A miséria da demonologia empírica
ENSAIO BIBLIOGRÁFICO
A miséria da demonologia empírica
René Pélissier
Historiador. Autor de Les campagnes coloniales du Portugal, 1844-1941(2004) e,
com Douglas L. Wheeler, História de Angola(tinta da China, 2009).
Existe em francês uma expressão ("o Diabo está nos detalhes") que
certos políticos e diplomatas utilizam, seja para complicar uma situação já
embrulhada, seja para se desculparem, a posteriori, por não terem sabido
detetar o grão de areia que emperrou a sua análise. Existirá em português o
equivalente desta fórmula diabólica? Uma crónica bibliográfica, mesmo modesta,
deve revelar uma surpresa ou, pelo menos, fazer uma incursão no inesperado e no
imprevisível. Felizmente para nós, a história colonial e pós-colonial de
Portugal é suficientemente rica em singularidades para alimentar um ou dois
leitores de vocação exorcista. Podemos jurar que no estudo de história
diplomática de Maria José Tiscar Santiago, Diplomacia peninsular e operações
secretas na Guerra Colonial1, não encontrámos o Diabo em pessoa. Apenas alguns
diabretes operaçõesexóticos. O trabalho é extraído da sua tese de doutoramento
realizada em Espanha, uma obra impressionante e original. Apoia-se sobretudo
nos arquivos e apenas acessoriamente em estudos anteriores. Se pouca
documentação séria existe acerca da estreita colaboração entre Espanha e
Portugal em certos países africanos, ainda menos existirá sobre a posição da
Igreja espanhola na descolonização da Guiné Equatorial, e absolutamente nada
acerca dos despachos do consulado português em Santa Isabel de Fernando Pó e o
envio, em abril e maio de 1968, por Lisboa, de um diplomata para estudar na
ilha a situação política, em vésperas da independência do país.
Para um Franco Nogueira, que a autora considera intimamente antiespanhol, a
descolonização suave conduzida pelo Ministério de Assuntos Exteriores de Madrid
cheirava a heresia e, portanto, a enxofre. No entanto, conhecia-se o apoio
ativo ou passivo dado por Madrid às teses defendidas por Portugal nas Nações
Unidas, mas foi preciso esperar por este estudo para se saber o que se passava
concretamente nas chancelarias no Egito (pouca coisa) e na Tunísia, que apoiava
a UPA/FNLA (muitos detalhes, alguns bastante menores). Tiscar Santiago revela-
se fundamental quando trata das operações secretas no Zaire/rdc (pp. 279-359) e
no Congo-Brazzaville (pp. 361-434). Dois locais de informação e manipulação dos
nacionalistas, encerrados, respetivamente, em 1966 e 1963, e cuja representação
passou a ser feita sob a cobertura das duas embaixadas espanholas. A autora
estima que Portugal ajudasse mais do que a França e a Bélgica os seus
protegidos respetivos, Fulbert Youlou e Moïse Tshombé. Não será de somenos
importância conhecer as redes da PIDE/DGS no Zaire e a sua eficácia, graças ao
apoio obtido nas sociedades e nos colonos portugueses no terreno. Este livro
recomenda-se.
Já que estamos na periferia do oculto, peguemos na recolha de contribuições
organizada por Maria Paula Meneses e Bruno Sena Martins2 e prefaciada por
Boaventura Sousa Santos. Para um observador estrangeiro e longínquo, como nós,
simples consumidor de livros consagrados à colonização/descolonização de
Lisboa, é ligeiramente surpreendente ler que em Portugal haverá uma cortina de
chumbo, uma zona de interditos ou de não-ditos em torno destas vísceras
escondidas da História nacional. Talvez seja verdade nas esferas do poder e da
opinião pública, em geral, mas não junto dos impressores e dos editores. A
julgar pelas dezenas, senão mesmo centenas, de títulos novos publicados todos
os anos desde há pelo menos duas décadas, os problemas que abordam não passam
despercebidos.
Vender-se-ão bem? Aí está a questão, mas quer se trate da guerra colonial, das
recordações dos retornados/refugiados[em português no original, N. da T.], dos
antigos combatentes, das guerras civis em Angola, em Moçambique, na Guiné-
Bissau, das oportunidades económicas oferecidas, dos segredos revelados sobre
tal ou tal aspeto, da ficção ou mesmo da poesia, pensávamos que este antigo
Ultramar[em português no original, N. da T.] nunca estivera tão presente na
consciência nacional. Aparentemente, enganámo-nos, se bem compreendemos as
páginas publicadas em Coimbra. Lemos textos que não escondem qualquer demónio;
se há diabretes, foram desmascarados e tornaram-se inofensivos. São temas
amplamente tratados em estudos ou livros anteriores, como as alianças no papel
e no terreno entre Portugal, a Rodésia e a África do Sul, as tropas africanas,
os problemas dos retornados, etc. Esta recolha servirá de introdução e de
complemento muito útil a uma vasta literatura, universitária ou não, que em
princípio deveria estar reunida - o que infelizmente nem sempre acontece
- em pelo menos vinte ou trinta centros de estudos superiores em
Portugal. E não falemos aqui da situação catastrófica da documentação nos
PALOP!
Cidade e Império3 pertence a uma categoria de livros - será uma moda ou o
reflexo das preocupações profundas da investigação atual em que gira em torno
do urbanismo, da arquitetura, cidade colonial e pós-colonial, da sociologia e
da emigração para as cidades, tanto na antiga metrópole como nas monstruosas
aglomerações em que se tornaram as capitais dos palop e seus satélites
provinciais. A publicação, em Lisboa, em menos de dois anos, de três grandes e
luxuosos livros sobre o lugar urbano e as roças de São Tomé deixa supor que
entrarão em jogo fatores que ignoramos.
Entre os temas tratados, assinalemos os problemas da sociologia dos grupos
humanos na cidade angolana, moçambicana e indiana, bem como em Lisboa
(imigrantes africanos e brasileiros). Há igualmente micromonografias
consagradas a um bairro, a um bairro de lata, ou mesmo a uma rua da capital. No
tempo de Salazar, Lisboa era uma cabeça de império quase monocromática; hoje, a
diversidade de cores e de culturas colonizou a cidade, órfã das suas possessões
distantes. O texto que mais surpreende nesta sapientíssima antologia é o que
nos revela a concorrência do yé-yéde 1966-67 ao luso-tropicalismo.
Acrescentemos que este livro erudito, que não deve, apesar de tudo, apaixonar
um grande público, possui três índices. Um exemplo que deveria ser imitado por
todos os editores científicos em Portugal e em todo o lado.
Se, a partir de Lisboa, tomarmos o mar para nos recolhermos nas ruínas do
Império, Cabo Verde é, evidentemente, a primeira escala importante e a que dá
menos que falar. Atrai, portanto, turistas de passagem e entusiastas (o que é
raro entre os palop), tanto residentes estrangeiros como economistas e
observadores internacionais que examinam o seu percurso desde a independência.
Cap-Vert, perspetive et réalité4 é o que se pode considerar o programa de um
militante, engenheiro químico de formação. O autor não se contenta em incensar
os progressos alcançados e prefere apontar o que falta fazer para que o país
encontre a sua própria via para o desenvolvimento. Não sendo o lugar para expor
o que Rosário preconiza, podemos, todavia, precisar que, originário de São
Vicente, denuncia o excesso de centralismo do poder na Praia, bem como outros
males do sistema político e económico, que não aparecem nos guias turísticos.
"Ninharias", na nossa opinião, ao lado do naufrágio dos antigos
"primos" da Guiné Bissau. Porque aqui já não se trata apenas de
dizer o possível e o melhor, mas de salvar um embrião de Estado que, durante a
guerra dos nacionalistas (PAIGC) de Amílcar Cabral, fazia desafalecer todos os
terceiro-mundistas da época. A nossa introdução evocava o Diabo, as suas
dissimulações nos detalhes, o imprevisível e uma surpresa. Eis uma, e bem
grande. Lemos no catálogo de um editor um título: Une Nuit à Madina do Boé5.
Ficamos a saber que o autor é historiador e que a obra, na sua opinião, é
romance (p. 14). Na verdade, a intriga é quase inexistente mas, em compensação,
desde o início penetramos no Inferno e na sua sucursal da África ocidental:
Bissau com todos os seus demónios, desde a independência.
Existem muitas críticas virulentas e inconsoláveis acerca daquilo em que se
tornaram os sonhos dos Pais fundadores da independência nos palop. Tanto quanto
sabemos, nenhuma das críticas publicadas - no exílio - desceu tão
profundamente ao insustentável e à condenação absoluta dos dirigentes corruptos
que "governam" e dos militares sem honra, multiplicados por todo o
Ocidente africano: "Continente da carnificina, das violações coletivas e
das amputações… As morgues funcionam às mil maravilhas neste continente"
(p. 18). O autor lança-se em imprecações intermináveis.
"Os cirurgiões que receberam o corpo [do presidente Nino Vieira] estão
prestes a coser-lhe os bocados" (p. 21). O autor faz desfilar
desordenadamente a teoria dos demónios que devoram a Guiné: os traficantes de
cocaína, os antigos colonialistas portugueses, os vendedores de órgãos
retirados a vítimas ainda frescas, entre os quais a própria mioleira do
presidente, os feiticeiros que regem a vida política com os oficiais, os imãs,
os curas, os marabutos, os profetas das seitas, os jihadistas, etc.
Infelizmente, Ngaïdé conhece melhor a Guiné que todas essas pseudo-elites que,
recicladas na função pública ou fugidas na diáspora, cultivam o sonho de vir
(re)tomar o poder, ou seja, a "caixa" que vai sendo cheia por
organizações financeiras internacionais, por diplomatas
"deportados" neste inferno e por ONG compassivas.
Na Guiné-Bissau, o Estado está morto desde 1973, se admitirmos que chegou a
nascer. Agora as ressureições tornam-se difíceis, não unicamente por causa do
calor. Há muito que os chacais acampam no cemitério.
Guiné, 22 de novembre 1970. Opération Mar Verde6é um livro muito útil. Completa
tudo o que foi publicado em Portugal acerca do caso que quase mudou
provisoriamente o curso da História colonial de Lisboa. A autora é filha de um
antigo oficial oriundo da Guiné francófona, reformado do exército francês,
opositor conhecido do sinistro Sékou Touré e um dos organizadores da tentativa
de golpe de Estado, montado com o apoio financeiro e militar das autoridades
portuguesas. O oficial participa no desembarque dos guineenses francófonos e
envia um relatório aos portugueses, datado de 25 de novembro de 1970, em
Bissau. Antiga jornalista, a autora procura reabilitar a figura do pai, Thierno
Ibrahima Diallo, e de muitos outros membros da chamada Frente de Libération
National de Guinée (FLNG). Utiliza arquivos familiares, a tradução de um
documentário da televisão portuguesa e uma curta entrevista de Alpoim Calvão.
Aparecem muitos elementos novos - claramente expostos -, que fazem
deste livro um documento importante. A venalidade de muitos conspiradores
parece comprovada, bem como as traições no seu seio. O que mais nos marca é a
fraqueza e a falta de dinheiro destes exilados. Um fator, ausente ou poucas
vezes evocado, é o tribalismo; o outro é a precariedade de toda a sua situação.
Acrescentemos-lhe a instabilidade da vida no exílio. Este livro é uma boa
surpresa para o historiador.
Já que fazemos a digressão pelas antigas colónias africanas, abordemos agora
São Tomé e Príncipe7. Aqui, a surpresa reside no facto deste título ser o
terceiro da trilogia relativa a uma arquitetura insular, cujo valor se situa,
na nossa opinião, não nos edifícios públicos recentes, mas nas roças
(plantações) privadas, ou estatizadas, e nas igrejas. Com quatro arquitetos
entre os cinco autores, era de esperar que a tónica fosse colocada sobre os
trabalhos de renovação e o histórico de ocupação do solo, ou seja, a luta
contra uma selva invasora e a concentração latifundiária. Nas roças, nota-se
uma grande variação do estado de habitabilidade das casas dos antigos senhores,
com algumas totalmente abandonadas a ocupantes ilegais. Espantamo-nos por não
vermos citado, nas duas bibliografias da obra, o único guia turístico completo
acerca do arquipélago. Em inglês, evidentemente.
Sem deixar as roças, assinalemos um pequeno texto de um português, antigo
consultor das Nações Unidas, José Hipólito dos Santos8. Hipólito dos Santos tem
razão em valorizar o trabalho das mulheres no arquipélago do "leve-
leve"; o setor masculino é adepto do branco. adágio "Quanto menos
trabalhar melhor me comporto". Teorizador do "desenvolvimento
humano", o autor expõe a sua prática na roça Água Izé, empresa do Estado.
Critica os métodos e as regras burocráticas da ONU. A sua leitura ensina-nos
muito sobre a atitude dos "filhos da terra", historicamente
alérgicos aos trabalhos agrícolas, mesmo depois da independência. Quem é que
trabalhava em 1991 na Água Izé? 50 por cento dos trabalhadores eram originários
de Cabo Verde, 34 por cento de Angola e o resto de Moçambique, para além de
alguns são-tomenses perdidos (ou contaminados), entre estes agricultores sem
medo da terra.
Em Angola, começar-se-á por uma investida aleatória aos recantos mais
recônditos de uma demonologia que o bibliógrafo qualificará de empírica, por
não poder deixar de admitir que alguns encontram aí um interesse recreativo. E,
contudo, os principais leitores de Jorge Alves de Lima9são e não leem revistas
de ciência política ou de relações internacionais. Os mais informados sabem que
a África do Sul conduziu operações militares no sul de Angola entre 1966 e
1988, às quais Pretória chamava a Guerra de Fronteira. Mas antes? Antes, para
eles, tratava-se de saber quem é que mataria o maior elefante e o maior número
de leões ou de rinocerontes, para expor os despojos nas salas de troféus. É um
grupo com poucos leitores; para se ser membro desta igreja é preciso ter
passatempos, gozar de boa saúde e ser-se mais rico do que pobre. Mas, dir-se-á,
que vem então este livro fazer aqui, a uma publicação com pretensões
científicas cujos membros do conselho de redação provavelmente ignoram a
diferença entre uma .375 Holland e uma .500/465? É aí que regressa o Diabo por
uma pequena porta, pois aparece (pp. 227-237) a PIDE/DGS e o
"inventor" dos Flechas. Quem eram os primeiros recrutas deste corpo
de elite da polícia política do Estado Novo? Os bosquímanos do sudeste
angolano, cujos extraordinários dons pisteiros foram canalizados e explorados
por um inspetor - imaginativo e talvez mesmo genial - da PIDE.
Este inspetor rapidamente compreendeu que o Cuando Cubango recebia da Zâmbia
estranhos visitantes (os guerrilheiros do MPLA) que era necessário eliminar,
armando os seus inimigos seculares, ou seja, os milhares de caçadores-
recolectores locais, (com as suas famílias), acabados de sair da pré-história.
Bastava dar-lhes comida, um uniforme, um soldo modesto e substituir os arcos e
flechas por uma arma de guerra moderna.
Os estragos provocados pelos seiscentos Flechas de origem bosquímane na zona de
resistência do MPLA e as infiltrações dos Ovampos da SWAPO nunca foram
quantificados de forma séria, pelo menos a sul do paralelo 16º e até à
fronteira da Namíbia. Encontraremos nestas recordações de caçadas do autor, um
empresário de safaris brasileiro, na sua concessão (Longa-Mavinga) do Cuando
Cubango, muita coisa sobre os troféus e aventuras dos ricos clientes americanos
e europeus. Mas também há bastantes "detalhes" acerca da situação
militar nos anos de 1965-1973, da rivalidade comercial entre companhias
adjudicatárias e muitas pequenas coisas acerca da colaboração entre os Flechas
e os caçadores profissionais, que constituíam a única fonte de rendimento
"estável" desta frente pioneira, enquanto houvesse os Big Fivea
abater. Hoje, nestas "terras do fim do mundo", importam-se
elefantes e os bosquímanos sobreviventes perderam muito dos dons ancestrais.
Atualmente, aliás, caçam-se mais minas do que qualquer um dos cinco maiores
animais da nomenklaturacinegética.
Já que falamos de dinheiro, prossigamos com um autor, Rui Verde10, que sabe
quem o possui em Angola. Verde denuncia a corrupção nas mais altas esferas do
Estado e dá o exemplo da corrupção estatal na criação de uma pseudo-
universidade independente entre 2001 e 2005. É um caso de manual que não
surpreende ninguém. Seria Verde tão ingénuo que tenha ficado chocado com a
distância entre a vida real em Luanda e as suas intenções iniciais? Quando abre
os olhos, apercebe-se de que nesta máquina destinada a fazer dinheiro às custas
dos estudantes, tudo depende da cumplicidade entre personalidades políticas, a
burocracia e os bancos. E pela graça do Mafarrico, os edifícios delapidados de
uma escola primária tornaram-se numa universidade!
Com um título percutante, Bartolomeu Capita11, nacionalista cabinda, chama a
atenção do eventual leitor. Contudo, como certos militantes, africanos ou não,
que pretendem convencer da justeza da sua causa, extraviou-se numa inverosímil
floresta virgem de conhecimentos - meio digeridos -, que verte
sobre o hipotético interlocutor. Ao fim de mais de cinquenta anos, o domínio
dos argumentos ainda lhe escapa: é uma tara habitual no eterno exilado que quer
chegar aos deuses no Olimpo, ou que simplesmente acumula diploma atrás de
diploma? Talvez nenhuma das duas. Porém, podemos adivinhar que a sorte de
Cabinda não atormentará muitas noites de Obama, se é que o Presidente sabe
situar este país num mapa de África.
O autor tem a ambição de um dia ver o território chegar à independência. Certos
observadores consideram-na muito legítima. Tem igualmente direito a sentir um
ódio implacável contra Agostinho Neto e sobretudo contra Lúcio Lara. E a
denunciar a repressão feroz dos cabindas que ainda não se deixaram comprar pelo
MPLA. É também inegável que representa uma corrente independentista bem viva
entre os seus compatriotas. Todavia, deveria ter-se limitado a uma defesa
coerente dos seus argumentos em cerca de 300 páginas. Teria atingido
completamente o objetivo. Pelo contrário, ao disparar em todos os sentidos,
acaba por aborrecer o leitor. Que vêm Louis Leakey, Proudhon, Bismarck, os
afro-americanos, Nito Alves, Napoleão e centenas de outras personagens
deslocadas fazer a esta obra? Ao fim de mais de cinquenta anos, os
nacionalistas cabindas mostraram uma imagem estilhaçada da sua luta. Talvez nem
tudo esteja perdido, mas até agora ainda não se assistiu a um espetáculo em que
os factos levem a melhor sobre a verborreia. Os saltimbancos têm a utilidade de
divertir a galeria durante um certo tempo. Ensinar-lhes os constrangimentos e o
peso dos números será indispensável, mas ainda não se viu entre os seus quem o
poderia fazer.
Visto que o autor cita bocados de texto em alemão, poderia obter uma lição de
contenção, de racionalidade e de modéstia de um trabalho minucioso proveniente
de Basileia12. Esta obra mostra-nos que se a história colonial na fronteira sul
de Angola tivesse sido diferente, poder-se-ia ter desembocado num enclave
insubmisso, belicoso, quase autónomo, na verdade independente a termo, no
Ovambo, atualmente partilhado entre Luanda e Windhoek. A edição das cartas do
explorador suíço Hans Schinz inclui o relato (de setembro de 1885), mais
desenvolvido do que no seu livro, da viagem ao norte da fronteira atual (pp.
72-80), ou seja, ao Cuamato e ao Humbe, de triste, depois gloriosa e por fim
sinistra memória nos anais militares portugueses. Os esforços do editor,
Henrichsen, concentrados num assunto restrito mas muito aprofundado, são
exemplares, ainda que não tenha utilizado qualquer fonte portuguesa. O Ovambo,
durante muito tempo afastado das ambições colonialistas de duas potências
hesitantes, poderia constituir uma zona tampão, um enclave perfeito (portanto,
sem acesso ao mar, ao contrário de Cabinda). E também sem petróleo, esse danado
petróleo que muito complicou a situação e o futuro do exclave kongo entalado
entre os dois Congos independentes, que por vezes tiveram projetos
anexionistas, antagonistas mas latentes até hoje. A alternate history[no
original em inglês, N. da T.] terá aqui matéria para imaginar os cenários mais
improváveis.
Se se desembarcar em Moçambique, tem-se a demonstração de que a guerra colonial
ou as guerras de libertação (1961-1974/1975) não passam desapercebidas de uma
parte dos leitores portugueses, mesmo que se trate de uma franja minoritária.
Peguemos no caso do desaparecimento muito misterioso da tripulação de um navio
encontrado deserto, incendiado e à deriva no canal de Moçambique, o Angoche13,
durante a "primavera Marcelista". Um enigma comparável ao do
"Holandês Voador" que alimentou os fantasmas de gerações de
marinheiros durante séculos. É exatamente o género de história de que apenas o
Diabo e a pide conhecem a solução. Parece-nos, portanto, normal que um futuro
romancista tenha consultado a Torre do Tombo para tentar saber o que se esconde
por trás destas cortinas de fumo. Infelizmente, ficou com a convicção de que
uma parte das peças pertinentes desapareceram dos arquivos da PIDE/DGS! Desde
logo, quando as hipóteses estavam todas em aberto, teceu uma intriga em volta
da personalidade perturbada do comandante do navio e de um advogado luso-
indiano cego. Habilmente engendrada, a narrativa mergulha-nos na sociedade
política portuguesa atual, onde muitos atores envelhecidos têm também muitas
coisas a esquecer e a fazer-se desculpar, todas ligadas à guerra colonial
- neste caso, a que se desenrolava no interior do Moçambique
setentrional, no início dos anos 1970.
Na mesma editora, DG, assinala-se a reedição de Caçador de feitiços, sob a
pluma de Carlos Marques Pereira, inicialmente surgido na Prefácio, em 2010. A
nova edição é idêntica à primeira para o texto mas o título mudou14e as fotos a
cores desapareceram. As memórias do autor um marinheiro-aviador, dizem
especialmente respeito à aviação no nordeste de Moçambique (Mueda, Nampula,
etc.). O volume que as engloba está dividido em duas partes, com a segunda
consagrada a um outro título, angolanista, de Carlos Acabado, Kinda e outras
histórias de uma guerra esquecida (Vivências de uma guerra africana)que também
já vai na segunda edição. Estas duas obras são a prova de que a guerra não está
tão esquecida como se proclama; o público compra. Daqui a uma ou talvez duas
gerações os descendentes dos atores colecionarão estes relatos. Ainda na mesma
região do norte moçambicano (Cabo Delgado) e no mesmo registo memorial (a
guerra), Fonseca Alves15parece dirigir-se prioritariamente aos veteranos da sua
companhia entre 1966 e 1968. Cultiva a anedota mas, nómada entre diferentes
guarnições (Mocimboa do Rovuma, Negomano, etc.), dá algumas informações sobre
os ataques contra as bases da FRELIMO (Bases Beira e Limpopo, fim de dezembro
de 1966). No fim da comissão, em agosto de 1967, a companhia foi transferida
para o distrito de Tete, em Bene.
Talvez choquemos agora vários leitores, pois as nossas conclusões vão ao
encontro da psicologia dos portugueses médios deste início do século XXI, com
outras preocupações económicas mais urgentes do que a reflexão sobre o sentido
da sua história colonial que muitos, além disso, pretendem esquecer ou ignorar.
Ao lançar-se além-fronteiras ou para o ultramar à conquista de riquezas, de
terras, de escravos ou de vassalos, toda a metrópole, potencial ou real,
ligeiramente ambiciosa, seja qual for a sua cor, condena-se a entrar no ciclo
infernal das guerras repetitivas. E as do Portugal de 1961-1975 são as
herdeiras de séculos de violência pluricontinental. Quer o queiramos quer não.
Mesmo onde o colonizador acredita ou pretende ser amado pelos seus súbditos,
existe um capital subjacente de rancores, por vezes de ódios. Desconhecemos se
alguém o fez, mas se se contabilizassem ao detalhe todas as atividades
guerreiras de Portugal, desde sempre, aperceber-nos-íamos de que o Estado Novo,
nos seus últimos tempos, mais não fez do que seguir o exemplo da Primeira
República. Esta, por sua vez, marchava ao som das cornetas e dos tambores da
Monarquia porque não podia ser de outra forma, devido à natureza do homem.
Peguemos no exemplo que nos é dado por um dos dois Prémios Nobel da Paz de
1996, que pela sua escolha de vida é o mais pacífico dos timorenses: Dom Carlos
Filipe Ximenes Belo, alto dignitário da Igreja católica. Acaba de publicar um
livro fundamental para quem quer aprofundar a história de Timor-Leste16.
Trabalho meticuloso, coerente e prático, está na confluência da historiografia
e da sociologia histórica. O autor dedicou-se a fazer o repertório da multitude
de autoridades tradicionais que foram localizadas, nomeadas, eleitas,
combatidas, impostas, cortejadas, etc., pelos portugueses desde 1515 até 1975.
Para cada uma delas, compilou o essencial do que autores anteriores escreveram
(a dizer bem ou mal); classificou-os por distrito e subdistrito, e depois
cronologicamente. Não insiste nas guerras quase permanentes que travavam entre
si os liurais (chefes ou reisetes), nem sobre as revoltas ou submissões às
autoridades de Lifau e depois de Díli. Desta torrente de nomes, na maior parte
das vezes lusificados, liberta-se, no entanto, uma conclusão irreprimível:
contrariamente ao que ditava a ignorância da história colonial às multidões
emocionadas que desfilavam em Portugal, apelando ao auxílio aos pobres
timorenses, há mais de uns dez anos, esta metade de ilha colonizada tardiamente
por Lisboa não era um porto da paz imemorial que se costuma inventar nas ilhas
longínquas. Era exatamente o contrário. E quem duvida nada mais tem a fazer do
que seguir atentamente o trabalho do autor que, certamente, não pode passar por
um belicista raivoso.
Os portugueses que não querem mudar de convicções deveriam ou poderiam ler um
livro17 de um etnólogo amador, e historiador nas horas vagas, que decidiu
publicar um canto de amor aos timorenses e a Portugal. Muito bem! Partindo
desta base patriótico-sentimental tradicional, o leitor procurará o que pode
salvar deste entrelaçado de histórias orais (a sua bibliografia não tem Artur
Teodoro de Matos nem os quatro volumes de Humberto Luna de Oliveira, e de
tantos outros timoranistas; mais vale parar de os enumerar do que cair no
denegrir sistemático…). Mas o autor recolheu pormenores que não encontramos em
nenhuma fonte publicada. Sem garantia da autenticidade do que Mau-Bere-Kohe
conta, o leitor entrará neste gabinete de curiosidades com prudência ou
arrebatamento, segundo as suas opções políticas. As fotos são muitas vezes
interessantes e, a coberto do pseudónimo, o autor parece ter uma profunda
simpatia pelas pessoas das montanhas, mesmo reconhecendo que um liurai
respeitável deveria colocar diante de casa algumas centenas de crânios dos
inimigos como afirmação da sua autoridade. Tudo isto antes da grande revolta do
Manufai (1911-1912).
Qual é, então, o demónio particularmente vicioso que pelos seus encantos e o
seu feitiço incitava o governador de Timor de 1926-1928, Teófilo Duarte, a
intitular o seu segundo livro Timor (Antecâmara do Inferno?!), Famalicão, 1930?
Certamente que não um "pequeno diabrete bom".
Mas as astúcias das hordas luciferianas são tais que reservámos para o fim um
dos exemplos mais perfeitos da sua malignidade. Atacaram essas cidadelas de
todas as virtudes que eram as Cortes de Lisboa, o Ministério da Marinha e das
Colónias, a Cúria Romana e a Congregação do Santo Espírito, e vamos encontrá-
las combinadas para travar a ação evangelizadora de um dos maiores missionários
católicos do século XIX, que dedicou toda a vida a "levar a luz às trevas
do Congo e de Angola". A edição, em curso, das cartas e escritos18 do
Padre Charles Duparquet (1830-1888) pelos Espiritanos do século XXI revela-nos,
reabilitando-a, uma personalidade complexa, exposta à hostilidade frontal ou
dissimulada dos seus superiores e confrades da época (ou, mais recentemente, à
do Espiritano António chas fotográficas e de mapas Brásio) e dos gabinetes de
Lisboa.
Duparquet quer fazer sair uma colónia portuguesa, real ou potencial, da sua
letargia religiosa e, enquanto estrangeiro, é, portanto, automaticamente
suspeito. De qualquer das formas, nada é claro nas suas motivações profundas.
Porque é que este francês insiste tanto em ir trabalhar para Angola?
Pessoalmente, pensamos que, antes de mais, quer implantar-se no desconhecido
porque tem uma vocação de pioneiro, longe de todo o constrangimento
eclesiástico ou civil: vê um campo quase virgem aberto à sua formidável
capacidade de trabalho e à sua inteligência. Após anos de diligências em Roma,
Paris e Lisboa, desembarca em Moçâmedes em dezembro de 1866, sendo no início
bem acolhido pelas autoridades e sobretudo pelos colonos, contentes com os seus
projetos de criação de uma ou duas escolas. Sem perder tempo, parte de visita à
Huíla (pp. 136-145). Fica rendido. É a partir deste planalto sadio que fará
irradiar a sua ação para o leste e centro de África. É a lua de mel, mas será
breve. Compreende imediatamente que numa sociedade colonial esclavagista, e em
geral paranóica, não conseguirá nada se não se rodear de um clero lusófono e
lusófilo (e não como os seus dois confrades instalados em Ambriz, desdenhosos e
chauvinistas). É, portanto, necessário formar os missionários em Portugal. Mas,
com o Diabo a meter-se no assunto, desde abril de 1867 queixa-se de que em
Lisboa as Câmaras e uma certa imprensa xenófoba o acusam de ser espião e agente
da França. Expulso de África, em maio de 1867 parte para Portugal para pugnar
pela causa e para abrir em Santarém um colégio de iniciação linguística e de
preparação de futuros missionários portugueses. Aí permanecerá mais de dois
anos, a lutar contra "belas palavras e belas promessas, mas no fundo
astúcia e má fé". (p. 573). Exasperado e vencido, pede ao seu Superior
para ser desinvestido de toda a responsabilidade em Angola e embarca em 1869
para Zânzibar. O Diabo ficou com a vitória, mas provisoriamente. Aguardamos os
Tomos III e IV para ver como é que Duparquet obterá a sua vingança e lançará as
fundações de uma obra espiritana tentacular em Cabinda e sobretudo em Angola.
Afinal, era mais obstinado do que todos os adversários juntos.
Tradução: Marta Amaral
Data de receção: 20 de março de 2014
Data de aprovação: 30 de junho de 2014
NOTAS
1
SANTIAGO, Maria José Tiscar - Diplomacia peninsular e operações secretas
na Guerra Colonial, Lisboa, Edições Colibri, 2013, 449 pp.
2
MENESES, Maria Paula e MARTINS, Bruno Sena (eds.) - As guerras de
libertação e os sonhos coloniais, Alianças secretas, mapas imaginados. Coimbra,
Edições Almedina e Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, 2013,
194pp.
3
DOMINGOS, Nuno e PERALTA, Elsa (eds.) - Cidade e Império. Dinâmicas
coloniais e reconfigurações pós-coloniais, Lisboa, Edições 70, 2013, L-628 pp.,
fotografias a preto e branco.
4
ROSÁRIO, João do - Cap-Vert, perspetive et réalité, Paris,
L'Harmattan, 2013, 123 pp., fotografias a preto e branco.
5
NGAÏDE, Abdarahmane- Une nuit à Madina do Boé, Paris, L'Harmattan,
2013, 138 pp.
6
DIALLO, Bilguissa - Guinée, 22 novembre 1970. Opération Mar Verde,
Paris, L'Harmattan, 2014, 276 pp. fotos a preto e branco.
7
FERNANDES, José Manuel; JANEIRO, Maria de Lurdes; ANDRADE, Rodrigo Rebelo de;
PAPE, Duarte e LOUREIRO, João (para os postais) - São Tomé e Príncipe.
Cidades, território e arquiteturas, Lisboa, sem nome de editor, 2013, 176 pp.,
numerosas ilustrações a preto e branco, sépia e cor.
8
SANTOS, José Hipólito dos - Les femmes aucœur du développement,
Paris, L'Harmattan, 2013, 153 pp, fotos a preto e branco.
9
LIMA, Jorge Alves de - On the tracks of the Big Five in Angola, New
York, Kirongozi, 2013, 334 pp., muitas fotos a preto e branco e a cores.
10
VERDE, Rui- Angola e dinheiro. Riscos da transição do regime liderado
por José Eduardo dos Santos, Cascais, Edições Rui Costa Pinto, 2013, 147 pp.
11
CAPITA, Bartolomeu - Cabinda, Obama's challenge in Africa, Londres
& Lisboa, Chiado Publishing, 2013, 647 pp. + 9pp de mapas, documentos e
fotografias a preto e branco e a cores.
12
SCHINZ, Hans (autor) [& Dag Henrichsen (ed.)] - Hans
Schinz.Brüchstücke. Forschunsreisen in Deutsch-Südwestafrika. Briefe und
Fotographien, Basileia, Basler Afrika Bibliographien, 2012, XXVII-185 pp.,
fotos a preto e branco.
13
ELYSEU, Al Cino - Angoche, Linda-a-Velha, DG Edições, 2013, 255 pp.
14
PEREIRA, Carlos A. F. Marques - Histórias e memórias de um marinheiro-
aviador, Linda-a-Velha, DG Edições, 2013, 174 pp., fotos a preto e branco.
15
ALVES, Fonseca - Memórias de guerra do Ultramar, Porto, Edições Ecopy,
2013, 205 pp., fotos a preto e branco.
16
BELO, Dom Carlos Filipe Ximenes - Os Antigos Reinos de Timor-Leste, Reys
de Lorosay e Reys de Lorothoba, Coronéis e Datos, Porto, Porto Editora, 2ª
edição, 2013, 334 páginas, fotografias a preto e branco.
17
Mau-Bere-Kohe - Adeus Timor. Eu Portugal me confesso, Porto, Edições
Ecopy, 2011, 372 páginas, fotografias a preto e branco.
18
VIEIRA, Gérard [& Charles Duparquet (auteur)] - Le Père Duparquet.
Espoirs et échec de la mission en terre portugaise. Lettres et écrits. Tome II
(1866-1869), 8ª edição, Paris: Editions Karthala, 2013, 647 páginas + XII
páginas de pranchas fotográficas e de mapas a preto e branco e a cores.
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