A segurança energética e um modelo para o futuro da Europa
SAFETY AND CERTAINTY IN OIL LIE IN VARIETY AND VARIETY ALONE.
Winston Churchill, 1946
O MODELO ENERGÉTICO ATUAL E A INSTABILIDADE GEOPOLÍTICA
O modelo atual dominado pelos combustíveis fósseis está sob pressão1. As
preocupações relativas à segurança energética prendem-se antes de mais com o
fornecimento de petróleo e gás, porque os constrangimentos do sistema produtivo
atual são fortes e criam incertezas de vária ordem. Apesar de atravessarmos um
período de excesso de oferta, importa não esquecer que mais de 70 por cento das
reservas mundiais de petróleo convencional estão concentradas na Península
Arábica e no Médio Oriente, que vive hoje um tsunamigeopolítico, com o
desaparecimento de países como o Iraque, a Síria e o Iémen enquanto atores
políticos e com a atividade bárbara de grupos como o Estado Islâmico e a Al-
Qaida, que criam grande instabilidade em toda a região. Acresce ainda a
situação vulnerável no Norte de África, em especial na Líbia, país que está a
transformar-se num Estado falhado, com todos os riscos e consequências que daí
advêm para o Norte de África, o Mediterrâneo e o Sul da Europa.
Parece assim evidente que o setor energético mundial, nomeadamente no que toca
ao petróleo e ao gás natural, continua na atualidade a enfrentar as
dificuldades em resolver algumas debilidades e fraquezas que persistem desde a
segunda metade do século XX e que podemos considerar de algum modo
estruturantes, embora em contínua mutação. Torna-se difícil contornar a
instabilidade que caracteriza a maioria dos fornecedores de recursos essenciais
no mixenergético dos grandes consumidores mundiais. A maior parte do petróleo e
do gás procede de zonas turbulentas, onde a instabilidade política coexiste com
desequilíbrios de ordem económica e tensões do tecido social interno, agravada
ainda pela atual vulnerabilidade das rotas abastecedoras.
Os desafios futuros da geopolítica do petróleo e do gás natural adensam-se,
atendendo a que a sua procura continuará a aumentar, a descida da produção
mundial será provável e continuará a aumentar o desfasamento entre oferta e
procura. Será necessário ampliar a base de produção destas fontes de energia,
sob pena de travar o crescimento de algumas economias emergentes e da
comunidade internacional se ver obrigada a redesenhar a infraestrutura de
aprovisionamento e a funcionalidade das rotas de abastecimento2.
A soma das debilidades e fraquezas estruturantes com os desafios futuros do
setor torna incontornável a questão da segurança energética, e a inclusão de
componentes novos no xadrez energético. Falamos de estratégia de alianças
empresariais, de diplomacia e política de cooperação internacional, de
efetivação de alianças internacionais com vista à estabilização das regiões
relevantes para o fornecimento energético e da proteção das rotas de
abastecimento. A disponibilidade dos recursos não se limita a saber onde e se
existem em quantidade suficiente, mas também a discutir o modo como os fazer
chegar onde são necessários em tempo útil e competitivo.
O CONCEITO DE SEGURANÇA ENERGÉTICA
A tragédia do Catrinae do Rita, que abalou os Estados Unidos em agosto e
setembro de 2005, veio suscitar um profundo debate sobre o conceito de
segurança energética no século XXI. Estes furacões paralisaram 27 por cento do
sistema de produção dos Estados Unidos e 21 por cento do seu sistema de
refinação. Assistiu-se pela primeira vez na história ao colapso simultâneo das
plataformas de produção e sondagem, da rede de pipelines, das refinarias, das
centrais elétricas e da rede de distribuição de eletricidade3. A segurança
energética no século XXI constitui um desafio da maior importância para os
países europeus. No caso da União Europeia (UE) esta mudança é imperativa: a UE
importa hoje do exterior 50 por cento da energia que consome e dentro de duas
décadas, se nada fizer para travar essa dependência, vai importar do exterior
70 por cento da energia que necessita4.
O conceito de segurança energética tem uma formulação relativamente recente e
de natureza essencialmente empírica. Com efeito, o conceito nasce a seguir ao
primeiro choque petrolífero em 1973 e está essencialmente direcionado para
prevenir ruturas de abastecimento nos países produtores. Porém, esta definição
genérica e inicial tem-se vindo a tornar insuficiente para responder aos
problemas atuais, que são multidimensionais e polifacetados. O Catrina e a
eclosão do terrorismo e de pirataria em larga escala mudaram a perceção do que
hoje se entende por segurança energética. Com efeito, a evolução do sistema
internacional e mudanças observadas nos agentes fornecedores e consumidores têm
contribuído para a sua crescente complexificação no plano teórico, dando-lhe
espaço em sede dos estudos de segurança, da economia política internacional e
da geopolítica5.
Num quadro conceptual marcado pela existência de elementos de natureza
normativa, inerentes às questões ligadas à segurança nacional e ao
reconhecimento da imprecisão no que concerne as relações entre energia e
segurança, o conceito de segurança energética conheceu desenvolvimentos em
termos de aceção e no que respeita a instrumentos de medida e de intervenção.
De destacar o alargamento do quadro conceptual conhecido como os quatro
"As" da segurança energética da APERC (availability/ accessibility/
affordability/ acceptability) que remetem para as vertentes geológicas,
geopolítica, económica e ambiental, respetivamente. Também no plano dos
instrumentos de medida e intervenção se assistiu à introdução de técnicas
(modelização e cenarização) e de indicadores compostos de medida e controle
mais sofisticados (como os índices de segurança energética)6. Esta sofisticação
coincide com uma mudança de perspetiva de análise, mais sistémica, que
questiona os pressupostos de uma realidade centrada no petróleo e o predomínio
desta fonte de energia primária7. Para alguns autores encontramo-nos hoje numa
fase de "transição energética"8.
Mas o conceito de segurança energética que hoje prevalece enfatiza ainda, antes
de mais, a segurança do abastecimento de petróleo e gás. É este o sentido da
definição que figura no artigo 103 do Tratado de Roma que criou a Comunidade
Europeia e que é retomado no artigo 100 do Tratado de Maastricht, onde se apela
a uma reflexão para a diversificação das várias fontes de energia, em termos de
produtos e de áreas geográficas. Este conceito é expresso da seguinte forma:
"a segurança do abastecimento no campo da energia significa
assegurar, para o bem público e para o funcionamento eficaz da
economia, a disponibilidade física ininterrupta de energia no mercado
a preços competitivos para todos os consumidores (privados e
industriais), no quadro do objetivo de um desenvolvimento sustentável
previsto no Tratado de Amesterdão"9.
Mas hoje o conceito deve ser revisto, repensado e ampliado. Ele não responde a
muitas das preocupações atuais, às mudanças que ocorreram na Europa e no mundo
depois da queda do Muro de Berlim em 1989, às novas ameaças como o terrorismo,
a pirataria ou as mudanças climáticas, às alterações geopolíticas e ao
posicionamento dos próprios países produtores. Nestes últimos a ameaça à
estabilidade é cada vez mais interna, ao contrário do que acontecia no passado,
e por isso há toda uma série de elementos novos que têm de ser incorporados na
avaliação da questão energética.
Nos Estados Unidos esse processo já começou e a iniciativa de Jan Kalicki e
David Goldwyn no seu trabalho Energy and Security: Toward a New Foreign Policy
Strategyé importante10. Os autores tentaram forjar uma definição de segurança
energética para o século XXI, estatuindo que a "segurança energética é a
capacidade de aceder aos recursos que são necessários para o desenvolvimento
contínuo do poder nacional". Mais especificamente postulam a necessidade
de aprovisionar recursos de petróleo e gás que sejam fiáveis, diversos, amplos
e a preços competitivos, tomando em linha de conta a infraestrutura adequada
para fazer chegar esses recursos ao mercado. Chamam ainda a atenção para o
facto de hoje a segurança energética englobar duas vertentes importantes: a
capacidade de assegurar os recursos e a capacidade de proteger a economia
global dos efeitos da volatilidade extrema dos preços. Dos graus diversos de
sucesso que cada ator venha a obter relativamente a estes diferentes aspectos
irá depender o seu futuro e também o grau de protagonismo que poderá
desempenhar no sistema internacional11. Precisamos de um novo conceito e de uma
nova arquitetura de segurança energética, capaz de ter em conta a proteção de
toda a rede de produção e a distribuição de energia. Mas como fazê-lo com um
modelo energético centralizado, rígido, com infraestruturas de distribuição
pesadas? É o próprio modelo que tem de ser mudado e esta questão torna-se
particularmente urgente no caso europeu.
Em termos concretos, o novo conceito de segurança energética deverá ser
inspirado e procurar responder a algumas preocupações atualmente consideradas
prioritárias, de forma a:
* assegurar o abastecimento de petróleo e gás de forma estável e a preços
competitivos, evitando ruturas no fluxo dos recursos energéticos e criando
mecanismos de cooperação e coordenação entre as companhias, os governos e a
UE;
* diversificar as fontes de abastecimento para evitar a dependência de cartéis,
monopólios e países que usam a energia como arma geopolítica;
* integrar produtores e consumidores, num tratado global que assegure o fluxo
dos recursos energéticos, promova o investimento e o comércio e trabalhe para
aumentar a competitividade da oferta e da procura;
* trabalhar para assegurar um escudo de proteção do sistema energético contra
choques e ruturas através da criação de uma capacidade excedentária de
produção (o problema é que no passado foi a Arábia Saudita que pagou essa
capacidade e hoje não é clara a sua predisposição para fazer o mesmo), ou
através de uma nova política e de uma nova gestão dos stocksde reservas de
emergência, que podem ser usados pela UE para proteger as suas economias
contra choques de preços e contra a volatilidade do mercado;
* reforçar a proteção das redes elétricas e de distribuição de energia,
construir e gerir reservas excedentárias, instalar cópias de segurança da
capacidade elétrica para instalações críticas, desenvolver novos modelos de
gestão das redes multicentradas e ter planos de contingência e de resposta
para as situações de crise;
* trazer a globalização para o sistema energético de segurança com a integração
da China e da Índia na Agência Internacional de Energia e na rede global de
comércio e investimento;
* criar condições para a mudança do modelo energético atual favorecendo a maior
contribuição das energias renováveis, da hídrica, da eólica, solar, biomassa,
da energia nuclear, dos biocombustíveis e do hidrogénio, de forma a
compatibilizar o desenvolvimento com a proteção do ambiente e a redução das
emissões de gases com efeito de estufa;
* introduzir no quadro mental da segurança energética a chamada Lei Thatcher,
"The unexpected happens". Se o inesperado acontecer é preciso que
o sistema responda à altura e seja capaz de gerir as crises e encontrar as
respostas.
O ACESSO DA EUROPA A RECURSOS ENERGÉTICOS
No seu conjunto, os estados-membros da UE são os maiores importadores de
energia no mundo, apresentando uma elevada dependência externa em termos de
abastecimento energético. A forte aposta nas energias renováveis atualmente em
curso não poderá resolver num futuro próximo esta dependência, dada a sua ainda
reduzida dimensão no mixenergético europeu. Prevê-se que a segurança energética
da Europa continue a médio prazo a depender fortemente da disponibilidade de
fontes de energia primária, já que as principais fontes primárias de energia da
UE continuam a ser o petróleo, o gás, o carvão e o urânio, não se antecipando
uma alteração significativa do cabaz energético da UE nos próximos anos12.
Independentemente dos cenários de evolução que se vierem a concretizar quanto à
desejável diversificação das fontes de abastecimento, a consecução de medidas
tendentes à mitigação da vulnerabilidade estratégica europeia passará, em larga
medida, pelo desenvolvimento de uma política comum. Só assim a UE poderá
valorizar o potencial da unidade europeia e passará a dispor de um mecanismo
eficaz para garantir o seu abastecimento energético, assente numa base negocial
de âmbito multilateral. Uma das características da distribuição de petróleo e
gás no mundo é a sua assimetria e concentração em determinadas zonas
geográficas. No fim do ano de 2012, as reservas provadas de petróleo eram de
1669 mil milhões de barris, sendo que 48,4 por cento dessas reservas se
localizam no Médio Oriente (Arábia Saudita, Irão, Iraque, Kuwait, Qatar,
Emiratos Árabes Unidos, Omã). A Europa detém apenas 13,3 mil milhões de barris,
o que corresponde a cerca de um por cento das reservas mundiais. Esta é uma das
fragilidades estruturais do continente. Os países europeus que detêm reservas
de petróleo são a Noruega (7,5 mil milhões de barris), a Inglaterra (3,1), a
Dinamarca (0,7), a Itália (1,4) e a Roménia (0,6)13.
Em termos de produção, a média mundial em 2012 foi de 86,1 MB/D, com a OPEP
responsável por 43,2 por cento do total (só o Médio Oriente representa 32 por
cento), OCDE 21,9 por cento e a Rússia e vizinhos 16 por cento). A produção da
Europa foi de 3,3 MB/D, o que corresponde a quatro por cento. Os maiores
produtores da Europa são a Noruega (1,9 MB/D) e o Reino Unido (0,96 MB/D). O
grande problema é que a UE consumiu em 2012 12,7 MB/D, ou seja, consumiu quase
quatro vezes mais petróleo do que o que produziu. Não obstante, o consumo
desceu 4,6 por cento na UE. Nesse mesmo ano Portugal consumiu 226 mil B/D, o
que corresponde a cerca de 1,7 por cento do consumo da Europa14.
As fontes europeias de petróleo mostram que a dependência do exterior é muito
elevada. Em 2013, a Europa importou cerca de 12,4 MB/D, o que mostra essa
dependência. As importações são sobretudo da Rússia e cis (46 por cento), do
Médio Oriente (18 por cento), do Norte de África (13 por cento) e dos Estados
Unidos (cinco por cento)15. A conclusão é clara: a Europa tem uma grande
dependência do exterior e em especial da Rússia e, face ao declínio da produção
do mar do Norte, não está a prestar atenção suficiente à necessidade de
diversificar os seus abastecimentos e reforçar a contribuição do Norte de
África, da África Ocidental e da Bacia Atlântica.
No que diz respeito ao gás, as reservas convencionais provadas no mundo em 2013
eram de 187,3 triliões de metros cúbicos (TMC)16. Os principais detentores de
reservas de gás são a Rússia com 18 por cento, o Irão com 18 por cento e o
Qatar com 14 por cento. A UE tem 1,7 TMC (cerca de 0,9 por cento) e a Europa no
seu conjunto cerca de 3,7 TMC (1,9 por cento do total mundial). Como vemos, as
reservas europeias de gás também são escassas e essa é outra grande fragilidade
estrutural da Europa, que também pouco faz para valorizar os seus recursos
endógenos, em particular o shale gas. Os principais países europeus com
reservas de gás são a Noruega (2,1 TMC), a Holanda (1,0), a Roménia (0,1) e o
Reino Unido (0,2). Itália, Polónia, Alemanha e Dinamarca também têm gás, embora
em quantidades residuais.
A produção de gás no mundo em 2013 foi de 3364 mil milhões de metros cúbicos
(bcm), sendo a Rússia responsável por 17,6 por cento, os Estados Unidos por
20,4 por cento) o Irão (4,8 por cento), a Arábia Saudita (três por cento), a
China (3,2 por cento), a Argélia (2,4 por cento), o Qatar (4,7 por cento) e o
Egito (1,8 por cento)17. A produção da Europa no seu conjunto foi de 257,3 bcm,
o que corresponde a cerca de 7,6 por cento da produção mundial. As necessidades
da Europa em termos de gás levam-na a produzir de forma rápida os seus recursos
endógenos, o que contribui para acentuar os problemas de dependência e de
segurança no futuro. Os maiores produtores europeus são a Noruega (115 bcm), o
Reino Unido (41 bcm), a Holanda (63,9), a Alemanha (nove), a Itália (7,8), a
Roménia (10,9), a Dinamarca (6,4) e a Polónia. A grande questão é que a UE
consumiu em 2012 399,5 bcm, ou seja, cerca de 13,4 por cento do consumo
mundial. O consumo de gás na UE diminuiu cerca de 2,3 por cento em 2012.
Portugal consumiu em 2012 4,2 bcm, o que corresponde a 0,1 por cento do consumo
mundial e um por cento do consumo europeu, colocando-o no grupo dos pequenos
consumidores.
Em termos das fontes europeias de gás e dos movimentos de trading, a Europa
utiliza o sistema de pipelines da Rússia (responsável por 32,5 por cento do
abastecimento), o mar do Norte e os países europeus produtores (Noruega,
Holanda, Reino Unido, etc…) responsáveis por 49,4 por cento do abastecimento, a
Argélia com 11,2 por cento (pipelinee gás natural liquefeito (GNL) e o Irão e
Líbia, que em conjunto não chegam a 3,5 por cento. O abastecimento de GNL do
Qatar à Europa representa cerca de 7,8 por cento. Daqui se infere que a
utilização dos recursos endógenos é boa política, mas a diversificação para o
exterior necessita de contrabalançar o peso crescente da Rússia com um maior
direcionamento para o Norte de África, o eixo mediterrânico e a Bacia
Atlântica.
Embora a alteração gradual do mixenergético da UE, nomeadamente a aposta nas
renováveis, permita antever o aumento substancial da utilização desta forma de
energia, estima-se igualmente que a utilização do gás natural aumente
significativamente, em especial nos setores dos transportes, indústria,
aquecimento doméstico e produção de eletricidade, logo que ultrapassado o
período de estagnação da economia europeia18.
No que respeita às fontes de abastecimento regista-se uma significativa
alteração na geografia do abastecimento de gás natural, causada desde logo pela
redução da produção oriunda do mar do Norte e do mar da Noruega, que até hoje
desempenhou um papel relevante. Existem por outro lado limitações físicas ao
aumento de produção nas bacias energéticas do Norte de África (caso da
Argélia). Os constrangimentos à produção provocados pela instabilidade
geopolítica têm consequências diretas nas condições de segurança do
abastecimento (veja-se a Líbia ou o Iraque). Um terceiro aspecto preocupante
remete-nos para o facto de os jazigos da Sibéria Ocidental russa se encontrarem
igualmente em vias de atingir os limites máximos de produção, o que força a
Federação Russa a recorrer ao gás natural dos países da Ásia Central
(Turquemenistão), para assegurar os compromissos de fornecimento à Europa19. A
esta realidade acrescem as necessidades energéticas das economias emergentes
como a China, que provocam uma maior competição e pressão geopolítica e
geoeconómica sobre as fontes de abastecimento20.
O volume de GNL importado pela Europa por via marítima é ainda fraco e
representa apenas cerca de 15,5 por cento do volume de gás total, sendo em
termos relativos cerca de 5,4 vezes inferior ao volume que circula pelo sistema
de pipelines. Os maiores fornecedores de GNL são a Argélia (20,7 por cento do
volume total importado pela Europa), a Nigéria (16,7 por cento) e o Qatar (44,8
por cento)21. A Europa aposta pouco no acesso a reservas de gás por via
marítima e os poucos países europeus que o fazem são Portugal, Espanha, Itália,
França e Bélgica. Em contrapartida, para os países cujo abastecimento repousa
essencialmente no sistema de pipelines, a dependência da Rússia atinge níveis
preocupantes.
Estamos perante uma realidade dual, que reflete fortes assimetrias entre a
Europa Central e de Leste e a Europa atlântica. Os dois primeiros grupos
dependem essencialmente do gás natural russo fornecido por via terrestre, em
gasodutos, registando os estados que integraram a NATO, após o colapso da URSS,
níveis de dependência entre 80 por cento e 90 por cento22. Por seu lado, a
Europa atlântica, embora também dependente, recorre a outras fontes e
tipologias de abastecimento, em especial o GNL proveniente do Médio Oriente e
África Ocidental.
O futuro parece preocupante, porque: a) o principal fornecedor europeu, a
Federação Russa, é um ator com o qual a Europa possui uma relação permeável a
tensões várias, com potencial impacto no fornecimento energético; b) o processo
de estabelecimento do preço do gás tem uma génese regional e, como tal, assenta
prioritariamente em contratos de longo prazo em torno de uma relação direta
entre produtor e consumidor final; c) o gás é o hidrocarboneto com mais forte
crescimento na procura no mercado global devido à expansão da urbanização e
industrialização das economias emergentes; e d) e também pelo papel que o gás
natural poderá desempenhar no plano de redução das emissões de co2 no setor
energético europeu23.
Após a concretização do abandono da opção nuclear para produção de eletricidade
por parte da Alemanha e da Suécia, mesmo que essa modalidade ainda se mantenha
em França e no Reino Unido, o panorama energético da UE parece estruturar-se em
torno do crescimento da procura de gás natural, destacando-se o seu papel na
produção de eletricidade e na sua utilização pelo setor industrial, no aumento
da oferta de eletricidade baseada em energia primária renovável e na redução da
intensidade de uso de combustíveis líquidos no setor dos transportes, pela
maior utilização do gás natural e a crescente eficiência dos motores e das
novas tecnologias associadas às motorizações híbridas e elétricas.
Considerando as variáveis geoeconómicas, geopolíticas e científico-tecnológicas
que poderão interferir direta e indiretamente no abastecimento futuro de gás
natural à Europa, afigura-se que esta apenas poderá minimizar a sua atual
dependência de forma faseada, num horizonte temporal de médio e longo prazo, e
através do reforço da coordenação, cooperação e integração da respetiva
política energética.
OPORTUNIDADES TECNOLÓGICAS
O século XXI vai ser marcado por diferentes descobertas tecnológicas na área da
energia, mas algumas delas podem ser marcantes e virem a alterar os
(des)equilíbrios atualmente existentes. De entre elas destacamos as que se
seguem:
* Baterias elétricas mais potentes, que podem revolucionar o sistema de
transportes: as baterias de lítio têm apenas um eletrão disponível para as
reações químicas e têm uma potência limitada, mas os átomos de outras
substâncias (como o magnésio ou o alumínio) têm dois e três eletrões
disponíveis, o que pode levar à descoberta de baterias mais potentes de iões
multivalentes, que terão uma importância crucial no mundo da energia.
* Novos materiais aliados às nanotecnologias podem ter um impacto multifacetado
em diversas áreas. Não é por acaso que já existem projetos que são uma
espécie de Google para pesquisa de novos materiais, visando a utilização das
propriedades desses materiais, em particular para aplicações no mundo da
energia.
* O armazenamento da eletricidade a grande escala: a razão que tem impedido uma
espécie de "eletrificação" acelerada da matriz energética mundial
tem sido o facto de, ao contrário do petróleo e do gás, a eletricidade não
poder ser armazenada a grande escala e consumida quando é necessária. Existe
porém uma revolução tecnológica em marcha, baseada nas chamadas baterias de
fluxo (fow-batteries). As baterias convencionais têm dois elétrodos e o
eletrólito, que é contido numa célula e serve para transportar os iões entre
os elétrodos. A carga da bateria convencional é mantida pela diferença de
potencial da energia química existente entre os mesmos. Nas baterias de
fluxo, o novo paradigma conceptual, que representa uma rutura com o passado,
reside no facto de a carga ser mantida no próprio eletrólito, o que pode
conduzir a uma armazenagem em grande escala. Esta descoberta pode conduzir a
um battery-driven world, com a consequente eletrificação de grandes segmentos
da economia.
O FUTURO - QUE DESAFIOS?
A atual crise na Ucrânia provocou a reemergência de riscos associados à elevada
dependência europeia de gás natural russo no que concerne à segurança do
abastecimento, em especial no relativo à garantia de fluxos contínuos daquele
recurso energético.
No que respeita às alterações que se registam no referencial energético global,
nomeadamente a descoberta de novas e abundantes reservas e a rápida emergência
de fontes não convencionais de energia, também a UE poderá em muito capitalizar
esta realidade.
Tal poderá ocorrer através da promoção e utilização de novas rotas energéticas,
promovendo a concretização de novos projetos ou a ampliação e consolidação da
atual infraestrutura de abastecimento e distribuição. Neste cenário a bacia
energética do Atlântico verá aumentar a sua importância, dado o potencial que
encerra e de que as recentes descobertas constituem exemplo.
Assim, em nosso entender, são vários os fatores que podem mudar o mercado da
energia no futuro, como a seguir se desenvolvem. A revolução do shale gas nos
Estados Unidos, e que está já a ter impacto no shale oil,foca a atenção nos
hidrocarbonetos retidos na rocha-mãe (pode ser cerca de 40 por cento dos
hidrocarbonetos gerados até hoje no mundo), conduz a um aumento da oferta (as
reservas não convencionais de gás podem ser de duas a duas vezes e meia as
reservas convencionais), provoca uma nova dinâmica nos preços da energia e
altera a geopolítica global. No entanto, é importante notar que o modelo dos
Estados Unidos não é facilmente exportável; o mercado americano é muito
dinâmico, tem infraestruturas e companhias de serviço que tornam viável a
produção e escoamento do petróleo e gás; há crédito mais fácil para as
empresas; a propriedade da terra é privada e o processo de inovação tecnológica
acelerado porque os design-mechanismsestão bem estruturados, o que estimula a
atividade económica e as empresas. É importante sublinhar que isto pode dar um
novo fôlego à vida dos combustíveis fósseis nos Estados Unidos, mas não é
líquido que tenha o mesmo impacto no resto do mundo. Acrescem a esta situação
os problemas ambientais sérios que podem ser criados no subsolo, no solo e no
ar se as operações forem mal conduzidas e a imensa quantidade de água que estas
operações requerem.
O acidente do poço Macondo - registado no offshoredo golfo do México em
20 de abril de 2010 - deu origem à maior catástrofe ambiental da
indústria petrolífera (uma espécie de Three Mile Island da indústria do
petróleo) com o derrame de mais de cinco milhões de barris de petróleo no mar.
Esta ocorrência criou dificuldades para futuras operações de produção do
offshoreexigindo novos mecanismos de segurança, o que aumentou os custos destas
operações. No mesmo sentido, o acidente nuclear de Furushima a 11 de março de
2011 provocou um arrefecimento significativo na utilização da energia nuclear,
o que tem aberto caminho para o crescimento do gás e das energias renováveis
nos sistemas de geração elétrica e térmica, tendência que se vai acentuar.
As alterações climáticas provocadas pelo excessivo uso de combustíveis fósseis
têm levado a situações preocupantes em especial no Ártico, onde a temperatura
aumentou cerca de 3,5º C nos últimos cem anos e se está a assistir ao degelo
dos glaciares com a perda de mais de dois milhões de quilómetros quadrados nos
últimos trinta anos. A ameaça climática conduz incontornavelmente à utilização
de fontes energéticas mais limpas e essa será outra tendência crucial para o
futuro24.
A aposta crescente da China nas energias renováveis reflete o empenho em
diversificar a sua matriz energética, tendo em conta que 70 por cento depende
do carvão. A China é hoje, aliás, o país que mais progressos tem feito neste
âmbito. Uma declaração do ministro do Ambiente da China dizendo que a
degradação ambiental é e será a principal ameaça ao desenvolvimento económico
da China, revela a preocupação A das autoridades e a sua aposta em energias
mais limpas, o que será decisivo no futuro. O desenvolvimento tecnológico e a
redução dos preços de produção de energias renováveis, em particular a eólica e
a solar, é uma tendência muito interessante porque aumenta a sua
competitividade no mercado, fornece um impulso económico para a sua afirmação e
está a conduzir a preços de paridade com os da rede energética o que pode mudar
muita coisa nos próximos anos.
A todos estes fatores acresce o que se passa hoje nos Estados Unidos, que é uma
espécie de laboratório do futuro. A "gaseificação" da economia
norte-americana tem levado o gás a substituir o carvão na geração elétrica e
térmica, mas tem também revelado um impacto significativo do gás no sistema de
transportes. O modelo atual que caracteriza as sociedades é insustentável. Os
núcleos urbanos ocupam dois por cento da superfície do nosso planeta, mas neles
reside mais de metade da população mundial. As cidades consomem 75 por cento da
energia produzida no mundo e são responsáveis pela emissão de mais de 80 por
cento de co2. Neste sentido, está a existir um movimento pioneiro nos Estados
Unidos e em outras cidades do mundo que exige uma nova visão para o
desenvolvimento urbano, um modelo mais sustentável, a solução dos problemas da
segurança energética, a necessidade de adotar redes inteligentes de energia e a
emergência de um conceito de sustentabilidade multidimensional, que tem de
abarcar a gestão da energia, da água e dos resíduos e um novo papel do sistema
de transportes baseado em transportes públicos, carros elétricos e evaporação
dos engarrafamentos de trânsito.
Algumas das tendências que se registam nos Estados Unidos dão que pensar: o
pico do consumo de petróleo nos Estados Unidos foi atingido em 2005; desde
então o consumo de petróleo neste país caiu 14 por cento. O efeito dos altos
preços do petróleo e a crise financeira conduziu em 2012 ao maior número de
passageiros nos transportes ferroviários, tendo o Amtrak atingido o seu maior
pico de utilização desde 1971. O consumo de petróleo na Califórnia em 2012 foi
o mais baixo desde 1998; Chicago e outras cidades estão a experimentar um certo
grau de "pedestrização". O sistema de transportes públicos de Los
Angeles atingiu em 2012 um recorde de nove milhões de passageiros por mês; o
sistema de car-pooling(Zipcar) teve a aderência imediata de 800 mil
utilizadores, em especial jovens.
Resulta claro que estamos aqui numa espécie de "laboratório do
futuro", com a mudança de hábitos, uma nova geração que tem uma outra
visão do mundo onde o carro não é o elemento dominante, a crescente
virtualização do mundo e dos equipamentos e serviços e o facto de a tecnologia
estar a mudar a forma como vivemos, a forma como trabalhamos e a forma como nos
divertimos. Neste contexto vai também mudar e está a mudar a forma como
produzimos e utilizamos a energia.
Perante o que atrás foi exposto, parece provável que no futuro próximo a
questão energética, no contexto mundial e sobretudo europeu, irá confrontar-se
com algumas tendências incontornáveis. Destacamos oito pontos que nos parecem
relevantes:
* A diminuição do peso do petróleo na matriz energética mundial (ou pelo menos
a estagnação seguida de declínio) e o aumento significativo do papel do gás
em combinação com as energias mais limpas (energias renováveis).
* A entrada em uma espécie de "Idade Dourada do Gás", com a sua
crescente penetração no sistema de geração elétrica (substituindo as centrais
a carvão) e o seu potencial papel no sistema de transportes.
* A crescente "eletrificação" da matriz energética mundial,
propulsionada pela crescente urbanização, pelo desenvolvimento tecnológico
sobretudo das redes energéticas inteligentes e pelo desenvolvimento das
baterias elétricas de iões multivalentes e das baterias de fluxo, que
permitirão armazenar eletricidade a grande escala.
* A necessidade de um novo modelo mais sustentável para as cidades por forma a
fazer face aos desafios colocados pelas mudanças climáticas, com vista a
diversificar a matriz energética, aumentar o uso dos recursos endógenos e das
energias limpas e desenvolver um sistema de transportes mais sustentável e
menos poluente.
* A emergência de novas soluções para o sistema de transportes onde o motor de
combustão interna convencional (movido a petróleo, gás ou biocombustíveis)
pode ter competidores como nunca teve no último século, com os motores
elétricos ou as fuel-cellsmovidos a eletricidade gerada por uma gama variada
de fontes energéticas, incluindo as energias renováveis.
* Os aspetos decisivos que vão ditar o sucesso de uma ou mais soluções terão a
ver com os preços, a competitividade, o desenvolvimento tecnológico, a
performancee as questões ambientais.
* É neste quadro que pode emergir um possível paradigma para o futuro, que
combina o gás (o mais limpo dos combustíveis fósseis) com as energias
renováveis, para potenciar as sinergias mútuas e disputar o segmento da
geração elétrica e térmica e também o sistema de transportes mundial. Trata-
se de coligar vetores decisivos como o preço, a competitividade, o
desenvolvimento tecnológico, a eficiência energética, as redes energéticas
inteligentes, a integração da revolução digital e a minimização das
alterações climáticas.
* A prova mais importante de que este paradigma é uma das soluções possíveis
para o futuro e que já está hoje, de certa forma, contido no mundo real, é um
dos cenários recentes apresentados pela SHELL para a evolução da matriz
energética no século XXI e que prevê para 2050 uma matriz energética dominada
pelo gás e carvão mas conjugada com 40 por cento de energias renováveis25.