Encruzilhadas americanas: política externa em tempo de fadiga intervencionista
Se não disciplinarmos o nosso pensamento, as nossas definições e as nossas
ações podemos vir a ser arrastados para mais guerras que não necessitamos de
travar.
Barack Obama, 23 de maio de 20131
Sei que estamos cansados de guerra. Terminámos uma guerra no Iraque. Estamos a
terminar outra no Afeganistão. [ ] É por isso que não estamos a contemplar
colocar as nossas tropas no meio da guerra dos outros. [ ] Mas nós somos os
Estados Unidos da América e não podemos nem devemos fechar os olhos ao que
aconteceu em Damasco.
Barack Obama, 31 de agosto de 20132
UM PRESIDENTE, DOIS DISCURSOS
As comunicações presidenciais americanas, como recursos de retórica pública
destinada a persuadir ou influenciar a opinião dentro e fora da fronteira, têm
evoluído, como cientistas políticos constatam, de meras apresentações formais
de decisões políticas para se assumirem como expressões coloquiais
frequentemente autorreferenciais que procuram não só uma aproximação emocional
ao público como um seu envolvimento intelectual do processo de decisão que
conduz a uma determinada decisão política3. Cada presidente está naturalmente
consciente de que cada palavra expressa o caráter e o legado da sua
presidência, captura e potencialmente documenta os dilemas de um momento
histórico mas também, como Zarefsky argumenta, define a realidade política,
estabelecendo como norma uma de várias leituras possíveis do mundo «como é»4.
Isto explica a atenção concedida a cada comunicação presidencial americana e a
pulsão sentida por comentadores políticos (ao contrário de historiadores, em
particular dos que se especializam no estudo das dinâmicas presidenciais) de
responder rapidamente ao agora e de o fazer categoricamente, condensando
discursos e políticas complexas em respostas formatadas para se adequarem ao
tempo de atenção do público. É assim frequente que um discurso presidencial
seja descrito como «banal», «significativo», «o mais importante desta
presidência», ou, na mais ambígua das articulações, «corajoso». Cabe aos
historiadores, com a distância temporal necessária, fazer a avaliação
comparativa destes pronunciamentos e separar o que é verdadeiramente histórico
para sinalizar uma mudança política de consequências duradoiras, do que não
passa de um pronunciamento de ocasião, cuja relevância, aparente na altura, se
esvai com a passagem dos anos. A modestamente intitulada «Mensagem Especial ao
Congresso sobre a Grécia e a Turquia», proferida por Truman a 12 de março de
1947 que viria a ser entendida como a primeira articulação pública oficial da
doutrina da contenção é disso exemplo; poucos comentadores ou políticos coevos
poderiam antever que a retórica robusta e desguarnecida característica do
estilo do Presidente anunciasse não só o fim do isolacionismo americano como um
comprometimento global no confronto com as ambições da União Soviética,
alterando radicalmente o papel dos Estados Unidos no mundo e estabelecendo um
padrão de responsabilização pela ordem internacional de que nenhum presidente
desde então quis ou pode rejeitar.
No final de maio deste ano, o Presidente Obama dedicou a totalidade do seu
discurso na National Defense University à agenda de segurança nacional (a
primeira vez que o fazia desde o discurso de 2009 nos National Archives5,
anunciando uma inversão na estratégia global de combate ao terrorismo, um maior
controlo jurídico sobre o uso de drones e solicitando ao Congresso a revisão
dos obstáculos legais à transferência de detidos em Guantánamo que têm impedido
o encerramento deste embaraçante e trágico capítulo da história legal
americana. Comentadores classificaram esse discurso de histórico. O editorial
do New York Times, intitulado «O Fim da Guerra Perpétua» considerou as palavras
do Presidente como o «pronunciamento mais importante sobre a política de
contraterrorismo desde os ataques de 2001, e um ponto de viragem para uma
América pós -11 de setembro»6, enquanto o constitucionalista e ativista dos
direitos humanos, David Cole, da Universidade de Georgetown, considerou, na New
York Times Review of Books, que se as promessas do discurso viessem a ser
implementadas, o Comité que decidiu galardoar o Presidente com o Nobel da Paz
em 2009 viria a provar ter sido presciente7.
Comentadores conservadores avaliaram diferentemente o discurso, como seria de
esperar; Ross Douthat numa coluna de opinião intitulada «Obama's Artful
Anguish» considerou o discurso como uma tentativa de sossegar a opinião
liberal, inquieta com as linhas de continuidade com a política de segurança
nacional herdada da última administração, um exercício de autodefesa que se
poderia resumir numa simples asserção: «Liberais, não se preocupem, não sou
George Bush.»8 Mas quer considerassem o discurso como uma promessa de mudança
há muito desejada e adiada, quer como uma precipitada rutura com uma política
ainda necessária, camuflada por uma retórica moralista, apoiantes, críticos e
observadores reconheceram quase unanimemente que este era um momento que Obama
via como significativo para o legado da sua presidência, que respondia a uma
pulsão pessoal, que este era, em resumo, um discurso que o Presidente queria
proferir.
Três meses mais tarde, um outro discurso sobre uma outra mudança de política
significativa parece inverter as promessas de rutura com o legado
intervencionista do passado recente; ao anunciar a decisão de utilizar a força
militar para punir o Governo da Síria pelo uso reincidente de armas químicas,
sem um mandato do Conselho de Segurança, sem uma decisão formal da nato9,
depois do voto do parlamento britânico ter inviabilizado a esperada e
fundamental participação da Grã -Bretanha e antes de consolidar o apoio de
aliados regionais e da Liga Árabe10, o Presidente Obama parece ter renunciado à
sua estratégia cuidadosamente calibrada de distanciamento do papel tradicional
dos Estados Unidos no «Grande Médio Oriente». É sempre possível argumentar que
a decisão de finais de agosto foi pré -condicionada por uma sequência de
decisões anteriores que remonta pelo menos à estratégia de «liderança pela
retaguarda» da campanha da Líbia e pela retórica das linhas limites a partir
das quais o país está obrigado a responder, ou que foi a intensidade da pressão
política interna que empurrou o Presidente para uma decisão que não podia
deixar de tomar. É mesmo possível cotejar os pronunciamentos de maio com os de
agosto e usar os primeiros para desautorizar os segundos. A história certamente
julgará qual das realidades políticas construídas pelos dois discursos é mais
persuasiva, qual melhor traduz os imperativos do momento e lhes responde
eficazmente, qual melhor sintetiza a ambiguidade da liderança americana no
clima de esgotamento intervencionista, ou mesmo se ambos expressam
coerentemente dois tipos de encontros diferentes com a responsabilidade
presidencial. A discussão que se segue, como qualquer comentário não moderado
pelo distanciamento histórico e pela avaliação das consequências das palavras e
decisões que expressam, só pode ler cada discurso no contexto particular que
lhe dá forma, analisando motivações, identificando tendências, expondo linhas
de coerência e de dissonância e, sobretudo antecipando consequências de
pronunciamentos e decisões cujo impacto perdurará muito para além da vigência
desta administração.
O FIM ANUNCIADO DO «ESTADO DE GUERRA PERPÉTUO»
Tal como Kennedy no discurso «Estratégia para a Paz», na sequência da crise dos
mísseis em Cuba, convocou uma mudança do paradigma dos primeiros catorze anos
de confronto com a União Soviética, baseada na aceitação das limitações do
poder americano para formatar radicalmente a ordem internacional, Barack Obama
construiu o seu argumento em favor do fim de «estado de guerra perpétuo» a
partir de uma leitura avaliativa dos doze anos de vigor da «Autorização para
Uso de Força Militar» (contra terroristas) adotada pelo Congresso em 2001.
Aprovado com quase unanimidade pelas duas câmaras11 no clima de emergência
nacional imediatamente subsequente aos ataques de setembro, o texto autoriza o
Presidente a usar
«toda a força necessária e apropriada contra nações, organizações ou
pessoas que considere que tenham planeado, autorizado, cometido ou
auxiliado os ataques do 11 de setembro ou abrigado tais organizações
ou pessoas de forma a impedir futuros ataques de terrorismo
internacional contra os Estados Unidos».12
Formalmente destinada a autorizar a resposta defensiva dos Estados Unidos
contra a Al Qaida, esta carta -branca aos poderes presidenciais efetivamente
militarizou o combate ao terrorismo, reconceptualizando -o como uma guerra, e
foi invocada frequentemente para justificar a suspensão de direitos
constitucionais, nomeadamente no que diz respeito à vigilância eletrónica sem
autorização judicial ou à constituição de comissões militares em Guantánamo,
que o Supremo Tribunal viria a declarar ilegais em 200613.
Estruturado como uma conversa racional com várias sensibilidades políticas
críticas14culminando na declaração de intenção de pedir ao Congresso que ponha
fim à vigência da Autorização e no compromisso de não assinar mais leis que
alargassem os seus já vastos poderes excecionais, o discurso mobiliza dois
tipos de argumentos básicos ' um de ordem pragmática e outro de ordem
constitucional.
O primeiro assume frontalmente a impossibilidade de garantir uma derrota total
e final do terrorismo, medida pelos mesmos critérios que se aplicam à derrota
de um inimigo numa guerra convencional: «a nossa vitória contra o terrorismo
não poderá ser assinalada por uma cerimónia de rendição num navio de guerra ou
pelo derrube de uma estátua», mas pelo grau de confiança dos cidadãos na
possibilidade da normalidade das suas vidas e pela continuidade da liberdade de
pensar, atuar e discordar15. Prosseguir um sucesso desta ordem implica um
reconhecimento de que os Estados Unidos não podem usar a força contra todas as
ideologias radicais, que estas muitas vezes emergem de contextos locais que o
país não controla e que é aconselhável ser «humilde nas expectativas de que
podemos resolver depressa problemas profundos como a pobreza e o ódio
sectário»16.
Esta consciência prudente das limitações do poder militar e político do país é
acompanhada da garantia de que os esforços sistemáticos para desmantelar
organizações terroristas podem e devem continuar a ser efetivos sem o uso de
medidas excecionais, no quadro de uma redefinição conceptual que mapeia o
contraterrorismo não como uma «guerra global sem limites» mas como «uma série
de esforços persistentes e dirigidos a alvos precisos, de forma a desmantelar
redes específicas de extremistas violentos que ameaçam a América»17,
privilegiando o exercício delicado e minucioso de recolha de informação e os
protocolos de colaboração internacional, cujos sucessos inegáveis foram
salientados. O facto de esta descrição convocar os intensos debates sobre a
preferência estratégica da Administração pelo uso de drones para ataques letais
e de o Presidente ter colocado aberta e francamente na arena pública o
desconforto moral, as dificuldades e os riscos dessas opções, enquadrou o
anúncio de mais uma significativa inflexão na prática da luta antiterrorista;
sem ignorar a seriedade das questões levantadas por esta tecnologia ' os
critérios de escolha de alvos, o risco de vítimas civis, o potencial de criação
de novos inimigos, a legalidade face às leis americanas e internacionais e a
eficácia dos mecanismos de responsabilização ' o Presidente não se limitou a
uma postura justificativa do seu uso, conduzindo de facto os interlocutores
nacionais e internacionais por uma viagem pelas ambiguidades éticas que cada
decisão implica. Descrevendo o processo de deliberação sobre o uso da força
contra indivíduos ou grupos inimigos como a tarefa mais difícil que tem recaído
sobre os seus ombros (com a exceção de enviar americanos para missões de
combate), o Presidente comunicou a intenção de renunciar a uma moldura de quase
vazio legal que tem garantido a virtual impunidade do Governo. Isto implicou de
imediato a codificação dos critérios de seleção e procedimentos na utilização
de drones fora de zonas de combate através de uma nova diretiva presidencial.
Sendo embora um documento interno e classificado, o resumo das diretivas
publicado pela Casa Branca18 indica, o mais claramente que é possível num texto
deste tipo, uma sequência de critérios que, partindo da declaração de
preferência pela captura de suspeitos (imprescindível para o exercício de
recolha de informações) e da reiteração na necessidade de garantia de base
legal para cada decisão, procuram disciplinar o processo decisório. Os cinco
critérios explicitados são: i) a elevada probabilidade de que o alvo esteja
presente; ii) a elevada probabilidade de que não combatentes não venham a ser
atingidos; iii) a avaliação de que na altura da operação a captura não é
viável; iv) a avaliação de que o governo do país em que a ação terá lugar não
reúne as condições para neutralizar a ameaça; v) a avaliação de que não existem
outras alternativas razoáveis de neutralizar a ameaça identificada. Não
anunciada no discurso, mas talvez tão importante como o que foi articulado, foi
a decisão, depois de meses de intenso debate interno, de passar gradualmente a
responsabilidade de gestão do uso de drones da cia para o Departamento de
Defesa, aumentando a transparência e a vigilância do Congresso sobre a
implementação deste tipo de recursos.
A tentativa de reduzir e disciplinar o uso letal de drones e de normalizar o
combate antiterrorista foi também operacionalizada discursivamente com a
invocação dos valores democráticos e constitucionais americanos. A denúncia
eloquente do prolongamento inaceitável de Guantánamo, perante a aprovação pelo
Congresso de legislação específica que proíbe o financiamento de julgamentos de
detidos em solo americano e impede a sua transferência para outras prisões de
segurança máxima já existentes no país (a que se junta a inoperância da própria
Administração que durante meses paralisou efetivamente os processos de
repatriação de detidos sobre os quais já não recaem suspeitas19), foi ancorada
numa sequência de perguntas que pretendem envolver o povo americano no repensar
da sua própria identidade política: «É isto que nós somos? Foi isto o que os
nossos pais fundadores imaginaram? É esta a América que queremos deixar aos
nossos filhos?»20
A perceção de que este discurso fecha um capítulo aberto pelo «11 de setembro»
e assinala uma reconciliação da longa tradição liberal americana com as
necessidades da política de segurança interna só será naturalmente confirmada
pela implementação das políticas enunciadas. Algumas das medidas solicitadas ao
Congresso dependem da capacidade negocial da Casa Branca com a maioria
republicana na Câmara de Representantes, mas outras são da responsabilidade
exclusiva da Administração. Cabe em grande parte ao Presidente, com todas as
prerrogativas do seu cargo, transformar a promessa de terminar o estado de
guerra permanente inaugurado pela aumf de 2001, numa normalidade democrática em
que os imperativos da segurança interna e externa são não só conciliáveis como
parte integrante da liberdade garantida pela Constituição21.
O REGRESSO DO XERIFE RELUTANTE
Quando em 1997 Richard Haas utilizou a metáfora do xerife do Western para
caracterizar o papel histórico e as responsabilidades a que os Estados Unidos
estavam destinados no pós-Guerra Fria22 evocou uma imagem carregada de
implicações políticas: um mundo desordenado onde não existe uma ordem legal
respeitada e um xerife com a capacidade de tentar regular essa desordem que
assume a responsabilidade, e liderando um grupo de voluntários que sem qualquer
obrigação institucional ou formal acodem à emergência para de seguida
regressarem aos seus interesses individuais. Ao contrário da metáfora do
polícia, que evoca arranjos formais e obrigações permanentes, o xerife,
frequentemente voluntário, pode escolher quando interferir; a sua
responsabilidade deriva da consciência das suas capacidades e da sua aptidão
para formar coligações temporárias. Para Haass, esse era o destino a que os
Estados Unidos não podiam escapar em consequência não só dos seus interesses
mas das suas capacidades. Sem capacidade suficiente de policiar o mundo inteiro
e sem vantagem prática em agir sozinho, o ainda mais poderoso país do mundo
estava condenado a ser chamado a assumir responsabilidades perante casos de
agressão internacional em grande escala, de proliferação de armas de destruição
maciça ou de comportamento que ameaçasse a estabilidade internacional.
Se nenhum presidente americano do pós -Guerra Fria pode deixar de sentir o peso
e poder desta metáfora, poucos a têm procurado reformular como Barack Obama. Os
esforços para reposicionar a política externa americana em esferas
multilaterais, a nova importância atribuída às Nações Unidas, o reativar de
relações de cooperação produtiva com a Rússia, a prudência em relação ao
envolvimento em mais conflitos externos do que os herdados que deliberadamente
se encerram, correspondem a uma visão que reimagina a ordem global como uma
responsabilidade não de um país poderoso e alguns aliados ad hoc mas como o
dever assumido por toda a comunidade internacional. E, no entanto, quando se
dirigiu ao país a 31 de agosto para comunicar a decisão de fazer a Síria pagar
um preço pela violação do tabu legal sobre o uso de armas químicas,
internacionalmente aceite desde 1925, o Presidente estava mais só politicamente
do que qualquer dos seus antecessores que iniciou ações militares fora do
contexto de instituições multilaterais.
Os condicionalismos desta retração de aliados tradicionais são óbvios; em
primeiro lugar, a extrema desconfiança com que as opiniões públicas recebem as
garantias da Administração quanto à certificação dos factos incriminatórios,
quando o impacto dos equívocos que conduziram ao envolvimento no Iraque ainda
não foi esquecido; em segundo lugar, o estado de esgotamento económico e social
que faz passar todas as propostas de gastos adicionais por um crivo mais fino
do que o usado em momentos de prosperidade; em terceiro lugar, a desilusão com
a «primavera árabe», que muitas opiniões públicas imaginaram ingenuamente
conduzir automaticamente a uma ordem democrática que tirasse o Médio Oriente da
lista dos problemas permanentes que constantemente exigem a atenção do resto do
mundo. Todos estes fatores são importantes, mas todos eram conhecidos e nem o
Governo britânico, cuja precipitação em levar uma moção ao Parlamento antes de
tempo conduziu a uma humilhação do primeiro -ministro e ao abalo do prestígio
nacional, nem a Administração americana poderiam ter deixado de os incluir nos
seus cálculos políticos.
Os diagnósticos sobre a responsabilidade da Administração Obama neste
isolamento inicial são variados e muitos deles parcialmente persuasivos. O
primeiro, e talvez o mais convincente, considera a aparente incapacidade de
controlar o fluxo da crise como consequência indireta e não prevista das boas
intenções da Administração Obama de redirecionar as suas atenções estratégicas
do Grande Médio Oriente para outras zonas do mundo, nomeadamente para a Ásia.
Como Haas refere num artigo recente, a atenção excessiva sobre a região tem
«dominado e distorcido a política externa e militar dos Estados Unidos»23 e uma
correção parecia não só prudente como necessária, especialmente à luz da
crescente autonomia energética dos Estados Unidos. Este descentrar de atenção
estratégica, acentuado pela aceitação de um papel secundário nas operações na
Líbia, por hesitações e equívocos na resposta à crise egípcia, e por uma
extrema relutância em responder à guerra civil síria com o vigor que vozes
conservadoras intervencionistas como a do senador McCain aconselhavam, adiando
até ao verão de 2013 uma decisão de armar diretamente algumas fações da
oposição, teriam conduzido Assad à conclusão de que os avisos de Obama sobre a
mudança de cálculo político precipitada pelo uso de armas químicas não passaria
de retórica. Para os críticos que acusam o Presidente de negligência, fraqueza
e falta de ambição política, uma relação mais próxima com a oposição não
sectária (nomeadamente o Exército Livre da Síria) e o seu fortalecimento
militar, teriam evitado que o equilíbrio de capacidades militares das forças
anti -Assad favorecesse agora organizações sectárias sunitas próximas da Al -
Qaida, como a Jabhat al Nursa e como a organização «Estado Islâmico no Iraque e
no Levante»24, composta por vários grupos jihadistas com presença significativa
no Norte do país, nos distritos de Ar -Raqqa, Idlib e Alepo25.
A Administração tem também sido acusada de inépcia na frente diplomática,
nomeadamente na relação com a Rússia, indispensável para qualquer saída
política para a crise síria, não reconhecendo suficientemente os seus
interesses regionais e a longa relação com a dinastia Assad. De acordo com esta
tese, insistir na mudança de regime, por exemplo, teria colocado um obstáculo a
uma colaboração da Rússia numa solução diplomática. Esta crítica parece no
entanto simplificar um cenário complexo: em primeiro lugar, sendo embora
verdade que a Rússia poderia viver sem Assad (se, por exemplo, um golpe interno
o derrubasse e substituísse por um interlocutor aberto a uma solução negociada
que respeitasse os interesses russos), o comportamento do Presidente Putin não
tem permitido um clima de colaboração internacional que ajudasse a uma solução
diplomática. O isolamento da posição russa no Conselho de Segurança, traduzido
em três vetos sucessivos de resoluções de condenação do regime sírio e
imposição de sanções em outubro de 2011, no início do conflito, em fevereiro e
em julho de 2012 fecharam a porta, pelo menos temporariamente, a uma solução
política do conflito, por não terem exercido qualquer pressão sobre o regime
que encorajasse a sua aceitação de um processo negociado.
A acusação de que a Administração não tem tido uma estratégia síria também não
parece ser completamente convincente. O que se pode dizer é que não tinha uma
estratégia para uma solução militar na guerra civil. A linha de atuação da
Administração pode ser considerada hesitante, tardia ou inadequada, mas era
relativamente evidente: apoiar as forças moderadas do Exército Sírio de
Libertação comandado pelo general Salim Idriss, até que as realidades no
terreno forçassem uma solução negociada; procurar exercer influência sobre os
países aliados, como a Arábia Saudita e o Qatar, para que redirecionassem o seu
apoio em armamento e outros recursos logísticos dos grupos jihadistas dentro da
oposição para setores mais moderados; e garantir que a queda de Assad não dê
lugar a um cenário de caos militar e sectário, ou seja, que não ocorra antes
que a correlação de forças dentro da oposição armada seja mais favorável.
A decisão de intervir militarmente agora, para além das razões articuladas
publicamente sobre o futuro da ordem internacional se leis coletivas forem
violadas impunemente, é assim certamente pautada por duas precauções não
declaradas que exigem um difícil equilíbrio ' garantir que Assad não continua a
atuar com impunidade absoluta e esmagando a oposição usando todo o arsenal
letal ao ser dispor, mas também que não é de tal forma enfraquecido
militarmente que o regime caia prematuramente nas mãos dos combatentes
jihadistas ou dos seus aliados do Hezbollah e do Irão.
Não parecendo na altura da redação deste artigo possível que o Congresso cometa
um ato de suprema irresponsabilidade suicidária negando ao Presidente uma
autorização para uma intervenção externa26 (a primeira vez que tal sucederia na
história americana), deixando um legado de impotência e imprevisibilidade que
assombraria todos os futuros presidentes, o melhor que se pode esperar num
contexto em que todas as opções parecem igualmente carregadas de perigos é que,
uma vez decidida, a intervenção militar cirúrgica seja calibrada para dar tempo
à oposição mais moderada para se reafirmar no terreno, e para gerar no regime e
nos seus aliados russos um processo de cálculo de custos -benefícios que torne
um processo político negociado necessário e vantajoso, já que esse parece ser o
único caminho para um cessar de hostilidades.
A dinâmica das escolhas impossíveis e a aceitação de objetivos limitados não
gera retórica elegante capaz de galvanizar emocionalmente a opinião pública. Se
os discursos de 31 de agosto e de 23 de maio refletem ruturas políticas
significativas, o mais recente marca também o reencontro de um presidente
angustiado com a lógica inexorável do «xerife relutante». Vista a partir da
Casa Branca a premissa é simples: quando não há polícia à vista, existe um
perigo visível e, se tem capacidade para o enfrentar, fechar os olhos não é
possível se se quer continuar a ser respeitado. Como Barack Obama declarou em
conferência de imprensa na Suécia, na véspera da reunião dos G20, «faz parte do
pacote».
Data de receção: 17 de junho de 2013 | Data de aprovação: 5 de setembro de 2013
NOTAS
1
Obama, Barack ' «Remarks by the President at the National Defense University»,
23 de maio de 2013. Consultado em: 27 de maio de 2013. Disponível em: http://
www.whitehouse.gov/the-press-office/2013/05/23/remarks-president-national-
defense-university .
2
Obama, Barack, Casa Branca, 31 de agosto de 2013. Consultado em: 1 de setembro
de 2013. Disponível em: http://www.washingtonpost.com/politics/transcript-
president-obamas-aug31-statement-on-syria/2013/08/31/3019213c-125d-11e3-b4cb-
fd7ce041d814_story.html .
3
Lim, Elvin T. ' «Five trends in Presidential rhetoric: an analysis of rhetoric
from George Washington to Bill Clinton». In Presidential Studies Quarterly.
Vol. 32, N.º 2, 2002, pp. 328-366.
4
Zerefzky, David ' «Presidential rhetoric and the power of definition». In
Presidential Studies Quarterly. Vol. 34, N.º 3, 2004, pp. 607-619.
5
Obama, Barack ' National Archives, Washington, D.C., 21 de maio de 2009.
Consultado em: 25 de maio de 2013. Disponível em: http://www.whitehouse.gov/
the-press-office/remarks-president-national-security5-21-09 .
6
«The end of the perpetual war». In New York Times, 23 de maio de 2013.
Consultado em: 24 de maio de 2013. Disponível em: http://www.nytimes.com/2013/
05/24/opinion/obama-vows-to-end-of-the-perpetual-
war.html?pagewanted=all&_r=2& .
7
Cole, David ' «Obama's long road to peace». In New York Review of Books Blog,
24 de maio de 2013. Consultado em: 25 de maio de 2013. Disponível em: http://
www.nybooks.com/blogs/nyrblog/2013/may/24/obamas-long-road-peace/ .
8
Donthat, Ross ' «Obama's Artful Anguish». InNew York Times, 25 de maio de
2013. Consultado em: 27 de maio de 2013. Disponível em: http://www.nytimes.com/
2013/05/26/opinion/sunday/douthat-obamas-artful-anguish.html?_r=0.
9
À altura da redação deste artigo, o secretário-geral da nato, alertando embora
para o perigo da ausência de resposta da comunidade internacional a um uso em
grande escala de armas químicas, e aceitando as provas da responsabilidade do
Governo sírio, deixou claro que a Aliança não se envolveria institucionalmente
numa ação militar, para além das suas naturais obrigações de proteção da
Turquia, cabendo a países membros a título individual qualquer tomada de
iniciativa. «Discurso de Anders Fogh Rasmussen», 2 de setembro 2013. Consultado
em: 3 de setembro de 2013. Disponível em: http://www.reuters.com/article/2013/
09/02/us-syria-crisis-nato-idUSBRE9810BO20130902.
10
À data da redação deste artigo a Liga Árabe (reunida no Cairo a 3 de
setembro), refletindo as suas contradições internas, aprovou uma declaração
que, reconhecendo embora a responsabilidade do Governo sírio e apelando às
Nações Unidas e à comunidade internacional para assumirem ações de dissuasão,
não se pronunciou a favor de uma resposta armada como proposto pela Arábia
Saudita e pela oposição síria. Essa posição foi contestada por países como o
Egito, Iraque, Líbano, Tunísia e Argélia.
11
Na Câmara de Representantes a resolução teve um único voto contra e dez
abstenções (contra 420 votos favoráveis) e no Senado apenas dois senadores se
abstiveram e nenhum votou contra.
12
Ver texto integral em http://news.findlaw.com/hdocs/docs/terrorism/
sjres23.enr.html (consultado em: 2 de junho de 2013).
13
Ver Hamdan v. Rumsfeld. A decisão do Supremo Tribunal rejeitou os poderes
presidenciais concedidos pela Autorização de Uso de Força Militar contra
Terroristas como justificação para violação do Código de Justiça Militar e de
quatro Convenções de Genebra ratificadas pelos Estados Unidos desde 1949.
14
Esta conversa foi mesmo corporizada numa troca de impressões com uma crítica
pública da sua presidência, Medea Benjamin, da organização Code Pink, autora do
livro Drone Warfare: Killing by Remote Control, que interrompeu repetidamente o
Presidente. O facto de Obama lhe ter respondido diretamente e classificando
como «importante» o que ela tinha para dizer, para além de constituir um
comportamento presidencial virtualmente inédito, reflete o tom conversacional
do discurso e a tentativa de Obama de criar uma lógica de envolvência da sua
audiência virtual no seu processo de decisão.
15
Ibidem, 24.
16
Ibidem, 11.
17
Ibidem, 6.
18
«U.S. policy standards and procedures for the use of force in counterterrorism
operations outside the United States and areas of ative hostilities». In White
House, 23 de maio de 2013. Consultado em: 30 de maio de 2013. Disponível em:
http://www.whitehouse.gov/sites/default/files/uploads/
2013.05.23_fact_sheet_on_ppg.pdf .
19
A maioria dos detidos é originária do Iémen, o que tem alimentado a suspeita
de que uma vez repatriados poderão engrossar as fileiras de organizações como a
aqap (Al Queda in the Arabian Peninsula).
20
OBAMA, Barack ' «Remarks by the President at the National Defense University»,
23 de maio de 2013. Consultado a 27 de maio de 2013.
21
Os sinais em relação a Guantánamo são mistos. Enquanto o Congresso acrescentou
em junho, depois deste discurso, uma cláusula específica à Lei de Autorização
de Defesa Nacional para 2014 que proíbe o governo de transferir para o Iémen os
56 prisioneiros que as autoridades militares e judiciais designaram como
prontos para serem libertados, no que diz respeito à iniciativa presidencial
depois da nomeação de Clifford Sloan, um prestigiado advogado de Washington
como o novo enviado especial para o encerramento de Guantánamo, dois detidos
foram libertados no fim de agosto (os primeiros num ano) e repatriados para a
Argélia, o seu país de origem.
22
Haas, Richard ' The Reluctant Sheriff: The United States after the Cold War.
Washington: Council on Foreign Relations Press, 1997.
23
Haas, Richard ' «The irony of American strategy: putting the Middle East in
proper perspective». In Foreign Affairs. Vol. 92, N.º 3, 2003, p. 59.
24
Ibish, Hussain ' «Support for the rebels will help push Syrians away from
extremists». In The National, 4 de agosto de 2013. Consultado em: 19 de agosto
de 2013. Disponível em: http://www.thenational.ae/thenationalconversation/
comment/support-for-rebels-will-help-push-syrians-away-from-extremists#full .
25
Na sua origem esta era uma organização iraquiana que, após várias mudanças de
designação, se tornou conhecida como a Al-Qaida no Iraque. Na primavera de
2013, mudou de nome, refletindo a extensão da sua participação na guerra civil
da Síria. Ao que é sabido este grupo tem acolhido um número substancial de
jihadistas estrangeiros.
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O comportamento do Partido Republicano, dividido entre a ala minimalista e
isolacionista de Ron Paul e Ted Cruz, a ala hiperintervencionista de John
McCain e a ala indecisa preocupada com os gastos de qualquer conflito, não é
mais imprevisível do que o do Partido Democrata, igualmente dilacerado por
dúvidas internas
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