O ensino e a aprendizagem na sala de aula numa perspectiva dialética
Sendo a mediação na sala de aula uma automediação, não podemos abrir mão da
relação direta entre professor e aluno. Desse modo, não podemos substituí-la
por falsos mediadores, como por exemplo, a exibição de filmes quando a temática
não corresponde àquela tratada pelo professor, ou a execução aleatório de
atividades de ensino. Os professores que se utilizam com freqüência desses
recursos nutrem a esperança de que essas práticas sejam capazes de estabelecer
mediações que eles, os professores, talvez não se sintam seguros para
desenvolver. Alguns professores precisam ser lembrados de que sala de aula não
é sala de cinema nem oficina de terapia ocupacional.
Os professores que se utilizam desses artifícios o fazem muitas vezes no
intuito de facilitar a aprendizagem; porém, sendo a relação entre o ensino e a
aprendizagem uma luta de contrários, não há como facilitá-la. Ao inverso, o
professor deve dificultar a vida cotidiana do aluno inserindo nela o
conhecimento, e, dessa forma, negando-a. Pois, na vida cotidiana não há
conhecimento e sim experiência. Desse modo, não há como facilitar o que é
difícil. Aprender é difícil.
será sempre necessário que ela [criança] se fatigue a fim de aprender
e que se obrigue a privações e limitações de movimento físico isto é
que se submeta a um tirocínio psicofísico. Deve-se convencer a muita
gente que o estudo é também um trabalho e muito fatigante com um
tirocínio particular próprio, não só muscular-nervoso mas
intelectual: é um processo de adaptação, é um hábito adquirido com
esforço, aborrecimento e mesmo sofrimento. (Gramsci, 1985, p. 89)
Como assinala Gramsci, a aprendizagem depende do esforço pessoal de cada
estudante. É claro que o professor sempre poderá intervir, de modo direto,
neste processo, auxiliando o aluno. Ele deve esforçar-se para que os estudantes
aprendam, mas não pode minimizar nem esconder as dificuldades inerentes à
aprendizagem.
Quando compreendemos a mediação no seu sentido original, aquele atribuído por
Hegel (1770 - 1831) como superação do imediato no mediato, recusamos a idéia de
que é preciso reproduzir o cotidiano do aluno na sala de aula para que ele
aprenda; pois, com isso, aluno e professor se igualam. Isso é falso, pois eles
não são iguais e tampouco o professor pode apreender o cotidiano do aluno. Esta
possibilidade seria temerária, porque permitiria o controle da instância
singular do ser humano. Controle esse almejado pelos regimes totalitários como
o fascismo. Ao contrário dessa perspectiva, o professor deve distinguir-se do
aluno; nesse sentido, lembramos as palavras de Bertolt Brecht (1964) quando
indagado sobre a dificuldade de compreensão de suas peças pelos operários:
Também, então, houve quem nos perguntasse:
Será que o trabalhador vos entenderá?
[...]
Camaradas, a forma das novas peças
É nova. Mas porquê [sic] temer
O que é novo? É difícil de executar?
Mas porquê [sic] temer o que é novo e difícil?
Para quem é explorado e sempre desiludido
Também a vida é uma constante experiência, e
O ganho de uns quantos tostões uma empresa incerta
Que em parte alguma jamais se aprende.
Por que razão temer o que é novo, em vez do que é velho?
E mesmo que o vosso espectador, o trabalhador, hesite,
Vocês não deverão acertar o passo por ele, mas, sim adiantarem-se-
lhe,
Rapidamente, a passos largos,
Confiando, sem reservas na sua força, que surgirá enfim.
(Brecht, 1964, pp. 68-69)
No excerto do dramaturgo alemão, encontramos três idéias importantes que podem
ser discutidas a partir da relação ensino-aprendizagem na sala de aula. A
primeira é que no cotidiano não se aprende e, diríamos mais, no cotidiano
experimenta-se; e a experiência cotidiana na sala de aula é a negação da
aprendizagem. A segunda é que o professor não deve esperar que o aluno aprenda
para ensinar; ao contrário, deve ensinar para que o aluno aprenda, e isso
implica caminhar a passos largos e acreditar na possibilidade de o aluno, ao
defrontar-se com o novo, aprender. Afinal confiar na capacidade de o aluno
aprender é, em última instância, compreendê-lo como um ser humano e, nesse
sentido, igual ao professor. A terceira idéia oferecida no excerto de Brecht
consiste no desafio proposto por este artigo aos professores: por que temer o
que é novo e difícil? Por que razão temer o que é novo, em vez do que é velho?
Em outras palavras, porque não enfrentar a dificuldade de apreender o sentido
original e dialético da mediação, aplicando-o na sala de aula?
Ensino e aprendizagem
Quando se compreende a relação ensino-aprendizagem na sala de aula como
mediação, o ensino e aprendizagem são opostos entre si e se relacionam por meio
de uma tensão dialética. Desse modo, esses termos, apesar de negarem-se
mutuamente, se completam, mas, como já o dissemos, essa unidade não se
estabelece de modo linear.
Neste artigo, conceituaremos primeiro o ensino e, pela sua negação,
conceituaremos aprendizagem. Sabemos da dificuldade de conceituar esses dois
termos, pois de modo geral os estudiosos da área de educação e os professores,
talvez por influência das pedagogias contemporâneas, não o fazem; pois
preocupam-se quase exclusivamente com o como ensinar, ou mais precisamente
como facilitar a aprendizagem dos alunos.
A idéia principal que informa o nosso conceito de ensino é a de que ele
expressa a relação que o professor estabelece com o conhecimento produzido e
sistematizado pela humanidade. Assim, o ensino constitui-se de três atividades
distintas a serem desenvolvidas pelo professor.
A primeira consiste em, diante de um tema, selecionar o que deve ser
apresentado aos alunos; por exemplo, no tema Revolução Francesa, próprio da
História, selecionar o que é mais importante ensinar aos alunos da 5ª série
(nomenclatura brasileira). Já o professor do 1º ano do Ensino Médio deve
defrontar-se com a mesma pergunta; a mesma situação se coloca ao professor
universitário encarregado de abordá-lo. Dessa forma, o docente deve preocupar-
se em compatibilizar a seleção do conhecimento a ser ensinado com a
possibilidade de aprendizagem dos alunos. Nos dias de hoje, é bastante comum
que a seleção seja abrangente; e isso pode levar os professores a apresentarem
aos seus alunos informações supérfluas, que, quando confundidas com
conhecimento, não lhes permitem fazer as sínteses necessárias para a superação
do cotidiano, produzindo neles uma erudição balofa que pode ao contrário
encerrá-los na vida cotidiana. Esse equívoco ocorre, por exemplo, quando o
professor de História, ao abordar a Revolução francesa, preocupa-se com
detalhes da vida privada de Maria Antonieta ou com a moda ditada por Luís XV.
Ainda exemplificando, o mesmo pode ocorrer com o professor de Literatura que
expõe aos alunos os períodos literários e seus principais expoentes sem
apresentar as relações entre os autores, bem como entre os períodos literários,
ocultando assim a historicidade inerente à literatura. A erudição balofa pode
também estar presente nas disciplinas ligadas às ciências naturais; ela tem
levado os professores a acreditar que quanto maior a quantidade de informações
mais os alunos sabem.
A segunda atividade desenvolvida pelo professor é a organização, ou seja,
diante da seleção feita a partir de um tema é preciso organizar esta seleção
para apresentá-la aos alunos. Desde o momento em que fazemos a seleção já não
podemos falar mais em temas; devemos preocupar-nos com os conceitos que os
constituem. Agora o que o professor deve fazer é organizar os conceitos e as
relações entre eles. Esse processo, de acordo com Lefebvre (1983), implica dois
movimentos: a retrospecção e a prospecção.
A retrospecção permite que o estudante compreenda o processo de formação e
desenvolvimento do conceito abordado e a prospecção possibilita o entendimento
do estado atual do conceito a partir das relações que o conceito estudado
estabelece com outros, tanto com aqueles que o corroboram quanto com os que a
ele se opõem. A prospecção do conceito permite o estabelecimento de relações
interdisciplinares, a que temos chamado de interdisciplinaridade conceitual
para distingui-la daquela que é corrente na escola, a interdisciplinaridade
temática. Não podemos ensinar por meio do tema, devemos fazê-lo por meio do
conceito. Evitamos o uso da expressão conteúdo de ensino em virtude da sua
imprecisão. Pois ela pode remeter a um conceito, a uma atividade de ensino, ou
a um tema. Quando a organização do ensino é baseada nos processos de
retrospecção e prospecção de conceitos, o fundamental são as relações que se
estabelecem nos dois processos. No primeiro, elas dizem respeito ao
desenvolvimento do conceito, à oposição entre a sua origem e o estado atual, no
segundo, elas tratam dos vínculos entre conceitos. Assim, podemos afirmar que
ensinar é fazer relações. Por isso, ensinar é tão difícil quanto aprender.
A terceira tarefa do professor é transmitir aos alunos aquilo que foi
previamente selecionado e organizado. Dessa forma, a transmissão é a única
etapa do processo de ensino que ocorre efetivamente na sala de aula. Em que
pese o preconceito sobre a palavra transmissão, não abrimos mão dela, porque é
isso o que o professor faz na sala de aula. É na transmissão do conhecimento
que ocorrem as mediações entre professores e alunos.
Se o ensino é a relação que o professor estabelece com o conhecimento, a
aprendizagem ao contrário é a relação que o estudante estabelece com o
conhecimento e, portanto, é nela que a mediação se efetiva: pela superação do
imediato no mediato.
Não é possível discutir a aprendizagem como fizemos com o ensino, porque ela é
de cunho singular e, dessa forma, ocorre de modo diverso em cada estudante. A
discussão da aprendizagem na perspectiva deste texto, ou seja, em oposição ao
ensino, ainda deve ser elaborada e, certamente, não poderá sê-lo pela
psicologia, mas sim pela filosofia. A única possibilidade, ainda que remota no
âmbito da psicologia, estaria no desenvolvimento do pensamento de Vigotski,
desde que compreendido numa perspectiva filosófica, pois a psicologia como
ciência tem por objeto o comportamento, e aprender não é o mesmo que comportar-
se, em que pese o esforço das pedagogias contemporâneas em desenvolver esta
associação. Do nosso ponto de vista, o que a psicologia, no seu estado atual,
pode fazer é controlar a aprendizagem, o que é diferente de compreendê-la.
Quando a relação ensino-aprendizagem é tomada na perspectiva da mediação no seu
sentido original, ao mesmo tempo em que não há uma relação direta entre ensino
e aprendizagem, não há também uma desvinculação desses dois processos. Ou seja,
para haver aprendizagem, necessariamente deve haver ensino. Porém, eles não
ocorrem de modo simultâneo. Dessa forma, o professor pode desenvolver o ensino
' selecionar, organizar e transmitir o conhecimento ' e o aluno pode não
aprender. Para que o aluno aprenda, ele precisa desenvolver a sua síntese
singular do conhecimento transmitido, e isso se dá pelo confronto, por meio da
negação mútua, desse conhecimento com a vida cotidiana do aluno. Como cada
aluno tem um cotidiano, e o conhecimento é aprendido por meio da síntese já
explicitada, o conhecimento não pode ser aprendido igualmente por todos os
alunos, embora aquele transmitido pelo professor seja único. Assim, a relação
ensino-aprendizagem na perspectiva aqui apresentada expressa o vínculo
dialético entre unidade e diversidade. Por isso, o conhecimento transmitido
pelo professor pode ser uno e aquele aprendido pelo aluno pode ser diverso. A
unidade e a diversidade são opostos que se completam, o que é próprio do
humano.
Conclusão
Este artigo pretende contribuir para que os professores compreendam o seu
fazer. E ao mesmo tempo, superem a concepção errônea de que para que haja
ensino deve haver simultaneamente a aprendizagem. Isso só é possível de modo
fugaz, quando o ensino se circunscreve ao cotidiano do aluno e a aprendizagem
resulta na mudança de comportamento. Para difundir essa concepção, não faltam
construtivistas que leram apenas as orelhas dos livros de Piaget, ou sócio-
construtivistas que associam Piaget a Vigotski, ignorando que os dois autores
filiam-se a correntes filosóficas diferentes e que, por isso, não podem ser
associados. Além disso, os sócio-construtivistas, dentre os quais estão os
responsáveis pela elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais Brasileiros,
ignoram que Piaget discutiu as relações sociais e que Vigotski trabalhou os
problemas relativos ao conhecimento. Esses equívocos patrocinados por
organismos oficiais, como o Ministério da Educação do Brasil tanto nas gestões
Cardoso como Lula da Silva, levam os professores à frustração profissional, uma
vez que não são capazes de fazer com que seus alunos aprendam de forma imediata
e muito menos podem controlar o seu comportamento.
Esta discussão, ainda que inicial, pretende mostrar aos professores que a
relação ensino-aprendizagem é um processo que demanda tempo e dedicação, mas
que, sobretudo, precisa ser compreendido na sua totalidade e em bases
filosóficas coerentes. Sem esse exercício de compreensão dos fundamentos da
relação ensino-aprendizagem, o esforço dos professores se transforma em
frustração profissional e desgaste pessoal.