Uma teoria nomotética da política internacional ou a construção da verdade em
Waltz: algumas considerações
Esta reflexão em jeito de homenagem ao contributo singular de Kenneth Neal
Waltz (1924-2013), o mais proeminente teórico da sua geração no domínio
científico das relações internacionais, não tem por objeto percorrer os
múltiplos ensaios e proposições inovadoras que concorreram para o
estabelecimento de uma perspetiva neorrealista do fenómeno internacional
1
. Visa, fundamentalmente, explicitar alguns dos argumentos centrais daquele que
é comummente considerado o seu principal trabalho, Theory of International
Politics, publicado em 1979, cuja primeira tradução em Portugal tive ensejo de
coordenar, no ano de 20022. Neste sentido, no presente texto não se pretende
delinear uma revisão crítica alargada da visão waltziana ou das suas eventuais
insuficiências, mas tentar situar o perfil epistemológico e metodológico do
enunciado neorrealista em quatro momentos principais, embora interligados: a
importância da modelação teórica, o primado do sistema internacional, a
construção de uma teoria nomotética da política internacional, e uma conclusão
breve3.
A IMPORTÂNCIA DA MODELAÇÃO TEÓRICA
No prefácio que então elaborei para a edição portuguesa, referia que de entre
as várias razões para o indiscutível sucesso do seu magnum opus, a mais
importante talvez residisse na reivindicação do próprio Waltz de que esta obra
representa o equivalente a uma «revolução copernicana» no estudo da política
mundial4. Segundo Waltz, Hans J. Morgenthau e outros realistas tradicionais não
deram o passo crucial que permite ir para além do desenvolvimento conceptual
das noções de «interesse nacional» ou de «interesse definido em termos de
poder», todavia importantes, até ao estádio superior de uma teoria
identificável5. Sem proposições de espetro mais amplo, Morgenthau ficou algo
«confinado» às partes e, como não raras vezes acontece, confundiu a questão de
explicar a política externa com o problema de construir uma teoria da política
internacional6. Com a sua obra fundamental Waltz pretendeu atingir cinco
objetivos principais, a saber7:
desenvolver uma teoria mais rigorosa da política internacional;
mostrar como se pode distinguir o nível das unidades componentes [micro] do
nível sistémico ou estrutural [macro], e estabelecer as conexões entre eles;
demonstrar a inadequação do padrão de pensamento inside-out [resultantes
explicadas a partir das escolhas individuais das unidades estaduais]
prevalecente no estudo da política internacional;
mostrar como o comportamento estadual difere em resultado de variações nos
sistemas político-internacionais; e,
sugerir formas como a teoria pode ser testada, bem como propiciar alguns
exemplos de aplicação prática (nomeadamente nos campos económico e militar).
Nas palavras de Stephen M. Walt, Kenneth Waltz mostrou-nos, talvez melhor do
que outrem, como a teoria pode ser usada de forma rigorosa para iluminar
questões políticas fundamentais no plano internacional: «Com efeito, o trabalho
de Ken [Waltz] sobre estes tópicos sublinha porque é que a teoria é tão
importante. Ter à sua disposição uma série de factos não ajuda, se pensarmos
acerca desses factos de forma errada Foi por isso que ele acertou em muitas
coisas onde outros terão errado Um pouco de teoria pode levar muito longe e,
no seu caso, levou-nos na direção certa»8 [em itálico no original].
Kenneth Waltz enfatiza, porém, que será sempre necessário distinguir teoria e
facto. Só enquanto esta distinção metódica for assegurada, é que a teoria pode
ser usada para interpretar e examinar factos; o trabalho do investigador começa
verdadeiramente quando as questões teóricas propriamente ditas são colocadas.
Neste sentido, uma teoria só ganha contornos nítidos quando eventos, processos,
interações ou dinâmicas formam parte de «um domínio» ou de «um todo» que pode
ser organizado e estudado coerentemente9. Waltz mantém, pois, em todos os seus
ensaios uma preocupação permanente em clarificar e delimitar os atributos e o
nexo próprio inerente a qualquer teoria científica. Como sublinhou, uma teoria
é essencialmente um «artifício», uma construção intelectual através da qual se
interpretam factos10. Uma teoria contribui, a fortiori, para a organização
científica de um domínio particular e das conexões entre as suas partes
relevantes. A teoria «isola» um domínio de outros, de forma a permitir trata-lo
intelectualmente, e, por isso, uma teoria não pode incluir tudo11
Porventura antecipando críticas à especificidade da sua abordagem, Waltz
assinalará que qualquer teoria deixa sempre várias coisas por explicar e, em
rigor, nenhuma teoria permite uma transição automática e fácil em direção à sua
própria aplicação12. Do mesmo modo, refere o autor, no estudo da política
internacional nem tudo pode ser contado e medido, mas algumas variáveis podem
sê-lo; nesta medida, uma teoria também é um meio de lidar de forma disciplinada
com a complexidade13. Com a ambição permanente de construir uma teoria, Waltz
rege-se por aquilo que ele próprio define como uma conceção epistemológica de
problem-solving, em contraponto a conceções de cariz mais crítico; articula uma
noção simplificada de estrutura com poucas variáveis na medida em que, no seu
entender, a adição «excessiva» de variáveis tornaria o quadro explicativo de
muito difícil operacionalização, caso em que a acuidade teórica daria lugar a
processos meramente descritivos, por mais densos que fossem14. A propósito da
necessidade de distinção metódica entre facto e teoria, Waltz dá o exemplo do
grande historiador A. J. P. Taylor que, sobre a suposta existência de um fixo
caráter nacional alemão, tentou extrair lições diretas da história factual que,
como o próprio Taylor reconhecerá, «é sempre um erro», pois a Alemanha no pós-
guerra mudou o mencionado caráter nacional. Escreve Waltz [para sublinhar a
acutilância excecional da observação mantive deliberadamente o texto na versão
original]: «Not unexpectedly, the English historian A.J.P. Taylor assigned
structural effects to the unit level and saw them as a cause.» Ao invés, na
ótica de Waltz, a mudança no caráter da nação alemã (e também de outros países
ocidentais) deveu-se em grande medida à nova estrutura da política
internacional: «If their national characters, and ours, have changed since the
war, it is largely because their and our international positions have become
profoundly diferent.» É especialmente patente nesta ilustração o exercício
meticuloso de Waltz na explicitação da natureza fundamental do que se pretende,
e pode atingir, com um enunciado teórico estruturalista da política
internacional15.
Ao apresentar o sistema político internacional como «um todo», com o nível da
estrutura e o nível das suas unidades componentes simultaneamente distintas e
inter-relacionadas, Waltz deu um passo em frente na formulação realista das
relações internacionais, reivindicando para si o estabelecimento de uma teoria
autónoma da política internacional16. Nesse sentido, afasta-se do realismo
tradicional de Hans J. Morgenthau que, no seu entender, não elaborou uma
verdadeira teoria da política internacional, muito embora tenha afirmado a
autonomia dos fatores políticos17. O enunciado neorrealista de Waltz produz uma
importante alteração na determinação das relações causais, a dois níveis:
primeiro, ao oferecer uma reinterpretação da noção de poder ' o poder definido
como «meio útil» à disposição dos estados e não como «fim». Na conceção
waltziana, o poder relativo reporta-se à capacidade combinada de um estado no
quadro da sua distribuição no sistema internacional. O que Waltz sugere é que o
objetivo da segurança prevalece sobre o objetivo per se de maximização do
poder18. Segundo, a teoria neorrealista mostra que as causas não se processam
unidirecionalmente ' da ação das unidades estaduais para as resultantes das
interações ' mas antes bidirecionalmente. Assim, Waltz conclui que quando
variações ao nível das unidades não correspondem às variações nas resultantes
observadas, então outras causas podem ser localizadas ao nível da estrutura do
sistema internacional propriamente dito19.
O PRIMADO DO SISTEMA INTERNACIONAL20
A referida obra de Waltz, Theory of International Politics, emergiria
rapidamente como um dos mais rigorosos exercícios de inteleção da realidade
internacional. Na verdade, é considerado o contributo mais representativo do
neorrealismo em relações internacionais, estabelecendo-se como o texto
paradigmático desta perspetiva teórica, continuando a despertar intenso debate
no seio da comunidade epistémica de relações internacionais21. De facto, e
diferentemente de enunciados realistas anteriores, o autor centra-se
primordialmente na estrutura do sistema internacional e na distribuição
relativa do poder22. Assim, para Waltz, qualquer abordagem ou teoria, se for
rotulada de sistémica, deve mostrar como o nível sistémico, ou da estrutura, é
diferenciado das unidades; se isto não for mostrado claramente, então, não
teremos nem uma abordagem sistémica nem uma teoria sistémica. Por exemplo, o
exercício de análise das diferenças entre várias estruturas internacionais ao
longo do tempo deve omitir os atributos stricto sensudas unidades; só assim,
sublinha o autor, é que se podem distinguir mudanças ou alterações na
estrutura, de outras mudanças que acontecem ao nível interno das suas
unidades23. Ora, segundo esta proposição waltziana, as características
domésticas das unidades integrantes do sistema são dimensões de alguma forma
menos relevantes na dilucidação das dinâmicas internacionais, na exata medida
em que a estrutura condiciona significativamente a ação estadual no sentido de
comportamentos tendencialmente convergentes. Waltz demonstra, assim, como as
forças sistémicas são responsáveis pelas assinaláveis similitudes das políticas
externas dos estados, na medida em que a natureza fundamental do sistema
internacional predomina sobre os seus componentes, uma hipótese central da sua
linha de inquirição. A estrutura do sistema internacional determinará, pois, em
maior ou menor grau, o tipo de orientações observáveis na ação externa dos
estados.
O enunciado neorrealista de Waltz começa com a premissa que uma teoria das
relações internacionais e uma teoria da política externa não são a mesma coisa.
Para o autor, a estrutura do sistema internacional é fundamentalmente distinta
da estrutura dos sistemas políticos internos, assentando em três critérios
fundamentais: primeiro, o princípio ordenador do sistema; segundo, o caráter
das unidades componentes; e, terceiro, a distribuição das capacidades24. Nos
sistemas políticos nacionais o princípio ordenador é a hierarquia; em
contrapartida, no sistema de estados vestefaliano é a anarquia ' condição
estrutural na visão de Waltz ' que se teria mantido fundamentalmente constante
ao longo dos últimos séculos25. Por sua vez, no respeitante ao caráter das
unidades, no plano interno existe uma divisão de trabalho e um elevado grau de
especialização; ao contrário, no sistema internacional não há uma diferenciação
significativa das unidades ' os estados são funcionalmente iguais no quadro da
racionalização que nos propõe, constituindo esta assunção, aliás, uma das
premissas centrais (e mais «provocantes», diga-se) da sua Teoria. Por último,
num meio anárquico os estados detêm diferentes capacidades para desempenhar as
mesmas funções26. A título de ilustração, a variação entre dois momentos
históricos distintos nas relações internacionais é sobretudo definida pela
distribuição de capacidades ou seja, pela distribuição de poder relativo entre
os estados, uma dimensão analítica verdadeiramente crucial para Waltz na
explicação de qualquer sistema político:
«A distribuição de poder é de especial importância explicativa em
sistemas políticos caracterizados por lógicas de self-help, dado que
as unidades componentes deste tipo de sistemas descentralizados não
são formalmente diferenciadas como acontece com as várias partes de
uma ordem hierarquizada onde, ao invés, têm funções distintas.»27
De acordo com o próprio autor, o seu trabalho configurará a primeira teoria da
balança do poder cientificamente testável28.
As relações internacionais são algumas vezes descritas como o domínio do acaso
e da revolução, das mudanças rápidas e imprevisíveis mas, como Waltz indica,
apesar de observarmos mudanças, as continuidades são igualmente
impressionantes, ou mais ainda. O autor dá como exemplo marcante as duas
guerras mundiais do século xx, onde os mesmos países se alinharam uns contra os
outros apesar das revoluções políticas internas que ocorreram no período entre
as duas guerras. A textura das relações internacionais permanece constante, os
padrões reaparecem, os eventos repetem-se incessantemente. As dinâmicas que
prevalecem internacionalmente raras vezes se alteram no tipo ou na qualidade,
referirá Waltz29.
Muito embora o neorrealismo waltziano sublinhe continuidades, não nega a
existência de mudança. Mas as mudanças dentro do sistema internacional ocorrem
sobretudo quando se verificam alterações na configuração distributiva do poder
' considerado na sua multidimensionalidade ' ou seja, as transformações dão-se
primacialmente quando as grandes potências ascendem ou caem, produzindo uma
deslocação significativa da balança do poder. Nesta linha de racionalidade, o
autor sublinha que as grandes potências detêm sempre a responsabilidade
primordial da gestão do sistema internacional. Segundo Waltz, mudanças no
princípio organizador das relações internacionais ' a anarquia ' são, no
entanto, muito menos prováveis; esta condição estrutural poderá dar lugar a
outra mas, de acordo com Waltz, tal não se afigura provável.
A CONSTRUÇÃO DE UMA TEORIA NOMOTÉTICA DA POLÍTICA INTERNACIONAL
Kenneth N. Waltz propôs-se ultrapassar alguma fragmentação teórica que existia
no seio do realismo, almejando uma teoria sistemática da política
internacional. A insatisfação do autor com o estado da teoria internacional no
período subsequente à II Guerra Mundial é patente, o que o levará mesmo a
escrever que talvez não seja excessivo dizer que Morgenthau e Raymond Aron não
foram muito mais além de conjeturas «impressionísticas», dado terem exagerado o
«papel» de eventos acidentais e inesperados ' o que os terá afastado demasiado
da procura de uma teoria unificada que pudesse especificar padrões mais perenes
e significativos no delineamento dos fatores causais. Waltz tenta demonstrar '
esta é a sua convicção mais profunda ' que é possível alcançar o que os
realistas que o precederam diziam ser inatingível: construir uma teoria
nomotética, que lida com regularidades e repetições e que localiza as ligações
entre elas30. Uma teoria nomotética, que traduz uma estratégia epistemológica
de cariz hipotético-dedutiva, empreende a formulação e avaliação de hipóteses
de natureza geral. Configura, pois, um tipo de conhecimento com maior potencial
de generalização, conducente ao estabelecimento de teorias universais31. É
certo que Waltz reconhece que as dificuldades na construção teórica em relações
internacionais abundam, mas considera ' como afirmou ' que «não devemos
submergir perante as nossas apreensões teóricas»32.
Clarificando os requisitos da sua construção teórica, o realismo waltziano ' ao
invés do realismo tradicional ' começa por propor uma solução para o problema
da distinção entre fatores internos e externos nas relações internacionais.
Argumentando, como referimos, que os níveis estrutural e das unidades são, ao
mesmo tempo, distintos e inter-relacionados, Waltz sugere como uma teoria
neorrealista ' que torna a análise dessas dinâmicas salientes ' pode expandir o
poder explicativo do realismo e, simultaneamente, captar a complexidade que
envolve as relações causais entre variáveis nas relações internacionais, de
modo a enriquecer o campo de possibilidades analíticas no seio desta disciplina
científica.
A revisão neorrealista implica, assim, uma reconceptualização das mais
importantes dinâmicas internacionais como um sistema, cuja estrutura é definida
pela condição geral de anarquia e pela distribuição de capacidades dentro dessa
estrutura. Ao reconfigurar o elo causal entre unidades (estados) em interação e
as resultantes internacionais, o neorrealismo waltziano considera que variações
na estrutura internacional influenciam as interações subsequentes entre as
unidades e as respetivas resultantes. Acresce que o neorrealismo explica o
poder sem referência expressa à natureza humana ou ao plano das vontades e das
motivações, elementos típicos do realismo clássico, colocando-se «simplesmente»
no patamar dos efeitos da relação entre capacidades relativas dos estados e a
consequente distribuição de poder. Esta linha de inteleção configura, na nossa
ótica, uma das proposições mais paradigmáticas do enunciado waltziano.
As teorias neorrealistas separam-se, assim, do realismo tradicional ao
confrontar o chamado problema do agent-structure, desenvolvendo, em especial, o
argumento de que a estrutura do sistema afeta grandemente o comportamento dos
estados, dados os constrangimentos reais que lhes impõe33. Neste sentido, o
neorrealismo propõe uma solução macroteórica para o «nó» microteórico do
realismo que se estriba em racionalizações de nível unitário e individual34. A
distinção é significativa, pois o novo realismo waltziano demonstra como as
barreiras da «ideologia» e da «impossibilidade» do estabelecimento de uma
teoria internacional podem ser superadas, sugerindo que se pode avançar na
construção de sistemas de racionalidade e de arquétipos epistemológicos mais
ambiciosos para compreender as mudanças e as continuidades existentes.
CONCLUSÃO BREVE
Para Kenneth Neal Waltz o comportamento dos estados continua a ser fortemente
condicionado pelas três características intrínsecas do sistema internacional '
anarquia, dilema de segurança e balança de poder, brilhantemente sugeridas por
Tucídides na sua História da Guerra do Peloponeso, a quem devemos a ambição
precursora de produzir uma racionalidade das dinâmicas interestaduais, pelo que
uma teoria sistémica da política internacional, também designada de
neorrealismo ou realismo estrutural, lida com forças ao nível internacional, e
não ao nível nacional. No quadro das teorias contemporâneas das relações
internacionais, o enunciado waltziano é aquele que talvez mais se aproxime do
desiderato de atingir o patamar de teoria geral35. Mas, segundo Waltz, os
sistemas político-internacionais caracterizados por lógicas de self-help
sofreriam uma transformação radical se os seus princípios de organização
passassem de um quadro de anarquia para um quadro de hierarquia. O eventual
estabelecimento de um «governo mundial» representaria isso mesmo. Os
constrangimentos e incentivos do atual sistema internacional e as suas
dinâmicas continuam a ser fundamentalmente marcados pela condição estrutural de
anarquia36, ou seja, pela ausência de monopólio do uso legítimo da força.
Contudo, se a anarquia internacional desse lugar a um mundo hierarquizado, a
teoria da política internacional tornar-se-ia, por maioria de razão, uma teoria
acerca do passado37.
A obra mais significativa de Waltz que aqui revisito, embora configure
certamente uma das mais robustas teorias gerais de explicação do comportamento
dos estados em ambiente de anarquia internacional, encoraja-nos a não nos
determos perante quaisquer ortodoxias de pensamento, mas a procurar, em
liberdade, respostas que nem sempre estão imediatamente à mão. Esse é
porventura o mais importante legado que nos deixou.
Data de receção: 5 de junho de 2013 | Data de aprovação: 5 de agosto de 2013
NOTAS
1
A sua teoria neorrealista da política internacional está plasmada na obra de
referência Waltz, Kenneth N. ' Theory of International Politics. Reading,
Massachusetts: Addison-Wesley, 1979. Refira-se, porém, que o primeiro grande
trabalho, resultado da sua tese de doutoramento defendida na Universidade de
Columbia, Nova York, em 1954, Man, the State and War: A Theoretical Analysis,
propiciou as fundações de partida para a elaboração da sua teoria da política
internacional. Nesta obra, Waltz desenha três níveis de análise diferenciados,
mais tarde chamadas imagens em relações internacionais, onde tenta localizar o
nexo mais importante das causas da guerra. Cf. Waltz, Kenneth N. ' O Homem, o
Estado e a Guerra: Uma Análise Teórica. São Paulo: Martins Fontes, 1959, p. xi.
No âmbito desta reflexão utilizo, em especial, a obra de Waltz, Kenneth N. '
Realism and International Politics. Nova York: Routledge, 2008 que condensa os
seus ensaios teóricos mais penetrantes; em comentários inscritos precisamente
neste livro, quer Robert O. Keohane, quer John J. Mearsheimer, entre outros,
consideram Kenneth Neal Waltz o mais destacado teórico da área científica das
relações internacionais da sua geração (cf. contracapa da mesma publicação).
Refira-se que um dos últimos ensaios de Waltz, «Why Iran should get the bomb:
nuclear balancing would mean stability», especialmente controverso e
«provocante» para alguns observadores, foi publicado na revista Foreign Affairs
(Vol. 91, N.º 4, 2012, pp. 2-5).
2
Cf. Lobo-Fernandes, Luís ' «Prefácio à edição portuguesa». In Waltz, Kenneth
N. ' Teoria das Relações Internacionais. Lisboa: Gradiva, 2002, pp. 7-9.
3
Algumas das linhas de crítica mais incisivas, que não abordo no contexto deste
artigo, consideram a teoria positivista/racionalista de Waltz demasiado
«estática» e «determinística», e suscitam reservas sobre a forma como o seu
enunciado neorrealista pressupõe que a estrutura internacional funciona
indepen- dentemente da perceção dos estados sobre uma dada balança de poder.
Ver, por exemplo, Hasbi, Aziz ' Théories des relations internationales. Paris:
L'Harmattan, 2004, p. 94, e Griffiths, Martin ' Fifty Key
Thinkers in International Relations. Nova York: Routledge, 1999, pp. 46-50. Outras críticas referem a inadequação do neorrealismo em
lidar analiticamente com os desafios que derivam do crescimento da
interdependência transnacional. Ver Kegley, Jr., Charles W. (ed.) '
Controversies in International Relations Theory: Realism and the Neoliberal
Challenge. Nova York: St. Martin's Press, 1995, p. 6.
4
Cf. Griffiths, Martin ' Fifty Key Thinkers in International Relations, p. 47.
5
Deve referir-se que Waltz considera o desenvolvimento conceptual fundamental,
embora insuficiente para o estabelecimento de uma teoria.
6
Waltz, Kenneth N. ' Realism and International Politics, p. 71; como Waltz
indica, a partir unicamente da análise do interesse nacional não é possível
avaliar qual vai ser a política de um Estado (p. 44). Deve referir-se, porém,
que as diferenças epistemológicas no seio do realismo desafiam caracterizações
simplistas. Em rigor, o realismo configura-se mais como um sistema de
pensamento do que como uma «única» escola.
7
Waltz, Kenneth N. ' Realism and International Politics, p. 37.
8
Cf. Walt, Stephen M. ' «Kenneth N. Waltz, 1924-2013». In Foreign Policy
Magazine, 13 de maio de 2013. Disponível em: http://walt.foreignpolicy.com/
posts/2013/05/13/kenneth_n_waltz_1924_2013 .
9
Waltz, Kenneth N. ' Realism and International Politics, pp. 68-69. Como
sublinha Stephen M. Walt, doutorando de Waltz em Berkeley, num elogio publicado
no dia seguinte ao seu desaparecimento, as preocupações de Waltz com a
elaboração meticulosa de uma teoria da política internacional, derivavam de um
interesse profundo em compreender os eventos e as manifestações do mundo real.
Cf. Walt, Stephen M. ' «Kenneth N. Waltz, 1924-2013».
10
Cf. Waltz, Kenneth N. ' Realism and International Politics, p. 68.
11
Ibidem, pp. 51 e 71.
12
Ibidem, p. 75.
13
Ibidem, pp. 72-73.
14
Ibidem, p. 43 e 50. Waltz sustenta que as teorias críticas interpretam o mundo
histórica e filosoficamente, ao passo que as teorias problem-solving, onde ele
próprio se situa, aspiram a «compreendê-lo» e «explicá-lo», p. 52.
15
Ibidem, p. 45.
16
Ibidem, pp. 73-74.
17
Segundo Waltz, «The theoretical ambitions of Morgenthau, as of Aron, were
forestalled by his belief that the international political domain cannot be
marked off from others for the purpose of constructing a theory. Cf. Waltz,
Kenneth N. ' Realism and International Politics, p. 71.
18
Waltz, Kenneth N. ' Realism and International Politics, p. 79. Em contraponto
ao que considera ser um erro recorrente dos realistas tradicionais, Waltz
ilustra de forma pungente a ideia de que o poder é um meio e não um fim: «Only
if survival is assured, can states safely seek other goals as tranquility,
profit and power. Because power is a means and not an end, states prefer to
join the weaker of two coalitions. They cannot let power, a possibly useful
means, become the end they pursue» (p. 46). É por isso que um dos objetivos
permanentes dos estados, observáveis diacronicamente nas dinâmicas de balança
de poder, é precisamente evitar preponderâncias no sistema internacional. Como
refere Battistella: «En effet, d'après Waltz, si théorie de la politique
internationale il doit y avoir, c'est bien la théorie de l'équilibre des
puissances': le système anarchique du self-help contraint les acteurs à adopter
un tel comportement, et à écarter le comportement opposé qui consiste en une
stratégie de bandwagoning (ralliement) à l'égard de la puissance predominante».
Cf. Battistella, Dario ' Théories des relations internationales. 2.ª edição.
Paris: Les Presses de Sciences Po, 2006, p. 140. Sobre este
importante ponto de debate teórico no seio do realismo, Krasner, Stephen D. '
Power, the State, and Sovereignty: Essays on international relations. Londres:
Routledge, 2009, refere: «Some realists, notably Waltz,
understand states to be defensive positionalists; their basic goal is survival.
Others, such as Mearsheimer, see states as offensive realists striving for
hegemony», p. 4.
19
Waltz, Kenneth N. ' Realism and International Politics, p. 7.
20
Madeleine Grawitz, citada em Hasbi, Aziz ' Théories des relations
internationales, refere que «le système est fondé sur l'interdépendence des
parties par rapport au tout»; no que respeita à noção de sistema internacional
propriamente dito, Hasbi acrescenta que «Cette notion permet ainsi de
considérer les acteurs internationaux dans le cadre d'une globalité en
interaction ' un ensemble d'interactions entre des acteurs placés dans un
environnement spécifique et soumis à un certain mode de régulation». Cf. Hasbi,
Aziz ' Théories des relations internationales, pp. 22-23.
21
Griffiths, Martin ' Fifty Key Thinkers in International Relations, p. 48.
22
Lobo-Fernandes, Luís ' «Prefácio à edição portuguesa», pp. 7-8.
23
Ibidem, p. 8.
24
Sobre este aspeto central da sua construção teórica cf., em especial, Waltz,
Kenneth N. ' Teoria das Relações Internacionais. Lisboa: Gradiva, 2002, pp.
125-142.
25
Ver Lobo-Fernandes, Luís ' «Estudo Introdutório». In Tucídides ' História da
Guerra do Peloponeso. Lisboa: Edições Sílabo, 2008, pp. 11-30.
26
Note-se que enquanto a anarquia é no enunciado de Waltz uma constante, o
segundo critério da estrutura ' a distribuição de capacidades ' varia de acordo
com o poder relativo dos estados. Como acentua Griffiths: «States are similar
in the tasks they face, although not in their abilities to perform them.» Cf.
Griffiths, Martin ' Fifty Key Thinkers in International Relations, p. 48.
27
Waltz, Kenneth N. ' Realism and International Politics, p. 75. (tradução livre
do autor).
28
Conceptualmente, prefiro a imagem de balança do poder à noção de «equilíbrio»
na medida em que sugere movimento e variação, dinâmicas muito mais
interessantes na construção de uma racionalidade internacional; em rigor,
situações de equilíbrio no sistema internacional são escassas, dado que a
distribuição de poder entre os seus componentes é normalmente muito desigual.
As relações internacionais são, como se sabe, fundamentalmente assimétricas.
Cf. Lobo-Fernandes, Luís ' «Estudo introdutório», p. 21.
29
Lobo-Fernandes, Luís ' «Estudo introdutório», pp. 8-9. Nicolas Oresme, um
notável intelectual do século xiv, sintetizando de forma premonitória as
dinâmicas políticas que emergiam no horizonte europeu decorrente da
fragmentação territorial pós-fim do Sacro Império Romano-Germânico, definiu o
novo sistema de anarquia internacional como de paz armada. Esta condição
estrutural permanece hodiernamente, sendo convergente com a linha de
racionalidade de Waltz que sugere uma baixa probabilidade de mudança nos
grandes princípios ordenadores do sistema internacional. Cf. Lobo-Fernandes,
Luís ' «O modelo global: espaço de teste da paz e segurança internacionais». In
Nação e Defesa. N.º 95/96, 2000, pp. 43-53.
30
Cf. Kegley, Jr., Charles W. (ed.) ' Controversies in International Relations
Theory: Realism and the Neoliberal Challenge, p. 27.
31
As teorias nomotéticas distinguem-se das teorias ideográficas, estas de
caráter indutivo, que lidam normalmente com eventos e situações particulares,
não sugerindo ou implicando um elevado grau de generalização.
32
Kegley, Jr., Charles W. (ed.) ' Controversies in International Relations
Theory: Realism and the Neoliberal Challenge, p. 27. Para uma excelente
discussão da construção teórica waltziana ver também THOMPSON, Kenneth W. '
Schools of Thought in International Relations: Interpreters, Issues, and
Morality. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1996, em especial, pp.
129-145.
33
Cf. David Dessler, citado em Kegley, Jr., Charles W. (ed.) ' Controversies in
International Relations Theory: Realism and the Neoliberal Challenge, p. 28.
34
Cf. Kegley, Jr., Charles W. (ed.) ' Controversies in International Relations
Theory: Realism and the Neoliberal Challenge, p. 28.
35
Lobo-Fernandes, Luís ' «Estudo introdutório», p. 28.
36
Como Keohane e Martin admitirão a propósito do impacto da condição estrutural
de anarquia, que Waltz continua a reter como uma proposição fundamental do seu
enunciado: «Because security is scarce in international politics, and the
environment is highly uncertain, states are forced to behave in a highly risk-
averse manner. Thus, realists argued against the likelihood of states engaging
in extensive and persistent forms of cooperation. States might cooperate with
one another, but only on a short-term, ad hoc basis.» Cf. Keohane, Robert O., e
Martin, Lisa L. ' «Institutional theory as a research program». In Elman,
Colin, e Elman Miriam Fendius (eds.) ' Progress in International Relations
Theory: Appraising the Field. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2003, p. 77.
37
Cf. Waltz, Kenneth N. ' Realism and International Politics, pp. 51-53.
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