As instituições da UE na ressaca de Lisboa, e da crise: a quadratura do círculo
As eleições são o momento culminante da democracia em todo o sistema político.
Através do voto os cidadãos são chamados a dar o seu aval à política realizada
pelos seus representantes no período de governação cessante, confirmando os
respetivos titulares, ou abrindo portas para a formação de novo grupo
dirigente. A União Europeia (UE) ' uma nova entidade política, com pouco mais
de duas décadas ' tem vindo a moldar o seu sistema de governo na cultura
política comum dos estados-membros, conferindo importância crescente ao
Parlamento Europeu no equilíbrio institucional de poderes. Todavia, a
construção europeia é um processo conduzido pelos estados-membros, os quais
dispõem não apenas sobre as regras do xadrez político da União, como tecem
também pela sua atuação relações de poder que se vão estabelecendo entre
diferentes países e atores políticos europeus.
Este artigo pretende fazer uma pequena reflexão sobre as alterações
institucionais introduzidas pelo Tratado de Lisboa, o significado das eleições
europeias no sistema político da União, a presidência da Comissão e a nova
relação de forças que se estabeleceu entre os estados-membros de União na
sequência da crise do euro.
Eleições Europeias
As eleições europeias de 2014 irão permitir concluir o ciclo de alterações
institucionais realizado pelo Tratado de Lisboa. Como é sabido, o Tratado de
Lisboa foi o expediente encontrado pelos estados-membros para recuperar o
acervo da chamada Constituição Europeia. A Constituição Europeia resultou de um
debate político promovido por um fórum alargado, visando completar o processo
de criação da UE, estabelecida pelo Tratado de Maastricht, e dotá-la de um
sistema institucional capaz de responder quer aos desafios do alargamento a
leste, quer às exigências de reforço de legitimidade política e maior
democraticidade de funcionamento decorrentes da transformação operada na
natureza do processo de cons trução europeia.
A Constituição Europeia terá sido a síntese possível de um arrastado debate
político europeu que se foi realizando ao longo das conferências
intergovernamentais da década de 1990, da afirmação da posição das potências
europeias na sequência do discurso do ministro dos Negócios Estrangeiros alemão
Fischer, e no decurso da chamada Convenção europeia.
De entre as novidades da Constituição Europeia resultou um pacote de reforma
das instituições visando reforçar a eficiência do funcionamento político da
União, bem como melhorar a sua legitimidade aos olhos dos cidadãos. O conjunto
de alterações ao processo político da União foi considerado como o ponto de
encontro das várias posições dos estados-membros sobre o futuro da Europa, com
o intuito de assegurar novo fôlego à política da União no século xxi.
Por tais motivos, e na impossibilidade da entrada em vigor da Constituição
Europeia em virtude da sua rejeição nos referendos de 2005, os estados-membros
deram prioridade ao resgate do acervo constitucional. Após um demorado período
de reflexão, foi assinado o Tratado de Lisboa no final de 2007, o qual
recuperou o grosso das inovações da malograda Constituição, sendo que
reproduziu na íntegra o chamado pacote institucional.
Apesar do expediente encontrado para recuperar o conteúdo da Constituição,
contornando a realização de referendos nos países que a haviam recusado, não
foi possível evitar a realização de consulta popular para ratificação do novo
tratado na Irlanda, cujo resultado foi negativo. Após as costumeiras
negociações usadas no trato com países periféricos para conter os danos do voto
popular, foi realizado novo referendo naquele Estado-membro, o qual permitiu a
entrada em vigor do Tratado de Lisboa no final de 2009. Por isso, as eleições
do próximo maio serão o primeiro ato eleitoral da União realizado após a
entrada em vigor do pacote de reformas institucionais introduzido pelo Tratado
de Lisboa.
Tendo em conta o tempo entretanto decorrido desde a entrada em vigor do Tratado
de Lisboa, e as modificações entretanto operadas no funcionamento do processo
político da União, as eleições europeias de 2014 irão assim permitir completar
o quadro de mutações institucionais ambicionado pela Constituição Europeia.
Nos termos das alterações introduzidas pelo Tratado de Lisboa, o Parlamento
Europeu (PE) terá sido a instituição mais beneficiada no quadro do equilíbrio
de poderes da ue. Com efeito, o pe passou a exercer o poder legislativo da
União em conjunto com o Conselho, o que acarretou um alargamento considerável
do chamado processo de codecisão. Acresce que a função orçamental passou também
a ser partilhada entre o PE e o Conselho. Pelo que, em termos do exercício dos
poderes legislativo e orçamental, o PE passou a ser uma instituição com elevado
protagonismo, desde o final de 2009. O único poder introduzido pelo Tratado de
Lisboa que o PE ainda não teve oportunidade de exercer de pleno respeita ao
processo de nomeação da Comissão, em particular, à eleição do seu presidente.
Com efeito, o Tratado de Lisboa consagrou a solução que havia sido afirmada
pela Constituição, a qual previa que o PE elegia o presidente da Comissão,
tendo em conta os resultados das eleições europeias.
Sendo as eleições de 2014 as primeiras que serão realizadas após a entrada em
vigor do Tratado de Lisboa, o PE irá ter oportunidade de inaugurar esta nova
prerrogativa. A ideia subjacente seria conferir aos cidadãos a oportunidade de
terem influência direta na escolha do presidente da Comissão, à semelhança do
voto para as eleições legislativas nacionais onde decidem sobre quem será o
próximo chefe de governo do país. Logo, o propósito de reforçar a legitimidade
política do presidente da Comissão. Estaria, ainda, implícita nesta alteração o
propósito de fazer os cidadãos compreenderem a utilidade do voto para o PE, no
sentido de deixarem de olhar para este ato como eleições de segunda categoria,
porque destituídas de consequência política imediata. Para além da arquitetura
constitucional definida pelo Tratado de Lisboa, que pretendia completar o
modelo de democracia parlamentar no sistema político da UE, interessa analisar
o impacto que as alterações introduzidas por aquele tratado tiveram no
funcionamento do processo político europeu.
Corpo Quebrado
Decorreram mais de quatro anos desde a entrada em vigor do Tratado de Lisboa.
Nesse período, a Europa foi atravessada por um violento abalo sísmico, a crise
do euro, que tudo ia deitando a perder. Por diversas ocasiões, ao longo dos
últimos anos se receou que o agudizar da crise do euro pudesse levar ao final
da moeda única e, em consequência, se degradassem as relações entre estados-
membros ao ponto de fazer perigar todo o processo de construção europeia.
A fragilidade da construção europeia nunca havia sido testada com tamanha
crueza como no último quadriénio, com o espetro da reversibilidade do processo
de integração pairando sobre todo o continente. Entre a primavera do ano dez e
o verão de doze ' quando o presidente Draghi finalmente afirmou que o Banco
Central Europeu estaria disposto a tudo fazer para salvar o euro ' a ue viveu
num carrossel de emoções, e aflições.
Os anos loucos da crise do euro forneceram uma pista de ensaio privilegiada
para testar as reformas institucionais da ue introduzidas pelo Tratado de
Lisboa que, como se referiu, pretendiam aumentar a eficiência do processo de
decisão e reforçar a legitimidade democrática do funcionamento da União.
Como se viu, nos termos do Tratado de Lisboa, o PE elege o presidente da
Comissão, tendo em conta os resultados das eleições europeias. Sendo embora um
órgão colegial, compete ao presidente definir a orientação política da,
Comissão. Pelo que o presidente da Comissão não é um membro entre iguais no
seio do Colé-gio dos Comissários. Através das alterações realizadas nos
tratados desde Maastricht, o presidente da Comissão conheceu um reforço do seu
estatuto político no sentido de o tornar no chefe do Colégio dos Comissários.
Com efeito, para além de lhe competir traçar a direção política da instituição,
cabe também proceder à distribuição dos pelouros entre os membros do Colégio,
nomear os vice-presidentes e solicitar a demissão dos comissários. Tendo em
conta o papel da Comissão no sistema político da União, resulta evidente a
importância da figura do presidente da Comissão, como líder incontestável da
instituição. Pelo que a eleição do presidente da Comissão deveria ser um
momento maior no processo político da União.
Será interessante recordar que a Comissão teve onze presidentes, desde a sua
criação pelo Tratado de Roma de 1957. Curiosamente, de entre os onze
presidentes apenas dois foram originários de países não fundadores da
Comunidade Europeia (CE): o britânico Roy Jenkins, eleito em 1977; e Durão
Barroso, eleito em 2004. Os demais presidentes eram todos provenientes do
núcleo duro de estados-membros da CE, sendo que houve dois presidentes
originários de Itália (Malfatti, 1970; Prodi, 1999), de França (Xavier-Ortoli,
1973; Delors, 1985) e do Luxemburgo (Thorn, 1981; Santer, 1995); um presidente
com nacionalidade alemã (Hallstein, 1957) e um outro holandês (Mansholt, 1972).
Sintomaticamente, os candidatos anunciados pelos principais partidos europeus
ao lugar de presidente da Comissão ' no quadro das eleições europeias de 2014 '
são originários do Luxemburgo e da Alemanha. Pelo que a presidência da Comissão
parece ser um cargo fadado para os países fundadores da integração europeia '
ou seja, aqueles que teriam um compromisso excelso com a construção europeia '
em cujo exercício se intrometeu apenas um presidente originário de uma grande
potência ' o Reino Unido ' e um outsider proveniente de um país periférico '
Portugal.
Quanto a este último particular, se a ue houver de resistir aos desafios do
novo século, existirá uma probabilidade elevada de nenhum outro cidadão
português atingir a presidência da Comissão, atenta quer a posição privilegiada
do grupo de países fundadores da integração, quer o crescente número de
estados-membros.
Por outro lado, e ainda em termos formais, apenas três presidentes da Comissão
conseguiram ser reeleitos para um segundo mandato: o alemão Hallstein, o
francês Delors e o português Barroso. Assim, de entre aqueles que conseguiram
renovar o seu mandato na chefia da Comissão estão dois presidentes originários
do eixo franco-alemão, no qual repousa a gestação do próprio processo de
integração, bem como a sua condução ao longo do tempo. Terão sido esses, aliás,
os presidentes que deixaram uma marca mais profunda na liderança da Comissão.
Walter Hallstein foi o primeiro presidente da Comissão ' na altura, apenas
Comissão da Comunidade Económica Europeia ' tendo antes sido representante da
RFA nas negociações que conduziram à assinatura do Tratado de Roma. Como
presidente da Comissão pretendeu imprimir um cunho vincadamente político à
instituição, tentando que funcionasse à imagem de um verdadeiro governo
europeu. O seu protagonismo como putativo chefe do executivo europeu ' não
dispensando sequer a pompa protocolar da função ' ao qual se juntou o intento
de conferir novos poderes ao pe na vertente orçamental, levou a um confronto de
vulto com o Presidente De Gaulle. Na sequência desse conflito ' que no fundo
refletia a clivagem existente entre uma visão federal da Comunidade, defendida
por Hallstein, e a perspetiva mais intergovernamental do processo de integração
europeia do velho herói da Resistência1' a França abandonaria as reuniões do
Conselho, e do Coreper, originando a chamada «crise da cadeira vazia». Em todo
o caso, tal não terá obstado a que a presidência de Hallstein seja recordada
como o período em que a Comissão se afirmou como instituição política, não se
confinando à função de mero órgão de apoio técnico ao funcionamento da
Comunidade Europeia, de um vulgar secretariado.
A crise da cadeira vazia prolongou-se por mais de um semestre, tendo sido
superada com o chamado «compromisso do Luxemburgo», que trouxe a França de
volta às reuniões do Conselho. A contrapartida exigida consistiu em permitir
que nos assuntos em que estivessem em causa interesses vitais do país, as
negociações se prolongassem até que uma solução consensual fosse encontrada. A
prática que se seguiu a este compromisso, adotado em janeiro de 1966,
determinou que os estados-membros estendessem a regra da unanimidade no
processo de decisão do Conselho, tornando-se no modo normal de deliberação.
Como se compreenderá, o consenso de todos os países na tomada de decisões
representava um retrocesso no sistema político da Comunidade Europeia, o qual
previa a passagem progressiva ao voto maioritário. Para além disso, dificultava
a aprovação de novas medidas comunitárias. Situação que se agravaria com o
alargamento a novos países, desde logo com a entrada do Reino Unido. Por estes
motivos, o período que se seguiu à crise da cadeira vazia, e se prolongou por
quase duas décadas, ficou conhecido por euro esclerose.
Em paralelo com o recuo intergovernamental no processo de decisão, a Comissão
iniciou também uma longa travessia no deserto, com lideranças caracterizadas
por presidentes de fraco perfil político. A exceção terá sido o inglês Roy
Jenkins, eleito presidente em 1997, que foi o grande impulsionador do projeto
para um sistema monetário europeu. Todavia, o facto de ser um destacado
dirigente do Partido Trabalhista britânico valeu-lhe a oposição da senhora
Thatcher para a aguardada renovação do seu mandato. Seria com o início do
consulado Delors que a Comunidade Europeia entraria numa fase de relançamento.
A estratégia da conclusão do mercado interno por si apresentada permitiu
granjear um renovado entusiasmo dos estados-membros e do mundo empresarial.
Para concretizar o grande mercado, Delors convenceu os estados da necessidade
de proceder a uma revisão do Tratado de Roma, tendo em vista agilizar o
processo de decisão.
Com o regresso ao voto maioritário, e a queda em desuso do compromisso do
Luxemburgo, a Comunidade Europeia ganhou uma nova dinâmica que permitiu ao
presidente Delors afirmar-se como grande protagonista da integração europeia,
para além de que a Comissão pudesse ser tida como instituição política
fundamental no processo comunitário. Na verdade, Delors ficaria associado não
apenas ao mercado interno, como também ao projeto da moeda única, sendo que
teve ainda um papel determinante no enquadramento do processo de reunificação
alemã pela Comunidade Europeia, bem como na convocatória das conferências
intergovernamentais de que resultaria a União Europeia. Jacques Delors terá
sido, porventura, o presidente da Comissão que maior influência teve na
construção europeia.
Os sucessores de Delors na presidência da Comissão seriam, por força, vítimas
do seu protagonismo. Em particular, o presidente Santer, que lhe seguiu. De
referir que Santer teve que lidar com as alterações do Tratado de Maastricht,
que modificaram o equilíbrio institucional de poderes a favor do Parlamento
Europeu, em detrimento do papel da Comissão. Para além disso, Jacques Santer
herdou uma máquina burocrática pesada - um legado da estratégia expansionista
da década de Delors ' com redes tentaculares de poder, forte arrogância, e
baixos níveis de responsabilização política. Terão sido tais aspetos que
pesaram no relatório de peritos independentes apresentado em 1999, e que
precipitaram a sua demissão, para evitar a aprovação de uma moção de censura
pelo Parlamento Europeu2.
Romano Prodi, eleito presidente da Comissão em 1999, tentou melhorar a situação
encontrada, tendo tido maior influência na escolha dos membros do Colégio de
Comissários ' em resultado dos poderes entretanto conferidos pelo Tratado de
Amesterdão ' com a preocupação de conseguir uma formação dotada de alto nível
técnico. Todavia, o facto de nunca se ter afastado de forma completa dos
desenvolvimentos da política italiana, de não ter conseguido impor uma
orientação clara na estratégia política da Comissão ' como se tornou evidente
no decurso da convenção europeia que preparou um projeto de Constituição para a
Europa ' e, sobretudo, por não ter conseguido romper a barreira da comunicação
política, ainda mais exigente em outros idiomas, acabou por enfraquecer o
desempenho do seu mandato. Este último aspeto tem sido o mais enfatizado na
apreciação da presidência Prodi3.
Por isso, os estados-membros procuraram que o seu sucessor tivesse
características distintas. Falhada a escolha inicial do eixo franco-alemão, que
recaía no antigo primeiro-ministro belga Verhosdadt ' em virtude do veto
britânico que o considerava federalista, e de quem guardava ressentimento por
causa da posição sobre a invasão anglo-ameri-cana do Iraque ' a solução de
recurso apontou para um primeiro-ministro no exercício de funções.
Durão Barroso, com um domínio irrepreensível da língua francesa e cuja auréola
de comunicador remontava aos bancos da faculdade, teria contudo uma estreia
acidentada, marcada pelo incidente parlamentar em torno da nomeação do
comissário Buttiglione. A investidura do primeiro mandato do seu colégio seria
concluída com um recuo perante a afirmação crescente do Parlamento Europeu.
Este episódio, aliado à crise dos referendos sobre a Constituição Europeia em
2005, inibiu Barroso de mostrar iniciativa na agenda política europeia.
Na verdade, o seu primeiro mandato ficaria assinalado por um apagamento da
Comissão perante a hegemonia crescente dos estados-membros dominantes,
parecendo mais preocupado em não afrontar o poder dos grandes países, de modo a
não comprometer o seu objetivo político particular ' a reeleição para um
segundo mandato. Tal propósito não terá estado ausente no pensamento de
Barroso, por certo. Como se referiu, na liderança da Comissão apenas o alemão
Hallstein e o francês Delors lograram a reeleição para um segundo período
presidencial. Talvez por isso, Barroso conduziu o seu primeiro mandato com a
preocupação de não alienar o apoio dos estados-membros para o que seria a
recondução inédita de um dirigente oriundo de um país periférico. Sendo certo
que o próprio governo socialista do seu país natal não hesitaria em o apoiar no
momento da reeleição.
O Tratado de Lisboa entrou em vigor no final de 2009, escasso tempo decorrido
sobre a investidura da segunda comissão Barroso. Como se viu, no pacote
institucional reproduzido pelo Tratado de Lisboa, o Parlamento Europeu conheceu
um acréscimo de poderes, que seria suposto aprofundar a natureza democrática do
processo político da União. Como contrapartida, o poder dos estados-membros foi
reforçado através da consagração de uma nova instituição ' o Conselho Europeu '
dotada de um presidente exercendo funções a tempo inteiro.
Donde resulta que no triângulo político Comissão ' Parlamento Europeu '
Conselho, se procedeu ao reforço de poderes dos dois últimos órgãos, situação
que terá enfraquecido o papel da Comissão no equilíbrio institucional de
poderes da União. Por outro lado, a criação de um segundo presidente da União
em regime permanente condicionou o protagonismo único do presidente da
Comissão, na sua atuação a nível dos chefes de governo dos estados-membros.
Foi neste contexto peculiar que a crise do euro rebentou, no início de 2010.
Por um lado, um presidente da Comissão que havia exercido um primeiro mandato
de forma discreta, assinalado por escassa iniciativa política, e acomodado aos
interesses dos países mais poderosos com o fito de garantir a sua reeleição.
Por outro, uma reforma das instituições que entrou em vigor no início do
segundo mandato de Barroso, marcada por um reforço dos poderes do Parlamento
Europeu e dos estados-membros, assim como a criação de uma nova figura política
para sombrear o papel do presidente da Comissão.
Para além dos juízos de valor que se possam fazer sobre o bem fundado da gestão
da crise do euro, certo é que a resposta da União foi centralizada no Conselho
Europeu. A realização de um número insólito de cimeiras de chefes de governo na
fase inicial ' cerca de 20 cimeiras nos primeiros trinta meses ' é eloquente no
que à condução direta do processo político pelo Conselho Europeu diz respeito.
Acresce que as sessões do Conselho Europeu foram dominadas, num primeiro
momento, por um diretório político de facto franco-alemão, com o Presidente
Sarkozy e a chanceler Merkel a concertarem soluções prévias, que seriam
apresentadas para simples concordância dos seus homólogos dos outros estados-
membros.
Sendo certo que Merkel foi ganhando clara ascendência sobre Sarkozy no decurso
da crise do euro, tendo-se tornado a figura dominante de todo o processo de
gestão da crise, mostrando ser capaz de impor as suas preferências e determinar
os limites das concessões que estaria disposta a aceitar. A adoção do Pacto
Orçamental ou a recusa da criação das chamadas euro bonds são exemplos
expressivos da primazia alemã na gestão da crise da moeda única. Logo, em
termos institucionais a crise do euro terá sido não apenas a oportunidade para
uma derrapagem intergovernamental do processo político da União ' em detrimento
das instituições supranacionais como a Comissão ' mas também para a afirmação
de uma hegemonia germânica no seio do Conselho Europeu.
Importará recordar que a abordagem da União da crise do euro foi sendo
construída no pressuposto de que a mesma havia resultado apenas da
irresponsabilidade orçamental dos países afetados. Ou seja, a crise que afetava
a moeda única devia-se à violação continuada das normas do Pacto de
Estabilidade pelos países da periferia da zona euro. Mesmo quando se tornou
claro que a crise das dívidas soberanas na Grécia e depois na Irlanda estava a
produzir um efeito de contágio sobre outros países da moeda única, o qual
estaria a ser explorado por especuladores que aproveitavam das vulnerabilidades
estruturais da união monetária, a Alemanha e os países próximos mantiveram
sempre a tónica da sua resposta na responsabilidade individual dos países
afetados. Ou seja, seriam estes países que teriam de suportar por inteiro os
custos de ajustamento necessários.
Martin Feldstein, considerado um dos economistas mais influentes em todo o
mundo, alertou na década de 1990 que a criação da moeda única poderia provocar
efeitos opostos àqueles para que havia sido adotada, podendo ser fonte de
conflitos entre países europeus4. Em plena crise do euro, Feldstein apontava os
desequilíbrios comerciais europeus entre as causas maiores dos problemas que se
haviam criado no seio da união monetária, referindo que o montante do excedente
comercial da Alemanha em 2011 era equivalente à soma dos défices comerciais dos
países da zona euro5.
Interessará recordar que, durante anos, os estudos técnicos da Comissão haviam
chamado a atenção para os desequilíbrios macroeconómicos existentes no seio da
zona euro. Por isso, a Comissão estaria bem colocada para ter uma visão global
dos problemas que afetavam a moeda única. Todavia, desde o início da crise das
dívidas soberanas que a Comissão foi incapaz de apresentar uma compreensão da
crise do euro diferente daquela imposta pela Alemanha.
Se a Alemanha tinha uma perspetiva da crise da moeda única determinada pela
recusa em partilhar os custos de ajustamento dos países afetado6, o que numa
lógica de contraposição de interesses nacionais no limite se poderia ainda
entender, a Comissão, enquanto instituição encarregue de promover o interesse
geral da União, não poderia anuir a uma narrativa determinada por motivos de
pura conveniência política da chanceler germânica. Sob pena de ter de se
acomodar à terapia que o diagnóstico alemão implicava.
É estranho que a Comissão tenha esposado a perspetiva da Alemanha sobre as
razões da crise do euro. Que o tivesse feito no momento inicial, em que a
situação afetava apenas a Grécia, teria sido ainda admissível. Mas que tenha
mantido a mesma posição sobre os motivos da crise quando esta alastrou à
Irlanda, seguida de Portugal, ameaçando de modo sério contagiar a Espanha e a
Itália, parece menos aceitável. Sobretudo, porque a Comissão vinha de há muito
seguindo a economia dos diferentes países da zona euro, por ser uma instituição
apetrechada com competências várias, pelo que se presume pudesse ter uma visão
abran-gente das grandes tendências que influen-ciam o comportamento dos
mercados internacionais.
Por isso, a aceitação sem reservas que a Comissão fez da posição alemã sobre a
crise do euro é reveladora da sua fragili-dade, na medida em que não esboçou
qual-quer sinal de contestação perante uma tese que tinha como motivação
principal fazer recair apenas sobre os países afetados pelo aumento dos juros
da dívida pública um encargo que seria reportável a custos de ajustamento
relacionados com deficiências estruturais da própria união monetária. Não terá
sido, por certo, um momento de defesa aguerrida do interesse geral da União.
Apesar de ter recusado apresentar uma compreensão sistémica própria da crise do
euro, tendo alinhado com a posição preconizada pelos países mais fortes da
união monetária, a Comissão teve um papel de relevo no processo de ajustamento
dos países atingidos pela crise. Como é sabido, esses países viram-se obrigados
a pedir auxílio financeiro internacional, o qual foi prestado pelos estados-
membros, bem como pelo Fundo Monetário Internacional. As negociações em vista
da celebração de programas de financiamento entre credores e beneficiários da
ajuda foi confiada a um conjunto de instituições, composta pela Comissão, Banco
Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional ' a chamada troika.
As funções da troika prolongam-se por todo o período de duração do
financiamento externo, cabendo-lhe proceder a exames trimestrais de supervisão
do cumprimento das condições estipuladas nos programas de ajustamento. Em
função de uma avaliação positiva, a troika liberta a tranche sucessiva do
montante global em que se desdobra o financiamento concedido a cada um dos
países resgatados.
Todavia, a Comissão participa na troika na qualidade de agente dos estados-
membros que providenciaram o programa de financiamento. Portanto, a Comissão
não fiscaliza a implementação das medidas de ajustamento nos países
intervencionados na qualidade de instituição independente. A Comissão atua por
conta de terceiros, os estados-mem-bros da zona euro que participam na ajuda
financeira aos países resgatados7. Tal posição decorre do facto de os
instrumentos criados para a prestação de auxílio financeiro aos países da zona
euro se situarem fora do âmbito dos tratados da União Europeia. Logo, a
Comissão age com um estatuto inédito, na medida em que a sua participação na
troika não é feita enquanto instituição independente da União. Pelo contrário,
a Comissão como que se encontra numa posição de relativa subalternidade no
confronto dos países credores, atuando por conta destes últimos. Assim, o papel
da Comissão na troika é mais próximo de um secretariado técnico dos países
credores, do que da função que desempenha no processo político da União. Não
obstante o facto de os países assistidos terem sido objeto de financiamento
externo, por ter sido posta em causa a sobrevivência do núcleo duro dos
tratados da ue ' a moeda única.
Para além da insólita situação de submissão em que se encontram os países
resgatados, certo é que a Comissão se resignou à perspetiva imposta pela
Alemanha e seus parceiros para a gestão da crise do euro, tendo-se acomodado ao
desempenho de uma missão no âmbito dos programas de financiamento a estados-
membros da zona euro que contrasta com a natureza de instituição independente
no sistema político da ue.
Nova Relação De Forças
O Conselho Europeu foi, como se referiu, outra instituição favorecida pelas
alterações do Tratado de Lisboa. A melhoria da posição do Conselho Europeu, que
reúne os chefes de Governo de todos os países, no processo político da União
representa um acréscimo de intergovernamentalidade no funcionamento
institucional. Todavia, no plano conceptual o acentuar do poder dos estados-
membros seria compensado pelo incremento de poderes conferidos ao pe, nos
termos acima mencionados. Logo, as duas legitimidades em que se funda a União
beneficiariam de um aumento da sua posição relativa no seio do sistema político
da União. Acreditava-se que essa situação não afetaria o equilíbrio global de
poderes no seio da União, em termos das lógicas subjacen-tes ao seu
funcionamento, i.e., a lógica intergovernamental a que se contrapõe aquela
supranacional.
Como se viu, o período subsequente à entrada em vigor do Tratado de Lisboa foi
marcado pela erupção da crise da dívida soberana, que volveria em crise do
sistema euro com o passar do tempo. Desde então, assistiu-se à proeminência do
Conselho Europeu no processo político da União. O Parlamento Europeu tem sido
um ator secundário no que à gestão da crise do euro diz respeito, não
conseguindo desempenhar papel de relevo ao longo de toda a crise. De alguma
forma, o Parlamento
Europeu terá sido mesmo outra das vítimas maiores da crise do euro, de par com
os paí-ses com problemas de tesouraria, tendo não apenas sido incapaz de
mostrar protago-nismo político como instituição supranacio-nal da ue, como
tendo mesmo desaparecido do radar mediático.
Logo, o Conselho Europeu desfez o equilíbrio político que resultava das
alterações institucionais introduzidas pelo Tratado de Lisboa, a seu favor. Na
equação subjacente ao pacote de reforma das instituições estabelecido no âmbito
da Constituição, e repristinado pelo Tratado de Lisboa, o elemento
intergovernamental ganhou terreno de facto à vertente supranacional, reduzindo
o espaço de manobra desta última. Assim, a ue sairá desta crise como uma
entidade com um perfil mais intergovernamental de quando a mesma se iniciou,
onde se acreditava piamente na manutenção dos equilíbrios políticos acordados
ao tempo da Constituição Europeia.
Dizendo de outro modo: no papel, o Tratado de Lisboa, embora aumentasse a
importância de duas instituições ' Conselho Europeu e Parlamento Europeu ',
mantinha o equilíbrio global de poderes entre instituições supranacionais e
instituições que representam os interesses dos governos nacionais; na prática,
o Conselho Europeu ocupou o palco central do processo político da União,
relegando as instituições políticas supranacionais para plano secundário.
Para além da saliência do Conselho Europeu em resultado da crise do euro, que
vai de par com o apagamento do Parlamento Europeu, a crise mudou também as
relações de poder existentes no seio do próprio Conselho Europeu.
Na verdade, sendo o Conselho Europeu a entidade maior para a representação dos
estados, é natural que as relações de poder inerentes ao funcionamento desta
instituição projetem os equilíbrios que se vão construindo entre os diferentes
países europeus. No início do processo de integração, as relações entre países
tinham como ponto car-deal o chamado eixo franco-alemão. Desde logo, porque a
ratio da construção europeia assentava na necessidade de apagar o passado
belicoso que marcara o relacionamento entre essas duas potências.
Em virtude de a Alemanha ter saído da guerra numa situação de menoridade, coube
à França assumir a liderança política da integração europeia, tendo a República
Federal centrado os seus objetivos na reconstrução da economia, em particular,
na reanimação do seu tecido industrial e no reabilitar da sua capacidade
exportadora. Para além de que olhava para a Comunidade Europeia como veículo
apropriado para conseguir o grande objetivo estratégico de longo prazo ' a
reunificação nacional.
A criação da ue, na sequência da reunificação alemã, foi realizada numa
situação de quase paridade entre as duas nações fundadoras, se bem que a França
ainda conseguisse ter mais protagonismo político. Todavia, o Tratado de
Maastricht foi celebrado na base de uma permuta entre aqueles dois países nos
termos da qual a França aceitava uma Alemanha maior, e por isso mais poderosa,
se esta última abdicasse de algo em troca ' a sua moeda nacional.
Os tratados seguintes registaram a pretensão de a Alemanha ser reconhecida como
a maior potência no processo político da União. Em particular, na negociação do
Tratado de Nice houve uma forte contenda franco-alemã sobre o peso da nova
Alemanha. Essa questão seria resolvida pela Constituição, através de um
expediente que reconhecia expressão política superior à Alemanha uni-ficada,
contornando as exigências francesas de paridade absoluta.
Convirá recordar, todavia, que representação nacional dos grandes países na ue,
e liderança política do processo de integração pelas grandes potências, são
conceitos distintos. Na verdade, a crise do euro foi o cenário que viu a
Alemanha emergir como potência hegemónica incontestável da UE8. A assunção da
liderança pela Alemanha ocorreu num momento em que os tratados lhe tinham
reconhecido maior peso no funcionamento do processo político da União, por
comparação com as outras potências. Na perspetiva germânica, a crise do euro
atingiu o cerne da integração europeia: a política monetária. Recorde-se que a
Alemanha dominava de forma incontrastada a política monetária europeia, desde o
início da década de 1970. Porventura, não teria havido nunca moeda única, se
não tivesse acontecido a reunificação alemã. Tendo o objetivo da moeda única
resultado de uma imposição europeia, a Alemanha tratou de moldar a construção
do euro à imagem do marco alemão, blindando quaisquer veleidades da futura
política monetária europeia se afastar da homóloga política germânica. Por
isso, quando a crise do euro emergiu a Alemanha não hesitou em assumir o
controlo do processo político. A atitude europeia teria de ser formada com base
na perspetiva alemã, consagrada vinte anos antes no dispositivo do Tratado de
Maastricht, e completada no Pacto de Estabilidade.
Por outro lado, a afirmação incontroversa da Alemanha na liderança da ue terá
sido facilitada pela ausência das grandes potências na gestão da crise. A
França teve algum protagonismo durante o primeiro ano da crise do euro,
tentando temperar a intransigência das soluções germânicas, para mais tarde se
acomodar à orientação de Merkel. O Reino Unido entrou em fase de autoanulação
no quadro do processo europeu, preferindo a via do alheamento. A Itália terá
sido vítima de um vinténio político que diminui a sua credibilidade aos olhos
dos parceiros da União, tendo estado ainda debaixo da mira dos mercados
financeiros. Pelo que a hegemonia alemã foi, também, uma liderança alcançada
por defeito: em resultado da desistência de uns, da demissão de alguns, ou
ainda do desmoronar de outros.
A inflexibilidade germânica na resposta à crise do euro foi seguida por um
pequeno grupo de países que comungam das preocupações da Alemanha em sede de
política monetária. Depois de alguma hesitação inicial, a Alemanha e esses
estados concederam que fosse prestado auxílio aos países em dificuldade, em
troco de maior controlo europeu sobre as finanças públicas dos países da zona
euro. Acresce, ainda, que acederam em prestar ajuda financeira aos países que
deparavam com problemas de tesouraria, mediante severas condições impostas
pelos chamados programas de ajustamento.
Assim, no seio da zona euro formou-se um grupo de países liderado pela Alemanha
que determinou a resposta política à crise do euro. Para além disso, e tendo em
conta a natureza intergovernamental dos fundos europeus de resgaste, esses
países entenderam a sua posição de credores dos programas de financiamento de
modo algo perverso, aproveitando o mecanismo da condicionalidade para subverter
as relações de poder entre os estados da União.
Com efeito, a crise do euro veio estabelecer uma nova clivagem entre os membros
da ue: países credores, de um lado; países devedores do outro9. Na medida em
que os primeiros tomaram parte nos empréstimos concedidos aos segundos,
aproveitaram para impor mecanismos contratuais que interferem com aspetos
centrais da governação dos devedores, em particular, nos domínios das políticas
económica e orçamental.
Donde, a gestão da crise do euro ter aberto caminho para uma alteração das
relações de força existentes entre os diferentes países da União. No grupo dos
países grandes, a Alemanha sobressaiu na liderança do processo político,
afirmando-se de forma incontestada como potência dominante. A nível dos estados
médios e pequenos, a situação também conheceu uma mutação relevante, com os
países que tomaram parte na montagem dos programas de financiamento a cobrar um
custo político que acresceu ao preço do crédito concedido, qual seja, ter a
possibilidade de determinar as grandes linhas da política económica e
orçamental dos estados assistidos.
A quadratura do círculo na alteração das relações de poder ocorrida na
sequência da crise do euro tende a ser completada pela forma como o grupo de
países beneficiários da nova situação implementou a posição de vantagem
política conseguida por via dos programas de financiamento aos estados com
problemas de tesouraria. Com efeito, a negociação dos programas de assistência
que impunham medidas de ajustamento draconianas aos países assistidos, bem
como, e sobretudo, a supervisão continuada da aplicação dessas condições foi
conferida, em regime de outsourcing político, a uma instituição basilar da
União ' a Comissão ' a qual agiria em ligação com o Banco Central Europeu.
Como se referiu, a Comissão não integrou a troika ao abrigo do seu estatuto
político de instituição independente, a quem compete a função de guardiã dos
tratados e que tem como propósito principal promover o interesse geral da
União. A entrada da Comissão na troika relevou antes de uma missão que lhe foi
confiada pelos fundos de resgate. Atenta a natureza destes veículos europeus de
financiamento, a Comissão atua por conta das partes signatárias do capital
disponibilizado no âmbito de tais instrumentos. Assim, a ideia que levou à
participação da Comissão na troika poderia até servir de cobertura inteligente
para uma operação de mutação dos equilíbrios de poder entre os países da União.
Na verdade, a Comissão dispõe de um assinalável património político de
independência em relação aos interesses dos estados-membros. Como é sabido, nos
momentos mais delicados da integração europeia, a Comissão pretendeu sempre
contrariar o poder dos países mais poderosos, assumindo por norma a defesa dos
estados mais frágeis.
O que será, porventura, inédito no historial da construção europeia é ter a
Comissão a agir como longa manus de um grupo de países que conseguiu alterar a
relação de forças existente entre os estados-membros, liderado pela Alemanha,
sendo certo que a sua missão no terreno teve consequências de monta ao nível da
autonomia política dos países assistidos, e provocou estragos profundos no
tecido social dessas nações.
Conclusão
O equilíbrio institucional de poderes introduzido pelo Tratado de Lisboa ' que
era suposto durar pelo período de uma geração ' não resistiu à voragem política
ocorrida na União na sequência da crise do euro. Com efeito, no período que se
seguiu à emergência da crise o Conselho Europeu afirmou a sua ascendência sobre
o processo político da União, de forma irrefutável. Por outro lado, a crise
redesenhou as relações de poder entre os estados-membros, permitindo a
emergência de uma potência hegemónica, secundada por um pequeno grupo de
países.
Sendo a crise do euro uma crise que teve por base as insuficiências da união
monetária, a atuação do grupo de países que retiraram mais proveitos da
circulação do euro contribuiu para a criação de nova clivagem no seio dos
estados-membros, entre beneficiários da moeda única ' os quais acumularam
excedentes ' e países que enfrentaram dificuldades financeiras que os levariam
a solicitar auxílio internacional. A divisão entre países credores e devedores
no âmbito da zona euro está na base da nova relação de forças estabelecida
entre os estados-membros.
Com efeito, o modo de gestão seguido durante a crise do euro permitiu que os
países beneficiados com a moeda única adquirissem também uma situação mais
favorável no processo político da União, tendo capacidade para determinar as
grandes linhas de orientação dos países assistidos. Assim, os novos
alinhamentos políticos instituídos no rescaldo da crise do euro foram
realizados com base nas relações de poder económico entre os diferentes
estados-membros.
Para além da entropia no relacionamento entre estados-membros que esta clivagem
provocou, os países que dirigiram a gestão da crise do euro fizeram uso da
instituição supranacional por excelência para materializar a posição dominante
conquistada em virtude da crise. Neste sentido, a missão conferida à Comissão
no âmbito da chamada troika constituiu uma perversão do status político da
instituição no historial da integração europeia.
Por seu turno, o presidente cessante da Comissão terá conseguido um feito
político pessoal em termos de longevidade na chefia da instituição, apenas
comparável aos consulados de Walter Hallstein e de Jacques Delors, os quais
terão sido porventura os presidentes mais carismáticos.
Hallstein enfrentou o general De Gaulle na primeira grande crise que atingiu o
funcionamento da Comunidade Europeia, deixando o legado da união aduaneira.
Delors venceu as relutâncias da senhora Thatcher sobre a reforma do processo de
decisão, tendo sido obreiro do mercado interno e aberto caminho para a moeda
única. Todavia, Barroso terá sido o presidente que assistiu ao apagamento do
papel político da Comissão, a qual foi domesticada pela senhora Merkel durante
a gestão da crise do euro.
Data de receção: 24 de março de 2014 | Data de aprovação: 18 de abril de 2014
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