A Primeira Guerra Mundial em Angola. O ataque preemptivo a Naulila
O objetivo deste texto é enfatizar aspectos estratégico-militares e
operacionais relativos ao combate de Naulila, ocorrido em 18 de dezembro de
1914, entre as forças expedicionárias portuguesas comandadas pelo tenente-
coronel Alves Roçadas e forças coloniais alemãs comandadas pelo major Franke, o
qual, como refere Nuno Severiano Teixeira, se inscreve na gesta dos portugueses
na Grande Guerra2. Para António Telo o resultado do confronto foi um autêntico
desastre, traduzido no recuo do dispositivo e na necessidade de enviar uma nova
expedição, desta vez comandada pelo general Pereira D'Eça3. Desde finais
do século XIX até 1915, Angola foi teatro de guerra português onde foram
empenhados mais meios humanos e materiais, o que revela bem da sua
importância4. Mesmo assim, no início das hostilidades na Europa, a opção de
enviar expedições militares traduzia-se num enorme risco estratégico, porque
desviava meios essenciais ao levantamento da Divisão Auxiliar a empenhar no
teatro de guerra europeu, uma vez que o Governo português considerava que era
aí que as colónias seriam defendidas.
Ao nível político, e segundo alguma historiografia de referência, Naulila
acabou por ser o resultado esperado de uma situação que conjugou três dimensões
distintas: o relacionamento entre a Alemanha e a Grã-Bretanha e as suas
pretensões sobre os territórios portugueses; a situação política interna em
Portugal; e as recorrentes incursões (militares, económicas e políticas) alemãs
no Sul de Angola5. Apesar de ambos os contendores terem empenhado forças de
baixo escalão (batalhão reforçado com cavalaria e artilharia) em comparação com
os efetivos envolvidos no teatro de guerra europeu, consideramos que o combate
de Naulila não deve ser analisado como um simples recontro de nível tático. Ele
deve ser entendido como parte de uma estratégia que era muito clara para cada
um dos contendores, embora se possa criticar a sua adequabilidade, pelo menos
no que respeita a Portugal.
Empenhar forças em África era a oportunidade para demonstrar aos aliados e à
opinião pública interna a capacidade do Governo em empenhar meios militares
para salvaguardar a integridade das colónias. A manutenção da integridade do
império colonial era a grande preocupação nacional e talvez o único objetivo
que na época,reunia o consenso na sociedade civil e política, decorrente da
sensação de ameaça que pairava sobre Angola e Moçambique em duas linhas: a
vontade alemã em estender os seus territórios; e a transigência britânica em
relação aos anseios alemães. Esta perceção ficara claramente demonstrada pelo
conhecimento das conversações germano-britânicas em 1898 e em 1912-1913. Por
essas razões não é de estranhar a vontade do Governo português em enviar forças
para as colónias mesmo em condições materiais e técnicas muito precárias.
E ao nível estratégico-militar? Que significado teve o combate de Naulila? O
que é que estava em jogo no Sul de Angola? Que importância tinha Naulila para
os alemães do Sudoeste Africano?
Em termos militares, o combate de Naulila aparece referenciado em alguma
historiografia como um "ataque punitivo" contra as forças de
Roçadas depois do incidente que envolveu uma patrulha portuguesa e uma patrulha
alemã e que acabou inesperadamente com a morte da maior parte dos alemães.
Gerald L'Ange refere-se a Naulila como um ataque punitivo para vingar a
morte do governador Schultz-Jena e dos militares que o acompanhavam. Porém, a
utilização do termo não parece adequada à análise que faz: considera que os
alemães receavam que a expedição de Roçadas tinha como objetivo bloquear o
fluxo de abastecimentos a partir de Angola, que o incidente marcava o início da
beligerância de Portugal ao lado dos britânicos e que a vitória germânica
permitiu que se concentrassem na frente sul6. Max Baericke, num livro em que
analisa o combate de Naulila, refere-o como uma expedição punitiva, "Die
Strafexpedition Franke". Considera o ataque de 18 de dezembro como uma
resposta ao incidente de Naulila de outubro, decidido logo a seguir entre o
governador da colónia e o comandante militar, que Franke viria a substituir
depois da sua morte por acidente. O texto é essencialmente descritivo,
referindo que a operação obteve um sucesso inesperado devido à retirada dos
portugueses por receio de Roçadas de ser envolvido e ser incapaz de defender o
planalto da Huíla. Apesar do elevado número de baixas alemãs, as tropas estavam
motivadas porque lhes foi transmitido que iam vingar os seus camaradas mortos7.
O autor considera que os alemães nunca tiveram como objetivo a conquista de
terreno nem atacar as populações locais8. Augusto Casimiro refere que o
governador e o comandante das forças alemãs no Sudoeste Africano se decidiram
por uma "expedição punitiva" sobre Naulila logo a seguir à notícia
do incidente9. Marco Arrifes refere também a ação alemã como uma ação punitiva
com escasso significado militar10.
John Cann estuda a batalha de Naulila no âmbito das operações alemãs no Sul de
Angola contra os portugueses ao nível tático, operacional e estratégico. Cann
faz uma incursão histórica na importância de Angola na luta entre britânicos e
alemães para enquadrar a opção portuguesa em enviar a expedição de Roçadas.
Conclui que Naulila foi uma strafexpeditionno âmbito da defesa ativa alemã no
Sudoeste Africano para deixar de ter preocupações no flanco norte11. O ponto
fraco deste texto está relacionado com a falta de recurso a documentos de
arquivo.
Jakob Zollmann, numa análise ao acontecimento no âmbito da evolução do direito
internacional relacionada com a política colonial, centra-se nas exigências de
reparação de Portugal à Alemanha por considerar que as represálias em Naulila
foram exageradas tendo em conta o incidente. Zollmann refere-se aos ataques a
Dangoena e a Naulila como ações decididas em Windhoek para exercer represálias
e "prevenir" um ataque português julgado como muito provável depois
de considerar que Portugal se havia decidido por lutar ao lado dos aliados.
Contrariamente a Cann, Zollmann faz extensiva utilização de documentação de
arquivos alemães, apesar de não ter intenção de fazer uma análise à estratégia
dos contendores12.
Historicus Africanus, o pseudónimo de um historiador alemão do Sudoeste
Africano, deixou um importante manuscrito sobre a Primeira Guerra Mundial na
colónia alemã. Refere que o ataque a Naulila em dezembro de 1914 deveria ser
rápido e violento para destruir o máximo de forças portuguesas possível. O
ataque servia também para demonstrar aos africanos que os alemães detinham o
melhor exército na região. Baseado em documentação de arquivo, o autor refere
uma reunião entre Franke e o tenente-coronel Von Heydebreck, comandante das
forças alemãs, em que consideravam essencial atacar as tropas portuguesas
porque mais tarde ou mais cedo iriam atacar o Sudoeste Africano. Volker Lohse,
que escreveu o prefácio desta obra, considera que a expedição de Franke teve
intuito de defender a honra dos alemães mortos e também prevenir que fosse
aberta uma nova frente no Norte da colónia13. Moreira dos Santos, militar que
participou no combate em Naulila, dá-nos uma outra importante pista para
ancorar o nosso argumento ao referir o testemunho do médico alemão da força de
Franke. Publicado num jornal de Windhoek, o Dr. Walter Suhiez refere que devido
ao fogo inesperado de que estavam a ser alvo, os alemães tinham que atuar com
rapidez porque o insucesso do ataque a Naulila representava a ruína e a
destruição de todo o seu pequeno exército14.
Assim sendo, o risco corrido com o ataque a Naulila não se enquadra no tipo de
uma operação executada meramente para vingar a morte de outros militares. Por
conseguinte, consideramos que a ação alemã deve ser vista como um ataque
preemptivo para desorganizar qualquer tentativa portuguesa de apoiar os
ingleses a partir do Sul de Angola. Temos consciência de que o termo é
anacrónico para este importante acontecimento histórico, mas também não
desvirtua a sua essência. O nosso argumento baseia-se em dois importantes
pontos de referência: 1) a definição de ataque preemptivo, que se refere à
utilização de força militar contra um ataque inimigo que está em preparação ou
iminente15; 2) e no entendimento do governador-geral do Sudoeste Africano de
que Portugal se tinha decidido pela beligerância ao lado dos britânicos, tendo
enviado uma expedição para o Sul de Angola para obrigar os alemães a combater
em duas frentes.
O início da guerra na Europa criou uma inquietude generalizada junto dos
alemães do Sudoeste Africano, porque se sentiam inseguros pela presença
britânica na África Austral e controlo do Atlântico, e pelo facto de Portugal,
apesar de neutral, ser um aliado britânico. Era necessário saber se os
portugueses se colocariam ao lado dos britânicos ou se mantinham a
neutralidade, uma vez que, para além de poderem ser completamente isolados,
necessitavam da manutenção das suas linhas de comunicações com Angola, de onde
recebiam importantes quantidades de abastecimentos16. A expansão da guerra a
África tinha sido decidida pela Grã-Bretanha, colocando de lado o seu
compromisso datado da Conferência de Berlim de 1885, que estabelecia que os
territórios ao sul do Congo não deveriam ser campos de batalha das potências
coloniais europeias17. A decisão britânica deixava os colonos alemães numa
situação delicada devido às assimetrias de poder em relação aos britânicos,
ditada por questões geográficas e de efetivos militares em África. Porém, os
alemães consideravam que o futuro das suas colónias se decidiria no campo de
batalha europeu, onde esperavam uma rápida vitória sobre a França. Em África,
só havia que evitar que os britânicos alcançassem a vitória antes da decisão na
Europa.
Assim, não é de estranhar que no Sudoeste Africano alemão a estratégia militar
tivesse como objetivo ganhar o máximo de tempo possível, um aspecto que assumia
ainda maior importância desde que Louis Botha, o primeiro-ministro da União da
África do Sul, decidiu apoiar os britânicos. O seu conceito genérico orientava-
se no esforço de defesa a sul para poder ganhar o máximo de tempo possível,
explorando a dimensão e aridez do deserto e em assegurar como último reduto
defensivo a zona norte do território18. Por essa razão, garantir que o flanco
norte estava livre de ameaças sérias era uma importante missão para o sucesso
dessa estratégia.
Os efetivos envolvidos diretamente no combate em Naulila, cerca de 1500
portugueses e cerca de 600 por parte dos alemães, são pouco relevantes em
comparação com os padrões do teatro de guerra europeu, podendo induzir-nos em
erro ao considerar que o combate em Naulila foi um acontecimento meramente
tático. Contudo, há evidências de que isso não correspondeu à importância que
ambos lhe conferiram por duas razões principais. Em primeiro lugar, os
contingentes eram comandados por dois oficiais de grande prestígio, alcançado
em operações anteriores, e conhecedores do teatro africano. Em segundo lugar,
os meios envolvidos representavam um enorme esforço para ambos. Para os
portugueses, com uma débil situação económica e financeira, manter Angola livre
das incursões alemãs e da sua influência sobre as populações era uma prioridade
estratégica na manutenção da soberania na colónia. Para os alemães do Sudoeste
Africano, que na altura estavam empenhados numa guerra contra os sul-africanos
e britânicos na fronteira sul, a operação sobre Naulila representava um elevado
risco do ponto de vista estratégico-militar, ao desviar importantes recursos da
sua linha defensiva principal. Em 1914, a África do Sul tinha um efetivo que
rondava os 40 mil militares, enquanto o total de tropas coloniais alemãs, as
Schutztrüppen, em todas as colónias não ultrapassava os sete mil. No Sudoeste
Africano alemão, em agosto de 1914, não ultrapassavam os dois mil efetivos
divididos e organizados em nove companhias19. Tendo em consideração que os
alemães tinham obtido informações de que Portugal estava a mobilizar meios para
Angola, nomeadamente através dos jornais portugueses, não poderiam correr o
risco de perder o seu reduto defensivo nem ter de combater em duas frentes.
O COMBATE EM ÁFRICA
Desde meados do século XIX que a participação de forças europeias em guerras em
África era um fenómeno recorrente. Eram levadas a cabo contra nativos e as suas
ações eram essencialmente limitadas em termos geográficos e temporais, tendo
como finalidade primária a imposição da autoridade colonial. Contudo, o início
da escalada em África logo no verão de 1914, opondo os alemães à Grã-Bretanha
no Togoland, viria rapidamente a mudar esse padrão. As forças militares que as
potências coloniais utilizaram em África durante a Primeira Guerra Mundial eram
compostas por unidades mistas de africanos e europeus, colonos ou mobilizados
das metrópoles. Pela especificidade das suas missões, que iam muito para além
do seu emprego linear e tradicional dos padrões do início do século XX, aquelas
tinham de se adaptar em termos de estrutura, de composição, de armamento e
modus operandi. As unidades tendiam a ser de baixo escalão, com armamento
essencialmente ligeiro e com táticas que tinham de fomentar a iniciativa dos
comandantes subalternos, uma vez que podiam dispersar-se e cumprir missões
independentes.
Apesar de se poder considerar o teatro africano como secundário no desfecho da
guerra, o número de efetivos envolvidos em operações pelas principais potências
coloniais (Grã-Bretanha, Alemanha, França e Portugal) foi muito elevado. Cerca
de dois milhões de africanos foram mobilizados para combater ou para exercer
outras funções, essencialmente de carregadores, tendo cerca de 200 mil perecido
em ação ou por doença20.
Tomando como referência o teatro europeu, o número de mortos em combate em
África foi relativamente baixo. Porém, as perdas derivadas da doença e da má
nutrição podem contabilizar-se em dezenas de milhares21. O caso português é
paradigmático, uma vez que envolveu forças em ambos os teatros. Assim, apesar
de as várias fontes não serem precisas, em Angola o número de mortos pode ser
contabilizado em 648 por doença e 237 em combate, o que, num total de 3009
efetivos empenhados na expedição comandada por Alves Roçadas, corresponde a 29
por cento. No caso de Moçambique (1914-1917), os números são de 2633 mortos em
combate e de 2214 por doença, o que num total empenhado de cerca de 11 961
efetivos corresponde a 40 por cento do total, sendo por essa razão números
muito significativos22. Se compararmos com os dados relativos à Flandres, os
números são ainda mais impressionantes, uma vez que o número de mortos em
combate, doença e por acidente atingiu os 2086, num total mobilizado de 55 165,
o que perfaz cerca de quatro por cento23. Para o número de baixas em Angola e
em Moçambique em muito contribuíram as condições em que as operações eram
levadas a cabo, como a falta de higiene, doenças endémicas, falta de água e a
deficiente alimentação.
Com a falta de estradas, a quase nula densidade populacional em largas parcelas
dos territórios e sendo a guerra em África um empreendimento de unidades de
baixo escalão, o desafio principal que se colocava aos comandantes não era
derrotar o inimigo, mas localizá-lo. Muito do sucesso das operações dependia da
capacidade das unidades e elementos dedicados ao reconhecimento e à segurança,
bem como da capacidade em estabelecer ligação entre os elementos dispersos pelo
campo de batalha.
Um outro aspecto decisivo a ter em conta era o esforço logístico necessário,
mesmo para unidades de escalão companhia com cerca de 150 homens. Se
considerarmos como referência uma ração diária de 1,5 quilos e o peso máximo de
transporte de 30 quilos por homem, uma missão com dez dias de marcha obrigava a
ter tantos carregadores como soldados combatentes. Uma marcha de três semanas
equivalia ao consumo do total do peso transportado por cada carregador. Assim,
o comandante encontrava-se perante o dilema entre optar por alimentação ou por
outros abastecimentos essenciais ao combate, como por exemplo munições. Um
batalhão de infantaria em deslocamento para o combate podia ter uma
profundidade da coluna superior à de uma divisão em formação típica de ataque
no teatro de operações no Centro da Europa. As infraestruturas rodoviárias,
ferroviárias e portuárias eram ínfimas para a extensão dos territórios. O
transporte por via-férrea tinha chegado ao hinterlandafricano apenas no final
do século XIX e as estradas eram desadequadas para o movimento de qualquer tipo
de viaturas. Por essa razão, era necessário estabelecer uma ligação efetiva
entre as bases logísticas e a frente de combate baseada em carregadores e em
étapes. Para aumentar a complexidade no apoio logístico, contribuía também o
facto de as forças coloniais estarem normalmente equipadas com armamento
antiquado e não padronizado, com vários tipos de armas e calibres, uma vez que
não era provável o empenhamento entre potências coloniais e aquelas eram
suficientemente dissuasoras contra os nativos.
Assim, pelas razões expressas acima, o combate em África era essencialmente um
empreendimento da infantaria apoiada por unidades de metralhadoras, que eram a
arma pesada mais disseminada pela frente de combate e era excecionalmente
adequada a escaramuças entre forças de reconhecimento e segurança e unidades de
baixo escalão. Apesar de muito proveitosas em espaço aberto ou com vegetação
dispersa, praticamente não havia peças de artilharia para além da artilharia
ligeira utilizada na montanha. O seu deslocamento e sustentação logística
tornavam quase impossível a sua utilização em tempo oportuno.
O CONTEXTO ESTRATÉGICO
Desde finais do século XIX que pairavam ameaças reais sobre as duas colónias
portuguesas mais importantes em África (Angola e Moçambique) devido às
negociações anglo-germânicas que supunham a sua expansão à sua custa. Este
objetivo estava à partida facilitado porque não reconheciam a Portugal a
capacidade para manter uma presença efetiva nem potencial para os defender.
Assim, no início da Primeira Guerra Mundial, sob o ponto de vista das
autoridades portuguesas, a problemática relacionada com a manutenção do Império
em África deve ser entendida em duas dimensões distintas.
Numa primeira dimensão, deve-se ter em conta a desconfiança natural que os
portugueses nutriam pela Grã-Bretanha devido aos acordos anglo-germânicos de
1913 para divisão das colónias portuguesas, como moeda de troca de Londres para
evitar a expansão da marinha de guerra germânica. Na realidade, os períodos de
tensão decorrentes da rivalidade naval anglo-germânica dos anos anteriores
davam lugar a uma melhoria de relações devido à possibilidade de partilha dos
territórios portugueses. Era assumido que a desintegração dos territórios
portugueses na África Austral era uma questão de tempo e a Grã-Bretanha seria a
herdeira natural24.
Numa segunda dimensão, a ameaça aos territórios apresentava-se pela
concretização da beligerância com as forças alemãs em Angola e em Moçambique.
No início de 1914 a Europa parecia repousar num período de calma e
tranquilidade que em nada faria supor o início de uma guerra de proporções
mundiais. Os alemães tentaram até um compromisso com as outras potências
coloniais para que uma guerra eventual na Europa não implicasse o envolvimento
de forças do continente africano25.
Porém, o ataque britânico ao Togoland, que acabou com a destruição do posto
rádio alemão, evidenciou que a guerra iria ter o seu teatro africano, com
sequelas nos Camarões, África Oriental e África Ocidental, em que os
territórios portugueses poderiam facilmente ser envolvidos. Quando as notícias
da crise de julho de 1914 chegaram às populações brancas em África, não foram
celebradas de forma efusiva em apoio dos respetivos governos na Europa. Os
colonos africanos consideravam que o seu papel era essencial no controlo dos
territórios, das populações negras e a sua exploração económica, ficando o seu
futuro em perigo no continente com a possibilidade de uma guerra que opusesse
os brancos em África26.
Para além das questões políticas internas e da grave crise financeira, o caso
português era no entanto mais complexo devido à rivalidade entre britânicos e
alemães e ao papel que Angola e Moçambique podiam desempenhar nas suas
relações. A diplomacia portuguesa lidava com uma evidente contradição em
relação à Grã‑Bretanha, que por um lado se manifestava como o garante da
soberania portuguesa sobre as colónias, e, por outro, já se tinha mostrado
disposta a sacrificar a aliança secular com Portugal para amenizar a tensão com
Berlim a troco da divisão das colónias portuguesas27. Em Angola entrecruzavam-
se as dinâmicas decorrentes da desconfiança em relação aos britânicos e da
rivalidade anglo-germânica com a necessidade de o Governo português demonstrar
a sua autoridade junto à colónia alemã do Sudoeste Africano, que tinha
fronteiras mal definidas com Angola e que era local propício para constantes
incursões germânicas, de âmbito político, económico e militar.
Em meados de setembro de 1914, algumas forças sul-africanas invadem o Sudoeste
Africano em apoio à Grã-Bretanha. A partir desse momento, a fronteira sul
passou a ser a principal preocupação em Windhoek.
Os britânicos pretendiam o envolvimento militar sul-africano no Sudoeste
Africano para se apoderarem dos portos e das estações rádio existentes no
território, consolidando uma relação mais próxima com o Império Britânico. O
Governo sul-africano, liderado pelo general Louis Botha, assumiu o ónus da
campanha militar contra os alemães para demonstrar a sua capacidade e autonomia
em relação a Londres, deixando também um claro sinal que o seu país podia
aspirar à incorporação de todos os territórios sob domínio britânico na África
Austral: Bechuanalândia, Rodésia do Sul e Niassalândia28. Em agosto de 1914, a
decisão de Botha em apoiar a coroa britânica viria a dar origem a uma rebelião
de africânderes, que acabou por ser controlada pelas forças políticas e
militares leais ao Governo, mas que durou até janeiro de 191529. A revolta dos
bóeres, liderada por Maritz, tinha como objetivo derrubar o Governo de Botha,
tendo conseguido agregar um considerável número de revoltosos que tinham lutado
contra os britânicos na guerra de 1899-1902. O golpe estava planeado para ser
levado a cabo no dia 14 de setembro de 1914, tendo Maritz chegado a solicitar o
apoio de Von Heydebreck (comandante das Schutztrüppen). O golpe falhou por
falta de um plano coerente e de unidade de comando30.
A revolta fez com que os sul-africanos interrompessem as operações de grande
envergadura entre setembro e dezembro de 1914. Porém, em julho de 1915 os
alemães rendem-se completamente isolados pelas forças da União da África do
Sul. A derrota alemã no Sudoeste Africano alterou significativamente o contexto
estratégico na região. A Grã-Bretanha reforçou o controlo das rotas marítimas
no Atlântico Sul e reforçou a sua ligação política com a União depois do
turbilhão político resultado da guerra com os bóeres. A União da África do Sul
alargava a sua fronteira ao Sul de Angola e substituía a colónia alemã31.
Foi no período entre o início das revoltas africânderes de agosto de 1914 e o
reinício das ofensivas da União da África do Sul sobre o Sudoeste Africano, que
as tropas portuguesas, lideradas pelo tenente-coronel Alves Roçadas, iriam
enfrentar as forças alemãs e ocupar um lugar central na gesta da participação
de Portugal na Primeira Guerra Mundial.
Dado o contexto estratégico em relação às pretensões anglo-germânicas de finais
do século xix e do acordo de 1913, a maior ameaça ao Sul de Angola advinha da
fraca implantação administrativa e militar. No início do século XX, apenas
cerca de 20 por cento do território angolano estava controlado pelas
autoridades portuguesas, o que tinha sido conseguido à custa de sangrentas
campanhas de pacificação. A última, antes do início da Primeira Guerra Mundial,
tinha sido liderada por Alves Roçadas em 1907 na região do Cuamato. Por essa
razão, não é de estranhar que no Sul de Angola, devido à fraca implantação
militar e administrativa, houvesse uma sensação de insegurança junto das
populações brancas, não só em relação aos nativos, mas também em relação aos
alemães do Sudoeste Africano que percorriam a região sem grande interferência
das autoridades portuguesas.
Para acesso do Norte da colónia ao mar, aos alemães convinha uma ligação ao
porto de Moçâmedes, que era o menos distante e não estava controlado pelos
britânicos. Desde o final do século XIX que a baía dos Tigres em Angola tinha
sido considerada como porto essencial para ligação a uma linha transafricana
para ligar o Sudoeste Africano ao Transvaal e a Lourenço Marques, de modo a
facilitar o comércio alemão entre o Atlântico e o Índico32.
A fraca implantação administrativa, militar e a extensão da fronteira sul de
Angola faziam com que o território estivesse à mercê de incursões militares,
económicas e políticas. No início de 1900, o então capitão Victor Franke, que
mais tarde comandaria as forças alemãs na operação contra a guarnição de
Naulila, liderou uma ação de reconhecimento até à região do Humbe. Em 1901, uma
outra missão de reconhecimento foi levada a cabo até à região do Cuamato33. Em
1902, um raidalemão com uma força de 40 homens ultrapassou o rio Cunene até ao
porto da Jamba, região ainda livre de ocupação portuguesa. Também as missões e
os comerciantes alemães estendiam a sua rede de interesses na região sul de
Angola. A população cuanhama (região do Cuamato), que resistia aos esforços de
pacificação e ocupação dos portugueses, tinha uma relação muito próxima com os
alemães, por quem era munida de armamento e incentivada a não aceitar a
administração portuguesa.
A criação da companhia Angola Bund confirmava o interesse económico e político
alemão na colónia portuguesa. Em 1913 foi estabelecido o consulado-geral da
Alemanha em Luanda e foi selado um acordo comercial para abrir os portos
angolanos aos alemães. Foi criada uma comissão científica conjunta luso-alemã
para estudos no Sul de Angola, que permitia a livre circulação dos seus
membros, embora acompanhados pela delegação portuguesa34. O vice-cônsul da
Alemanha era considerado uma espécie de ponta de lança do interesse alemão na
região, dada a sua atividade política, comercial e militar na região sul de
Angola a pretexto do reabastecimento da colónia junto da fronteira. Desde o
início de 1914 que era comum o movimento de comerciantes e outros cidadãos
originários do Sudoeste Africano, que os portugueses consideravam como os
elementos mais avançados de uma ação militar no Sul de Angola35. Há também que
considerar que em 1914 a colónia alemã não dispunha de abastecimentos
suficientes para alimentar as suas tropas e populações brancas devido à fraca
produtividade da colónia e à seca extrema que a afetava. Por conseguinte,
dependia das linhas de comunicações abertas com Angola, especialmente do porto
de Moçâmedes, com quem negociava o abastecimento de alimentos e forragens36.
A hostilidade anglo-germânica no verão de 1914 fez Lisboa temer pela soberania
dos seus territórios em África. Em 8 de setembro, Norton de Matos decretou o
estado de sítio com a intenção de proibir as constantes violações de fronteira
no Sul de Angola por alemães civis e militares. Como o Governo-Geral de Angola
não tinha meios militares e policiais para garantir a segurança da fronteira, a
intensificação de movimentos alemães na região era um claro sinal de problemas
futuros. Em 17 de setembro foi o governador Seitz a fazê-lo, por considerar que
estava rodeado de inimigos, desconfiando que Portugal declararia brevemente
guerra à Alemanha para poder apoiar a Grã-Bretanha em África37. Poderia não ser
provável um ataque alemão de larga escala, mas a falta de meios militares na
região dava também oportunidade para que as populações locais sentissem que
Portugal não tinha capacidade para as controlar, deitando por terra o resultado
das campanhas de pacificação levadas a cabo pelas forças de Alves Roçadas.
O pedido de Sir Edward Grey, ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, para
que Portugal permanecesse neutral, deixava ao Governo português muitas dúvidas
quanto à dignidade internacional da República. Apesar de ter a sua garantia de
que as colónias seriam protegidas pelos britânicos, em agosto de 1914 o Governo
português (democrático) decidiu-se pelo envio de uma força militar para Angola.
Tal como os alemães, o Governo português considerava que o futuro das colónias
se decidiria na Flandres. Não obstante, era necessário demonstrar capacidade de
mobilizar forças, de garantir a autoridade nas colónias e provar que poderia
ser muito útil aos aliados. Além do mais, a defesa das colónias africanas e a
defesa do território nacional eram os fatores principais de consenso, político
e público, quanto à participação de Portugal na guerra38.
Assim, foi decretado o envio de uma força expedicionária para Angola e
Moçambique. A ordem do exército n.º 19, de 18 de agosto, estabelecia que as
missões a desempenhar pelas forças seriam atribuídas pelos governadores-gerais,
uma vez que aquelas eram colocadas à disposição do Ministério das Colónias para
guarnecimento de postos fronteiriços e para controlo das populações39. As
instruções para o comandante da expedição, emitidas pelo ministro das Colónias,
tinham como objetivo reforçar o dispositivo militar para fazer face a possíveis
invasões alemãs, submeter o gentio, poder estar em condições de cooperar com as
forças aliadas nas colónias, e evitar o incómodo político de assistir a uma
confrontação entre alemães e britânicos em Angola e Moçambique sem que Portugal
aí dispusesse de qualquer dispositivo. Além do mais, era também deixado claro
nas instruções que o comandante da expedição deveria envidar todos os esforços
para evitar causar qualquer incidente de carácter internacional40.
Em 11 de setembro de 1914, menos de um mês depois da ordem para se constituir,
a força expedicionária, cujo comando foi atribuído ao tenente-coronel Alves
Roçadas e que este acumulava com a função de governador do distrito da Huíla,
marchava da Rotunda ao cais de embarque, efusivamente saudada pelo enorme
número de pessoas que acorreram ao local. Este era um sinal de que a população
estava ao lado da decisão do Governo e do comandante da força, considerado um
herói depois do sucesso da campanha dos Cuamatos.
O tempo de preparação da expedição tinha sido excecionalmente curto, mas o
Projeto das Operações de Roçadas colocava como missão mais provável a
necessidade de assegurar a ordem pública, ou seja, impor a autoridade
administrativa e militar na região do Cuamato. A possibilidade de ter de
garantir a integridade do território contra os alemães estava baseada em dois
cenários possíveis. No primeiro, que Roçadas considerou como pouco provável
porque as suas forças estavam empenhadas contra os ingleses, os alemães podiam
atacar com o intuito de invadir Angola. Na segunda hipótese, Roçadas
considerava que podia dar-se o caso de a pressão exercida pelos ingleses a sul
obrigar os alemães a ter de retirar por Angola, tendo como objetivo provável a
saída pelo porto de Moçâmedes41. A sua consideração em relação ao cenário mais
provável e experiência anterior no Cuamato deram-lhe certamente a maior
confiança no êxito da expedição. Enfrentar forças alemãs que combatiam em duas
frentes facilitaria a defesa da fronteira ao longo do rio Cunene e poderia ser
uma enorme ajuda aos britânicos.
O INCIDENTE DE 18 DE OUTUBRO
A força expedicionária enviada para Angola tinha uma composição e efetivos mais
adequada a uma campanha de pacificação do que para lidar com forças militares
coloniais regulares alemãs, as famosas Schutztrüppen. Estas eram formadas por
colonos brancos, que podiam optar por prestar o serviço em África em vez da
Europa, eram liderados por oficiais tecnicamente bem preparados, e eram
reforçadas por askaris, tropas nativas bem pagas e com um elevado nível de
proficiência militar quando comparadas com outras tropas indígenas42. Treinadas
para atuar em unidades independentes de escalão companhia, mais adequadas ao
terreno e combate em África, as Schutztrüppen representavam um poderoso
adversário para as forças portuguesas.
A somar ao adversário alemão, os povos na região do Cuamato, que nunca tinham
sido completamente submetidos pelas autoridades portuguesas, tinham uma enorme
influência alemã. Muitos deles trabalhavam em minas da Damaralândia e lidavam
com as missões protestantes alemãs. Podiam organizar-se em pequenas unidades
com cerca de 100 efetivos, conseguindo mobilizar com alguma facilidade cerca de
30 mil efetivos e dispor de armas para cerca de 15 mil. Em combate, podiam
desempenhar importantes missões, tendo como tática preferida o envolvimento e o
cerco43, que eram formas de manobra adequadas a enfrentar adversários com
forças dispersas ou com grandes intervalos nos seus dispositivos. Por essa
razão, também não é de estranhar que a implantação do dispositivo militar na
região fosse baseada em fortes com capacidade de defesa em todas as direções e
com espaldões para armas ligeiras, como era o caso do forte de Naulila.
Como já referimos, o início da ação militar em Naulila foi a consequência de um
incidente entre uma patrulha alemã e uma patrulha portuguesa em 18 de outubro
de 1914, que redundou na morte de quase todos os alemães. Depois de um conjunto
de incidentes de fronteira de que tinha resultado o aprisionamento de vários
carros de víveres alemães, em 18 de outubro uma patrulha portuguesa, chefiada
pelo alferes Sereno, intercetou um grupo alemão liderado por Schultz-Jena,
administrador do distrito de Outjo, em território angolano.
De acordo com Casimiro, Schultz-Jena disse a Sereno que estava em perseguição
de um desertor e que pretendia obter autorização das autoridades portuguesas
para entrar em território angolano. O alferes Sereno cumpria as determinações
do governador-geral relativas ao estado de sítio decretado nos distritos do Sul
de Angola. Apesar de alguma animosidade inicial, a patrulha portuguesa jantou
no acampamento alemão e no dia seguinte, apesar de algumas desconfianças de
parte a parte, ambas seguem para Naulila para se encontrarem com o capitão-mor
do Cuamato. É em Naulila que se precipita a pretexto de mal-entendidos e das
desconfianças mútuas que redundam na morte de Schultz-Jena e da maior parte dos
outros alemães. Se por um lado os alemães já tinham atacado o posto de Maziúa
no Norte de Moçambique, por outro, o facto de Shultz-Jena ter em sua posse um
exemplar do jornal O Século, que noticiava a expedição de Roçadas, indiciava
que os alemães desconfiavam da neutralidade portuguesa44.
De acordo com documentação consultada nos arquivos de Friburgo, na Alemanha,
Schultz-Jena liderava um grupo que tinha por missão contactar os comerciantes
que abasteciam o seu distrito com víveres e para saber qual era o efeito da
chegada das forças de Roçadas ao Cunene45. Apesar de autorizadas as trocas
comerciais entre colonos angolanos e alemães do Sudoeste Africano, os alemães
não sabiam exatamente qual era o posicionamento de Portugal em relação à
guerra. Desconfiavam que Lisboa assumiria uma posição ao lado dos britânicos, o
que criava um problema em relação às suas linhas de comunicações com o
exterior, que estavam dependentes de Angola uma vez que a marinha real
britânica controlava o Atlântico, e a Grã-Bretanha tinha forças nos seus
domínios na África Austral (África do Sul, Bechuanalândia e Rodésia do Sul). As
autoridades alemãs no Sudoeste Africano decidiram a ação militar sobre as
tropas portuguesas em Naulila logo no dia 25 de outubro, por considerarem que o
incidente de outubro foi uma armadilha montada pelos portugueses, que se tinham
decidido em lutar ao lado dos britânicos e que abririam a frente norte46.
Todavia, os alemães tentaram ainda uma aproximação pacífica, uma vez que sabiam
que os seus meios eram demasiado limitados e não pretendiam arriscar desviar
forças da frente sul. Assim, depois de receber a notícia da morte de Schultz-
Jena, o governador do Sudoeste Africano, Theodor Seitz, tentou contactar Norton
de Matos, mas não obteve resposta. A 24 de outubro, Seitz recebe um telegrama
com a informação de que uma nova força de cerca de dois mil homens tinha
desembarcado em Moçâmedes e que se dirigia à fronteira alemã. Como não tinha
ligação por telégrafo com a Alemanha nem conseguia ligação com o cônsul em
Luanda, Seitz considerou que Portugal estava em guerra com a Alemanha. Matos
chegou mesmo a recusar a proposta do cônsul alemão em utilizar o telégrafo de
um navio a vapor estacionado no porto de Luanda para contactar Seitz. Por
conseguinte, Seitz reuniu-se com o comandante das Schutztrüppen, o tenente-
coronel Joachim von Heydebreck, e ficou decidido levar a cabo uma operação
militar para prevenir um ataque português e para vingar a morte dos alemães que
tinham sido alvo de uma armadilha. Por essa razão é ordenada uma ação
retaliatória sobre alguns postos ao longo do rio Cunene, um dos quais
Cuangar47. Para os alemães tratava-se de uma questão de honra e de prevenir
qualquer veleidade portuguesa sobre o Norte do Sudoeste Africano. Tratava-se de
aplicar o princípio de que o ataque é a melhor defesa, apesar de Von Heydebreck
apenas considerar a operação se as forças não fossem necessárias na frente sul,
onde concentravam o seu esforço defensivo48.
A morte dos militares alemães representava o início das hostilidades entre os
dois países em Angola. Além do mais, acontecia num momento em que as forças
portuguesas se movimentavam para sul, o que indiciava também uma postura
ofensiva de Portugal. A reação alemã não se fez esperar, e em 31 de outubro a
guarnição do Cuangar foi atacada e massacrada, bem como outros postos ao longo
do rio Cunene (Bunja, Sambio, Dirico e Mucusso). Nesse momento, Roçadas,
ocupado com as questões políticas do distrito da Huíla, estava a ultimar os
preparativos da força e a reforçar o corpo de auxiliares no Lubango, capital
daquele distrito, através do recrutamento de nativos locais49. A força
expedicionária tinha como elemento de manobra principal um batalhão de
infantaria do Regimento de Infantaria 14 (Viseu). A força era composta também
por subunidades de artilharia de montanha, de engenharia e de serviços, com
cerca de 1400 homens, aos que se iam juntar as forças na colónia colocadas sob
o comando de Alves Roçadas50. Para a sua missão previsível, que era ocupar a
região do Cuamato e estabelecer a segurança a uma linha de comunicação que
ligava Quihita - Gambos - Cahama - Forte Roçadas -
Forte Cuamato, a força dispunha de potencial de combate suficiente, uma vez que
Roçadas estava na região para lidar com problemas derivados de sublevações dos
nativos e prevenir incursões alemãs de pequena escala51.
Contudo, o ataque ao posto de Cuangar apressou o movimento das forças
portuguesas para a fronteira sul e a uma alteração ao plano de Roçadas, que se
vê agora obrigado a estabelecer uma linha de defensiva ao longo do Cunene, com
ponto forte em Naulila, para evitar uma invasão do distrito da Huíla e assim
controlar os principais itinerários para Moçâmedes, que era o principal porto
na região52. Apesar do incidente e das represálias sobre Dangoena, Roçadas deu
ordens expressas para que não fosse ultrapassada a fronteira com o Sudoeste
Africano, ameaçando punir quem o fizesse. Na realidade, Roçadas tinha ordens
claras de Lisboa para não criar nenhum incidente que levasse ao agudizar das
relações com a Alemanha uma vez que Portugal mantinha ainda a sua
neutralidade53.
Depois de vários dias de contactos entre elementos de segurança portugueses e
alemães durante os meses de novembro e dezembro, a 18 de dezembro as forças
alemãs atacaram Naulila. Depois de quatro horas de intenso combate, Roçadas deu
ordem para retirar e abandonar a posição. Os alemães não exploraram o sucesso,
pelo que a sua missão não seria a destruição das forças portuguesas, mas a sua
expulsão da região, contribuindo para que os indígenas se libertassem da
administração portuguesa durante algum tempo. O resultado traduziu-se na morte
de três oficiais, 54 praças europeus, 12 praças africanos e mais 76 feridos,
para além de terem sido feitos prisioneiros três oficiais e 62 praças. Em
termos políticos e estratégicos, o resultado foi um enorme golpe para Portugal:
para além dos aspectos psicológicos, a derrota da força expedicionária deixou a
região sem presença militar e obrigou à mobilização de uma nova expedição com
cerca de 2400 efetivos, agora comandada pelo general Pereira D'Eça, que
era o ministro da Guerra quando Alves Roçadas foi nomeado comandante da força
expedicionária. Para além da falta de recursos, qualidade e preparação das
tropas, e disponibilidades logísticas, essencialmente alimentos e água devido à
seca que se fazia sentir na região, a missão de Alves Roçadas ficou ainda mais
dificultada pela surpresa do ataque alemão. A manobra logística para a
campanha, que tinha sido desenhada em Lisboa, adivinhava-se como um obstáculo
quase intransponível. A falta de capacidade da linha de caminho de ferro de
Moçâmedes dificultou a chegada do material pesado em tempo útil para a região
da Huíla; e era necessário movimentar os meios e os homens para sul até Forte
Cuamato, que distava cerca de 400 quilómetros da estação de chegada (Vila
Arriaga), sem estradas adequadas, com fome, sede e sem animais suficientes para
o transporte54.
Como a definição do objetivo e a formação da força expedicionária evidenciam,
era tomado como altamente provável que a pacificação dos povos da região do
Cuamato, que não tinham sido ainda controlados, seria uma tarefa relativamente
simples e fácil, dada a experiência de Roçadas na campanha anterior. Porém,
depois do "incidente de Naulila" e da retaliação dos alemães no
Cuangar, Roçadas afigurava como provável que o próximo passo alemão fosse uma
ação militar em direção a Porto Alexandre ou a Moçâmedes devido à sua
necessidade de manter abertas linhas de comunicação com Angola por causa da
pressão sul-africana a sul. De facto, no momento em que a força expedicionária
desembarca em Moçâmedes e se desloca para o planalto da Huíla (outubro de
1914), o grosso das forças alemãs no Sudoeste Africano estava orientada em
operações contra a União Sul-Africana e Inglaterra, razão pela qual aos
portugueses parecia remota a possibilidade de uma operação militar de
envergadura contra Angola. Por essa razão, as ações militares alemãs mais
previsíveis eram entendidas pelos militares portugueses como as necessárias
para obter informações sobre as intenções das tropas portuguesas e instigar à
revolta das populações locais. Todavia, depois do ataque a Cuangar e da
intensificação dos contactos entre as patrulhas de ambos os lados, um ataque a
Moçâmedes e Porto Alexandre para controlar os itinerários e linha de caminho de
ferro tornara-se a principal preocupação do governador-geral de Angola e do
governador do distrito de Moçâmedes55.
Todavia, em termos estratégico-militares, os alemães poderiam ter considerado
uma ação sobre Naulila de forma bem diferente. Em setembro de 1914, uma ação
ofensiva alemã em Sandfontein, uma pequena cidade na fronteira com a União da
África do Sul, levada a cabo com uma força 1200 homens, logrou desbaratar uma
força sul-africana de cerca de três mil homens, conseguindo capturar a sua
guarda avançada e a maioria do seu comando56. Esta ação, tendo em conta a
situação interna motivada pela revolta dos bóeres, pretendia desorganizar e
retirar capacidade ofensiva aos sul-africanos, uma ação de elevada importância
estratégico-militar uma vez que o potencial aliado era pelo menos cinco vezes
superior. Assim, se considerarmos a posição central dos alemães em relação aos
seus adversários, interessava levar a cabo ações ofensivas desorganizantes,
para desgastar e ganhar o máximo de tempo possível.
O ATAQUE ALEMÃO
Depois da notícia do ataque alemão a Cuangar, Roçadas decidiu enviar um
destacamento de escalão companhia de infantaria (reforçada com uma bateria de
artilharia Erhardt e uma bateria de metralhadoras), comandado pelo major
Salgado (comandante do batalhão de infantaria de Viseu). A missão era manter a
sua posição para controlar as passagens no vau do Calueque e vau dos Elefantes
(vau do Nangulo), através de postos de observação e patrulhas de ligação no rio
Cunene, e obter informações sobre as forças alemãs. A maior parte dos
relatórios elaborados nos postos de observação confirmavam o incremento da
presença de militares alemães na região57.
A situação evidenciava que uma ação ofensiva alemã parecia estar em marcha,
restando saber quando e onde seria levada a cabo. O sistema defensivo das
forças portuguesas estava disseminado numa frente de cerca de 30 quilómetros
para cobrir as passagens no rio Cunene e impedir que os alemães conseguissem
controlar a estrada para Dangoena e a região do Humbe. A âncora desse sistema
defensivo era o forte de Naulila que albergava um efetivo aproximado de 600
militares (incluindo cerca de 200 tropas africanas) que era comandado por Alves
Roçadas. No Calueque, onde se encontrava o major Salgado, o efetivo rondava os
350 homens. O capitão Aragão, comandante do 1.º Esquadrão de Cavalaria, estava
posicionado junto à passagem do vau dos Elefantes, podendo servir como força de
balanceamento entre posições devido à mobilidade da tropa a cavalo. Portanto,
face à missão esperada, o sistema defensivo parecia equilibrado, exceto a
distância que separava as forças e a dificuldade em transmitir informação.
Em 25 de novembro, Roçadas recebeu um telegrama do Ministério das Colónias a
relembrar-lhe que Portugal era um país neutro, o que contrariava o que se
passava no terreno58. Ora, esta ocorrência terá deixado Roçadas com muitas
dúvidas quanto aos objetivos de Lisboa, aumentando a confusão quanto ao que
poderia esperar depois do confronto, se viesse a ter lugar. Isto é, a situação
no terreno era de clara confrontação militar, mas Roçadas não podia tomar a
iniciativa por condicionamento político.
Em 29 de novembro, as informações confirmavam a presença de forças alemãs no
lado oposto a Ruacana, essencialmente tropas montadas e unidades de
metralhadoras. Roçadas acreditava que os alemães iriam atacar exercendo o
esforço a oeste, pelo vau dos Elefantes e por Schwartz-boy Drift, razão pela
qual tinha ordenado a Salgado a manutenção de postos de observação na zona e
mantido o potencial de combate, que incluía o 1.º esquadrão do tenente Aragão,
para bloquear qualquer penetração daí para o Humbe. Roçadas acreditava que o
ataque secundário seria por Naulila uma vez que as estradas e os vaus o
indicariam como demasiado óbvio.
Em 8 de dezembro as forças portuguesas estavam prontas a receber as tropas
alemãs, que eram comandadas pelo major Franke, também ele um prestigiado
oficial das anteriores campanhas no Sudoeste Africano, com um efetivo que
rondava os 500 militares (europeus e africanos) apoiados por seis armas de
artilharia e duas metralhadoras. Tal como acontecia com a força expedicionária
portuguesa, a força alemã tinha também sido constituída ad hocpara essa missão
em 18 de outubro59. À medida que o tempo passava, somavam-se os recontros entre
patrulhas de ambos os lados. Em 13 de dezembro, os portugueses fazem um
prisioneiro que o tenente Aragão interroga. As notícias recolhidas indiciam que
a força alemã tinha cerca de 700 efetivos e que a sua missão era vingar os
mortos do incidente de Naulila60. Em primeira instância, o objetivo principal
de Franke não poderia ser simplesmente uma vingança, uma vez que era um
objetivo demasiado limitado num momento em que os alemães combatiam a África do
Sul e não podiam arriscar a perda de efetivos militares.
Um objetivo mais lógico a considerar é que a ação ofensiva fosse um instrumento
para dissuadir os portugueses a apoiar uma futura operação britânica de grande
envergadura a partir de Naulila61. Alguns elementos podem ter sido tomados em
consideração por Franke: o forte de Naulila estava a sul do rio Cunene, era
facilmente defensável, permitia facilidade de movimentos em direção a sul e era
ponto de chegada da "linha de étapes" (itinerário de
reabastecimento desde a Huíla); a região onde se situava o forte tinha fraca
adesão à presença portuguesa, razão pela qual uma derrota militar obrigaria os
portugueses a terem de levar a cabo outra campanha na região, como de facto
aconteceu em 1915 com o general Pereira D'Eça. Isto consumia recursos e
tempo, entretanto necessário para orientar o esforço de defesa alemão para sul
e para os portos do Atlântico, por onde era também possível um desembarque
aliado.
As forças portuguesas em Naulila defendiam um perímetro com esforço orientado a
sul e com outras posições defensivas ao longo do rio Cunene para controlar os
vaus. No dia 18 de dezembro, pelas cinco da madrugada e com o sol pelas costas,
os alemães atacam ao longo de toda a frente, dificultando aos portugueses a
determinação do eixo de ataque principal. Este seria em direção à posição de
Naulila, que foi flanqueada e suprimida na sua ala leste, que era guarnecida
por tropa indígena que não estava treinada nem preparada para lidar com fogos
de supressão de artilharia e de metralhadoras, recolhendo-se nas trincheiras
sem conseguirem responder eficazmente ao fogo, acabando por abandonar a
posição62. Quatro horas depois do início do ataque, as forças portuguesas, sem
terem conseguido garantir o apoio mútuo entre as posições ao longo do rio
Cunene, são obrigadas a retirar para norte. Roçadas tentou ainda contra-atacar,
mas, sem tropa moralizada e treinada, foi repelido. Restou-lhe a formação de
uma guarda de retaguarda para evitar a perseguição que, aliás, não foi
consumada, apesar de a coluna se ter retirado de forma caótica e ser atacada
por nativos. Segundo as memórias do major Salgado, depois da retirada
generalizada das forças portuguesas de Naulila ao Humbe, os povos da região
puderam considerar-se de novo livres e vingados das anteriores humilhações,
tendo resultado na retração completa do dispositivo português na região. Devido
à insurreição generalizada, deixava de ser possível saber se os alemães tinham
invadido ou não o território do Cuamato63.
Apesar de os portugueses terem retirado com receio de uma perseguição e
envolvimento das forças alemãs, a vitória de Franke esteve sempre em perigo até
ao abandono das posições portuguesas em Naulila. O efetivo alemão não era
superior ao que Roçadas tinha empenhado em Naulila, tendo apenas cerca 50 a 60
militares no assalto ao forte, uma vez que as restantes tropas tinham ficado em
contacto com os dragões e em proteção à base de fogos de artilharia64. Assim,
sabendo que o efetivo dos portugueses no Sul de Angola rondava os 2500 homens,
e que os sul-africanos tinham retomado as ações ofensivas na frente sul, a ação
sobre Naulila carregava um enorme risco e que não se coaduna com uma ação com o
simples objetivo de punir a "armadilha" de Naulila de 18 de
outubro.
No dia 19 de dezembro, as tropas de Franke iniciaram a sua retirada, tendo
abandonado completamente a posição nesse próprio dia. Franke não explorou o
sucesso sobre os portugueses porque não dispunha dos meios suficientes para o
fazer nem podia correr mais riscos. Sabia que em breve os sul-africanos podiam
desembarcar em Walvis Bay, onde era necessário reforçar o dispositivo
defensivo, e assumir o comando das Schutztrüppen em Windhoek65.
Como se depreende, o potencial alemão era insuficiente para levar de vencida um
sistema defensivo com potencial superior. Porém, a dispersão das forças
portuguesas, a composição das guarnições, a falta de treino dos militares
portugueses e a precipitação de Roçadas em ordenar a retirada, facilitaram a
missão do major Franke. A retirada das forças portuguesas teve como
consequência direta a insegurança e o medo junto dos colonos portugueses na
região, uma vez que deu início a uma sequência de roubos, assassinatos e
incêndios nas instalações e culturas por parte de nativos66. Estava consumada a
vitória dos alemães em Naulila e, pelo menos durante alguns meses, o flanco
norte deixava de ser preocupação, que agora se podiam concentrar na defesa
contra a União da África do Sul. Mas o destino dos alemães no Sudoeste Africano
estava traçado, uma vez que a superioridade sul-africana e britânica era
impossível de conter. Em julho de 1915, os alemães, sendo incapazes de lidar
com a magnitude das operações sul-africanas, renderam-se sem saber se a
operação sobre Naulila tinha produzido os resultados que pretendiam.
CONCLUSÕES
Como se pretendeu evidenciar, o combate representa uma operação típica num
teatro africano, envolvendo unidades de baixo escalão, com muitas dificuldades
logísticas e com ações de curta duração. A força expedicionária, formada num
curto espaço de tempo, não estava preparada para o combate contra as
Schutztrüppen, nem para lidar com os rigores do teatro africano. Resta‑nos
saber qual era o verdadeiro objetivo alemão, mas consideramos que é pouco
lógico que tivesse sido uma medida punitiva pelo "incidente de
Naulila" por quatro razões principais. Em primeiro lugar, o movimento das
forças portuguesas era suficientemente ameaçador para quem combatia a sul
contra britânicos e sul-africanos. Portugal mantinha uma aliança secular com a
Grã‑Bretanha, o incidente de Naulila tinha sido interpretado como uma armadilha
e as notícias de desembarques de tropas portuguesas em Moçâmedes criaram nos
alemães a ideia de que Portugal assumiria uma posição belicosa a partir de
Angola. Em segundo lugar, para os alemães era demasiado arriscado levar a cabo
uma operação militar envolvendo um efetivo considerável, dada a sua
desproporção em relação aos aliados, apenas como vingança pelo incidente. Em
terceiro lugar, no momento da operação em Naulila, sul-africanos e britânicos
estavam preocupados com a rebelião de bóeres, o que permitia aos alemães
concentrarem-se em outras partes do território. Em quarto lugar, depois de
estarem rodeados por forças hostis, os alemães não podiam arriscar ficar sem as
linhas de comunicações a norte nem arriscar que os portugueses pudessem atacar
e ocupar o seu reduto defensivo a norte. Não se pode esquecer que a estratégia
alemã estava baseada em ações disruptivas tirando proveito da profundidade e da
aridez do seu território para ganhar o tempo necessário até que a guerra
ficasse decidida na Europa. Depois destas considerações, a operação em Naulila
poderia ter como objetivo principal proteger temporariamente o flanco norte. Os
alemães sabiam que se derrotassem ou expulsassem os portugueses do Cuamato as
populações contribuiriam também para a insurreição generalizada na região, o
que implicava novas expedições e mais tempo.
O resultado tático do combate evidencia uma clara superioridade alemã, apesar
de os meios e os efetivos não serem superiores. Porém, a qualidade e a
preparação das suas tropas deve ser tomada como um fator para esse sucesso, ao
que se deve somar alguns erros do lado dos portugueses, como o caso de ter
deixado uma ala completa do perímetro defensivo ocupado por nativos.
Ambas as forças eram comandadas por oficiais de grande prestígio, razão pela
qual se deve entender que o que estava em jogo poderia ser mais do que uma
simples escaramuça ou combate de nível tático e local, apesar de estas serem as
características das operações em África.
A retirada das forças de Roçadas implicou o início de uma nova fase na região
do Cuamato, deitando por terra o esforço desenvolvido nas décadas anteriores
para "pacificar" a região. Apesar de ter entrado em combate com os
alemães, Portugal só entraria oficialmente em guerra com a Alemanha em 9 de
março de 1916, quando já não existia a colónia alemã do Sudoeste Africano. Para
qualquer dos contendores, o objetivo estratégico não foi conseguido, apesar de
termos de considerar que em relação aos alemães a exploração estratégica do
sucesso tático de Naulila não depender somente da derrota dos portugueses.
A rapidez com que a força expedicionária portuguesa foi formada e preparada
indicia muita imaturidade estratégica. Apesar de a missão pretendida não ter
como mais provável um ataque alemão, o objetivo secundário atribuído a Roçadas
era a oposição ao avanço de quaisquer forças isoladas ou que pretendessem
invadir os territórios da colónia. Por essa razão, havia que contar com essa
possibilidade, havendo aqui alguma falta de iniciativa de Roçadas que pode ter
advindo da confusão com que encarou as restrições em relação à não beligerância
de Portugal.