Waltz, Morgenthau e Aron
Kenneth Waltz escreveu, há mais de trinta anos, o livro de referência da teoria
das relações internacionais, reconhecido como tal por todas as escolas
relevantes. Theory of International Politics2 é a linha divisória entre os
clássicos e os modernos na construção da nova teoria: para os realistas marcou
o princípio do neo-realismo, ou do realismo estruturalista, e as novas teorias
neoliberais e construtivistas foram desenvolvidas a partir da teoria waltziana
do sistema internacional.
Em 1979, Theory of International Politics terminou um processo que durou trinta
anos e cujos marcos anteriores foram as obras clássicas de Hans Morgenthau e de
Raymond Aron. Em 1948, Politics Among Nations3 tornou-se o primeiro tratado de
teoria das relações internacionais ' avant la lettre, uma vez que o seu
capítulo teórico só apareceu na segunda edição4 ' e, em 1962, Paix et guerre
entre les nations5 definiu uma etapa decisiva na transição dos clássicos para
os modernos.
Os três livros fundamentais da teoria das relações internacionais formam um
todo e são inseparáveis entre si, como, de resto, indicam os seus títulos. A
alternância entre a paz e a guerra é o que distingue a política internacional
da política interna dos estados e, nesse sentido, Aron emenda Morgenthau: a
«paz e guerra entre as nações» é o nome da «política entre as nações». Para
Waltz, por sua vez, o essencial não era prolongar uma exegese erudita da
«política entre as nações», mas a construção da «teoria da política
internacional».
MORGENTHAU, ARON E WALTZ
Morgenthau, Aron e Waltz, os três fundadores da teoria moderna das relações
internacionais, eram pessoas muito diferentes entre si, pela origem, pela
formação, pela experiência e pelo percurso intelectual, político e académico.
Morgenthau6 e Aron7 pertenceram à mesma geração. Eram os dois judeus e
sobreviveram ambos ao Holocausto: o primeiro fugiu da Alemanha nazi e
reconstruiu a sua vida e a sua carreira universitária nos Estados Unidos; o
segundo exilou-se em Londres no momento da ocupação alemã e regressou a França
na Libertação, sem voltar logo à universidade. Morgenthau, um filósofo e
jurista alemão formado em Munique e Frankfurt, onde apresentou uma tese de
direito internacional, recomeçou a sua carreira em Chicago como professor de
Filosofia das Relações Internacionais. Com Hannah Arendt, Leo Strauss e Franz
Neumann, foi um dos refugiados europeus que transformaram os estudos políticos
e sociais na universidade norte-americana e tornou-se uma figura pública desde
o princípio da Guerra Fria, nomeadamente depois de publicar Politics Among
Nations. Aron, um filósofo e sociólogo francês formado em Paris, onde defendeu
uma tese sobre filosofia da história, dirigiu no exílio a France Libre, onde
começou a escrever sobre política internacional, que se tornou tema principal
dos seus ensaios e do seu jornalismo depois da guerra. Professor na Sorbonne e
em Sciences-Po, reconhecido como o principal especialista europeu de relações
internacionais, Aron não regressou à carreira universitária e só tarde pôde
escrever o seu opus magnum a benefício de um sabático em Harvard. Tal como
Morgenthau, Aron era uma figura pública, cujas intervenções marcaram os grandes
debates da vida política francesa e europeia. Morgenthau nunca quis voltar a
viver na Alemanha, enquanto Aron pôde regressar ao seu país, mas ambos
partilhavam uma visão trágica da história, inseparável da sua condição de
sobreviventes. Waltz que pertencia à geração seguinte, serviu nas Forças
Armadas dos Estados Unidos na II Guerra Mundial e pôde ter uma vida calma na
«Longa Paz» da Guerra Fria. O economista e cientista político norte-americano
terminou os seus estudos em Columbia, com uma tese sobre filosofia das relações
internacionais, sob a orientação de William T. R. Fox, pioneiro dos estudos
internacionais nos Estados Unidos. Waltz fez uma carreira universitária
brilhante e sem falhas, desde Columbia até Berkeley, gradualmente reconhecido
pelos seus pares como o mais importante teórico da «disciplina americana» das
relações internacionais8.
Os três tinham em comum serem intelectuais brilhantes e polémicos. Morgenthau
era, na frase da sua amiga Hannah Arendt, um «conscious pariah»9, decidido a
pôr em causa a inocência liberal das elites bem pensantes dos Estados Unidos,
sem experiência diplomática e desarmadas perante a ameaça totalitária
soviética. Aron tornou-e um liberal dissidente, à margem quer do establishment
universitário, conservador e marxista, quer das elites políticas francesas,
estatistas e antiamericanas, perante as quais defendeu, a contracorrente, a
Aliança Atlântica, a reconciliação com a Alemanha e a independência da Argélia.
Waltz nunca perdeu uma ocasião para «ser do contra», quer no elogio da
bipolaridade como um paradigma de estabilidade, quer na promoção das virtudes
da democracia na condução da política externa, quer mesmo na defesa da
proliferação das armas nucleares10.
Os seus tratados de teoria das relações internacionais seguiram essa linha
polémica. Morgenthau escreveu Politics Among Nations contra o consenso
pacifista e a visão utópica de uma nova ordem mundial assente na aliança entre
os Estados Unidos e a União Soviética e para preparar os responsáveis e a
opinião pública norte-americana para a Guerra Fria. Aron publicou Paix et
guerre entre les nations11 para criticar tanto os defensores da convergência
entre os Estados Unidos e a União Soviética, como os «cruzados realistas» ' uma
categoria onde incluía Morgenthau, ao lado de Reinhold Niebuhr e George
Kennan12 ' e para demonstrar, simultaneamente, a necessidade de manter a
estratégia ocidental de contenção do império soviético e os limites da
competição entre os dois «irmãos inimigos», impostos pela revolução nuclear e
pela balança do poder. Waltz completou Theory of International Politicspara
tentar ultrapassar uma visão demasiado ideológica e excessivamente dramática,
senão mesmo trágica, da política internacional, perturbadora da racionalidade
das políticas externas norte-americanas, e também para pôr na ordem os
«exclusionistas realistas» ' uma categoria onde o seu tutor incluía Nicholas
Spykman, Morgenthau e Aron13 ', enquanto criticava os primeiros ensaios da
teoria sistémica das relações internacionais, esboçados por Morton Kaplan,
Richard Rosencrance e Stanley Hoffmann, o discípulo norte-americano de Aron14.
Os três tratados foram as obras principais dos seus autores e, nos casos de
Morgenthau e de Waltz, também o último grande livro de ambos. Depois de
Politics Among Nations, Morgenthau publicou estudos de circunstância sobre as
políticas externas e internas dos Estados Unidos15, além dos quatro volumes que
reúnem artigos e ensaios dispersos. Waltz, a seguir a 1979, publicou apenas um
pequeno livro, em conjunto com Scott Sagan, antes de coleccionar os seus
principais artigos e ensaios16. Aron foi a excepção, uma vez que, além de ter
publicado as suas memórias, completou ainda os dois volumes do seu estudo
exaustivo sobre Clausewitz17. Morgenthau e Aron escreveram novos capítulos e
prefácios em edições sucessivas dos seus tratados teóricos, enquanto Waltz
deixou estar a sua teoria parcimoniosa, sem parar de conversar com os seus
críticos, nomeadamente os que Robert Keohane reuniu num livro famoso que
termina com a resposta do mestre18.
REALISTAS E NEO-REALISTAS
Morgenthau e Waltz são, respectivamente, os paradigmas do realismo clássico e
do neo-realismo, enquanto Aron está, de certo modo, entre ambos,
tradicionalista na recepção da herança da diplomacia e da filosofia política
ocidental, moderno no reconhecimento das teorias sistémicas19.
Os seus pontos de partida conceptuais revelam posições muito distintas.
Morgenthau parte de uma filosofia antropológica ' do homem20 de Thomas Hobbes
(e de Carl Schmitt), dominado pela sua vontade de poder e responsável último
pela violência e pela guerra entre os estados21. Aron, neutro quanto à natureza
humana, parte da ciência do Estado ' do monstro terrível de Clausewitz (e de
Max Weber) que faz da guerra a continuação da política por outros meios. Waltz
parte do conceito de Morgenthau (e de Niccolò Machiavelli) sobre a autonomia do
político para construir a especificidade do sistema de relações internacionais
' a ordem da anarquia22. Seguindo a fórmula original de Waltz23, Morgenthau
representa a «primeira imagem», Aron a «segunda imagem» e ele próprio a
«terceira imagem» das relações internacionais.
Os primeiros passos para a teoria realista das relações internacionais foram
dados por Morgenthau, a referência incontornável que dominou a conferência
sobre teoria das relações internacionais da Fundação Rockeffeler, organizada
por Kenneth Thompson24. Para Morgenthau, a política é, ao mesmo tempo, o mal e
a possibilidade de o conjurar pela escolha racional do mal menor25 e as
relações internacionais são uma forma da política do poder, definido à maneira
weberiana como a capacidade de um agente se impor a outro contra a sua vontade.
A política internacional é o estado de natureza hobbesiano e a anarquia nas
relações entre os estados abre caminho ao impulso de maximização do poder que
caracteriza a natureza humana e pode prevalecer contra qualquer forma de
racionalidade. Os estados, ou as potências, podem ter uma política racional, se
se limitarem a defender os interesses nacionais sem querer pretender a
universalidade, mas não podem nem escapar aos dilemas da anarquia, nem livrar-
se da maldição dos filósofos totalitários. O realismo é uma teoria moral, como
garante da racionalidade possível da política externa dos estados, no inferno
da luta permanente pelo poder.
A ciência do Estado de Aron exclui a metafísica do poder de Morgenthau. O poder
não é o mesmo na política interna (pouvoir) e na política internacional
(puissance)26. Glosando o cânone weberiano, que define o Estado como o detentor
do monopólio legítimo da violência na ordem interna, Aron considera a ausência
desse monopólio nas relações entre os estados como a essência da anarquia
internacional27. Nesse sentido, há uma descontinuidade fundamental entre o
sistema político interno do Estado e o sistema das relações internacionais,
cuja característica específica é a alternância entre a guerra e a paz: os
estados, e só eles, podem fazer e fazem, legal e legitimamente, a guerra entre
si. Contra Morgenthau, Aron defende que não pode haver uma única definição do
interesse nacional numa sociedade plural e complexa e que a racionalidade das
escolhas dos estados na política externa não está assegurada28. No presente,
tal como no passado, a razão e as paixões, a honra e os interesses, a prudência
e o medo condicionam a acção dos estados, cujas estratégias são determinadas
tanto pelos regimes políticos e pelas ideologias, como pela natureza do sistema
internacional. O espírito de responsabilidade dos realistas deve poder
assegurar a sua moralidade, sem depender de um juízo sobre a natureza do homem
ou acerca das qualidades da política externa dos estados.
A teoria política de Waltz considera Morgenthau e Aron como tradicionalistas,
no sentido em que ambos constroem as suas teorias de dentro para fora (inside
out) do sistema internacional e, na sua visão, só é possível construir uma
teoria das relações internacionais se se inverter esse procedimento29. Essa
posição está delineada desde o seu primeiro livro ' Man, the State, and War ' e
implícita no argumento que defende a autonomia radical do sistema político
internacional, ou do sistema de relações entre os estados: o terceiro nível de
análise define o «quadro da política internacional», ou a «terceira imagem»,
cujo pioneiro intelectual foi Jean-Jacques Rousseau. Para Waltz, tanto os
regimes políticos, como as ideologias, e mesmo as próprias interacções entre os
estados, são irrelevantes para definir a estrutura do sistema internacional,
que condiciona decisivamente as estratégias dos estados. A teoria de Waltz é
uma teoria sistémica que trata das forças em jogo ao nível internacional e não
ao nível nacional30 e cujas posições são definidas, no essencial, pela natureza
anárquica do sistema e pelo número de pólos na estrutura de distribuição do
poder internacional. A teoria realista, tal como a política externa dos
estados, não está para lá do bem e do mal, mas não é moral, nem imoral.
A ordem anárquica do sistema internacional é responsável pela guerra entre os
estados ' não a vontade de poder dos homens, nem as paixões dos movimentos
totalitários, nem as estratégias imperialistas dos estados: a guerra é normal
nas relações entre os estados e inevitável porque na anarquia internacional não
há nenhuma entidade que a possa impedir. O poder ' power ' não é um fim em si
mesmo, mas apenas um instrumento que pode ser útil às estratégias dos estados,
dominadas pela lógica da anarquia que lhes impõe maximizar as condições da sua
segurança e não acumular poder pelo poder numa escalada suicida31. Os estados,
ou as potências, podem ser conservadores, revisionistas ou revolucionários, mas
antes de mais são todos entidades funcionalmente equivalentes (like-units), que
se diferenciam pelo seu poder relativo. A política externa, como as outras
políticas do Estado, não é relevante para a teoria da política internacional: a
distribuição do poder ' multipolar ou bipolar ' determina o quadro das
estratégias e das alianças dos estados, bem como as condições de paz e
estabilidade do sistema internacional.
A PROVA DA REALIDADE
As teorias de Morgenthau, Aron e Waltz marcam três etapas cruciais na invenção
da teoria das relações internacionais que se encadeiam entre si, mas revelam
também concepções distintas da teoria e da política internacional.
Morgenthau, pela sua parte, insistia nos limites da teoria, quando citava
Pascal ' «Le nez de Cléopatre : s'il eût été plus court, toute la face de la
terre aurait changé» ' para perguntar aos seus discípulos: «How do you
systematize that?»32.
Nenhuma teoria da política internacional pode antecipar os eventos que
prejudicam constantemente as melhores previsões. Aron contornava essa questão
limitando a ambição da teoria das relações internacionais, que nunca poderia
ter sequer um estatuto comparável ao da teoria económica. A teoria das relações
internacionais devia ser praxeológica, uma teoria da prática e uma teoria da
acção: o significado da teoria é definido pelas antíteses clássicas entre a
teoria e a realidade, a teoria e o empirismo histórico ou sociológico, a teoria
e a prática33. Waltz não aceitou nenhuma dessas limitações e não resistiu a
seguir o exemplo dos fisiocratas, responsáveis pela primeira teoria económica,
para definir as condições mínimas de construção teórica, que começam com a
delimitação rigorosa do domínio próprio do sistema político internacional.
Waltz transformou, ironicamente, o conceito clássico sobre a autonomia do
político para edificar a sua teoria a partir da definição do quadro de
autonomia da política internacional e da sua ordem anárquica. A teoria não pode
explicar o que é acidental, nem ser responsável por eventos inesperados: trata
de regularidades e de repetições e só é possível se estas puderem ser
identificadas34.
No mesmo sentido, os três têm concepções distintas sobre a política
internacional. Para Morgenthau, como para Aron, as relações entre os estados
são o domínio da mudança constante e da instabilidade extrema, onde os perigos
da catástrofe nunca estão longe, enquanto para Waltz a continuidade caracteriza
o sistema internacional, onde a ruptura é possível, mas improvável. Na fórmula
de Waltz, é mais importante explicar a continuidade da anarquia internacional
do que as mudanças dos seus actores. Na sua definição, essa continuidade vai
persistir até um dos competidores conseguir transformar o domínio internacional
da anarquia num domínio hierárquico35. Para Morgenthau e Aron, a subestimação
dos perigos da unificação imperial esteve na origem do século das guerras
totais e das revoluções totalitárias. Para Waltz, as revoluções estruturais não
são impossíveis36, mas o sistema bipolar, reforçado pela memória da II Guerra
Mundial e pela dissuasão nuclear, criou condições sem precedentes para a paz e
a estabilidade internacional37.
As posições respectivas de Morgenthau, Aron e Waltz foram postas à prova na
Guerra do Vietname. Os três escreveram, em tempos e modos diferentes, sobre os
dilemas da estratégia dos Estados Unidos no Sudeste Asiático.
Morgenthau, uma referência obrigatória nos debates da política externa norte-
americana, entrou na questão do Vietname logo nos anos 1950 como um liberal, no
sentido europeu, e saiu dela na década de 1960 como um liberal, no sentido
americano ' só Noam Chomsky estava à sua frente na lista dos intelectuais mais
conhecidos pela sua oposição à guerra38. Morgenthau sempre defendeu, com
lucidez, a necessidade de separar as estratégias norte-americanas na Europa e
na Ásia: na frente ocidental, a contenção do imperialismo soviético reclamava a
consolidação do status quo e das democracias europeias, enquanto na frente
oriental era necessário estar do lado das revoluções nacionalistas, que se
opunham às antigas potências coloniais europeias em nome dos valores
ocidentais: essa era a única forma de evitar a sua apropriação pelo comunismo
russo39. O erro trágico da política externa norte-americana na China tinha de
ser evitado no Vietname. Mas a persistência do desvio contra-revolucionário na
estratégia asiática dos Estados Unidos levou Morgenthau a uma dupla
radicalização e, ao mesmo tempo que passou a alinhar com as posições do senador
Eugene McCarthy a favor da retirada do Vietname40, o teórico das relações
internacionais desenvolveu uma crítica à crise da democracia norte-americana.
Os defeitos da estratégia internacional dos Estados Unidos já não eram o
resultado da incapacidade genética das democracias para a diplomacia, segundo a
fórmula de Tocqueville41, mas sintomas da «decadência moral» da democracia
norte-americana42.
Aron partia de uma posição idêntica à de Morgenthau. Na sua interpretação, o
regime político da República Popular da China, como o do Vietname do Norte, era
mais nacionalista do que comunista e as estratégias ocidentais de resistência à
vaga de descolonização eram erradas. Para o analista francês, a continuidade
entre as políticas da IV República francesa e da República norte-americana no
Vietname era demasiado óbvia e, em ambos os casos, representava uma intervenção
desproporcionada, tendo em conta a relativa irrelevância estratégica do
Vietname, ou mesmo da Indochina, na balança internacional43. Mas a acumulação
de erros e a insistência numa estratégia sem possibilidades de sucesso no
Vietname teve consequências igualmente excessivas, mesmo depois da eleição do
Presidente Richard Nixon e dos acordos de Paris. A unificação comunista do
Vietname ocorreu depois da retirada norte-americana, mas nem por isso deixou de
ser uma derrota dos Estados Unidos, que coincidiu com a crise do Watergate, a
revolução portuguesa e o declínio da détente e que, nesse sentido, se tornou
inseparável do início de um ciclo ofensivo da política internacional da União
Soviética44, que culminou com a invasão do Afeganistão.
Waltz sempre considerou a intervenção norte-americana no Vietname excessiva e
desproporcionada. Na competição bipolar, as duas grandes potências estão face a
face e a balança do poder é definida pela posição relativa de ambas e não
depende das suas alianças: se a tomada do poder comunista na China não tinha
mudado os equilíbrios bipolares, nada do que se pudesse passar no Vietname
poderia justificar um empenho tão exagerado do lado norte-americano: mesmo o
fortalecimento da posição da China seria mais um problema para a União
Soviética do que para os Estados Unidos45. O sucesso ou o insucesso da
estratégia norte-americana na Ásia do Sudeste em nada alterava a posição
internacional dos Estados Unidos. Em todo o caso, Waltz não concordava com
Tocqueville sobre a incompetência das democracias na política externa, nem com
Morgenthau acerca da crise da democracia norte-americana. As instituições
republicanas demonstravam, à vez, a sua capacidade de crítica e de leadership,
a opinião pública revelava uma certa sabedoria e as suas posições nunca tinham
impedido os responsáveis norte-americanos de fazer o que tinham de fazer
durante a Guerra Fria46.
Nos seus últimos anos, Morgenthau, de certa maneira, regressou às origens: o
social-democrata da República de Weimar, crente na possibilidade de reformar o
capitalismo e céptico quanto às qualidades do regime democrático alemão para
realizar essa mudança, sobreviveu ao conservador realista. Aron, pelo
contrário, manteve um sentido constante na sua evolução: o jovem socialista
tornou-se um liberal nos momentos críticos da divisão totalitária e num
conservador cada vez mais pessimista perante a decadência europeia e ocidental,
demasiado realista para ser realista.
Waltz foi parcimonioso, também nas suas intervenções públicas, pelo menos até à
grande idade, quando passou a pronunciar-se sobre os temas do dia. As suas
posições sobre a conjuntura parecem ter sido congruentes com a sua análise
estrutural. As intervenções periféricas dos Estados Unidos durante a Guerra
Fria eram supérfluas ' Waltz, contra Morgenthau e Aron, considerava correcta a
tomada de posição de Eisenhower contra a intervenção do Reino Unido e da França
no Suez ' e as intervenções externas dos Estados Unidos no Vietname, tal como
no Iraque, confirmavam tanto os perigos do excesso de concentração de poder,
como as virtudes da democracia norte-americana e as suas capacidades políticas
e institucionais para corrigir os erros da política internacional da principal
potência47. Afinal, era ele o melhor herdeiro do «liberalismo realista»48 que
marcou o momento fundador da primeira escola clássica das relações
internacionais.
Data de recepção: 3 de Junho de 2013 | Data de aprovação: 11 de Julho de 2013
NOTAS
1
A pedido do autor este texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
Waltz, Kenneth ' Theory of International Politics. Nova York: McGraw-Hill,
1979.
3
Morgenthau, Hans ' Politics Among Nations. The Struggle for Power and Peace.
Nova York: Alfred Knopf, 1948.
4
Na segunda edição, o novo primeiro capítulo passou a ser «A theory of
international politics», com os «seis princípios» do realismo. Morgenthau, Hans
' Politics Among Nations. Nova York: Alfred Knopf, 1954.
5
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations. Paris: Calmann-Lévy, 1962.
6
Frei, Christoph ' Hans J. Morgenthau: An Intellectual Biography. Baton Rouge:
Louisiana State University, 2001; Scheuerman, William ' Hans
Morgenthau: Realism and Beyond. Cambridge: Polity Press, 2009.
7
Aron, Raymond ' Mémoires. Cinquante ans de refléxion politique. Paris:
Julliard, 1983 ; Baverez, Nicolas ' Raymond Aron. Un
moraliste au temps des idéologues. Paris: Flammarion, 2005.
8
Reis, Bruno Cardoso ' «Entrevista com Kenneth Waltz. Teoria estrutural da
política internacional». In Relações Internacionais. N.º 29, 2011, pp. 129-141.
9
Behr, Harmut, e Rosch, Felix ' «Introduction». In Behr, Harmut, e Rosch, Felix
(eds.) ' Hans J. Morgenthau. The Concept of the Political.Londres: Palgrave
Macmillan, 2012; Arendt, Hannah ' «We refugees». In Feldman,
Ron (ed.) ' Hannah Arendt. The Jew as Pariah. Nova York: Grove Press, 1978.
10
Waltz, Kenneth ' «The stability of a bipolar world». In Daedalus. N.º 93,
1964, pp. 881-909; Waltz, Kenneth ' Foreign Policy and
Democratic Politics. Nova York: Longman, 1967. Waltz,
Kenneth, e Sagan, Scott ' The Spread of Nuclear Weapons: A Debate. Nova York:
Norton, 1995.
11
Gaspar, Carlos ' «Revisitação de Paix et guerre entre les nations». In
Relações Internacionais. N.º 35, 2012, pp. 5-22.
12
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, 1962, p. 586.
13
Hanson, Elizabeth ' «William T.R. Fox and the study of world politics». In
Rothstein, Robert (ed.) ' The Evolution of Theory in International Relations.
Essays in Honor of William T.R. Fox. Columbia: University of South Carolina
Press, 1991, p. 11. O texto de Waltz no livro dedicado ao seu
tutor desenvolve o tema das limitações teóricas de Morgenthau e Aron. Waltz,
Kenneth ' «Realist thought and neorealist theory». In Rothstein, Robert (ed.) '
The Evolution of Theory in InternationalRelations, pp. 21-38.
14
Waltz, Kenneth ' Theory of International Politics, pp. 38-59.
15
Morgenthau, Hans ' In Defense of the National Interest. Nova York: Alfred
Knopf, 1951. Morgenthau, Hans ' The Purpose of American
Politics. Nova York: Alfred Knopf, 1960. Morgenthau, Hans ' A
New Foreign Policy for the United States. Nova York: Praeger, 1969.
16
Waltz, Kenneth, e Sagan, Scott ' The Spread of Nuclear Weapons: A Debate.
Waltz, Kenneth ' Realism and International Politics. Nova York: Routledge,
2008.
17
Aron, Raymond ' Penser la guerre. Clausewitz. Paris: Gallimard, 1976.
18
Keohane, Robert (ed.) ' Neorealism and its Critics. Nova York: Columbia
University Press, 1986. O texto final é de Kenneth Waltz.
Waltz, Kenneth ' «Reflections on Theory of International Politics. A response
to my critics». In Keohane, Robert (ed.) ' Neorealism and its Critics, pp. 322-
346.
19
Aron, Raymond ' «What is a theory of international relations?». In Farrell,
John, e Smith, Asa (eds.) ' Theory and Reality in International Relation.Nova
York: Columbia University Press, 1967. O livro reedita um
número do Journal of International Affairs e é o único caso em que estão
reunidos no mesmo volume textos de Aron, Morgenthau e Waltz, publicados por
essa precisa ordem.
20
Na conferência da Fundação Rockefeller, em Maio de 1954, Morgenthau
hierarquizou as questões mais importantes para a teoria das relações
internacionais: o primeiro ponto era «The Nature, purpose, and limits of
international relations theory»; o segundo, «The Nature of man»; o terceiro,
«The Nature of power, its constant and changing elements»; a moralidade
internacional vem em décimo lugar. Morgenthau, Hans ' «The theoretical and
practical importance of a theory of international relations». In Guilhot,
Nicolas ' The Invention of International Relations Theory. Nova York: Columbia
University Press, 2011, p. 266.
21
Morgenthau tem uma relação complexa com Hobbes e Machiavelli e, sobretudo, com
Schmitt. Morgenthau, Hans ' Scientific Man vs. Power Politics. Chicago:
University of Chicago Press, 1946. Sobre as relações com
Schmitt, ver CAMPI, Alessandro e CIMMINO, Luigi (org.) ' Hans Morgenthau.Il
Concetto del politico. 'Contra Schmitt'. Soveria Mannelli: Rubettino, 2009. Ver também BEHR, Hartmut e ROSCH, Felix (org.) ' Hans
Morgenthau.The Concept of the Political, Nova York: Palgrave Macmillan, 2012.
22
Waltz atribui a origem do conceito de autonomia do político a Machiavelli,
cuja teoria antecipa a Realpolitik de Friedrich Meinecke e Morgenthau. Waltz,
Kenneth ' «Theory of international relations». In Greenstein, Fred, e Polsby,
Nelson (eds.) ' Handbook of Political Science. International Politics. Vol. 8.
Reading: Addison-Wesley, 1975, pp. 34-36; Waltz, Kenneth '
«The origins of war in neorealist theory». In Waltz, Kenneth ' Realism and
International Politics. Nova York: Routledge, 2008, p. 56.
23
As três «imagens» são o tema e estão inscritas no título original da tese de
Waltz, Man, the State, and the State System in Theories of the Causes of War.
Waltz, Kenneth ' Man, the State, and War. A Theoretical Analysis. Nova York:
Columbia University Press, 1954.
24
Aron foi convidado mas não foi à conferência de Maio de 1954, em Washington.
Fox e Arnold Wolfers foram os outros dois académicos presentes na conferência
da Fundação Rockefeller, em que participaram também Dean Rusk, Niebuhr, Paul
Nitze, Robert Bowie, Dorothy Fosdick, Walter Lippman, James Reston e Don Price.
Kennan não pôde estar, mas mandou uma contribuição. Na sequência dessa
conferência, Fox organizou um novo simpósio sobre teoria no Institute of War
and Peace Studies da Universidade de Columbia, com o apoio da Fundação
Rockefeller, em 1957, onde estiveram os principais participantes académicos da
conferência de 1954, bem como novos membros, incluindo, entre outros, Waltz e
Martin Wight. Os textos originais de Morgenthau, Fox, Wolfers, Niebuhr e Nitze
estão reproduzidos na monografia de Nicholas Guilhot sobre a conferência de
1954, Os textos de Morgenthau, Fox, Wolfers, Niebuhr, Nitze, Kindleberger e
Waltz foram publicados por Fox, com o apoio do Committee on International
Politics da Universidade de Notre Dame. Guilhot, Nicolas ' «Introduction. One
discipline, many theories». In Guilhot, Nicolas - Hans J. Morgenthau and the
Ethics of American Statecraft, Baton Rouge: Louisiana State University Press.
1990, p. 203; Fox, William T. R. (ed.) ' Theoretical Aspects
of International Relations. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1959.
25
MORGENTHAU, Hans ' Scientific Man versus Power Politics, pp. 168-169 e 202.
26
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, pp. 58-61. Nos seus
primeiros textos sobre Schmitt, escritos em francês, Morgenthau faz uma
distinção entre pouvoir e puissance, que não sobrevive nos seus textos em
inglês. Aron não faz nenhuma referência a esses textos, de resto muito pouco
conhecidos até à sua redescoberta nos últimos anos. Morgenthau nunca os
mencionava e só falou do seu passado alemão num texto autobiográfico publicado
nos últimos anos da sua vida, onde referiu que a sua tese de doutoramento era,
no essencial, uma resposta ao ensaio célebre de Schmitt sobre o conceito do
político. Morgenthau, Hans ' La notion du «politique» et les différends
internationaux. Paris: Recueil Sirey, 1933. Behr, Harmut, e
Rosch, Felix (eds.) ' Hans J. Morgenthau. The Concept of the Political.Londres:
Palgrave Macmillan, 2012, pp. 47-64. Morgenthau, Hans '
«Fragment of an intellectual autobiography (1904-1932)». In Thompson, Kenneth,
e Myers, Robert (eds.) ' Truth and Tragedy. A Tribute to Hans J. Morgenthau.
Transaction Books, 1977, pp. 1-17.
27
ARON, Raymond ' «What is a theory of international relations?», pp. 6-8.
28
ARON, Raymond ' Paix et guerre entre les nations. Paris: Calmann-Lévy, 1962,
pp. 101, 97-102.
29
Waltz, Kenneth ' «Realist thought and neorealist theory», 1991, pp.70-73.
Waltz, Kenneth ' Theory of International Politics, pp. 61-62, 67.
30
Ibidem, p. 71.
31
Waltz, Kenneth ' «The origins of war in neorealist theory», p 56-57.
32
Waltz, Kenneth ' «The origins of war in neorealist theory», p 56.
33
ARON, Raymond ' «What is a theory of international relations?», pp. 5.
34
Waltz, Kenneth ' «The origins of war in neorealist theory», p 56.
35
Segundo Waltz, «The enduring anarchic character of international politics
accounts for the striking sameness of international life through the
millennia». Waltz, Kenneth ' Theory of International Politics, 1979, p. 66.
36
Waltz, Kenneth ' Theory of International Politics, p. 70.
37
Waltz, Kenneth ' «The origins of war in neorealist theory», p. 63.
38
Scheuerman, William ' Hans Morgenthau: Realism and Beyond, 2009, p. 165.
39
Morgenthau, Hans In Defense of the National Interest,pp. 64, 201-208.
40
Morgenthau, Hans ' Truth and Power.Nova York: Praeger, 1970, pp. 191-206.
41
Morgenthau termina In Defence of the National Interestcom uma citação clássica
de Tocqueville ' «La politique extérieure n'exige l'usage de presque aucune des
qualités qui sont propres à la démocratie, et commande au contraire le
développement de presque toutes celles qui lui manquent» ' para criticar a
política externa norte-americana. Waltz começa com a mesma citação para a
refutar com a sua análise das políticas externas do Reino Unido e dos Estados
Unidos. TOCQUEVILLE, Alexis de ' De la démocratie en Amérique, I, II, 1835, In
TOCQUEVILLE, Alexis de ' uvres, II, Paris: Bibliothèque de la Pléiade, 1992,
p. 262.
42
Scheuerman, William ' Hans Morgenthau: Realism and Beyond, 2009, pp. 186- -
187; Russell, Greg (1990). Hans J. Morgenthau and the Ethics
of American Statecraft,Baton Rouge: Louisiana State University Press. 1990, p.
203.
43
Aron, Raymond ' République impériale. Les Etats-Unis dans le monde (1945- -
1972). Paris: Calmann-Lévy, 1973, pp. 129, 118-132.
44
Aron começou por não querer atribuir consequências estratégicas excessivas à
débâcle do Vietname, mas o seu primeiro artigo depois do comentário moderado
sobre a queda de Saigão não resistiu ao pessimismo da conjuntura. Aron, Raymond
' «Défaite au Vietnam». In Figaro, 10 de Abril de 1975 ; Aron, Raymond '
«Déclin américain». In Figaro, 11 de Abril de 1975. In Aron, Raymond ' Les
articles du Figaro. III. Paris: Editions de Fallois, 1997, pp. 1500-1506.
45
Waltz, Kenneth ' Foreign Policy and Democratic Politics, p. 292.
46
Williams, Michael ' «The politics of theory: Waltz, realism and democracy». In
Booth, Ken (ed.) ' Realism and World Politics. Londres: Routledge, 2011, pp.
50-63; Waltz, Kenneth ' Foreign Policy and Democratic
Politics, pp. 286-297.
47
Waltz, Kenneth ' Foreign Policy and Democratic Politics, pp. 292-293, 307-311.
48
A melhor definição do «liberalismo realista» pertence a outro exilado alemão.
Herz, John ' Political Realism and Political Idealism. Chicago: University of
Chicago Press, 1951.
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