A Direita Radical E As Eleições Europeias Em 2014: Nacionalistas Em Busca De
Pontes
As eleições europeias de maio de 2014 têm sido vistas por analistas e media
internacionais como um ponto de viragem na política europeia. Para além das
mudanças formais que o Tratado de Lisboa trará para a realidade de um
Parlamento Europeu (PE) reforçado, a crise económica e financeira que tem
afetado fortemente os mais diversos estados-membros da União Europeia (UE), no
seu centro e periferia, acelerou um processo social de grande distanciamento
que tem vindo a decorrer entre as autoridades europeias e os cidadãos que estas
representam. A crescente coordenação política e económica incentivada nos
corredores de Bruxelas trouxe para a arena mediática, por seu lado, um conjunto
de instituições supranacionais que até recentemente eram vistas como
inofensivas e até irrelevantes para o eleitorado. Apesar do fosso percecionado
pela opinião pública, torna-se cada vez mais difícil ignorar o impacto que a
dimensão europeia exerce nos sistemas políticos nacionais
1
.
Neste contexto, também as mais diversas forças partidárias têm apostado num
discurso que coloca o plano supranacional num lugar de maior destaque, com
efeitos que vão para lá da tradicional arena política nacional. As crescentes
ligações entre a cena política de cada Estado-membro e os processos decisionais
à escala europeia contribuíram também para um enriquecimento do debate na arena
comunitária e para um aumento do interesse no palco mediático que as
instituições da UE constituem, em particular o PE. Essa exposição adicional
atraiu a atenção do mainstream partidário, mas também das franjas políticas.
Ainda que s eleições europeias tenham sido por norma, e pela sua natureza, uma
oportunidade para uma maior projeção de alternativas menos visíveis nos
espectros políticos nacionais, a pujança com que os extremos partidários se têm
apresentado ao eleitorado por força de uma conjuntura económica e social pouco
favorável é tida como um fenómeno que trará mudanças ao funcionamento futuro
das instituições europeias.
De entre tais forças políticas, a direita radical europeia tem sido uma das que
apresenta maior referência pelos. analistas como a que mais pode contribuir
para uma alteração no status quodo PE. O estudo desta corrente política tem
sido alvo, nos últimos anos, de uma renovada atenção, após ter permanecido
durante muito tempo na sombra de outras análises sobre o pós-industrialismo e o
pós-materialismo. Já na década de 1980 Scott Flanagan, em resposta a um artigo
de Ronald Inglehart sobre os valores pós-materialistas e o reposicionamento das
clivagens, assinala que para além da nova corrente de esquerda que emerge do
lado libertário do prisma, existe também uma nova direita que surge muitas
vezes ignorada nas análises realizadas e que é, afinal, «tão não-materialista
como a Nova Esquerda»
2
. Tendo como base a perceção de que estes partidos são um produto do mundo pós-
materialista
3
, a literatura tem considerado erróneo dotar esta nova direita radical de uma
definição que os ligue expressamente às correntes fascistas e nazis que foram
importantes em meados do século passado (e que continuam a existir nas suas
formas renovadas)
4
. Trata-se nestes casos de um tipo de partidos que, seja por força da carga
negativa com que seriam confrontados ou simplesmente pela não identificação com
os princípios reguladores do ideário fascista, têm vindo a renegar e a afastar
esse legado com que muitas vezes são conotados
5
, tanto nos seus programas eleitorais como nos discursos que efetuam para a
opinião pública, e da forma mais direta possível. De facto, Pippa Norris
6
alerta que denominar estas forças de «neofascistas» não faria sentido desde
logo porque muitas delas (começando pela Frente Nacional francesa) têm uma base
de apoio distinta daquelas que suportavam os movimentos fascistas, negam
qualquer herança histórica dos movimentos nazis e não partilham muitas das
ideias tradicionalmente associadas a essa ideologia.
Contudo, e se entre académicos se tornou relativamente consensual a distinção
entre a atual direita radical e o fascismo de meados do século passado, o mesmo
não acontece quanto à denominação utilizada para nos referirmos a tais
partidos. Desde partidos «anti-imigração» a partidos da «nova direita»,
passando pela designação de forças «antissistema», «nacional-populistas»,
partidos «étnicos», «autoritários», «antigovernamentais», «antipartidários»,
«ultranacionalistas», «neoliberais» ou simplesmente partidos «de protesto»
7
, todas estas denominações têm sido, de uma forma ou de outra, incluídas nas
análises desenvolvidas pela Academia
8
. Ainda assim, as duas designações mais comuns, tanto na literatura como na
comunicação social, serão a de «extrema-direita» e a de «direita radical».
A variedade de movimentos que se colocam no extremo direito do espetro político
encoraja-nos, desta forma, a encontrar critérios apropriados que os distingam
de acordo com o seu posicionamento na realidade sociopolítica ' aceitando a
conceção de que tal família política é formada por diferentes tipos de
organizações. No sentido de consolidar o conceito, teremos em atenção, no
contexto deste artigo, elementos como o nível de formalidade e
institucionalização dos partidos ou a sua postura quanto ao debate político
tradicional. Partidos de direita radical, o objeto de estudo no presente
âmbito, serão aqueles que beneficiam de um determinado nível de
institucionalização e que formalmente se apresentam como forças políticas com
vontade de competir eleitoralmente, aceitando as regras do jogo democrático
(ainda que possam criticar alguns dos princípios da democracia liberal). Como
resultado, rejeitarão igualmente qualquer atividade violenta como forma de
impor os seus valores. Esta distinção segue, de resto, o entendimento do
Tribunal Federal Alemão
9
, que vê os partidos de extrema-direita como aqueles que adotam uma postura
violenta, antidemocrática e anticonstitucional, contrapondo-os à já referida
direita radical
10
.
Um dos elementos que mais é relacionado com a direita radical é o caráter
populista das suas propostas e declarações políticas. Também sobre o populismo
se tornou difícil encontrar, na literatura, um consenso alargado em torno da
sua definição: autores como Cas Mudde
11
assumem o populismo como uma característica ideológica que potencia e justifica
o caráter de protesto destes partidos, o seu posicionamento antissistémico ou
as críticas que desenvolvem à democracia liberal; outros, como Mény e Surel
12
, referem-se ao populismo como «an empty shell which can be filled and made
meaningful by whatever is poured into it». De facto, e como Margaret Canovan
13
questiona, é duvidoso que se possa considerar que a retórica populista provém
de um projeto ideológico abrangente e assertivo, nem que seja pelo facto de que
as posições populistas são por norma reativas, contestando outras propostas de
fundo positivo. Reconhecendo-se a sua capacidade de adaptação aos mais
distintos contextos e propósitos, entender-se-á o populismo como um estilo de
retórica política utilizado com o objetivo de mobilizar o eleitorado contra a
estrutura de poder em vigor na sociedade e seus respetivos valores, pretendendo
colocar a população comum como a nova base de legitimidade
14
. Por tais motivos não teremos em conta neste artigo movimentos como o 5
Estrelas italiano ou a Alternativa para a Alemanha, cuja localização no espetro
não é consensual pela sua forte matriz populista.15
O aumento dos estudos sobre este fenómeno poderá ser visto como algo
desproporcionado
17
, tendo em conta que em contexto nacional a maioria destes partidos não alcança
sequer a barreira dos dez por cento do total de votos. Tal relevância tem
surgido em resultado da projeção que diversos projetos desta natureza têm vindo
a adquirir com o impacto da crise económica e financeira nos contextos
nacionais, agudizada por uma crescente desconfiança dos eleitores nas
instituições e atores democráticos. Perante o surgimento de um conjunto de
alternativas políticas que questionam e colidem com o atual sistema europeu, a
comunicação social tem dedicado um maior tempo de antena a cobrir o avanço
destes partidos, que têm por seu lado tentado adequar o seu discurso a um
segmento do eleitorado mais alargado e menos radicalizado. Será decerto
realista, por estes motivos e pela própria natureza das eleições europeias,
prever ganhos para a direita radical no ato eleitoral que se avizinha. Contudo,
aquilo que é visto por alguns como um desenvolvimento relevante na política
europeia, é na realidade um fenómeno que tem convivido com as instituições
europeias desde a década de 1980, com níveis variados de visibilidade e
obstáculos idiossincráticos que importa não ignorar.
Desafios Do Passado, Lições Para O Futuro?
A existência de um grupo político de direita radical recua a 1984, quando pela
mão da Frente Nacional francesa (FN), do Movimento Sociale Italiano (MSI) e do
grego EPEN é constituída a primeira colaboração de partidos desta ideologia
oficialmente reconhecida em contexto europeu, sob a designação de Group of the
European Right (GER). Desde então, e até aos dias de hoje, diversas têm sido as
iniciativas dentro e fora do pe que passaram por encorajar a construção de
pontes entre os diversos movimentos e partidos deste campo ideológico. Porém,
nenhuma delas resultou numa base de cooperação duradoura.
Alguns dos motivos são decorrentes da grande instabilidade eleitoral que a
maioria destas forças políticas enfrenta durante o seu percurso político, e da
forma como a conjuntura social e económica afeta os seus resultados nas urnas.
Por força destes fatores, as regras que reconhecem oficialmente os grupos
políticos no PE são historicamente o grande inimigo externo da direita radical:
na grande maioria dos casos, a dissolução dessas efémeras plataformas de
colaboração deve-se oficialmente à impossibilidade de estas respeitarem as
quotas mínimas necessárias por regulamento
18
. Por exemplo, a dissolução do GER após o ato eleitoral de 1989 foi
consequência, em última instância, da perda de todos os mandatos conquistados
pelo EPEN grego nas urnas cinco anos antes, algo que não viria a ser compensado
pela entrada de outras forças partidárias. Em 2007, a adesão da Bulgária e da
Roménia possibilita a criação de uma nova plataforma através da importante
contribuição dos eurodeputados desses dois países e, mais uma vez, do dinamismo
da FN francesa
19
. No entanto, o grupo Identity, Tradition, Sovereignty (ITS) viria a durar
somente dez meses, depois de o contingente romeno (o mais relevante da
plataforma em conjunto com o francês) se ter retirado na sequência de
declarações alegadamente racistas e insultuosas por parte de Alessandra
Mussolini, colega de grupo eleita pela Alternativa Sociale italiana. Tal cisão
levou a que o ITS deixasse de alcançar o número mínimo de membros no PE para
que fosse oficialmente considerado um grupo político
20
.
O facto de a direita radical ter, em termos de eurodeputados, estado sempre
imediatamente acima ou abaixo das quotas definidas pelos regulamentos
influenciou de modo relevante a sua maior ou menor visibilidade no Parlamento,
algo que se viria a refletir no impacto efetivo da presença destes
eurodeputados nos trabalhos do PE. No entanto, nem sempre essa irrelevância se
deve a fatores externos. De facto, a curta duração das plataformas de
entendimento destes partidos teria sido igualmente motivada, como se pôde notar
num dos casos referidos anteriormente, por uma considerável instabilidade
interna que estes grupos sentem de forma particular. O sentimento de
desconfiança e a falta de coesão interna têm sido elementos constantes nos
projetos dinamizados pela direita radical para assegurar uma intervenção mais
efetiva nos trabalhos do PE.
A dissolução do GER no final da década de 1980, já mencionada, terá ficado
informalmente ligada à impossibilidade de o MSI italiano, um dos seus
fundadores, de trabalhar com o Partido Republicano alemão (PR) ' que elegera
eurodeputados pela primeira vez ' devido a discordâncias insolúveis
relacionadas com questões territoriais na região do Tirol. O facto de os
eurodeputados alemães não terem integrado as fileiras do GER levou a que este
fosse dissolvido. No entanto, um outro grupo político viria a ser criado de
imediato nesse mesmo ano, denominado Technical Group of the European Right
(TGER). Na realidade, tal formação não seria mais do que uma maneira de afastar
o partido italiano a favor da força política alemã, que se juntaria assim à FN
francesa e a mais um conjunto de eurodeputados dispersos na nova plataforma. O
TGER viria a dissolver-se em 1994 depois de o PR alemão ter perdido a
totalidade dos mandatos que obtivera cinco anos antes.
Jogos de bastidores e desconfiança política contribuíram assim ativamente para
o insucesso da direita radical em alcançar a existência de um grupo político
ativo e interveniente. Na década de 1990, perante a impossibilidade de criar
uma nova plataforma no interior do pe devido ao número insuficiente de
eurodeputados, o líder da FN francesa, Jean Marie Le Pen, tenta criar um proto-
europartido de nome Euronat,para o qual convidou o PR alemão e a Alleanza
Nazionale (sucessora do msi italiano). O primeiro partido recusou participar
oficialmente nesse novo projeto, o segundo relembrou o insucesso da colaboração
entre a FN e o MSI na década anterior como razão para recusar o convite de Le
Pen. Diversos outros partidos foram igualmente convidados, tendo os mais
relevantes recusado participar nessa plataforma europeia. Tal decisão esconde
duas outras razões para o insucesso da direita radical em contexto europeu: a
imagem externa destes partidos junto do eleitorado e as suas idiossincrasias
enquanto estruturas organizativas.
A direita radical, enquanto campo ideológico, tem-se debatido com a indecisão
fundamental que opõe o desenvolvimento de uma retórica antissistémica a uma
imagem de credibilidade que a posicione mais favoravelmente na arena política
nacional e possibilite o acesso a postos de poder e a lugares nas assembleias
nacionais, que lhes abrirá por sua vez caminho a mais recursos e exposição
pública
21
. A recusa repetida de alguns partidos europeus em colaborar neste tipo de
projetos por receio de que essa ação prejudicasse a sua imagem resulta de uma
particular dificuldade que estas forças políticas sentem em conciliar a
estratégia nacional de crescimento político com os custos inerentes à
cooperação com outras formações europeias menos integradas no debate político
tradicional. Será de notar que ao lado da FN francesa foi inexistente a
presença de partidos como o FPÖ austríaco
22
ou o Partido do Povo dinamarquês, partidos ativos no PE e influentes no
contexto nacional, integrados de forma completa no debate político tradicional
ao lado das restantes forças políticas do espetro e que optaram sempre por
integrar outros projetos eurocéticos. Facilmente se verificará que a FN
trabalhou em geral, com assinaláveis exceções, ao lado de formações políticas
mais residuais nos seus países de origem. A carga negativa que a imagem da FN
tem vindo a suportar ao longo da sua história junto do mainstreampolítico no
continente europeu dificultou os contactos deste partido com forças políticas
que estariam próximas do seu perfil ideológico mas que usufruíam de uma
possibilidade real de chegar a cargos de poder (nos seus parlamentos ou mesmo
em fórmulas governativas). Ainda assim, o partido francês afirmou-se ao longo
das décadas como o principal motor de grande parte das plataformas de
entendimento no extremo direito do espetro, espelhando a estabilidade e a
solidez organizativas daquela que é, historicamente, uma das mais duradouras e
influentes organizações deste quadrante político no continente europeu
23,24
. De assinalar, em particular, o apoio financeiro e técnico que a FN terá
fornecido, em contexto de eleições nacionais, a várias forças políticas
europeias com estruturas partidárias mais débeis
25
.
Essa solidez estrutural é algo pouco comum na direita radical europeia. O
processo de institucionalização num plano nacional é, por si só, um período
difícil do percurso destes partidos, especialmente vulneráveis a cisões e
expostos à existência de diferentes fações internas que podem de forma realista
imobilizar toda a estrutura. A literatura tem reconhecido em tais formações
políticas a existência de um conjunto muito distinto de grupos de militantes '
dos mais moderados aos mais violentos e extremistas, passando por aqueles que
se aproveitam politicamente do sucesso conjuntural destes partidos
26
. O nível de coesão interna, desafio fundamental para a direita radical, irá
determinar a sua capacidade e eficácia em atrair mais votos: do ponto de vista
do eleitor, não seria racional votar numa alternativa cuja coesão e
estabilidade são questionáveis
27
. A estas dificuldades juntam-se obstáculos adicionais impostos frequentemente
por uma arena partidária pouco recetiva à existência de tais partidos. A
presença de Jean Marie Le Pen à frente dos projetos de cooperação europeia
desde a década de 1980 é como tal previsível, dados os recursos humanos e
financeiros que o seu partido tinha à sua disposição, ímpares num contexto de
grande instabilidade estrutural das restantes forças de direita radical.
As fragilidades internas destes partidos transpareceram nas dificuldades de
construção de uma plataforma europeia de entendimentos, que ficaram assim
reféns de projetos pessoais de ascensão política. Comum aos partidos de direita
radical um pouco por todo o continente europeu é a forte incidência de líderes
carismáticos
28,29
, e tal característica estrutural viria a influenciar consideravelmente os
destinos das iniciativas num plano supranacional. Personalidades políticas como
o austríaco Jörg Haider, o italiano Gianfranco Fini e os franceses Bruno
Gollnisch e Jean Marie Le Pen foram os mentores dos principais projetos que
surgiram ao longo dos anos, mas curiosamente nunca se cruzaram ou convergiram
numa mesma frente. Poderemos desta forma concluir que todas as plataformas de
cooperação que foram emergindo nas últimas três décadas não passaram, por
ventura, de projetos pessoais que visariam a consolidação de posições e a
autonomeação enquanto figura de proa de uma nova realidade supranacional. O
choque de personalidades, em conjunto com o já referido marketingpolítico,
terão afastado as principais personalidades da direita radical europeia da
possibilidade de se sentarem numa mesma cúpula dirigente ao longo dos anos.
Ainda que diversos projetos tenham sido criados e desenvolvidos, durante um
maior ou menor espaço de tempo ' e por vezes antagonizando-se numa luta pelo
título de legítimos representantes deste quadrante político ', o perfil de tais
iniciativas tem demonstrado nos últimos anos uma grande proximidade ideológica.
O tom eurocético do discurso e programa políticos afasta-se do perfil
entusiasta com que a direita radical se apresentou nos anos 1980, quando
defendia a integração (e militarização) europeia como contraponto ao perigo
soviético, onde se incluía a aproximação a uma Europa do Sul empobrecida. O fim
da Guerra Fria e principalmente a assinatura do Tratado de Maastricht
acompanham uma retórica crescentemente eurocética, que se caracteriza até aos
dias de hoje pela recusa na criação e centralização do poder num super-Estado
europeu, o respeito e a defesa da soberania dos estados nacionais e da primazia
do voto direto do eleitorado sobre as estruturas burocráticas, a proteção da
Europa contra ameaças externas (onde incluem o imperialismo socioeconómico e
religioso), a ajuda aos países em desenvolvimento como forma de combater o
fluxo imigratório e o incentivo a políticas que apoiem as famílias e os valores
tradicionais e invertam o défice demográfico.
Ideologicamente, as posições políticas da direita radical são em grande medida
uma adaptação daquilo que já defendem em contexto nacional, que não deixará de
ser o seu habitat natural. Enquanto o ideário fascista acreditava no conceito
de supremacia racial, tal noção não recolheu aceitação por parte dos atuais
partidos da direita radical, porque não defendem que as nações sejam
geneticamente determinadas. Assim, em vez de superiores ou inferiores, as
nações são apenas diferentes, devendo viver cada uma no seu território sem
intervenção exterior
30
. Cas Mudde aprofunda um pouco mais esta conceção com a noção de nativismo
«enquanto ideologia, de acordo com a qual os estados devem ser habitados
exclusivamente por membros do grupo nativo (a nação') e os elementos não-
nativos (pessoas e ideias) são, essencialmente, uma ameaça aos estados-nação
homogéneos»
31
. Esta posição ajudará a compreender o posicionamento relativo da direita
radical no projeto europeu e o contexto das suas propostas quanto à política
migratória. De resto, esta dicotomia fundamental entre o «Nós» e o «Outro»
estará na base da maioria das suas posições políticas.
Direita Radical E O Esforço De Cooperação: Sucesso Contranatura?
Tendo em consideração os importantes desafios que a direita radical enfrentou
ao longo das décadas de modo a conseguir alguma forma de cooperação no contexto
das instituições europeias, será pertinente questionarmo-nos sobre a realidade
das perspetivas de sucesso que diversos analistas têm antevido para o projeto
que tais forças políticas têm desenvolvido no contexto das próximas eleições
europeias. O que tem 2014 de diferente? O que mudou?
Inevitavelmente, a relevância eleitoral que algumas sondagens atribuem à
direita radical nas próximas eleições em alguns dos estados-membros mais
populosos deixa antever um aumento do número de eurodeputados provenientes de
formações no extremo direito do espetro. A conjuntura social e económica
difícil que se apresenta aos eleitores, a inexistência de alternativas fortes e
credíveis no mainstreampolítico (após um movimento de convergência ao centro),
a tradicional utilização deste ato eleitoral como forma de punir os partidos do
arco governativo
32
e o uso frequente de ferramentas populistas por parte das lideranças da direita
radical criaram um clima favorável ao alargamento da base de apoio dos partidos
em análise. Contudo, poderemos também considerar elementos internos aos
próprios partidos como igualmente importantes para justificar a sua relevância
eleitoral, nomeadamente o seu grau de institucionalização nos respetivos
sistemas partidários nacionais. Daí que não esteja prevista a ascensão
eleitoral deste tipo de partidos em países como Portugal, Espanha ou Eslovénia,
particularmente afetados pela recente crise económica, ao contrário do que
provavelmente acontecerá em outros estados-membros, como a França, a Holanda, a
Áustria e a Dinamarca, onde a presença relevante de partidos da direita radical
tem sido contínua durante as últimas décadas.
Será ainda de notar que as caras da direita radical não são, agora, as mesmas
que impulsionaram no passado, e sem sucesso, projetos desta natureza. Jörg
Haider já não lidera o austríaco FPÖ
33
, Jean Marie Le Pen já não lidera a fn francesa. Ambos os partidos encontram-se
bem posicionados nas intenções de voto para as próximas eleições europeias nos
respetivos países. De certa forma, a direita radical adquiriu nos últimos anos
uma maior capacidade de ser aceite pela opinião pública como uma alternativa
séria, através de um esforço de credibilização da sua imagem externa
34
(e em alguma medida através de uma maior moderação discursiva). A recente
mediatização de uma nova iniciativa de cooperação europeia, impulsionada pelos
líderes da FN e do PVV holandês, Marine Le Pen e Geert Wilders, poderá ser
vista como uma nova tentativa de demonstrar que o discurso antissistémico não
implica o isolamento destas forças políticas e que existe uma corrente comum a
diversos estados-membros que se coloca contra um status quocada vez mais
desacreditado do ponto de vista do eleitorado.
Uma maior exposição mediática permitiu igualmente a este quadrante político
impor a sua agenda política perante a inação e cumplicidade das principais
famílias políticas europeias. Facilmente se notará que os principais temas que
têm antecedido a campanha para as eleições europeias ' a reforma das
instituições europeias e a questão migratória ' são ambas pontos fundamentais
do discurso político das lideranças de direita radical. Exemplos claros poder-
se-ão verificar nos debates nacionais de países como o Reino Unido, a França, a
Alemanha, e mesmo a Suíça que, não integrando a UE, incendiou o discurso sobre
a migração e a liberdade de movimento através dos resultados de um referendo
sobre o tema realizado em fevereiro de 2014. Diversos partidos conservadores
têm-se limitado a reagir às iniciativas e declarações políticas com que a
direita radical ilustra a sua crescente presença nos mediainternacionais,
transferindo para esta o lugar de proa na discussão política. Da mesma forma, a
direita tradicional tem adotado, de forma conjuntural e com graus diversos de
sucesso, posições que se aproximam das principais bandeiras eleitorais da
direita radical, numa tentativa de impedir a fuga do eleitorado para uma
alternativa que não esteja conotada com o sistema em vigor.
Ainda assim, diversos desafios poder-se-ão perspetivar no horizonte da direita
radical europeia, mesmo que consigam alcançar, no seu todo, um resultado mais
relevante nas urnas do que em atos eleitorais anteriores.
O primeiro será a criação de factode um grupo político que preencha os
requisitos mínimos para que seja reconhecido pelo PE como tal. Dado que a
existência oficial de um grupo político permite a obtenção de subvenções e
tempo de intervenção no plenário, para além de lugares nas comissões, este será
um passo lógico e importante se estes partidos quiserem influenciar de forma
efetiva os trabalhos das instituições europeias. Ainda que seja realista prever
um aumento do número de eurodeputados, não é garantido que a iniciativa Le Pen/
Wilders consiga representantes de pelo menos sete estados-membros
35
.
A estabilidade e coesão do grupo político é outro elemento que poderá
constituir um desafio para a atividade da direita radical no contexto do PE.
Como já anteriormente referido, as estruturas organizativas de direita radical,
em contexto nacional, são particularmente afetadas por cisões e fações que se
criam no seu interior, e ainda mais se se verificar a ausência de uma liderança
clara e consensual. No plano supranacional, as análises existentes apontam para
níveis mais reduzidos de coesão interna dos grupos políticos que têm estado até
ao momento mais próximos da direita radical, quando comparados com os restantes
grupos políticos com assento parlamentar
36
. Assim sendo, no contexto geral, enquanto que o PE é caracterizado por níveis
elevados de coesão no interior dos grupos políticos, o mesmo não se verifica no
European of Freedom and Democracy (EFD), grupo mais à direita atualmente
representado no PE. A grande variação ideológica dos partidos que compõem esse
grupo, assim como os traços nacionalistas que abundam nos seus respetivos
perfis, serão certamente elementos a ter em consideração numa tentativa de
justificar tais diferenças. O voto torna-se nestes casos mais disperso e a
capacidade de afirmação do grupo político tende a reduzir-se, assim como o
interesse individual de cada membro adquire maior relevância, algo que levará a
um maior potencial de crispação. Tendo em conta as características particulares
da direita radical já referidas, tanto em contexto nacional como a nível
europeu, existe possibilidade real de que um cenário semelhante se reproduzisse
em novas plataformas de cooperação. Ainda que o esforço de relativizar as
diferenças e convergir num conjunto de críticas à UE possa surtir efeitos no
imediato, a história da direita radical europeia já demonstrou a volatilidade e
a dificuldade que este tipo de plataformas encontra para garantir estabilidade
e continuidade na sua atividade. Ficou já demonstrado que questões territoriais
e étnicas são realisticamente temas que podem provocar tensões internas no
contexto deste campo político, em particular se aos partidos da Europa
Ocidental se juntarem forças políticas da Europa. Central e de Leste, regiões
onde velhas feridas identitárias não se encontram ainda saradas por completo. E
ainda que concordem nas premissas gerais de questões centrais como o projeto
europeu ou os fluxos migratórios, o grau de radicalismo entre partidos é
consideravelmente variado. Enquanto algumas formações defendem, por exemplo, a
saída dos seus respetivos países da UE (como a FN francesa, o PVV holandês ou o
UKIP britânico), outros pretendem somente reformá-la (caso do FPÖ austríaco ou
do VB belga); enquanto alguns defendem uma relação transatlântica sólida com os
Estados Unidos (PVV e UKIP), outros são historicamente contra a dominação
norte-americana (FN e Lega Nord italiana). Mesmo em questões socioeconómicas
relativas ao Estado-Providência ou incidência de tributações as diferenças são
relevantes, embora em todos os casos tais partidos coloquem como prioridade o
interesse nacional em relação ao princípio da solidariedade europeia
37
.
Por outro lado, nem sempre essa instabilidade parte somente do interior das
estruturas em questão. De facto, a existência de outras correntes políticas no
PE que se aproximam ideologicamente da direita radical tem contribuído
igualmente para uma grande indefinição no extremo direito do espetro. Desde a
década de 1980 que outros grupos ocupam uma zona ténue de fronteira entre os
conservadores e a direita radical ' ainda que ideologicamente se aproximem
desta, por razões de imagem ou de liderança optam por não colaborar com um
grupo que transporta tradicionalmente uma maior carga negativa junto da opinião
pública. Nestas plataformas participaram ao longo do tempo partidos como o UKIP
britânico, o partido Lei e Justiça polaco e o Partido do Povo dinamarquês, mas
também forças centristas como Fianna Fáil irlandês e o CDS-PP português durante
a sua era mais eurocética, nos anos 1990. Tais plataformas ' que à semelhança
das iniciativas de direita radical também se foram alterando em termos de
denominação e composição ' representavam uma forma de os partidos que as
compunham terem acesso às regalias dos grupos políticos oficialmente
reconhecidos, mas eram também iniciativas particularmente heterogéneas. Na sua
maioria, tais grupos políticos têm sido constituídos por partidos que,
consoante os seus contextos nacionais, navegam entre a direita tradicional e o
extremo direito do espetro. No último mandato do Pe, poderemos considerar nesta
categoria o já referido EFD, mas também o European Conservatives and Reformists
(ECR), de que fazem parte o Partido Conservador britânico e o polaco Lei e
Justiça de Jaros´law Kaczy´nski.
A criação de um novo grupo político de direita radical, liderado por Marine Le
Pen e Geert Wilders, poderá por ventura trazer consequências para os grupos de
si mais próximos e que já possuem assento no PE, nomeadamente através de um
possível esvaziamento dos mesmos. O EFD, que é atualmente composto por 34
eurodeputados, poderá ser particularmente afetado: ainda que o UKIP britânico e
o Partido do Povo dinamarquês (geralmente vistos como pertencendo à direita
radical) já tenham recusado publicamente vir a aderir à iniciativa liderada por
Le Pen e Wilders, outros como a Lega Nord italiana poderão sair para se juntar
à nova formação
38
. A sobrevivência do EFD poderia, em teoria, ficar refém das delegações
britânica e dinamarquesa, para além de alguns eurodeputados que pertencem ao
grupo a título individual.
A competição entre diversos projetos políticos no interior do PE conotados com
o extremo direito do espetro político, nomeadamente através da angariação de
membros mas também na procura de protagonismo mediático, poderá provocar uma
maior crispação entre forças que estão ideologicamente próximas na sua crítica
ao projeto europeu, o que por sua vez levará ao enfraquecimento da sua posição
junto das demais forças políticas. Tendo em conta a crescente atenção que os
órgãos de comunicação têm concedido à direita radical, o perfil das lideranças
carismáticas poderá mais uma vez afetar negativamente a construção de pontes de
cooperação. Perante a recusa do líder do britânico UKIP, Nigel Farage, em
aceitar o repto de Marine Le Pen para que integrasse a nova plataforma, a líder
da FN francesa alegou que por detrás de tal decisão se encontraria o
desconforto do britânico em vê-la afirmar-se como líder da corrente eurocética,
ensombrando o protagonismo de que Nigel Farage tem beneficiado no contexto
europeu
39
, com repercussões também no eleitorado do Reino Unido. Por outro lado, mesmo
de entre as forças que já decidiram ou mostraram abertura para integrar o novo
grupo de direita radical, a liderança e protagonismo da FN poderá causar mal-
estar aos militantes dos demais partidos que, como referido anteriormente, são
de índole diversa. Ainda que existam esforços de convergência, o PVV e em
especial o FP possuem imagens internas e interesses específicos que importará
manter longe da liderança de Le Pen. O processo de formação de um grupo
político significa um esforço de convergência e de vontades que se torna ainda
maior devido à natureza deste tipo de partidos. A credibilização da imagem
externa que se encontra em curso obriga a um maior cuidado com declarações
públicas, mas também com possíveis acordos no âmbito desta cooperação europeia
' a título de exemplo estará o afastamento que a FN tem promovido em relação a
forças com ligações ao extremismo e fascismo de direita, como é o caso do
Jobbik húngaro e do Golden Dawn grego.
Tal processo de distanciamento havia começado assim que Marine Le Pen
substituiu o seu pai na liderança do partido francês em 2011. Recorrendo às
mesmas técnicas populistas que o seu antecessor, Marine Le Pen desde logo porém
se preocupou em mostrar ao eleitorado uma maior moderação discursiva e uma
quebra com o estilo inflamado do fundador da FN. Aliou-se a intelectuais de
direita para revestir essa aparente moderação de firmeza teórica, nomeadamente
na abordagem ao tema da imigração e na expansão da sua base programática, ainda
que continuassem visíveis ligações prévias ao poujadismoe ao republicanismo
40,41
. Essa mudança de estratégia por si impulsionada foi posteriormente secundada
por elementos relacionados com a vida política francesa, como a grande
instabilidade social e económica verificada e a impopularidade do então
Presidente Nicolas Sarkozy, que tentava simultaneamente apoderar-se de temas
que pertenciam tradicionalmente à FN
42
. O processo resultou numa progressiva aceitação deste partido na cena política
e o fim da sua condição enquanto pária do sistema partidário
43
.
Jean Marie Le Pen foi o responsável pela durabilidade e sucesso do processo de
institucionalização do partido que fundara ' algo pouco comum para a direita
radical ' mas as suas posições mais extremadas (incluindo uma linguagem
inflamada e mensagens de origem racista
44
) afetaram a sua credibilidade e encontraram na Europa, por sua vez,
interlocutores que os académicos colocam para lá da direita radical
45
. Em 2009, tornou-se o mentor de um novo europartido, a Alliance of European
National Movements (AENM), que sob a liderança do seu número dois, Bruno
Gollnisch, pressuporia a criação de um grupo político no interior do pe após as
eleições de 2014. Dessa plataforma fazem atualmente parte forças como o Jobbik
húngaro, o britânico BNP e o português PNR, entre outros. Marine Le Pen aderiu
por sua vez, a título individual, a um outro projeto político supranacional, o
European Alliance for Freedom (EAF) ' que serve de base partidária para a nova
iniciativa promovida em conjunto com Geert Wilders. Após um período de
indefinição, em que a fn se encontrava representada em dois europartidos
distintos, e naquilo que poderá ser visto como uma demonstração de afirmação
política, Marine Le Pen terá ordenado ao seu pai e a Bruno Gollnisch ' contra
quem tinha concorrido à liderança da fn em 2011 ' que abandonassem a AENM e se
juntassem a si na EAF. Como forma de garantir a inexistência de ambiguidades
que pudessem colocar em causa o exercício de limpeza de imagem, o eaf decidiu
igualmente bloquear qualquer tentativa de adesão de partidos extremistas à
referida plataforma.
Apesar destes esforços de moderação, um novo grupo político de direita radical
poderá igualmente enfrentar a oposição dos demais grupos presentes no PE. Em
contexto nacional, são vários os exemplos de sistemas partidários em que o
mainstream político relegou os partidos em questão para as margens do debate
político, geralmente através do denominado cordon sanitaire, ou seja, a
rejeição de qualquer acordo ou cooperação de modo a forçar um dado partido a
ser totalmente marginalizado dos processos políticos mais relevantes. Em
contexto europeu, tal aconteceu já ao ITS
' efémero grupo político de direita radical liderado pela FN em 2007 ' quando
os restantes eurodeputados conseguiram excluir os membros dessa plataforma dos
lugares relevantes das comissões do PE. Ainda que formalmente o PE não tenha
conseguido impedir que o ITS obtivesse acesso a subvenções provenientes do seu
orçamento destinados à sua atividade diária, os eurodeputados conseguiram
ultrapassar as regras que atribuem os lugares nas comissões de acordo com a
dimensão dos grupos parlamentares (que daria ao ITS pelo menos duas vice-
presidências). A importância dos lugares nas comissões prende-se com a
capacidade que as suas lideranças possuem de estabelecer a agenda dos trabalhos
do pe
46
. Duas décadas antes, em julho de 1989, uma anomalia nos procedimentos do PE
permitiu a Claude Autant-Lara, eurodeputado eleito nas fileiras da FN, presidir
à abertura da nova composição parlamentar. Tal acontecimento levaria a que mais
de metade dos restantes eurodeputados abandonasse o hemiciclo.
Conclusões
São desta forma diversos e complexos os desafios que a direita radical enfrenta
na sequência das próximas eleições europeias. Ainda que consiga alcançar nas
urnas um maior número de eurodeputados, tal feito não significará
automaticamente uma maior influência no processo de decision-making, dada a
ausência de direitos concedidos aos eurodeputados que não se encontram
integrados em grupos políticos (isto é, que se encontram na categoria dos não-
inscritos, como é tradicionalmente o caso da maioria dos representantes da
direita radical). Tendo em conta as fragilidades estruturais daqueles que
poderão ser os membros desta nova iniciativa, as subvenções europeias e o palco
mediático que o PE constitui poderão ser instrumentos importantes para combater
a resistência que o eleitorado apresenta, ainda assim, à mensagem da direita
radical um pouco por todo o continente europeu. Por outro lado, e ainda que o
desenvolvimento estrutural dos europartidos continue numa fase embrionária
47
, o reconhecimento da sua importância por via dos tratados
48
e de outros instrumentos levaram a direita radical europeia a emergir numa
causa da qual é intrinsecamente crítica. As organizações supranacionais que
congregam partidos de base nacional beneficiam atualmente de um conjunto de
recursos humanos e financeiros dos quais não dispunham na década anterior,
assim como de uma exposição pública mais consistente. A importância que o
Tratado de Maastricht concedeu a uma arena partidária supranacional solidificou
a relação entre partidos políticos e instituições europeias, ainda que a
afirmação inscrita no Tratado não possua em si valor operacional
49
. O paradoxo poderá tornar-se então evidente se o projeto europeu, com as suas
inerentes fragilidades, se transformar na principal fonte de sucesso,
estabilidade e futuro de tal campo político nos debates políticos nacionais e
supranacionais.
Ainda assim, a arena eleitoral europeia sofreu já alterações desde que o
mainstreampolítico aceitou debater os temas que são centrais para a direita
radical. Elisabeth Carter
50
refere que a pressão exercida pela direita tradicional ao absorver temas que
são os motores do discurso da direita radical produz uma reação contrária na
opinião pública, dado que tal corrente política adquire uma autoridade e
responsabilidade particulares sobre os mesmos. Efetivamente, os partidos que
compõem o extremo direito do espetro político têm conseguido manter-se no
centro do debate político através dos temas que se tornaram os principais
assuntos da pré-campanha eleitoral. Para além disso, a forma como o
mainstreampolítico se comprometeu e convergiu, no seu conjunto, em relação às
principais políticas económicas que têm acompanhado a crise social e económica
vivida em muitos dos estados-membros concedeu espaço político e eleitoral
suficientes para que a direita radical desenvolvesse a sua retórica
antissistémica, praticando simultaneamente um discurso mais moderado que
procedesse a uma melhoria da sua imagem externa.
Como tal, as eleições europeias foram já um momento de mudança na arena
política, ainda que possivelmente não resulte em mudanças imediatas no processo
decisional europeu. Mesmo que a direita radical não obtenha sucesso na criação
de uma frente estável e ativa no interior do PE, conseguiu avançar de forma
relevante no seu processo de rejuvenescimento e alargamento da sua base
eleitoral. A centralidade que as decisões e instituições europeias adquiriram
junto da opinião pública nos últimos anos levaram a que a exposição mediática
dos principais líderes europeus da direita radical, em conjunto com a sua
retórica antissistémica, atraísse a atenção de grupos mais alargados do
eleitorado. Ainda que os resultados dessa incursão possam não ser totalmente
visíveis após as próximas eleições europeias, serão certamente relevantes, a
médio e longo prazo, nos processos de institucionalização e implementação da
direita radical nas respetivas arenas políticas nacionais.
Data de receção: 15 de março de 2014| Data de aprovaçao: 1 de abril de 2014
Notas
1
Goetz, Klaus H., e Hix, Simon ' «Introduction: European integration and
national political systems». In West European Politics. Vol. 23, N.º 4, 2000,
pp. 1-26.
2
Inglehart, Ronald, e Flanagan, Scott ' «Value change in industrial societies».
In The American Political Science Review. Vol. 81, N.º 4, 1987, pp. 1289-1319.
3
Mudde, Cas ' «The Far Right and the European Elections». In Current History.
Vol. 113, N.º 761, 2014, pp. 98-103.
4
Ignazi, Piero ' «The silent counter-revolution: hypotheses on the emergence
right-wing parties in Europe». In European Journal of Political Research. Vol.
22, 1992, pp. 3-34.
5
Carter, Elisabeth ' The Extreme Right in Western Europe: Success or Failure?.
Manchester: Manchester University Press, 2005.
6
Norris, Pippa ' Radical Right: Voters and Parties in the Electoral Market. Nova
York: Cambridge University Press, 2005.
7
Carter, Elisabeth ' The Extreme Right in Western Europe: Success or Failure?,
p. 21; Norris, Pippa ' Radical Right: Voters and Parties in
the Electoral Market. Nova York: Cambridge University Press, 2005 [p. 44].
8
Tal facto tem dificultado a obtenção de conclusões coerentes entre diferentes
estudos, dado que o universo considerado é instável e a amosta muito variável.
9
O mesmo tribunal tem declarado a extinção de partidos extremistas mas não
radicais, mantendo o debate sobre a legalidade de alguns partidos ainda ativos
na Alemanha.
10
Carter, Elisabeth ' The Extreme Right in Western Europe: Success or
Failure?
11
Mudde, Cas ' Populist Radical Right in Europe. Nova York: Cambridge University
Press, 2007.
12
Meny, Yves, e Surel, Yves ' Democracies and the Populist Challenge.
Basingstoke: Palgrave, 2002.
13
Canovan, Margaret ' «Taking politics to the people: populism as the ideology of
democracy». In Democracies and the Populist Challenge. Nova York: Palgrave
MacMillan, 2002, pp. 25-44.
14
Betz, Hans-Georg ' «Conditions favouring the success and failure of Radical
Right-Wing Populist parties in contemporary democracies». In Democracies and
the Populist Challenge. Nova York: Palgrave MacMillan, 2002, pp. 197-211.
15
Apenas são considerados os partidos, atualmente em atividade, incluídos neste
artigo.
16Efd: European of Freedom and Democracy; Ecr: European Conservatives and
Reformists; NI: membros não filiados em nenhum grupo político europeu.
17
Mudde, Cas ' «Three decades of populist right parties in Western Europe: so
what?». In European Journal of Political Research. Vol. 52, N.º 1, 2013, pp. 1-
19.
18
«Cada grupo político integrará deputados eleitos em pelo menos um quarto dos
estados-membros. O número mínimo de deputados requerido para a constituição de
um grupo político é de 25». Regimento do Parlamento Europeu ' Título I,
Capítulo 4, Artigo 300.
19
Kroeger, Alix ' EU's Surprise Far-Right Coalition [Consultado em: 2 de março de
2014]. Disponível em: http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/europe/
6254945.stm
20
Mahony, Honor ' Far-right European Parliament Group on Verge of Collapse
[Consultado em: 2 de março de 2014]. Disponível em: http://euobserver.com/
political
21
Norris, Pippa ' Radical Right: Voters and Parties in the Electoral Market.
22
Este partido viria a tentar criar o seu próprio projeto de cooperação europeia
em contraponto com a liderança de Le Pen, igualmente sem sucesso.
23
Em termos de longevidade, a liderança cabe ainda ao msi italiano que
contabilizou quarenta e nove anos de existência entre a sua fundação e
dissolução (1946-1995), enquanto a fn francesa celebra à data deste artigo
quarenta e dois anos (19722014). A formação italiana foi de resto uma das
referências de Le Pen na fundação do seu partido.
24
Mudde, Cas ' Populist Radical Right in Europe, 2007.
25
Ibidem.
26
Art, David ' Inside the Radical Right: The Development of Anti-Immigrant
Parties in Western Europe. Nova York: Cambridge University Press, 2011.
27
Betz, Hans-Georg ' «Conditions favouring the success and failure of Radical
Right-Wing Populist parties in contemporary democracies». In Democracies and
the Populist Challenge. Nova York: Palgrave MacMillan, 2002, pp. 197-211.
28
Panebianco, Angelo ' Political Parties: Organization and Power. Cambridge:
Cambridge University Press, 1988.
29
Pedhazur, Ami, e Brichta, Avraham' «The institutionalization of Extreme Right-
Wing charismatic parties: a paradox?». In Party Politics. Vol. 8, N.º 1, 2002,
pp. 31-49.
30
Eat well, Roger ' «The rebirth of the extreme right in Western Europe?». In
Parliamentary Affairs. Vol. 53, N.º 3, 2000, pp. 407-425.
31
Mudde, Cas ' Populist Radical Right in Europe. Nova York: Cambridge University
Press. 2007, p.19.
32
Jones, Erik, Menon, Anand, e Weatherill, Stephen (org.) ' Oxford Handbook of
the European Union. Oxford: Oxford University Press, 2012.
33
Jörg Haider viria a sair do fpö em 2005 para criar uma nova formação
partidária, o bzö, que liderou até à sua morte inesperada, em 2008. Tal cisão
ficou a dever-se a uma crescente contestação interna resultante de maus
resultados eleitorais que o partido registou após a sua passagem pelo governo
austríaco.
34
Marine Le Pen terá ameaçado levar a tribunal quem se referisse à fn como sendo
de extrema-direita: Licourt, Julien ' Le FN est-il d'extrême-droite?[Consultado
em: 8 de março de 2014]. Disponível em: http://www.lefigaro.fr/politique/2013/
10/02/01002-20131002ARTFIG00525-marine-le-pen-conteste-l-etiquette-extreme-
droite--accolee-au-fn.php
35
Le Pen e Geert Wilders terão contactado representantes do fpö austríaco, do vb
belga, da Lega Nord italiana e dos sd suecos.
36
Morris, Marley ' Conflicted Politicians: The Populist Radical Right in the
European Parliament. [Consultado em: 10 de março de 2014]. Disponível em: http:
//counter-point.uk.com/wp-content/uploads/2013/06/Conflicted-politicians-the-
populist-radical-right-in-the-Euro-pean-Parliament.pdf
37
Mudde, Cas ' The Le Pen-Wilders Alliance and the European Parliament: Plus ça
change, plus la meme chose. [Consultado em: 6 de março de 2014]. Disponível em:
http://www.washingtonpost.com/blogs/monkey-cage/wp/2014/02/11/the-le-pen-
wilders-alliance-and-the-european--parliament-plus-ca-change-plus-cest--la-
meme/
38
Ibidem.
39
Waterfield, Bruno ' France's FN to Team Up with other Far Right Parties for
European Elections. [Consultado em: 1 de março de 2014]. Disponível em: http://
www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/france/10400740/Frances-FN-to--team-
up-with-other-far-Right-parties--for-European-elections.html
40
Williams, Michelle ' «A new era for French far right politics? Comparing the fn
under two Le Pens». In Análise Social. Vol. 46, N.º 4, 2011, pp. 679-695.
41
Shields, James ' «Marine Le Pen and the New FN: a change of style or of
substance?». In Parliamentary Affairs. Vol. 66, N.º 1, 2013, pp. 179-196.
42
Ibidem.
43
Mondon, Aurelien ' «The Front National in the twenty-first century: from Pariah
to Republican Democratic contender?». In Modern & Contemporary France. N.º
22, 2014.
44
Williams, Michelle ' «A new era for French far right politics? Comparing the FN
under two Le Pens».
45
Mudde, Cas ' «The Far Right and the European elections».
46
Far-Right Wing Group Sidelined in European Parliament. In Deutsche Welle, 2 de
fevereiro de 2007. [Consultado em: 2 de março de 2014]. Disponível em: http://
dw.de/p/9nUX
47
A este respeito, Simon Hix refere-se a tais organismos como algo que circula
entre o modelo americano de «parties as empty vessels» e o de «cartel parties»,
cf. Hix, Simon ' «Parties at the European level». In Political Parties in
Advanced Industrial Democracies. Oxford: Oxford University Press, 2002. Mogens Pedersen apresenta os europartidos como confederações
de partidos nacionais e, como tal, pouco autónomos e influentes enquanto
actores do processo decisional: Pedersen, Mogens ' «Euro-parties and European
parties: new arenas, new challenges and new strategies». In The European Union:
How Democratic Is It?. Londres: Sage, 1996.
48
«Os partidos políticos ao nível europeu desempenham um importante papel como
fator de integração na União. Contribuem para a criação de uma consciência
europeia e para a expressão da vontade política dos cidadãos da União» '
Tratado de Maastricht, Arto 138ª.
49
Lightfoot, Simon ' «The consolidation of europarties? The party regulation
and the development of political parties in the European Union». In
Representation. Vol. 42, N.º 4, 2006, pp. 303-314.
50
Carter, Elisabeth ' The Extreme Right in Western Europe: Success or Failure?
Manchester: Manchester University Press. 2005.