópico exclusivo de
análise, refira-se, é igualmente visível quando em comparação com trabalhos
anteriores dos autores aqui em questão. No seu livro anterior, Taylor optou por
analisar os Estados Unidos, Reino Unido, França União Europeia, Índia, China e
atores não-estatais enquanto influências das relações externas dos países
Africanos enquanto que Carmody focou-se nos interesses dos Estados Unidos,
Europa, China, Brasil e Índia em relação a África. Ver, TAYLOR, Ian - The
International Relations of Sub-Saharan Africa. Nova Iorque/Londres: Continuum,
2010; CARMODY, Pádraig - The new scramble for Africa. Cambridge: Polity
Press, 2011.
4
GUMEDE, William - The Brics development bank can release Africa from
World Bank tyranny. [Consultado em: 12 de novembro de 2014] Disponível em:
http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/jul/17/brics-development-bank-
africa-world-bank-tyranny
5
Cf. Africa-BRICS Cooperation: Implications for Growth, Employment and
Structural Transformation in Africa. Addis Ababa: United Nations Economic
Commission for Africa, 2013.
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