As origens da Grande Guerra e o estatuto de Grande Potência: o caso da Alemanha
Aniversários são catalisadores da memória histórica. 2014 proporciona logo três
eventos importantes para recordar: o centenário do início da Primeira Guerra
Mundial, os 75 anos do início da Segunda Guerra Mundial e os 25 anos da
unificação da Alemanha. Mas provavelmente sobre nenhum outro acontecimento
mundial foi publicado e discutido tanto como sobre a «Grande Guerra».
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É consensual entre historiadores e analistas que a Primeira Guerra Mundial foi
a «catástrofe seminal do século XX», como George F. Kennan lhe chamou, e que
dela decorrem implicações importantes que em parte explicam a ocorrência da
Guerra de 1939-45, após duas décadas de ressentimentos mútuos entre as
potências europeias enfraquecidas.
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Isso levou historiadores e politólogos a falarem de uma nova Guerra dos Trinta
Anos' ou de uma crise dos vinte anos'.
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Paradoxalmente o longo' século XIX fora marcado por uma prosperidade económica
considerável ' o que explica parte da surpresa de muitos pela eclosão da Guerra
quando a estabilidade da ordem internacional, e europeia, em particular,
parecia sustentar-se no florescimento da economia. O facto de a guerra
inicialmente europeia se ter alastrado para fora da Europa terá sido,
igualmente, subestimado.
Entre 1914 e 1918 viveram-se quatro anos de «guerra total»
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, com cerca de 24 milhões de mortes, miséria generalizada e destruição total
que mudou o mundo fundamentalmente. Na gestão de conflitos políticos e
militares, a Primeira Guerra Mundial foi a primeira «guerra total», um conflito
tecnológico-industrial em grande escala que desenvolveu e testou a utilização
de armas novas, como tanques, aviões e submarinos e a arma química como a
primeira arma de destruição maciça. Entre agosto e setembro de 1914, a mais
poderosa e próspera parte do mundo, escreve a historiadora Margaret MacMillan,
tinha iniciado um processo de autodestruição.
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Foi uma guerra que poderia estar concluída no final do outono de 1914, quando
se tornou claro que os planos de guerra de todas as Grandes Potências
participantes falharam e que a continuação da guerra poria em marcha
desenvolvimentos que todas elas tinham procurado evitar. Mas a Guerra perdurou
durante quatro longos anos e quando terminou, em novembro de 1918, as potências
europeias estavam enfraquecidas, com novos regimes e impérios coloniais
debilitados.
O fim da guerra não só marcou o colapso dos regimes monárquicos das dinastias
dos Hohenzollern, Habsburgos e Romanov, a Paz de Versalhes e o começo do fim do
imperialismo europeu e do estatuto da Inglaterra e da França como duas
potências globais; significou também a ascensão dos Estados Unidos como
potência mundial e a revolução comunista na Rússia: a par com as fraquezas da
Europa pós-imperial, os Estados Unidos e a Rússia soviética ascenderiam a
potências extraeuropeias com projetos ideológicos universais opostos, a
democracia e o comunismo. Por seu turno, a Alemanha imperial foi derrotada, e o
regime político sucessor, a República de Weimar foi incapaz de travar a
emergência, pouco mais de uma década depois, do nacional-socialismo, o terceiro
projeto político de cariz universalista. São estes três Estados com as suas
ideologias opostas, a democracia liberal norte-americana, o marxismo-leninismo
soviético e o nacional-socialismo alemão, que iniciam uma competição e que se
afirmariam como as principais potências do sistema europeu durante os próximos
vinte anos, entrando em conflito, no espaço euro-atlântico e fora dele, numa
segunda «guerra total», entre 1939 e 1945.
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Se estas foram as consequências sistémicas decorrentes da Primeira Guerra, com
consequências relevantes para a definição do estatuto de Grandes Potências e a
sua hierarquização sistémica, outra implicação significativa foi a questão da
culpabilização pelas origens da Primeira Guerra Mundial. A problemática da
«culpa de guerra» é uma temática que tem sido debatida ao longo de décadas por
historiadores, e que reflete o modo como as potências europeias definem as
perceções que têm umas das outras. Por outras palavras, não foram apenas as
consequências geopolíticas da guerra e as cláusulas dos tratados de paz
impostas pelos vencedores que definiriam o futuro relacionamento entre a
Alemanha, Inglaterra, França, Rússia e Estados Unidos; interpretações
justapostas sobre as causas da Guerra, a classificação do papel de cada um dos
intervenientes e a identificação dos culpados pela Guerra e daqueles que para
ela foram arrastados ' a culpa versusa passividade e a inocência ' continuam a
influenciar ainda hoje o debate sobre as causas da Primeira Guerra Mundial.
Este artigo, não sendo escrito por uma historiadora e não tendo a autora
realizado investigação em arquivos para o efeito, tem como objetivo analisar o
conjunto de debates e de publicações mais recentes sobre o papel da Alemanha em
inícios da Primeira Guerra Mundial. A primeira secção problematiza a temática
do estatuto' de uma Grande Potência; a segunda secção analisa o debate
histórico sobre a questão da culpabilização e o papel da Alemanha, desde a
análise convencional prevalente na Alemanha até ao revisionismo das décadas de
1960 e 1970 que deu origem ao chamado primeiro debate histórico' na Alemanha
Federal, até à interpretação prevalente na Alemanha unificada.
A política europeia da Alemanha: ascensão ao estatuto de Grande Potência
Em inícios do século XX, como em tantas épocas da história europeia, a questão
do estatuto de poder de Grande Potência foi um dos catalisadores para a atuação
política dos Estados. A ambição de confirmação de um novo estatuto de poder ou
o receio de perda do estatuto adquirido motivou os principais atores. No século
XIX, o historiador alemão Leopold von Ranke definiu uma Grande Potência como
«aquela que consegue assegurar a sua existência contra todas as outras, mesmo
quando estas estão unidas. (...) Essa Grande Potência é tão potente que não
necessita de nenhuma aliança, dependendo apenas dela própria»
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. No verão de 1914, a Alemanha parecia segura da sua capacidade de
autossuficiência, da dispensabilidade de alianças e da sua força militar para
contrariar alianças contra ela criadas. Economicamente, a Alemanha estava a
desenvolver uma forte capacidade industrial e nas ciências naturais e humanas
assim como no domínio da cultura, a Alemanha era um dos países europeus mais
modernos. Como afirmara o historiador Fritz Stern, o século XX poderia ter sido
«um século alemão».
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Em tempo de paz, o estatuto de Grande Potência pressupunha a aceitação de
deveres e responsabilidade pela estabilidade da ordem europeia e mundial e o
reconhecimento desse estatuto pelas outras potências. Segundo a definição de
Hedley Bull, o primeiro atributo de Grande Potência implica a aceitação de
direitos e deveres e um sentido de responsabilidade pela estabilidade da ordem
do sistema internacional, da segurança e paz internacionais.
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A França napoleónica e a Alemanha nacional-socialista, por exemplo, recusaram
essa responsabilidade internacional ao adotarem um revisionismo auto
destrutivo. O segundo atributo de uma Grande Potência é o reconhecimento do
estatuto de Grande Potência pelos outros atores políticos, ou seja, a
legitimação desse estatuto no sistema internacional. O concerto europeu do
século XIX, por exemplo, foi a institucionalização de um sistema internacional
assente na aceitação da responsabilidade coletiva de todas as Grandes Potências
pela segurança europeia, articulado com um princípio de intervenção em caso de
conflito para a reposição da ordem do status quo ante.
Em 1914, a Alemanha tinha feito o percurso de ascensão de Grande Potência mas o
reconhecimento desse novo estatuto pelas outras potências oscilava entre a
rejeição do mesmo, por parte da França, e a necessidade de acomodação do novo
elemento de poder, por parte da Inglaterra. Para além das potenciais alterações
de poder na Europa, esta indefinição no reconhecimento do novo estatuto à
Alemanha tinha a ver com a projeção desta no Próximo Oriente e no norte de
África, o que refletia o aumento do seu poder: Berlim queria ter também um
lugar ao sol', participar na mesa das Grandes Potências e obter uma fatia
maior dos espólios dos conflitos. Inevitavelmente, esta alteração do estatuto
de poder tinha implicações no estatuto das outras potências europeias, a
começar pela Inglaterra. Na sua ambição de tornar a Alemanha uma potência
mundial que alcançasse um estatuto de poder superior ao da Inglaterra, o
imperador Guilherme II ordenou a construção de uma moderna frota marítima sob o
comando do Almirante von Tirpitz que poderia vir a rivalizar diretamente com a
frota inglesa e destronar a Inglaterra como detentora da maior frota marítima
do mundo.
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Enquanto que para os alemães o rápido crescimento da marinha imperial era um
marco vital para consolidar a sua posição como potência mundial, bem como uma
alavanca útil para induzir a Inglaterra a aceitar este new kid on the block',
os ingleses viam a nova política imperial alemã como uma ameaça ao estatuto de
grande império britânico. Por outro lado, a não renovação do tratado de
contrassegurança com a Rússia, significou para esta que a Alemanha estava a
opor-se aos interesses russos, o que levou São Petersburgo a voltar-se para o
inimigo alemão, a França, com a qual veio assinar uma aliança militar em 1892.
O aumento do seu poder material arrastaria consigo um aumento das formas de
projeção desse mesmo poder, mudando a distribuição de poder favoravelmente para
a Alemanha, empenhada no aumento significativo da produção de carvão e de aço,
aproximando-se do nível de produção britânico.
Quando em 2 de agosto de 1914 as tropas alemãs ocuparam o Luxemburgo, estado
neutro, e dois dias depois, em 4 de agosto, invadiram a Bélgica, igualmente
neutra, a caminho da França, a Alemanha deparou-se com uma coligação oposta de
todas as potências europeias ' como em 1761 quando Frederico o Grande viu-se
rodeado por uma coligação europeia antiprussiana. Se se partir do pressuposto
de que a hostilização por parte dos seus Estados vizinhos à pretensão de
ascensão a Grande Potência e logo de alteração do status quona Europa era
previsível, em 1914 a Alemanha não atuou como Grande Potência responsável:
localizada no centro da Europa cabia-lhe uma responsabilidade acrescida pela
estabilidade do continente europeu, o que implicava garantir que pelo menos uma
das Grandes Potências europeias ' não a enfraquecida Áustria-Hungria '
aceitasse coligar-se com a Alemanha. Uma atitude menos responsável por parte da
Áustria ou da Sérvia não teria produzido implicações tão significativas como a
ação da Alemanha que, conhecendo os riscos envolvidos de uma Guerra com a
Rússia e a França, optou por subjugar o interesse da paz e da estabilidade na
Europa aos seus interesses imediatos ' os da consolidação de um estatuto de
Grande Potência através de uma Guerra. Na interpretação do historiador Ludwig
Dehio, a busca em vão da Alemanha de Guilherme II de quebrar a hegemonia
mundial britânica e afirmar a hegemonia alemã como definidora do novo
equilíbrio de poder na Europa precipitou a Guerra, quando a Alemanha iniciou
uma «Guerra defensiva contra a Inglaterra e a sua grande coligação».
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A derrota em 1918 evidenciou que, apesar de ter força suficiente para combater
uma potência, a Alemanha seria sempre demasiadamente fraca para combater todas
as outras ao mesmo tempo. A complexidade da posição da Alemanha no centro da
Europa e a forma como os Estados vizinhos responderam corresponde,
historicamente, ao que se denomina de questão alemã': o dilema que resultava
ou da acentuada fraqueza, ou da excessiva força do Estado alemão, e da
dificuldade de se criar um sistema de equilíbrio que contivesse esta tensão
constante. No primeiro caso, a fraqueza tornava o Estado alemão vulnerável a
pressões externas; no segundo, a Alemanha tornava-se demasiadamente forte para
se manter uma potência europeia equilibrada, com fronteiras estáveis e uma
política externa de uma Grande Potência responsável. Por outro lado, a forma
como as potências vencedoras lidaram com a Alemanha, em 1919, a aplicação de
elevadas reparações de guerra e a ostracização política no sistema
internacional, contribuiu para as debilidade do novo regime democrático da
República de Weimar e facilitou a emergência de uma Alemanha revisionista, que,
a partir de 1933, seguiu o objetivo de alteração do status quoprecário do
período entre as duas guerras através de uma política expansionista de
germanização da Europa. Como afirmou recentemente Joseph Nye,
«a Primeira Guerra Mundial não era inevitável. Tornou-se mais provável pelo
poder emergente da Alemanha e o receio que isto provocou na Inglaterra. Mas
também se tornou mais provável pela resposta receosa da Alemanha face ao poder
crescente da Rússia, bem como uma miríade de outros fatores, incluindo erros
humanos.»
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A questão da culpa de guerra'
A questão sobre a culpabilização da Guerra não apenas permanece controversa até
hoje, como continua a produzir novos resultados de investigação histórica.
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Várias são as questões levantadas, como por exemplo: As ações da Alemanha foram
defensivas ou ofensivas? Em 1914 a Alemanha pretendeu recorrer a uma Guerra
preventiva? Terão os decisores políticos alemães pretendido resolver problemas
políticos internos do país através do recurso a uma Guerra europeia?
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Pelo Artigo 231º do Tratado de Paz de Versalhes, a Alemanha era moralmente
responsável pela Guerra e foi obrigada a pesadas reparações de guerra.
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Esta cláusula de culpabilidade pela Guerra foi rejeitada pela maior parte dos
alemães que a consideravam uma humilhação, e que pouco mais de uma década mais
tarde seria aproveitada para a emergência do nacional-socialismo. Apesar das
pesadas reparações às quais fora obrigada a Alemanha permanecia um ator
importante na política europeia.
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Enquanto que tinha tido perdas territoriais importantes e estava condicionada
pelas restrições do Tratado de Versalhes, ela permanecia não apenas o maior
Estado para além da União Soviética, mas em termos relativos era ainda mais
forte do que antes de 1914.
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A análise do papel da Alemanha na I Guerra Mundial tem produzido diferentes
interpretações, num conjunto de ondas de justificações e críticas, que perduram
até hoje. Numa primeira onda, autores alemães contestaram a leitura do artigo
231º e afirmaram que a Alemanha fez parte de um grupo de países europeus que
consciente ou inconscientemente se envolveram no conflito. Durante a década de
1920 a Chancelaria alemã e o ministério dos negócios estrangeiros prosseguiram
uma campanha política com o objetivo de refutar a tese da responsabilidade da
Alemanha pela Guerra, através do apoio à publicação de livros e revistas assim
como a centros de investigação criados para o efeito. Segundo a interpretação
oficial da República de Weimar a Alemanha não podia ser culpabilizada pela
eclosão da Guerra porque a política de reparações de Guerra, estipuladas pelo
Tratado de Versalhes foi imposta e era injusta. Esta ação foi bem-sucedida, não
apenas na própria Alemanha, convencida da sua inocência, mas também em parte no
estrangeiro. Nas suas memórias, o antigo primeiro-ministro inglês David Lloyd
George escrevia «As nações deslizaram para dentro do caldeirão fervente da
guerra sem qualquer traço de apreensão ou desânimo»
18
. Segundo esta leitura, dominante na altura, a Guerra ocorreu de forma
acidental, tendo a bipolarização de alianças aberto o caminho para a Guerra: a
rivalidade entre a Tríplice Entente, composta pela França, Rússia e Inglaterra,
e a Tríplice Aliança entre a Alemanha, Áustria-Hungria e a Itália supostamente
arrastaram as Grandes Potências para a Guerra. Historiadores alemães como
Gerhard Ritter, defendiam que não se tratou de um plano sistemático previamente
elaborado mas antes de erros e uma falta de aptidão política que deixaram o
conflito escalar assim como uma liderança militar pouco sancionada pela classe
política que arrastou a Alemanha para o conflito.
19
Quanto ao papel das restantes potências europeias, a Inglaterra tão pouco
cumpriu o seu papel de potência responsável do sistema internacional, que seria
impedir a ascensão de uma nova potência hegemónica e manter o equilíbrio. O que
significava que a Inglaterra poderia ter-se aliado à Alemanha: não tinha
interesses territoriais na Europa e estava ligada à casa real alemã dos
Hohenzollern por laços familiares; por seu turno, a Alemanha não tinha (ainda)
interesses coloniais que rivalizavam com os interesses coloniais ingleses. Como
afirma Margaret MacMillan, «uma parceria entre a maior potência continental
europeia e a maior potência naval do mundo fazia todo o tipo de sentidos, mas
desta vez cabeças mais sábias não prevaleceram»
20
. Perante tal improbabilidade, a crise de julho poderia ter sido contida se o
ministro dos negócios estrangeiros britânico, Sir Edward Grey tivesse emitido
um sério aviso à Alemanha de que a invasão da França através da Bélgica levaria
a uma intervenção britânica, o que também não aconteceu.
21
Sobre as motivações da França, o historiador Stefan Schmidt sugere que o que
orientou o pensamento francês foi o fortalecimento da aliança franco-russa, uma
vez que implicava o apoio francês à política externa russa.
22
Por seu turno, a Rússia estava interessada em adquirir os estreitos turcos e,
especialmente, assegurar a posse de Constantinopla; para tal, a crise de julho
de 1914 e a possibilidade de uma guerra europeia não era de todo inconveniente,
para o governo de São Petersburgo, para alcançar tais objetivos contra o
império otomano, sugere o historiador americano Sean McMeekin.
23
Para além disso, a decisão de iniciar a mobilização parcial das suas tropas
pouco depois do eclodir da crise não contribuiu para uma solução pacífica para
a crise.
A interpretação do papel da Alemanha na Grande Guerra ' uma Grande Potência que
atuou na defesa dos seus interesses como as outras potências europeias -
encontrou suporte na escola que defendia o Primat der Aussenpolitk, ou seja, a
primazia da política externa e que considerava que as estruturas domésticas de
um Estado eram fortemente condicionadas por pressões externas, pela localização
geográfica do país e pelas escolhas de alianças do mesmo. Leopold von Ranke e
Otto Hinze desenvolveram as suas análises históricas de acordo com este
princípio. Gustav Stresemann, ministro dos negócios estrangeiros da República
de Weimar foi influenciado por essa leitura. Após a unificação alemã em 1990
historiadores como Gregor Schollgen defendiam a relevância de fatores
geoestratégicos e o primado da política externa como essencial na definição da
política externa alemã pós-unificação.
24
Por seu turno, outros, como, por exemplo, o historiador Arno J. Mayer
consideravam que foram antes as políticas internas das potências europeias que
explicam a eclosão da Primeira Guerra Mundial, e logo, definem o primado da
política interna como o fator determinante.
25
As teses revisionistas de Fritz Fischer
Esta interpretação do papel da Alemanha na Primeira Guerra mundial e a ideia do
Primat der Aussenpolitikfoi duramente contestada pelo historiador alemão Fritz
Fischer que, em 1961, apresentou uma interpretação revisionista da participação
da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, argumentando que em vez de ser
arrastado para a guerra, o Império Alemão iniciou a guerra deliberadamente para
confirmar o estatuto de potência mundial. No seu livro Griff nach der
WeltmachtFischer atribuiu as causas da Guerra às posições dos decisores
políticos do império alemão, conscientes das consequências bélicas das suas
ações: «a liderança política alemã tem umaparte significativa da
responsabilidade histórica pela eclosão da guerra»
26
. Poucos anos mais tarde, em 1969, Fischer reforçou o seu argumento em Guerra
das Ilusõesafirmando que «a liderança política alemã tem aparte significativa
da responsabilidade histórica». Fischer baseou-se em arquivos históricos
segundo os quais o chanceler Bethmann Hollweg, em julho de 1914, estaria com
uma «disposição bélica», e que o general von Moltke teria exigido ao ministro
dos negócios estrangeiros, desde inícios de junho de 1914, a possibilidade de
se iniciar uma guerra preventiva', assim como um conjunto de outras
correspondências e contactos
27
o que, na perspetiva de Fischer, evidenciavam o instinto imperialista alemão
que levou o Reich a enveredar sistematicamente para uma política agressiva e
expansionista. Ligado a esta ambição no palco externo estava também a
preocupação, segundo Fischer, de distrair' de problemas políticos e sociais
internos.
Fischer não só afirmou que a Alemanha teve a maior parte da responsabilidade
pela eclosão da guerra, mas também que os lideres políticos tinham planeado a
guerra e que, portanto, os objetivos eram objetivos expansionistas, e, por
isso, semelhantes aos de Adolf Hitler e do nacional-socialismo alemão. Por
outras palavras, a implicação da tese de Fischer foi a da linha da continuidade
histórica: o nacional-socialismo entre 1933 e 1945 já não podia ser
interpretado como uma catástrofe alemã indivídual, mas representava antes o
culminar de incompatibilidade da Alemanha com o liberalismo e a democracia
ocidental. Isto transformou o significado da tese do Sonderweg(caminho
particular) da história alemã: se até então o Sonderwegrefletia «a afirmação
orgulhosa de diferenças entre a Alemanha e o Ocidente, tornou-se [agora] um
triste reflexo das aberrações da Alemanha face ao Ocidente».
28
O ponto extremo dessas aberrações foi, naturalmente, o nacional-socialismo,
quando as questões de identidade alemã, e caminho particular foram exploradas
ao máximo. Mas para Fischer prevalecia, até 1945, uma linha de continuidade na
política externa alemã, na qual se deveria inserir as pretensões hegemónicas da
Alemanha.
As teses de Fischer geraram uma forte controvérsia, que ficou conhecida por
debate histórico (Historikerstreit), o primeiro deste género e ao qual se
seguiria um segundo na década de 1980. Dum lado encontravam-se os historiadores
da linha conservadora como Gerhard Ritter, Hans Herzfeld, Walther Hubatsch,
Egmont Zechlin e Erwin Hölzle que rejeitavam a atribuição da culpa de Guerra
unicamente ou maioritariamente à Alemanha; do outro lado, Fritz Fischer,
Imanuel Geiss e Helmut Böhme que assumiam uma posição assertiva quanto à
questão da culpabilidade pela I Guerra e levantavam interrogações sobre a
continuidade entre as elites do Império de Guilherme II e as do Terceiro Reich.
29
Até então prevalecera o monopólio da interpretação conservadora. Mas as grandes
controvérsias políticas e históricas nunca acontecem fora do contexto
sociopolítico em que se inserem. Na década de 1960 a República Federal da
Alemanha iniciava um período de emancipação política interna, de liberalização
da cultura política e de advento da Ostpolitik do Chanceler Willy Brandt ' a
abertura político-diplomática, económica, social e cultural à RDA e ao leste
europeu. Rudolf Augstein, editor do semanário Der Spiegelafirmava: «Ambas as
guerras mundiais foram guerras pela hegemonia alemã na Europa, pela obtenção do
primeiro lugar no mundo. A Alemanha perdeu conscientemente arriscou e perdeu
exausta»
30
. Este debate histórico perdurou na RFA até à década de 1980, quando emergiu um
segundo debate histórico. Neste segundo Historikerstreito historiador
conservador Ernst Nolte defendeu a legitimidade de comparação histórica entre o
nacional-socialismo e o comunismo, argumentando que o primeiro não teria
acontecido sem o segundo, ou seja, que o nacional-socialismo fora uma resposta
à revolução bolchevique. Contra estas teses o sociólogo Jürgen Habermas
defendeu a singularidade do período do Terceiro Reich e a impossibilidade da
sua comparação com outros acontecimentos históricos.
31
O centenário da Grande Guerra: a continuação do debate
Aquando da unificação da Alemanha em 1990 existiu um consenso relativamente ao
argumento de que as ações da Alemanha tinham contribuído decisivamente para a
eclosão do conflito e que era à Alemanha que cabia a maior parte da
responsabilidade pela eclosão da guerra. A nova ortodoxia era a da aceitação da
versão moderada de Fischer, que a Alemanha tinha uma parte importante da culpa,
motivada principalmente por questões de estatuto de poder no sistema europeu,
mais do que por considerações de ordem política interna. Ou seja, fatores
estratégicos condicionaram a ação da Alemanha e não teorias sobre as causas de
política interna alemã da Guerra. A historiadora Annika Mombauer argumenta que
o que era menos claro eram quais poderiam ter sido as motivações para a
política externa agressiva.
32
Mais recentemente emergiu um consenso entre os historiadores que a eclosão da
guerra não tinha sido inevitável e que todas as potências contribuíram, por
motivações divergentes, para o início da Guerra. Para o historiador Brendan
Simms, da Universidade de Cambridge os objetivos da Alemanha eram defensivos e
não são explicáveis por ambições territoriais: a Alemanha recorreu a uma guerra
preventiva por receio da Rússia.
33
Christopher Clark, historiador australiano igualmente professor na Universidade
de Cambridge posicionou-se recentemente contra o argumento da singularização da
Alemanha como principal causadora da Primeira Guerra Mundial. Em The
Sleepwalkers. How Europe went to War in 1914,publicado em 2012, Clark demonstra
que os decisores políticos da Tríplice Aliança e da Tríplice Entente como que
sonambularam para o conflito, «vigilantes, mas cegos, atormentados por sonhos,
mas incapazes de reconhecer a realidade dos horrores que em breve iriam trazer
ao mundo»
34
. Nesta análise, Clark aproxima-se da leitura do antigo primeiro-ministro
britânico Lloyd George que afirmou que, apesar de ninguém querer a guerra, em
1914, os governos europeus como que escorregaram' nela. Clark refere como é
que o dilema de segurança, na origem de várias situações de conflito levou os
decisores franceses a considerarem as suas ações meramente defensivas, ao passo
que as da Alemanha, cuja posição na balança de poder militar estava, segundo os
franceses, enfraquecida, eram vistas como potencialmente agressivas. «Em nenhum
momento os franceses ou os estrategistas russos envolvidos planearam lançar uma
guerra de agressão contra as potências centrais. (...) Mas é impressionante,
mesmo assim», refere Clark,
«como é que os decisores políticos pensaram tão pouco nos efeitos que
as suas ações provavelmente iriam ter sobre a Alemanha. Os decisores
políticos franceses estavam cientes da forma em que o equilíbrio da
ameaça militar se havia inclinado contra a Alemanha (...). Mas como
eles viam suas próprias ações como inteiramente defensivas e
atribuíam intenções agressivas unicamente ao inimigo, os principais
decisores políticos nunca equacionaram a sério a possibilidade de que
as medidas articuladas por eles poderiam estar a diminuir as opções
disponíveis para Berlim»
35
.
Segundo Clark, a França apostou tudo na sua aliança com a Rússia (a Rússia foi
a primeira a mobilizar as tropas), até porque os sinais vindos de Inglaterra
eram ambíguos. No seio da aliança russo-francesa partia-se do pressuposto de
que iria ocorrer uma crise nos Balcãs, independentemente de quem a começava.
Citando novas fontes, Clark argumenta que a Alemanha não foi a principal
responsável pela Guerra: «não se deve menosprezar a paranoia militar e
imperialista dos políticos austríacos e alemães ( ). Mas os alemães não eram os
únicos imperialistas e os únicos a sucumbir à paranoia»
36
. Na perspetiva deste historiador, a Alemanha sentiu-se cercada pela Tríplice
Entente entre a Grã-Bretanha, França e Rússia, cujo potencial militar se
tornara cada vez maior. A Alemanha e a Áustria-Hungria não foram mais
responsáveis pela eclosão da guerra do que a Rússia ou a França, que viram na
crise de 28 de junho ' o assassinato do arquiduque austríaco Francisco
Ferdinando, sucessor ao trono austríaco - a oportunidade para consolidar a sua
aliança e de iniciarem uma guerra preventiva. Contra a ideia da bipolarização
de alianças que contrapôs a Tríplice Entente à Tríplice Aliança, Clark
argumenta que existiu «uma persistente incerteza em todos os quadrantes sobre
as intenções tanto de amigos como de potenciais inimigos» e que «se o tecido
das alianças tivesse parecido mais confiável e duradouro, os principais
decisores ter-se-iam sentido sob menos pressão para agir como agiram».
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E se não tivesse ocorrido o assassinato do arquiduque, não era inconcebível
pensar-se que «a Tríplice Entente poderia não ter sobrevivido a resolução da
crise balcânica e o desanuviamento anglo-alemão poderia ter-se transformado em
algo mais substancial».
38
Clark considera mesmo a identificação de um culpado desnecessária e de pouca
utilidade. «É realmente necessário identificar um único Estado culpado ou
estabelecer um ranking de Estados de acordo com a sua quota de
responsabilidade?»
39
. Para o historiador, «o início da Guerra em 1914 não é um drama de Agatha
Christie no fim do qual descobrimos o culpado à volta de um corpo», mas antes
«uma tragédia, não um crime».
40
Clark afirma que houve na Europa em 1914 um patriotismo defensivo, mas que
«nenhuma das Grandes Potências estava a considerar nessa altura iniciar uma
Guerra de agressão contra os seus vizinhos»
41
.
O argumento de Clark de que a Alemanha é responsável pela Grande Guerra, mas
não mais do que as outras potências europeias, opondo-se assim à tese defendida
por Fritz Fischer na década de 1960 encontrou, naturalmente, eco na Alemanha,
que vê neste revisionismo de Fischer a possibilidade de arquivar a tese da
responsabilidade primordial da Alemanha. O cientista político alemão Herfried
Münkler, da Universidade de Humboldt em Berlim, argumentou recentemente de
forma semelhante à de Christopher Clark. Na Alemanha, segundo Münkler, a
Primeira Guerra Mundial foi durante muito tempo «considerada apenas como um
prelúdio da Segunda Guerra Mundial, como ponto de partida para uma narrativa de
arrogância e culpa alemãs removido da análise teórica política» que «deve
novamente ser tratada como um acontecimento autónomo e complexo».
42
Münkler defende que a guerra não foi inevitável e que poderia ter sido evitada
se tivesse havido de todos os lados «mais discernimento e visão analítica».
43
«A Alemanha foi no verão de 1914 um dos principais agressores - mas
não estava sozinha nesta responsabilidade; quanto mais se investiga
os acontecimentos complexos nos vários países antes da Guerra, mais a
responsabilidade pela guerra encontra-se partilhada entre todas as
potências europeias» e não se deve focar exclusivamente sobre «a
potência inquieta do império guilhermino».
44
Segundo Münkler, os franceses, temiam a marginalização da França, os russos
estavam preocupados com o impacto da sua perda de influência depois da derrota
contra o Japão em 1905, e a Áustria-Hungria receava a perda do seu estatuto de
Grande Potência. Também no Reino Unido prevaleceu o medo do declínio, enquanto
que os alemães tinham uma «obsessão de cerco». À semelhança de Clark, ele vê
«uma lição de política (...), na qual a interação entre o medo e a imprudência,
a arrogância e a autoconfiança ilimitada tornou a defesa racional de interesses
sob tais circunstâncias «quase impossível» e levou a um caminho do qual já não
havia retorno possível».
45
Segundo Münkler havia ainda divergências internas quanto ao interesse alemão em
envolver-se numa Guerra. «Dos três atores cruciais - o Imperador, o Chanceler e
o chefe do Estado Maior - apenas Helmuth von Moltke teria pretendido travar
esta guerra, afirmando que, se fosse esse o objetivo, então ela deveria ser
travada em breve.»
46
Os militares, contudo, gozavam de grande influência junto de Guilherme II e,
com um poder cujo exercício não dependia nem do Chanceler nem do parlamento, e
com o gradual distanciamento do imperador, no decorrer da Guerra, do centro de
decisão político, um desequilíbrio considerável entre o poder politico e o
poder militar, segundo Münkler, ajuda e explicar a posição alemã de perpetuar a
guerra
47
.
Quanto às razões que levaram à eclosão da Guerra, Münkler refere uma
«estratégia de duplo cerco»: por um lado, o «cerco da monarquia do Danúbio pela
Liga dos Balcãs, sob proteção russa» e por outro, o «cerco da Alemanha pela
França e pela Rússia, com a Inglaterra tendencialmente do lado franco-russo».
Esta constelação aguçou a atmosfera ainda mais e «tinha que inevitavelmente
levar à perspetiva de tempo limitado, o que tornaria um ato irracional da
política alemã mais provável, como aconteceu em julho de 1914», escreve
Münkler. Quanto à existência de planos para uma Guerra preventiva, Münkler
afirma que faziam parte da definição da estratégia de um Estado na altura. A
Alemanha «não foi de forma alguma a única potência que agiu de forma
imperialista na Europa; isto aplica-se também aos adversários do império
alemão.» O historiador alemão Sönke Neitzel, professor de história
internacional na London School of Economics, argumentou que apesar de o
imperador Guilherme II ter sido uma figura menos central do que o Chanceler
Bethmann Hollweg analisou corretamente a situação quando considerou que a
partir de 1907 a aproximação entre a Inglaterra e a Rússia sugeria uma política
de cerco, lentamente em curso.
48
Que a crise na Sérbia se iria alastrar tornou-se evidente quando, em 26 de
julho de 1914 a Rússia, que sempre se viu como potência protetora dos eslavos,
nos Balcãs mobiliza as tropas. Estas interpretações mais recentes não rejeitam
evidentemente a tese da responsabilidade da Alemanha. Mas não individualizam o
caso alemão e não estabelecem um nexo de causalidade entre as ambições do
Segundo e do Terceiro Reich alemães, como Fischer tinha feito. As análises
tendem a basear-se antes na investigação arquivística que sugere que todas as
Grandes Potências da altura, a França, a Rússia, a Inglaterra e a Alemanha, mas
também a Áustria-Hungria e a Sérvia tinham não apenas objetivos concretos
quanto à hipótese de uma Guerra como tinham planos de contingência. Nesse
sentido, passados 100 anos do início da Guerra, as explicações da causa da
Guerra centram-se novamente na tese de Lloyd George de que as potências foram
arrastadas para o conflito, ou, como recentemente afirmou Christopher Clark,
sonambularam para a Guerra.
2014 e 1914: as limitações dos paralelismos históricos
Entre a unificação da Alemanha em 1871 e a eclosão da Primeira Guerra Mundial
em 1914 a globalização económica em curso entre as potências europeias parecia
conduzir a um mundo mais interdependente e logo mais pacífico, como argumentou
optimisticamente Norman Angell, mas a globalização produziu uma rápida mudança
no equilíbrio das capacidades militares-industriais das potências europeias.
49
O deflagrar da Primeira Guerra Mundial lembra-nos como é que uma ordem mundial
aparentemente estável, assente no suposto século da paz' após o Congresso de
Viena de 1815 pôde entrar em colapso num espaço temporal curto e devido a um
acontecimento aparentemente pouco significativo.
Perante a pluralidade e multicausalidade de fatores que explicam a eclosão da
Primeira Guerra Mundial talvez o da crença na impossibilidade de ocorrência de
um conflito entre potências europeias que viveram o século XIX como o século da
paz, e um fin de sièclede forte desenvolvimento cultural e globalização
económica, ligado à excessiva fraqueza dos decisores políticos para decidirem
estrategicamente são tudo fatores que, cem anos depois, nos devem alertar,
perante os desenvolvimentos mais recentes no espaço euro-atlântico. Quando está
por decidir o futuro político e estratégico de um país relevante como a
Ucrânia, que, perante a política agressiva da Rússia tem que redefinir a sua
política externa e de segurança e quando a Europa, os Estados Unidos (e a
Rússia) têm de redefinir a futura ordem de segurança do espaço euro-atlântico,
os festejos do centenário da Grande Guerra podem ser catalisadores da memória
histórica, e dos eventos que servem como dissuasores de potenciais reproduções.
Ao mesmo tempo, e inevitavelmente, a natureza humana procura recorrer às
analogias históricas, como forma de antecipar possíveis mudanças. Mas como
afirmou Joseph Nye, «analogias históricas, embora, por vezes, úteis para fins
de precaução, tornam-se perigosas quando transmitem uma sensação de
inevitabilidade histórica»
50
.
Para além do contexto da Grande Guerra, a Alemanha é o país que ao longo de
séculos constituiu o centro das atenções europeias, pela sua centralidade
estratégica, capacidade económica e político-militar, constituindo, como afirma
Brendan Simms, «o cockpit da luta ideológica europeia», desde os tempos do
Sacro Império Romano-Germânico, passando pela Guerra dos Trinta Anos, até ao
fim da Guerra Fria, cujo epicentro de antagonismo ideológico se encontrava em
Berlim.
51
A Alemanha é hoje novamente uma Grande Potência na Europa central, e permanecem
muitos os desafios que emergem da sua posição central e no centro; estes
desafios encontram-se contextualizados num sistema de alianças europeias e
transatlântico sólido. Por isso, a responsabilidade de uma Grande Potência
implica que, como a história lhe indica, a melhor forma de responder a esses
desafios será em estreita cooperação com os parceiros dessas mesmas alianças.
Data de receção: 5 de Maio de 2014
Data de aprovação: 4 de Junho de 2014
Notas
1
As publicações mais recentes incluem Clark, Christopher ' The Sleepwalkers. How
Europe went to War in 1914.Nova Iorque: Harper Perennial, 2014; SIMMS, Brendan ' Europe: The Struggle for Supremacy, 1453 to the
Present.Londres: Allen Lane, Penguin Books, 2014; Macmillan,
Margaret ' The War that Ended Peace: How Europe abandoned peace for the First
World War.Londres: Profile Books, 2013; Levy, Jack S. e
Vasquez, John A., eds. ' The Outbreak of the First World War: Structure,
Politics, and Decision-Making.Cambridge: Cambridge University Press, 2014; Mcmeekin, Sean ' July 1914: Countdown to war.Londres: Icon,
2014. Publicações em alemão incluem Münkler, Herfried ' Der
Grosse Krieg. Die Welt 1914'1918. Berlim: Rowohlt Berlin, 2013; Mombauer,
Annika ' Die Julikrise. Europas Weg in den Ersten Weltkrieg.Munique, 2014.
2
George F. Kennan descreveu a Primeira Guerra Mundial como «the seminal
catastrophe of the century-the event which lay at the heart of the failure and
decline of this Western civilization». Kennan, George F. ' The Decline of
Bismarck's European Order:Franco-Russian Relations 1875-1890.Princeton
University Press, 1981. Ver também Fromkin, David ' Europe's
Last Summer: Who Started the Great War in 1914?.Vintage, 2005.
3
Carr, E.H. ' The Twenty Years' Crisis 1919-1939. Londres e Nova Iorque:
MacMillan and Company Limited: St. Martin's Press, 1939.
4
Ver Chickering, Roger e Forster, Stig (eds.) ' Great War, Total War Combat and
Mobilization on the Western Front, 1914'1918.Cambridge: Cambridge University
Press, 2006. A totalidade da guerra, é definida como
correspondendo à mobilização de todos os recursos humanos e materiais
disponíveis implicando o fim da distinção entre militares e civis. A guerra
total aparece como a contrapartida inevitável da industrialização, do
progresso tecnológico e da cultura de massa.
5
Macmillan, Margaret ' «1914 and 2014: should we be worried?», International
Affairs,Londres: Vol. 90, Nº 1, 2014, p. 59.
6
Ver Schweller, Randall ' Deadly Imbalances: Tripolarity and Hitler's Strategy
of World Conquest. Nova Iorque: Columbia University Press, 1998.
7
Laue, Theodor von ' Leopold von Ranke. The Formative Years.Princeton, Nova
Jersey: Princeton University Press, 1950, p. 202.
8
Citado por Wolfgang Thierse, então presidente do Bundestag alemão, por ocasião
da entrega do Prémio Nacional da Fundação Nacional da Alemanha, Fundação para a
Alemanha e na Europa, a Fritz Stern, em 17 de junho de 2005, em Berlim.
Consultado em: 15 de maio de 2014. Disponível em: http://www.bundestag.de/
bundestag/praesidium/reden/2005/008/244968. Sobre o dinamismo cultural vivido
na Europa nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, ver Illies, Florian ' 1913:
Der Sommer des Jahrhunderts.Frankfurt am Main: S. Fischer, 2012.
9
Bull, Hedley ' The Anarchical Society: A Study of Order in World Politics,Nova
Iorque: Columbia University Press, 1977.
10
Esta estratégia, contudo, era oposta à seguida pelo Chanceler Otto von
Bismarck que tinha levado a Alemanha a travar três guerras, com a Dinamarca, a
Austria-Hungria e a França, para alcançar a unificação alemã, unindo 25
entidades que constituiram o Segundo Reich' em 1871. Uma vez alcançado esse
objetivo, Bismarck seguiu, até 1890, uma política externa de equilíbrio, na
qual as alianças eram vistas como um pesadelo das coligações e onde o
objetivo, para além de evitar alianças demasiado comprometedoras e limitadoras
da margem de manobra política do Estado recém-unificado era isolar a França e
evitar que ela liderasse uma coligação contra a Alemanha. Através da unificação
o novo Reich tinha abalado a balança de poder europeia e Bismarck tinha
consciência disso. Por isso, a estratégia de Bismarck visava não apenas evitar
alianças antialemãs, como também conter a própria Alemanha que atuaria como uma
potência saturada', sem pretensões expansionistas e empenhada em manter o
equilíbrio geopolítico europeu. Na perspetiva de Bismarck, isto pressupunha uma
política de alianças que isolasse diplomaticamente a França. A Dupla Aliança,
em 1879 com a Austria-Hungria, que obrigava os dois Estados a ajudar-se um ao
outro no caso de uma agressão russa foi substituída, dois anos depois, pela
Liga dos Três Imperadores, em 1881, entre a Alemanha, a Austria-Hungria e a
Rússia, garantindo a neutralidade benevolente em caso de guerra contra um
quarto Estado ' a França. Pelo Tratado de Contra-Segurança, em 1887, assinado
depois do colapso da Liga dos Três Imperadores devido às rivalidades austro-
russas nos Balcãs, a Alemanha e a Rússia garantiram-se assistência mútua
através de neutralidade benevolente mútua e secreta, no caso de um ataque
francês à Alemanha e de um ataque austríaco à Rússia.
11
Dehio, Ludwig ' Deutschland und die Weltpolitik im 20. Jahrhundert. Munique:
Verlag R. Oldenbourg, 1955.
12
Nye, Joseph ' «1914 Revisited?», Project Syndicate, 13 de janeiro de 2014.
Consultado em: 7 de maio de 2014. Disponível em: http://www.project-
syndicate.org/commentary/joseph-s-nye-asks-whether-war-between-china-and-the-
us-is-as-inevitable-as-many-believe-world-war-i-to-have-been.
13
Ver Levy, Jack S. e Vasquez, John A. ' «Introduction: historians, political
scientists and the causes of the First World War», in Jack S. Levy e John A.
Vasquez, eds. The Outbreak of the First World War: Structure, Politics, and
Decision--Making.Cambridge: Cambridge University Press, 2014, pp. 3-29.
14
Williamson, Samuel R., Jr. ' «July 1914 revisited and revised: the erosion of
the German paradigm» in Jack S. Levy e John A. Vasquez, eds. The Outbreak of
the First World War: Structure, Politics, and Decision-Making.Cambridge:
Cambridge University Press, 2014, pp. 30-63.
15
O artigo que ficou conhecido como a War Guilt Clause' estipulava que The
Allied and Associated Governments affirm and Germany accepts the responsibility
of Germany and her allies for causing all the loss and damage to which the
Allied and Associated Governments and their nationals have been subjected as a
consequence of the war imposed upon them by the aggression of Germany and her
allies. O Tratado foi assinado no verão de 1919, após seis meses de
negociações, e estipulou que a Alemanha teria de pagar reparações de Guerra no
valor de 269 bilhões de marcos, valor que pouco depois foi reduzido para 132
bilhões de marcos, o que não deixava de ser uma quantia por muitos considerada
excessiva.
16
Perante a ocorrência da revolução alemã, o fim do regime imperial e a
instauração de uma república parlamentar, George Kennan foi crítico sobre o que
identificou como política contraditória das potências vencedoras face à
Alemanha durante as negociações de paz. Se o objetivo era punir a Alemanha
seria preferível manter o Kaiser e os generais no poder; se, por outro lado,
era esperada uma mudança de regime político, não se deveria ter tomado a
atitude punitiva na conferência de paz, porque isto tornava o novo regime
instável interna e internacionalmente desde o seu inicio, confrontado-o com
reparações de guerra que este dificilmente conseguiria realizar. Como escreveu
Kennan: «Se era para ser uma paz punitiva, então o antigo regime deveria ter
sido obrigado a suportá-la. Se se iria insistir numa mudança de regime, então
uma paz punitiva não fazia qualquer sentido.» Kennan, George F. ' Russia and
the West under Lenin and Stalin.Boston e Toronto: Little, Brown and Company,
1961, p. 164.
17
Simms, Brendan ' Europe: The Struggle for Supremacy, 1453 to the
Present.Londres: Allen Lane, Penguin Books, 2014, p. 326.
18
Citado em Levy, Jack S. e Vasquez, John A. ' «Introduction: historians,
political scientists and the causes of the First World War». In Jack S. Levy e
John A. Vasquez, eds. The Outbreak of the First World War: Structure, Politics,
and Decision-Making.Cambridge: Cambridge University Press, 2014, p. 16.
19
Ritter, Gerhard, Staatskunst und Kriegshandwerk. Das Problem des
Militarismus in Deutschland.Munique: Oldenbourg Verlag, 1954-1968. Ver principalmente os volumes 3 (Die Tragödie der Staatskunst.
Bethmann Hollweg als Kriegskanzler 1914-1917) e 4 (Die Herrschaft des deutschen
Militarismus und die Katastrophe von 1918).
20
Macmillan, Margaret ' «1914 and 2014: should we be worried?». In International
Affairs,Vol. 90, No.1, 2014, p. 62.
21
Ver Macmillan, Margaret ' The War that Ended Peace: How Europe abandoned peace
for the First World War,Londres: Profile Books, 2013.
22
Schmidt, Stefan ' Frankreichs Aussenpolitik in der Julikrise: ein Beitrag zur
Geschichte des Ausbruchs des Ersten Weltkrieges,Munique: Oldenbourg Verlag,
2009.
23
Mcmeekin, Sean ' The Russian Origins of the First World War. Cambridge: Belknap
Press, 2011.
24
Schöllgen, Gregor ' Stationen deutscher Außenpolitik. Von Friedrich dem Großen
bis zur Gegenwart, München: Verlag. C.H. Beck, 1994, pp. 51-
87 e Schöllgen, Gregor ' Der Auftritt. Deutschlands Rückkehr auf die Weltbühne,
Munique: Propylaen, 2003.
25
Mayer, Arno J. ' «The Primacy of Domestic Politics». In Herwig, Holger, ed.,
The Outbreak of World War I.Boston, MA: Houghton Mifflin, 1996, pp. 42-47. A tese de Mayer não é surpreendente tendo em conta o seu
argumento de que o conjunto das potências europeias se encontravam, em 1914,
numa situação revolucionária' na qual os fatores internos se sobrepõem, por
definição, aos fatores externos.
26
Fischer, Fritz ' Griffnach der Weltmacht: Die Kriegszielpolitik des
Kaiserlichen Deutschlands 1914-1918. Düsseldorf: Droste, 1961. Ver também Fischer, Fritz ' War of illusions: German policies from
1911 to 1914. Nova Iorque: Norton, 1975.
27
Fischer, Fritz ' Hitler war kein Betriebsunfall. Aufsätze,Munique: C.H. Beck,
1992, pp. 24-28.
28
Berger, Stefan ' Inventing the Nation: Germany.Londres: Hodder Arnold, 2004, p.
191.
29
Também o historiador Hans Ulrich Wehler escreveu: Que em vez da temida
terceira guerra balcânica que Viena queria travar contra a Sérvia, num curto
espaço de tempo e em grande medida se iniciou uma grande guerra entre todas as
grandes potências europeias desencadeada graças à política de alto risco de
Berlim, ficou claro já no início de agosto de 1914. Wehler, Hans-Ulrich ' «Der
zweite Dreißigjährige Krieg». In Der Spiegel,30 de março de 2004. Consultado
em: 13 de maio de 2014. Disponível em: http://www.spiegel.de/spiegel/
spiegelspecial/d-30300048.html
30
Augstein, Rudolf. D er Spiegel .11/1964. Consultado em: 15 de maio de 2014.
Disponível em: http://www.spiegel.de/spiegel/print/d-46163408.html.
31
Ver, por exemplo, Berger, Stefan ' The Search for Normality National Identity
and Historical Consciousness in Germany since 1800.Oxford: Berghahn Books,
1997; Knowlton, J. e Cates, T. ' Forever in the Shadow of
Hitler? The Dispute about the Germans' Understanding of History, original
documents of the Historikerstreit.Nova Jersey: Humanities Press, 1993; Travers, Martin ' «History Writing and the Politics of
Historiography: the German Historikerstreit». InThe Australian Journal of
Politics and History, Vol. 37, Nº 2, 1990, pp. 246-261.
32
Ver Clark, Christopher, Munkler, Herfried, Simms, Brendan, Macmillan, Margaret,
e Mombauer, Annika.
33
Simms, Brendan ' Europe: The Struggle for Supremacy, 1453 to the
Present,Londres: Allen Lane, Penguin Books, 2014.
34
Clark, Christopher ' The Sleepwalkers. How Europe went to War in 1914,Nova
Iorque: Harper Perennial, 2014, p. 562.
35
Clark, Christopher ' The Sleepwalkers. How Europe went to War in 1914,Nova
Iorque: Harper Perennial, 2014, p. 353.
36
Clark, Christopher ' The Sleepwalkers. How Europe went to War in 1914,Nova
Iorque: Harper Perennial, 2014, p.561.
37
Clark, Christopher ' The Sleepwalkers. How Europe went to War in 1914,Nova
Iorque: Harper Perennial, 2014, pp. 362 e 364, respetivamente.
38
Clark, Christopher ' The Sleepwalkers. How Europe went to War in 1914,Nova
Iorque: Harper Perennial, 2014, p. 364.
39
Clark, Christopher ' The Sleepwalkers. How Europe went to War in 1914,Nova
Iorque: Harper Perennial, 2014, p. 560.
40
Clark, Christopher ' The Sleepwalkers. How Europe went to War in 1914,Nova
Iorque: Harper Perennial, 2014, p. 561.
41
Clark, Christopher ' The Sleepwalker s. How Europe went to War in 1914 ,Nova
Iorque: Harper Perennial, 2014, p. 363.
42
Münkler, Herfried ' Der Grosse Krieg. Die Welt 1914-1918. Berlim: Rowohlt
Berlin, 2013, p. 9 e p. 11.
43
Münkler, Herfried ' Der Grosse Krieg. Die Welt 1914'1918. Berlim: Rowohlt
Berlin, 2013, p. 14.
44
Münkler, Herfried ' Der Grosse Krieg. Die Welt 1914'1918. Berlim: Rowohlt
Berlin, 2013, p. 10.
45
Münkler, Herfried ' Der Grosse Krieg. Die Welt 1914'1918. Berlim: Rowohlt
Berlin, 2013, p. 14.
46
Ver também Mombauer, Annika ' Helmuth von Moltke and the Origins of the First
World War,Cambridge: Cambridge University Press, 2001.
47
Münkler, Herfried ' Der Grosse Krieg. Die Welt 1914'1918. Berlim: Rowohlt
Berlin, 2013, pp. 20-21.
48
Neitzel, Sönke ' Kriegsausbruch: Deutschlands Weg in die Katastrophe 1900 -
1914. Munique: Pendo Verlag, 2002, pp. 92-93.
49
Angell, Norman ' The great illusion,Londres: Heinemann, 1912. Citado por
Macmillan, Margaret ' «1914 and 2014: should we be worried?», International
Affairs,Vol. 90, Nº 1, 2014, p. 61.
50
Nye, Joseph ' «1914 Revisited?», Project Syndicate, 13 de janeiro de 2014.
Consultado em: 7 de maio de 2014. Disponível em: http://www.project-
syndicate.org/commentary/joseph-s-nye-asks-whether-war-between-china-and-the-
us-is-as-inevitable-as-many-believe-world-war-i-to-have-been
51
Simms, Brendan ' Europe: The Struggle for Supremacy, 1453 to the
Present,Londres: Allen Lane, Penguin Books, 2014, p. 531.
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