Um passo em frente e dois atrás: A natureza fluida do sistema político italiano
As mudanças políticas sentidas na Itália durante os anos 1990 foram vistas por
muitos observadores como uma transição de um regime democrático caracterizado
por muitos elementos "anormais" para uma democracia baseada em
critérios "eficientes" - tais como, por exemplo, governos
estáveis, moderação ideológica, tendências centrípetas, governos identificáveis
(e responsáveis), alternância de poder e uma limitada fragmentação partidária
(pelo menos a nível eleitoral). Apesar de o for-mato e a dinâmica do sistema
partidário terem mudado significativamente desde a fase consensual até à fase
maioritária1, olhando para os desenvolvimentos recentes é difícil argumentar
que o resultado foi uma situação estável e eficiente. O Governo tecnocrático
liderado por Monti (2011-2012), o sucesso do Movimento 5 Estrelas (Movimento
Cinque Stelle, m5s) nas eleições de 2013, o papel atípico do chefe de Estado
numa república parlamentar - especialmente durante a crise, mas não só
- são algumasdas características que tornam a situação italiana difícil
de comparar com outras democracias ocidentais, senão mesmo uma exceção.
Independentemente de se aceitar ou não o (controverso) mito da "transição
contínua" iniciada com as eleições de 19942, é um facto que durante os
anos 1990 a Itália foi vista como um laboratório excecional para a análise de
mudanças políticas. À semelhança do que aconteceu em França entre as Quarta e
Quinta repúblicas, o sistema político italiano sofreu mudanças radicais a nível
político e institucional, uma situação rara em democracias maduras. Entre 1992
e 1994, os velhos partidos que desempenhavam papéis centrais na Primeira
República desapareceram abruptamente, a volatilidade eleitoral disparou para os
40 por cento, novos partidos surgiram, enquanto que os votantes e a sociedade
civil embarcaram numa nova onda de mobilização, ganhando mais visibilidade e
poder face às instituições tradicionais. Apesar de o velho sistema político
italiano ter acabado, havia ainda um elevado grau de incerteza no que diz
respeito às características deste novo regime nascido das cinzas da Primeira
República. Neste período surgiram tendências ambíguas, o que levou alguns
académicos a caracterizar este processo como uma "transição
contínua", culminando no surgimento de um tipo de democracia com
características híbridas3. Em parte, este foi o resultado de estas mudanças
terem ocorrido sem a implementação de uma "grande reforma", como
aconteceu na França com De Gaulle4. Pelo contrário, foi uma consequência das
mudanças incrementais levadas a cabo por diferentes atores políticos e sociais.
No entanto, não há dúvidas de que o funcionamento do sistema político italiano
pós-1994 foi substancialmente diferente do das décadas anteriores. A mudança
nas regras eleitorais e o surgimento de novos partidos e líderes acabaram por
afetar a dinâmica competitiva, aumentaram a estabilidade governativa,
"desbloquearam" o leque de escolhas dos votantes e conduziram a um
equilíbrio mais estável entre governo e parlamento, com uma maior
preponderância do primeiro-ministro5. Além das instituições representativas,
mudanças importantes tiveram também lugar no que concerne à administração
estatal (descentralização), no aumento do papel do poder judicial e em novas
formas de gestão económica.
À primeira vista, a crise financeira originou outra vaga na evolução do sistema
político italiano. Por um lado, Berlusconi - a figura-chave que
determinou o conteúdo e o estilo da política italiana desde 1994 - foi
forçado a demitir-se em 2011 perdendo gradualmente o controlo da coligação de
centro-direita. Comentadores, peritos, fazedores de opinião e similares
acreditam ter-se tratado do fim da Segunda República. Por outro lado, as
eleições de 2013 fizeram surgir um novo ator, o m5s, uma outra força política
liderada pelo artista e comediante Beppe Grillo - que conseguiu obter
25,5 por cento dos votos, colocando um ponto final na bipolarização vivida
durante a Segunda República. Em geral, a crise da zona euro parece ter
contribuído para outra mudança significativa no sistema político, abrindo novas
oportunidades para a inovação e quebrando o (fraco) equilíbrio das estruturas
políticas e institucionais existentes.
Este artigo examina a evolução do sistema político italiano, tomando como foco
as mudanças desencadeadas pelas eleições legislativas de 2013. Em particular,
analisamos se surgiram novas dinâmicas competitivas, quais as transformações
vividas pelos principais atores políticos e até que ponto a crise promoveu
alterações significativas a nível institucional ou social. Após descrever, na
próxima secção, as principais características das dinâmicas eleitorais e
institucionais, a terceira secção analisa a forma e o funcionamento do sistema
partidário, enquanto a secção seguinte reflete sobre as tendências ao nível das
atitudes dos cidadãos face ao sistema político, bem como às suas implicações
nas arenas institucionais e sociais. A última secção oferece uma interpretação
geral das continuidades e mudanças no sistema político italiano, para além de
algumas reflexões sobre os seus possíveis desenvolvimentos.
DA "TRANSIÇÃO CONTÍNUA" À "TRANSIÇÃO EM IMPASSE"
As eleições legislativas de 1994 marcaram o início de uma nova era na política
italiana. Estas eleições foram ganhas pela coligação de centro-direita liderada
por Silvio Berlusconi e inúmeras novas forças competiram pela primeira vez,
enquanto que outros partidos - tal como os comunistas - sofreram
mudanças significativas6. Apesar da curta duração do Governo de centro-direita
(sete meses), foi estabelecido um padrão de alternância através da competição
entre duas coligações distintas (cf. Tabela_1). Após a vitória em 1996 da
coligação de centro-esquerda liderada por Romano Prodi, Berlusconi conseguiu
ganhar as eleições de 2001, dirigindo o Governo até ao final da legislatura.
Como vários autores mencionaram7, estas eleições constituíram uma verdadeira
viragem face ao anterior sistema político, não só pela emergência de líderes e
coligações identificáveis, mas também pelo facto de assegurarem estabilidade
governativa. Pela primeira vez, um governo empossado competiu pelo poder com
uma oposição clara e definida. A poucos meses de serem convocadas eleições
legislativas, uma nova lei eleitoral baseada na representação proporcional e em
listas partidárias fechadas foi introduzida em ambas as câmaras8. As eleições
de 2006, disputadas com base nesta lei, deram uma vitória tangencial à
coligação de centro-esquerda de Romano Prodi. Contudo, a sua maioria no Senado
era tão frágil que o novo Governo durou apenas dois anos.
No entanto, a bipolarização do sistema partidário foi sendo reforçada e atingiu
o seu ponto máximo em 20089. O Povo da Liberdade (Popolo della Libertà, pdl), o
partido de Berlusconi, conseguiu obter a mais ampla maioria política jamais
conseguida na história republicana, com uma coligação de governo simplificada
com apenas um parceiro, a Liga Norte (Lega Nord, ln). Além disso, a oposição
parlamentar era composta por apenas três grupos parlamentares: o Partido
Democrático (Partito democratico, pd) de centro-esquerda, o Italia dei Valori
(idv) - liderado pelo antigo juiz Antonio Di Pietro - e o centrista
católico Unione di Centro (udc). No entanto, a ilusão de uma tendência
maioritária foi rapidamente dissipada pela prática parlamentar, com a
emergência de dinâmicas centrífugas e conflitos persistentes dentro das duas
principais coligações.A maioria parlamentar obtida nas eleições de 2008 começou
a desmoronar-se com a deserção, em 2010, do cofundador do pdl Gianfranco Fini e
de um grupo substancial de parlamentares. O Governo começou a perder apoio
entre os eleitores, como se comprovou pelo fraco desempenho nas eleições locais
e no referendo de 201110. Uma mistura de problemas internos no principal
partido do Governo (o pdl), os escândalos pessoais do primeiro-ministro Silvio
Berlusconi, corrupção política, má administração e, por último mas não menos
importante, o eclodir da crise económica internacional conduziram à queda do
Governo de coligação centro-direita no final de 2011.
Merece a pena recordar que a demissão de Silvio Berlusconi se deveu não a uma
votação negativa ou a uma moção de censura no Parlamento, mas sim a
compromissos assumidos pela Itália perante os parceiros europeus, e que foram
geridos diplomaticamente pelo Presidente da República (Giorgio Napolitano). As
instituições europeias tiveram um papel crucial no apoio a um consenso
parlamentar alargado, tanto na formação de um novo governo tecnocrático
liderado pelo antigo comissário europeu Mario Monti, como na adoção de medidas
para lidar com os graves problemas económicos. Como se pode ver na Tabela_2, a
crise italiana começou em 2008 e piorou seriamente até 2009. Depois de dois
anos de taxas de crescimento baixas, um novo período de recessão começou em
2012 estendendo-se a 2013. Durante o mesmo período, a taxa de desemprego
duplicou em relação aos valores de 2007, enquanto a dívida pública cresceu
acentuadamente ano após ano até atingir o nível recorde de quase 132 por cento
do Produto Interno Bruto (pib) no final de 2014.
O Governo tecnocrático desfrutou de uma extensa maioria bipartidária, o que lhe
permitiu implementar as mais importantes reformas económicas com uma elevada
taxa de sucesso (65 por cento das leis, mais do que os governos anteriores)11.
Este desempenho pode ser explicado não só pela fraqueza dos restantes partidos,
mas também pelos condicionalismos externos, tal como a supervisão das
instituições europeias. O Governo tecnocrático durou até dezembro de 2012, após
a aprovação do orçamento de 2013 e do novo pacote de medidas de austeridade.
Berlusconi e o seu partido decidiram retirar a confiança ao Governo, numa
tentativa de ganhar vantagem enquanto oposição às impopulares políticas
implementadas por Monti. Em consequência disso, as eleições realizaram-se em
fevereiro de 2013, poucos meses antes do final previsto da legislatura. Estas
eleições registaram um crescimento significativo das taxas de abstenção (de 20
por cento para 25 por cento, ver Tabela_3), e um aumento dramático do
sentimento antipartidos, que abriu espaço ao sucesso avassalador do m5s12.
Durante a campanha eleitoral para as eleições de 2013, a posição de liderança
do maior partido da esquerda face aos partidos de centro-direita desgastou-se
continuadamente devido ao escândalo financeiro relacionado com um banco próximo
ao pd (Monte dei Paschi), uma má gestão de campanha e um mau desempenho do seu
líder Pierluigi Bersani13. O m5s beneficiou das falhas dos principais partidos
obtendo mais de 25 por cento dos votos na câmara baixa, o que lhe permitiu ser
o partido mais votado, ainda que o bónus por maioria tivesse dado a maioria
absoluta ao principal partido da esquerda (pd). O sucesso do m5s baseou-se não
só no seu líder carismático, mas também na capacidade de atrair antigos
apoiantes do Lega Nord e do Italia dei Valori (idv), duas forças políticas que
construíram o seu sucesso com base em mensagens antissistema. No entanto, isto
não significa que o m5s seja apenas uma mera expressão de sentimentos
antipolítica, mas antes que a sua base de apoio teve origem na necessidade de
encontrar novos modelos organizacionais e formas democráticas mais
participativas e deliberativas14. O sucesso desta nova força esteve associado à
capacidade de construir um consenso transversal, agregando diferentes grupos,
independentemente da sua orientação ideológica ou identidade partidária15.16
As eleições legislativas de 2013 foram incapazes de produzir uma maioria clara
devido aos resultados no Senado. Este impasse político conduziu à formação de
uma grande coligação, composta pelos adversários políticos tradicionais da
Segunda República - o Partido Democrático (pd) de centro-esquerda e o
Popolo delle Libertà (pdl) de centro-direita - e o novo Lista Civica
liderado por Mario Monti. O novo primeiro-ministro, Enrico Letta, hesitou em
implementar as principais reformas económicas e políticas - em particular
a reforma constitucional - apresentadas pelo pd durante a campanha
eleitoral. As razões foram duas. Em primeiro lugar, o julgamento e condenação
do líder do pdl Berlusconi; em segundo, a vontade dos partidos de centro-
direita de eliminar o imposto sobre a propriedade (imu) e a oposição a um
aumento do iva. Ambas as medidas foram consideradas essenciais para atingir as
metas impostas pela União Europeia (UE). Entretanto, a crise dentro do
principal partido de direita, pdl, conduziu a uma rotura interna entre o Forza
Italia de Berlusconi e o recém-criado partido Nuovo centrodestra (Novo Centro-
Direita, ncd) liderado por Alfano (o herdeiro político de Berlusconi), que se
tornou o segundo maior partido da coligação. No entanto, a eleição de Matteo
Renzi (o presidente da câmara de Florença) como novo líder do pd nas primárias
partidárias de dezembro de 2013 veio colocar em causa a sobrevivência do
Governo17. Letta decidiu demitir-se em fevereiro de 2014 após vários ataques do
novo líder do pd em relação às políticas económicas, e na sequência de vários
escândalos que afetaram importantes membros do Governo18.
Apesar de ser prematuro dar um veredito acerca do desempenho do Governo de
Renzi, uma avaliação provisória sugere aspectos positivos e negativos. Um
período de "lua de mel" entre o novo primeiro-ministro e a opinião
pública permitiu a Renzi obter resultados muito positivos nas eleições
europeias de 2014 (40,8 por cento, o segundo maior grupo político no Parlamento
Europeu), um dos poucos governos (de esquerda) a aumentar o número de votos
tanto em termos absolutos como relativos. Mais importante ainda, o desempenho
do pd permitiu limitar e conter o aumento de apelos populistas. Somando a isto,
uma das maiores vitórias durante o primeiro ano de governação foi a aprovação
da reforma do Senado, que visava facilitar o processo de tomada de decisão e os
procedimentos legislativos19. Espera-se que esta reforma venha a facilitar a
capacidade do Governo em cumprir as promessas eleitorais, ao remover
importantes bloqueios e ao reforçar o papel do poder executivo em detrimento do
Parlamento. No entanto, o primeiro-ministro teve de enfrentar uma forte
oposição à nova Lei do Trabalho, uma série de reformas que procurava reduzir os
níveis de desemprego através da liberalização do mercado de trabalho, reduzindo
os custos do trabalho e facilitando os despedimentos individuais. Para além
disso, o Governo chocou com a ala mais radical do pd e da principal união
sindical (cgil), não só por ter rejeitado negociar o orçamento de 2015 com os
parceiros sociais, mas também devido à decisão de estabelecer novos limites às
greves de trabalhadores e de congelar os salários da função pública, bem como à
tentativa de abolição do artigo 18 da Constituição (proteção contra a demissão
sem justa causa). Finalmente, Renzi tentou amenizar as medidas de austeridade
mas não conseguiu reduzir a taxa de desemprego nem inverter as tendências
negativas de crescimento (ver Tabela_2). Este baixo desempenho e alguns
escândalos de corrupção que afetaram membros do Governo levaram a uma perda
significativa de popularidade, que baixou 15 pontos percentuais durante o
primeiro ano em funções (de cerca de 60 por cento a 45 por cento em março de
201520).
Os mais importantes desenvolvimentos políticos na Itália após a crise,
nomeadamente a queda de Berlusconi, a ascensão do m5s e a recente liderança de
Renzi, devem ser interpretados no contexto de uma tendência global para uma
crescente personalização da política. Num âmbito mais amplo, a Segunda
República italiana pode ser considerada um dos melhores exemplos da
presidencialização das democracias contemporâneas21.
A partir do início dos anos 1990 várias mudanças significativas tiveram lugar:
o fortalecimento do papel do primeiro-ministro; uma crescente centralização e
personalização das organizações partidárias; o aumento da autonomia e
visibilidade dos eleitos a nível local baseada na legitimação popular através
de eleições diretas; a mediatização da men-sagem política com a consequente
mudança no estilo das campanhas políticas; e, por último, a avaliação da
popularidade dos líderes como fator determinante do comportamento dos
eleitores, ao mesmo tempo que as lealdades partidárias e ideológicas
tradicionais foram sendo gradualmente rejeitadas22.
A TRANSFORMAÇÃO DOS PARTIDOS E DO SISTEMA PARTIDÁRIO
O sistema eleitoral misto adotado pela primeira vez em 1994 não foi capaz de
alcançar os principais objetivos da reforma, nomeadamente a redução da
fragmentação do sistema partidário. Como mostra a Tabela_4, o número efetivo de
partidos eleitorais (nepe) manteve-se relativamente alto, ainda que os
incentivos à formação de alianças pré-eleitorais tenham contribuído para
limitar as tendências centrífugas. No entanto, o surgimento em 2008 de dois
grandes partidos, tanto à esquerda como à direita (pd e pdl), gerou tendências
maioritárias, como sugere a diminuição no nepe, que atingiu o seu valor mais
baixo (3,8). Esta situação confirma-se mesmo quando olhamos para a concentração
de votos nos dois principais partidos: em 1996 os dois principais partidos
obtiveram apenas 41,7 por cento, enquanto em 2008 alcançaram mais de 70 por
cento dos votos. Em parte, esta mudança esteve relacionada com a nova lei
eleitoral adotada em 2005 (um sistema proporcional com um bónus por maioria à
coligação vencedora). Porém, convém salientar que estas regras foram
interpretadas e exploradas de formas distintas pelos diferentes líderes
partidários23. Assim, em 2006, os dois maiores partidos optaram pela criação de
cartéis pré-eleitorais e em 2008 escolheram concorrer com "coligações
maioritárias mínimas"24. O resultado foi uma oferta eleitoral
simplificada composta por duas coligações - o pd com o idv à esquerda e o
pdl com a Liga Norte à direita - e dois partidos concorrendo sozinhos (a
Esquerda Arco-íris, mais radical, e o democrata-cristão udc).
A descontinuidade das eleições de 2013 pode ser testemunhada, acima de tudo,
através do aumento do número de partidos ao nível eleitoral (5,3), apesar de
esta mudança ser menos clara ao nível parlamentar devido ao impacto do sistema
eleitoral (nepp = 3,5). Esta divergência espelhou-se numa maior desproporção
nas eleições de 2013, que se deveu principalmente à elevada competitividade que
as caracterizou25. Para além disso, a possibilidade de identificação de
coligações passíveis de se alternarem no governo, assim como as tendências
maioritárias que caracterizaram a dinâmica do sistema partidário desde 1994,
desvaneceram-se com o sucesso do m5s.
As eleições de 2013 representaram um claro ponto de viragem no desenvolvimento
do sistema político iniciado em 1994 também no que diz respeito às flutuações
de votos. O nível total de volatilidade (42,4) foi o mais alto de todo o
período (tendo atingido 36,7 nas eleições de 1994, que estiveram na Segunda
República). O nível de volatilidade foi quatro vezes superior ao registado nas
eleições de 2008, a segunda pontuação mais alta em eleições na Europa após a
Segunda Guerra Mundial (depois das eleições gregas de 2012)26. A fluidez do
sistema partidário foi também muito elevada nas eleições de 1996 e 2001, acima
de tudo pelos reajustes na oferta partidária. Esta instabilidade, contudo,
esconde a relativa impermeabilidade dos dois blocos ideológicos. Se
considerarmos a volatilidade entre blocos - ou seja, a mudança de votos
de um bloco ideológico para outro - podemos observar que a formação de
coligações amplas e claras está limitada devido à reduzida proporção de
votantes que atravessam as fronteiras ideológicas (cf. Tabela_4). No entanto,
nas eleições de 2013 a permeabilidade entre as duas coligações atingiu o seu
segundo nível mais alto - em termos absolutos - desde as eleições
de 1994, não só pelo apelo transversal do m5s, mas também pela emergência de
novas forças situadas ao centro do espectro político. Consequentemente, a
volatilidade nos blocos correspondeu a 80 por cento da volatilidade total.
Em termos gerais, o sistema partidário italiano tem vivido tendências diversas
e contrastantes, que surgem como um dos traços da "transição
contínua". Entre 1994 e 2006 observa-se uma bipolaridade fragmentada com
uma influência exagerada dos pequenos partidos nas coligações. Nas eleições de
2008 emergiu uma bipolaridade limitada, com a competição a centrar-se nos dois
principais partidos27. Finalmente, as eleições de 2013 deram origem a um
sistema partidário multipolar estruturado em torno de três atores principais:
na ala esquerda o pd, na ala direita o pdl, e o novo partido (antissistema)
m5s. Ainda não é claro se as eleições de 2013 inauguraram uma nova fase do
sistema partidário italiano. Isto vai depender não só da capacidade de resposta
e adaptação dos principais partidos aos desafios da crise política e económica
mas também à institucionalização do m5s. As eleições locais que ocorreram
depois do escrutínio nacional de 2013 demonstraram as limitações do m5s em
termos da penetração organizacional e do recrutamento de candidatos. Mais
ainda, este novo partido demonstrou uma impressionante falta de coesão e uma
incapacidade de controlar os representantes eleitos para cargos públicos. No
entanto, a incapacidade do Governo de levar a cabo grandes reformas políticas e
económicas pode contribuir para consolidar este novo partido e reforçar as
tendências centrífugas e a instabilidade do sistema político.28
Outro importante indicador das mudanças que ocorreram com as eleições
legislativas de 2013 é a taxa de inovação efetiva do sistema partidário. Este
indicador mede o sucesso dos novos partidos que não possuem vínculo ideológico
com os já existentes29. Este é também um instrumento para examinar a
institucionalização do sistema partidário. No caso italiano, este indicador
atingiu os valores máximos nas eleições de 1994 e 2013, com valores de 21 e
34,8 por cento respetivamente30. Por outras palavras, estes dados sugerem que o
sistema partidário está a sofrer um processo de desinstitucionalização,
semelhante ao que ocorreu no período de 1992-1994. Isto significa que as
eleições de 2013 divergiram claramente dos padrões estabelecidos durante a
Segunda República, devido especificamente ao surgimento de três novos partidos
(o m5s, o Scelta Civica e o Fare per fermare il declino).
No geral, o sistema partidário italiano tem revelado uma combinação explosiva
baseada, por um lado, num elevado nível de fragmentação e, por outro, em
elevados níveis de volatilidade eleitoral. Outro problema a ser resolvido para
que possa ser melhorada a representação e assegurada a estabilidade partidária
é a questão dos políticos que transitam entre partidos. Durante a chamada
"Primeira República", a saída de um deputado de um partido para
outro constituía um suicídio político. Mais frequente era a saída de fações
inteiras de um partido para outro por motivos estratégicos ou ideológicos.
Depois de 1994 surgiu um novo fenómeno: a mudança de deputados de um partido
para outro. Um indicador desta tendência é o crescimento de grupos
parlamentares formados durante a legislatura31. Para além disso, o número de
deputados que pertencem a grupos parlamentares "mistos" - ou
seja, que deixaram o partido pelo qual foram eleitos -, também cresceu
significativamente durante o mandato parlamentar. Ainda mais digno de nota é a
proporção substancial de deputados que mudaram de coligação (em média 50 por
cento entre 1996 e 2001), movendo-se de um bloco ideológico para o oposto32. O
facto de este padrão ter demonstrado uma continuidade pronunciada mesmo após a
aprovação do sistema eleitoral de 2005 - que terminou com os círculos
uninominais, um incentivo poderoso para a responsabilização dos deputados face
aos seus eleitorados - sugere que as organizações partidárias já não são
capazes de organizar e controlar as atividades parlamentares e de funcionar
como o centro da função legislativa.
Apesar destes fatores, o sistema partidário gozou de relativa estabilidade até
2013. Como explicar este padrão? A resposta reside em grande medida na
competição bipolarizada entre as coligações de centro-direita e centro-
esquerda. A despolarização das principais forças radicais e os incentivos das
leis eleitorais à formação de coligações para competir pela alternância
governamental asseguraram a estabilidade do sistema partidário durante o
período 1990-2000. O sucesso de um terceiro polo baseado na nova força liderada
por Beppe Grillo pôs um ponto final a esta configuração bipolar. Apesar de ser
ainda prematuro tirar conclusões sobre os futuros desenvolvimentos do sistema
partidário italiano, as eleições de 2013 demonstram claramente características
mais próximas da primeira fase da democracia do que da segunda.
Além do formato e dinâmica do sistema partidário, uma das maiores mudanças
observadas durante a fase maioritária do sistema político italiano está
relacionada com as transformações nos partidos políticos. Apesar de ainda ser
muito cedo para avaliar o legado de Berlusconi no sistema partidário italiano,
é oportuno enfatizar três dimensões de mudança. Em primeiro lugar, o surgimento
de "partidos personalistas", que combinam uma relação simbiótica
entre líderes e partido, o controlo de líderes fortes sobre as estruturas
partidárias e a natureza simbólica - mais ou menos carismática - da
liderança como meio de unificar e controlar os valores, regras e identidade dos
partidos33. Do lado direito do espectro político, o Forza Italia e a Liga do
Norte sempre foram dependentes dos seus líderes, que de facto
"possuíam" o partido - literal-mente no caso da primeira
força política. O mesmo aconteceu com o m5s. Não se trata apenas de Grillo ser
um líder carismático, mas também do facto de controlar - em conjunto com
o seu braço-direito e conselheiro Casaleggio - o partido pela internet,
de a sua biografia pessoal estar sempre presente (implícita ou explicitamente)
na mensagem transmitida aos eleitores, e de utilizar constantemente uma
retórica populista34. Todos estes partidos, apesar de muito diferentes em
vários aspetos, reproduziram uma organização interna claramente virada para
sustentar e preservar, mais do que contrabalançar, a liderança dos seus
fundadores. A proeminência dos líderes partidários dentro do partido nunca foi
realmente desafiada na maioria dos casos. À esquerda, a Italia dei Valori de Di
Pietro, bem como o sel (Esquerda, Ecologia e Liberdade) de Vendola, também
apresentam uma forte componente personalista, e a sua existência está muito
ligada à estratégia e popularidade dos seus líderes. O pd parecia ser menos
imune a este fenómeno, mas a liderança de Renzi pode ser considerada em grande
medida como uma tentativa bem-sucedida de imitar o estilo de liderança pessoal
de Berlusconi.
O segundo elemento importante está relacionado com as mudanças vividas nas
características da comunicação política. Como referiu Donovan35, Berlusconi foi
mais eficaz como mobilizador eleitoral do que como chefe de governo. Foi
pioneiro nas campanhas eleitorais modernas em Itália e na forma como os atores
políticos comunicavam com os eleitores36. Enquanto nos anos 1990 a comunicação
partidária estava bastante atrás do que acontecia na Europa Ocidental, no
início do século xxi mobilizava muito dinheiro e era fortemente orientada pelo
marketing. No entanto, deve salientar-se a este respeito que os discípulos
ultrapassaram o mestre, uma vez que tanto Grillo como Renzi foram capazes de
utilizar melhor a web 2.0 e as redes sociais do que o próprio Berlusconi.
A terceira área que Berlusconi afetou diretamente está relacionada com a
retórica antissistema e antipolíticos. Depois do escândalo "Mãos
Limpas", Berlusconi construiu o seu sucesso político baseando-se na sua
imagem de empreendedor e na ideia de uma regeneração da vida política baseada
nas virtudes empreendedoras, em oposição à partidocracia identificada com a
maioria dos partidos de esquerda.
Dois importantes fenómenos do contexto posterior às eleições de 2013 podem ser
considerados uma consequência destas mudanças estruturais e um subproduto da
era Berlusconi. O primeiro foi a ascensão meteórica de Renzi como líder do
maior partido de esquerda (pd) e, desde fevereiro de 2014, como primeiro-
ministro. O antigo presidente da câmara de Florença baseou o seu sucesso num
estilo plebiscitário de fazer política, rejeitando qualquer processo mediado e
mostrando-se indisponível para respeitar constrangimentos formais ou informais
relativos a outros poderes no momento de tomar decisões. Adicionalmente, convém
lembrar que a ascensão de Renzi - também conhecido como o
"demolidor" (rottamatore) - dentro do partido foi baseada
numa forte mensagem antissistema e na necessidade de rejuvenescer a elite
política através de uma mudança geracional37.
Contudo, talvez o exemplo mais claro do legado de Berlusconi seja o m5s de
Grillo. Este novo ator político é uma combinação explosiva de tendências
personalistas e retórica antipolítica. Para podermos compreender este fenómeno
temos de olhar para o contexto favorável ao surgimento de novos atores
populistas. Sentimentos antipartidários e atitudes antissistema são uma
característica habitual da política italiana, tanto ao nível das elites como
das massas38. As críticas relativamente aos principais partidos são terreno
fértil para o apelo aos não votantes, às gerações mais novas e aos setores mais
vulneráveis às consequências da crise económica. O m5s é também uma
consequência do legado de Berlusconi em termos do estilo de comunicação baseado
no mito do "homem fora do sistema" e de uma mentalidade de amigo/
inimigo - por exemplo, lutando contra as duas castas, a elite política
dominante e os meios de comunicação - com um forte recurso a um tipo de
campanha negativa.
DESLEGITIMAÇÃO, ADAPTAÇÃO INSTITUCIONAL E RESPOSTAS SOCIAIS
A análise das atitudes políticas nos países da Europa Ocidental após o início
da crise económica mostra um aumento dos sentimentos negativos relativamente às
principais instituições representativas39. De acordo com vários tipos de dados,
desde o início do século xxi as democracias ocidentais têm apresentado
crescentes níveis de desconfiança, embora não haja uma tendência uniforme e a
intensidade do fenómeno varie de país para país40. Os cidadãos da Europa do Sul
registam níveis particularmente negativos relativamente ao funcionamento da
democracia e da União Europeia, sugerindo não só mal-estar e descontentamento,
mas também uma crise nos papéis desempenhados pelos partidos políticos nesta
região em particular. O falhanço dos partidos parece ser particularmente forte
em Itália e está associado às tradições de "antipartidarismo" de
longo prazo, bem como à herança da crise do sistema partidário vivida nos anos
199041.
Considerando inicialmente o nível de confiança nos partidos políticos, vemos
que a Itália regista uma diminuição na última década, especialmente após as
eleições de 2006, atingindo o valor mais baixo em maio de 2012 com apenas
quatro por cento de avaliações positivas (cf. figura_1). Passando para a
confiança do público no governo, a Itália mostra um declínio entre 2006 e 2008
e uma ligeira recuperação após as eleições de 2008, seguindo-se um curto
período de estabilidade (período de "lua de mel"). Durante o quarto
governo de Berlusconi (2008-2011) a confiança caiu abruptamente para a taxa
mais baixa de sempre (11 por cento). A nomeação do governo tecnocrático levou a
um aumento das avaliações positivas de Monti, que durou até ao final de 2012. O
mesmo padrão pode ser observado no caso da confiança face ao parlamento. Em
geral, é importante salientar o facto de a crise económica ser um catalisador
do declínio da confiança institucional, fortalecendo uma insatisfação global
com as principais instituições políticas que datava já do início da década de
2000. Os eleitores italianos demonstram atualmente mais atitudes negativas face
ao sistema político do que antes do despoletar da crise da zona euro.
Se olharmos para a evolução da satisfação com a democracia, os valores gerais
flutuam entre 15,6 por cento (em 1997) e 53 por cento (valores registados em
2005-2006). Regista-se uma tendência positiva até 2006, que alcança o seu
apogeu no final de 2005 e começa a diminuir nos anos seguintes. As eleições
legislativas de 2008 contribuíram para uma subida moderada na satisfação com a
democracia, mas desde 2010 a proporção de cidadãos satisfeitos diminuiu
gradualmente, atingindo o mínimo na primavera de 2014 com apenas 27 por cento
dos italianos a demonstrarem uma visão positiva da democracia. Apesar das
oscilações, podemos afirmar que o surgimento da crise económica coincidiu com
uma queda significativa dos valores globais de satisfação com o regime
democrático.
As atitudes políticas na Itália demonstraram um cinismo generalizado em relação
ao sistema político. No entanto, este mal-estar não deve ser interpretado
meramente como um mero produto da crise económica. Apesar de ser difícil
avaliar os principais fatores que contribuem para a oscilação destes
indicadores, estes sentimentos negativos face às instituições tendem a ser
generalizados e não característicos de um grupo de eleitores. De um modo geral,
esta é uma tendência global que está relacionada com mudanças amplas e
sistemáticas. Em primeiro lugar, os desafios da globalização combinados com
políticas neoliberais e a falta de crescimento económico na zona euro afetaram
o desempenho das democracias contemporâneas, especialmente nos países do Sul da
Europa após o início da crise da dívida soberana. Em segundo lugar, convém
recordar o papel importante desempenhado pelos meios de comunicação social na
definição das atitudes públicas, nomeadamente o discurso sobre a incapacidade
por parte dos políticos de fazer face aos problemas dos cidadãos e a obsessão
pela vida privada dos políticos42. Além disso, como relembra Baldini43, o
surgimento de sentimentos "antipolíticos" é uma característica
recorrente na política italiana. Da emergência do partido do "homem
comum" (Uomo qualunque) ao idv de Di Pietro, existem inúmeros exemplos de
formas de protesto antissistema na história da Itália depois da Segunda Guerra
Mundial. Isto significa que a cultura política italiana é terreno fértil para o
crescimento das forças que baseiam a própria mensagem na crítica face aos
principais atores políticos. Contudo, vários estudos sublinham a importância da
influência de fatores de curto prazo nas atitudes perante o regime democrático,
nomeadamente o grau de satisfação com o funcionamento da democracia44. Durante
o escândalo "Mãos Limpas", por exemplo, todos os indicadores de
apoio ao regime caíram abruptamente, mas no final dos anos 1990 uma tendência
positiva emergiu novamente. Consequentemente, o declínio da confiança
institucional e da satisfação democrática registado nos últimos anos pode ser
um resultado imediato da crise económica, bem como uma consequência da
instabilidade política que se seguiu à queda do Governo de Berlusconi.
Neste cenário de grande desconfiança face aos principais atores e instituições
representativas, o Presidente da República tem vindo a desempenhar um papel
cada vez mais importante na política italiana. Embora este papel não seja
completamente novo na democracia italiana, os poderes presidenciais aumentaram
significativamente durante a fase "maioritária"46. De acordo com a
Constituição, o Presidente da República tem dois tipos de poder: por um lado, o
poder de veto, ou seja, a capacidade de controlar o governo e a ação das
minorias parlamentares; por outro, poderes para aumentar a eficiência do
processo de tomada de decisão através de prerrogativas diretas e
discricionárias relativas à formação do governo, dissolução do parlamento ou
política externa. A deslegitimação que afetou as principais instituições
parlamentares foi contrabalançada pelos elevados níveis de popularidade dos
presidentes, especialmente durante os mandatos de Napolitano (2006-2013 e 2013-
2015). Esta legitimação popular permitiu ao chefe de Estado assumir um papel
sem precedentes na gestão do período pós-crise, através do uso alargado tanto
dos poderes formais como informais47. O Presidente Napolitano agiu como um
verdadeiro decisor, não só no que concerne à capacidade de influenciar a agenda
de certos ministros, mas também em termos do seu papel na política externa. Um
dos exemplos mais claros dessa influência é a escolha de Pier Carlo Padoan como
novo ministro da Economia do Governo de Renzi. Nessa altura (fevereiro de
2014), Renzi tinha uma posição forte dentro do partido e perante a opinião
pública, mas a popularidade do Presidente italiano era ainda maior do que a
registada pelo primeiro-ministro (66 por cento e 60 por cento, respetivamente).
Isto permitiu a Napolitano assumir um papel decisivo na formação do governo,
semelhante à que tinha tido em governos anteriores. O seu papel foi crucial, em
especial no que concerne ao respeito pelos compromissos económico-financeiros
assumidos a nível europeu, e como garantia de que o orçamento do Estado cumpre
com os critérios europeus.
Acima de tudo, as mudanças estruturais do sistema político italiano
contribuíram para fortalecer o papel simbólico e comunicativo do Presidente da
República. A fraqueza dos novos partidos, a crescente mediatização da política
e o aumento da personalização (e a "presidencialização") dos
governos, o crescimento de sentimentos antipartidários e da desconfiança face à
elite política, bem como o difícil caminho para a estabilidade governamental e
para a eficiência parlamentar são fatores que estimularam um papel mais ativo
do chefe de Estado48. Esta tendência emergiu de forma esporádica desde a década
de 1980 mas intensificou-se significativamente sob a pressão política e
económica da crise da zona euro49. Deste ponto de vista, o Presidente
Napolitano foi capaz de colmatar a distância entre os cidadãos e a elite
política e ganhar legitimidade popular através de poderes informais
relacionados com a estratégia de "ir a público", acabando por
reforçar as prerrogativas formais (relativamente) fracas.
Em grande medida, o debate acerca do futuro da política italiana deve começar
com uma análise das reformas institucionais. A "transição em
impasse" é uma consequência das deficiências do sistema político,
resultantes da combinação do efeito da simetria bicamaralista e das leis
eleitorais. Enquanto que o primeiro-ministro Renzi conseguiu com sucesso gerir
o primeiro problema, o segundo continua a apresentar muitas dúvidas e ameaças.
De acordo com Pasquino50, o critério mais importante para avaliar a lei
eleitoral é o grau de poder concedido aos votantes na escolha dos seus
representantes. A lei eleitoral de 2005 - a chamada lei
"Porcellum" - dá um poder significativo aos líderes
partidários, bem como grandes privilégios aos deputados, sem no entanto
atribuir um papel relevante aos membros partidários. Em dezembro de 2013 o
Tribunal Constitucional rejeitou dois aspetos cruciais da lei eleitoral: o
bónus para a obtenção de uma maioria "artificial" e as listas
(demasiado) longas. Na sequência desta decisão, o novo líder do pd (e primeiro-
ministro) decidiu negociar uma nova lei eleitoral com Berlusconi, não só com o
objetivo de assegurar a estabilidade governativa, mas também para evitar o
crescimento do m5s. Três pontos parecem dificultar a negociação entre Renzi e
Berlusconi. O primeiro é o limite do bónus por maioria, que deveria ser fixado
em cerca de 37 por cento dos votos. O segundo ponto diz respeito à
possibilidade de introduzir preferências de voto, pelo menos a um número
limitado de candidatos. Finalmente, o controverso terceiro tópico é o limite
eleitoral para alcançar a representação eleitoral. Se as lideranças do pd e do
fi perseverarem na defesa do carácter maioritário da lei eleitoral, a nova lei
apresentará falhas semelhantes às já analisadas pelo Tribunal Constitucional.
Para além disso, ainda que possa assegurar a continuidade das dinâmicas
maioritárias através de uma estrutura competitiva bipolar, pode também ter o
efeito secundário de fortalecer a natureza antissistema do m5s e prolongar
artificialmente a vida política de Berlusconi.
Passando ao impacto da deslegitimação ao nível das respostas sociais, é
importante responder à seguinte questão: até que ponto a crise sistémica levou
à mobilização da sociedade civil? Se olharmos para as novas formas de protesto,
tais como as que surgiram em Espanha, os protestos em Itália não só começaram
mais tarde como apresentaram níveis elevados de fragmentação e radicalização51.
Os dados apontam para que a mobilização tenha atingido o seu ponto máximo em
2011, durante o auge da crise económica e do falhanço do Governo de Berlusconi.
No período subsequente, as novas formas de protesto dissiparam-se gradualmente.
Por outro lado, as formas de protesto tradicionais ganharam mais relevância nos
últimos anos. Em particular, os sindicatos têm estado especialmente ativos na
crítica às políticas dos governos e na articulação de protestos contra as
medidas de austeridade. Vale a pena salientar que o m5s beneficiou largamente
das novas formas de protesto, ligando os problemas locais a assuntos mais
gerais como o desemprego, o ambiente ou o próprio funcionamento da
democracia52. O crescimento da popularidade do m5s coincidiu com a sobreposição
entre os protestos e os principais tópicos articulados no seu programa. Este
fenómeno acabou por contribuir para a institucionalização do protesto social e
para neutralizar algumas das exigências levantadas pelos movimentos sociais.
CONCLUSÕES
Este artigo examinou a evolução do sistema político italiano antes e depois das
eleições legislativas de 2013, mostrando como estas estão relacionadas com
algumas tendências importantes a nível institucional e social. A maior
dificuldade ao avaliar as continuidades e mudanças na política italiana reside
na natureza ambivalente das características das suas instituições, bem como em
algumas tendências contraditórias que foram surgindo ao longo das últimas três
décadas. Por exemplo, os sistemas eleitorais adotados durante a Segunda
República funcionaram frequentemente ao contrário do que se esperava, uma vez
que as elites políticas interpretaram estas leis de forma diferente dos
eleitores53. Outro exemplo foi a reforma de descentralização realizada com a
revisão constitucional de 2001, que sofreu vários problemas de implementação,
especialmente com as tendências de recentralização que surgiram com a crise
económica54.
A mudança mais evidente no sistema político italiano depois da crise foi
certamente o terramoto eleitoral das eleições de 2013, que vieram restruturar
profundamente o sistema partidário e a oferta política. O aparecimento do m5s e
o declínio do apoio às duas principais coligações conjugaram-se para produzir
um profundo realinhamento que levou à instabilidade política. O sistema
partidário italiano ainda está em mudança devido aos efeitos (desconhecidos) da
nova lei eleitoral - que ainda tem de ser negociada entre os principais
partidos -, da reforma institucional (abolição do Senado), bem como à
incerteza quanto à estratégia que as principais forças irão adotar no futuro.
Assim sendo, apenas podemos especular sobre a hipótese de emergir um padrão
estável no futuro. Como vários académicos argumentaram55, a instabilidade
institucional é uma característica permanente e endémica da Segunda República
- e eventualmente da Terceira - principalmente porque nenhum dos
atores principais foi capaz de impor um desenho institucional coerente. Deste
ponto de vista, não houve nada de novo após a crise económica.
O papel desempenhado por vários poderes de veto e a fluidez dos atores
políticos torna altamente incerto e imprevisível o futuro do sistema político
italiano. O resultado final irá provavelmente depender de alguns dos novos
desafios resultantes da crise da zona euro. O primeiro é a capacidade de os
líderes fazerem face aos principais problemas dos cidadãos e de implementarem
políticas efetivas para solucionar a crise social. O segundo desafio prende-se
com a evolução macroeconómica da zona euro e com as decisões tomadas pelas
principais instituições europeias. Finalmente, os atores sociais também podem
intervir na evolução do sistema político, consolidando ou alterando tendências
anteriores. Grandes expectativas se levantaram em torno das novas gerações de
líderes, empenhadas em inovar a forma como é feita a política. O principal
risco é o crescimento dos sentimentos antissistema, caso estes novos líderes
não consigam regenerar a elite política e implementar reformas essenciais.
Uma última palavra deve ser dita acerca do impacto da crise económica na
evolução do sistema político italiano. Uma análise dos desenvolvimentos a médio
prazo da democracia italiana sugere que as mudanças políticas vividas desde o
surgimento da crise económica são de facto fenómenos complexos que apenas
parcialmente se devem a choques externos. Pelo contrário, este foi o resultado
de uma "tempestade perfeita" que combinou diferentes aspetos,
nomeadamente o crescimento da desconfiança do público face às instituições
políticas, um desempenho económico negativo e os escândalos que afetaram o
primeiro-ministro, o Governo e todo o espectro centro-direita. No que diz
respeito à opinião pública, os dados mostram que a crise agravou as perceções
negativas do sistema político, em particular no que diz respeito ao
funcionamento dos partidos e ao regime democrático. Ainda que, antes da crise,
as atitudes políticas já fossem extremamente negativas em relação ao
funcionamento do sistema político, a degradação da situação económica veio
reforçar esta tendência. Contudo, por outro lado a crise veio revitalizar
certos aspectos da democracia italiana, em especial se olharmos para a
mobilização da sociedade civil - visível, por exemplo, nas elevadas taxas
de participação nos referendos de 2011 e nas primárias dos partidos - e
para a crescente abertura e transparência dos partidos políticos. Tal como
Nietzsche afirmou, "o que não te mata torna-te mais forte". Ainda
que a Itália possa continuar a ser considerada uma democracia
"anormal", continua a haver alguma esperança.
Data de receção: 10 de janeiro de 2015 | Data de aprovação: 25 de março de 2015
NOTAS
1
A fase do consenso corresponde à chamada "Primeira República"
(1948- -1993), enquanto o período maioritário iniciado nas eleições de 1994 se
identifica como "Segunda República". Apesar de a caracterização ser
controversa, neste artigo adotou-se esta designação.
2
Bull, Martin - "The Italian transition that never was". In
Modern Italy. Vol. 17, N.º 1, 2012, PP. 103-118; Pasquino, Gianfranco -
"The 2013 elections and the Italian political system". In Journal
of Modern Italian Studies. Vol. 19, N.º 4, 2014, PP. 424-37.
3
Morlino, Leonardo - "The impossible transition and the unstable
new mix: Italy 1992-2011". In Comparative European Politics. Vol. 11, N.º
3, 2013, PP.337-359; Pasquino, Gianfranco - Finale di partita. Milão:
Egea, 2013.
4
Cotta, Maurizio, e Verzichelli, Luca - Political Institutions in Italy.
Oxford: Oxford University Press, 2007.
5
Bellucci, Paolo, e Segatti, Paolo (eds.) - Votare in Italia: 1968-2008.
Bolonha: Il Mulino, 2011; Musella, Fortunato - Il premier diviso. Tra
presidenzialismo e parlamentarismo. Milão: Università Bocconi editore, 2012.
6
Cotta, Maurizio, e Verzichelli, Luca - Political Institutions in Italy;
Bull, Martin, e Rhodes, Martin - "Introduction - Italy: a
contested polity". In West European Politics. Vol. 30, N.º 4, 2007, PP.
657-669.
7
D'Alimonte, Roberto, e Bartolini, Stefano (eds.) - Maggioritario
finalmente? La transizione elettorale 1994-2001. Bolonha: Il Mulino, 2002;
Pasquino, Gianfranco - "Un'elezione non come le altre".
In Pasquino, Gianfranco (ed.) - Dall'Ulivo al governo Berlusconi.
Bolonha: Il Mulino, 2002, PP. 11-21.
8
Um sistema de representação proporcional com um "bónus por
maioria", que previa assentos parlamentares adicionais na Câmara de
Deputados para a coligação com a maioria dos votos a nível nacional, e assentos
adicionais no Senado para o partido com a maioria dos votos a nível regional.
9
Newell, James - The Italian General Election of 2008: Berlusconi Strikes
Back. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2008.
10
Chiaramonte, Alessandro, e D'Alimonte, Roberto - "The
twilight of the Berlusconi era: local elections and national referendums in
Italy, May and June 2011". In South European Society and Politics. Vol.
17, N.º 2, 2012, PP. 261-279.
11
Marangoni, Francesco - "From fragile majoritarianism to the
"technocratic addendum": some data on the legislative activity of
the governments of the sixteenth legislature". In Contemporary Italian
Politics. Vol. 5, N.º 1, 2013, PP. 71-81.
12
Itanes - Voto Amaro. Disincanto e crisi economica nelle elezioni del
2013. Bolonha: Il Mulino, 2013.
13
Diamanti, Ilvo, Bordignon, Fabio, e Ceccarini, Luigi (eds.) - Un salto
nel voto.Ritratto politico dell'Italia di oggi. Roma- Bari: Laterza,
2013; Garzia, Diego - "The 2013 Italian parliamentary election:
changing things so everything stays the same". In West European Politics.
Vol. 36, N.º 5, 2013, PP. 1095-1105.
14
Bordignon, Fabio, e Ceccherini, Luigi - "Five stars and a cricket:
Beppe Grillo shakes Italian politics". In South European Society and
Politics. Vol. 18, N.º 4, 2013, PP. 427-449.
15
De acordo com uma nálise as mudanças de sentido de voto a nível individual, o
m5s atraiu um apoio substancial do idv (51 por cento dos anteriores votan-tes),
ln (25 por cento), PD (19 por cento), PDL (18 por cento) e UDC (16 por cento).
Ver Bosco, Anna, e Verney, Susannah - "Electoral epidemic: the
political cost of economic crisis in Southern Europe, 2010-11". In South
European Society & Politics. Vol. 17, N.º 2, 2012, PP. 129-154.
16
Resultados eleitorais da Câmara de Deputados (Camera dei Deputati).
17
Bordignon, Fabio - "Matteo Renzi: a "leftist
Berlusconi" for the Italian Democratic Party?". In South European
Society and Politics. Vol. 19, N.º 1, 2014, PP. 1-23.
18
Fusaro, Carlo, e Kreppel, Amie - Politica in Italia. Edizione 2014.
Bolonha: Il Mulino, 2014.
19
Esta reforma reduz o número de senadores e o poder da segunda câmara. Adota
ainda uma eleição indireta dos senadores, que passam a ser eleitos pelos
representantes locais.
20
Ver http://www.sondaggipoliticoelet-torali.it/.
21
Calise, Mauro - "Presidentialization, Italian style". In
Poguntke, Thomas, e Webb, Paul (eds.) -The Presidentialization of
Politics. Oxford: Oxford University Press, 2005, PP. 88-105.
22
Calise, Mauro - Il partito personale. I due corpi del leader. Roma-Bari:
Laterza, 2010; Ignazi, Piero, Bardi, Luciano, e Massari, Oreste -
"Party organisational change in Italy (1991-2006)". In Modern
Italy. Vol. 15, N.º 2, 2010, PP. 197-216; Fabbrini, Sergio - "The
rise and fall of Silvio Berlusconi: personalization of politics and its
limits". In Comparative European Politics. Vol. 11, N.º 2, 2012, PP. 153-
171; Musella, Fortunato - Il premier diviso. Tra presidenzialismo e
parlamentarismo.
23
Baldini, Gianfranco - "The different trajectories of Italian
electoral reforms". In West European Politics. Vol. 34, N.º 3, 2011, PP.
644-663.
24
Chiaramonte, Alessandro - "Dal bipolarismo frammentato al
bipolarismo limitato? Evoluzione del sistema partitico italiano".In
D'Alimonte, Roberto, e Chiaramonte, Alessandro (eds.) -
Proporzionale se vi pare. Bolonha: Il Mulino, 2010, PP. 203-228.
25
Baldini, Gianfranco - "Don't count your chicken before
they're hatched: the 2013 Italian parliamentary and presidential
elections". In South European Society and Politics. Vol. 18, N.º 4, 2013,
PP. 473-497.
26
Itanes - Voto amaro. Disincanto e crisi economica nelle elezioni del
2013. Bolonha: Il Mulino, 2013.
27
D'Alimonte, Roberto, e Chiaramonte, Alessandro (eds.) -
Proporzionale se vi pare. Le elezioni politiche del 2008. Bolonha: Il Mulino,
2010.
28
1) nepe e nepp foram calculados de acordo com a fórmula de Laakso e Taagepera;
2) Para a concentração de votos nos dois principais partidos considerámos os
dois principais partidos da esquerda (pds-ds-pd) e da direita (fi e pdl).
29
Chiaramonte, Alessandro, e Emanuele, Vincenzo - "Bipolarismo
addio? Il sistema partitico tra cambiamento e de-istituzionalizzazione".
In Chiaramonte, Alessandro, e De Sio, Lorenzo (eds.) - Terremoto
elettorale. Le elezioni politiche del 2013. Bolonha: Il Mulino, 2013, PP. 233-
262; Corbetta, P., e Gualmini, E. (eds.) - Il partito di Grillo. Bolonha:
Il Mulino, 2012.
30
Chiaramonte, Alessandro, e Emanuele, Vincenzo - "Bipolarismo
addio? Il sistema partitico tracambiamento e de-istituzionalizzazione".
31
Musell a, Fortunato - "Partiti micro-personali. Organizzazioni di
partito in Italia (1994-2013)". Paper apresentado no xvii congresso da
Società Italiana di Scenza Politica, Florença, 2013; Russo, Federico, Tronconi,
Filippo, e Verzichelli, Luca - "Snipers and switchers. The
difficulties of parliamentary representation in the Italian xvii
legislature". In Polis. Vol. XXVIII, N.º 1, 2014, PP. 85-106.
32
Musella, Fortunato - "Partiti micro-personali. Organizzazioni di
partito in Italia (1994-2013)".
33
Calise, Mauro - Il partito personale.I due corpi del leader; Mcdonnell,
Duncan - "Populist leaders and coterie charisma". In
Political Studies doi: 10.1111/1467-9248.12195, 2015.
34
Bordignon, Fabio, e Ceccherini, Luigi - "Five stars and a cricket:
Beppe Grillo shakes Italian politics".
35
Donovan, Mark - "Berlusconi's impact and legacy: political
parties and the party system". In Modern Italy. Vol. 20, N.º 1, 2015, PP.
11-24.
36
Vaccari, Cristian - "The features, impact and legacy of
Berlusconi's campaigning techniques, language and style". In Modern
Italy. Vol. 20, N.º 1, 2015, PP. 25-39.
37
Bordignon, Fabio - "Matteo Renzi: a "leftist
Berlusconi" for the Italian Democratic Party?".
38
Tarchi, Marco - L'Italia populista. Dal qualunquismo ai girotondi.
Bolonha: Il Mulino, 2003; Chiapponi, Flavio - Il populismo nella
prospettiva della scienza politica.Génova: Mauro Cormagi Editore, 2012.
39
Armingeon, Klaus, e Guthmann, Kai - "Democracy in crisis? The
declining support for national democracy in European countries, 2007-
2011". In European Journal of Political Research. Vol. 53, N.º 3, 2014,
PP. 423-442; Torcal, Mariano - "The decline of political trust in
Spain and Portugal: economic performance or political responsiveness?".
In American Behavioral Scientist. Vol. 58, N.º 12, 2014, PP. 1542-1567.
40
Norris, Pippa - Democratic Deficit. Cambridge: Cambridge University
Press, 2011; Torcal, Mariano - "The decline of political trust in
Spain and Portugal: economic performance or political responsiveness?".
41
Bardi, Luciano - "Anti-party sentiment and party system change in
Italy". In European Journal of Political Research. Vol. 29, N.º 3, 1996,
PP. 345-363; Morlino, Leonardo, e Tarchi, Marco - "The dissatisfied
society: the roots of political change in Italy". In European Journal of
Political Research. Vol. 30, N.º 1, 1996, PP. 41-63; Mete, Vittorio -
"Four types of anti-politics: insights from the Italian case". In
Modern Italy. Vol. 15, N.º 1, PP. 71-81.
42
Campus, Donatella - Antipolitics in Power: Populist Language as a Tool
for Government. Nova York: Hampton Press, 2010.
43
Baldini, Gianfranco - "Don't count your chicken before
they're hatched: the 2013 Italian parliamentary and presidential
elections", PP. 489-490.
44
Memoli, Vincenzo - "La responsiveness". In Morlino,
Leonardo, Piana, Daniela, e Raniolo, Francesco (eds.) - La qualità della
democrazia in Italia. Bolonha: Il Mulino, 2013, PP. 433-449.
45 Percentagem de pessoas que tende a confiar no governo, parlamento ou
partidos políticos. Quanto à satisfação com a democracia, considerámos a
proporção daqueles que se consideram muito ou razoavelmente satisfeitos.
46
Grimaldi, Selena - I presidenti nelle forme di governo. Tra
Costituzione, partiti e carisma. Roma: Carocci, 2012; Grimaldi, Selena -
"The President during the so called Second Republic: from veto player to
first in command?". In Contemporary Italian Politics. Vol. 7, N.º 1,
2015, PP. 76-92.
47
Tebaldi, Mauro - "From notary to ruler: the role of the President
of the Republic during the Italian crisis (2010-14)". In South European
Society and Politics. Vol. 19, N.º 4, 2014, PP. 561-581.
48
Amoretti, Francesco, e Giannone, Diego - "The power of words: the
changing role of the Italian head of state during the Second Republic".
In Modern Italy. Vol. 19, N.º 4, 2014, PP. 439-455.
49
Tebaldi, Mauro - "From notary to ruler: the role of the President
of the Republic during the Italian crisis (2010-14)".
50
Pasquino, Gianfranco - Finale di partita.
51
Zamponi, Luca - "Why don't Italians occupy?'
Hypotheses on a failed mobilisation". In Social Movement Studies. Vol.
11, N.º 3-4, 2012, PP. 416-426; Della Porta, Donatella, e Andretta,
Massimiliano - "Protesting for justice and democracy: Italian
Indignados?". In Contemporary Italian Politics. Vol. 5, N.º 1, 2013, PP.
23-37; Mosca, Lorenzo - "Un anno di movimenti in Italia". In
Di Virgilio, Aldo, e Radaelli, Claudio (eds.) - Politica in Italia.
Edizione 2013. Bolonha: Il Mulino, 2013.
52
Corbetta, P., e Gualmini, Elisabetta (eds.) - Il partito di Grillo;
Bordignon, Fabio, e Ceccarini, Luigi - "Protest and project, leader
and party. Normalisation of the five star movement". In Contemporary
Italian Politics, doi: 10.1080/23248823.2014.881015, 2014.
53
Baldini, Gianfranco - "The different trajectories of Italian
electoral reforms".
54
Bolgherini, Silvia - "Can austerity lead to recentralisation?
Italian local government during the economic crisis". In South European
Society & Politics. Vol. 19, N.º 3, 2014, PP. 193-214.
55
Cotta, Maurizio, e Verzichelli, Luca - Political Institutions in Italy.