A China e a Índia no Atlântico Sul
O Atlântico Sul tem sido alvo de crescente atenção por parte quer das potências
tradicionais, quer das novas potências emergentes, de uma competição intensa
pelo controlo de recursos atuais, mas também de recursos futuros.
Tradicionalmente uma das zonas menos desenvolvidas do ponto de vista
estratégico marcada por uma reduzida tradição marítima em ambos os lados,
africano e americano, sem capacidade militar naval relevante e ausência de
cooperação na área da segurança entre as duas margens, tem conhecido na última
década um processo de densificação estratégica.
O crescente interesse e militarização do Atlântico Sul tem causas complexas que
em boa medida se relacionam com a ascensão dos poderes emergentes, quer os
residentes, o Brasil e a África do Sul, quer os externos que têm vindo a
reforçar a sua ação fora da sua região, mas também com a intensificação das
suas inter-relações no contexto de uma reforçada cooperação Sul-Sul sustentada
por um forte dinamismo económico e pelo desenvolvimento de uma coordenação
política e diplomática capaz de introduzir mudanças na agenda internacional e
de os colocar no centro do sistema de governança global. O Atlântico Sul emerge
assim como um espaço privilegiado do complexo processo em curso de
redistribuição do poder mundial, também interessante para compreender as
tensões e contradições no seio dos principais poderes emergentes.
A China e a Índia têm vindo a reforçar a sua presença nos dois lados do
Atlântico Sul, com intensidades e implicações diferenciadas, contribuindo
ativamente para o referido processo de densificação estratégica. A análise das
características e impacto da sua presença assume particular relevância não só
porque apresentam diferenças de modelo no plano económico e político, não
obstante algumas motivações comuns, mas também porque mantêm com as economias
emergentes residentes relações distintas para além de as relações China-Índia
na região serem marcadas por uma intensa competição.
O artigo está estruturado em três partes. A primeira analisa os objetivos, a
estratégia e o impacto da presença da China no Atlântico Sul e a forma como tem
respondido aos desafios que se vão colocando. A segunda parte centra-se na
análise dos contornos, motivações e estratégia da presença da Índia, procurando
perceber as conexões com o seu espaço estratégico natural e a relevância das
relações que mantém com os emergentes residentes: o Brasil e a África do Sul. A
terceira parte procede a uma análise comparativa da ação e impacto da China e
da Índia de modo a identificar pontos de convergência e de divergência e
refletir sobre a própria relação bilateral no contexto do Atlântico Sul assim
como sobre as tensões e contradições no seio dos BRICS.
CRESCENTE RELEVÂNCIA ESTRATÉGICA DO ATLÂNTICO SUL
O Atlântico Sul tem vindo a assumir uma crescente relevância estratégica
surgindo como palco de competição entre as velhas potências e as potências
emergentes, quer pelo controlo direto de recursos naturais, presentes e
futuros, quer pela influência sobre rotas marítimas e governação dos oceanos. O
Atlântico Sul, até aqui uma das regiões menos desenvolvidas do ponto de vista
geoestratégico, objeto de uma certa marginalização e reduzido interesse, tem
vindo a ganhar densidade estratégica e a registar uma nova dinâmica, marcada
pela sua crescente militarização, pela eventual alteração do seu estatuto de
região desnuclearizada, alimentada por especulações sobre a alegada colocação
de ogivas nucleares nas Falklands/Malvinas pelo Reino Unido, e pela crescente
presença de atores externos.
Esta crescente relevância resulta da interação entre quatro fatores
fundamentais1.
Em primeiro lugar, a dimensão e significado estratégico dos recursos naturais
existentes no Atlântico Sul, tanto atuais como futuros. Os recursos energéticos
ocupam lugar de destaque, desde logo o petróleo e o gás natural explorados;
quer na costa da América do Sul, em especial no Brasil, quer na costa ocidental
africana (Nigéria, Angola, Costa do Marfim, Camarões, Gabão, Congo),
essencialmente exploração offshore no mar nos limites da plataforma
continental, produzindo no final de 2011 cerca de 4,7 milhões de barris/dia na
costa africana (Nigéria, Angola, Gabão, República do Congo) e 2,8 milhões/dia
na costa da América do Sul, incluindo Brasil e Argentina, o que corresponde
respetivamente a 5,7 por cento e 3,7 por cento do total de produção mundial2.
A relevância não resulta apenas do significado quantitativo mas sobretudo do
facto de esta produção dos dois lados do Atlântico Sul ter sido encarada
estrategicamente pelas principais potências como o mecanismo essencial para
diversificarem as suas fontes de abastecimento e reduzirem a sua dependência do
petróleo relativamente ao Médio Oriente. O caso da China em relação a Angola,
que se transformou no segundo maior fornecedor mundial das importações
chinesas, e dos Estados Unidos no que respeita aos produtores africanos e ao
Brasil absorvendo quase metade dos 45 por cento das exportações brasileiras de
petróleo são exemplificativos. Para além da produção é hoje fundamental a
capacidade de refinação e transformação que existe na região, em especial no
Brasil com 13 refinarias e mais cinco em fase de construção, e a capacidade
existente na África do Sul, a segunda maior em África a seguir ao Egito, na
Nigéria (quatro refinarias) e em Angola (uma refinaria e planos para uma
segunda).
Mas para além do petróleo existem outros recursos estratégicos, designadamente
alimentares relacionados com os significativos recursos piscícolas existentes
no Atlântico Sul onde também se localizam as maiores concentrações e densidades
de krill do mundo3, base de toda a cadeia alimentar, em especial na zona entre
as Malvinas e a Antártida, essenciais para fazer face a riscos crescentes de
insegurança alimentar. O krill (zooplâncton) para além do seu papel fundamental
como base de toda a cadeia alimentar é também explorado diretamente como fonte
de proteínas e utilizado para alimentar os peixes produzidos em aquicultura.
Por outro lado, a capacidade de produção agrícola de alimentos dos dois lados
do Atlântico Sul é muito significativa já que aí se situam as maiores reservas
a nível global de terra arável, com disponibilidade de água e reduzida pressão
populacional, ideais para a produção de alimentos, razão porque têm sido objeto
de controlo no âmbito do fenómeno do land grab.
Importa sublinhar que os recursos não são apenas os atuais, mas também os
futuros tendo em conta a relevância do Atlântico Sul como base de projeção
sobre a Antártida e, não obstante o Tratado da Antártida de 1959, acesso e
exploração dos recursos da Antártida relativamente à qual as principais
potências se começam a posicionar para uma corrida aos recursos ali existentes,
energéticos, minerais e sobretudo a água, já que os glaciares da Antártida
contêm 90 por cento da água doce do Globo.
Em segundo lugar, o crescimento económico vigoroso nas principais economias do
Atlântico Sul gerou uma expansão das exportações das principais economias dos
dois lados do oceano e, consequentemente, das rotas marítimas existentes no
Atlântico Sul, incluindo o complexo de rotas entre a América do Sul e a Europa,
um dos mais importantes em termos globais. Noutros casos está em causa a
diversificação de rotas, que poderá resultar de uma renovada relevância da Rota
do Cabo em resultado do aumento do tráfego de petroleiros da costa africana
para a Ásia, ou do uso alternativo das rotas de ligação entre o Pacífico e o
Atlântico Sul, designadamente o cabo Horn, que não obstante a sua
secundarização em consequência da intensificação do tráfego pelo canal do
Panamá, poderão ser alvo de renovado interesse face aos potenciais custos
elevados associados à utilização do canal do Panamá após a expansão prevista
para 2014. Uma das questões centrais é a segurança da navegação marítima face
ao agravamento da pirataria no golfo da Guiné, onde se tem vindo a registar um
número crescente de incidentes. Em 2012 foi sinalizada como a região com o
segundo maior número de incidentes a nível global, a seguir ao mar do Sul da
China, sugerindo uma deslocalização parcial do problema da pirataria do golfo
de Adém para o golfo da Guiné e o canal de Moçambique4.
Em terceiro lugar, o Atlântico Sul surge como um palco privilegiado da
competição por influência estratégica e redistribuição do poder entre os
Estados Unidos e os seus aliados e os novos poderes emergentes, em particular a
China, com a interação entre diferentes dinâmicas: o projeto de expansão da
zona de influência da NATO para o Atlântico Sul e a estratégia da «NATO Global»
que tem no Chile o seu principal aliado na região; a emergência do Brasil como
poder regional, focado no objetivo de garantir a segurança da «Amazónia Azul» e
consequente reforço da sua capacidade naval; o reforço da cooperação militar
entre os dois lados do Atlântico, em especial entre o Brasil e a África do Sul,
designadamente no domínio naval e dos submarinos, que em conjunto se opõem à
expansão da NATO para sul; a projeção de poder da China como ator global e a
sua crescente presença no Atlântico Sul com o objetivo de conter expansão da
influência dos Estados Unidos e da NATO. Em resultado temos vindo a assistir a
uma militarização crescente e securitização do Atlântico Sul decorrentes da
modernização da marinha brasileira e significativo aumento das despesas
militares do Brasil, da agudização da tensão entre a Argentina e o Reino Unido
à volta das Falklands/Malvinas, em cujas águas territoriais foram descobertas
importantes reservas de petróleo já em exploração ou da reativação da 4.ª
Esquadra norte-americana.
Este quadro de competição é ainda exacerbado por dois fatores específicos que
caracterizam o Atlântico Sul. Por um lado, é um mar aberto, com poucas ilhas,
comparado com outros oceanos, o que implica a inexistência de base territorial
para a consolidação e exercício de direitos soberanos exclusivos. Muitos
recursos, em especial numa perspetiva de exploração futura, estão localizados
no mar alto, no leito e subsolo oceânicos a grandes profundidades, e constituem
global commons pelo que as movimentações de controlo de factose revelam
decisivas.
Por outro lado, a circunstância de ter sido encarada como uma zona marginal,
quase uma extensão do Atlântico Norte, estrategicamente pouco densa, que
resulta também da ausência de uma tradição marítima dos dois lados do Atlântico
Sul, em especial no lado africano, inexistência de capacidade militar naval e
ausência de cooperação em matéria de segurança entre os estados costeiros. Em
resultado da interação entre estes dois fatores, o Atlântico Sul é uma região
onde não existem posições consolidadas, antes uma certa fluidez e flexibilidade
com uma margem significativa para afirmação de interesses e construção de
alianças.
Em quarto lugar, no plano político o Atlântico Sul constitui um espaço
importante de democratização, onde alguns dos processos mais significativos de
sucesso de transição democrática tiveram lugar, casos do Brasil, da Argentina e
da África do Sul, reforçando as condições de estabilidade e onde outros estão
ainda em consolidação. A democratização contribuiu para relações menos tensas e
de maior proximidade entre os países, mas a questão que se coloca é a de saber
até que ponto a crescente influência da China e do seu «Beijing consensos»
poderá ter um impacto menos positivo sobre as transições políticas ainda não
consolidadas, como no caso de Angola.
A CHINA NO ATLÂNTICO SUL: OBJETIVOS E ESTRATÉGIA
A China tem vindo a implementar desde finais dos anos 1990 a estratégia «Going
Out», tendo como objetivos fundamentais o controlo de recursos naturais, em
especial energéticos de que a economia chinesa é grande consumidora e
importadora, a aquisição de experiência internacional pelas grandes empresas
chinesas e reforço da sua competitividade e capacidade de gestão, a obtenção de
tecnologias estrangeiras e a aquisição de empresas estrangeiras de prestígio
para controlo de marcas, redes de distribuição e tecnologias. A implementação
da estratégia foi assente no exercício do soft power, mas articulado com a
consolidação do hard power e investimento significativo na modernização e
reforço da capacidade militar.
Esta estratégia de afirmação como ator global levou a China a expandir a sua
influência para fora da Ásia, em especial em África e na América Latina e mais
recentemente na UE, tirando partido do enfraquecimento das relações dos Estados
Unidos com estas regiões, procurando articular três objetivos fundamentais: (i)
assegurar o controlo sobre recursos estratégicos, em especial energéticos,
fundamentais para garantir a segurança energética e a continuidade do
crescimento económico extensivo chinês e reduzir a vulnerabilidade
diversificando o risco; (ii) promover a erosão do soft power americano e
europeu em espaços de influência tradicional, limitando a sua margem de
manobra; (iii) diversificar mercados com o duplo propósito de reduzir a pressão
política relacionada com os excedentes comerciais e responder antecipadamente a
problemas futuros de diminuição de competitividade das exportações chinesas.
As relações económicas têm-se reforçado com as duas regiões, mas são fortemente
concentradas nos países da orla do Atlântico Sul, uma vez que os principais
parceiros económicos em África são países da costa atlântica, em especial a
Nigéria, Angola e África do Sul, enquanto na costa da América do Sul as
relações se concentram no Brasil e Argentina, podendo também aqui ser incluídas
as relações com a Venezuela, politicamente parte do Atlântico Sul embora
geograficamente próxima das Caraíbas. A presença económica tem assumido três
formas distintas: comércio, investimento direto e financiamento.
No plano comercial, o comércio total com os principais parceiros dos dois lados
do Atlântico Sul representava em 2011 um total de 139 mil milhões de euros, ou
seja, 5,8 por cento do comércio total da China (quadro_1). Em termos agregados
a China regista um défice comercial, já que importa mais do que exporta, com a
exceção da Nigéria e Argentina, sendo os défices comerciais mais significativos
com Angola e o Brasil. Enquanto as importações são fundamentalmente
constituídas por petróleo, outras matérias-primas e alimentos, as exportações
chinesas são no essencial compostas por produtos industriais manufaturados.
Os recursos energéticos, em particular o petróleo, são a principal importação
da China, constituindo o único produto importado de Angola que ao nível global
é o segundo maior fornecedor da China com 623 mil barris/dia, ou seja, 12 por
cento do total das importações chinesas em 2012, a seguir à Arábia Saudita com
20 por cento. A Venezuela é o oitavo maior fornecedor (230 mil barris/dia),
responsável por 4,5 por cento, seguida do Brasil (134 mil barris/dia) que
fornece 2,7 por cento e do Congo (113 mil barris/dia) com 2,3 por cento das
importações chinesas5. A China importava em 2011 cerca de cinco milhões barris/
dia o que corresponde a uma taxa de dependência das exportações de 54 por cento
para satisfação da procura, destinadas ao consumo e à constituição das
«reservas estratégicas de petróleo» que no final da terceira fase deverão
atingir 500 milhões de barris. O grau de dependência do Médio Oriente é ainda
muito elevado, representando cerca de 50 por cento das importações num contexto
em que os Estados Unidos têm vindo a reduzir de forma significativa a sua
dependência relativamente a esta região. Em conjunto estes quatro produtores
que extraem petróleo em explorações offshore no Atlântico Sul garantem
atualmente o fornecimento de 21,5 por cento das importações de petróleo da
China, representando a principal aposta para reduzir a dependência do Médio
Oriente, controlar riscos e aumentar a sua segurança energética.
A outra forma de presença relaciona-se com o investimento direto chinês, que
tem crescido de forma significativa dos dois lados do Atlântico Sul com
objetivos muito diversificados. Em primeiro lugar, o controlo direto de
recursos energéticos, petróleo e gás natural, com a participação das empresas
petrolíferas chinesas na exploração direta de petróleo, por exemplo em blocos
em Angola (blocos 18, 31 e 32), no Brasil, compra pela Sinopec de participações
de empresas estrangeiras em projetos (caso da Repsol Brasil e da Galp Brasil).
O investimento nas indústrias extrativas é igualmente significativo, sobretudo
no controlo de abastecimento de minérios como o ferro, o cobre, o níquel e o
alumínio de que a economia chinesa necessita, traduzindo-se em investimentos
principalmente na África do Sul (compra da Metorex pelo Jinchuan Group em 2011
e da South Africa Wesizume Platinum em 2013) e no Brasil (compra pela East
China Mineral de minas de ferro à Itaminas em 2010 e aquisição de 21,5 por
cento da MMX pela Wuhan Iron & Steel) onde o setor dos minérios concentrou
cerca de 53 por cento do investimento chinês até 2011.
Outro dos objetivos estratégicos do investimento chinês é responder aos riscos
elevados de insegurança alimentar futura na China, resultado da redução
drástica de terra arável e da indisponibilidade de água, agravada pelos
contornos da crise dos alimentos de 2007-2009 com aumentos significativos dos
preços mundiais, através da aquisição de terra agrícola em países com
abundância de terra arável e disponibilidade de água para produção de alimentos
dirigidos ao mercado chinês no contexto de um fenómeno que tem sido designado
como land grab6. Este processo é evidente no Brasil, tendo o ritmo de
crescimento das aquisições de terras após 2007 e a dimensão potencial do
fenómeno levado o Governo brasileiro a regular a questão no sentido de
estabelecer um limite à área de terra agrícola que pode ser detida por
estrangeiros7, na Nigéria e existem indícios também em Angola.
A questão da insegurança alimentar tem ainda uma dimensão complementar já que o
Atlântico Sul e os países costeiros com direitos de pesca se revelam
estratégicos para a China em função dos vastos recursos piscícolas aí
existentes, num contexto em que o controlo de recursos piscícolas e direitos de
pesca tem sido um dos fatores centrais nas disputas territoriais em que a China
tem estado envolvida quer no mar da China Meridional, quer no mar da China
Oriental. Neste momento, a China juntamente com a Coreia do Sul e a Noruega, é
um dos principais atores na pesca do krill no Atlântico Sul8.
A presença do investimento chinês, que em África tem como primeiro destino a
Nigéria e na América do Sul o Brasil, tem também expressão significativa no
setor das infraestruturas em África, em particular caminho-de-ferro e portos,
numa lógica de garantir o escoamento das matérias-primas para a China e
operação dos portos, e telecomunicações. Neste último setor as duas principais
empresas chinesas, Huawei e ZTE, controlam o setor das telecomunicações em
diversos estados africanos como a Nigéria (Huawei), Angola (ZTE) e África do
Sul (Huawei e ZTE), o Quénia, tendo criado também seis centros de formação e
investigação Huawei (Nigéria, Angola, Quénia, África do Sul, Egito e Tunísia) e
quatro centros ZTE de formação (Egito, Etiópia, Argélia e Gana)9. O setor das
telecomunicações tem atraído crescente investimento chinês centrado nos
telefones móveis motivado pelo facto de os mercados africanos de telemóveis
serem os que registam crescimento mais rápido a nível mundial e de as empresas
chinesas, mercê de custos de produção baixos, conseguirem disponibilizar
tecnologias avançadas a preços acessíveis e terem investido no desenvolvimento
das infraestruturas de telecomunicações garantindo uma ampla cobertura de rede.
Contudo, este investimento tem associado «empréstimos ligados» para a rede de
telecomunicações no sentido de os governos adquirirem exclusivamente
equipamento chinês. Em contraste, este não é um setor com grande expressão no
Brasil ou na Argentina.
O investimento chinês tem ainda sido dirigido para o setor industrial, a
indústria transformadora, com base na transposição do modelo das zonas
económicas especiais chinesas para África através da criação de diversas zonas
industriais designadas como trade and economic cooperation zones com estatuto
especial e criadas no âmbito de parcerias entre os estados africanos e
províncias chinesas ou grandes empresas públicas, orientadas para a atração de
investidores chineses embora abertas a outros. Até este momento estão já a
funcionar ou em fase de conclusão sete zonas em cinco países10: duas na Zâmbia,
zonas de Chambishi (cobre e transformação cobre) e Lusaka (vestuário,
eletrónica, aparelhos elétricos); duas na Nigéria, zonas de Lekki (equipamento
de transporte, têxtil, aparelhos elétricos e de telecomunicações) e Ogun
(mobiliário, materiais de construção, computadores, transformação de madeira);
uma nas Maurícias, Jinfei (têxtil, vestuário, máquinas, serviços ' em especial
turismo e serviços financeiros); uma na Etiópia, Oriental (siderurgia,
metalurgia, máquinas elétricas); uma no Egito, no Suez (agricultura, indústria
e serviços).
Este investimento tem três objetivos principais. Em primeiro lugar, abastecer
os mercados locais e reforçar a posição da China no mercado, num contexto em
que muitas economias africanas têm perspetivas de um significativo aumento do
rendimento per capita e de aumento da procura. Em segundo lugar, reciclar uma
parte das exportações chinesas através de um sistema de comércio indireto de
reexportação, nos termos do qual em vez de os produtos industriais saírem da
China seriam exportados produtos semiacabados a partir da RPC para as zonas
especiais em África onde seriam acabados, embalados e exportados para os
mercados americano e europeu. Tal permitiria reduzir a tensão política
relacionada com os superavits comerciais chineses com os Estados Unidos e a UE,
ao fazer baixar os valores dos défices, já que formalmente estas exportações
deixariam de ser da RPC para serem exportações oriundas dos países africanos
envolvidos, embora controladas por empresários chineses e integradas com o
sistema produtivo chinês.
Em terceiro lugar, reforçar a competitividade das exportações chinesas, quer
através da redução de custos salariais face ao aumento dos mesmos na China,
quer através do aproveitamento dos sistemas preferenciais de acesso aos
mercados da OCDE e correspondentes reduções tarifárias, designadamente o
sistema generalizado de preferências de que esses países africanos beneficiam,
mas que não utilizam por não terem produção industrial com expressão.
No contexto da América do Sul, o investimento chinês tem vindo a crescer
especialmente no Brasil, mas muito concentrado no setor das indústrias
extrativas de metais (estimativa de 59 por cento do ide da China na América do
Sul na indústria extrativa de metais). O Brasil é o maior polo de concentração
do investimento direto chinês na região e o quarto maior destino mundial do ide
da China no exterior entre 2005-2012, com um stock de cerca de 25 mil milhões
de dólares, o que representa 4,2 por cento do stock de ide no Brasil, a seguir
à Austrália, Estados Unidos e Canadá11.
Enquanto o investimento direto tem sido o principal instrumento nos países da
América do Sul, embora o instrumento financiamento tenha também sido utilizado
no caso da Venezuela12, no lado africano o instrumento de influência económica
mais significativo tem sido o financiamento através das grandes instituições
financeiras públicas chinesas, o Export and Import Bank of China (Exim), o
Industrial and Commercial Bank of China (ICBC), o China Development Bank (CDB),
e de um braço formalmente privado, o China International Fund (CIF), mas na
realidade com fortes ligações às áreas de segurança do Estado chinês.
Contrariamente à perceção generalizada, o investimento direto chinês em África
tem tido menos expressão do que o financiamento, como o demonstra o caso de
Angola, o que revela uma preocupação em limitar a exposição ao risco. Este
financiamento tem características específicas. Para além de ter um caráter
concecional com taxas de juro em princípio mais baixas do que as de mercado,
tem sido associado à construção de infraestruturas de prestígio e com garantias
de petróleo. Apesar da referência à inexistência de condicionalidade política,
o que não é totalmente correto tendo em conta o fator Taiwan, o facto é que
este apoio financeiro é «ligado» e tem uma forte condicionalidade comercial na
medida em que a maioria dos contratos de empreitada têm de ser atribuídos a
empresas chinesas que usam predominantemente mão-de-obra chinesa.
Esta constitui, aliás, uma outra dimensão da presença chinesa que é o elemento
humano, que se tem traduzido num crescimento exponencial dos fluxos migratórios
e dos imigrantes chineses para os países dos dois lados do Atlântico Sul, em
especial para o lado africano não sendo ainda visível um fenómeno com escala
semelhante na América do Sul. É impossível estimar com rigor os números
envolvidos, mas terão ultrapassado já os dois milhões em África se incluirmos
também os fluxos ilegais, com as maiores comunidades situadas na África do Sul,
Nigéria, Angola, Sudão, e Gabão. Incluem quatro tipologias distintas de
imigrantes: trabalhadores temporários para os grandes projetos de obras
públicas; pequenos comerciantes e empresários; imigrantes em trânsito;
agricultores para as novas explorações controladas pela China, todos
recentemente chegados e com grandes dificuldades de integração em culturas
muito distintas13.
Este crescimento rápido associado à distância cultural, à não criação de
emprego local, à redução dos salários e dos standards laborais têm gerado
crescentes tensões com a população local e movimentos de contestação. Na
perspetiva de Pequim este processo tem várias vantagens potenciais, não só
contribuindo para aliviar o problema doméstico do desemprego como também para
consolidar a influência chinesa e o controlo de setores-chave como o comércio a
retalho. Contudo, esta dimensão tem-se revelado como uma fonte de problemas e
de tensões que afeta negativamente a imagem da China e agrava os problemas de
segurança dos cidadãos chineses gerando uma pressão para a proteção dos mesmos
e um novo desafio securitário para o poder chinês na sua capacidade para lidar
com riscos políticos.
A perspetiva da China relativamente ao Atlântico Sul envolve também uma
dimensão de hard power numa perspetiva de longo prazo, relacionada com a
consolidação da capacidade naval chinesa. O processo de forte militarização da
China tem tido como um dos eixos principais o reforço da sua capacidade naval e
a criação a longo prazo de uma blue water navy capaz de projetar o poder chinês
e reduzir a vulnerabilidade decorrente da enorme dependência da China da
liberdade de navegação nos oceanos uma vez que 90 por cento do seu comércio
externo utiliza o transporte marítimo, quer para receber importações
estratégicas vitais (produtos energéticos e alimentos), quer para escoar as
suas exportações. Assim, a sua prosperidade, tal como para a generalidade dos
BRICS, está fortemente ligada ao mar e à segurança marítima sendo necessário
responder às principais ameaças, em particular os problemas da pirataria
marítima e do crime organizado transnacional, por um lado, e o constrangimento
gerado pela posição de preponderância da marinha americana, por outro. Com o
aumento do significado dos recursos energéticos e minerais que a China obtém
dos dois lados do Atlântico Sul e o potencial acesso futuro a recursos dos
global commons nessa região, Pequim está confrontada com a necessidade,
agravada pela inexistência de capacidade naval em muitos dos estados africanos,
de garantir a segurança, quer da captação, quer do transporte desses recursos
no Atlântico Sul.
A criação de uma blue water navy, que alguns consideram ainda frágil e
benigna14, é essencial para esse fim e implica bases navais no estrangeiro em
pontos estratégicos, tendo a questão sido objeto de análise relativamente à
criação de uma rede de bases navais no oceano Índico, envolvendo potenciais
bases em Gwadar (Paquistão), Lanu (Quénia), Hambantota (Sri Lanka) e mais
recentemente Seychelles, que analistas norte-americanos designaram como a
estratégia de string of pearls15. Pequim tem procurado introduzir e consolidar
esta questão e a participação de navios chineses na operação internacional
antipirataria na costa da Somália, operação «Atalanta» liderada pela UE, tem
sido encarada como um momento de afirmação da nova missão da People's
Liberation Army Navy (PLAN) ao mesmo tempo que protegia os interesses
estratégicos chineses e a segurança da navegação dos barcos chineses no golfo
de Adém, por onde continuam a transitar cerca de 50 por cento das importações
chinesas de petróleo.
Recentemente, no âmbito de uma publicação chinesa de natureza oficiosa, surgiu
um plano de criação de uma rede de 18 bases navais, designadas como overseas
strategic support bases, caracterizadas não como bases militares mas como bases
de reabastecimento com três formatos distintos: 15 no Índico (Paquistão, Sri
Lanka, Seychelles, Maurícias, Moçambique, Quénia, por exemplo) e três no
Atlântico Sul a serem localizadas na Nigéria, em Angola e na Namíbia16. O
aspeto inovador, para além do aumento do número de bases no Índico, é o de pela
primeira vez ser colocada a hipótese de bases navais no Atlântico Sul o que
implica uma ampliação do string of pearls. Sendo incerto o momento da sua
concretização, a China encara a sua presença militar naval no Atlântico Sul
como um fator natural da salvaguarda dos seus interesses estratégicos e uma
afirmação da sua condição de potência global.
Sobre o significado desta iniciativa existem duas visões opostas. A primeira, a
tese da string of pearls, considera existir uma ameaça da China dominada pelo
objetivo de projeção de força. A segunda é uma tese mais benigna sobre o plano
chinês, a tese de places not bases17, que considera que apenas está em causa a
identificação de locais para reabastecimento de combustível e não bases
militares, para navios que pretenderiam sobretudo combater a pirataria e
garantir a segurança dos corredores marítimos vitais para a China.
Este cenário gera não só uma tensão potencial com os Estados Unidos que vêm
procurando consolidar a sua posição na região com a reativação da 4.ª Esquadra
americana em abril de 2008 (após quarenta anos desativada) e a criação do
AFRICOM (United States Africa Command) em outubro de 2008, mas também com o
Brasil que está igualmente apostado num plano de militarização desde 2008 na
sequência do Plano de Defesa Nacional do mesmo ano, e como reação ao
reposicionamento estratégico dos Estados Unidos, envolvendo a criação da sua
capacidade naval e a sua afirmação como potência regional que se opõe à
expansão estratégica da NATO e a qualquer projeto de presença militar da China.
A principal prioridade do Brasil é o controlo da «Amazónia Azul» (uma área de
cerca de 4,5 milhões de quilómetros quadrados correspondentes ao somatório da
zona económica exclusiva e plataforma continental) e o patrulhamento e
segurança no Atlântico Sul, para proteção dos recursos naturais junto à costa e
explorações petrolíferas offshore. Tal gerou uma alteração do pensamento
estratégico brasileiro relativamente às relações com África e uma aposta na
cooperação entre os dois lados do Atlântico Sul traduzida em iniciativas como o
reforço da cooperação militar com a África do Sul, ilustrado pelo início do
funcionamento do Joint Defence Committee em março de 2013, o apoio ao
desenvolvimento da Marinha da Namíbia ou o apoio técnico aos estados costeiros
africanos para o estudo das suas plataformas continentais. A construção dos
novos submarinos nucleares brasileiros, desenvolvidos em parceria com a França,
irá permitir reforçar esta capacidade de patrulhamento do Atlântico Sul e a
dinamização da parceria IBSA na área da defesa, e reforçar a margem de manobra
face ao poder e pressão de Pequim.
Independentemente da questão das futuras bases navais, a verdade é que a China
já iniciou uma estratégia de presença «diplomática» de navios militares e não
militares no Atlântico Sul que se tem feito sentir através de dois mecanismos:
a política de visitas «diplomáticas» de navios militares a diferentes países no
Atlântico, como a visita à África do Sul de dois navios em abril de 2011 ou a
recente visita em abril da 13th Escort Task Force a operar na missão do golfo
de Adém ao porto de Casablanca em Marrocos; a visita discreta de navios civis,
geralmente de investigação científica, caso da visita em 2012 do navio de
investigação científica Dayang Yihaoà Nigéria onde desenvolveu uma missão de
investigação em águas profundas, certamente com objetivos de prospeção de
recursos18.
O apoio ao reforço da capacidade naval de estados do Atlântico Sul, como nos
casos da Namíbia e da Nigéria19 por parte da PLAN, é um exemplo claro dos
diferentes canais utilizados pela China para reforço de influência. No caso da
Namíbia, a China tem vindo a fornecer os navios mais recentes e mais
sofisticados para a sua marinha, caso do NS Elephant fornecido em junho de
2012, sendo também responsável pelo treino da respetiva tripulação, com vista a
capacitar a Namíbia para controlar a sua Zona Económica Exclusiva, questão em
que a China tem interesse direto.
No caso da Nigéria, o apoio militar, para além do apoio ao desenvolvimento da
indústria de armamento, da venda de armas (por exemplo, aviões F-7), está
fundamentalmente centrado no reforço da capacidade naval nigeriana para
intervir no golfo da Guiné e controlar a crescente ameaça da pirataria
marítima20. Face à ameaça que a pirataria representa para a segurança dos
navios chineses, a China, confrontada com as limitações políticas de uma ação
direta, age indiretamente através de um Estado com poder para combater ações
ilegais na sua área de jurisdição, simultaneamente reforçando a sua influência
e imagem de defensor do interesse comum ao mesmo tempo que evita uma ação
internacional e a presença de outras potências.
A ÍNDIA NO ATLÂNTICO SUL
O espaço estratégico natural da Índia é o Índico, porém, em resultado das
necessidades do seu próprio processo de desenvolvimento e da rivalidade com a
China, designadamente na competição por recursos, a Índia tem vindo a reforçar
a sua presença no Atlântico Sul embora com uma escala menor e condicionantes
distintas da China.
A presença económica assenta principalmente no comércio e no investimento
direto não existindo uma componente de financiamento como no caso da China. A
natureza das trocas comerciais é semelhante, mas a escala é significativamente
diferente. O comércio total com os principais atores dos dois lados do
Atlântico Sul em 2011 era de cerca de 40 mil milhões de euros, cerca de 3,5
vezes menor do que o valor das trocas da China com as mesmas economias, o que
corresponde a 7,1 por cento do comércio total da Índia. O principal parceiro
comercial é a Nigéria com 30 por cento do total, seguida da África do Sul e do
Brasil. Tal como a China a Índia tem um enorme défice de recursos energéticos e
recursos naturais em geral, pelo que os principais produtos de importação são o
petróleo cujo primeiro fornecedor é a Nigéria, seguida da Venezuela, o carvão
fornecido pela África do Sul e os minérios com especial destaque para o Brasil.
As exportações indianas, tal como as chinesas, são constituídas por produtos
manufaturados e também por serviços. A balança comercial é claramente
desfavorável à Índia registando-se um défice com todas as economias à exceção
do Brasil, único parceiro com quem mantém um superavit.
A diversificação das fontes de fornecimento de petróleo na busca da redução da
insegurança energética é um dos objetivos essenciais da Índia no
desenvolvimento de relações com o Atlântico Sul dado que o seu nível de
dependência do petróleo do Médio Oriente é muito elevado, 64 por cento, ainda
superior ao da China. O petróleo que adquire aos países da costa africana,
principalmente à Nigéria que vende 12 por cento do total das suas exportações à
Índia, representa 17 por cento do total de importações indianas que se destinam
não apenas ao consumo interno, mas também a alimentar a indústria de refinação.
A Índia, apesar de um importador líquido de petróleo bruto, é um exportador
líquido de produtos petrolíferos graças à elevada capacidade de refinação que
possui. Angola é também um fornecedor relevante sendo a Índia o seu terceiro
maior cliente ao absorver 11 por cento do total das exportações angolanas.
No plano dos investimentos, a presença indiana tem vindo a crescer dos dois
lados do Atlântico Sul com um padrão de elevada diversificação. O setor da
energia, especialmente do petróleo, é um dos mais importantes, com
investimentos recentes significativos em seis blocos de exploração na Nigéria e
um investimento na Venezuela pela empresa estatal indiana ONGC Videsh. Outra
área dos recursos naturais são os minérios, com especial destaque para o ferro,
essencial para a indústria siderúrgica indiana, a qual no final de 2012
celebrou um acordo com o Brasil para garantir o acesso das empresas MOIL e RINL
aos vastos recursos do estado de Amapá.
No âmbito dos recursos também têm sido referenciados investimentos no setor
agrícola em diversos países africanos, especialmente na Etiópia, mas também em
Moçambique, Senegal, Serra Leoa e Quénia, que denotam o envolvimento da Índia,
ainda que numa escala menor à da China, no fenómeno do land grab. Uma das
principais empresas indianas intervenientes é a Karuturi Global, originária de
Bangalore, e envolvida na polémica expulsão forçada de famílias de agricultores
da zona da Gambella na Etiópia denunciada pela Human Rights Watch21.
No domínio industrial os setores são muito diversificados envolvendo quer a
indústria pesada ' a siderurgia (Nigéria), refinação de petróleo (África do
Sul) ', quer a indústria ligeira e setores mais conhecimento-intensivos como a
indústria farmacêutica (Nigéria, Brasil e África do Sul) orientada para a
satisfação da procura local e regional como os casos dos medicamentos
antirretrovirais e antimalária, a indústria automóvel, designadamente a Tata
Motors (Brasil), e as tecnologias de informação e software, através de empresas
como a Infosys e Aptech (Brasil, Nigéria e África do Sul).
No plano das infraestruturas o investimento tem-se concentrado em África, sendo
as telecomunicações o setor prioritário, com a presença da Índia a reforçar-se
de forma significativa nos últimos anos, alicerçada na ação de duas grandes
empresas: a Bharti Airtel, a maior empresa indiana de telemóveis, e a Essor, em
especial na sequência da compra pela Bharti Airtel da empresa Zain Africa em
2010, que envolveu um investimento de dez mil milhões de dólares,
transformando-a no segundo maior operador em África com presença em 17
países22.
O investimento indiano tem-se dirigido também para o setor dos serviços no lado
africano, em particular na área financeira, banca e serviços financeiros, com
especial destaque para a Nigéria e a África do Sul assente na ação do State
Bank of India, o maior banco indiano controlado pelo Estado, que tem operações
na África do Sul e na Nigéria relacionadas quer com o apoio aos novos
investimentos das empresas indianas, quer com as operações e gestão das
remessas das significativas comunidades da diáspora indiana na África do Sul, a
maior em África com mais de 1,2 milhões de membros23.
Em suma, os investimentos da Índia são fundamentalmente da responsabilidade de
grandes empresas privadas, embora as empresas estatais tenham relevância em
setores específicos como o financeiro (State Bank of China) e o energético, o
petróleo (caso da ONGC Videsh), e são diversificados abrangendo diversas áreas.
A presença da Índia tem igualmente uma dimensão humana relacionada com as
comunidades da diáspora indiana que existem apenas no lado africano não se
verificando o mesmo fenómeno do lado da América do Sul onde existem comunidades
indianas sem significado (2000 no Brasil e 1400 na Argentina). A diáspora
indiana em África é muito significativa incluindo mais de 2,5 milhões de
pessoas, com uma presença longa, fortemente integradas na economia e sociedade
locais e com influência relevante em alguns países. A maior comunidade situa-se
precisamente na África do Sul com mais de 1,2 milhões de pessoas, sendo as
outras comunidades com maior dimensão as das Maurícias (882 220), Tanzânia (54
700) e Nigéria (30 000)24. A Índia, que durante muito tempo manteve poucas
ligações com a diáspora, em muitos casos limitada à captura de remessas,
alterou substancialmente a sua política em 2003 procurando mobilizar
estrategicamente a diáspora como fator competitivo no mercado global, cuja
implementação levou à criação do Ministry of Overseas Indian Affairs. Neste
contexto, a diáspora é encarada como um agente facilitador das relações
económicas e políticas não sendo de estranhar que os dois países prioritários
do relacionamento da Índia no contexto africano tenham comunidades indianas
significativas e influentes.
Esta constitui uma diferença, e alguns consideram uma potencial vantagem25,
relativamente à China que, embora tenha a maior diáspora em termos globais, não
se verifica uma presença relevante de comunidades chinesas com expressão e
influência em África. Assim, enquanto a presença humana chinesa é recente,
muitas vezes envolvendo imigrantes temporários com grande distanciamento
cultural e com claras dificuldades de integração, a presença humana indiana é
permanente, com elevado nível de integração constituindo, assim, um fator
positivo de aproximação cultural e de facilitação dos negócios sendo igualmente
detentora de know-how relevante e inteligência económica local de grande
interesse para as empresas indianas.
A Índia dispõe ainda de um importante instrumento de soft power, a dimensão
cultural associada à influência de Bollywood e da indústria do audiovisual dos
dois lados do Atlântico Sul.
Embora o interesse indiano seja predominantemente económico, não deixa de
existir um interesse político relacionado com a pretensão da Índia em reforçar
a sua influência internacional, designadamente no âmbito do G77, sobretudo na
perspetiva de obtenção do apoio e dos votos, em especial dos estados africanos,
para o acesso ao estatuto de membro permanente do Conselho de Segurança das
Nações Unidas.
No plano da segurança, a Índia não tem uma estratégia autónoma no Atlântico
Sul, não adota uma postura de ator global sendo a sua afirmação estratégica
essencialmente centrada no Índico e na projeção da sua capacidade naval num
espaço em que a competição estratégica com a China é intensa. Como é evidente,
as preocupações com a segurança da navegação no Atlântico Sul são crescentes, à
medida que as importações de petróleo provenientes da região aumentam e
necessita de garantir a segurança dos seus navios face a fenómenos de pirataria
marítima. No entanto, a Índia enfrenta claramente limitações objetivas na sua
capacidade de projeção e não tem atualmente uma agenda de presença militar no
Atlântico Sul, estando dependente não de uma estratégia autónoma, mas da
densificação das relações de cooperação militar com o Brasil e a África do Sul
e do desenvolvimento do braço estratégico da IBSA, como estratégia para
contrabalançar o poder e influência da China.
A CHINA E A ÍNDIA: PONTOS DE CONVERGÊNCIA E DIVERGÊNCIA
A análise integrada da experiência e da presença destes dois poderes emergentes
revela alguns pontos de convergência, uma vez que partilham problemas comuns,
mas também diversos pontos de divergência e contrastes significativos.
No plano da convergência verificam-se vários pontos comuns. Em primeiro lugar,
ambos procuram garantir acesso a recursos naturais estratégicos, por forma a
manter os elevados níveis de crescimento das respetivas economias, limitando os
elevados défices e reduzindo os riscos de insegurança energética, que resulta
de elevadas taxas de crescimento do consumo, mas também de insegurança
alimentar que se acentua face aos problemas de carência de água e contaminação
dos solos e redução da área arável que partilham. A respetiva presença nos
países dos dois lados do Atlântico Sul visa, por um lado, obter acesso através
do processo de investimento a recursos sobre os quais existem direitos
soberanos dos estados e, por outro, garantir de modo mais informal o acesso
futuro aos global commons.
Os recursos atuais nas zonas costeiras dos dois lados do Atlântico, assim como
os recursos futuros, quer do fundo do oceano, quer o acesso à Antártida,
motivam esta renovada atenção também na perspetiva da diversificação das fontes
de abastecimento, designadamente reduzindo a dependência do petróleo produzido
no Médio Oriente que, quer no caso da China, quer da Índia, é muito elevada.
Em segundo lugar, em ambos os casos a abordagem assenta essencialmente numa
estratégia de soft power, assente no instrumento económico, não existindo ainda
uma dimensão de hard power concretizada. Contudo, a China já equacionou a
vertente da presença militar da sua marinha no Atlântico Sul num futuro mais ou
menos próximo enquanto a Índia está ainda longe de encarar tal possibilidade.
Nesta perspetiva, ambos partilham uma preocupação com a segurança marítima na
região, designadamente o controlo da pirataria no golfo da Guiné, na medida em
que pode afetar a circulação dos seus navios e o fluxo regular e
disponibilidade das matérias-primas e energia com origem na região.
Em terceiro lugar, os parceiros prioritários, os atores-chave na região são
fundamentalmente os mesmos para a China e para a Índia: no lado africano, a
África do Sul e a Nigéria, com uma diferença em relação a Angola que tem uma
relevância maior como parceiro para a China mas com uma posição de menor
relevância para a Índia; no lado da América do Sul, o Brasil surge claramente
como o parceiro prioritário para ambos. Contudo, é interessante notar a
diferença de focagem. A relação da Índia está muito mais centrada no lado
africano, que concentra 70 por cento do comércio total com o Atlântico Sul, e é
menos densa com o lado da América do Sul, não obstante o recente incremento das
relações com o Brasil. A limitação da expansão do espaço de influência da Índia
à vizinhança do seu espaço estratégico tradicional é evidente, consistindo a
evolução essencial na última década na deslocalização do foco do relacionamento
da África Oriental, tradicionalmente mais forte, para a África Ocidental
atlântica. Em contraste, a China tem uma relação mais equilibrada entre os dois
lados, mas com clara preponderância do lado da América do Sul, que concentra 70
por cento do comércio com o Atlântico Sul, em virtude da sua forte relação com
o Brasil, que assume para Pequim natureza prioritária.
Na perspetiva da divergência e diferenças entre a presença e a abordagem
chinesa e indiana é possível identificar alguns aspetos fundamentais.
Em primeiro lugar, a escala da presença e da influência económica é bastante
diferente: a escala da Índia é muito menor do que a da China que se traduz quer
na diferença de volumes das trocas comerciais, quer nos níveis de investimento,
ou ainda na disponibilidade de meios de financiamento.
Em segundo lugar, os instrumentos da influência económica dominantes também são
diferentes no contexto africano já que a China atribui grande destaque ao
financiamento e à concessão de crédito em condições concessionais de forma
«ligada», no modelo infrastructures for resources loans utilizando os seus
vastos recursos financeiros, enquanto este instrumento é marginal para a Índia
cuja ação está assente no comércio e no investimento direto. Já no lado da
América do Sul esta diferença esbate-se dado que o financiamento é um
instrumento menos utilizado pela China, porém, com expressão no caso da
Venezuela.
Em terceiro lugar, a forma de agir e os atores são também distintos a vários
níveis:
a China funda a sua ação em empresas estatais implementando uma estratégia
coordenada pelo Estado chinês e com um forte músculo financeiro de suporte; em
contraste, a ação da Índia tem como principal motor o setor privado e as
grandes multinacionais indianas embora em setores específicos o papel de
empresas estatais também seja relevante (petróleo e setor financeiro). A
abordagem chinesa e a perceção da presença do Estado e da «carga política» do
investimento têm vindo a gerar algumas desconfianças e resistências ao reforço
da posição destas empresas em alguns países, questão que não se coloca
relativamente ao investimento indiano;
reduzida criação de emprego local por parte das empresas chinesas,
predominando a utilização de mão de obra chinesa, o que gera críticas e algum
mal-estar na sociedade ' em contraste as empresas indianas privilegiam a
contratação de mão de obra local gerando emprego e evitando tensão com as
populações locais;
«financiamento ligado» utilizado pela China e o efeito de atribuição da
maioria dos contratos de empreitadas das obras de infraestruturas a empresas
chinesas, tende a reduzir o nível de concorrência na economia e a fomentar
rendas de monopólio no futuro; em contraste o investimento da Índia não tem
este impacto disfuncional sobre o mercado, tendendo a reforçar o nível de
concorrência nas economias.
Em quarto lugar, o fenómeno migratório e o elemento humano da presença da China
e da Índia, em especial no lado africano do Atlântico Sul já que não tem
significado do lado americano, tem características diversas com implicações
distintas. A presença indiana está associada a uma diáspora histórica,
integrada nas sociedades africanas e com influência, tanto no caso da África do
Sul, como no da Nigéria, enquanto a China tem vindo a promover fluxos
migratórios recentes, de forma descontrolada, caracterizados por um grande
distanciamento cultural e desintegração das sociedades locais. Em resultado
desta chegada em massa e do elevado distanciamento cultural as relações são
complicadas e, por vezes, tensas com as comunidades locais. Por outro lado, os
limitados laços locais, o elevado número e dispersão geográfica dos imigrantes
chineses gera problemas de insegurança para estas comunidades chinesas e,
consequentemente, problemas acrescidos para o Estado chinês em termos de
garantir a sua proteção. Um dos aspetos relevantes é o de que o desenvolvimento
da Marinha chinesa tem como uma das justificações relevantes a necessidade de
proteger e promover a evacuação de cidadãos chineses em risco no estrangeiro.
Em quinto lugar, a China aborda o Atlântico Sul como um ator global com uma
visão holística ao passo que a Índia tem uma visão mais restrita no
prolongamento da sua zona de intervenção natural que é o Índico. A China adota
uma lógica abrangente tendo em conta as interligações com outras regiões,
procurando consolidar uma posição num quadro estratégico regional em mutação,
pouco consolidado e fluido, de onde tradicionalmente estava ausente. A lógica
de competição estratégica com os Estados Unidos é dominante, numa zona de
influência natural de Washington que, desde 2008, renovou a sua estratégia e
reforçou a atenção atribuída ao Atlântico Sul. A China procura enfraquecer o
soft power americano em zonas de influência tradicional. Em contraste, a Índia
é um poder regional cujo espaço estratégico é a Ásia e o oceano Índico, pelo
que encara o Atlântico Sul na sua ligação ao Índico e à África Ocidental como
uma extensão da África Oriental. A lógica de competição com os Estados Unidos
não se coloca para a Índia que tem, desde 2008, uma relação de proximidade e
parceria com Washington, pelo que para Nova Deli o verdadeiro competidor no
Atlântico Sul é a China.
Nesta tentativa de resistir à pressão da China, a Índia aposta na parceria com
o Brasil e a África do Sul, o grupo democrático dos BRICS, que se organiza
autonomamente no âmbito da IBSA (na sigla em inglês: India, Brazil and South
Africa), a estrutura tripartida de cooperação política e concertação
diplomática criada em 2003 e formalizada pela declaração de Brasília. Apesar
das tentativas de Pequim para desmantelar a IBSA como forma de consolidar o seu
predomínio e liderança no seio dos BRICS, a Índia, o Brasil e a África do Sul
têm resistido e concertado forças para promover questões de interesse comum e
contrabalançar a assimetria do poder da China.
Apesar da importância das relações económicas que o Brasil e a África do Sul
mantêm com a China, existe um receio do risco de excessiva dependência do poder
económico chinês e de predomínio político, para além de haver valores e
interesses divergentes designadamente entre a China, membro permanente do
Conselho de Segurança, e os candidatos a esse estatuto26. Existe uma clara
ambivalência na abordagem do Brasil e da África do Sul no sentido de que, por
um lado, a presença da China é vista como potencialmente positiva já que
contribui para conter o avanço dos Estados Unidos e da NATO e realiza
investimentos que têm um impacto fundamental no dinamismo e crescimento das
suas economias; por outro, é encarada como um potencial problema se ultrapassar
determinados níveis e se tornar «sufocante», colocando riscos de manutenção da
autonomia de interesses e reduzindo a sua margem de manobra e de afirmação
enquanto potências regionais.
O Atlântico Sul surge como um espaço fundamental de afirmação do Brasil como
poder regional, e em menor grau da África do Sul, os quais têm vindo a reforçar
a cooperação militar bilateral a diferentes níveis, designadamente formação,
desenvolvimento conjunto de armas (programa mísseis A-Darter), preparação para
operações de manutenção de paz, com uma forte componente naval, designadamente
no âmbito dos submarinos. Esta cooperação ganhou ainda maior coerência e
densidade com a entrada em funcionamento em março de 2013 do Comité Conjunto de
Defesa Brasil-África do Sul27.
Em alguns aspetos, a Índia tem sido associada a esta nova dinâmica. O
desenvolvimento de exercícios navais conjuntos bianuais entre o Brasil, a
África do Sul e a Índia, IBSAMAR I, II e III, iniciados em 2008 e repetidos em
2010 e 2012, focados nas questões da segurança da navegação, da segurança
humana e missões humanitárias, são uma clara demonstração da vontade da IBSA de
reforçar a influência no Atlântico Sul e na Rota do Cabo e de demonstrar a sua
oposição à expansão da NATO para sul mas também, implicitamente, à presença
militar significativa da China no Atlântico Sul. Para a Índia, esta
participação nos exercícios navais da IBSAMAR teve, igualmente, um objetivo
muito importante ' o de tentar contrariar algumas críticas e apreensão
relativamente a uma excessiva aproximação e cooperação com os Estados Unidos28.
Por outro lado, este processo espelha a crescente relevância que os três
parceiros atribuem à segurança marítima e ao reforço da sua capacidade naval,
essencial para a sua prosperidade económica, e à vontade de desempenharem um
papel ativo na governança dos mares e na garantia da segurança coletiva. Como é
evidente, a credibilidade depende em larga medida da demonstração na prática de
capacidade para responder e controlar efetivamente algumas das ameaças,
designadamente a pirataria e, em particular, no golfo da Guiné. Este é
certamente um primeiro teste a que alguns membros da IBSA têm procurado dar
resposta através do reforço da cooperação militar do Brasil com a Nigéria em
2010, o apoio à Marinha nigeriana, mas na realidade é a China que tem revelado
maior proatividade nesse processo e parece estar a ganhar ascendente.
Em suma, o Atlântico Sul surge como um palco fundamental de competição não só
entre as potências tradicionais e as novas potências emergentes, mas também
entre estas últimas, tornando visíveis as tensões e contradições no seio dos
BRICS que estão longe de constituir um grupo homogéneo e coerente.
CONCLUSÕES
O Atlântico Sul era tradicionalmente uma zona secundária com reduzida densidade
estratégica em que os estados costeiros dos dois lados viveram durante muitos
anos de costas voltadas para o oceano e com os atores externos pouco presentes,
o que determinou a existência de um espaço pouco estruturado, flexível e sem
posições de domínio consolidadas. Na última década este quadro tem estado em
rápida mutação em consequência de uma multiplicidade de fatores, nomeadamente a
confirmação de existência de recursos naturais abundantes, energéticos,
minerais (cuja exploração se faz essencialmente offshore) e alimentares, quer
piscícolas, quer agrícolas, já que dos dois lados do Atlântico se situam as
maiores reservas a nível global de terra arável, com disponibilidade de água e
reduzida pressão populacional, ideais para a produção de alimentos. Num mundo
que enfrenta crescentes riscos de insegurança energética, alimentar e hídrica,
o Atlântico Sul passou a ser visto com crescente interesse, tanto mais que as
suas características específicas, designadamente um oceano aberto com muito
poucas ilhas o que faz dele no essencial um espaço de global commons, criam uma
considerável margem de manobra para uma competição pelo controlo de factodos
recursos. Este interesse não se refere apenas a recursos atuais, mas também
futuros, já que o Atlântico Sul é uma região privilegiada para acesso e
projeção sobre a Antártida onde se situam recursos futuros de elevado valor
estratégico.
Os dois estados mais populosos do mundo, China e Índia, que se debatem com
riscos de insegurança energética e alimentar a longo prazo, são duas potências
emergentes que estão crescentemente envolvidas no Atlântico Sul e que
configuram dois casos de relevante interesse para compreender os contornos
desta nova dinâmica na região.
Da análise comparativa das respetivas estratégias de atuação e presença é
possível concluir que existem diversos aspetos comuns que caracterizam a
presença e estratégias, quer da Índia, quer da China, no Atlântico Sul. Desde
logo o seu caráter multidimensional, envolvendo motivações económicas,
políticas e de segurança, com predomínio da motivação económica e recurso a
instrumentos de soft power, com prioridade para o acesso e controlo sobre
recursos energéticos e minerais, em que ambos são crescentemente deficitários,
com o objetivo não só de abastecer as respetivas economias e manter os elevados
níveis de crescimento económico que vêm registando, mas também de reduzir e
controlar os riscos de insegurança energética e alimentar que os afetam.
Verifica-se igualmente uma clara preocupação com a diversificação não só de
fontes de abastecimento energético, no sentido de reduzir a dependência do
petróleo do Médio Oriente por forma a diminuir o risco, mas também de mercados
de exportação de modo a reduzir a exposição às quebras da procura na UE e nos
Estados Unidos e a permitir que os segmentos menos competitivos dos respetivos
tecidos produtivos se internacionalizassem.
Por outro lado, os parceiros prioritários são no essencial os mesmos, no lado
africano, a Nigéria e a África do Sul, e no lado da América do Sul, o Brasil,
embora as ligações da Índia sejam mais concentradas no lado africano, enquanto
a China tem um maior foco no lado americano na relação com o Brasil que
constitui claramente a prioridade da China no Atlântico Sul. Tal implica um
nível elevado de competição entre a China e a Índia na medida em que «procuram
as mesmas coisas nos mesmos sítios», o que se traduz numa estrutura de trocas
comerciais muito semelhante e numa concentração de uma parte dos investimentos
em setores idênticos. Esta competição no terreno e as tensões que marcam a sua
relação bilateral na Ásia também explicam que a relação China-Índia no
Atlântico Sul seja dominada pela competição sem margem para cooperação, não
obstante existirem interesses comuns, designadamente o reforço da segurança da
navegação, que poderiam beneficiar de um comportamento mais cooperativo.
Esta análise comparativa revela também a existência de muitas diferenças no que
respeita aos instrumentos e filosofia de atuação, mais visíveis no lado
africano do que no lado sul-americano. Em primeiro lugar, a escala da presença
e interesses económicos é muito diferente sendo muito superior no caso da China
que atua fundamentalmente através de empresas multinacionais estatais,
controladas pelo Estado, com forte carga política; fortemente apoiadas pelo
financiamento «ligado», o que contraria a ideia de que a ação da China não tem
condicionalidade; e que recorrem maioritariamente à mão de obra chinesa, o que
alimenta os fluxos de imigração, criando pouco emprego local. Em contraste, a
Índia alicerça a sua ação no setor privado e sobretudo nas grandes
multinacionais privadas indianas, com contratação de mão-de-obra local, sem
recurso ao instrumento de financiamento. Um aspeto relevante na sua ação na
Nigéria e África do Sul é a mobilização da diáspora indiana local, integrada
social e culturalmente, que funciona como catalisadora desta relação bilateral
mais intensa, constituindo uma mais-valia de que, no contexto africano, a China
não dispõe, pelo que tem procurado intensificar os fluxos de novos emigrantes
para África, desintegrados social e culturalmente, como fator de reforço da sua
influência e estratégia de atenuação das pressões domésticas sobre o mercado de
emprego.
O argumento central é que, não obstante estas diferenças, o aspeto decisivo
relaciona-se com o facto de a China e a Índia apresentarem duas visões de fundo
distintas na respetiva abordagem do Atlântico Sul. A China aborda o Atlântico
Sul como um ator global com uma visão holística, em que a dimensão da
competição estratégica com os Estados Unidos e a erosão do soft power americano
é essencial, ao passo que a Índia tem uma visão mais regional no prolongamento
da sua zona de intervenção natural que é o Índico, centrada na competição e
tensão com a China e articulando posições com os outros membros da IBSA, Brasil
e África do Sul, procurando desta forma compensar a sua maior fragilidade e
desvantagens comparativas relativamente à China.
A ação da Índia e da China tem-se centrado na relação com os estados costeiros
dos dois lados do Atlântico, detentores de direitos soberanos sobre os recursos
que se localizam nos limites das respetivas plataformas continentais, de modo a
obter posições privilegiadas. É a estratégia do «controlo indireto», alicerçada
no desenvolvimento de interesses complementares, numa maior influência junto
das elites políticas e na capacitação institucional e reforço dos meios
tecnológicos de que muitos estados, em particular os africanos, não dispõem,
quer para explorar, quer para proteger/defender militarmente esses vastos
recursos.
No entanto, a sua presença no Atlântico Sul tem um outro objetivo estrutural
distinto, a consolidação de posições para participar na segunda fase da
exploração do Atlântico Sul cujo início ainda é incerto: a exploração dos
global commons situados fora das áreas de jurisdição das soberanias em águas
internacionais, que constituem «património comum da humanidade» e uma «apólice
de seguro» das gerações futuras. Esta será a estratégia do «controlo direto»
sobre zonas do Atlântico Sul com base em direitos de exploração, que deverão
ser definidos pelas instituições internacionais, mas também em tentativas de
exploração ilegal com recurso ao uso da força, o que aponta para um cenário de
forte intensificação das tensões e aumento da insegurança.
Data de receção: 18 de março de 2013 | Data de aprovação: 21 de maio de 2013
NOTAS
1
Sobre a relevância e mutação estratégica do Atlântico Sul, cf. LESSER, Ian '
«South Atlanticism: geopolitics and strategy for the other half of the Atlantic
Rim». Brussels Forum Paper Series, German Marshall Fund of the United States,
2010.
2
BP, «Statistical review of world energy», junho de 2012. [Consultado em: 30de
abril de 2013]. Disponível em: http://www.bp.com/assets/bp_internet/globalbp/
globalbp_uk_english/reports_and_publications/statistical_energy_review_2011/
STAGING/local_assets/pdf/
statistical_review_of_world_energy_full_report_2012.pdf
3
NICOL, Stephen ' «Krill, currents and the sea ice: Euphausia superba and its
changing environment». In Bioscience. Vol. 56, N.º 2, fevereiro de 2006.
4
«Reports on acts of piracy and armed robbery against ships». MSC.4/ Circ. 193,
International Maritime Organization, 2 de abril de 2013. [Consultado em: 30 de
abril de 2013] Disponível em: http://www.imo.org/ourwork/security/
piracyarmedrobbery/pages/default.aspx. Contabiliza um total de 64 incidentes de
pirataria entre consumados e tentados na África Ocidental, contra 61 na África
Oriental, tendo a região com maior número de incidentes sido o mar da China
Meridional com 90 incidentes.
5
«Oil & Gas Security, People's Republic of China». EIA US Energy
Information Administration, Country Profile Facts Global Energy, 2012, pp. 5-
11.
6
Designação do fenómeno de aquisição de grandes áreas de terra agrícola por
parte de empresas estatais de estados com riscos futuros de insegurança
alimentar em resultado da indisponibilidade de terra arável e de água, casos da
China, Japão, Coreia do Sul, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrain,
com o objetivo de abastecer exclusivamente a população do país de origem. Tais
processos tendem a gerar elevada conflitualidade, já que são comuns os
fenómenos de expulsão forçada de agricultores e familiares das suas terras
assim como riscos de insegurança alimentar no país de destino dos
investimentos. Cf. BRAUN, Joachim von, e MEINZEN-DICK, Ruth ' «Land grabbing by
foreign investors in developing countries: risks and opportunities». In IFPRI
Policy Brief, N.º 13, abril de 2009. [Consultado em: 30 de abril de 2013].
Disponível em: http://www.ifpri.org/sites/default/files/publications/
bp013all.pdf; ZAGEMA, Bertram ' «Land and power: the growing
scandal surrounding the new wave of investments in land». In Oxfam Briefing
Paper 151, 22 de setembro de 2011. [Consultado em: 30 de abril de 2013].
Disponível em: http://www.oxfam.org/en/grow/policy/land-and-power.
7
Em 2010 foi elaborado o parecer LA-01 de 2010 sobre a interpretação da lei
5.709 de 1971 e em 2012 foi apresentado e está em discussão o projeto de lei PL
4059/12 que estabelece um novo regime para esta questão, incluindo restrições
para a aquisição e o arrendamento de imóveis rurais por estrangeiros.
8
Vários navios chineses de grandes dimensões têm sido referenciados por
observadores internacionais a operar nesta zona, caso dos navios Kai-xin, da
Shanghai Kaichung Deep Sea Fisheries Co. Ld., Fu Rong Hai e Lian Xing Hai vd.
Sheperd International. [Consultado em: 30 de abril de 2013]. Disponível em:
www.seasheperd.org/commentary-and-editorial/2013/04/16/krill-fisheries-the-
next-collapse605.
9
CISSE, Daouda ' «Going global in growth markets ' Chinese investments in
telecommunications in Africa». In Policy Briefing, abril de 2012, Centre for
Chinese Studies, Stellenbosch University, South Africa. [Consultado em: 30 de
abril de 2013]. Disponível em: http://scholar.sun.ac.za/bitstream/handle/
10019.1/21145/cisse_global_2012.pdf?sequence=3
10
«China's investment in African special economic zones: prospects, challenges
and opportunities». In Economic Premise, World Bank, março de 2010, tabela 1;
EL-GOHARI, Ahmad, e SUTHERLAND, Dylan ' «China's special economicz in Africa:
the Egyptian case». Paper apresentado na Conference Global Economic Recovery:
the role of China, junho de 2010, University of Oxford.
11
«ODI-lay hee-do». In The Economist, 19 de janeiro de 2013.
12
Business Monitor International, 19 de abril de 2010. O China Development Bank
concedeu um empréstimo de 20 mil milhões de dólares no modelo infrastructure
for oil loan.
13
Cf. PARK, Yoon Jung ' Chinese Migration in Africa. Occasional Paper n.º 24,
SAIIA, China in Africa Project, January 2009.
14
ERICKSON, Andrew, e COLLINS, Gabe ' «China's real blue water navy». In The
Diplomat. [Consultado em: 12 de maio de 2013]. Disponível em: http://
thediplomat.com/2012/08/30/chinas-not-so-scary-navy/. Para uma avaliação da
marinha chinesa cf. O'ROURKE, Ronald ' China Naval Modernization: Implications
for U.S. Navy CapabilitiesBackground and Issues for Congress. Congressional
Research Service, 2013. Sobre as dinâmica da modernização naval cf. HARTNETT,
Daniel M., e VELLUCCI, Frederic ' «Toward a maritime security strategy: an
analysis of Chinese views since the early 1990s». In SAUNDERS, Phillip C.,
YUNG, Christopher D., SWAINE, Michael, e YANG, Andrew Nien-Dzu ' «The Chinese
navy: expanding capabilities, evolving roles». Washington: National Defense
University Press, 2011. [Consultado em: 30 de abril de 2013]. Disponível em:
http://www.ndu.edu/press/lib/pdf/books/chinese-navy.pdf
15
«Report energy futures in Asia». US Department of Defense, 2005.
16
International Herald Leader, 4 de janeiro de 2013.
17
KOSTECKA, Daniel J. ' «Places and bases: the Chinese navy's emerging support
network in the Indian Ocean». In Naval War College Review. Vol. 64, N.º 1,
2011, pp. 59-78.
18
China Daily, 30 de agosto de 2012. [Consultado em: 8 de maio de 2013].
Disponível em: http://www.chinadaily.com.cn/china/2012-08/30/
content_15718283.htm.
19
Sobre os objetivos do apoio da plan ao desenvolvimento da capacidade naval
nigeriana, ver «China's African influence expanding: Nigeria in focus». In
Beegeagle's Blog. [Consultado em: 10 de maio de 2013]. Disponível em http://
beegeagle.wordpress.com/2012/08/27/chinas-african-influence-expanding-nigeria-
in-focus/.
20
Nova prioridade da Marinha nigeriana de controlo da pirataria no golfo da
Guiné traduziu-se, por exemplo, na realização em novembro de 2012 do exercício
«farauta». [Consultado em: 15 de maio de 2013]. Disponível em: http://
www.navy.mil.ng/General-News/16.news#.UZejlFL_IuE
21
«Waiting here for death ' displacement and villagization in Ethiopia's
Gambella region». Relatório Human Rights Watch, 2012, pp. 55, 59.
22
Sobre as relações entre a Índia e a África cf. RAMACHANDRAN, Sudha ' «India's
Africa Safari». In The Diplomat, 4 de dezembro de 2012.
23
Dados oficiais sobre a diáspora indiana, cf. «Ministry of Overseas Indian
Affairs». [Consultado em: 5 de maio de 2013]. Disponível em: http://
moia.gov.in/writereaddata/pdf/NRISPIOS-Data(15-06-12)new.pdf.
24
Ministry of Overseas Indian Affairs. [Consultado em: 5 de maio de 2013].
Disponível em: http://moia.gov.in/writereaddata/pdf/NRISPIOS-Data(15-06-
12)new.pdf.
25
Cf. KHANNA, Tarun, e NANDA, Ramana ' «Diasporas and domestic entrepreneurs
evidence from the India software industry». Working Paper N.º 08-003, Harvard
Business School, 2007. [Consultado em: 5 de maio de 2013]. Disponível em: http:
//hbswk.hbs.edu/item/5737.html.
26
A reforma do Conselho de Segurança da ONU e o alargamento da lista de membros
permanentes foi precisamente uma das questões que esteve na base da criação da
IBSA. Sobre o processo de criação da IBSA cf. ALDEN, Chris, e VIEIRA, Marco
Antonio ' «The new diplomacy of the South: South Africa, Brazil, India and
trilateralism». In Third World Quarterly. Vol. 26, N.º 7, 2005, pp. 1077-1095.
27
Ministério da Defesa do Brasil, 5 de março de 2013. [Consultado em: 6 de maio
de 2013]. Disponível em: https://www.defesa.gov.br/index.php/ultimas-noticias/
8606-05-03-2013-defesa-brasil-e-africa-do-sul-iniciam-dialogo-conjunto-de-
defesa.
28
KHURANA, Gurpreet S. ' «India-Brazil-South Africa Tango at Sea». IDSA
Comment, Institute of Defense and Strategic Studies, 16 de maio de 2008.
[Consultado em: 18 de maio de 2013]. Disponível em: http://www.idsa.in/
idsastrategiccomments/IndiaBrazilSouthAfricaTangoatSea_GSKhurana_160508.
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