Waltz, a ideia de anarquia e o estudo das relações internacionais
Numa perspectiva singular e pioneira de educação liberal, Mortimer Adler
sustenta que a leitura e discussão de grandes livros deva ser o centro de uma
educação humanista geral. O objetivo dessas atividades é desenvolver as
habilidades intelectuais de leitura e pensamento críticos que conduzam os
estudantes à compreensão das ideias, questões e controvérsias básicas de nossa
tradição intelectual. Os grandes livros são aqueles que deram vida e contorno
ao pensamento ocidental. Sua harmonia reside não apenas no fato de que cada um
deles merece ser lido, mas sim que as ideias contidas neles formam uma unidade
mais profunda: a discussão contínua de temas, problemas, tópicos e termos
comuns. Mais do que uma coleção de livros, trata-se de um todo, que deve ser
tomado, tratado e lido com tal.
A meta educacional preponderante na leitura dos grandes livros é a compreensão
das grandes ideias que resultam do diálogo entre seus autores. Cada ideia é um
objeto de discussão, na qual estes se encontram para concordar, discordar e
comunicar uns com os outros sobre uma preocupação em comum. Em sua formulação
original, Adler elencou cento e duas grandes ideias. Ainda que sua construção
seja abrangente, ela não é taxativa ou fechada, e uma das ideias não incluídas
no rol original é a de anarquia, com o sentido particular desenvolvido no
âmbito das relações internacionais. Compreendê-la é de tal importância que uma
justificativa parece ser desnecessária: ao seu redor foram e continuam sendo
construídas as principais questões e problemas da interação entre estados e
povos desde a aurora da modernidade.
Traços de um estudo da anarquia estão presentes no pensamento de Tucídides,
Thomas Hobbes, David Hume e Carl von Clausewitz (autores que compõem a lista de
grandes livros de Adler). Mais recentemente, uma proposta de estudo da anarquia
foi feita por Richard Rosecrance, Stanley Hoffmann, Morton Kaplan e Raymond
Aron. No entanto, nenhum desses pensadores propôs a anarquia como elemento
fulcral, como uma ideia fundamental e centralizadora para a compreensão das
grandes questões internacionais como fez Kenneth Waltz. Sem negar a influência
daqueles e de outros pensadores, Waltz formula um entendimento de anarquia
original e necessário para a educação a respeito dos fenômenos correntes no
mundo.
O CAMPO DE ESTUDO DA ANARQUIA INTERNACIONAL
O problema que se tem que lidar de antemão é que, como qualquer autor clássico,
Waltz é geralmente mais citado do que lido e, quando lido, suas ideias são
geralmente mal-interpretadas, ao ponto de facilmente se inverter a formulação e
a intenção originais. Como se sabe, devido à inércia natural na divulgação de
ideias, um pequeno desvio inicial de interpretação acaba por levar a uma grande
modificação do pensamento de um autor, tendo como resultado um sem-número de
propostas equivocadas atribuídas a ele. Temas e entendimentos comumente
imputados a Waltz e a seus seguidores ' como a soberania significar a ausência
de um ente superior aos estados, os estados como únicos atores do sistema
internacional, a racionalidade intrínseca em suas ações etc. ' atrapalham a
compreensão e julgamento de seus argumentos. Nesse cenário, a conclusão de que
as abstrações de Waltz não serviriam de base para se compreender nenhum
fenômeno recente das relações internacionais é bastante equivocada. Ao
contrário, os presentes autores consideram que a obra de Waltz não só apresenta
uma solidez sem paralelo no corpo teórico das relações internacionais, como
também suas propostas impulsionam a ideia de anarquia como sendo o elemento
fundamental da educação em relações internacionais.
O livro primordial de Waltz é Teoria da Política Internacional (1979, publicado
em Portugal em 2005). Nele, advoga insistentemente a necessidade de construção
de um pensamento abstrato rigoroso. Waltz propõe a abordagem sistêmica da
sociedade internacional estruturada por um princípio de ordenamento anárquico
como sendo o principal definidor das regularidades no comportamento dos atores
internacionais. Em consequência, a análise da anarquia é requisito necessário
para o estudo de qualquer evento internacional e provavelmente uma das últimas
grandes ideias criadas na história do conhecimento ' marca da distinção das
relações internacionais como um domínio específico de estudo.
Para estudar a anarquia, Waltz, em primeiro lugar, traz à cena uma base
filosófica sem precedentes no campo das relações internacionais. Por um lado,
adere à construção de sua teoria por abstração, «o que requer deixar algumas
coisas de lado para nos concentrarmos noutras». Por outro, em relação às demais
formas de construção teórica ' isolamento, agregação e idealização ' Waltz
argumenta que a natureza do problema da anarquia internacional impede a escolha
das duas primeiras. Isso porque esse objeto não permite o uso do método
analítico da física clássica ' «examinando os atributos e interações de duas
variáveis enquanto outras são mantidas constantes» ' e também não permite
aplicação do método estatístico ' «quando o número de variáveis se torna muito
grande». A anarquia internacional é um tipo de complexidade organizada, de
maneira que se tem um número médio de variáveis que não permitem serem
«congeladas» e analisadas em pares, nem elas são lineares o suficiente para
serem sistematizadas estatisticamente. Como resultado, a única abordagem
permitida para seu estudo é a sistêmica.
Em segundo lugar, Waltz clarifica que existem duas formas de se construir uma
teoria de sistemas: uma micro e outra macrossistêmica. Na economia, campo em
que essa distinção está consolidada, a macroeconomia estuda a expansão e a
retração da economia em geral a partir do comportamento de agregados
econômicos; já a microeconomia estuda a tomada de decisão de atores individuais
e sua interação com a tomada de decisão de todos os outros atores nos mercados.
Waltz corretamente avalia que não existem «agregados políticos» tais como os
econômicos; a própria natureza da ação política impede a construção de uma
macroteoria da política internacional com base na seleção de uma pequena ou de
uma enorme quantidade de possibilidades de ação, conforme vimos acima. Contudo,
é possível construir uma microteoria da ação internacional porque nessa está em
jogo o fato de as unidades não fazerem o que bem quiserem, livres das
influências das demais unidades, mas sim terem a capacidade de decidir por si
mesmas como irão lidar com problemas internos e externos, incluindo buscar ou
não assistência das demais unidades ' o que limita sua liberdade por causa de
compromissos assumidos. Ou seja, na anarquia, os atores são sempre
constrangidos pelo resultado das decisões dos demais atores.
Em terceiro lugar, ainda em relação à economia, há dois tipos de sistemas
econômicos: na economia de comando, existe uma autoridade central que toma
decisões de produção e consumo; na economia de mercado, por sua vez, impera a
escolha individual e a interação das escolhas dos demais indivíduos em um
ambiente. Isto é, na economia de comando, há uma coordenação com coordenador
central; já na economia de mercado, há uma coordenação sem coordenador central.
Segundo Waltz, tais distinções, aplicadas ao sistema internacional, se devem
aos atributos da estrutura das relações políticas internacionais (cujas
unidades que se comportam como uma economia de mercado) em contraposição às
nacionais (em que as unidades se comportam como uma economia de comando). Isso
se dá, segundo ele, pelo fato de as estruturas políticas condicionarem os
processos políticos. Em outras palavras, a disposição das unidades no sistema
internacional condiciona os tomadores de decisão dos países a uma similaridade
de decisões e condutas de suas políticas externas que devem pouco para as
considerações políticas nacionais e pessoais. Entretanto, as similaridades são
maiores entre unidades políticas em disposições sistêmicas equivalentes, assim
como as diferenças entre unidades políticas em disposições sistêmicas
discrepantes. Tal disposição sistêmica é resultado da condição relativa de
capacidades de poder entre as unidades, sendo que as unidades com maiores
capacidades possuem disposições que mais afetam do que são afetadas pelo
sistema. Portanto, a consequência lógica dessa formulação é que o estudo da
política internacional se concentre no estudo das grandes potências.
Em termos conclusivos, há uma série de teóricos das relações internacionais que
buscam seguir o entendimento de Waltz à risca e aplicar ou estender suas
considerações. Stephen Walt e Randall Schweler, por exemplo, investigam
explicitamente a formulação de uma teoria auxiliar que refine a explicação dos
padrões de formação de alianças ou balanceamento externo. Robert Gilpin e John
Mearsheimer fazem importantes adições em como o sistema internacional
condiciona a produção de poder militar e econômico das grandes potências, o
balanceamento interno. Gilpin e Mearsheimer também fazem outras contribuições.
O primeiro, na formulação de uma teoria auxiliar da mudança nas relações
internacionais; o segundo, no refinamento de uma teoria auxiliar da política
externa das grandes potências. Há, também, divergências importantes no interior
da ideia de anarquia. Por exemplo, William Wolforth, contrariamente às
previsões de Waltz, argumenta que seria possível a sustentação estável de um
sistema internacional unipolar. Para Stephen Krasner, os regimes internacionais
oferecem mais possibilidades à cooperação do que o previsto por Waltz.
Portanto, seja convergindo ou divergindo das proposições de Waltz, sua
formulação da ideia de anarquia marca uma centralização construtiva e
necessária a produções acadêmicas mais consistentes acerca da realidade das
relações internacionais.
Data de receção: 24 de maio de 2013 | Data de aprovação: 28 de julho de 2013
NOTAS
1
O presente artigo é produto da pesquisa «Uma avaliação das novas tecnologias
pedagógicas e sua aplicação ao ensino de Relações Internacionais», apoiada pelo
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do Brasil.
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