Oportunismo e salvação
RECENSÃO
Oportunismo e salvação
Helena Ferreira Santos Lopes1
Licenciada em História pela FCSH-UNL, mestre em Estudos Chineses pela School of
Oriental and African Studies, Universidade de Londres, e doutoranda em História
pela Universidade de Oxford.
Gao Bei, Shanghai Sanctuary. Chinese and Japanese Policy toward European Jewish
Refugees during World War II. Oxford, Oxford University Press, 2013, 185
páginas.
A história dos judeus na China durante a II Guerra Mundial não está
propriamente por fazer mas continua bastante desconhecida, nomeadamente na
Europa, onde os estudos sobre o Holocausto se centram sobretudo no contexto
europeu. Gao Bei pretende na sua obra Shanghai Sanctuary: Chinese and Japanese
Policy toward European Jewish Refugees during World War IItraçar um quadro das
políticas chinesas e japonesas face aos refugiados judeus na conjuntura
asiática. O título, ao remeter para Xangai, é redutor: embora a metrópole tenha
sido o principal «porto de último recurso» para centenas de milhares de judeus
durante o conflito, o livro de Gao reporta-se a políticas mais abrangentes do
que os limites da cidade, fazendo referência, entre outros, à situação na
Manchúria.
A ideia central de Gao Bei é a de que tanto as autoridades chinesas como
japonesas conceberam políticas no que concerne aos judeus centradas nos seus
respectivos interesses, sobretudo com o intuito de captar o poderio económico
que julgavam ter todos os judeus e influenciar também favoravelmente a opinião
pública, em particular a americana, para a sua posição durante a II Guerra
Sino-Japonesa. No entanto, a autora argumenta que «houve diferenças evidentes
entre as suas políticas. Os chineses nunca ameaçaram fazer mal aos refugiados
se estes recusassem cooperar. Pelo contrário, os japoneses deixaram claro que a
sobrevivência dos refugiados dependia do que contribuíssem para o [seu] plano»
(p. 10).
A tese de Gao, repetida em frases similares ao longo de todo o livro, é,
todavia, um pouco vaga, uma vez que nem a política chinesa teve um único centro
durante o conflito nem a japonesa parece ter sido tão simplisticamente
maquiavélica como a autora por vezes a caracteriza. O que ressalta após a
leitura da obra é que, não obstante as autoridades chinesas e japonesas terem
formulado planos para os refugiados judeus unicamente para satisfazer
interesses nacionalistas acabaram, porém, por ajudar à salvação de milhares de
pessoas dos horrores do Holocausto.
Política(s) Chinesa(s)
O estudo de Gao Bei alicerça-se numa miríade de fontes primárias e secundárias,
com destaque para as dos arquivos chineses (na República Popular da China e em
Taiwan), japoneses, americanos e britânicos. A aptidão linguística da autora em
chinês, japonês e inglês coloca-a numa posição privilegiada para analisar
material diverso mas nem sempre a sua análise parece contemplar essa variedade.
No que respeita às fontes chinesas, Gao Bei centra-se nas provenientes do
governo nacionalista de Chiang Kaishek que embora continuasse a representar a
China internacionalmente não controlava a totalidade do território chinês no
período em análise, incluindo Xangai.
Gao Bei dá maior ênfase às políticas do governo do Kuomintang (KMT) face aos
refugiados judeus vindos da Europa, nomeadamente a planos distintos concebidos
em articulação ou por proposta de líderes judeus. Qualquer deles, contudo, sem
resultados práticos, para criar condições de refúgio na China aos judeus
europeus.
Em 1939 Sun Ke (também conhecido como Sun Fo), o único filho do «pai da nação
chinesa» Sun Yat-sen, então presidente do Yuan Legislativo, propôs um plano
para abrigar refugiados europeus judeus «depauperados e sem casa» no Sudoeste
da China. A pretensão era a de impressionar favoravelmente a Grã-Bretanha e os
Estados Unidos, onde se supunha que círculos políticos fossem fortemente
influenciados por interesses financeiros judaicos. Um outro plano com vista à
migração de judeus da Europa Central para o interior da China foi apresentado
por Jakob Berglas, judeu alemão com negócios em Xangai também em 1939. Bei
menciona ainda um plano formulado anteriormente por Maurice William,
intelectual americano judeu, que terá influenciado Sun Yat-sen.
William e Albert Einstein integraram, também, uma instituição americana de
ajuda à China, e formularam supostamente a ideia de «encontrar uma nova casa na
China para judeus alemães» (p. 41) em 1934, esforços que William tentou
reativar em 1939 em contactos com o embaixador chinês nos Estados Unidos, o
reputado pensador Hu Shi. Para William, «os judeus alemães poderiam oferecer à
China treino técnico e científico; experiência industrial, comercial e
financeira; competências e capital», ao passo que «os judeus americanos eram
capazes de providenciar ajuda à China na sua guerra com o Japão» (p. 44). No
entanto, nenhum destes planos se concretizaria, em parte, segundo a autora,
porque a Administração americana se distanciou em 1939 dos esforços para salvar
judeus europeus e não apoiou financeiramente os planos que o governo
nacionalista chinês não poderia financiar sozinho (p. 49). Outra das razões
possíveis para o fracasso foi a posição ambígua da China face à Alemanha, com
quem mantivera boas relações até 1938.
Um outro aspecto da política do kmt face aos judeus europeus analisado pela
autora é a concessão de vistos para Xangai. Embora entrar lá não requeresse
visto,
«sobreviventes [ ] recordaram mais tarde que lhe era exigido mostrar
aos oficiais nazis provas do seu plano de partida antes de receberem
permissão formal para deixar a Alemanha ou a Áustria. Os que eram
incapazes de obter vistos estrangeiros de entrada para deixar os seus
países arriscavam ser enviados para campos de concentração» (p. 50).
Gao cita o caso mais conhecido de He Fengshan, o cônsul-geral da China em Viena
que, tal como o português Aristides de Sousa Mendes, foi postumamente
distinguido como «justo entre as nações», para concluir, com bases em fontes
oficiais do governo nacionalista chinês, que entre 1938 e 1940 diplomatas
chineses na Europa emitiram vistos para refugiados que quisessem ir para a
China. Não era apenas por iniciativa dos diplomatas mas também porque estes
«seguiam escrupulosamente instruções do Ministério dos Negócios Estrangeiros»
(p. 50). Importa notar, porém, que os vistos concedidos para Xangai não seriam
depois controlados pelas autoridades do KMT, uma vez que a cidade estava
ocupada pelos japoneses. A autora considera a contínua emissão de vistos «um
veículo para obter de facto, ou mesmo de jure, o reconhecimento por parte dos
países ocidentais da reivindicação [dos nacionalistas chineses] a este
território perdido» (p. 55).
Por outro lado, Gao Bei ignora as manifestações antijudaicas que também
existiram na China durante a guerra com o Japão. A historiadora Zhou Xun, numa
obra que, aliás, Gao inclui na sua bibliografia, havia já dedicado um capítulo
a este tema no seu livro sobre a história das percepções chinesas sobre os
judeus. Zhou Xun centra-se no governo colaboracionista de Wang Jingwei e refere
várias manifestações de anti-semitismo, nomeadamente pela Xinmin Hui (Sociedade
Renovação Popular) cujas acções antijudaicas, embora mal sucedidas,
«conseguiram influenciar o pensamento de alguns líderes e intelectuais
chineses» mesmo que «não necessariamente aprovassem a agressão japonesa em solo
chinês»2. Os judeus foram «representados como o epítome do capitalismo e
imperialismo ocidentais, bem como os fundadores do comunismo», percepções
que Zhou considera serem menos o resultado de uma política japonesa sob
influência dos nazis e mais derivadas de noções de nacionalismo e pan-
asianismo.
Zhou também evoca um exemplo curioso que Gao ignora, o da «primeira actividade
antijudaica de larga escala em Xangai»3: o lançamento de um grande número de
panfletos anti-semitas para o meio de uma multidão que assistia a um jogo de
futebol entre a equipa judaica e a equipa portuguesa.
Política Japonesa
Quanto à política japonesa face aos refugiados judeus, Gao Bei divide-a em dois
capítulos. O primeiro centra-se essencialmente no período entre Dezembro de
1937 e Dezembro de 1939; o segundo entre Janeiro de 1940 e Agosto de 1945. São
fulcrais as figuras de Yasue Norihiro e Inuzuka Koreshige, «peritos em questões
judaicas» do exército que promoveram a investigação sobre os judeus na China e
incentivaram políticas que os atraíssem. Estas, defende a autora, não foram
motivadas por preocupações humanitárias mas sim pelo desejo de usar capital e
know-howjudaicos para o desenvolvimento da China ocupada, nomeadamente a
Manchúria que desde 1931 estava controlada pelo Japão sob a fachada de um
estado independente, Manchukuo.
Já antes da ocupação japonesa a Manchúria era local de residência de judeus,
designadamente russos. Harbin tivera «a maior comunidade judaica do Extremo
Oriente» (p. 60) embora após a invasão japonesa e a escalada de raptos de
judeus em troca de resgates tenha feito com que «quase 70 por cento deles
tenham deixado a cidade» (p.61). O principal destino era Xangai. Aqui, a
comunidade judaica não era uniforme, destacando-se os judeus bagdadi (de
Bagdade, Iraque), de que faziam parte famílias proeminentes como os Sassoons ou
os Kadoories, e os judeus asquenazitas (de origem europeia), menos abastados e
influentes do que os primeiros. A estes vieram juntar-se milhares de refugiados
europeus em fuga das perseguições do Holocausto, de que o estudo de Gao Bei se
ocupa.
A primeira política oficial japonesa em relação aos judeus foi aceite em
Dezembro de 1936. Traçada pelo coronel Yasue, defendia a estratégia de «abraçar
os judeus» para garantir investimento americano em Manchukuo. Deste modo, o
número de refugiados judeus em Xangai aumentou consideravelmente, tornando-se a
sua subsistência um factor de preocupação para as autoridades locais.
O coronel Yasue e o capitão Inuzuka defendiam que «Tóquio não deveria expulsar
os judeus, uma vez que o poderio económico judaico na China, em Xangai em
particular, poderia definitivamente beneficiar o Japão» (p. 70). A autora é
muito crítica na apreciação das acções dos dois «peritos em questões judaicas»:
«A política japonesa baseava-se na ganância e desespero do exército do Kwantung
em obter capitais internacionais; os judeus eram os alvos de exploração» (p.
74). Apesar dos objectivos interesseiros eventualmente subjacentes, o resultado
foi a chegada a Xangai de mais de 20 mil refugiados europeus, cujo destino era
Xangai. Ainda que longe de idílico, era preferível aos países de origem onde os
judeus eram perseguidos.
As políticas de Yasue e Inuzuka seriam abandonadas e estes afastados em 1940,
quando, após a assinatura do Pacto Tripartite entre a Alemanha, a Itália e o
Japão, este último terá começado a acatar as críticas da primeira face ao
acolhimento que dava aos judeus europeus. Assim, «mais de mil judeus polacos,
que estavam temporariamente a procurar refúgio em Kobe» foram transportados
para Xangai (p. 112). Os refugiados polacos haviam recebido vistos de Sugihara
Chiune, o cônsul japonês em Kaunas, capital temporária da Lituânia de 1920 a
1939, que emitiu mais de um terço do total de vistos concedidos pelos cônsules
japoneses na Europa entre Janeiro de 1940 e Março de 1941 (p. 112), uma decisão
que Sugihara tomou «de acordo com o [seu] sentido de justiça humana, por amor
da humanidade» (p. 116) aproveitando zonas cinzentas na política oficial de
concessão de vistos, o que acabou por garantir a saída de mais de dois mil
judeus polacos para o Japão. Sugihara seria também honrado como «justo entre as
nações».
A política japonesa face aos judeus sofreu assim mudanças em 1942, e no início
de 1943 tinha sido concretizada a ideia de uma zona segregada em Xangai para
onde foram encaminhados os refugiados que tivessem chegado à cidade após 1937.
Mais de 20 mil refugiados viveriam até ao final da guerra numa zona que é por
vezes referida como o «gueto de Xangai». A autora constata, porém, tal como
observara Marcia Ristaino no seu estudo das comunidades judaica e russa em
Xangai durante a guerra4, que este gueto em nada se comparava aos europeus,
como o de Varsóvia, havendo muito mais liberdade de movimento e actividade,
apesar das duras condições de vida.
Embora Gao Bei se reporte à situação dos judeus na China até 1945, a maior
parte do seu livro debruça-se sobre o período anterior a 1940. Para um estudo
detalhado da experiência de refúgio em Xangai obras anteriormente publicadas
fornecem mais dados, nomeadamente o supramencionado livro de Marcia Ristaino ou
até o documentário com o mesmo título Port of Last Resort(1998).
Conclusão
Alicerçado em fontes de arquivo, nomeadamente chinesas e japonesas, a autora
demonstra como a questão dos refugiados judeus foi vista com pragmatismo pelas
autoridades nacionalistas chinesas e pelas autoridades japonesas e como, apesar
de os objectivos principais dos dois lados (garantir o apoio dos Estados
Unidos) terem fracassado, o resultado prático foi a sobrevivência de muitos
judeus europeus que encontraram em território chinês um abrigo quando o mundo
lhes virou as costas. A autora peca por ignorar as políticas dos
colaboracionistas chineses e por não desenvolver, com detalhe com que fizera
até então, as políticas chinesas e japonesas face aos judeus nos últimos anos
do conflito. O não uso de fontes alemãs e alguma falta de crédito reconhecida a
trabalhos historiográficos anteriores, já observada numa outra recensão a este
livro5, são também de mencionar.
Shanghai Sanctuaryé, no entanto, um contributo válido para a historiografia da
II Guerra Mundial, traçando, através do caso dos refugiados judeus, um ponto de
contacto entre o teatro de guerra europeu e o asiático.
Notas
1
A pedido da autora o texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
ZHOU Xun ' Chinese Perceptions of the Jews' and Judaism: A History of the
Youtai., Richmond: Curzon Press, 2001, p. 142.
3
Ibidem, p. 147.
4
RISTAINO, Marcia Reynders ' Port of Last Resort. The Diaspora Communities of
Shanghai.Stanford: Stanford University Press, 2001
5
GOLDSTEIN, Jonathan ' «Shanghai Sanctuary: Chinese and Japanese policty toward
European Jewish refugees during World War II». In The China Quarterly. Vol.
125, Setembro de 2013, pp. 789-791.
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