A Grande Guerra e a ascensão da Ásia: a China e o Japão
Nos dias de hoje é-nos difícil compreender de forma cabal o impacto da Grande
Guerra. Não apenas pelo facto de terem passado cem anos desde o deflagrar da
Guerra, mas sobretudo devido à magnitude da II Guerra Mundial. Não só pelo
envolvimento das sociedades e economias dos países beligerantes mas também pela
tragédia humana. Esta foi uma guerra total, industrial e profundamente desumana
como atesta o Holocausto ou o cerco a Leninegrado. Do ponto de vista
tecnológico, Hiroxima e Nagasáqui quase que nos fazem esquecer a importância da
força aérea ou dos submarinos na I Guerra Mundial. No entanto, 1914 foi, do
ponto de vista intelectual e conceptual, a «Grande Guerra». Na perspectiva das
relações internacionais este foi um conflito verdadeiramente revolucionário em
que foram testadas ideias que mais tarde dariam o seu fruto: desde a
autodeterminação à criação de uma organização com o objectivo de gerir as
questões internacionais. Neste sentido, foram muitas as lições retiradas
sobretudo em relação à preparação do pós-guerra. Os Estados Unidos da América,
de Franklin Delano Roosevelt, aprenderam muito com os erros cometidos por
Woodrow Wilson. Por último, há ainda um aspecto relativo à Grande Guerra que
foi igualmente revolucionário: a integração de países não-ocidentais na
qualidade de actores nas relações internacionais.
A ascensão de potências não-ocidentais foi, de facto, um aspecto importante
desta Grande Guerra em especial quando essa ascensão foi meteórica. O Japão
participou neste conflito com o objectivo de ser confirmado como uma grande
potência. De modo a compreendermos as posições e a sua visão do pós-guerra
temos que ter em consideração as várias fases de integração do Japão na v
sociedade internacional. O Japão foi uma «potência imperial tardia» cujos
objectivos colidiam com os da China
2
. A República da China procurou nesta guerra um resultado que lhe permitisse
revogar os Tratados Desiguais e as concessões das potências estrangeiras. Mais
ainda, a China tinha receio de que o Japão se expandisse à custa do seu
território e da sua soberania. Deste modo, alinhou com Woodrow Wilson e as suas
pretensões de aplicação internacional e concertada do princípio da
autodeterminação. Pelo contrário, o Japão entrou na I Guerra Mundial com a
vontade explícita de lhe ser reconhecido um império em igualdade com as demais
grandes potências.
A Grande Guerra, Wilson e Power Politics
Os anos que precederam o deflagrar da I Guerra Mundial foram de grande
intensidade intelectual. Por um lado, encontramos uma convicção no progresso
moral da humanidade potenciado pela inovação tecnológica e pela possibilidade
de controlar e, talvez um dia erradicar, a violência enquanto instrumento de
política externa. O espírito de Haia e as conferências de 1899 e 1907 são disso
um exemplo. Também é possível descortinar uma corrente que defendia a ideia que
uma guerra seria curta e traria uma paz duradoura. Esta ilusão ' «the war to
end all wars ' percorreu as principais capitais europeias e fez com as
potências que iniciaram a Grande Guerra não estivessem preparadas para um
conflito longo e desgastante. Ao entusiasmo sentido pelas elites políticas e
populações seguiu-se a descrença e a inutilidade de uma guerra de trincheiras
que teve um preço muito elevado no número de mortos e feridos. Esta sensação de
sacrifício sem sentido foi muito bem descrita pelo poeta Wilfred Owen, que
morreu em França a 4 de Novembro de 1918, no seu poema «Anthem for a doomed
youth»
3
. Para além da tragédia humana a Grande Guerra teve consequências muito
importantes ao nível do mapa mundial. Pela primeira vez os Estados Unidos
desempenharam um papel activo num conflito europeu e no seu pós-guerra. A
posição económica e financeira de Washington tinha saído muito reforçada com
este conflito estando os Estados Unidos na posição confortável de maiores
credores mundiais. No entanto, os vencedores tinham objectivos e visões
diferentes sobre o pós-guerra e como deveria ser a ordem mundial
4
. A defesa do Presidente Woodrow Wilson do princípio da autodeterminação e a
necessidade de criação de uma Liga das Nações foram dois «Pontos» subversivos
da ordem internacional. Para os aliados britânicos e franceses a
universalização da autodeterminação foi vista com desconfiança e levou a tensas
negociações. A dificuldade de conciliar um «imperialismo liberal»
5
com as expectativas nacionalistas ficou patente na sua aplicação selectiva,
nomeadamente, aos impérios derrotados da Áustria-Hungria e Otomano e a
colocação de muitas dessas regiões sob um sistema de mandatos da Liga das
Nações, que de factoembora não de jure, aumentou a influência de Londres e
Paris. Mais a leste, a Grande Guerra reforçou a percepção de que o declínio dos
Romanov era inexorável. O esforço de guerra e o enorme descontentamento sentido
pelas forças armadas e pela população foram cruciais para a desagregação do
Império Russo. Se compararmos um mapa mundial de 1914 com um de 1919
verificamos que a Guerra potenciou ou causou directamente profundas alterações.
Mais ainda, o apelo de Woodrow Wilson para uma aplicação articulada e
internacional da autodeterminação dos povos foi fortemente sentido por
movimentos nacionalistas de várias partes do globo, em particular, na Ásia.
Esta ideia que era um símbolo de uma Nova Ordem Mundial encontrou enormes
dificuldades práticas de implementação mas também uma forte resistência de
potências imperiais «antigas» como a França e a Grã-Bretanha ou newcomerscomo o
Japão
6
. Para a forte adesão ao apelo de Wilson muito contribuiu a participação das
populações colonizadas no esforço de guerra. Do lado britânico, podemos
destacar a presença de um forte contingente indiano que quase chegou a 1,2
milhões e que combateu em França e, em particular, no Médio Oriente
7
. No final da guerra encontramos cerca de 950 mil tropas indianas fora do seu
território, tendo sofrido baixas significativas entre os 62 mil e 65 mil
soldados
8
. Esta participação expressiva da Índia faz parte daquilo a que C. Raja Mohan
apelidou de «tradição expedicionária», uma tradição reforçada mais tarde na II
Guerra Mundial. Esta tradição, no entanto, seria secundarizada durante o
período de Nehru, embora não por muito tempo. A derrota humilhante face à China
na guerra de 1962 fez ver à liderança de Nova Deli a importância do poder
militar. Esta lição seria posta em prática por Indira Gandhi e,
particularmente, na guerra de 1971 que levaria à independência do então
Paquistão Oriental. Na verdade, durante a Grande Guerra a «Jóia da Coroa» foi
um contribuinte importante não só do ponto de vista militar, mas também para a
manutenção da máquina administrativa colonial, já que muitos funcionários foram
chamados para combater na Europa. Deste modo, a I Guerra Mundial foi sentida em
muitos territórios asiáticos como uma bênção, pois permitiu às elites locais
reforçarem o seu papel na administração e governação também devido ao facto de
as atenções das potências imperiais estarem concentradas naquele que foi o
teatro de operações fundamental, ou seja, a Europa. Para os indianos a I Guerra
Mundial teve um impacto importante nas expectativas de autodeterminação, que,
no entanto, acabariam por não ser cumpridas. Logo em 1919 temos dois símbolos
de maior repressão: as Leis Rowlatt e o massacre de Amritsar. Para a
resistência indiana fica claro que é necessária uma estratégia articulada e uma
liderança capaz de lidar com a metrópole. Este é o lugar que vai ser ocupado
por Gandhi
9
. A ideia da autodeterminação seria central também para Nehru como podemos ver
ainda antes da independência formal da Índia com a organização da Conferência
das Relações Asiáticas em Nova Deli em Março de 1947
10
.
Do lado francês, podemos destacar o esforço vietnamita durante a Grande Guerra.
Devido ao facto de muitos trabalhadores franceses terem sido chamados para as
frentes de batalha, Paris recrutou trabalhadores vietnamitas para ocuparem as
fábricas vazias. Em 1911 o número de vietnamitas a viverem em França não
ultrapassava a centena e eram sobretudo estudantes, mas em 1919 a comunidade
rondava os 50 mil
11
. Não foi só a exposição a um modo de vida diferente, mas também a um enorme
debate intelectual, particularmente em Paris. Este fervilhar intelectual e
agitação política foram uma fonte de atracção para futuros revolucionários. Um
deles, Nguyen Tat Than, levou a cabo várias tentativas de organizar
politicamente os trabalhadores vietnamitas ao mesmo tempo que tentava elaborar
uma plataforma que permitisse a autodeterminação do seu território. Nguyen, tal
como muitos outros, respondeu positivamente ao apelo de Wilson
12
e, em 1919, escreveu uma petição com oito pontos apelando aos líderes aliados
em Versalhes para aplicarem a autodeterminação aos territórios coloniais
franceses no Sudeste Asiático
13
. Mais, decidiu entregá-la pessoalmente quer à Assembleia Nacional e ao
Presidente francês quer às delegações em Versalhes, tendo para isso que alugar
um fato escuro
14
. Nguyen conseguiu ainda que a petição fosse publicada no L'Humanité, um jornal
radical ligado ao socialismo, de modo a obter o maior impacto possível. Apesar
de ter suscitado controvérsia na Conferência a resposta das potências aliadas
foi, na prática, uma não-resposta. Nguyen, que mais tarde adoptou o «nome de
guerra» Ho Chi Minh, diria que tinha sido enganado pela «canção de liberdade»
de Wilson
15
.
A China e a Grande Guerra: «O Império do Meio na Periferia»16
A China, ao contrário do Vietname, não era uma colónia e entrou na Guerra ao
lado dos aliados a 14 de Agosto de 1917. E foi nessa condição que enviou uma
delegação oficial a Versalhes para negociar o tratado de paz com a Alemanha. No
entanto, apesar de formalmente ser um país soberano a China estava dividida
entre várias zonas de influência administradas pelas grandes potências. Apesar
de ter sido a primeira república asiática em 1912 a China era «soberana mas sem
os direitos de uma potência soberana»
17
. Era esta a caracterização do antigo Império do Meio no âmbito da comissão
criada pelo Presidente Wilson entre 1917 e 1919 com o objectivo de definir e
encontrar formas de implementação da autodeterminação e que era conhecida
simplesmente como «The Inquiry». Para além da ocupação do seu território por
potências estrangeiras a república chinesa debatia-se ainda com uma enorme
fragilidade interna provocada pela guerra civil e pela força dos senhores da
guerra. Na verdade, a China não tinha ainda sido capaz de assimilar a queda do
Império e do mundo sinocêntrico e de se transformar num estado membro da
sociedade internacional.
Para a China o início da I Guerra Mundial foi sentida com alívio. Tal como em
outras regiões a Grande Guerra ditou que as atenções das grandes potências
estivessem centradas na Europa. Este desviar de atenção e recursos atenuou a
forte pressão sentida pelos chineses no seu território. No entanto, este maior
vazio de poder ocidental foi sendo sucessivamente preenchido pelo Japão, um
vizinho cada vez mais próximo e com pretensões imperiais. Ao contrário da
China, o Japão entrou na guerra logo a 23 de Agosto de 1914 tendo como
objectivo imediato o combate às tropas alemãs na província de Shandong e, em
especial, o controlo pela base naval de Tsingtao. Esta operação anfíbia das
tropas japonesas foi bem-sucedida e teve um grande impacto no modo como o Japão
foi inicialmente percepcionado pelas grandes potências. Para a China este
sucesso militar japonês que levou ao controlo da província de Shandong foi
entendido como mais um ataque à sua soberania. Esta percepção estava correcta e
o governo japonês continuaria a manter a pressão sobre a China. Tendo como pano
de fundo esta ameaça nipónica a China entrou na I Guerra Mundial com um duplo
objectivo: não só tentar estancar esta ameaça como reverter a sua situação de
inferioridade resultante dos tratados desiguais, ou seja, atingir a soberania
plena. O antigo Império do Meio estava a tentar dar os seus primeiros passos na
sociedade internacional vestefaliana e não deixa de ser paradoxal que o
principal obstáculo tenha sido uma potência não-ocidental e até há poucas
décadas claramente inferior: o Japão.
Esta inversão de papéis na Ásia Oriental tem o seu momento marcante em 1895
quando o Japão, após derrotar a China, impõe o Tratado de Shimonoseki. Para os
chineses, este não foi o primeiro tratado desigual mas pelo facto de ter sido
imposto por uma potência não-ocidental considerada inferior pelos manchus, foi
o tratado que pôs fim ao mundo sinocêntrico. Os japoneses já não podiam mais
ser apelidados de «escravos anões» ou «piratas anões»
18
. A vontade nipónica de expansão já tinha dado sinais quando, em 1870, o Japão
tinha solicitado à Coreia um tratado de amizade e comércio. Para a China, a
Coreia era a «Jóia da Coroa» do sistema sinocêntrico e, por isso mesmo, um alvo
crucial para o Japão. Acresce que, do ponto de vista geográfico, era
fundamental controlar a península coreana para defender o território japonês e
também permitir a expansão continental de Tóquio. O Tratado de Shimonoseki
reconheceu a independência da Coreia, a cedência da península de Liaotung e a
perda de Taiwan e do arquipélago Ryukyu. Apesar do sistema sinocêntrico só ter
formalmente terminado em 1911 e de a última missão tributária ter sido
realizada pelo Nepal em 1908, a partir de 1895 o sistema estava moribundo. A
relação com o Japão continuou a agravar-se com a intervenção internacional para
pôr fim à Revolta dos Boxers em 1901 e na qual participou o exército nipônico.
No início do século XX, o Império do Meio era objecto de uma colonização
parcial e múltipla e o ressentimento gerado por esta humilhação influenciou Sun
Yat-sen e Mao Zedong
19
. A proclamação da República da China em 1912 não diminuiu em nada o apetite
expansionista de Tóquio sendo as «21 Exigências» apresentadas a 25 de Maio de
1915 o melhor exemplo. Este ultimato obrigava a China a reconhecer a hegemonia
do Japão e os territórios já sob a sua influência, bem como o controlo de
indústrias de aço e ferro na Manchúria e Mongólia Interior. No fundo, tornava a
China uma espécie de «protectorado» do Japão
20
.
A liderança chinesa compreendeu que era fundamental participar no esforço da
Grande Guerra de modo a evitar ser representada pelo Japão. Os aliados já
tinham solicitado ao Governo chinês que fosse possível recrutar trabalhadores
chineses para o esforço de guerra na Europa. Assim, a China centrou o seu apoio
no fornecimento às potências europeias de trabalhadores que pudessem, à
semelhança dos «voluntários» vietnamitas, manter as fábricas de armamento a
funcionar. De igual modo, os trabalhadores chineses foram usados em tarefas
variadas nos campos de batalha como, por exemplo, a abertura de trincheiras. A
selecção destes voluntários começava num centro de recrutamento na província de
Shandong sendo depois enviados numa viagem de barco épica até à Europa. Esta
participação na guerra fez com que no final de 1918 o número de trabalhadores
chineses na Europa chegasse aos 96 mil, tendo o número de baixas rondado os
2500
21
. A vitória dos Aliados na guerra permitiu à China manter as expectativas de
que seria possível reintegrar Shandong e também reverter a situação de
colonização de facto.Para tal o Governo chinês enviou uma delegação composta
pelos seus diplomatas mais experientes e, em particular, os seus embaixadores
nos Estados Unidos e Grã-Bretanha, Wellington Koo e Alfred Sze. No entanto,
comprovando a sua posição de país «pequeno» e periférico foram atribuídos à
China dois lugares na Conferência de Paz, um lugar a menos que outros países
como o Brasil
22
. A exposição inicial da delegação chinesa comprovou os seus objectivos e a sua
visão do que deveria ser o pós-guerra: o fim da ocupação do seu território
simbolizado pela devolução de Shandong. Shandong era para a China um território
muito importante não só pela sua posição geográfica face a Pequim, mas porque é
considerado o berço da civilização chinesa e a terra natal de Confúcio e
Mêncio. A república chinesa procurou através da Grande Guerra resolver os
problemas que assolavam o seu território desde a imposição dos primeiros
tratados desiguais em 1842. Há vários factores que determinaram o falhanço da
proposta chinesa. Não só a sua entrada foi tardia como o seu esforço de guerra
quando comparado com outros países não foi determinante. Mas sobretudo a China
enfrentou um rival que não estava disposto a abdicar do que considerava serem
despojos de guerra legítimos: o Japão. Para além de todos estes factores o
Japão invocou a seu favor não só a aceitação das exigências de 1915 como também
as Notas trocadas entre os dois governos em 1918. De nada valeu a defesa
brilhante e o argumento da delegação chinesa de que esses documentos eram
justamente um exemplo de acordos assinados sob coerção e impostos pela lei do
mais forte. Devido à posição intransigente do Japão e com o receio de que
Tóquio não participasse na Liga das Nações, o Presidente Wilson acabou por
entregar Shandong aos japoneses.
O anúncio da decisão final sobre Shandong a 30 de Abril deixou a delegação
chinesa em choque
23
. Mais em choque ficaram os estudantes e manifestantes chineses em Paris que
acabaram por se reunir à porta do hotel onde estava a delegação chinesa
impedindo-a de sair e, assim, de assinar o Tratado de Versalhes
24
. Em Pequim, o entusiasmo com Wilson e as suas propostas, que tinha levado, por
exemplo, Chen Duxiu, mais tarde um dos fundadores do Partido Comunista da
China, a afirmar que «a justiça e a razão já não podem ser mais negadas»,
esvaneceu-se e transformou-se em raiva
25
. As manifestações na Praça Tiananmen repercutiram-se em outras cidades
chinesas e deram origem ao Movimento do 4 de Maio. Para os chineses a devolução
de Shandong era uma questão de justiça evidente já que a China pedia a
devolução de um território que era seu. A China acabou por ser a única
delegação que não assinou o Tratado de Versalhes.
Japão: Potência Imperial tardia e a Cláusula da Igualdade Racial
A participação do Japão na I Guerra Mundial foi o corolário de uma ascensão
meteórica na sociedade internacional. Esta ascensão teve três grandes fases
26
. A primeira vai desde a «abertura» em 1853 pelos navios norte-americanos até à
Missão Iwakura entre 1871-1873, que implicou o envio de diplomatas japoneses
pelo mundo fora de modo a aperfeiçoarem os seus conhecimentos e capacidades.
Nesta primeira fase os japoneses, confrontados com a superioridade tecnológica
militar ocidental, viram-se obrigados a aceitar a imposição de tratados
desiguais. Beneficiaram ainda do maior interesse comercial pela China por parte
das potências ocidentais o que permitiu ao Japão aprender com os erros
cometidos pela China e ter tempo para o fazer
27
. Ao contrário da China que optou por confrontar os ocidentais e resistir à
imposição do chamado «padrão de civilização», o Japão decidiu «aprender» e
integrar-se na sociedade internacional. Neste período foram levados a cabo
traduções de textos importantes de direito internacional e reformas internas de
modo a negar às potências estrangeiras o argumento subjacente à imposição da
extraterritorialidade. Na segunda fase que durou até 1911, a política externa
do Japão foi dominada pela procura de igualdade entre as potências e a
revogação da extraterritorialidade imposta pelo Ocidente. Um marco importante
foi o acordo assinado com a Grã-Bretanha em 1894 com esse objectivo. Igualmente
importante como já vimos foi a imposição do Tratado de Shimonoseki à China e as
concessões territoriais que marcam o início da expansão imperial japonesa. Mas
foi sobretudo a aliança com a Grã-Bretanha em 1902 e a derrota do Império Russo
na Guerra de 1904-1905, que elevaram o Japão a nível internacional. Pela
primeira vez, uma potência não-ocidental tinha derrotado uma potência ocidental
e de forma clara e inequívoca. Os ecos desta vitória cujo tratado de paz acabou
por ser negociado pelo então Presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, foram
muito importantes. Para os povos não-ocidentais a vitória do Japão significou
que era possível derrotar o Ocidente e que, afinal, o colonialismo poderia não
ser eterno. Para as grandes potências, se por um lado a admiração pelo sucesso
nipônico era genuína, por outro a capacidade militar do Japão tornava-o cada
vez mais um rival. Do ponto de vista regional, o Japão continuou com a sua
expansão e, em 1910, anexou a Coreia cumprindo assim o sonho de Toyotomi
Hideyoshi.
A participação do Japão na Grande Guerra insere-se na terceira fase da sua
ascensão que tem o objetivo claro de ser reconhecido como grande potência
28
. No final da Guerra o Japão chega a Versalhes com três propósitos: a concessão
alemã de Shandong, as colónias alemãs no Pacífico a norte do equador e a
aceitação de uma cláusula de igualdade racial entre as grandes potências.
Destes três foi o último que mais controvérsia e tensão gerou entre os Aliados
29
. Com esta proposta Tóquio adicionava uma nova dimensão à definição de grande
potência
30
. A maior resistência a esta proposta nipónica veio de Wilson e Lloyd George.
Do lado britânico, Londres estava inquieta com a posição regional do Japão que
tinha ocupado o vazio deixado pelo Império Russo e tinha fortes reservas em
matéria de imigração no âmbito do seu império. A maior contestação veio da
Austrália e do seu primeiro-ministro Billy Hughes, cuja política restritiva da
imigração, conhecida pela «White Australia» de 1901 chocava frontalmente com o
cerne desta proposta japonesa. Os EUA tinham igualmente muitas questões
internas em matéria de imigração sobretudo nos estados do Pacífico como a
Califórnia
31
. Aliás, a questão «racial» estava ainda muito longe de estar resolvida nos
EUA, particularmente nos estados do Sul. Do ponto de vista de Tóquio, a
introdução de legislação discriminatória na Califórnia em 1913 levou a que a
questão «racial» fosse cada vez mais um «assunto».
Apesar de o Japão ser uma «história de sucesso antes de 1914 tendo sido a única
nação asiática a resistir e a associar-se aos imperialistas ocidentais»
32
, a rejeição desta cláusula reforçou a percepção da elite japonesa de que o
Japão, apesar de cumprir todos os requisitos formais de grande potência, não
estava ao mesmo nível que os Estados Unidos, a França ou a Grã-Bretanha. Esta
percepção foi também cimentada em Versalhes. Apesar de ter o mesmo número de
cinco delegados que os Aliados, a discussão dos grandes assuntos era efectuada
entre as três grandes potências e a Itália (Conselho dos Quatro), deixando o
Japão de fora
33
. Nem mesmo a entrega das colónias alemãs a norte do equador sob o sistema de
mandato foi capaz de atenuar esta percepção de «dois pesos e duas medidas».
Mais ainda, para Tóquio era evidente que o Japão tinha o direito de desenvolver
a sua expansão imperial em igualdade com as outras grandes potências. O facto
de ser uma potência imperial tardia e não-ocidental condicionou de facto as
suas opções.
A Ascensão da Ásia e o Século XX
A proposta japonesa de uma cláusula de igualdade racial não tinha um objectivo
universalista. O objectivo de Tóquio era a sua aplicação entre as grandes
potências. No entanto, ao fazê-lo de forma instrumental o Japão acabou por
alicerçar o apelo universal da autodeterminação, que daria frutos mais tarde
34
. Aos olhos dos vietnamitas e apesar da desilusão sofrida em Versalhes o
exemplo dos Estados Unidos continuaria a entusiasmar vários movimentos
nacionalistas. Ho Chi Minh, em Setembro de 1945, começaria a declaração
unilateral de independência do seu Vietname citando as famosas palavras de
Thomas Jefferson de 1776
35
. Apesar do apoio à descolonização nos anos imediatos a 1945 e à independência
das Filipinas em 1946, o capital anticolonialista de Washington seria mais
tarde diluído na lógica da Guerra Fria.
O Japão foi igualmente pioneiro ao demonstrar que era possível derrotar
potências ocidentais tendo o seu exemplo servido de inspiração a muitas regiões
asiáticas. No entanto, o resultado final da participação japonesa na Grande
Guerra e, em especial, relativo ao Tratado de Versalhes foi para o Japão o
início da transição de uma potência imperial tardia para uma potência
revisionista
36
. O objectivo de integração na sociedade internacional começou a ser, cada vez
mais, questionado e iria marcar decisivamente o percurso do Japão até Pearl
Harbour.
Para a China, a participação na I Guerra Mundial foi igualmente importante. A
entrega de Shandong ao Japão levou à chamada humilhação de Versalhes e ao
Movimento 4 de Maio de 1919. Cerca de três mil estudantes reuniram-se na Praça
Tiananmen, naquela que é considerada a primeira manifestação genuína do
nacionalismo chinês, em protesto contra a decisão das potências ocidentais em
Versalhes. Esta manifestação expandiu-se para outras cidades chinesas e levou
também a um boicote de produtos japoneses
37
. Este protesto foi de tal forma marcante que a sua herança continua a ser
reivindicada pelo Partido Comunista da China e pelo Guomindang, mas também por
dissidentes como os que assinaram a Carta 08
38
. A República da China acabou por aderir à Liga das Nações como um dos seus
membros originais e, em 1920, foi mesmo eleita membro não-permanente do
Conselho da Liga. A província de Shandong seria mais tarde devolvida pelo Japão
no âmbito dos tratados assinados na Conferência de Washington em 1921-1922, mas
o apetite expansionista pela China continuaria. De qualquer modo, e apesar da
participação chinesa nas instituições internacionais, Versalhes deixara uma
marca muito importante: para reerguer a China era necessário uma visão
articulada entre a força das ideias e a força das armas.
Em 1914, a Europa deu início de forma clara ao fim do mundo eurocêntrico. A
Grande Guerra abriu caminho para a liderança norte-americana que se consumaria
em 1945, mas também à partilha de poder por regiões não-ocidentais. Hoje em dia
é muito debatida a possibilidade de uma potência asiática, a China, ascender a
superpotência e do século XXI ser o século do Pacífico. Mas para sermos
verdadeiramente capazes de compreender este percurso asiático nas relações
internacionais temos que regressar ao seu ponto de partida e olhar para a
Grande Guerra.
Data de recepção: 15 de Abril de 2014
Data de aprovação: 18 de Maio de 2014
Notas
1
A pedido da autora o texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
Best, Anthony Best et al.' International History of the Twentieth Century and
Beyond. Londres: Routledge, 2008, p. 59.
3
Owen, Wilfred ' The War Poems.Jon Stallworthy (ed.). Londres: Chatto &
Windus, 1994, p. 12.
4
Best, Anthony Best et al.' International History of the Twentieth Century and
Beyond, p. 40.
5
Winter, Jay ' Dreams of Peace and Freedom, Utopian Moments in the 20th Century.
New Haven e Londres: Yale University Press, 2006, pp. 50-51.
6
Para um excelente exemplo da dificuldade de implementação do conceito de
autodeterminação no território do Império Austro-Húngaro ver Mazower, Mark '
Dark Continent, Europe's Twentieth Century. Londres: Penguin, 1999, p. 43: «If
you ask me what is my native country,', wrote the playwright Odon von Horvath,
author of Tales from the Vienna Woods, I answer: I was born in Fiume, grew up
in Belgrade, Budapest, Pressburg, Vienna and Munich, and I have an Hungarian
Passport; but I have no fatherland. I am a typical mix of old Austria-Hungary:
at once Magyar, Croatian, German and Czech: my country is Hungary, my mother
tongue is German».
7
Metcalf, Barbara D., e Metcalf, Thomas R. ' A Concise History of Modern India.
Cambridge: Cambridge University Press, 2009, p. 163.
8
Mohan, C. Raja ' «The return of the Raj». In The American Interest, Verão
(Maio-Junho) 2010, pp. 4-11.
9
Para a tensão entre autodeterminação e direitos individuais ver Khilnani, Sunil
' The Idea of India. Londres: Penguin, 2003, pp. 25-28.
10
Guha, Ramachandra ' India after Gandhi, the History of the World's largest
Democracy. Basingstoke e Oxford: Pan Books, 2008, pp. 153 e 154.
11
Duiker, William J. ' Ho Chi Minh, a Life. Nova York: Hyperion, 2000, pp. 54 e
56.
12
Macmillan, Margaret ' The Uses and Abuses of History. Londres: Profile, 2010,
p. 102.
13
Duiker, William J. ' Ho Chi Minh, a Life, p. 58
14
Herring, George C. ' From Colony to Superpower, US Foreign Relations since
1776. Oxford e Nova York: Oxford University Press, 2008, p. 418.
15
Duiker, William J. ' Ho Chi Minh, a Life, pp. 59-61.
16
Zhang, Yongjin ' China in the International System, 1918-1920, The Middle
Kingdom at the Periphery. Oxford e Londres: MacMillan/St. Antony's College,
1991.
17
Winter, Jay ' Dreams of Peace and Freedom, Utopian Moments in the 20th Century.
New Haven e Londres: Yale University Press, 2006, p. 66.
18
Dikötter, Frank ' The Discourse of Race in Modern China. Londres: Hurst and
Company, 1994, p. 62; e Howland, Derek ' Borders of Chinese
Civilisation: Geography and History at Empire's End. Durham e Londres: Duke
University Press, 1996, p. 22.
19
Gittings, John ' The World and China, 1922-1972. Londres: Eyre Methuen, 1974,
pp. 37 e 43.
20
Fairbank, John K., e Goldman, Merle ' China, a New History. Cambridge, Mass e
Londres: The Belknap Press, 2006, p. 266.
21
Spence, Jonathan ' The Search for Modern China. Nova York e Londres: W. W.
Norton, 1999, pp. 286-289.
22
Zhang, Yongjin ' China in the International System, 1918-1920, The Middle
Kingdom at the Periphery. Oxford e Londres: MacMillan/St. Antony's College,
1991, p. 52.
23
Macmillan, Margaret ' Peacemakers, the Paris Conference of 1919 and Its Attempt
to End War. Londres: John Murray, 2002, pp. 348-349.
24
Spence, Jonathan ' The Search for Modern China. Nova York e Londres: W. W.
Norton, 1999, pp. 288-289.
25
Cit inWestad, Odd Arne ' Restless Empire, China and the World since 1750.
Londres: The Bodley Head, 2012, p. 152.
26
Suganami, Hidemi ' «Japan's entry into international society». In Bull, Hedley,
e Watson, Adam (eds.) ' The Expansion of the International Society. Oxford:
Clarendon Press, 1985, p. 185.
27
Moulder, Frances W. ' Japan, China and the Modern World Economy: Toward a
Reinterpretation of East Asian Development, ca. 1600 to ca. 1918. Cambridge:
Cambridge University Press, 1979, p. 96.
28
Suganami, Hidemi ' «Japan's entry into international society». In Bull, Hedley,
e Watson, Adam (eds.) ' The Expansion of the International Societ y, pp. 191-
193.
29
Para uma extraordinária análise sobre as razões que levaram o Japão a
apresentar esta proposta ver Shimazu, Naoko ' Japan, Race and Equality, The
Racial Equality Proposal of 1919. Londres e Nova Iorque: Routledge, 1998 e que
enforma este parágrafo. Para a proposta ver p. 20: Artigo 21:
«All nationals of all members of the League of Nations should receive equal and
just treatment in every respect making no distinction, either in law or in
fact, on account of their race or nationality.»
30
Para uma análise exaustiva dos factores que permitem caracterizar uma grande
potência ver Bull, Hedley ' The Anarchical Society, A Study of Order in World
Politics. Londres: MacMillan, 1995 (1.ª ed. 1977), pp. 193-222.
31
Shimazu, Naoko ' Japan, Race and Equality, The Racial Equality Proposal of
1919. Londres e Nova York: Routledge, 1998, p. 9.
32
Macmillan, Margaret ' Peacemakers, the Paris Conference of 1919 and Its Attempt
to End War, p. 319.
33
Ibidem, p. 315.
34
Shimazu, Naoko ' Japan, Race and Equality, The Racial Equality Proposal of
1919, p. 188.
35
Cit. in Vatikiotis, Michael R. J. ' Political Change in Southeast Asia,
Trimming the Banyan Tree. Londres e Nova York: Rout-ledge, 1996, p. 86.
36
A este respeito ver Akira, Iriye - The Origins of the Second World War in Asia
and the Pacific. Londres e Nova York: Longman, 1996.
37
Fairbank, John K., e Goldman, Merle ' China, a New History. Cambridge, Mass. e
Londres: The Belknap Press, 2006, pp. 257-278.
38
Vaz-Pinto, Raquel ' «A Grande Muralha e o Legado de Tiananmen». InRelações
Internacionais. N.º 23, Setembro de 2009, pp. 93-100.
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