O inevitável declínio do poder americano ou vinho velho em garrafa nova?
O inevitável declínio do poder americano ou vinho velho em garrafa nova?
Luís M. da Vinha
Doutorando em Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade
de Coimbra. Investigador no Núcleo de Investigação em Geografia e Planeamento
da Universidade do Minho. As suas principais áreas de interesse são: mapas
mentais; processos de decisão de política externa; política externa dos Estados
Unidos.
Textos discutidos neste artigo
ZBIGNIEW BRZEZINSKI Strategic Vision: America and the Crisis of Global Power
Nova York: Basic Books, 2012
ROBERT KAGAN The World America Made Nova York: Alfred A. Knopf, 2012
CHARLES KUPCHAN No One's World: The West, the Rising, and the Coming Global
Turn Oxford: Oxford University Press, 2012
A crise financeira e económica encetada em 2008 renovou o debate sobre o poder
americano, nomeadamente sobre a sua vitalidade. Depois de vários anos em que os
debates académicos, políticos e públicos se centraram na natureza da hegemonia
americana, atualmente a discussão foca-se nas suas potenciais fragilidades e
limitações. Mais concretamente, a liderança americana da ordem internacional é
cada vez mais questionada. Em casos mais extremos, até a continuidade da ordem
liberal é contestada. É certo que este debate não é novo. Desde a fundação da
república americana que os próprios americanos questionam a vitalidade do seu
poder. Os receios sobre a fragilidade do poder americano e a capacidade para
assegurarem o interesse nacional inspiraram a consolidação do poder central e a
sua projeção nas mais distantes regiões do globo1. As próprias alterações
políticas das sucessivas administrações ao longo da Guerra Fria refletiam
igualmente as dúvidas dos decisores políticos americanos quanto à relação de
poder com o seu principal adversário2. Contudo, os anos decorridos desde a
implosão do império soviético serenaram este debate durante quase duas décadas.
Pelo contrário, a natureza benigna (ou maligna) da hegemonia americana tornou-
se então um dos temas dominantes das relações internacionais, particularmente
nos meios académicos americanos.
Porém, o ressurgimento mais recente deste debate não se deve exclusivamente à
crise financeira e económica. Os últimos anos da Administração Bush foram já
assombrados pela suspeita da perda de poder dos Estados Unidos na cena
internacional. Embora as fontes tradicionais do poder, i.e., poder latente e
poder militar, evidenciassem a robustez necessária para enfrentar os desafios
do futuro, outras fontes de poder pareciam esgotadas. Entre estas estavam a
legitimidade e a competência dos Estados Unidos para liderar a ordem global3.
As opções políticas tomadas na resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001
e as suas consequências expuseram, para muitos, os limites do poder dos Estados
Unidos. Contudo, nos últimos anos estas reflexões, a par com a proliferação de
um discurso anunciando o surgimento de um conjunto de estados, nomeadamente a
China, ao estatuto de potência global, têm intensificado o debate. Nos anos
mais recentes proliferaram as obras sobre esta temática, contudo, aquelas que
são destacadas neste ensaio são ilustrativas das principais tendências no meio
académico norte-americano.
A "VISÃO ESTRATÉGICA" DE BRZEZINSKI
No seu registo habitual, o ex-conselheiro de Segurança Nacional de Jimmy
Carter, Zbigniew Brzezinski, publica um novo ensaio no qual faz mais um
diagnóstico do poder dos Estados Unidos e apresenta um conjunto de
recomendações políticas. Consolidando os argumentos expostos no seu anterior
ensaio sobre política externa4, Brzezinski volta a alertar para os principais
desafios à liderança internacional dos Estados Unidos. Desta vez, em Strategic
Vision: America and the Crisis of Global Power5, o autor procura responder a
quatro perguntas fundamentais:
Quais as implicações da redistribuição do poder global de ocidente para
oriente?
Quais as razões para o declínio do poder americano?
Quais serão as consequências geopolíticas do declínio americano?
Como poderão os Estados Unidos redefinir os seus objetivos geopolíticos para
se reafirmarem como líder da ordem internacional?
Na sua habitual narrativa simples e concisa, Brzezinski começa por elucidar
como a ascensão de várias potências asiáticas ' e.g., China, Índia e Japão '
tem contribuído para a dispersão do poder geopolítico. Segundo o autor, esta
dispersão de poder acarreta um conjunto de riscos para a paz internacional,
pois, contrariamente aos estados da Aliança Atlântica, as novas potências
asiáticas são rivais. Na ausência de um poder americano dominante, capaz de
conter e gerir as rivalidades regionais, os riscos de instabilidade aumentam
exponencialmente. A ampliar o potencial de instabilidade está o despertar
político de um conjunto de populações que se encontravam até há pouco tempo
politicamente passivos ou reprimidos. O seu ressentimento contra os poderes
vigentes pode potenciar amplos distúrbios e conflitos internacionais.
Por sua vez, Brzezinski atribui o declínio do poder global americano
essencialmente às opções políticas das recentes administrações americanas.
Sendo certo que os problemas domésticos têm uma origem antiga e complexa, o
autor salienta um conjunto de seis grandes questões que foram postas a nu pela
recente crise financeira e económica e que põem em causa a legitimidade da
liderança global dos Estados Unidos ' i) a dívida nacional insustentável; ii)
os defeitos do sistema financeiro americano; iii) o aumento das disparidades
económicas nacionais e a estagnação da mobilidade social; iv) a decadência das
infraestruturas nacionais; v) a ignorância dos americanos sobre o mundo; e vi)
o aumento do entorpecimento e divisão do sistema político nacional.
Contudo, Brzezinski reconhece que os Estados Unidos ainda têm vários fatores
que lhe atribuem um elevado nível de poder latente e que, com uma direção
política capaz, podem servir para renovar a liderança americana. Destes, o
autor destaca o potencial económico nacional, o potencial de conhecimento e
inovação, a dinâmica demográfica, a capacidade de mobilização social, as
vantagens geográficas e a atratividade dos seus valores e ideais. Embora
reconhecendo estes trunfos, Brzezinski adverte que, em última instância, a
renovação americana depende de uma alteração profunda da cultura social
americana, designadamente na "forma como os americanos definem as suas
aspirações pessoais e o conteúdo ético do seu sonho nacional" (p. 63).
Porém, Brzezinski não deixa de reforçar críticas anteriores à Administração
Bush6 e responsabilizá-la, em grande medida, pela atual situação de declínio
dos Estados Unidos. O autor condena a forma como a Administração respondeu aos
eventos de 11 de setembro de 2001 ' i.e., o envolvimento militar no
Afeganistão, o apoio à intervenção militar israelita na Cisjordânia para
liquidar a olp e a invasão do Iraque. Estas opções contribuíram
determinantemente para a liderança internacional dos Estados Unidos, pois,
segundo Brzezinski, ajudaram "à deslegitimação progressiva da
credibilidade presidencial e nacional, bem como à redução significativa da
autoidentificação dos aliados americanos com a segurança dos Estados
Unidos" (p. 70).
Em resposta à sua terceira questão, Brzezinski alerta para a competição
crescente que pode gerar maior conflitualidade entre as principais potências.
Os potenciais focos de instabilidade são identificados pelo autor: Geórgia,
ilha Formosa (Taiwan), Coreia do Sul, Bielorrússia, Ucrânia, Afeganistão,
Paquistão e Israel e o Grande Médio Oriente. Sem a continuação da liderança
efetiva dos Estados Unidos a conflitualidade envolvendo estes territórios será
difícil de atenuar. Mas outros assuntos de interesse global também serão mais
difíceis de resolver, pois a crescente competição entre potências dificultará
consensos e cooperação em áreas estratégicas globais como, por exemplo, mar,
espaço, ciberespaço, proliferação nuclear, recursos ambientais, alterações
climáticas, entre outros. Por fim, Brzezinski reserva a última secção do seu
ensaio para as recomendações políticas. O autor considera que os Estados Unidos
podem e devem revitalizar o seu poder e garantir o equilíbrio de poder global.
Mais concretamente, os Estados Unidos devem assumir uma dupla missão:
"promover e garantir uma maior e mais ampla unidade no Ocidente e
equilibrar e conciliar as principais potências a Leste" (p. 185). A
fórmula apresentada por Brzezinski é a mesma apresentada há mais de uma década
no seu livro The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic
Imperatives7, que se resume a gerir a estabilidade geopolítica no espaço
euroasiático. Os casos mais prementes para a estabilidade euroasiática são,
segundo Brzezinski, a estabilização da situação no Afeganistão, a contenção de
um Irão nuclear e a resolução do conflito israelo-palestiniano. Embora haja
outras fontes de instabilidade na região, a não resolução dos problemas nestes
"Balcãs globais" pode levar a um alastramento da instabilidade para
a Ásia Central.
A estratégia recomendada por Brzezinski passa inevitavelmente por uma maior
concertação e cooperação com a Europa na difusão do modelo democrático liberal.
Contudo, o autor reclama um maior envolvimento da Turquia e da Rússia, criando
um Ocidente ampliado que possa assentar "num quadro de cooperação baseado
em valores partilhados e num compromisso democrático genuíno" (p. 153).
Por sua vez, o envolvimento americano na Ásia deve procurar manter um
equilíbrio entre as principais potências emergentes, sem nunca se envolver
diretamente nos conflitos regionais. Pelo contrário, Brzezinski recomenda que
os Estados Unidos assumam uma postura próxima daquela que a Grã-Bretanha
manteve na Europa ao longo do século xix e que assentava numa política de
equilíbrio que evitasse o domínio regional por parte de qualquer uma das
potências continentais.
KAGAN E O NEOCONSERVADORISMO ASSERTIVO
São poucos os analistas políticos que podem apregoar ter influência sobre o
pensamento da política externa das principais figuras dos partidos Republicano
e Democrata. Porém, o neoconservador Robert Kagan tem sido referenciado tanto
por Mitt Romney (a quem serve de conselheiro político), como pelo Presidente
Barack Obama que recentemente afirmava ter sido influenciado pelas suas
considerações sobre o papel global dos Estados Unidos.
No centro da atenção está o seu mais recente ensaio, The World America Made8.
Tal como Brzezinski, Kagan procura refletir sobre o estado atual das relações
internacionais, designadamente o papel dos Estados Unidos. Porém, o autor
inicia a sua reflexão retomando uma abordagem previamente apresentada e que
salienta a natureza benigna do poder hegemónico dos Estados Unidos9. De facto,
para Kagan é a hegemonia americana que tem proporcionado a difusão da
democracia, a prosperidade e a paz continuada entre as grandes potências ao
longo das últimas décadas.
Os fatores determinantes para a hegemonia americana assentam na sua posição
geográfica, sistema económico, modelo de governação democrático, poder militar
e, ainda, no caráter do povo americano. Estes fatores permitiram aos Estados
Unidos construir uma ordem internacional à sua imagem. Contudo, Kagan reconhece
que os americanos têm dificuldade em lidar com as tensões inerentes à liderança
global. Segundo o próprio, embora advoguem princípios universais, assentes em
leis e instituições internacionais, os americanos tão depressa impõem a sua
vontade no mundo como se recolhem das suas responsabilidades. Independentemente
deste comportamento "esquizofrénico" (p. 14), os Estados Unidos
conseguiram estabelecer (ou melhor impor) há mais de seis décadas os alicerces
de uma ordem liberal pacífica ao fortalecer a sua aliança económica e
estratégica com a Europa e limitando os conflitos regionais na Ásia.
Todavia, declinando a tese do fim da história, Kagan argumenta que a presente
ordem liberal pode ser subvertida. Sugere que a ascensão de potências com
regimes autoritários apresenta um desafio ao processo de democratização.
Igualmente, os alicerces económicos da ordem liberal também podem enfrentar
oposição das potências emergentes. O autor não exclui tão-pouco uma reiteração
dos confrontos entre grandes potências.
Kagan relembra que no passado outros processos de democratização e abertura de
mercados foram revertidos. De facto, a conservação e crescimento da atual ordem
liberal deve-se à forma como os Estados Unidos utilizaram e geriram o seu poder
desde o final da II Guerra Mundial. Desta forma, a onda de democratização
global só foi possível devido ao uso do poder americano para garantir que os
regimes democráticos emergentes não sucumbissem a forças opositoras. De forma
semelhante, ao assegurar a abertura de mercados à escala global os Estados
Unidos contribuíram para o crescimento económico generalizado. Esta postura
intervencionista e expansionista foi tolerada, segundo Kagan, devido a dois
fatores distintos: a natureza contida do poder americano e a sua necessidade.
Mais concretamente, os outros estados "têm aceitado o poder americano não
por afeto ou admiração, mas antes por interesse próprio" (p. 62). A
alternativa à hegemonia americana é, para Kagan, uma ordem menos estável e
potencialmente mais conflituosa. Admitindo, embora com muitas reservas, que
algumas potências ascendentes possam querer manter certos elementos da ordem
liberal, Kagan questiona-se sobre as suas capacidades. O autor defende que
mesmo a manutenção de uma ordem económica liberal implica um compromisso
efetivo em assegurar a abertura dos mercados, nomeadamente na disponibilidade e
capacidade para recorrer à força para o conseguir. Poucos são os estados que se
encontram em condições para o alcançar sem ser os Estados Unidos.
Porém, o ensaio de Kagan termina numa nota de confiança no poder americano.
Partindo de uma perspetiva realista sobre as fontes de poder, o autor salienta
que os Estados Unidos ainda mantêm um nível de poder económico e militar capaz
de assegurar uma posição de destaque na liderança global. Segundo o autor, o
crescimento económico de outros estados não deve implicar uma necessária perda
de poder ou influência dos Estados Unidos. Aliás, muitas das potências
ascendentes são parceiros estratégicos dos Estados Unidos e continuarão a sê-lo
no futuro (nomeadamente quando confrontados com outras potências). Mesmo a
dívida externa dos Estados Unidos não os impede de manter os atuais níveis de
despesa nas áreas da segurança e defesa.
Em última instância, para Kagan, a manutenção da hegemonia global dos Estados
Unidos é uma questão de análise de custos vs benefícios: "se encararmos
este exercício de contabilidade com seriedade, os custos de manutenção desta
posição [hegemónica] não pode ser contabilizada sem considerar os custos de a
perder" (p. 129). De facto, o grande receio do autor é exatamente a
ausência deste raciocínio por parte dos americanos. Kagan inquieta-se com a
possibilidade de os americanos, tal como noutros períodos do passado,
desobrigarem-se das suas responsabilidades globais.
UM MUNDO SEM UMA HEGEMONIA GLOBAL
Verdade seja dita, o académico da Universidade de Georgetown, com carreira
feita no Departamento de Estado americano e no National Security Council na era
Clinton, Charles Kupchan10, há vários anos que mantém uma perspetiva coerente
sobre o declínio do poder global dos Estados Unidos. No seu mais recente
ensaio, No One's World: The West, the Rising, and the Coming Global Turn11,
Kupchan alerta para o fim do domínio material e ideológico do Ocidente. No seu
lugar o autor antecipa um mundo marcado pela difusão de poder e diversificação
política. Neste sentido, a palavra de ordem nas relações internacionais será,
cada vez mais, competição:
"O sistema internacional emergente será caracterizado por vários centros
de poder, bem como múltiplas versões de modernidade. Pela primeira vez na
história um mundo interdependente existirá sem um centro de gravidade ou um
guardião global. Uma ordem global, se emergir, será uma amálgama de culturas
políticas diversas e conceções competidoras da ordem doméstica e
internacional" (p. 3).
Esta realidade já foi reconhecida pelo Ocidente. Todavia, o autor diverge da
opinião dominante de que é possível induzir as potências ascendentes a
integrar-se na ordem liberal internacional, assumindo os seus valores. Kupchan
sugere antes que as potências ascendentes procurarão ajustar a nova ordem
internacional aos seus interesses e valores. Por conseguinte, o Ocidente terá
de negociar a construção desta nova ordem, cedendo nalguns dos seus
pressupostos atuais. Mas o principal desafio global será a gestão desta
transformação de forma pacífica.
Admitindo que não é o primeiro académico a antecipar o declínio da primazia do
Ocidente, Kupchan alega que o seu ensaio é o primeiro a prospetivar a nova
ordem através de uma análise das dinâmicas de longue durée (p. 5). Desta forma,
o ensaio de Kupchan difere dos anteriores pelo seu enquadramento mais
académico, focando grande parte do trabalho nas explicações das dinâmicas
envolvidas neste processo. Consequentemente, cerca de metade do seu ensaio é
dedicado à descrição dos agentes e processos subjacentes à ascensão do Ocidente
e à difusão dos principais predicados do seu modelo político, i.e., democracia
liberal, capitalismo industrial e nacionalismo secular.
fragilidade e fragmentação das tradicionais fontes de poder no Ocidente foram
determinantes para a ascensão e consolidação do seu poder global. A queda do
império soviético parecia prenunciar a afirmação incontestável do domínio do
modelo liberal. Contudo, pouco mais de uma década decorrida, assistiu-se a uma
alteração radical da avaliação que se fazia do sucesso do Ocidente e do seu
modelo político. Esta reapreciação decorre dos obstáculos e retrocessos que os
Estados Unidos e a Europa têm vindo a enfrentar. Simultaneamente, o
desenvolvimento e a afirmação das potências emergentes em áreas tão diversas
como a economia, a indústria, o comércio e a tecnologia, revelam uma tendência
que marca o fim da predominância global do Ocidente.
Esta nova dinâmica cria nas potências ascendentes novas aspirações e pretensões
ao nível internacional. Naturalmente, o autor previne que a competição entre
estas potências e o Ocidente aumentará no sentido em que cada uma procurará
estabelecer os seus princípios, estatuto e interesse geopolítico. Kupchan
acrescenta que desta competição resultarão várias versões de modernidade, ou
seja, inúmeras conceções de modelo político. Neste sentindo, o autor desafia a
tese de que o modelo político das potências emergentes aproximar-se-á cada vez
mais do modelo democrático ocidental. Pelo contrário, Kupchan argumenta que
cada uma perseguirá vias de desenvolvimento e modelos de governação distintos,
procurando introduzi-los na reorganização do sistema internacional.
Particularmente marcante será a tendência para solidificar formas
centralizadoras de poder ' e.g., regimes autocráticos, teocráticos, tribais, de
patronagem, populistas, etc. Em suma, o mundo que se avizinha "não
marchará ao passo do Consenso de Washington, do Consenso de Pequim, ou do
Consenso de Brasília. Não marchará segundo qualquer consenso. Pelo contrário, o
mundo encaminha-se para um dissenso global" (p. 145).
Porém, tal como os anteriores autores, Kupchan não deixa de identificar o
caminho para uma revitalização do poder ocidental. Sendo certo que o Ocidente
não voltará a conseguir recentrar o foco do poder global, o autor relembra que
pode contribuir significativamente para moldar a nova ordem global. Para o
conseguir, o Ocidente terá de ter sucesso em duas tarefas essenciais: i)
recuperar a sua vitalidade política e económica, enquanto retém a sua unidade;
e ii) adotar uma estratégia e um conjunto de princípios que servirão de base a
um consenso entre o Ocidente e as potências emergentes.
A primeira tarefa obriga a que os diferentes atores no Ocidente se voltem a
entender em matérias essenciais. A reaproximação entre os Estados Unidos e a
Europa é importante. Contudo, é imprescindível que a Europa consiga evitar as
forças de renacionalização que se têm manifestado nos últimos anos. Igualmente
determinante é o restabelecimento de um consenso alargado entre as duas
principais forças políticas nos Estados Unidos sobre o seu papel no sistema
internacional. Kupchan alerta ainda para a necessidade de enfrentar outros
problemas que, embora menos discutidos, são essenciais ' e.g., resolver o
problema da insolvência, aumentar a coesão social, reforçar o populismo
progressista, reequilibrar os meios com os objetivos da sua política externa.
A segunda tarefa resulta da necessidade de garantir uma transição pacífica para
uma nova ordem internacional. Se é certo que as potências emergentes não
desejam a continuação da hegemonia ocidental, pouco acordo existe sobre o que a
deve substituir.
Nesse caso, segundo o autor, o Ocidente ainda tem a capacidade para garantir um
grau significativo de estabilidade global, pois ainda constitui a parceria
global mais importante. Assim, segundo Kupchan, cabe ao Ocidente aproveitar
esta oportunidade para liderar o processo de redefinição das regras da nova
ordem global. Isto implica naturalmente trabalhar com as potências emergentes
na definição de um consenso alargado sobre quais os princípios fundamentais
para orientar as relações internacionais no século xxi. Dos princípios
possíveis, o autor sugere que o Ocidente deve trabalhar para estabelecer um
consenso na definição de legitimidade e soberania, na representatividade e
eficácia das instituições internacionais da governação global, na
descentralização da responsabilização regional e na gestão da globalização
económica.
Em última instância, Kupchan alerta para a necessidade de os Estados Unidos
retomarem a lógica da política de grandes potências. Isto implica uma
circunspeção do uso do seu poder. Desta forma, os Estados Unidos devem encarar
o surgimento de novos centros de poder como uma oportunidade para reequilibrar
as suas capacidades com as suas necessidades e com a vontade dos americanos.
VINHO VELHO EM GARRAFA NOVA?
Há debates que teimam em repetir-se. Ainda há menos de uma década alguns dos
mais proeminentes analistas políticos norte-americanos atestavam o poder
inigualável dos Estados Unidos. Em 2002, o historiador Paul Kennedy assegurava
que nunca nenhuma outra potência tinha conseguido obter tamanha disparidade de
poder como acontecia então com os Estados Unidos12. Porém, não antes do mesmo
autor ter prognosticado, alguns anos antes, o fim do império americano na sua
magistral obra The Rise and Fall of the Great Powers13. A convicção académica
de Kennedy vacilou novamente quando em 2009 afirmava no Wall Street Journal que
afinal a hegemonia dos Estados Unidos estava condenada devido à sua
"sobre-extensão " imperial14.
De forma semelhante, há cerca de uma década, Fareed Zakaria celebrava a
"unipolaridade compreensiva" que os Estados Unidos detinham no
dealbar do século xxi15. Nenhuma outra potência tinha conseguido atingir uma
disparidade de poder tão significativa desde o auge do Império Romano. Contudo,
volvidos poucos anos, o mesmo Zakaria16 alertava para uma nova configuração do
poder global que ditaria um "mundo pós-americano ". Neste novo
mundo os Estados Unidos serão cada vez mais desafiados no exercício do seu
poder e contestados na liderança da ordem liberal internacional.
Outros analistas e comentadores revelam a mesma propensão para a deambulação
analítica. Em boa verdade, esta é uma tendência histórica do debate político
americano. Como afirmado acima, a análise sobre a condição do poder americano
tem sido uma constante do seu debate político, sofrendo variações na orientação
e nas recomendações. O mesmo acontece com os ensaios em consideração. Cada
autor examina o poder global dos Estados Unidos sob uma lente diferente e
prospetiva caminhos distintos.
Brzezinski e Kagan revelam maior otimismo na capacidade de os Estados Unidos
regenerarem a sua liderança global. Ambos encontram a principal alavanca desta
renovação internamente. É na renovação doméstica que os Estados Unidos
encontram o seu vigor. Por sua vez, Kupchan apresenta um futuro mais
condicionado, no qual os Estados Unidos podem simplesmente tentar influenciar a
construção de uma nova ordem global.
Independentemente das suas diferenças, os três autores partilham a convicção de
que os Estados Unidos têm um papel determinante no futuro. Seja a liderar a
ordem internacional ou a ajudar a moldá-la, nenhum admite que os americanos se
possam distanciar dos assuntos globais. Nenhum tão-pouco assume que os Estados
Unidos podem beneficiar com uma redistribuição do poder global17. O
"impulso messiânico" que Kagan18 anteriormente identificou como tão
determinante no temperamento americano está enraizado nas reflexões dos três
autores. Em todos os ensaios os Estados Unidos são determinantes para a paz
global.
A recordação do pronunciamento de Daniel Bell sobre o "fim do
excepcionalismo americano" no final da Guerra do Vietname alerta-nos para
o risco de prever o futuro das relações internacionais19. É certo que há
dinâmicas internacionais que podemos identificar e através das quais podemos
conjeturar sobre as tendências potenciais. Todavia, previsões deterministas são
desaconselhadas. Caso contrário, corremos o risco de no futuro nem uma garrafa
nova poder encobrir o sabor a vinho velho.
NOTAS
1
Kagan, Robert ' Dangerous Nation: America's Foreign Policy from its Earliest
Days to the Dawn of the Twentieth Century. Nova York: Vintage Books, 2007; Oren, Michael ' Power, Faith, and Fantasy: America in the
Middle East, 1776 to the Present. Nova York: W.W. Norton & Company, 2007.
2
Gaddis, John Lewis ' Strategies of Containment: A Critical Appraisal of
American National Security Policy during the Cold War. Nova York: Oxford
University Press, 2005.
3
Leffler, Melvyn, e Legro, Jeffery (eds.) ' To Lead the World: American
Strategy after the Bush Doctrine. Oxford: Oxford University Press, 2008
4
Brzezinski, Zbigniew ' Second Chance: Three Presidents and the Crisis of
American Superpower. Nova York: Basic Books, 2007.
5
Brzezinski, Zbigniew ' Strategic Vision: America and the Crisis of Global
Power. Nova York: Basic Books, 2012.
6
Cf. Brzezinski, Zbigniew ' Second Chance: Three Presidents and the Crisis of
American Superpower.
7
Brzezinski, Zbigniew ' The Grand Chessboard: American Primacy and Its
Geostrategic Imperatives. Nova York: Basic Books, 1998.
8
Kagan, Robert 'The World America Made. Nova York: Alfred A. Knopf, 2012.
9
Kagan, Robert ' "Power and weakness ". In Policy Review. 113,
2002, pp. 3-28; Kagan, Robert ' "The benevolent
empire". In Foreign Policy. 111, 1998, pp. 24-35.
10
Kupch an, Charles ' The End of the American Era: US Foreign Policy and the
Geopolitics of the Twenty first Century. Nova York: Alfred A. Knopf, 2002; Kupch an, Charles ' "Life after Pax Americana".
In World Policy Journal. Vol. 16, N.º 3, 1999, pp. 20-27;
Kupch an, Charles ' "After Pax Americana: benign power, regional
integration, and the sources of a stable multipolarity ". In
International Security. Vol. 23, N.º 2, 1998, pp. 40-79.
11
Kupch an, Charles ' No One's World: The West, the Rising, and the Coming
Global Turn. Oxford: Oxford University Press, 2012.
12
Kennedy, Paul ' "The eagle has landed". In Financial Times, 2002.
13
Kennedy, Paul ' The Rise and Fall of the Great Powers: Economic Change and
Military Conflict from 1500 to 2000. London: Unwin Hyman, 1988.
14
Kennedy, Paul ' "American power is on the wane". In The Wall
Street Journal, 2009.
15
"America: an empire to rival Rome?", BBC, 2004. Disponível em:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/americas/3430199.stm
16
Zakaria, Fareed ' The Post-American World. Nova York: W.W. Norton &
Company, 2008
17
Cf. Da Vinha, Luís ' "The empire strikes back or prospects for us
foreign policy after the global financial and economic crisis?". In GEO-
Working Papers. 22, 2011, pp. 5-42; Huntington, Samuel '
"The lonely superpower ". In Foreign Affairs. Vol. 78, N.º 2, 1999,
pp. 35-49.
18
Kagan, Robert ' "Neocon nation: neoconservatism, c. 1776". In
World Affairs Vol. 170, N.º 4, 2009, pp. 13-35.
19
Bell, Daniel ' "The end of American exceptionalism". In The Public
Interest. 37, 1975, pp. 193-224.
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