A Esquerda Em Vésperas Das Eleições Europeias De 2014
O presente artigo trata da situação, das dinâmicas e do posicionamento face à
União Europeia (UE) das duas famílias partidárias herdeiras da clivagem de
classes: a social-democracia e a esquerda radical
1
. Com mais de cem anos e raízes na mobilização dos assalariados explorados no
seio do capitalismo industrial, a primeira destas famílias dividiu-se no
rescaldo da I Guerra Mundial e da revolução russa de 1917, mas estendeu-se à
Europa Central e Oriental após a queda da urss, passando a acolher diversos
partidos outrora comunistas
2
. Por outro lado, a esquerda radical é uma família bastante mais jovem, que se
tem constituído progressivamente desde finais dos anos 1990. Desde há
relativamente pouco tempo as suas fronteiras externas e internas são objeto de
reflexões no campo da ciência política; apesar dos investigadores divergirem
quanto à tipologia adequada a essa família, concordam quanto à sua emergência
constatando que ocorre no espaço político caótico deixado pelo desmoronamento
da família comunista
3
.
As relações entre a esquerda e a integração europeia são complexas. Ainda antes
de ser Presidente da República Francesa, François Mitterrand apropriou-se da
fórmula «l'Europe sera socialiste ou ne sera pas», para expressar que a Europa
só vingará se for socialista. Além de se ter revelado falsa, o próprio
Mitterrand contribuiu para desmentir essa profecia promovendo o mercado único e
logo a seguir a moeda única. Com efeito, a integração europeia aprofundou-se
consideravelmente desde a década de 1980 mas o ideário socialista caiu nos
limbos. Em certa medida, a UE até passou a ser um problemaestratégico para os
partidos herdeiros do movimento operário. O seu sistema político é
simultaneamente consensual e conservador, enquanto os tratados pelos quais se
rege organizam o primado da integração negativa e da concorrência. Trata-se
portanto de um constrangimento para a esquerda, cujo objetivo consiste em
regular, inclusive em ultrapassar a economia capitalista e em organizar uma
solidariedade entre os povos. Constrangimento tanto mais difícil de descerrar
dada a inexistência de um poder centralizado por conquistar, e dado que
qualquer mudança significativa do quadro europeu necessitaria um processo longo
e conflitual
4
. Posto isto, tanto os social-democratas como os partidos da esquerda radical
aceitaram participar nesse sistema político e, nele, tentarão melhorar a sua
representação parlamentar por ocasião das próximas eleições europeias.
Procurando perceber em que situação e de que maneira a social-democracia e a
esquerda radical vão enfrentar esse desafio, o artigo estrutura-se da seguinte
forma. Dedica-se a cada uma dessas duas famílias da esquerda uma secção onde
são abordados três pontos: as características da família em estudo; a sua
relação com o repto da integração europeia, e os respetivos desempenhos em
eleições europeias. Para concluir, na terceira secção estabelece-se uma
comparação entre ambas estas famílias, examinando tanto as suas divergências
como as suas relações mútuas.
A Social-Democracia na EU
A Situação Da Família Social-Democrata Contemporânea
A família social-democrata é detentora de vários trunfos. Antes de mais, os
seus membros apresentam altos níveis eleitorais por toda a UE, salvo algumas
exceções notórias, cuja mais impressionante é a Letónia onde a social-
democracia quase passou a estar ausente. Mais recentemente, também foram fracas
as percentagens obtidas (cerca de dez por cento dos votos expressos) quando das
eleições em Chipre, na Polónia e na Eslovénia. Na Grécia, o PASOK perdeu o seu
estatuto de principal força de alternância e de primeira força da esquerda a
favor do SYRIZA, a coligação da esquerda radical. Contudo, esses «elos fracos»
não impedem a social-democracia de ser uma das maiores e mais poderosas
famílias do sistema político europeu.
Outro trunfo maior dos partidos social-democratas foi o facto de terem revelado
uma grande capacidade de adaptação às mudanças que afetaram as economias e as
sociedades europeias durante as últimas décadas. Uma observação essencialmente
válida para os partidos mais antigos da Europa Ocidental que conseguiram
preservar o seu estatuto de principal força de alternância apesar da redução
dos efetivos da classe operária (núcleo eleitoral central para a maioria desses
partidos) e apesar do declínio do paradigma keynesiano (uma técnica de governo
que lhes deu a possibilidade de conciliar os interesses quer da sua base
social, quer da nação). Estes dois fenómenos eram somente os aspetos mais
visíveis de uma reviravolta geral do modelo social-democrata do pós-guerra que
surge, retrospetivamente, como a terceira grande crise dessa família (a
primeira deu-se por altura da I Guerra Mundial, a segunda durante a crise dos
anos de 1930)
5
. Por outras palavras, é lícito dizer que a maioria dos partidos social-
democratas mais antigos foi bem-sucedida na sua «reconversão» dentro dos
sistemas partidários no fim do século XX. O crescente e relevante lugar que
atribuíram a questões desafiantes como a igualdade de género, a luta contra a
xenofobia, a proteção ambiental ou a qualidade de vida, constitui uma das
heranças dessa reconversão. Por fim, a social-democracia beneficia de um certo
número de vantagens mercê da sua capacidade de continuar a ser uma das grandes
alternativas partidárias na UE. Não só lhe proporciona recursos financeiros
incomparáveis em relação aos demais partidos da esquerda como também lhe
confere uma forma de legitimidade e credibilidade junto do eleitorado (ainda
que manifestando crescentemente o seu desencanto em relação ao balanço real
dessas formações). Além de que essa posição de vantagem lhe permite atrair um
grande número de peritos em políticas públicas e especialistas em comunicação
política, que colocam a sua ambição ao serviço de partidos ainda considerados
competitivos face à direita.
Porém, a família social-democrata também padece de importantes fraquezas. E,
paradoxalmente, uma dessas fraquezas decorre do seu tamanho. O alargamento
desta família à Europa Central e Oriental garantiu que permanecesse o segundo
grupo no Parlamento Europeu e assim acolheu vários partidos de governo. No
entanto, esse alargamento tem um preço: uma heterogeneidade muito maior da
família. As aproximações em termos de programas, de ação governamental, de
comportamentos dos líderes e da visão do mundo foram muito modestas
6
. Acrescente-se que a nova componente oriental da social-democracia é ela
própria muito díspar: alguns partidos mal representam um quinto do eleitorado
ao passo que outros captam quase a metade dos sufrágios; alguns beneficiam de
um apoio plebeu, simultaneamente rural e operário, ao passo que outros contam
com o apoio de um eleitorado substancialmente mais instruído e desafogado;
alguns são partidos estabelecidos desde o início da década de 1990 ao passo que
outros ainda estão a emergir de fusões ou cisões partidárias. Por último,
convém relembrar que todos esses partidos pertencem a estados na periferia do
capitalismo europeu, quando os partidos mais antigos dessa mesma família
pertencem a estados que se encontram no seu cerne. Todos estes elementos
comprovam a heterogeneidade desta família e tornam particularmente difícil a
definição de uma estratégia política comum, mais além de uma mera listagem de
boas intenções. Uma dificuldade acrescida vem do facto de o Partido Socialista
Europeu (PSE), tal como todos os seus homólogos europeus, não ser um verdadeiro
partido europeu capaz de condicionar os próprios membros.
A segunda grande fraqueza da social-democracia prende-se com o enfraquecimento
estrutural da sua componente histórica na Europa Ocidental, e mais recentemente
na Europa do Sul. A capacidade de adaptação dos partidos social-democratas não
chegou para inverter um processo contínuo de erosão eleitoral e militante;
tendencialmente trata-se de um processo que se acelerou na última década.
Partidos emblemáticos da social-democracia sofreram perdas eleitorais
consideráveis nos anos 2000 (recuo de dez pontos para o SAP na Suécia ou 15
para o SPD na Alemanha), por vezes a par do envelhecimento contínuo e da
redução de um terço do seu corpo militante. Considerados globalmente, os
partidos da Europa Ocidental perderam 15 a 20 por cento da sua importância
eleitoral desde a década de 1980. Do seu lado, os partidos socialistas da
Europa do Sul foram abalados pela crise das dívidas soberanas, ao ponto de a
sua quota eleitoral ficar reduzida a níveis próximos dos primeiros anos da
democratização sucessiva aos regimes autoritários. Mas para além dos números,
verifica-se que no plano ideológico não emergiu nenhuma outra proposta com a
força da defunta «Terceira Via» dentro do universo social-democrata. A crise do
capitalismo neoliberal ainda não surtiu um efeito de electrochoque: as
propostas de saída da crise permanecem clássicas e modestas perante o que está
em jogo.
Em suma, a família social-democrata europeia é uma família reconstituída mas
largamente artificial, reunindo debaixo do mesmo telhado dois ramos principais.
O primeiro é ramo ocidental, tem maior longevidade e homogeneidade apesar de
atravessar uma crise latente em termos de representatividade, influência e
identidade. O segundo corresponde ao ramo oriental, é mais recente e diverso e
nem sequer se consegue deslindar se já concluiu a sua fase constitutiva.
A Social-Democracia E A Integração Europeia
A social-democracia é uma das famílias mais europeizadas da UE. Existe uma
coesão particularmente alta das votações do grupo S&D (Socialists and
Democrats) no Parlamento Europeu (superior a 90 por cento no período 2009-2013)
7
. Sobretudo, a organização dos social-democratas à escala europeia é antiga e
completa. Os partidos social-democratas começaram por se juntar à UPSCE (União
dos Partidos Socialistas da Comunidade Europeia) em 1974 e, em 1992, ano da
adoção do Tratado de Maastricht ao PSE.
Entretanto, os partidos que se mantinham hostis à integração europeia,
nomeadamente na Europa do Norte e na Áustria, evoluíram para uma apreciação
mais positiva. Essa união geral em torno da integração europeia assentou na
esperança de voltar a encontrar um espaço viável para as políticas social-
democratas. À medida que participaram na construção desse espaço com os
conservadores e os liberais, os social-democratas foram contudo abandonando as
suas ambições «eurokeynesianas» seguindo uma postura menos crítica do sistema
institucional e económico vigente
8
. Aliás, aprovaram todos os tratados europeus desde os anos 1980. É certo que,
por vezes, os partidos nacionais apresentavam-se divididos e pouco à vontade
perante a prevalência de preceitos neoliberais nesses textos. No entanto,
acabavam sempre por aprová-los. Por um lado, por se terem envolvido na sua
redação e, por outro, por entenderem que esses textos representavam a melhoria
mais exequível relativamente ao statu quoatendendo à relação de forças
9
.
Conforme se apontou na introdução, o sistema político europeu e as regras do
mercado único e da zona euro não deixam de constituir obstáculos para as
políticas social-democratas que consistem em garantir a primazia do político
sobre o económico (ou da integração positiva sobre a integração negativa), e
que requerem no mínimo o controlo das políticas orçamentais e monetárias. Ora,
ao invés, o quadro europeu organiza o primado do económico e da integração
negativa através do mercado único, do direito da concorrência e da livre
circulação de capitais. E, mais, priva os governos da zona euro da ferramenta
monetária doravante controlada por um Banco Central independente, que decide
sozinho a sua política, perante estados que funcionam numa lógica
intergovernamental, obrigando-os a negociações permanentes
10
.
Os programas europeus da social-democracia furtam-se a esses problemas e
cingem-se a proclamar objetivos gerais referentes ao progresso humano e à
harmonização fiscal, social e ambiental entre os países da UE. Em abono da
verdade, o PSE apresentou várias propostas por ocasião da crise das dívidas
soberanas, fosse a criação de euro-obrigações ou um imposto sobre as transações
financeiras. Todavia, essas propostas não foram sistematicamente defendidas
diante dos povos europeus nem levaram a realizações concretas
11
, por enquanto. Até ao momento, a crise ainda não permitiu à social-democracia
melhorar a articulação da sua ação entre o nível da governação europeia, por um
lado, e, por outro, o nível nacional composto por uma pluralidade de
comunidades políticas cujos ritmos políticos e sociais andam dessincronizados.
O manifesto eleitoral para as eleições europeias de 2014 é típico na evitação
dos mais cruciais desafios da integração europeia e da moeda única. O consenso
encontrado em torno de dez eixos programáticos (porém parco em medidas
concretas) mostra que o pse se mantém unido mas pouco integrado. O diagnóstico
é, por conseguinte, igual ao que Gerassimos Moschonas fez há dez anos a esta
parte. Poderíamos reproduzir ipsis verbisalgumas das suas afirmações: «A
produção persistente de documentos programáticos assentes no minimum
minimorumcomprova que a distância a percorrer com vista a uma coesão real [ ]
continua a ser grande. Aliás, programas minimalistas têm poucas hipóteses de se
transformar em ferramentas de ação.»
12
Este ano, a novidade vem do facto de o PSE levar a cabo a sua campanha à volta
da figura de Martin Schulz, candidato declarado à presidência da Comissão
Europeia. A escolha de Schulz foi contudo criticada dado o presidente do
Parlamento Europeu incarnar o caráter consensual do sistema político europeu,
além do mais pertencendo ele a um partido que atualmente partilha uma coligação
com a direita.
A crise da zona euro não conduziu a uma crítica mais forte por parte dos
sociais-democratas da UE, apesar da evolução dos julgamentos negativos sobre a
UE no seio das populações europeias
13
. O PSE escolheu direcionar os seus ataques contra os conservadores, que seriam
responsáveis pela crise e pelas respostas desadequadas que lhe estão
associadas. A alternativa que defendem corresponde ao aprofundar da integração
europeia, mas não pressupõe atacar as estruturas existentes. Alguns partidos
social-democratas, ou estão divididos quanto à proposta da agenda europeia ou
evoluíram para posições menos entusiastas, mas estas tendências são anteriores
à crise (por exemplo, as divisões do PS francês foram evidentes assim que o
projeto de Constituição Europeia foi objeto de um referendo em 2005, enquanto a
posição do PvdA holandês se tornou mais ambígua a partir do mesmo ano).
Os Desempenhos Da Social-Democracia Nas Eleições Europeias
De 1979 até 1994, a social-democracia foi o primeiro grupo no Parlamento
Europeu (PE). Mas desde 1994, os partidos pertencentes a esta família
registaram recuos nas eleições europeias, passando de mais de 27 por cento dos
sufrágios, em média nos anos de 1980, para menos de 25 por cento em 2004 e em
2009. Em 2004, uma ligeira recuperação na Europa Ocidental foi esbatida pela
chegada dos partidos social-democratas da Europa Central e Oriental. Em
contrapartida, as médias eleitorais foram equivalentes passados cinco anos
(perto de 23 por cento). Desde 1999, a direita conservadora tem
ininterruptamente vindo a afirmar a sua posição de primeira força no PE. Nas
últimas eleições europeias, o grupo S&D apenas obteve um quarto dos lugares
no PE, quando há vinte anos ali controlava mais de um terço dos assentos.
Em 2004, uma ligeira recuperação na Europa Ocidental foi esbatida pela chegada
dos partidos social-democratas da Europa Central e de Leste. Em contrapartida,
as médias eleitorais foram equivalentes passados cinco anos (perto de 22 por
cento). Num primeiro momento, a entrada na UE dos países de Leste diminuiu a
força eleitoral da família social-democrata, mas este efeito disparou logo
depois das últimas eleições. Será interessante observar se os dois ramos '
ocidental e de leste ' voltam a níveis semelhantes em 2014.
As sondagens pré-eleitorais divulgadas no início do ano de 2014 indicam que o
grupo S&D poderá voltar a ganhar eurodeputados e ficar em pé de igualdade
com os conservadores. Três comentários podem matizar o caráter positivo desses
inquéritos. Primeiro, um êxito relativo nas eleições europeias não significará
forçosamente uma inversão geral da situação para a social-democracia. O lugar
que ocupa no sistema político europeu depende sobretudo da sua capacidade para
mobilizar o eleitorado no quadro de eleições legislativas nacionais, em relação
às quais antes se observa um declínio estrutural desde há duas ou três décadas.
Segundo, a repartição por país dos eurodeputados suplementares deverá ser vista
de perto. Mais de metade dos ganhos a favor de social-democratas poderá
concentrar-se no Reino Unido onde o Labour teve um desempenho atípico e
medíocre em 2009. Ora, os trabalhistas não apoiaram a candidatura de Martin
Schulz, pois consideram-na demasiado «federalista». Terceiro, uma melhoria da
representação dos social-democratas significará sobretudo assumir mais
responsabilidades na política europeia; ou seja, deixariam de poder censurar os
conservadores com a mesma facilidade para explicar os défices democráticos e
sociais da UE.
A Esquerda Radical Na UE
Uma Família Política Emergente
Luke March tem razão ao salientar que o colapso da família comunista não é o da
esquerda radical, antes se trata do ruir de uma versão particular que pretendia
ser universal, ou seja, o modelo marxista-leninista
14
. Essa nota prévia é importante porque torna menos surpreendente a emergência
progressiva de uma novafamília da esquerda radical.
O marxismo-leninismo produziu partidos desprovidos da mínima flexibilidade
estratégica, em virtude de uma doutrina e de uma organização congeladas.
Consequentemente foram ultrapassados pela transformação da estrutura social,
pela individualização dos valores e pelo desmoronar do bloco comunista.
Comparativamente, a capacidade de adaptação dos partidos social-democratas foi
substancialmente superior. É certo que alguns partidos comunistas ortodoxos
continuam a povoar o espaço à esquerda da social-democracia. Hoje em dia são
bastante fracos no Ocidente (seja o PCP português ou o KKE grego) mas por vezes
ainda são poderosos do lado oriental (seja na República Checa ou em alguns
países do espaço pós-soviético, não membros da UE). No entanto, a dinâmica
atual da esquerda radical assenta noutros tipos de formações que se encontram
essencialmente na Europa Ocidental e abarcam dissidentes social-democratas, dos
partidos comunistas renovados, dos chamados partidos «vermelhos-verdes» e até
tendências da extrema-esquerda que almejam levar a cabo combates unitários
15
. Essas formações colaboram quase todas no âmbito do Partido da Esquerda
Europeia (Party of the European Left, PEL), fundado em 2004. Trata-se de uma
federação europeia de partidos mais recente que as outras e indicia o
aparecimento de uma nova família, apresenta-se como um espaço de colaboração e
debate que poderá favorecer a aceleração desse processo de emergência, sem
contudo dele ser pressuposto nem causa direta.
Com efeito, os fatores inerentes à emergência de uma nova família da esquerda
radical são bastante mais profundos, sendo de natureza sócio-histórica. Aliás a
presença desses fatores permite compreender a origem e a vigência de famílias
partidárias, muito mais do que outros critérios
16
. No caso da nova esquerda radical, esses fatores estão ligados à «revolução
global», ou seja, uma revolução histórica que engloba a «desnacionalização» da
autoridade e dos territórios políticos; o advento de uma ordem produtiva pós-
fordista e globalizada; os progressos do liberalismo cultural; e a
consciencialização das ameaças sobre o ecossistema. Este conjunto de mutações
gerou novas divisões políticas, tanto que levou à reconfiguração atual da velha
clivagem de classes.
Anteriormente, os comunistas opunham-se aos social-democratas devido à
existência de uma III Internacional. Hoje, a esquerda radical continua a opor-
se aos social-democratas, cuja submissão ao Estado capitalista denuncia. Porém,
deram-se quatro mudanças de vulto: i) a esquerda radical já não se encontra
subordinada a um centro estrangeiro que domina a família; ii) não pretende
mediatizar interesses diferentes apenas estritamente referentes à classe
operária; iii) o seu projeto foi reformulado; iv) as suas estruturas
organizacionais já nada têm a ver com o «centralismo democrático». Pode-se
evidenciar a fonte de inspiração dessa nova família nos debates sobre o
«eurocomunismo», uma vez que visava definir uma via democrática rumo ao
socialismo, adaptada às características das sociedades capitalistas avançadas.
Concretamente, a esquerda radical contemporânea tenta mobilizar e representar
as classes populares e as camadas médias intelectuais que desejam alterar a
naturezada globalização atual, no intuito de abolir todas as relações de
dominação. Procura portanto realizar uma aliança de todos os subalternos do
capitalismo mundial dominado pela finança, por forma a promover uma modernidade
alternativa, simultaneamente cosmopolita, democrática, igualitária e
ecologista. No plano programático, a denúncia do neoliberalismo resulta amiúde
num diagnóstico acutilante da incapacidade de o capitalismo respeitar a
democracia, satisfazer as necessidades humanas fundamentais e preservar o
ecossistema. Também atribui importância aos valores «pós-materialistas»,
rejeitando veementemente o patriarcado ou a xenofobia. No plano da base social,
a maior parte dos partidos dessa família não fazem do proletariado industrial o
agente revolucionário por excelência. Estão cientes que o seu eleitorado provém
de categorias sociais mais variadas, incluindo camadas populares frequentemente
«enquadradas» por sindicatos ou associações, assim como profissões intermédias
e intelectuais com elevado nível de instrução mas pouco património. No plano
organizativo, logicamente, a esquerda radical abandonou o conceito do partido
vanguardista. Os partidos que hoje formam essa família têm um tamanho modesto,
muitas vezes são pluralistas, estão envolvidos em coligações e procuram
estabelecer ligações com movimentos sociais sem controlá-los.
A esquerda radical conhece uma certa dinâmica ideológica, mas também eleitoral.
Embora os seus avanços permaneçam modestos, foram reais entre princípios da
década de 2000 e os anos subsequentes ao eclodir da grande crise económica.
Todavia, essa família depara-se com numerosas e pesadas deficiências. Em
primeiro lugar, essa família ainda não partilha de um contramodelo ou de uma
utopia mobilizadora para contrapor ao sistema atual. Por vezes, um certo
saudosismo do keynesianismo e a tentação de ocupar um espaço social-democrata
deixado vago pelos partidos de centro-esquerda atraiçoa as propostas concretas
dos partidos da esquerda radical. Dito isto, inovações doutrinárias como o
ecossocialismo poderiam vir a formar a base de uma nova visão do mundo que não
seja apenas defensiva. Em segundo lugar, a derrocada da família comunista
também arrastou consigo a decadência de um universo intelectual e militante.
Por conseguinte, os partidos da esquerda radical continuam a ter poucos
intermediários na sociedade e aqueles de que dispõe vão envelhecendo. Em
terceiro lugar, esta nova família está ausente de bastantes países da UE;
eleitoralmente só existe na metade dos estados-membros. Além disso, a evolução
dos seus desempenhos é desigual consoante os países; uma observação dos mais
recentes resultados realça avanços na Grécia, em Espanha ou em França, mas uma
estagnação ou perdas em Portugal, em Itália ou nos Países Baixos. Afinal, a
dimensão da esquerda radical europeia mantém-se modesta, apesar de ainda
possuir uma elevada diversidade interna.17
A Esquerda Radical E O Repto Da Integração Europeia
Muitas das orientações programáticas da esquerda radical são contraditórias em
relação às regras atuais que regem a União Europeia (UE). Daí todos os partidos
da família contestarem a sua arquitetura institucional e as suas políticas
públicas, muito embora usem cada vez mais a UE como enquadramento para a
realização de um ideal de cooperação entre os povos
19
. A rejeição dos tratados vigentes constitui uma diferença maior relativamente
à social-democracia. O PEL pretende claramente a redação de novos tratados, que
possam, nomeadamente, garantir: a primazia dos direitos sociais sobre as
liberdades económicas; um controlo democrático da política monetária europeia e
da economia em geral; o direito de o Parlamento Europeu ter a iniciativa
legislativa; a proteção e, inclusive, a extensão dos serviços públicos; o
questionamento do comércio livre; o fim dos laços entre a UE e a NATO, e uma
política de desarmamento.
A integração europeia ainda é motivo de divergências e muito mais fortes do que
nas outras famílias da esquerda. Até aos anos de 1970, todos os partidos
comunistas opunham-se-lhe radicalmente. Depois, as posições foram variando
muito e não foi óbvio conciliá-las nos agrupamentos transnacionais. Entre 1989
e 1994, os deputados europeus da esquerda radical chegaram a ter assento em
dois grupos distintos, divididos pela questão europeia. Uma federação europeia
de partidos só despontou em 2004, e alguns partidos hostis à UE nem sequer
aderiram apesar de estarem no Parlamento Europeu. Ainda. hoje, o Grupo da
Esquerda Europeia Unida (European United Left) é um grupo parlamentar pouco
integrado comparativamente. a outros. Funciona de um modo confederal (os seus
membros não estão vinculados pelas posições tomadas em comum) e a sua coesão
interna é das votações mais fracas no Parlamento Europeu (80 por cento). Também
é a mais baixa (60-70 por cento) nas votações que dizem precisamente respeito
ao repto da supranacionalidade, como sejam as regras institucionais da UE, os
assuntos monetários ou a questão do orçamento europeu
20
.
As posições acerca da UE repartem-se entre uma minoria que rejeita
fundamentalmente a construção europeia e uma maioria que está a favor dela mas
rejeita determinados aspetos da integração europeia (fala-se então de «alter-
europeísmo»). Dentro dessa maioria, os matizes subsistem quanto à natureza dos
aspetos rejeitados e à estratégia de mudança desejada. Razões ideológicas podem
explicar essa variedade de posições. Em particular, os partidos comunistas mais
ortodoxos conservaram uma atitude de rejeição da UE enquanto tal. Mas outros
fatores devem ser tidos em conta: a existência de juízos diferentes
relativamente às ferramentas possíveis com vista a uma reorientação da UE, a
existência de particularidades nacionais como o modelo social ou o estatuto
geopolítico do país, e a natureza da competição política (como os mecanismos de
cooperação/rivalidade com os outros partidos de esquerda)
21
.
Recentemente, a questão da moeda única foi o assunto que desencadeou os debates
mais acesos no seio da esquerda radical. Na maioria, os partidos da esquerda
radical não rejeitam a moeda única, porém várias fações pertencentes a partidos
a favor do euro pretendem que a sua formação adote uma posição mais crítica.
Esse é nomeadamente o caso da ala esquerda do SYRIZA (Grécia); quando do último
congresso do partido, submeteu uma proposta de alteração no sentido de preparar
uma eventual saída da zona euro, emenda que arrecadou um quarto dos votos.
Noutros partidos existe igualmente uma contestação da moeda única, seja na IU
(Espanha) ou no BE (Portugal). Em França, o Partido da Esquerda (Parti de
Gauche, PG) resolveu determinar condições para a manutenção da moeda única, e
imaginou cenários alternativos. No quadro de uma «desobediência» aos tratados
europeus, o pg encara que as reações da ue empurrem um governo alternativo a
renunciar ao euro e a privilegiar, por ordem de preferências: uma moeda comum,
uma moeda partilhada pelos países do Sul, ou um regresso às moedas nacionais
22
.
Os oponentes da saída do euro mobilizam argumentos de cariz económico mas
também político: não só as suas vantagens são duvidosas do ponto de vista da
produção e do endividamento, como o ideal de solidariedade entre os povos seria
abalado duradouramente. Os adeptos de uma saída do euro rebatem dizendo que,
por um lado, o desvio pelo nível nacional é uma solução realista sem significar
renunciar ao internacionalismo, e, por outro, que as medidas de retaliação dos
meios empresariais e das instituições europeias serão muito violentas,
quaisquer que sejam as opções monetárias. A linha política promovida pelo PG
poderia levar a um compromisso entre os apelos clássicos em prol de «outra
Europa», que pecam contudo pela sua fraqueza estratégica, e os apelos em prol
de uma saída unilateral da zona euro ou da UE, que têm o defeito de ser muito
fraturantes nos planos político e eleitoral.
Em qualquer caso, o debate acerca do euro remete para uma questão essencial
para a esquerda radical, a saber, se o neoliberalismo e o atlantismo fazem
parte da natureza fundamental da UE ou se podem ser combatidos no quadro dessa
construção supranacional iniciada há cinquenta anos. Alexis Tsipras, o líder do
SYRIZA, que aliás assumiu a dianteira do PEL no âmbito das eleições europeias
de 2014, deveria evitar esse debate e focar a sua campanha na luta contra a
austeridade. Esse tema apresenta uma dupla vantagem: é consensual na esquerda
radical e facilmente entendido pelos cidadãos vítimas da crise.
Esta última não resultou forçosamente numa radicalização das posições
existentes no seio da esquerda radical. No entanto, representou uma janela de
oportunidades para os atores políticos da esquerda radical. Em primeiro lugar,
tornou mais legítima a contestação do consenso europeu em torno de uma economia
liberal de mercado; em segundo lugar, tornou mais audível e convincentes os
opositores à moeda única e ao respeito dos tratados. De modo geral, a crise
pode ser caracterizada como uma «aceleração do tempo histórico», que obriga
todos os partidos a ajustarem-se aos seus desenvolvimentos. Mas isto pode ser
ainda mais verdade para os partidos da esquerda radical, que contam apoiar-se
nesta crise para transformar o sistema económico.
Os Desempenhos Da Esquerda Radical Nas Eleições Europeias
A representação da esquerda radical sofreu com a derrocada da família
comunista. O grupo foi enfraquecendo até meados dos anos 1990, tanto mais que
numerosos deputados do Partido Comunista Italiano o abandonaram. Os seus
desempenhos foram
particularmente medíocres em 2009: conseguiu o mesmo número de eurodeputados
que tinha conquistado quinze anos antes, enquanto entretanto o tamanho do PE
aumentou significativamente.
Como explicar estes baixos desempenhos? Nos últimos anos, a esquerda radical
paga caro a sua ausência na maior parte dos países da Europa Central e de
Leste. O peso do seu grupo é inevitavelmente maior do que se ele estivesse
implantado na maioria dos estados-membros. Em contrapartida, podemos ser
surpreendidos por a característica de «segunda ordem» nas eleições europeias
não tenha beneficiado mais uma força politica contestatária. Isto quer dizer
que não devemos esquecer que outras forças deste tipo podem captar os votos
mais expressivos dos cidadãos no momento dos escrutínios. É o caso dos
ecologistas, cuja emergência nos anos 1970-1980 transformou as relações de
força à esquerda
23
. De qualquer maneira a sociologia dos partidos verdes corresponde aqueles
cidadãos que se mobilizam para as eleições europeias, a saber, os eleitores
particularmente mais instruídos, urbanos e preocupados com as agendas ditas
pós-materialistas
24
. Pelo contrário, é sabido que os partidos da esquerda radical têm mais sucesso
quando a participação eleitoral é, isto significa que os eleitores mais
populares se mobilizam também
25
. Por fim, muito mais simples, a atratividade eleitoral da esquerda radical não
melhorou recentemente. Os maus desempenhos nas eleições europeias refletem as
suas dificuldades mais gerais para conservar ou construir o seu espaço político
nas arenas políticas nacionais.
As sondagens existentes apresentam-se favoráveis à esquerda radical
27
. Poderia ascender a quarto grupo parlamentar e até competir com os liberais
pela terceira posição. Tal como em relação à social-democracia mostram que os
ganhos ficariam concentrados num pequeno número de países, nomeadamente a
Grécia e a Espanha. Isto é indicativo de que os partidos da esquerda radical
são os mais suscetíveis de progredir onde a contestação do sistema político e
económico seja mais forte, daí que, no quadro_4 seja mais contrastada para os
social-democratas.
Quanto mais o Grupo da Esquerda Europeia Unida crescer, ganhando expressão,
mais o seu comportamento no seio do PE e das instituições europeia se tornará
crucial. Porém, a questão da estratégia do grupo ainda não transparece de forma
definida e, sob pena da clareza do seu posicionamento político se tornar
confuso, os deputados da esquerda radical terão de decidir reforçar o seu
envolvimento no processo comunitário ou se vão lutar para passar a ser a
principal força de oposição à cogestão dos socialistas, liberais e
conservadores.
Social-Democracia E Esquerda Radical: Destinos Interligados?
Enquanto classe, a esquerda encontra-se profundamente dividida. Apesar de tudo
a social-democracia e a esquerda radical partilham alguns valores, de entre os
quais o empenho pela igualdade de género e pelos direitos das minorias sexuais,
assim como recusam a conceção «nativista» da nação que a direita radical
promove. Na realidade, os desacordos cristalizam-se nas questões da democracia,
da economia e da política externa. A social-democracia participou na construção
europeia que, para a esquerda radical, é vista como um desapossar da soberania
popular, um reforço do neoliberalismo e uma posição de dependência em relação
aos Estados Unidos e às multinacionais. Esses desacordos traduzem uma oposição
quanto ao rumo a dar à globalização e à maneira de levar a cabo essa
orientação. A esquerda radical entende ser necessário competir para ultrapassar
as relações sociais capitalistas, o que requer um empenhamento popular
crescente. Os social-democratas acham essa visão pouco credível (para não dizer
«populista») e promovem uma mudança guiada pelas elites políticas. Esperam
reatar com um compromisso social capaz de preservar a estrutura das economias
capitalistas mas também um mínimo de proteção social para os mais
desfavorecidos.
Esta oposição, perfeitamente normal tendo em conta a trajetória histórica de
cada uma destas duas famílias levanta problemas por duas razões. Primeiro, a
social-democracia e a esquerda radical em parte disputam um eleitorado
semelhante. Basta observar as transferências de uma eleição para a outra ou
ainda o perfil dos eleitores que hesitam em votar numa ou noutra das formações
de esquerda. Claro está, os social-democratas atraem eleitores moderados que
não apoiam a esquerda radical, enquanto esta última consegue mobilizar
eleitores que rejeitam os partidos de governo. No entanto, as duas famílias
agem em concorrência junto a um eleitorado de esquerda que permanece
estruturalmente minoritário na Europa. Nesse contexto, o grande desafio da
esquerda radical consiste em dotar-se de uma base social e de um núcleo
eleitoral específicos. Segundo, essas duas famílias precisam uma da outra para
atingir alguns dos seus objetivos. A social-democracia tem muito maior
flexibilidade estratégica, mas encontrará poucos aliados à sua direita para
estender ou mesmo proteger o Estado social. O dilema ainda é mais marcado para
a esquerda radical, cujas hipóteses de governar sozinho são ainda mais ínfimas.
Ambas estas famílias teriam portanto interesse estratégicoem cooperar, mas a
base ideológicade uma verdadeira aproximação parece ser consideravelmente
diminuta, malgrado as suas origens comuns na clivagem de classes. A
globalização e a europeização criaram novas divisões políticas que se sobrepõem
à anterior clivagem, e tornam difícil a colaboração entre a social-democracia e
a esquerda radical. No momento em que este artigo é escrito, parece que Martin
Schulz deseja construir um arco político dos liberais à esquerda radical,
passando pelos sociais-democratas e pelos verdes, para bater a direita
conservadora do PPE na Comissão Europeia e no Parlamento. Mesmo se tal aliança
se tornar real, são muitos os obstáculos para uma colaboração que permaneça
durante toda a legislatura europeia. Podemos porém pensar que o cenário mais
provável é aquele de alianças à la carte, nas quais a direita e a esquerda
radicais serão pouco implicadas. No entanto, as possíveis perturbações da crise
do capitalismo e da zona euro continuam impossíveis de prever. Certamente, o
sistema político europeu não saiu ainda de uma zona de forte turbulência para
as economias, as sociedades e os regimes representativos da UE.
Tradução: Patrícia Roman
Data de receção: 3 de março de 2014 | Data de aprovação: 19 de março de 2014
Notas
1
Este artigo inspira-se em larga medida nos trabalhos que levo a cabo em
colaboração com Mathieu Vieira, investigador de Ciência Política em Sciences Po
Lille e no Cevipol (ULB). As nossas pesquisas incidem sobre as características
contemporâneas das famílias social-democrata e da esquerda radical. Para uma
abordagem relativa às origens da clivagem de classes, consultar Bartolini,
Stefano ' The Political Mobilization of the European Left, 18601980. Cambridge:
Cambridge University Press, 2000.
2
De Waele, Jean-Michel, Escalona, Fabien, e Vieira, Mathieu (eds.) ' The
Palgrave Handbook of Social Democracy in the European Union. Basingstoke e Nova
York: Palgrave Macmillan, 2013.
3
March, Luke ' Radical Left Parties in Europe. Londres: Routledge, 2011; De Waele, Jean-Michel, e Vieira, Mathieu ' «La famille de la
gauche anticapitaliste en Europe occidentale». In Les partis de la gauche
anticapitaliste en Europe. Paris: Economica, 2012, pp. 50-85.
4
Moschonas, Gerassimos ' «Reformism in a Conservative system: the European
Union and social democratic identity». In In Search of Social Democracy.
Manchester: Manchester University Press, 2009, pp. 168-192;
«The European Union and the dilemmas of the Radical Left». In transform!. Vol.
9, 2011, pp. 8-23.
5
Escalona, Fabien ' La social-démo-cratie entre crises et mutations. Paris: Fon-
dation Jean Jaurès, 2011.
6
Alguns trabalhos concluíram a existência de uma estabilidade de uma
convergência programática forte entre os partidos social-democratas, antes como
depois do alargamento. É o caso de Camia, Valeria, e Caramani, Daniele '
«Family meetings: ideological convergence within party families across Europe,
1945'2009». In Comparative European Politics. Vol. 10, N.° 1, 2012, pp. 48-85. No entanto, os autores reconhecem que os partidos da Europa
Central e Oriental são aqueles que se situam cada vez mais ao centro do
espectro programático direita-esquerda. Uma observação mais concreta da vida
política destes países mostra que, apesar da exportação da etiqueta «social-
democrata», as agendas da campanha e as políticas públicas permanecem muito
diferentes numa e noutra parte do continente europeu.
7
Números obtidos no portal http://www.votewatch.eu/
8
Aust, Andras ' «From Eurokeynesianism to the third way: the party of European
Socialists (pes) and European employment policies». In Social Democratic Party
Policies in Contemporary Europe. Nova York: Routledge, 2004, pp. 180-196.
9
Holmes, Michael, e Roder, Knut (eds.) ' The Left and the European Constitution.
Manchester: Manchester University Press, 2012.
10
Sobre esses aspetos, veja-se Berman, Sheri ' «The primacy of economics versus
the primacy of politics».In Perspectives on Politics. Vol. 7, N.° 3, 2009, pp.
561-578; Scharpf, Fritz ' Governing in Europe: Effective and
Democratic?. Oxford: Oxford University Press, 1999; Escalona,
Fabien ' «The endangered primacy of politics». In Queries, N.° 9. Bruxelas:
FEPS, 2012, pp. 22-28.
11
Bailey, David, De Waele, Jean-Michel, Escalona, Fabien, e Vieira, Mathieu
(eds.) ' European Social Democracy During the Great Economic Crisis: Renovation
or Resignation?. Manchester: Manchester University Press, 2014.
12
Moschonas, Gerassimos, e Grunberg, Gérard ' «Socialistes: les illusions
perdues». In Le vote des Quinze. Paris: Presses de Sciences Po, 2000, pp.
135162.
13
Segundo os eurobarómetros, que medem a opinião pública europeia, as populações
têm tido cada vez menos confiança nas instituições da ue entre 2010 e 2013. Cf.
http://ec.europa.eu/public_opinion/archives/eb/eb80/eb80_first_en.pdf
14
March, Luke ' Radical Left Parties in Europe. Londres: Routledge, 2011.
15
Escalona, Fabien, e Vieira, Mathieu ' «La gauche radicale en Europe, ou
l'émergence d'une famille». In Notas da Fondation Jean Jaurès. Paris: Fondation
Jean Jaurès, 2013. As fronteiras por nós atribuídas à família da esquerda
radical são muito mais estritas que as de March. Na sua obra, March inclui nela
numerosas formações da Europa de Leste, o que o leva a mapear o conjunto das
forças existentes à esquerda da social-democracia. Em nosso entender, as
«ramificações históricas» distintas a Oeste e a Leste da Europa impedem que se
considere todas essas forças como pertencendo a uma mesma família.
16
Mair, Peter, e Mudde, Cas ' «The Party Family and its Study». In Annual Review
of Political Science. Vol.1, N.° 1, 1998, pp. 211-229.
17
Alguns países não constam da lista, dado a esquerda radical ali ser inexistente
ou por não ter representantes na câmara baixa nacional ou no Parlamento
Europeu. Pode-se dificilmente considerar o Laburisti na Croácia e o Sinn Fein
na Irlanda parte da esquerda radical, mas os seus representantes europeus têm
assento no Grupo da Esquerda Europeia Unida.
18Em coligação no Centro da Harmonia (partidos de esquerda russófonos).
19
Holmes, Michael, e Roder, Knut (eds.) ' The Left and the European Constitution.
Manchester: Manchester University Press, 2012.
20
Estimativa segundo o portal: http://www.votewatch.eu/
21
Almeida, Dimitri ' The Impact of European Integration on Political Par ties '
Beyond the Permissive Consensus. Nova York: Routledge, 2012;
Dunphy, Richard ' Contesting Capitalism. Left Parties and European integration.
Manchester: Manchester University Press, 2004; Volkens,
Andrea ' «Politische Positionen linker Parteien im Europäischen Parlament». In
Für ein anderes Europa. Linksparteien im Aufbr uch. Vol. 19. Berlim: RLS Texto,
2004.
22
Escalona, Fabien, e Vieira, Mathieu ' «Le sens et le rôle de la résistance à
l'ue pour le Parti de Gauche». In Politique européenne. Paris: L'Harmattan, no
prelo.
23
Car amani, Daniele ' «Electoral waves: an analysis of trends, spread, and
swings of votes across 20 west European countries, 1970-2008». In
Representation. Vol. 47, N.° 2, 2011, pp. 137-160.
24
Dolezal, Martin ' «Exploring the stabilization of a political force: the social
and attitudinal basis of green parties in the age of globalization». In West
European Politics. Vol. 33, N.° 3, 2010, pp. 534-552.
25
March, Luke ' Radical Left Parties in Europe. Londres: Routledge, 2011.
26Eleitos pertencentes aos grupos da Esquerda Unitária Europeia (gue) e
Coligação de Esquerda (cg).
27
C f. http://ww.pollwatch2014.eu/#country
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
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