Autonomia e co-responsabilidade ou o lugar da Educação de Adultos na luta pela
inclusão social
Introdução
Dos discursos sobre a actualidade sobressai a ideia de que a sociedade em que
vivemos é, mais do que nunca, caracterizada pelo risco e pela incerteza, mas
também por uma maior liberdade individual de escolha e decisão. Se há quarenta
anos a autonomia individual era uma utopia e um ideal que mobilizavam
movimentos sociais contra os mecanismos institucionais julgados alienantes,
hoje são as instituições quem mais fala a linguagem da autonomia, em relação ao
trabalho, à escola ou ao comportamento dos beneficiários de prestações sociais
(Molénat, 2010). Esta incitação à implicação dos indivíduos na sua própria
transformação está no cerne do pensamento neoliberal, ao valorizar a noção de
responsabilidade individual como princípio moral e de direito que permite a
cada um, liberto de constrangimentos, procurar o seu bem-estar. Mas também, em
consequência, imputando a cada indivíduo a responsabilidade pelos seus actos e
o dever de encontrar meios que permitam suplantar as adversidades.
Sinteticamente, como sublinha Mellos (1999, citado por René, Goyette, Bellot,
Dallaire & Panet-Raymond, 2001, p.129) o indivíduo pode e deve determinar
por si só o seu projecto de vida, sem assistência exterior, nem entrave.
O presente texto visa no entanto, numa abordagem distinta, propor a reflexão
sobre a articulação entre o exercício da autonomia e de uma pragmática da
responsabilidade, enquanto formas de promover o reforço da condição de
cidadania e da capacidade dos grupos sociais mais frágeis participarem na
determinação do seu destino. Dito de outro modo, não a responsabilidade como
norma ou obrigação individual, mas como construção a partir de uma estrutura de
interacções que, conjuntamente com o reforço da capacidade (auto)reflexiva e de
autonomia, contribuem para a inclusão social das populações desfavorecidas e a
sua condução ao pleno estatuto de cidadãos e parceiros. Reflexão esta
simultaneamente cruzada e influenciada pela avaliação de uma experiência
concreta, a que tem sido levada a cabo ao longo dos últimos dez anos pela
Fundação Solidários (organização ligada à promoção do desenvolvimento local e
comunitário) em torno da promoção de cursos EFA (Educação e Formação de
Adultos). No âmbito destes cursos, a concepção associada à acção da Fundação
Solidários tem sido a de que, face a grupos de mulheres que abandonaram
precocemente a Escola, muitas delas com idade superior a 45 anos, residentes em
comunidades isoladas onde as oportunidades de emprego são escassas, marcadas
ainda por uma situação de dependência financeira face aos maridos, o
investimento no reforço da capacidade de agir em autonomia a partir de um
exercício de auto-reflexão e de processos negociados de partilha de
responsabilidades, serão ingredientes necessários para enfrentar as situações
de risco e procurar novas alternativas para a sua vida.
1. A sociedade do risco
A sociedade actual, aquela em que vivemos, é pós-moderna, globalizada,
individualizada, mas também se caracteriza por ser a sociedade do risco.
Unidos por tese e por obra, autores como Ulrich Beck, Anthony Giddens ou Scott
Lash têm vindo a dar corpo à teoria de que a modernização das sociedades (e em
particular a segunda modernidade) representa um forte programa de
individualização, no contexto de uma organização social marcada pelo peso do
risco nas vidas de cada um dos seus cidadãos. De forma mais comum, o alerta
para o aprofundamento de um risco ambiental (ele próprio objecto privilegiado
de reflexão no seio do cursos EFA promovidos pela Fundação Solidários) tem sido
matéria de debate aprofundado nos media e fortemente participado pela sociedade
civil. Cada vez mais as pessoas adquirem consciência dos perigos ambientais
decorrentes da própria acção humana, as crianças e jovens são hoje, nas
escolas, sensibilizadas para tal quadro de risco e a necessidade premente de
tomar medidas de inversão.
A partir dos contributos de Ulrich Beck (1986), começou a percepcionar-se a
igual aplicabilidade de tal noção ao domínio dos problemas sociais,
caracterizando novos riscos sociais. De forma simplificada, o autor afirma que
a incerteza e a precariedade se instalaram no seio da ordem social,
genericamente considerada, e na vida de cada um de nós. As mudanças profundas
ocorridas em instituições sociais basilares (família, escola, Estado, mercado,
grupos e associações ) tornam os resultados das decisões individuais, em certos
domínios da vida quotidiana, menos previsíveis e aumentam a noção de risco.
Casar, fazer estudos e empregar-se, montar um negócio, são acções hoje
acompanhadas de um elevado grau de incerteza quanto aos seus resultados, porque
os contornos das instituições que suportavam tais actos não são mais os mesmos
(Hespanha & Carapinheiro, 2002, p. 14). As oportunidades, ameaças e
ambivalências da biografia, que antes podiam ser ultrapassadas no grupo
familiar, na comunidade, no contexto de uma classe ou grupo social, com a ajuda
do Estado, têm que ser cada vez mais percebidas, interpretadas e geridas pelos
próprios indivíduos.
Mas, uma certa democratização dos riscos e ambivalências não pode fazer
esquecer que os aspectos positivos e negativos do risco social associado à
globalização se continuam a repartir desigualmente pelos diferentes grupos e
espaços sociais. A expressão fractura social - ícone de uma forma francesa,
republicana, renovada, de pensar a questão da exclusão social - é a designação
forte que remete para a imagem de uma sociedade em que laços sociais
estruturantes entraram em crise, lembrando a incapacidade dessa sociedade em
integrar todos os seus membros e deixando muitos deles à deriva. A revelação de
que poderemos estar perante uma sociedade cada vez mais dual, composta pelos in
e out, em que muitos dos que tinham um lugar social o perderam e para outros se
encontra bloqueada a entrada no mundo do trabalho e em outros universos de
relação social, serviu a alguns destes autores para reforçar convicções de que
a questão da exclusão social interroga o conjunto da sociedade nos seus valores
fundamentais e apela a muito mais do que meras medidas reparadoras que
proporcionem a esses infra-cidadãos o acesso a direitos materiais e sociais
básicos (Monteiro, 2004, pp. 39-49).
Se o optimismo dos anos 60-70 poderia levar a pensar um controlo das zonas de
vulnerabilidade a partir de uma forte zona de integração, hoje essa zona de
integração aparece fracturada e a vulnerabilidade expande-se alimentando
continuamente a zona de desafiliação (Castel, 1995): não um estado de ruptura,
mas o cúmulo de um processo de fragilização dos laços face a dois vectores
fundamentais, um eixo de integração / não integração pelo trabalho e um eixo de
inserção / não inserção numa sociabilidade sócio-familiar. Não um estado de
exclusão, mas um itinerário percorrido por indivíduos e grupos através de
sucessivas fragilizações ou quebras de laços sociais que os ligam a instâncias
fundamentais da socialização: o Estado, o trabalho, a família, a comunidade.
Tal como os indivíduos, também os territórios podem enfrentar processos de
exclusão. Uma pequena comunidade rural, relativamente afastada dos grandes
centros, hoje já não enfrenta apenas os problemas localmente sentidos, mas é
afectada por efeitos cruzados de processos próximos e processos distantes, como
são os da desertificação e envelhecimento, do desemprego e da pobreza, ou os da
toxicodependência e insegurança.
2. Cada um constrói o seu destino
Contudo, é o próprio Ulrich Beck que, instado a pronunciar-se sobre o presente
e o futuro, reconhece um lado obscuro na individualização e na globalização,
mas não pode deixar de afirmar que o vaticínio desse mesmo futuro comporta
pessimismo e optimismo (Beck & Beck-Gernsheim, 2003, p. 355). A noção de
risco não deve ser apenas percepcionada como ameaça, surgindo igualmente como
oportunidade. Numa sociedade de incertezas diárias, ao mesmo tempo
profundamente destradicionalizada e atingida por crises de sentido, a tónica
recai sobre o impulso crescente ' uma obrigação mesmo ' a que cada indivíduo
tome uma posição activa face às condições da sua existência. A identidade
individual transforma-se, progressivamente, num projecto reflexivo, de
reflexividade sobre as seguranças do passado e as inseguranças do presente e do
futuro, a partir da resistência, da criação de alternativas e da conquista de
autonomia.
Já Pierre Bourdieu, através do conceito de habitus, havia dado ênfase ao modo
como, movendo-se em distintos campos, cada indivíduo é confrontado com a
necessidade de engendrar respostas para si e para os outros. Constrói-se,
assim, uma certa forma de pensar o mundo, reflexo de um contexto cultural
partilhado, que permite ao actor social economizar reflexão na acção. Trata-se
de uma reflexividade pragmática traduzida no que Bourdieu designa por
ajustamentos rotineiros das estruturas subjectivas e das estruturas
objectivas (Bourdieu, 1992, citado por Fernandes, 2009, p.156). Contudo, num
cenário em que essas estruturas objectivas estão fragilizadas, o Estado não
consegue assegurar a integração cultural e social dos cidadãos e outras
instituições sociais como a família, a escola o mercado ou a sociedade civil
emitem sinais de insegurança, é exigida aos indivíduos uma contribuição mais
activa, decidindo eles entre amplas gamas de opção, planificando a longo prazo,
adaptando-se, improvisando. As oportunidades, os perigos, as incertezas e as
decisões que antes eram geridos em grande medida no seio da associação familiar
ou da comunidade rural, são agora fruto de gestão individualizada. Se podemos
aceitar a ideia de José Machado Pais, segundo a qual os horizontes de
reflexividade individual continuarem estreitamente dependentes da reflexividade
inerente ao habitus (2007, p.29), também nos parece pertinente a concepção
veiculada por autores como Paul Sweetman, Lisa Adkins ou Lois McNay, de acordo
com a qual os tempos de crise incrementam a possibilidade de reflexividade.
Para a última autora, as crises são sinónimos de crescente movimento entre
campos, o que pode conduzir à reflexividade (pessoal e institucional) e à
mudança. Assim ocorre com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, que
cria dissonâncias nessa mesma esfera, ou com a lucidez dos excluídos que pode
gerar resistência e negociação (Adams, 2009).
Importante para a nossa argumentação é igualmente a ideia de que a gestão
activa dos percursos individuais não deixa de ser feita no seio de comunidades
onde se estabelecem laços interpessoais, mas com a distinção fundamental de que
são cada vez mais laços de significado e não de pertença. Até porque os temas
do desencanto do mundo e da perda de sentido fazem acompanhar-se de uma
crescente abertura comunicacional (Fernandes, 2009). Emancipado dos grupos de
pertença originais que sobre ele se impunham, o indivíduo assume hoje a
liberdade de escolher com quem se relacionar e o momento em que essa interacção
se processa. Dir-se-ia mesmo um zapping identitário, na medida em que o
projecto reflexivo que orienta o indivíduo na construção da sua identidade, o
conduz ao estabelecimento de relações limitadas no tempo, em função de
interesses e necessidades específicos, logo abandonadas quando outros desafios
se impõem. Como consequência, as novas comunidades em construção ' grupos de
auto-ajuda, agrupamentos de bairro, sistemas de troca local, redes de troca de
saberes, associações de moradores, de consumidores ou de serviços, fóruns de
debatena Internet - são elas próprias comunidades reflexivas, de significados
partilhados. Citando Scott Lash, Beck, Giddens e Lash (2000, p. 157),
Estas comunidades são reflexivas na medida em que: primeiro, uma pessoa não
nasce ou é lançado' nestas comunidades, lança-se' a si mesma; segundo, elas
podem estar amplamente estendidas através de um espaço abstracto', e quiçá
também através do tempo; terceiro, elas, conscientemente, colam-se muito mais
ao problema da sua própria criação e constante reinvenção do que as comunidades
tradicionais; quarto, as suas ferramentas' e os seus produtos não tendem a ser
materiais, mas sim abstractos e culturais.
Por fim, o contexto particular da exclusão e desfavorecimento sociais torna
particularmente relevante ainda uma outra faceta desta reflexão / debate, a da
distribuição desigual das capacidades de cada indivíduo para responder aos
novos desafios da sociedade pós-tradicional, por sua vez associada a questões
de poder e de estratificação. Se definirmos reflexividade como, entre outras
dimensões, o exercício individual de uma automonitorização responsável,
seguindo a denominação adoptada pelo autor acima citado, em que cada indivíduo
é impulsionado para uma posição activa de escolha e decisão sobre a construção
da sua trajectória pessoal, é forçoso reconhecer que os recursos que viabilizam
essa capacidade se encontram na nossa sociedade desigualmente distribuídos. É o
próprio Giddens quem o reconhece (1997, p.115):
a democracia, dialógica ou outra, tem os seus limites, limites esses que dizem
sobretudo respeito à influência inoportuna da desigualdade. O diálogo não
depende da igualdade material, mas pressupõe que não são usados recursos
diferenciados para impedir que seja dada voz a determinadas opiniões ou para o
drástico desvirtuamento das condições de intercâmbio dialógico. Um dos pontos
fortes da crítica de esquerda à democracia liberal tem sido há muito a
exigência de que a democracia seja articulada com programas de igualização
económica.
O autor toca aqui o argumento que faz depender de condições materiais o acesso
à democracia e à participação na coisa pública. Em nosso entender, contudo, uma
análise destes mecanismos de desigualdade e da ultrapassagem dos seus limites
passa por uma inversão dos termos da argumentação. Não se trata tanto de
recursos materiais, mas de contextos psicológicos, culturais, simbólicos e
relacionais (confiança, ausência de coacção, acesso ao saber e aos meios que o
disseminam, identificação de direitos e possibilidades, acesso às redes de
relações e colectivos que fundam a consolidação de determinadas identidades)
que permitem a cada indivíduo conhecer e mover-se na amplitude das escolhas que
se lhe oferecem. Para que a expansão da reflexividade e, por consequência, da
autonomia do indivíduo seja um facto e um contributo para uma nova democracia,
é necessário que a própria reflexividade se democratize e se torne uma
capacidade acessível a todos (Monteiro, 2008). O acto de discurso ou diálogo
surge como uma das formas privilegiadas dessa democratização ou alimentação
da capacidade reflexiva, explorando as potencialidades de uma racionalidade
comunicativa e de expansão da importância da esfera pública. Foi precisamente
esse um dos desafios principais assumidos pela Fundação Solidários em torno da
promoção de cursos EFA (Educação e Formação de Adultos).
3. Cursos EFA, primeira abordagem: aprender com autonomia
As mulheres são um dos grupos desfavorecidos no que respeita à integração
sócio-profissional, e marginal no que se refere ao papel activo na sociedade
(Solidários, 2003b, p.8). Reportando-se à sociedade alemã, mas numa leitura que
facilmente se pode estender a outras sociedades europeias ocidentais, Beck-
Gernsheim (p.117) comparou a situação das mulheres à pergunta, perante um copo
com metade de líquido, se o mesmo está meio cheio ou meio vazio. Se, por um
lado, os movimentos feministas recordam a persistência de desigualdades
fundamentais entre homens e mulheres, por outro são inegáveis as mudanças
significativas ocorridas na sua vida, em domínios como a família, a educação, o
trabalho ou a participação na vida pública. Gerações de mulheres em mudança,
reivindicam hoje uma maior liberdade para a viver a sua própria vida, mas
continuam a debater-se com uma integração incompleta no mundo do trabalho ou
com maiores obstáculos à intervenção política e cívica.
A este contexto junta-se ainda a particular situação das mulheres a quem a
Fundação Solidários tem vindo a dirigir a sua acção formativa: oriundas de
pequenas comunidades rurais do concelho de Sever do Vouga, distrito de Aveiro,
muito isoladas devido à escassez de transportes e sentindo um elevado declínio
populacional, trata-se de grupos de mulheres com uma média de idades superior a
30 anos e portadoras, à partida, de uma escolaridade ao nível do ensino básico.
Geralmente casadas, dependem financeiramente dos maridos (alguns deles ausentes
por emigração), circunscrevendo o seu papel principal à gestão da casa e ao
trabalho nos campos da família, num cenário onde o desemprego, a sua idade e
baixa qualificação dificultam qualquer alternativa em termos profissionais. Do
seu discurso pessoal ressalta a desvalorização da própria imagem e da imagem da
comunidade.
Como afirma José Brás, um dos responsáveis da Fundação Solidários, ser
cidadão, capacitar-se para aprender e empreender, é um caminho. Um caminho
que, na concepção patrocinada por esta organização, toma como uma das metas o
desenvolvimento de competências transversais que valorizam e (re)colocam o
papel das mulheres, enquanto cidadãs responsáveis e activas no processo de
decisão relativo ao seu desenvolvimento e ao desenvolvimento das suas
comunidades1. Por sua vez, o cumprimento desta meta passa por:
• Desenvolver a autonomia, a auto-estima e a auto-afirmação positiva Revisão
dos papéis da mulher
• Desenvolver as competências de tomada de decisões, negociação e motivação em
grupo• Desenvolver o empreendorismo das formandas• Desenvolver as competências
de aprender a aprender• Melhorar o relacionamento interpessoal com os outros:
na família, na comunidade, na sociedade (Solidários, 2003ª, p.6).
• Entre 2000 e 2010, a Solidários implementou seis cursos EFA2, o primeiro
deles permitindo a obtenção do 1º Ciclo e os restantes dirigidos à obtenção do
2º Ciclo do Ensino Básico, com as correspondentes qualificações de
profissionais de nível 1 ou 2 em áreas como a jardinagem, a agricultura
biológica ou os cuidados pessoais. Entre os diferentes cursos manteve-se
estável a área geográfica de abrangência, assim como o facto de os grupos-alvo
serem mulheres em situação de desemprego. Mas manteve-se, sobretudo, a aposta
em alguns valores como fundamentais à formação destas mulheres. Falamos
concretamente do incentivo a percursos de aprendizagem e formação pautados
pelos princípios da (auto)reflexividade e autonomia.
Ensaiado desde o primeiro curso, um dos traços distintivos da acção empreendida
pela equipa pedagógica tem passado precisamente pela aceitação e valorização da
dimensão reflexão como central à acção / intervenção formativa que
desenvolve. Em todo o processo de construção, implementação e revisão do plano
de formação, procurou seguir-se uma metodologia onde a permanente interrogação
e desafio são as vias para uma constante revisão das opções tomadas e o
desencadeamento de novas possibilidades. Sucessivas auto-avaliações conferem a
todos os planos de intervenção um carácter provisório. Uma reflexão (thinking
from a distance) que, realça-se, implica não só um acto cognitivo ou cerebral,
mas também intuições e emoções.
Por sua vez, se a equipa pedagógica incorpora os conceitos de reflexividade,
mas também o de risco, directamente na sua forma de agir (redefinição
constante, reacção, provocação, diálogo, negociação com as formandas ), tem
procurado igualmente prolongar tais fórmulas para o exercício directo com as
formandas. Tal é a intenção expressa:
Esta orientação para o formando e em função do formando, pensamos ser o
combustível que vai mantendo acesa a chama da motivação, ( ) Pensamos desta
forma, indo ao encontro ao mundo das formandas, aos seus desejos e
necessidades, obrigando-as' a tomar parte activa nos processos de decisão, ter
construído' uma espécie de antídoto contra o desinteresse, tornando as
formandas cada vez mais comprometidas com o seu percurso de formação.
Nomeadamente quando, a meio do percurso, decidimos fazer aquilo que nós
denominamos de contratualização das competências, as formandas tornaram-se
muito mais afirmativas, uma vez que reflectiram, reconhecendo aquilo que já
sabiam, e muito mais participativas e empenhadas, uma vez que foram elas que
decidiram e que disseram quais as competências que queriam ainda desenvolver
(Solidários, 2003ª, p.10).
O momento de contratualização das competências foi reconhecido por todas as
partes como uma das apostas-chave no percurso para atingir tais objectivos.
Sobre ele se farão considerações mais detalhadas num trecho posterior3.
Contudo, outros investimentos formativos contribuíram em idêntica direcção. Dos
mencionáveis, sublinha-se o modo como os exercícios de avaliação das formandas
se inscreveram numa lógica pela qual delas se exigia a necessidade de reflexão
sobre quadros de acção alternativos e de tomada de decisões em consonância.
Concretamente, a avaliação das competências na área educativa e na área
profissionalizante procurou, sempre que possível, ser concretizada através da
simulação de situações de vida, obrigando cada formanda a reflectir e a tomar
decisões de natureza pessoal perante a diversidade de opções ao dispor e as
tarefas a executar em consequência. Citam-se dois exemplos
• Caso 1:
As formandas são convidadas a imaginar-se jardineiras por conta própria,
recebendo pedidos de instalação de relvados para três clientes diferentes, cada
um formalizando um tipo concreto de pedido e disponibilizando condições
específicas. Em alternativa, as formandas poderiam optar por trabalhar
temporariamente por conta de outrem, na circunstância para uma empresa de
jardinagem. Todas as tarefas a executar posteriormente decorrem deste primeiro
quadro de decisão e sucedem-se como se de um jogo de pista se tratasse.
• Caso 2:
Situação apresentada: Soube, através de uma amiga sua, que uma Fundação abriu
concurso para dois lugares: um para jardineiro(a) em regime de trabalhador por
conta de outrem e outro para prestador(a) de serviços de jardinagem em regime
de contratação de serviços. Para se candidatar, terá que realizar um conjunto
de tarefas de forma a evidenciar as suas competências como jardineira, e só
então poderá formalizar a sua candidatura. Mais uma vez, cada formanda é
solicitada a mobilizar competências e a tomar decisões tendo em vista o sucesso
da sua candidatura. O exercício envolve ainda conhecimentos de jardinagem,
linguagem e comunicação, matemática e tecnologias de informação e
comunicação.
Reflexão sobre a natureza do problema colocado e o quadro de alternativas que
se oferecem, acção autónoma sobre as decisões a tomar e as vias de resolução a
percorrer, são critérios em permanente evidência nestes exercícios avaliativos
ou em outros momentos da dinâmica de formação, como por exemplo a elaboração e
uso de portfolios reflexivos.
O portfolio reflexivo tem sido usado como suporte para a auto-aprendizagem e
auto-avaliação das formandas sobre o seu percurso de aprendizagem, ao invés da
sua utilização enquanto portfolio de competências (Aníbal et al, 2008, p.153)
ou instrumento de avaliação e validação formal do percurso formativo e das
competências adquiridas. Para a sua construção tem sido seguida uma estratégia
que valoriza o percurso de aprendizagem, assim como a relação próxima com o
projecto pessoal e profissional4. Num primeiro momento, as formandas são
convidadas a reflectir e a escrever a sua história de vida, com particular
ênfase sobre as aprendizagens mais significativas decorrentes dessa experiência
de vida, em diferentes domínios (social, familiar, académico, vocacional).
Ilustrando-as, os textos devem ser acompanhados de certificados, fotografias,
cópias de contratos de trabalho, etc.. Esta será a primeira etapa da construção
do portfolio. Posteriormente, mais ou menos a meio do curso, as mesmas
formandas são confrontadas com a necessidade de preparar o período pós-formação
e, em consequência, é-lhes pedido que desenhem um projecto pessoal e
vocacional, mas também antecipem o seu contributo para o futuro da comunidade
em que vivem. Tal exercício requer de cada uma delas uma reflexão comparativa
sobre a sua situação ao início do curso e as perspectivas vividas no momento em
que escreve, para além do traçar de expectativas e aspirações para o futuro. Na
fase final do curso EFA, as mesmas formandas são convidadas a olhar para a sua
história de vida, a (re)escrevê-la outra vez e a partilhá-la numa sessão
pública com as colegas, Equipa Pedagógica, família, representantes
institucionais e outros agentes locais.
Como resultado, o portfolio reflexivo revela-se um importante espaço para a
criatividade e para a auto-narrativa. Por outro lado, oferece potencialidades
enquanto espaço de troca de impressões e emoções entre a proprietária do
portfólio e outros interlocutores (colegas, Equipa Pedagógica, familia e
restante comunidade). Por outras palavras, transforma-se numa construção
conjunta e num objecto de interacção.
5. A automonitorização responsável
Retornamos neste ponto à obra de Beck, Giddens e Lash (2000, pp.128-129) para
daí recuperar uma outra ideia-chave enunciada pelo terceiro dos autores, a de
que, se os direitos de cidadania próprios da modernidade simples se
concentravam na defesa da igualdade perante a lei, na garantia dos direitos
políticos e sociais de que o Estado-Providência seria o principal garante, na
modernidade reflexiva transformaram-se essencialmente no direito de acesso às
estruturas de informação e comunicação. De igual modo, se as obrigações de
cidadania iam, principalmente, para o Estado-nação, elas vão hoje para o Eu,
para a automonitorização responsável. Desta forma, e com esta expressão, o
autor faz realçar a importância que a ideia de responsabilidade adquire no
contexto da nova ordem social.
Não é, no entanto, isenta de polémica a concepção do princípio da
responsabilidade, desde logo pela diversidade de interpretações a que se
propicia o uso deste conceito. Com efeito, ao primeiro olhar esta concepção
surge alinhada com a visão neoliberal dos modos de governança, que associa
responsabilidade a imputabilidade (responsability vs accountability) e, por
consequência, a uma noção de direito que coloca tónica na visão autoritária, de
resposta de cada indivíduo pelos seus actos. Perante a afirmação do princípio
absoluto da liberdade individual, e a consequente retracção da intervenção do
Estado-Providência (nomeadamente ao nível das políticas e programas sociais), o
indivíduo torna-se o principal responsável pelo seu bem-estar e, do mesmo modo,
imputável por uma eventual má gestão dos riscos e uma insuficiente auto-
vigilância. Por outras palavras, associa-se o princípio da responsabilidade às
noções mais vulgares de papel e obrigação.
Em contraste, outros autores transportam a leitura deste princípio para um
domínio mais ético e moral. É o caso de Hans Jonas que, num raciocínio por
alguns considerado particularmente interessante ao operar a distinção entre
responsabilidade retrospectiva e responsabilidade prospectiva (Charbonneau
& Estèbe, 2001), inscreve o apelo à responsabilidade nas gerações presentes
sobre a futuro a legar às gerações vindouras. Na sua obra Das Prinzip
Verantwortung, publicada originalmente em 19795, aborda de forma particular a
questão dos riscos ambientais e das consequências das inovações tecnológicas em
curso, para advogar que uma certa heurística do medo deverá ser base
instrutiva e mobilizadora de auto-limitação e responsabilidade sobre os
possíveis efeitos futuros do crescimento. Pouvoir ablige ' no sentido estrito
da obrigação moral ' e o objecto próprio de uma nova concepção da
responsabilidade é a possibilidade de uma perpetuação da humanidade no futuro
(Sève, 1990, pp.73-74).
Mas é nosso entendimento que a leitura do conceito de responsabilidade, e do
princípio que sustenta, não fica completa sem uma outra abordagem, aquela que
não se situa exclusivamente sobre perspectivas individualistas e noções de
direito ou éticas, mas que abre espaço a uma leitura mais relacional da ideia
de responsabilidade e onde a noção de laço social não é estranha. Podemos
encontrá-la traduzida como prática concreta, entre outros, na construção de
parcerias em contextos de intervenção social e de promoção do desenvolvimento
local. Naturalmente, não naqueles processos de negociação em que uma das partes
(em muitas circunstâncias, o Estado) determina as regras, distribui os papéis e
apela as outras à participação, ao dever cívico de participar. Mas, sim,
quando a parceria configura uma congregação de esforços entre parceiros que
mantêm entre si uma independência e especificidade para além da
consensualização de esforços em torno de um propósito concreto, construído em
comum e a para o qual procuram conjugar meios de acção.
Nesta, como em outras estruturas de interacção (por exemplo, nas actuais
modalidades de relação entre pais e filhos), o quadro de responsabilidade não é
definido em absoluto a priori, mas vai-se revelando gradualmente como fruto do
próprio processo de interpelação mútua entre actores: que relações de poder
estão em jogo, como se negoceiam as tarefas, quais as regras em construção, que
modalidades de comunicação são utilizadas, como evoluem as práticas ao longo do
tempo, qual o peso da parte afectiva e do sentimento de obrigação? (Charbonneau
et Estèbe, 2001, p.8). Tratando-se de processos de interdependência, está a em
jogo o que Michel Métayer denomina de práticas de interpelação (2001, pp. 23-
26). Ou, para se ser mais preciso, de práticas de mútua interpelação, dado
tratarem-se de sequências de trocas em que as funções de quem interpela
(questiona ou pede) e de quem responde (pelos seus actos) se vão
intercambiando. Aquele que imputa uma responsabilidade a outrem tem também, por
sua vez, contas a prestar em função de compromissos que assumiu e que se
sente mais ou menos obrigado a cumprir.
Para finalizar, importa referir que esta abordagem relacional, pragmática ou
solidária, da responsabilidade não exclui as anteriores abordagens. Pelo
contrário, integra-se com elas. Baseada no contributo de vários filósofos
(Derrida, Blanchot ou Levinas), Stéphanie Gaudet (2001, pp.79-81) enuncia a
decomposição do conceito de responsabilidade em três modalidades, que são os
três movimentos de resposta: responder por si, responder ao outro, responder
perante as instituições. Responder por si configura, por excelência, a
responsabilidade de cada sujeito se individualizar, de ser ele mesmo, em suma,
de desenvolver uma reflexividade que marca o que para cada um é mais ou menos
importante. Por sua vez, a resposta ao outro é, segundo Derrida, Blanchot e
Levinas, a modalidade primeira, dado o conceito de responsabilidade se colocar
primordialmente em termos de laço de interdependência (Gaudet 2001, p.80).
Desde logo nos inícios da vida adulta, mas também nos compromissos amorosos ou
profissionais, o assumir desses compromissos para com os próximos é uma unidade
forte na trajectória de cada sujeito. Se as duas primeiras modalidades
pertencem sobretudo à esfera privada, existe ainda uma outra responsabilidade
que liga o indivíduo às instituições. Responder perante as instituições está
no centro do exercício de cidadania, posicionando o indivíduo perante as
instituições que definem a sociedade à qual pertence.
Ora, num contexto societal complexo como se configura o da modernidade
avançada, ser responsável por si constrói-se e solidifica-se na articulação
reticular com outros, na resposta ao outro e às suas interpelações. De igual
modo, o laço de responsabilidade que nos liga a outrem está intimamente ligado
ao domínio da reflexividade e à construção de uma identidade pessoal. Ou ainda,
contra o discurso da apatia, vários estudos demonstram a relação estreita entre
a construção de projectos individuais, os empenhamentos próximos e o
empenhamento cívico, comprometendo-se com responsabilidades prospectivas (a
luta pela defesa do ambiente e o futuro do planeta, recorde-se, ela própria
objecto de atenção especial no seio do cursos EFA orientados pela Fundação
Solidários). Só que, porventura, de uma forma mais desinstitucionalizada, mais
flexível, mais localizada no tempo e com propósitos muito concretos (Monteiro,
2004).
6. Cursos EFA, segunda abordagem: a co-responsabilização pelo futuro
Na última década do séc. XX e primeira do presente século, têm-se vindo a
reforçar os esforços no sentido de contrapor às políticas individualizadas de
inserção uma concepção mais colectiva da responsabilidade pelas
vulnerabilidades sociais. No contexto de programas e medidas que têm procurado
incorporar tais princípios, a responsabilidade face aos problemas sociais
desloca-se para o nível do local, ao mesmo tempo que, pouco a pouco, se
incrementa a valorização da concertação e da parceria entre os diferentes
actores envolvidos. Como fazem questão de salientar Jean-François René e outros
(2001, pp.125-139) descrevendo o caso concreto da experiência canadiana de
inserção profissional de jovens, num espaço de governação territorializada
traçam-se práticas de configuração partenarial entre Estado e organizações
comunitárias ...visando a construção de uma rede de intervenção em torno dos
jovens em dificuldade.
Um dos pontos de inovação que a Fundação Solidários introduz ao nível dos
cursos EFA, passa, em contraste, pelo facto de estas parcerias não se
constituírem a partir de uma malha institucional que potencia uma rede de
intervenção em torno de, mas pela aposta numa parceria com as mulheres. Só
possível pelo investimento em torno de competências que potenciaram o
empowerment destas formandas (reflexividade e autonomia de decisão; capacidade
de identificação de problemas, estratégias e recursos mobilizáveis; capacidade
negocial; compreensão das lógicas de concertação e trabalho em equipa),
reuniram-se por esta via condições para uma resposta capaz das formandas aos
desafios decorrentes do envolvimento numa prática de parceria. O esforço de
inserção traça-se na junção entre responsabilidades individualmente assumidas e
quadros de responsabilidade colectivamente partilhados. Num tal contexto, a
parceria funciona como um catalizador das responsabilidades.
Em termos concretos, iniciativas como a contratualização de competências ou a
apresentação de um projecto social e profissional associado ao portfólio
reflexivo, são entendidas como vias para fazer ir mais longe o empenhamento
responsável das formandas no traçar do seu próprio destino, assumido no seio da
equipa pedagógica como um dos objectivos primordiais a atingir. Descrevendo
sinteticamente o processo de contratualização de competências (Monteiro,
2008), este visa o reconhecimento pelas formandas das competências já detidas e
a tomada a consciencialização acerca das que elas julgam precisar ou querem vir
a desenvolver até ao final do percurso de formação6. O procedimento inicia-se
pela apresentação, por parte de uma mediadora, de um documento sumariando
situações de vida e competências a elas associadas (ocupação profissional,
Eu, Eu e os outros), a partir do qual cada mulher reflecte e identifica
competências já possuídas e outras a adquirir. Em entrevista pessoal com a
mediadora é, na base da auto-análise desenvolvida, clarificado um percurso
individualizado de formação. Finalmente, o documento O meu percurso de
formação, no qual designam as competências que pretendem vir a adquirir até ao
final do curso, é publicamente partilhado com as outras formandas, a equipa
pedagógica e alguns representantes institucionais.
Todo este processo implica um significativo esforço de auto-reflexão e auto-
determinação por parte de cada uma das mulheres, na definição de um percurso
individualizado de formação que a equipa pedagógica se compromete em parceria a
respeitar e a implementar. Mas, de forma igualmente clara, é por esta via
estabelecido um patamar de co-responsabilização, pelo qual se negociam metas
concretas e se assumem em conjunto compromissos para as atingir.
Notas finais: sucessos e limites da acção educativa
Na sua obra mais recente, La société du malaise, Alain Ehrenberg explora
aquelas que considera serem duas significações sociais para o conceito de
autonomia: a autonomia como condição e a autonomia como aspiração. A primeira
das mesmas, apoiada na herança puritana da cultura americana, encara o
indivíduo como um sujeito que se auto-governa e deve ser livre nas suas
escolhas e na prossecução da sua realização pessoal. Remete para a capacidade
do indivíduo para gerir as condições da sua independência, entender as
oportunidades, mobilizar o seu potencial e entrar em competição como em
cooperação. A segunda, a da autonomia como aspiração, identifica-se sobretudo
com o ideal republicano francês e é sobretudo uma reivindicação de emancipação.
Nesse sentido, invoca sobretudo o lado político da autonomia, ou seja, faz
depender a autonomia da acção do Estado e da capacidade deste para gerir uma
igualdadede protecçãoa todos os cidadãos.
Pelas razões já invocadas ao longo do presente texto, compreende-se facilmente
que a nova ordem social em vigor, marcada pelo risco, pela individualização dos
percursos de vida, pelos ideais de competição e cooperação, assim como pela
generalização dos próprios valores da autonomia, afasta cada vez mais o
conceito de autonomia do seu único significado enquanto aspiração política,
para o estabelecer como condição de vida e, mesmo, de sobrevivência social: A
autonomia tornou-se a nossa condição, mas à autonomia-independência veio
juntar-se a a autonomia-competição (Ehrenberg, 2010, p.36). Pelo que se torna
amplamente pertinente a questão colocada por Robert Castel, gerada ela própria
a propósito de uma análise crítica da obra de Ehrenberg: quais são as
condições necessárias para que a autonomia possa vir a ser verdadeiramente uma
autonomia como condição? (2010, p.10).
A resposta avançada por Castel é de que o indivíduo precisa de protecções para
salvaguardar a sua independência e o exercício da autonomia, em particular
aqueles que carecem de um mínimo de recursos e de direitos para poderem ser
independentes de facto. Sob pena de à fragilização dos laços sociais e ao
espectro da exclusão se somar um abandono do indivíduo à sua sorte, numa
sociedade cada vez mais competitiva e gestionária. Nesse sentido, a defesa do
direito, da igualdade de protecção e do papel regulador do Estado continuam a
ser condições necessárias para fazer sociedade. Uma resposta com a qual
Ehrenberg genericamente concorda, mas à qual acrescenta uma outra dimensão: a
de que a natureza das desigualdades de hoje implica uma responsabilidade
pessoal na medida em que, nas economias do conhecimento, a igualdade de
oportunidades depende das próprias capacidades relacionais e cognitivas do
indivíduo, na linha do que já haviam afirmado Amartya Sen e Esping-Andersen.
Esta situação implica o desenvolvimento de práticas consistindo em ajudar os
sujeitos a ajudarem-se a si próprios, devolvendo-lhes o poder de agirem e
tomarem decisões sobre o seu próprio futuro. Ou, por outras palavras,
promovendo o empowerment dos desfavorecidos.
Olhando para a experiência desenvolvida pela Fundação Solidários no quadro da
dinamização de cursos de Educação e Formação de Adultos, a principal conclusão
que daí se extrai é a de que esta organização tem procurado interpretar a
autonomia como uma condição necessária à vida daqueles que sofrem a
experiência de uma não plena inclusão na sociedade portuguesa. E, para tal, faz
uso da Educação como via para promover essa inclusão social e preparar as
formandas para a vida, de modo a que se tornem autónomas e se adaptem aos
vários contextos. Responsabilidade individual pela determinação do seu próprio
percurso de formação e pelo estabelecimento de metas de vida, co-
responsabilidade (em parceria, entre formandas e equipa pedagógica) pela
garantia de procedimentos adequados à consecução de tais metas, foram
princípios (a par dos já invocados, autonomia e auto-reflexão) em que os
intervenientes nestas iniciativas de Educação e Formação investiram
particularmente, e sobre os quais todas as avaliações reconhecem terem sido
atingidos resultados inovadores.
Contudo, existe no seio da Fundação Solidários a permanente noção de que o
ensaiado é sempre provisório e de que cada público, cada situação de exclusão,
exige novas experimentações e sucessivas avaliações críticas. Ainda que sempre
pautadas pelos valores que conferem à Educação um carácter emancipatório. Ou,
como nos lembra Licínio Lima, a concepção de uma educação permanente
caracterizada pelo diagnóstico crítico do mundo social, a compreensão dos
obstáculos e imaginação das possibilidades de transformação dificilmente
poderá deixar de reconhecer, humildemente, a desproporção entre a grandeza dos
seus objectivos e a limitação dos seus meios e capacidades. (2010, p. 51).