Pode a África do Sul celebrar vinte anos de democracia? O impacto das eleições
de 2014 no regime democrático
Realizadas num ambiente predominantemente calmo, as eleições nacionais de maio
de 2014 na África do Sul deram outra "vitória" ao partido no poder,
o Congresso Nacional Africano (anc). Considerando a "libertação
incompleta" da África do Sul, o crescente desrespeito do ANC pelos
eleitores e a manutenção de uma política de favorecimento aos membros do
aparelho partidário, estas eleições, quando analisadas a partir da perspetiva
da apatia dos eleitores, indicam uma possível viragem no panorama político. Dos
mais de 31 milhões de eleitores inscritos, 59,34 por cento votaram enquanto os
restantes 40,66 por cento se mantiveram afastados das urnas. Neste contexto, os
resultados apontam para um fortalecimento da oposição, com a Aliança
Democrática (da) a aumentar os seus resultados de 16 por cento para 22 por
cento e os recém-chegados Combatentes da Liberdade Económica (Economic Freedom
Fighters, eff) a assegurarem 6,4 por cento de votos1.
Segundo a versão oficial, as eleições registaram uma "taxa mais elevada
de participação", com o ANC a assegurar a aprovação da maioriados
votantes. No entanto, uma outra história precisa de ser contada: a dos
"quase 13 milhões (registados ou não) que decidiram não participar nas
eleições de 2014 e que foram esquecidos, enquanto que os 11,5 milhões que
votaram no ANC se tornaram "a população""2. De um ponto de
vista analítico, a maior apatia dos eleitores combinada com um maior apoio à
oposição indicia uma lenta erosão da legitimidade do ANC enquanto único partido
de opção dos sul-africanos que vivenciaram o apartheid.
Adicionalmente, o apoio à da e aos eff confirma a atual divisão na sociedade
sul-africana3. Considerando estes desenvolvimentos, bem como a crescente
agitação na sociedade civil por parte de sul-africanos que questionam o acordo
negociado de 1994, o resultado das eleições reflete uma nova trajetória na
linguagem política que surgiu para dar resposta a estes desafios. De acordo com
Richard Poplak, "o facto de sermos cidadãos unidos pela expressão
democrática não parece ter grande significado. Para os homens na linha de fogo,
os únicos boletins de voto que importam são os que não foram contados"4.
As vozes por detrás destes boletins não contados irão certamente transformar o
panorama político a partir de 2014.
É então neste cenário de boletins não colocados e não contados, de divisão e
desilusão, que as eleições de 2014 têm de ser analisadas. Muitos estudiosos e
comentadores celebram e enaltecem regularmente a transição sul-africana do
apartheidpara a democracia. Ao mesmo tempo, o acordo constitucional do período
1990-1996 é habitualmente saudado como o triunfo da "nação arco-
íris". No entanto, existe uma crescente corrente de esquerda que
questiona tanto este acordo como o próprio conceito de "nação arco-
íris". Para estes académicos africanos, este conceito é demonstrativo da
falácia que continua a perpetuar o mito da "celebração" dos vinte
anos de democracia. Os académicos críticos desta terminologia e da forma como é
utilizada para apoiar as narrativas hegemónicas são extremamente rigorosos
acerca dos significados contidos na metáfora de uma nação arco-íris. Existe uma
"fantasia de inclusão na nação arco-íris"5 que visa promover a
ideia de uma transição harmoniosa e de uma reconciliação na África do Sul, e
que conduziu à transferência democrática do poder político do regime do
apartheidpara o ANC.
Na verdade, esta metáfora apenas reflete a situação realda África do Sul se
entendermos a sátira por detrás da descrição. Cientificamente falando, o arco-
íris na sua essência exclui a cor "negra" e é formado a partir da
refração da luz branca. Consequentemente, a luz branca é indispensável à
ocorrência do fenómeno. Esta metáfora é demonstrativa da linguagem colonial
imperial que procurou explicar o domínio branco sobre os povos negros. A
superioridade dos povos brancos europeus e da sua religião foi durante muito
tempo apontada como uma razão "legítima" e como justificação da
escravatura e do colonialismo. Para que as pessoas de cor se tornassem
"civilizadas" precisavam de ser "salvas" pelos seus
senhores brancos6. Desta forma, os sul-africanos negros deveriam submeter-se
aos seus "senhores brancos civilizados" (como se tornou evidente na
"rendição" do poder económico e na repatriação territorial) que os
iriam "ajudar" a governar e a "ser livres". Governação
e liberdade, por outras palavras, não podem ser alcançadas pelo homem negro sem
o consentimento e a orientação do colonizador - o homem branco.
A transição pós-1994 deve ser entendida no seu contexto histórico, em que o
processo de transição pode ter sido democrático mas o resultado do processo que
levou à negociação do acordo esteve longe de o ser. Alguns poderão estar a
celebrar os vinte anos da democracia no país, mas a maioria dos sul-africanos
negros que ainda estão excluídos do poder económico e que ainda assistem de
perto aos efeitos das estruturas do apartheidno seu dia a dia devido a um
legado de injustiça histórica, social e económica - esses têm muito pouco
para celebrar. À luz do acima exposto, a análise das eleições de 2014 na África
do Sul deve ser feita tendo em conta o contexto e o impacto da "transição
da África do Sul para a democracia", que por seu lado está associada ao
acordo negociado de dezembro de 1991 na Convenção para uma África do Sul
Democrática (Codesa). O compromisso assumido na Codesa resultou em injustiças
que ainda hoje se fazem sentir no panorama eleitoral da África do Sul.
DO APARTHEID À [DES]IGUALDADE?
De acordo com Ramose, dois temas dominantes desempenharam um papel nas
negociações da nova África do Sul: a descolonização e a democratização7. O
paradigma da descolonização representa a "restauração do direito ao
território e da soberania sobre ele": a soberania devolveria a terra aos
seus legítimos donos, permitindo a sucessão do Estado e a implementação da
doutrina de Nyere8. Neste sentido, o povo colonizado sul-africano teria o
direito de reclamar compensações, já que o paradigma não contempla ou aborda a
noção de "prescrição extintiva"9. A prescrição extintiva refere-se
à doutrina legal pela qual um direito ou reivindicação se extingue por lapso
temporal10. De acordo com o paradigma da democratização, a democracia na África
do Sul seria alcançada simplesmente através da inclusão dos povos indígenas na
nova constituição. Como resultado disso, não faria sentido pensar em
reivindicações de compensação, reparação ou "direito ao território e à
soberania" por causa do princípio da prescrição extintiva11. Neste
sentido, o acordo negociado consolidou a vitória do paradigma da
democratização, que enraizou os privilégios brancos e protegeu os benefícios
adquiridos pelos colonizadores através do seu controlo opressivo dos recursos
africanos e da dominação e subjugação dos povos africanos. Tal compromisso
excluiu qualquer acordo substancial a respeito da questão das terras e
contrariou o processo democrático que tinha sido iniciado, tornando-o, em
última instância, num acordo entre elites. Como resultado, muitos sul-africanos
começaram a questionar-se sobre a natureza da democracia sul-africana pós-1994,
o que se faz sentir diariamente no ressurgimento de can-ções de luta, nos
protestos a nível local e nos pequenos clubes de leitura onde intelectuais
africanos consolidam os seus conhecimentos e recuperam as ideias de ativistas
da libertação africana como Anton Lembede, Robert Sobukwe, Franz Fanon e Steve
Biko.
Tal como as interações humanas, os preceitos legais e a esfera política da
primeira fase de transição pós-1994 parecem estar aprisionados num
funcionamento mecânico. Consequentemente, ainda vigora a ideia de separação
entre as pessoas e os espaços que habitam, entre humanos e natureza e entre a
lei e a esfera social, o que reforça a noção de apartheid- ou separação
- em todos os aspetos do dia a dia. Este conceito de separação funciona
como um obstáculo a uma transformação real e uma democratização substantiva. A
persistência da separação no panorama pós-1994 também é visível na economia
espacial sul-africana, com as metrópoles a continuarem divididas e segregadas
vinte anos após a dita transição democrática, aprofundando as desigualdades
intraurbanas12. O espaço é assim perspetivado de forma segregada. Lefebvre
descreve este fenómeno referindo-se aos guetos e bairros que foram
deliberadamente construídos para grupos marginalizados, e focalizando nos
processos de mercado que contribuem para as "divisões sociais e
polarização espacial dentro das cidades"13. Estes guetos e bairros não
foram melhorados de forma substancial desde 1994 e muitas das infraestruturas
de desenvolvimento adotadas estão voltadas para a melhoria de áreas que já
servem os privilegiados.
A base desta divisão foi a cláusula constitucional que protegeu a propriedade
privada14, consolidando privilégios e aprofundando desigualdades. Neste
contexto, registou-se um aumento e ressurgimento de movimentos sociais na
África do Sul que pretendem trazer à discussão temas e exigências que não
constam do "discurso político hegemónico"15. Madlingozi define
movimentos sociais como "conjuntos de atores marginalizados que
desenvolvem uma identidade coletiva; que defendem objetivos orientados para a
mudança; que possuem algum grau de organização; e que participam em ações
coletivas extrainstitucionais sustentadas, ainda que pontuais". Estes
movimentos começaram a levar a cabo protestos espontâneos desorganizados que
culminaram com a "rebelião dos pobres". Estima-se que sejam mais de
10 mil por ano os protestos na África do Sul16.
O despertar do ativismo dos movimentos sociais é atribuído à falta de
democracia realao nível governamental, devido à influência de partidos
políticos como o ANC que procuram controlar e dominar as nomeações para os
comités eleitos que são responsáveis pelas estruturas de governação local e
pelas iniciativas políticas17. Neste sentido, os movimentos sociais pós-
apartheidenfrentam enormes dificuldades em aceder a um governo indiferente e
inacessível, empenhado em "estratégias dominantes de exclusão e
marginalização"18. Como resposta a esta marginalização e exclusão, o
movimento Abahlali baseMjondolo, constituído por habitantes de bairros de lata,
pediu aos seus membros que depositassem um "voto tático" na da para
exprimir a sua insatisfação com o ANC19. A campanha "Vota Não",
iniciada pelo antigo ministro da Segurança Ronnie Kasrils, pediu aos sul-
africanos que ou votassem em partidos pequenos ou anulassem os seus boletins de
voto para recordar ao ANC que este perdera a legitimidade moral e que os
eleitores esperavam que regressasse aos seus princípios fundadores e aos
valores da libertação20. Estas ações refletem uma preocupação crescente com o
estado do governo e da governação na África do Sul por parte dos sul-africanos
que foram excluídos do processo democrático e que estão agora a encontrar
formas de desafiar o equilíbrio existente. Apesar de o ANC ter assegurado uma
vitória de 62 por cento nas urnas, o facto de cerca de 13 milhões de eleitores
válidos não terem votado e de o ANC ter visto uma redução drástica da sua base
de apoio em Gauteng - de 69 por cento em 2009 para 53 por cento em 2014
- indica que a esquerda está em tumulto21.
O DESAFIO AOS DISCURSOS POLÍTICOS HEGEMÓNICOS
A resposta do governo do ANC a estes desafios foi inicialmente caracterizada
pela arrogância. No entanto, face à ameaça dos eff, que encontraram um lugar
entre os eleitores à esquerda do ANC, questões relativas a transformação
radical, descolonização e libertação que surgiram nos debates políticos através
dos sloganse das campanhas dos eff são agora repetidas pelos porta-vozes do
ANC. Particularmente importante desde maio de 2014 é a linguagem utilizada, que
começou a refletir uma maior preocupação com as políticas de esquerda. O ANC
está a articular temas que sabe serem do interesse destes eleitores. Se
considerados no contexto de uma crescente marginalização do ANC pelos jovens
africanos e por aqueles que se desiludiram com a relutância do ANC em os
"ouvir", estes temas são significativos e relacionam-se com a
exigência de uma soberania africana. Nas últimas semanas, tanto o Presidente
Zuma como o ministro do Ensino Superior Blade Nzimande trouxeram à discussão a
necessidade de transformar a educação superior, focando-a na produção de
licenciados conscientes da sua história, do seu país e do impacto que este
conhecimento pode ter tanto no presente como no futuro22. As referências à
história e os apelos a todos os sul-africanos para que recusem o saneamento das
realidades históricas de injustiça, opressão e subjugação são cruciais para uma
compreensão de como os verdadeiros valores democráticos podem ser alcançados na
África do Sul. Em The History Manifestode Jo Guldi e David Armitage, o papel
dos académicos na cultura pública foi destacado23. Este papel foi reiterado por
Nzimande, que falou sobre a responsabilidade das universidades no
"equilíbrio entre autonomia institucional e responsabilidade
pública"24.
Guldi e Armitage fazem ainda referência a um "momento de crise crescente
caracterizado pela escassez de pensamento a longo prazo"25. Isto refere-
se ao uso político frequente de referências "de curto-prazo" à
civilização e à história, que não contemplam aquela dimensão das crises que é
possível alcançar através de um estudo mais aprofundado da história -
"a história de longa ou mesmo muito longa duração"26. Por
conseguinte, é importante pen-sar no passado para perspetivar o futuro. Para
aqueles que na África do Sul beneficiaram da situação política do passado, este
relembrar invoca receios, uma vez que em última instância remete para um
reajustamento económico e social. Este medo traduz-se em comentários sobre a
"elite negrapredatória", que é acusada de revelar "tendências
profundamente sinistras" e de defender "um clima de ressentimento
crescente face a um dos recursos mais preciosos do país - as nossas
melhores universidades"27. Estes sentimentos ganham força, exaltando a
retórica de um ataque africano aos valores liberais e levantando questões sobre
o repatriamento territorial e a necessidade de fazer face aos níveis críticos
de pobreza, exacerbados pela "concentração de monopólios privados"
e pela subjugação da economia sul-africana à "cadeia global de valor
imperialista"28.
Numa linguagem simples, os meios de comunicação social e a classe capitalista
interpretam estas reivindicações como uma desgraça para a África do Sul. Estes
medos traduzem-se em ameaças de fuga de investimentos e de capital estrangeiro.
Pouca cobertura tem sido dada ao facto de o setor mineiro na África do Sul ter
permanecido praticamente inalterado, uma vez que a extração de recursos
minerais ainda se baseia em práticas laborais do tempo do apartheid. Ao mesmo
tempo, o setor mineiro teve o pior desempenho em termos de igualdade laboral. O
massacre de Marikana e as exigências dos mineiros fizeram sobressair estes
temas. Uma vez que a propriedade pública dos recursos é norma nos estados não
influenciados pelo modelo anglo-saxónico, a discussão sobre a nacionalização
dos recursos nacionais da África do Sul não deveria suscitar frenesim. No
entanto, dado que na sua maioria os recursos sul-africanos são controlados
pelos antigos colonizadores - predominantemente anglo-saxónicos29 -
os protestos podem ser entendidos à luz de uma tentativa desesperada de
manutenção do statu quoda era apartheid. O debate sobre a nacionalização surge
regularmente, e com os eff a seguirem esta mesma agenda é possível que a
maioria governamental liderada pelo ANC seja, no futuro, mais rigorosa na
regulação das concessões de licenças de extração de minério. De acordo com o
ministro do Recursos Minerais Ngoako Ramatlhodi, os sul-africanos têm a
"missão e responsabilidade coletivas" de reconhecer as injustiças
do passado, tendo sido por isso necessário implementar medidas que visam
corrigir essas injustiças. Entre essas medidas está o reconhecimento de que a
exploração de minério na África do Sul deve beneficiar a maioria dos sul-
africanos30.
Esta referência à necessidade de os cidadãos estarem cientes da história da
África do Sul - uma lembrança ou retorno à indigeneidade e mundividência
africanas, uma reevocação do espírito do Ubuntu enquanto princípio central na
aprendizagem e no entendimento de todos os sul-africanos - pode ser
considerado um desafio aos liberais e àqueles que se agarram aos benefícios
adquiridos durante o apartheid. Tanto Zuma como Nzimande foram fortemente
criticados pelos liberais e pela da, que os acusaram de colocar em risco a
liberdade académica nas universidades31. A linguagem política pós-maio de 2014
é indicadora de uma mudança no panorama democrático sul-africano.
Além disso, o comentário de Zuma de que as universidades devem ser plurais na
sua educação, ideias e agenda de transformação e não "conformistas e
defensoras da manutenção do status quo" - em que liberdade
académica significava "libertação do jugo ideológico de qualquer classe
social. As universidades não podem ser instituições que existem meramente para
legitimar as visões de "um grupo sobre outro" - parecia
ameaçar aqueles que sempre beneficiaram da produção de narrativas e discursos
que favoreciam as visões supremacista e hegemónica, ao mesmo tempo que
perpetuavam a noção de inferioridade africana a nível epistemológico, cultural
ou de crenças32. O facto de Zuma se ter referido ao monopólio na educação por
parte de grupos específicos que mantiveram um controlo ideológico sobre o
conhecimento e a informação é fundamental para a compreensão dos
desenvolvimentos que se têm verificado desde maio de 2014. No contexto sul-
africano, o papel das universidades não pode ser subestimado no momento de
analisar a cultura política e o comportamento dos eleitores. Durante os anos do
apartheid, as universidades, especialmente as do meio afrikaans, colaboraram
intensamente com o regime - que por sua vez influenciou o funcionamento
das universidades e a cultura académica - e produziram investigação que
procurava de diversas formas manter o statu quodo apartheid. A este nível, as
universidades atuaram ao serviço do Governo33. Sem uma transformação radical
que inclua a descolonização e libertação das universidades sul-africanas, num
enquadramento semelhante ao do adotado pela Alemanha que encetou no pós-guerra
uma "política de desnazificação" das suas instituições de ensino
superior, a África do Sul vai continuar a promover a identidade neocolonial que
a torna um defensor dos valores eurocêntricos em vez de um promotor do espírito
africano indígena, do seu intelecto, valores, identidade, cultura e
filosofia34.
Portanto, apesar da conclusão da primeira fase da transição da África do Sul,
que se focou nos planos jurídico e político, as leis e direitos humanos que
deveriam promover de forma vigorosa a mudança social e fazer face às injustiças
resultantes do apartheid têm na verdade revelado uma insuficiente capacidade de
produzir mudanças reais. Durante o apartheid, a lei era conivente com a
perpetuação violenta da ordem social, política e económica35. Este conflito
transparece na divisão material que ainda hoje existe entre o privilégio dos
brancos e as desvantagens causadas pelo apartheid. Os sul-africanos brancos que
disfrutaram de séculos de privilégio, apesar de estarem dispostos a abdicar do
poder político, continuam a manifestar receio face a concessões no que diz
respeito à sua propriedade e à riqueza acumulada. Este medo é evidente no
enorme distanciamento que ainda existe entre privilégios materiais e
desvantagem. Os indivíduos que beneficiaram de privilégios, ainda que
encorajados pela mudança política, procuraram limitar o "custo
transacional" da transformação política e social para níveis que
exigissem poucos sacrifícios, procurando dessa forma estabilidade e
continuidade36. Deste ponto de vista, a maioria dos votos é dada à da, ainda
apelativa para as minorias raciais. No entanto, esta mesma da tem conseguido
elevar o seu teto racial, e nas eleições de 2014 aproximadamente um quarto dos
seus votos veio de eleitores negros. Porém, Southall reconhece que o perfil
socioeconómico destes votantes continua a ser um mistério37.
Em contraste, os sul-africanos negros que tiveram de lidar com remoções
forçadas, restrições de movimento e constrangimentos à atividade económica que
reduziram a maioria à privação de alojamento e à pobreza têm-se mostrado
preocupados com a "descontinuidade e mudança"38. Estes temas foram
retomados pelos eff no seu manifesto eleitoral e na sua interação diária com a
elite dominante, tanto através de debates parlamentares como através de
intervenções externas que desafiam os discursos neocolonialistas e capitalistas
e as políticas governativas da maioria encabeçada pelo ANC. Para os recém-
chegados e seus eleitores, a justiça social e económica é a chave para qualquer
"reivindicação e realização" democráticas. O apelo dos eff à
juventude negra, aos desempregados e aos intelectuais e ativistas negros
assegurou-lhes 6,4 por cento dos votos. Isto traduziu-se em 25 deputados, no
"estatuto de oposição oficial no Limpopo e no Noroeste, e um total de 30
representantes nas legislaturas provinciais"39. Considerando que os eff
tiveram menos de oito meses de campanha, vários constrangimentos orçamentais e
um bloqueio concertado por parte dos meios de comunicação social, especialmente
da estação pública - a sabc - que intencionalmente não cobriu as
reuniões dos eff, as declarações do seu manifesto e a sua campanha, o sucesso
dos eff nas urnas é indicativo da nova realidade no terreno.
A ameaça eleitoral dos eff forçou o ANC a responder a complicadas questões
sociais como a água e a assistência médica. Na sua resposta ao Debate de
Votação do Orçamento Presidencial, Zuma afirmou que o Governo iria iniciar a
requalificação do Hospital Siloam em Vhembe, como resposta à reclamação dos eff
de que a maioria liderada pelo ANC tinha faltado à sua promessa de melhorar a
prestação de serviços às populações carenciadas destas comunidades. Neste
comunicado, Zuma também se referiu ao Livro Verde sobre a Reforma Fundiária e
ao Novo Sistema de Propriedade Fundiária, que visa regular a posse de terras
por parte de cidadãos estrangeiros40. No entanto, os eff rejeitaram a Lei de
Alterações relativa à Restituição de Direitos Territoriais, promulgada a 30 de
junho de 2014. De acordo com os eff, a colonização e o apartheidforam crimes
contra a humanidade e compactuar com o princípio do "vendedor volun-
tário/comprador voluntário" beneficia os que perpetraram estes crimes,
recompensando-os financeiramente por terras que foram roubadas de forma
violenta41.
Tendo em conta a luta entre estes valores rivais, a necessidade de reconhecer a
igualdade de todos os seres humanos e
"o entendimento africano Ubuntu de justiça enquanto equilíbrio
e harmonia", uma democracia substantiva no contexto sul-
africano "requer a restauração da justiça através da inversão
das consequências desumanizantes da conquista colonial e através da
eliminação do racismo"42.
Deste ponto de vista, só quando este objetivo for atingido poderá o processo
democrático iniciar-se.
A POLÍTICA EXTERNA DA ÁFRICA DO SUL DEPOIS DE MAIO DE 2014
A política externa da África do Sul é coerente e norteada por cinco princípios.
Estes incluem: democracia e respeito pelos direitos humanos; África e o impulso
africanista; uma abordagem pacífica à resolução de conflitos; multilateralismo;
e, finalmente, um entendimento holístico do conceito de segurança43. Estes
princípios surgem como a continuação da visão de política externa iniciada por
Mbeki, que procurou afirmar a África do Sul enquanto voz no continente
africano44. Mbeki tinha fortes opiniões anti-imperialistas e estava empenhado
numa agenda africana45. Para apoiar a visão de Mbeki, o Quadro Estratégico de
Médio Prazo de agosto de 2009 reafirmou o empenho da África do Sul no
desenvolvimento africano e no fortalecimento da cooperação entre os estados
africanos46. Como resultado, a definição do interesse nacional da África do Sul
foi articulada em 2009 pelo Departamento de Relações Internacionais e
Cooperação (dirco) num documento sobre a política externa que incluía
interesses fundamentais "que são inalienáveis, e cujo cumprimento e
proteção são absolutamente vitais"47.
Considerando estes princípios da sua política externa e o facto de Maite
Nkoana-Mashabe ter sido mantido como ministro do dirco depois das eleições de
maio de 2014, pode afirmar-se que a África do Sul vai manter a coerência na sua
abordagem política externa. O país tem-se mostrado resistente à "mudança
de regime" debaixo de uma aparência de implementação de democracia, o que
é visível na sua reação discreta aos eventos que se desenrolam na Ucrânia. No
entanto, a aliança da África do Sul com os brics resultou na adoção de posições
ambíguas face a estes países. O estatuto de potência suave detido pela África
do Sul teria tido mais impacto se esta tivesse incentivado os "parceiros
a respeitar os processos e princípios internacionais"48. Neste contexto,
os atrasos na emissão de visto ao Dalai Lama para que este pudesse participar
na Cimeira dos Laureados Nobel na Cidade do Cabo resultou numa retirada do
pedido do Dalai Lama e no cancelamento da cimeira devido à desistência dos
outros participantes, que assim protestaram contra a atitude da África do Sul.
Esta foi criticada pela oposição da da, que acusou o Governo de dar prioridade
às exigências da China em detrimento do respeito pelos direitos humanos49.
Em Ubuntu Diplomacy in Action (2013), publicado pelo dirco, Anil Sooklal,
embaixador sul-africano e diretor-geral-adjunto para a Ásia e Médio Oriente,
escreve que a política externa do século xxi está em processo de evolução e
está a ser usada pelos estados para alcançar os seus interesses. Os interesses
nacionais são diversos e podem ser alcançados por várias vias, incluindo fóruns
multilaterais e plurilaterais e também contratos bilaterais. Para os estados,
mobilizar simultaneamente estas diferentes opções não é uma contradição; os
académicos descrevem-nas como "diplomacia de clube" e
"minilaterais". A lógica da participação em tais fóruns é a de
fortalecer coligações e desenvolver parcerias e colaborações estratégicas.
De igual modo, os governos podem e devem diversificar as suas políticas
externas de acordo com as circunstâncias50. Para o ministro do dirc Maite
Nkoana-Mashabane, "a ordem mundial emergente resultará da forma como as
potências globais do Sul irão afirmar o seu papel recém-assumido, e de como se
irão equilibrar com as potências tradicionais"51. Por conseguinte, os
acordos internacionais não são necessariamente alcançados apenas por estados
com sistemas políticos similares; os sistemas económicos e as características
culturais também facilitam tais acordos52.
Considerando os imperativos morais da África do Sul, um dos principais
interesses nacionais tem sido a luta contra o racismo e contra o preconceito
racial, tanto a nível doméstico como internacionalmente. O então ministro-
adjunto do dirco Ebrahim Ebrahim afirmou numa comunicação à Câmara do Senado da
Universidade de Kwazulu Natal (ukzn) Westville, em 19 de março de 2014, que:
"A luta contra o racismo e outras formas de discriminação está
longe de terminar e o empenho da África do Sul em combater o racismo
e promover os direitos humanos continuará forte… [E] que a melhor
forma de honrar o legado de Madiba é honrar os resultados da Cimeira
de Durban e da sua conferência de revisão"53.
Ebrahim afirmou ainda que a Declaração e Plano de Atividades de Durban (ddpa)
tinha sido desenvolvida para reafirmar os "princípios de igualdade e não-
discriminação enquanto direitos humanos fundamentais, com o objetivo de
transformar as vítimas de discriminação em portadores de direitos e os estados
em cumpridores de deveres"54. Isto é particularmente importante para
Ebrahim porque os Estados Unidos e os seus aliados têm tentado constantemente
diluir a declaração para tentar proteger Israel e as suas políticas
discriminatórias. Ebrahim também confirmou que a África do Sul teve muitos
diferendos com os Estados Unidos e que a África do Sul era independente nas
suas escolhas em matéria de política externa55.
Tendo isto em conta, várias organizações e relatórios declararam que muitas das
políticas de Israel contra os palestinianos são racistas e têm o intuito de
manter a dominação e subjugação do povo palestiniano56. Considerando
simultaneamente os comentários de Ebrahim e uma declaração assinada pelos
membros do Governo sul-africano que se refere a Israel como um Estado de
apartheid, a política externa da África do Sul relativamente a Israel e à
questão da Palestina engloba as dimensões de raça e preconceito racial. Neste
sentido, a maioria governamental liderada pelo ANC sempre defendeu a causa
palestiniana, criticando severamente a ocupação beligerante da Palestina por
parte de Israel. Em setembro de 2014, o secretário-geral do ANC Gwede Mantashe
exortou os membros do ANC nos ministérios, no Parlamento e outros funcionários
governamentais a juntarem-se a um boicote académico, cultural, educativo e de
turismo a Israel em solidariedade com o povo da Palestina57.
A África do Sul tem sido coerente na ideia de que as soluções militares não
garantem a paz. Em linha com a visão da União Africana, tem adotado uma
abordagem dura face ao respeito pela integridade territorial e pela soberania,
e neste sentido opôs-se à interferência do Ocidente na Síria e criticou a nato
por exceder as suas funções na Líbia, o que resultou no caos que se verifica
atualmente. O Comité Executivo Nacional do ANC apoiou a iniciativa do Governo
de mediar os processos de paz no Lesoto, Sudão do Sul e Sri Lanka recorrendo a
enviados especiais58. Estas iniciativas refletem o atual compromisso sul-
africano para com a resolução de conflitos pela via diplomática, pelo diálogo e
pelos mecanismos de construção da paz, em detrimento do recurso a meios
militares. O compromisso da África do Sul para com a solidariedade
internacional foi reafirmado em setembro de 2014 com o mais recente pacote de
acordos entre a África do Sul e Cuba, destinados a incrementar o comércio e a
assistência económica entre os dois países. A política externa da África do Sul
tem sido marcada pela história do ANC enquanto movimento de libertação que
previa a construção de um movimento solidário dinâmico de forças progressistas
em países como o Vietname, Cuba, Chile, Espanha e os territórios palestinianos
que ainda hoje beneficiam de apoio.
Em última instância, deve ressalvar-se que a África do Sul está alerta para a
existência de uma dualidade de critérios na aplicação e promoção dos direitos
humanos por parte dos estados ocidentais dominantes, que esperam que a África
do Sul se submeta às resoluções que eles próprios definem. A política externa
da África do Sul é intuitiva, expressiva, flexível e evolutiva e está ciente
dos desafios que enfrenta face à organização histórica do poder no sistema
internacional. Porém, ao mesmo tempo, é suficientemente progressista para saber
que não é do interesse de África nem dos africanos deixar que tal dominação
permaneça incólume.
CONCLUSÃO
A África do Sul atual está plenamente consciente de que os motivos dos estados
e das agências internacionais vão desde decisões baseadas em princípios até
medidas unicamente instrumentais. Para determinar a sua política externa, a
África do Sul indicou que também vai usar estas variantes dependendo da
situação, do contexto e do Estado envolvido. Isto não significa o abandono
total do seu compromisso para com os direitos humanos; porém, aceitar o
conceito pró-ocidental de promoção dos direitos humanos e da democracia como
única via é, no entendimento da África do Sul, um pressuposto falacioso.
No contexto interno, a ideia de "celebrar vinte anos de democracia"
é seguramente controversa, e as vozes daqueles que carregam estas dúvidas
raramente são tidas em conta. Estes descontentamentos e agitações manifestam-se
num aumento de protestos por parte de movimentos sociais que é evidente na
África do Sul atual, bem como nos níveis significativos de apatia eleitoral que
marcaram as eleições de 2014. A entrada dos eff no panorama político e o seu
apelo aos votantes de esquerda, que constituíam o reduto tradicional e os
eleitores de base do ANC, é um foco de preocupação para este partido. Se os eff
conseguirem aproveitar a oportunidade, refinar a sua retórica, superar os
esforços da direita que visam "infantilizar" as suas propostas, e
se fizerem campanhas consistentes nas zonas rurais da África do Sul onde muitos
jovens desempregados negros se mostram descontentes com o materialismo crasso
do ANC e com os escândalos de corrupção, os eff podem desafiar de forma
significativa o ANC nas eleições locais de 2016 e erodir progressivamente as
bases de apoio deste. Isto irá contribuir certamente para um novo cenário do
poder político e da contestação na África do Sul, um país que ainda tem de
encontrar a sua liberdade e estabelecer a sua democracia - a democracia
que dá valor igual a todos e que cria oportunidades iguais de acesso ao
desenvolvimento como forma de liberdade. Quando a África do Sul se conseguir
desenredar do compromisso negociado na codesa, que permitiu ao ANC consolidar o
poder político ao mesmo tempo que deixava o poder económico intocado, então, e
só então, poderá o processo democrático começar para a maioria dos africanos
que veem democracia e justiça como inseparáveis.
Data de receção: 7 de outubro de 2014 | Data de aprovação: 3 de dezembro de
2014
NOTAS
1
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2
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4
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9
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11
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12
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13
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right to the city", Nova Iorque: Routledge, 2012, p. 144.
14
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15
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Court of South Africa", 2013
16
Ibidem.
17
Ibidem.
18
Ibidem.
19
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DHN_July_25_2014&utm_medium=email&utm_term=0_a86f25db99-3da43dc001-
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6_30_2014&utm_medium=email&utm_term=0_a86f25db99-65a1f955fc-130087741
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51
Ibidem
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Slaughter's liberal theory>> In EJIL, Vol. 12, 2001.
53
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KwaZulu Natal, 19 março 2014"", In DIRCO [consultado a: 28 de março
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54
Ibidem.
55
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www.iol.co.za/dailynews/news/deputy-minister-slams-un-as-antiquated-
body1.1664276#.UzAG-_na6m4
56
Ver as Conclusões do Comité para a Eliminação da Discriminação Racial em
relação a Israel em http://www2.ohchr.org/english/bodies/cerd/docs/
CERD.C.ISR.CO.14-16.pdf e o relatório de John Dugard, Relator Especial sobre a
situação dos direitos humanos nos territórios palestinianos ocupados desde
1967, em: http://daccess-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/G07/105/44/PDF/
G0710544.pdf?OpenElement
57
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Disponível em: http://www.bdsmovement.net/2014/anc-joins-call-for-complete-
boycott-of-israel-including-travel-bans-in-solidarity-with-
palestine12709#sthash.ERKrbMGO.dpuf
58
Ibidem.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt