A China e a transformação da Ásia
A China define a forma da Ásia. A decadência do «Império do Meio» é sinónima do
declínio da Ásia, que deixou de existir como uma entidade autónoma na política
internacional com o fim da dinastia Qing. A divisão da China esteve no centro
da «Questão do Extremo Oriente» e na origem da ascensão do Japão, cuja
preponderância provocou a emergência do movimento nacionalista chinês no fim da
Grande Guerra. A persistência das divisões internas na China pós-imperial
abriram caminho à invasão japonesa, cujo sucesso tornou a principal potência
marítima asiática demasiado confiante no seu destino histórico. O entusiasmo
arrastou o Japão para uma aliança com a Alemanha contra as potências
ocidentais. Na II Guerra Mundial, o projecto imperial japonês ' a «Esfera de
Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental» ' unificou brevemente um grande espaço
regional, cujos limites provisórios eram a Península Coreana e o estreito de
Malaca, a Sakalina e Timor.
Em 1945, a China foi reconhecida como uma das potências vencedoras e substituiu
o Japão como a principal potência regional, quando os Estados Unidos impuseram
o seu estatuto como a única potência asiática entre os cinco membros
permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Porém,
esse reconhecimento institucional externo não chegou para ultrapassar as
divisões políticas internas entre as duas alas principais do movimento
nacionalista chinês. A guerra civil entre o Guomindang, relutantemente
sustentado pelos Estados Unidos, e o Partido Comunista da China, remotamente
apoiado na União Soviética, só terminou depois da proclamação da República
Popular da China. O regime comunista reunificou o território continental do
antigo império, mas o regime nacionalista pôde sobreviver na ilha Formosa (e em
Nova York), depois de a Guerra da Coreia ter consolidado a divisão da China e
as linhas de clivagem da Guerra Fria na Ásia.
Nas décadas seguintes, a China ficou refém da competição estratégica entre as
duas «superpotências», primeiro alinhada como o seu «irmão mais velho»
comunista, depois ao lado do «tigre de papel» norte-americano contra o «urso do
norte» soviético. Sem a China no seu centro, a Ásia voltou a fragmentar-se. A
Ásia do Sudeste, entre o Índico e o Pacífico, tal como a Ásia do Nordeste,
incluindo o Japão e as duas Coreias, adquiriram identidades próprias. A Ásia
Oriental passou a ser uma mera referência geográfica, enquanto os territórios
do antigo Raj britânico ' a Índia e o Paquistão, mas também o Ceilão, o Nepal,
o Butão e, mais tarde, o Bangladesh ' configuravam, depois da independência,
uma nova Ásia do Sul. Os velhos inimigos, o Japão e os Estados Unidos,
definiram a sua aliança como potências marítimas no quadro da Ásia-Pacífico,
onde se podiam inserir também a Austrália, a Nova Zelândia e as ilhas do
Pacífico Sul. A Ásia Central tinha deixado de existir desde o século anterior,
com a expansão do império czarista, mais tarde consolidada pela União
Soviética, deixando de fora o Afeganistão como um «separador», primeiro entre o
império britânico e o império russo, depois entre a União Soviética, o Irão, o
Paquistão e a Índia.
Nesse contexto, não era possível identificar a Ásia nem como uma região
geográfica, nem como uma entidade política, nem como um espaço estratégico
coerente.
A CHINA E A «GRANDE ÁSIA»
O fim da Guerra Fria trouxe consigo não só uma nova estrutura de distribuição
do poder, mas também uma nova dinâmica do sistema internacional, em que as
tendências de regionalização substituíram o impasse da divisão bipolar entre a
aliança democrática ocidental e o império soviético ao longo do velho Eixo
Leste-Oeste.
A dinâmica de regionalização no sistema internacional transformou tanto a
Europa, como a Ásia nos últimos vinte anos. As fronteiras da Europa Ocidental
alargaram-se até à Ucrânia e à Turquia e, aparentemente, marcaram aí os limites
da sua expansão, mas as fronteiras da Ásia ainda não se estabilizaram
definitivamente.
Numa primeira fase, a Ásia Oriental reconstituiu-se como um espaço estratégico,
político e económico centrado na China. A principal potência continental
asiática conseguiu ordenar e integrar o conjunto dos estados da Ásia marítima
que o Japão tinha tentado unificar cinquenta anos antes. A «Asianização» da
China reinventou a Ásia Oriental2 e a sua recentragem asiática reuniu à volta
do «Império do Meio», num único «complexo de segurança regional»3, tanto a Ásia
do Nordeste ' o Japão, as duas Coreias, Taiwan ', como a Ásia do Sudeste ' os
dez estados-membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e
Timor-Leste.
A ressurgência da Ásia Oriental resultou de uma conjunção de factores. Desde
logo, o retraimento assimétrico da Rússia e dos Estados Unidos criou as
condições externas indispensáveis para uma crescente autonomia regional, tanto
na Ásia, como na Europa Ocidental. Durante a Guerra Fria, a China era parte
integrante do triângulo estratégico que definia a competição entre os Estados
Unidos e a União Soviética e que condicionou a política asiática. A clivagem
bipolar definiu os alinhamentos das potências asiáticas, dividiu a Península
Coreana, separou a Formosa da China continental, fez prolongar a Guerra do
Vietname e autorizou a anexação de Timor-Leste. Depois da decomposição da União
Soviética, as clivagens regionais voltaram a poder ser determinantes na
dinâmica estratégica da Ásia Oriental.
Por outro lado, sem a ameaça soviética, a China passou a ter condições de
segurança sem precedentes e pôde transferir o seu centro de gravidade
estratégica do Norte para o Sul e do interior para a orla marítima. O «Império
do Meio» voltou a ocupar o seu lugar histórico no centro da Ásia Oriental e a
unir a Ásia do Nordeste e a Ásia do Sudeste. Nesse processo, consolidado pela
confirmação da continuidade das reformas económicas internas de Deng Xiaoping,
a China pôde realizar a grande transformação económica e social que está na
origem da sua ressurgência como grande potência internacional.
Por último, a China e o Japão, na última década do século xx, substituíram os
Estados Unidos como os principais parceiros comerciais de todos os países da
região e as trocas económicas intra-regionais passaram a ser superiores a 50
por cento do total. A integração económica regional confirmou a reconstituição
da Ásia Oriental e a crise financeira de 1998 consolidou a convergência
asiática. O conjunto dos países da região partilha o mesmo modelo de
desenvolvimento industrial, concentrado ao longo da faixa costeira entre a
Coreia e os estreitos de Malaca, e virado para a exportação, nomeadamente para
os mercados norte-americanos.
Na viragem do século, a Ásia voltou a existir como uma entidade autónoma na
política internacional e o seu mapa político estava a mudar. A ressurgência da
China e a dinâmica de integração económica regional tornaram possível a
unificação da Ásia Oriental num «complexo de segurança regional» com fronteiras
razoavelmente definidas e uma forte identidade histórica e cultural. A ascensão
da China restaurou a sua posição como o centro das interacções estratégicas e
securitárias do conjunto dos estados regionais e mesmo para lá das suas
fronteiras da Ásia Oriental, em direcção à Austrália e ao Pacífico Sul4.
Simultaneamente, a ressurgência da China travou a retirada estratégica norte-
americana. Com efeito, depois de um breve intervalo, os Estados Unidos
confirmaram as suas alianças formais com o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas
e a Tailândia, bem como os seus compromissos com Taiwan, e consolidaram as suas
relações com a Indonésia e com Singapura5.
Numa fase posterior, o reconhecimento da China como a segunda grande potência
internacional, a ressurgência paralela da Índia e a revisão sucessiva das
prioridades estratégicas dos Estados Unidos criaram as condições para a
emergência de uma «Grande Ásia», um «supercomplexo» de segurança regional6, o
maior e o mais heterogéneo de todos os espaços regionais. O reconhecimento
recíproco da China e da Índia, as duas principais potências continentais
asiáticas, como rivais e adversários estratégicos passou a ser o motor
principal da estruturação da «Grande Ásia»7.
A história desse processo ainda está por fazer. De certa maneira, as suas
origens podem encontrar-se tanto na excessiva fixação dos Estados Unidos no
«Grande Médio Oriente» e na «Guerra Global contra o Terrorismo», depois do «11
de Setembro», como na crise financeira de Setembro de 2008. A queda do Lehman
Brothers foi reconhecida, tanto pelos aliados, como pelos adversários dos
Estados Unidos e da Europa Ocidental, como um momento de viragem, em que a Ásia
passou a contar decisivamente na balança económica internacional. A convocação
da primeira cimeira de chefes de Estado e de governo do G20, decidida pelo
Presidente George W. Bush, em Novembro de 2008, foi um sinal inequívoco da nova
posição dos Estados Unidos, que se impôs naturalmente à União Europeia, cujos
responsáveis preferiam ter convocado o G78. Nos Estados Unidos, os partidários
de uma parceria estratégica sino-americana anunciaram a criação de um «G2»9,
mas, na China, prevaleceu a tese mais pessimista sobre a irreversibilidade do
declínio ocidental, por vezes com fortes conotações marxistas e maoístas, que
não deixam de evocar, sem a referir, a célebre fórmula de Mao Tsé-Tung sobre o
«Vento Leste» que voltou a dominante contra o «Vento Oeste». Na tradição
realista da análise estratégica chinesa, a decadência dos Estados Unidos e do
Ocidente é o corolário natural da ascensão da China e do Oriente10: as posições
respectivas inverteram-se e, quinhentos anos depois, a história voltou a estar
do lado dos velhos impérios históricos da Ásia11.
Os Estados Unidos quiseram reconhecer publicamente a mudança das suas
prioridades estratégicas na directiva de defesa publicada em Janeiro de 201212.
No documento do Departamento de Defesa norte-americano, a prioridade chinesa e
asiática foi assumida sem ambiguidades e, pela primeira vez, referiu-se a uma
«Grande Ásia» enquadrada pelos dois oceanos, o Índico e o Pacífico. No mesmo
sentido, desapareceu a interrogação sobre a identidade do challenger
continental à unipolaridade marítima13 e a ascensão da China passou a ser
claramente reconhecida como o problema principal: a relação entre os Estados
Unidos e a China tornou-se a mais importante relação bilateral na política
internacional14.
Para a China, a relação com os Estados Unidos sempre foi reconhecida como a
mais importante desde, pelo menos, o fim da Guerra Fria, e os analistas
chineses começam a antecipar uma nova bipolaridade internacional, cujos pólos
são a República Popular e os Estados Unidos15. O regime comunista não precisa
de exprimir as suas escolhas estratégicas em documentos oficiais públicos, mas,
nos últimos tempos, os estrategas chineses reconheceram a emergência de uma
«Grande Ásia», numa nova definição de quatro regiões do seu «estrangeiro
próximo»16: a Ásia do Norte (o Japão e as duas Coreias), a Ásia do Sudeste (os
dez membros da asean e Timor-Leste), a Ásia do Sul (a Índia e seis dos sete
outros membros da Associação para a Cooperação Regional da Ásia do Sul, saarc)
' o Paquistão, o Bangladesh, o Sri Lanka, o Nepal, as Maldivas e o Butão, e a
Ásia Central ' o Afeganistão e as cinco ex-repúblicas soviéticas da Ásia
Central, que integraram a Organização de Cooperação de Xangai (sco, na sigla em
inglês), ao lado da China e da Rússia.
A relação entre as duas prioridades chinesas ' os Estados Unidos e a política
regional asiática ' é evidente. A China só pode ser um challenger internacional
dos Estados Unidos se e quando conseguir consolidar a sua posição hegemónica na
Ásia e esse desígnio tradicional só é possível de realizar na medida em que
puder neutralizar a posição norte-americana como uma «potência asiática», com
uma capacidade real para definir a balança do poder regional através das suas
alianças. Nesse quadro, a China tem de ter pelo menos um aliado em cada uma das
quatro regiões ' a Coreia do Norte na Ásia do Nordeste, o Camboja na Ásia do
Sudeste, o Paquistão na Ásia do Sul ' e impedir a expansão do sistema norte-
americano de alianças.
A «Grande Ásia», se puder consolidar-se, passa a ser o maior de todos os
«complexos regionais» em dimensões cruciais: no número de grandes potências e
de estados nucleares ' três grandes potências, a China, a Índia e o Japão, e
quatro estados nucleares, a China, a Índia, o Paquistão e a Coreia do Norte; no
peso demográfico ' entre si, a China e a Índia somam 2,5 mil milhões de
habitantes, ou um terço da população mundial; na parte do produto mundial '
mais de 25 por cento do total; no tamanho dos exércitos ' entre os cinco
exércitos com mais de um milhão de soldados três são asiáticos, incluindo o
maior de todos, o chinês, e as Forças Armadas da Índia e do Vietname; nos
orçamentos militares, a Ásia ultrapassou a Europa nos gastos de defesa em
201217; ou no potencial de desenvolvimento ' a China e a Índia passaram a ser
responsáveis pela maior parte do crescimento do produto bruto mundial desde a
crise de Setembro de 200818.
Como é óbvio, essa acumulação de poder representa uma mudança nos equilíbrios
internacionais, desde logo na balança entre a Europa Ocidental e a Ásia e entre
a Ásia e a Rússia, com consequências significativas para as estratégias e para
os alinhamentos das principais potências asiáticas e europeias.
A reaproximação entre os Estados Unidos e a União Europeia, no quadro da
negociação de um pacto comercial transatlântico19, os projectos da Rússia e do
Japão para o desenvolvimento conjunto da Sibéria e do Extremo Oriente russo20,
a presença da NATO no Afeganistão, ou ainda a importância atribuída pelos
Estados Unidos ao gasoduto que liga o Turquemenistão, o Afeganistão, o
Paquistão e a Índia (TAPI), só podem ser bem entendidas como um resultado da
perturbação dos equilíbrios regionais e internacionais provocada pela ascensão
da China e pela emergência de uma «Grande Ásia».
ESTRUTURA, IDENTIDADE E EQUILÍBRIOS
A «Grande Ásia» tem uma estrutura interna de distribuição do poder regional com
fortes afinidades com a da Europa Ocidental. Em ambos os casos, existem três
grandes potências regionais relevantes e os Estados Unidos são uma «potência
asiática», tal como são uma «potência europeia». Por outras palavras, são ambas
sistemas tripolares imperfeitos, em que a principal potência internacional
mantém uma capacidade efectiva de «sobredeterminação» dos equilíbrios
regionais.
As três grandes potências asiáticas voltaram a ser a China, a Índia e o
Japão21. O ciclo de industrialização tornou possível uma vantagem significativa
do Japão depois da Restauração Meiji, que se prolongou até à sua derrota na II
Guerra Mundial, enquanto as atribulações da formação de um Estado moderno na
China e na Índia adiavam a sua ressurgência. Porém, ao fim de cento e cinquenta
anos, a expansão do modelo ocidental de industrialização recuperou a divisão
tripartida tradicional na Ásia.
Tal como na Europa Ocidental, na Ásia duas das três grandes potências são
potências clássicas e estados nucleares e, em ambos os casos, a terceira ' a
Alemanha, do lado europeu, o Japão, do lado asiático ' é uma «potência civil»22
e um Estado não-nuclear, cuja segurança estratégica depende da sua aliança com
os Estados Unidos. Tal como na Europa Ocidental, na Ásia uma das três grandes
potências parece ter tendência para se revelar como um primus inter pares e, em
ambos os casos, é a maior potência continental que está a surgir como a
principal potência regional: a Ásia parece dominada pelo «momento unipolar»
chinês, enquanto a Europa Ocidental parece surpreendida pelo «momento unipolar»
alemão. (Esse padrão repete-se com o Brasil na América do Sul e a África do Sul
na África Austral, para não referir a América do Norte ou o «Espaço pós-
soviético».)
Mas enquanto na Europa Ocidental o principal «pólo regional» ' a Alemanha ' é
uma «potência civil» e um Estado não-nuclear, na Ásia o «pólo regional»
dominante ' a China ' é uma potência clássica e um Estado nuclear.
Paralelamente, enquanto na Europa Ocidental o principal aliado regional dos
Estados Unidos ' a Alemanha ' é a maior potência continental, na Ásia o aliado
mais importante dos Estados Unidos ' o Japão ' é a principal potência marítima.
(Esse padrão é recorrente na estratégia norte-americana, pois quando a China
era o principal aliado asiático dos Estados Unidos, o seu principal aliado
europeu era a Grã-Bretanha23.)
No mesmo sentido, tal como na Europa Ocidental e na América do Norte, a Ásia
tende a integrar-se economicamente ' a dinâmica de integração da Ásia Oriental
está a alargar-se rapidamente à «Grande Ásia», nomeadamente com o aumento
significativo das trocas económicas entre a Índia e a China e entre a Índia e o
Japão e a Ásia do Sudeste e com a confirmação da posição da China como o
principal parceiro económico de praticamente todos os estados regionais. Mas,
ao contrário do exemplo europeu ou norte-americano, não há uma convergência
política democrática paralela à integração económica, nem uma capacidade
asiática para criar estruturas multilaterais regionais equivalentes à nafta, à
União Europeia ou à Aliança Atlântica24.
As afinidades estruturais entre a Ásia e a Europa Ocidental também não se
repetem no domínio político e cultural. A Europa Ocidental ou a América do
Norte são espaços tendencialmente homogéneos, enquanto a «Grande Ásia» parece
poder competir com o Médio Oriente como o mais heterogéneo dos «complexos de
segurança regionais».
Desde logo, a «Grande Ásia» é marcada pela presença de duas grandes
civilizações históricas, a chinesa e a indiana, ambas com uma autonomia
completa e identidades radicalmente distintas. Por outro lado, os padrões
históricos de inimizade nas relações entre a China e a Índia e entre a China e
o Japão, ou entre o Japão e a Coreia e a China e o Vietname, nunca foram
substituídos por uma lógica de integração multilateral regional inclusiva,
autónoma, ou tutelada por uma potência externa, como no caso europeu25. Por
último, a heterogeneidade é confirmada pela diversidade dos regimes políticos.
Ao contrário da Europa Ocidental ou da América do Norte, e mesmo da América do
Sul, a «Grande Ásia» continua dividida entre um número crescente de regimes de
democracia pluralista, incluindo a Índia e o Japão, e uma minoria de regimes
autoritários que, no entanto, incluem a China. A China, o Vietname e a Coreia
do Norte não deixaram de ser regimes comunistas no fim da Guerra Fria, mesmo se
em todos os casos são igualmente nacionalistas e comunistas e se, na China e no
Vietname, prevalece uma tendência para procurar uma «economia socialista de
mercado» ou, numa fórmula menos ideológica, para estabilizar uma fusão,
teoricamente impossível, entre o comunismo e o capitalismo.
Todos reconhecem a ausência de um ideal asiático, ou «pan-asiático»26, embora a
última crise tenha mostrado também a fragilidade do «ideal europeu» na frente
ocidental. Mas não existem sequer «valores asiáticos»27 comuns, políticos,
religiosos ou morais, enquanto, apesar de tudo, os valores cristãos e os
valores republicanos asseguram uma certa estabilidade à identidade europeia e
ocidental.
Os movimentos «pan-asiáticos» da primeira metade do século xx, fortes tanto na
Índia, como no Japão, não sobreviveram e o denominador comum mais forte na
política asiática passou a ser a força do nacionalismo (excepto, em parte, no
Japão). O nacionalismo militante representa mais um factor de divisão do que
uma contribuição para criar uma identidade regional coerente e define uma
identidade política asiática próxima da identidade europeia nas vésperas da I
Grande Guerra28.
TIPOS DE CONFLITO
Enquanto a Europa Ocidental viveu uma «longa paz» depois do fim da II Guerra
Mundial, a Guerra Fria na Ásia foi marcada por conflitos sucessivos, que não só
envolveram todas as principais potências regionais, excepto o Japão, mas também
os Estados Unidos e a União Soviética.
Em 1950, os Estados Unidos e a China estiveram em guerra na Coreia, em que a
parte mais fraca pôde contar com o apoio indispensável da União Soviética na
retaguarda da intervenção dos «Voluntários» do Exército Popular de Libertação.
A Guerra do Vietname prolongou-se desde a II Guerra Mundial até à sua
unificação, em 1975, e envolveu os Estados Unidos durante a última fase,
enquanto a China e a União Soviética se empenharam, com um entusiasmo desigual,
ao lado dos comunistas do Vietname, antes e depois da divisão da Indochina. Em
1962, a China e a Índia estiveram em guerra, sem que os Estados Unidos e a
União Soviética, imersos na «crise dos mísseis» de Cuba, tivessem definido com
clareza de que lado queriam estar nesse conflito asiático. Em 1969, a China e a
União Soviética estiveram em guerra no Ussuri e os dirigentes comunistas russos
admitiram iniciar um ataque nuclear preventivo para destruir as novas armas
estratégicas nucleares do seu antigo aliado comunista. Em 1979, a China e o
Vietname estiveram em guerra e a parte mais fraca pôde contar com o apoio da
União Soviética, enquanto os Estados Unidos se abstinham de se opor à ofensiva
militar iniciada pelo seu principal aliado asiático.
No período da Guerra Fria, a Índia e o Paquistão estiveram três vezes em
guerra, incluindo a intervenção militar decisiva da Índia no Paquistão Oriental
de que resultou a criação do Bangladesh. A partir dos anos 1960, a Índia pôde
contar com a União Soviética, enquanto o Paquistão, em geral, conseguiu reunir
o apoio dos Estados Unidos e da China. Em 1999, os Estados Unidos foram os
mediadores entre as duas partes na Guerra do Kargil, a primeira guerra local
entre duas potências nucleares29. O Vietname, com o apoio da União Soviética,
invadiu o Camboja para mudar o regime comunista dos Khmer Rouge, sustentado
pela China. Em 1963, a Indonésia e a Malásia estiveram em guerra e, em 1975, a
Indonésia anexou Timor-Leste, com o consentimento dos Estados Unidos. Desde
1979, com a invasão soviética, o Afeganistão tem estado quase ininterruptamente
em guerra.
O fim da Guerra Fria não trouxe a «paz kantiana» à Ásia. Mas a preponderância
unipolar norte-americana e um ciclo longo de desenvolvimento económico abriu um
«intervalo lockeano» na região. Nos últimos vinte anos, com excepção da Índia e
do Paquistão, não voltou a haver guerras entre as potências regionais
relevantes.
Todavia, persistem numerosos tipos de conflito que não só implicam um certo
nível de instabilidade regional, como podem vir a representar riscos sérios de
escalada nas relações entre as principais potências regionais. Na «Grande Ásia»
existem conflitos étnicos e religiosos, problemas de acesso a recursos
naturais, disputas territoriais, movimentos separatistas, redes terroristas e
proliferação de armamentos, num quadro de competição estratégica entre as
principais potências regionais.
O principal conflito de natureza étnica e religiosa continua a ser o Tibete,
onde as autoridades chinesas não desistiram de subjugar uma velha nação
histórica com uma identidade religiosa única. O separatismo Uighur no Sinkiang
permanece um problema sensível, na medida em que pode existir uma fusão entre
esses movimentos nacionalitários e as redes terroristas islâmicas na Ásia
Central, nomeadamente no Uzbequistão. O budismo continua a ser uma questão
importante na política interna no Myanmar, onde o regime militar tentou
suprimir o seu poder.
O regime comunista chinês parece vulnerável, quer a uma ameaça terrorista
islâmica que pode repetir em Pequim ou em Xangai o que a Al-Qaeda fez em Nova
York ou em Londres, quer à expansão de movimentos religiosos ou culturais, como
o budismo, que justificou o apoio constante da China ao regime militar no
Myanmar, ou o Falungong, que as autoridades quiseram identificar como uma forma
de penetração externa. O terrorismo islâmico permanece uma ameaça persistente
nas relações entre a Índia e o Paquistão e pode provocar a desintegração do
Paquistão e o regresso da guerra civil no Afeganistão. O regime militar
paquistanês mantém uma rede de organizações terroristas islâmicas que tem usado
repetidamente contra a Índia, mesmo depois do «11 de Setembro» ' primeiro no
atentado contra o Parlamento em Nova Deli, em três meses depois do ataque
contra Nova York, a seguir nos atentados de Bombaim. A crise de Dezembro de
2001 demonstrou como o perigo de escalada entre as duas potências nucleares na
sequência de um atentado terrorista é um risco real30.
O principal problema na competição por recursos naturais é, mais uma vez, o
Tibete, uma vez que os Himalaias são o maior reservatório de água da Ásia, de
onde partem os grandes rios que atravessam a China, a Ásia do Sudeste e a Ásia
do Sul31. Historicamente, a China constituiu-se como uma civilização hidráulica
e o regime comunista chinês não é só o maior construtor de barragens de todo o
mundo, como parece ter planos para mudar o curso dos rios que nascem nos
Himalaias, designadamente para restaurar o rio Amarelo (Huang He) e responder à
escassez de água na China do Norte. O perigo de uma escalada entre a China e a
Índia por causa do controlo da água continua a ser um risco real e os Estados
Unidos estão empenhados na Iniciativa do Baixo Mekong para fortalecer as
posições dos países da Ásia do Sudeste que querem subordinar o programa de
construção das barragens chinesas no Mekong a uma regulação multilateral32.
Na Ásia, as questões territoriais continuam a ser relevantes nas relações entre
as grandes potências. Desde logo, nunca existiu uma fronteira entre a Índia e a
China, separadas por uma linha de demarcação ' a Line of Actual Control (LOC) '
incluindo quatro mil quilómetros de fronteira nos Himalaias, em territórios
disputados pelos dois países33. A China ocupou uma parte do Caxemira em 1962 e,
entre outros, reclama como parte do seu território todo o estado indiano do
Arunachal Pradesh. Por outro lado, a China passou a reclamar, como parte dos
seus interesses nacionais permanentes («core interests»34), tanto o conjunto
das ilhas dos mares da China Meridional (Paracels e Spratleys), como as Senkaku
(Diaoyu), no mar do Japão35. Por último, há um conflito aberto e permanente
entre a Índia e o Paquistão sobre o Caxemira, integrado na União Indiana, mas
que o Paquistão reclama para si, e uma disputa entre o Japão e a Rússia sobre a
posse das ilhas Kurilhas.
Em todos esses casos, os confrontos, com envolvimento de meios militares
significativos, são recorrentes, e o perigo de escalada tem aumentado com o
rearmamento geral dos estados asiáticos. As demonstrações de força à volta das
Senkaku dominaram as relações bilaterais entre a China e o Japão nos últimos
meses. O Vietname e a Índia parecem dispostos a cooperar na segurança naval
para limitar a pressão chinesa nos mares da China Meridional. A última visita
oficial do primeiro-ministro da China à Índia foi precedida por mais uma
demonstração de força chinesa na fronteira dos Himalaias36.
A proliferação das armas nucleares é um problema grave. Os Estados Unidos e a
China não conseguiram impedir que a Índia e o Paquistão se declarassem como
potências nucleares, em 1998. No caso da Coreia do Norte37, a China não quer
perder o seu estatuto como a única potência nuclear da Ásia Oriental e teme que
o Japão possa tirar partido de uma ameaça nuclear norte-coreana para legitimar
a sua própria transformação num Estado nuclear. Num período curto, o Japão pode
passar a ter uma capacidade nuclear idêntica ou equivalente à da China e não é
evidente que a China pudesse aceitar passivamente essa mudança radical nos
equilíbrios regionais38.
Mas o principal problema, desde o fim da Guerra Fria, continua a ser a questão
de Taiwan39. A questão de Taiwan, que representa um perigo de guerra latente
entre as duas principais potências mundiais nos estreitos da Formosa, é ao
mesmo tempo um problema político e estratégico, mas é, sobretudo, uma questão
de prestígio para a China e também para os Estados Unidos. A China não pode
projectar-se como um challenger da «hegemonia liberal» norte-americana enquanto
continuar a ser um Estado dividido ' a «questão de Taiwan» é a «Alsácia-Lorena»
chinesa40 ' e os Estados Unidos não podem deixar cair um aliado, e muito menos
um aliado democrático, sem perderem a sua credibilidade internacional.
OS EQUILÍBRIOS REGIONAIS
Os perigos de escalada são reais e a possibilidade de uma guerra entre
potências relevantes na «Grande Ásia» existe e não pode ser negada41. Mas o
grau de probabilidade desses cenários varia e depende, tanto da capacidade dos
Estados Unidos para preservar os equilíbrios e a balança do poder regional,
como da evolução da China e da Índia, uma potência comunista e uma potência
democrática, que se podem revelar ou como «parceiros responsáveis» da ordem
multilateral, ou como perturbadores revisionistas, presos por uma lógica de
poder e de expansão42.
A balança do poder regional tem três dimensões principais. A primeira é o
equilíbrio bipolar entre os Estados Unidos e a China, a segunda é o triângulo
asiático formado pela China, a Índia e o Japão e a terceira o quadrilátero
formado pelos Estados Unidos, a Índia, o Japão e a Austrália.
Os Estados Unidos e a China são as duas principais potências asiáticas e estão
imersos numa competição permanente nesse espaço regional. Os Estados Unidos
querem manter o statu quo na Ásia ' um equilíbrio tripolar definido de fora
para dentro pelos próprios Estados Unidos. A China quer impor o seu
reconhecimento como a principal potência na «Grande Ásia», mas não pode ser a
potência preponderante nesse «complexo de segurança regional» enquanto os
Estados Unidos não desistirem de impor a sua fórmula na balança de poder
asiática. Essa rivalidade estratégica domina a lógica de segurança regional e
pode concentrar-se em questões diferentes43. Taiwan foi, frequentemente, o
centro principal da competição, mas, nos últimos meses, as ilhas dos mares da
China Meridional e as Senkaku têm estado na primeira linha da relação sino-
americana.
A China, a Índia e o Japão são as três principais potências asiáticas e a sua
interacção define o essencial dos equilíbrios regionais. A China quer impedir
uma aliança formal entre a Índia e o Japão, sobretudo se essa aliança for
tutelada pelos Estados Unidos44. (Quando decidiu a escalada nas Diaoyu, a China
enviou o seu ministro da Defesa à Índia como um sinal de boa-vontade nas
negociações fronteiriças: as potências continentais temem abrir duas frentes de
conflito em simultâneo). O Japão não pode depender sempre e só da aliança
norte-americana e, perante a ascensão da China, precisa de concluir uma aliança
sólida com a Índia45. A Índia, tal como a China, defende uma posição de
princípio contra as alianças que limitam a sua soberania nacional, e não quer
ter alianças formais com nenhuma potência46. Porém, a ascensão da China torna a
convergência estratégica com o Japão uma escolha racional, mesmo quando as
autoridades indianas evitam formalizar uma relação de aliança bilateral.
Em 2007, os Estados Unidos quiseram dar um passo em frente e esboçaram um
«Quad» asiático ' uma iniciativa de segurança naval entre os Estados Unidos, a
Índia, o Japão e a Austrália47 ', concentrado na segurança do «arco marítimo»
que une o Índico e o Pacífico. Esse «arco marítimo» assegura as linhas de
comunicação entre o golfo Pérsico e o mar do Japão, cruciais para a segurança
energética regional, incluindo a China, a Índia, o Japão e a Coreia do Sul.
Os Estados Unidos podem querer estimular as relações entre os seus aliados e
parceiros asiáticos, de modo a diminuir os custos crescentes da sua presença
estratégica e militar48. A Índia aceitou participar no «Quad» asiático para
contrabalançar a pressão chinesa no Índico, quando a aliança da China com o
Paquistão passou a ter uma extensão marítima com a construção do porto de
Gwadar, acompanhada, na altura, por uma forte presença chinesa na Birmânia e no
golfo de Bengala, que formavam um «colar de pérolas» à volta da Índia49. A
China, pela sua parte, pode contrabalançar o «cerco marítimo» montado pelo
«Quad» asiático fortalecendo a sua «parceria estratégica» com a Rússia,
incluindo a Ásia Central50.
Numa competição cada vez mais intensa pela modernização das suas respectivas
capacidades navais, a China e a Índia estão ambas a criar marinhas de guerra
modernas, incluindo quer porta-aviões, quer submarinos, não obstante a ausência
de tradições militares marítimas nos dois impérios continentais.
A estabilidade da fórmula complexa da balança do poder regional depende, no
essencial, de três condições. Em primeiro lugar, do empenho permanente dos
Estados Unidos em garantir os equilíbrios regionais dentro de uma estratégia de
integração do conjunto das potências asiáticas, incluindo a China e a Índia. Em
segundo lugar, da continuidade de uma estratégia pragmática da China, mais
concentrada no desenvolvimento gradual das suas capacidades internas, do que na
projecção assertiva do seu crescente poder no espaço regional. Em terceiro
lugar, da estabilidade política da Índia e da democracia indiana, assente numa
linha realista e moderada da sua política externa.
Nenhuma dessas condições está assegurada neste momento e a fragilidade dos
equilíbrios asiáticos não permite excluir a possibilidade de uma deriva para
uma escalada das tensões entre as principais potências regionais. Nesse quadro
de incerteza, o futuro da Ásia tanto pode ser o seu passado, como o passado da
Europa.
Data de recepção: 29 de Março de 2013 | Data de aprovação: 15 de Maio de 2013
NOTAS
1
A pedido do autor o texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
Gaspar, Carlos ' «A emergência da Ásia Oriental». In Política Internacional.
Vol. 1, N.º 10, 1995, pp. 135-176.
3
O conceito de «complexo de segurança regional» foi desenvolvido, nomeadamente,
por Barry Buzan e Ole Waever. Ver, inter alia, Buzan, Barry, e Weaver, Ole '
Regions and Power. The Structure of International Security. Cambridge:
Cambridge University Press, 2003.
4
Shambaugh, David (ed.) ' Power Shift. China and Asia's New Dynamics. Berkeley:
University of California Press, 2005; Buzan, Barry, e Foot,
Rosemary (eds.) ' Does China Matter? A Reassessment. Essays in Memory of Gerald
Segal. Londres: Routledge, 2004. Ver também Xuetong Yan '
«Decade of peace in East Asia». In East Asia International Quarterly. Vol.20,
N.º 4, 2004; Friedberg, Aaron ' «Ripe for rivalry: the
prospects for peace in a multipolar Asia». In International Security. Vol. 18,
N.º 3, 1993, pp. 5-33; Roy, Denny ' «Hegemon on the horizon?
China's threat to East Asian security». In International Security. Vol. 19, N.º
1, 1994, pp. 149-168; Ross, Robert ' «The geography of peace.
East Asia in the twenty-firstcentury». In International Security. Vol. 23, N.º
4, 1999, pp. 81-118. Ver, ainda, Medeiros, Evan ' China's
International Behavior. Santa Monica: Rand Corporation, 2009.
5
Friedberg, Aaron ' A Contest for Supremacy. China, America and the Struggle
for Mastery in Asia. Nova York: Norton, 2011; Lampton, David
' Same Bed, Different Dreams. Berkeley: University of California Press, 2001; johnston, Alaistair Iain, e Ross, Robert (eds.) ' Engaging
China.Londres: Routledge, 1999; Goldstein, Avery ' Rising to
the Challenge. China's Grand Strategy and Security Policy. Stanford: Stanford
University Press, 2005. Ver, também, Betts, Richard '
«Wealth, power, and instability. East Asia and the U.S. Atfer the Cold War». In
International Security. Vol.18, N.º 3, 1993, pp. 34-77; Ward,
Adam ' «China and America: trouble ahead?». In Survival. Vol.45, N.º 3, 2003,
pp. 35-56; Christensen, Thomas ' «Posing problems without
catching up: China's rise and the challenge to U.S. security policy». In
International Security. Vol.25, N.º 4, 2001, pp. 5-40;
Xuetong Yan ' «The rise of China and its power status». In Chinese Journal of
International Politics. Vol. 1, N.º 1, 2006, pp. 3-55. Ver,
ainda, Gaspar, Carlos ' «Conflitos, convergências e crises». In Nação e Defesa.
N.º 134, 2013, pp. 104-132.
6
Buzan, Barry ' «Asie: une réconfiguration géopolitique». In Politique
Etrangère. N.º 2, 2012, pp. 331-344.
7
CheLLaney, Brama ' «Assessing India's reaction to China's peaceful development
doctrine». In NBR Analysis.Vol.18, N.º 5, 2008, pp. 23-36;
Fravel, M. Taylor ' «China views India's rise: deepening cooperation, managing
differences». In TeLLis, Ashley, Tanner, Travis, e Keough, Jessica (eds.) '
Strategic Asia 2011-12. Asia Responds to Its Rising Powers. Seattle: nbr, 2012; TeLLis, Ashley, e Mirski, Sean (eds.) ' Crux of Asia. China,
India, and the Emerging Global Order. Washington: Carnegie Endowment of
International Peace, 2013.
8
O relato circunstanciado dessa decisão foi feito pelo secretário do Tesouro
norte-americano, Hank Paulson. PauLson,Hank ' On the Brink. Nova York:
Hachette, 2010.
9
Brzezinski, Zbigniew ' «The Group of Two that could change the world». In
Financial Times, 13 de Janeiro de 2009. Mais tarde, no mesmo sentido, Henry
Kisssinger opôs-se às estratégias norte-americanas de contenção da nova grande
potência continental a necessidade de formar com a China uma «Pacific
Community», tal como os Estados Unidos tinham criado a comunidade
transatlântica no fim da II Guerra Mundial. Kissinger, Henry ' On China. Nova
York: Penguin Press, 2011.
10
Xuetong Yan ' «The weakening of the unipolar configuration». In Leonard, Mark
(ed.) ' China 3.0. Londres: ecfr, 2013, pp. 128-133.
11
Bell, Coral ' The End of the Vasco da Gama Era. Double Bay: Lowy Institute for
International Policy, 2007.
12
Sustaining Global Leadership. Priorities for 21rst Century Defense.
Washington: Department of Defense, Janeiro de 2012, pp. 1-3.
13
No documento do Departamento de Defesa norte-americano sobre as Defense
Guidelines,elaborado sob a responsabilidade do subsecretário da Defesa Paul
Wolfowitz em 1992. Richard Cheney era o secretário da Defesa. ChoLLett, Derek,
e Goldgeier, James ' America Between the Wars. Nova York: Public Affairs, 2008.
14
A secretária de Estado norte-americana desenvolveu a sua política asiática num
artigo célebre sobre o pivot asiático. Clinton, Hillary' «America's pacific
century». In Foreign Policy. N.º 189, 2011, pp. 56-63.
15
Yan Xuetong foi o primeiro a defender publicamente a tese da segunda
bipolaridade. Xuetong Yan ' «The instability of China-U.S. relations». In
Chinese Journal of International Politics. Vol. 3, N.º 3, 2010, pp. 263-292.
16
Jin Canrong foi um dos primeiros a apresentar esse modelo regional, em que a
China passa a ter uma grande potência do seu lado oriental (o Japão) e outra do
seu lado ocidental (a Índia).
17
The Military Balance 2013. International Institute for Strategic Studies.
Londres: Routledge, 2013.
18
World Development Report 2013. Washington: World Bank, 2013.
19
Hillary Clinton defendeu um acordo comercial entre os Estados Unidos e a União
Europeia ' «an Economic nato» ' na Brookings Institution, em 29 de Novembro de
2012, e o Presidente Barack Obama confirmou essa orientação no seu segundo
discurso inaugural, em Janeiro de 2013, anunciando uma nova parceria
transatlântica. Ignatius, David ' «A free-trade agreement with Europe?». In
Washington Post, 6 de Dezembro de 2012; Slaughter, Anne Marie ' «The coming
Atlantic century». In Project Syndicate, 21 de Fevereiro de 2013; Solana,
Javier ' «The European-American deram». In Social Europe, 27 de Fevereiro de
2013.
20
Os investimentos japoneses no Extremo Oriente russo foram o tema central da
primeira visita do primeiro-ministro Shinzo Abe à Rússia. «Russia eyes Japanese
investment to kick start its sluggish Far East». In Asahi Shumbun, 29 de Abril
de 2013. Fushita, Hironori ' Russia's Eastward Pivot. AJISS Commentary 149,
2012.
21
CheLLaney, Brama ' Asian Juggernaut. The Rise of China, India, and Japan. Nova
Deli: Harper Collins, 2006.
22
MauLL, Hans ' «The new civilian powers: Germany and Japan». In Foreign
Affairs. Vol. 69, N.º 5, 1990, pp. 91-106.
23
Gaspar, Carlos ' «The United States and East Asia». In Tomé, Luís (ed.) ' East
Asia Today. Lisboa: ediual, 2008, pp. 285- -288.
24
Acharya, Amitav ' «Foundations of collective action in Asia. Theory and
practice of regional cooperation». In ADBI Working Paper. N.º 344, 2012; Acharya, Amitav ' «Why is there no nato in Asia? The
normative origins of Asian multilateralism» In WFCIA Working Paper. N.º 05-05,
Weatherhead Center for International Affairs, Harvard University, 2005. Acharya, Amitav, e Goh, Evelyn (eds.) ' Reassessing Security
Cooperation in the Ásia-Pacific: Competition, Congruence, and Transformation.
Cambridge: MIT Press, 2007.
25
Não obstante as virtudes do sistema tributário chinês. Yongjin Zhang, e Buzan,
Barry ' «The tributary system as international society in theory and practice».
In Chinese Journal of International Politics. N.º 5, 2012, pp. 3-36.
26
Mohan, C. Raja ' «Emerging geopolitical trends and security in the Association
of South East Asian Nations, the People's Republic of China and India (aci)
Region». In ADBI Working Paper. N.º 412, 2013.
27
No fim da Guerra Fria, um pequeno número de políticos e intelectuais
asiáticos, incluindo os primeiros-ministros de Singapura e da Malásia, tentaram
criar uma «narrativa» sobre os «valores asiáticos» para defender os regimes
autoritários locais e mobilizar as correntes anti-ocidentais e anti-americanas,
mas esses esforços eram demasiado inconsistentes e nunca puderam contar nem com
a bênção da China, cujos valores são próprios, nem com os intelectuais
asiáticos liberais. Sen Amartya ' «Human rights and Asian values». In The New
Republic, 14 de Julho de 1997.
28
As analogias entre a Ásia do princípio do século xxi e a Europa do fim do
século xix têm sido um tema recorrente no debate estratégico norte-americano e
chinês. A necessidade de as autoridades chinesas se demarcarem da ascensão da
Alemanha e, sobretudo, do Japão, durante o século xx justificou, em boa parte,
as teses de Zheng Bijian sobre a «ascensão pacífica» da China, adoptada, com
emendas, pela doutrina oficial chinesa. Ver, inter alia, Friedberg, Aaron '
«Will Europe's past be Asia's future?». In Survival.Vol. 42, N.º 3, 2010, pp.
147-159; SchweLLer, Randall ' «Managing the rise of new powers». In Ross,
Robert, e Johnston, Alastair Iain (eds.) ' Engaging China: The Management of an
Emerging Power, 1999, pp. 1-31. Os textos de Zheng Bijian
estão reunidos em Bijian, Zheng ' China's Peaceful Rise. Washington: Brookings
Institution, 2005.
29
TeLLis, Ashley, Fair, Christine, e Medby, Jamison ' Limited Conflicts Under
the Nuclear Umbrella. Indian and Pakistani Lessons from the Kargil Crisis.
Santa Monica: Rand Corporation, 2001.
30
A conselheira de Segurança Nacional do Presidente George W. Bush refere
extensamente a crise de Dezembro nas suas memórias. Rice, Condoleezza ' No
Higher Honour. Nova York: Simon&Schuster, 2011; Paul, T. V. (ed.) ' The
India-Pakistan Conflict. An Enduring Rivalry. Cambridge: Cambridge University
Press, 2005.
31
CheLLaney, Brama ' Water, Peace and War. Nova York: Rowman&Littlefield,
2013.
32
Bower, Ernest, e Parameswaran, Prashant ' US Moves to Strengthen asean by
Boosting Lower Mekong Initiative.Washington: csis, 2012.
33
Garver, John ' Protracted Contest. Sino-Indian Rivalry in the Twentieth
Century. Seattle: University of Washington Press, 2001;
Fravel, M. Taylor ' Strong Borders, Secure Nation. Princeton: Princeton
University Press, 2008.
34
Swaine, Michael ' «China's assertive behavior I: on Core Interests». In
China Leadership Monitor. N.º 34, 2011.
35
Swaine, Michael, e Fravel, M. Taylor ' «China's assertive behaviour II. The
maritime periphery». In China Leadership Monitor. N.º 35, 2011. Ver também Yahuda, Michael ' «China's recent relations with maritime
neighbours». In The International Spectator. Vol. 47, N.º 2, 2012, pp. 30-44.
36
CheLLaney, Brama ' «Chinese checkmate». In Hindustan Times, 15 de Maio de
2013; Mohan, C. Raja ' «Army of Wa». In Indian Express, 8 de
Maio de 2013.
37
Cha, Victor ' The Impossible State. North Korea, Past and Future. Nova York:
HarperCollins, 2012.
38
Green, Michael, e Furukawa, Katsuhisa ' «Japan new nuclear realism». In
Alagappa, Mutiah (ed.) ' The Long Shadow. Nuclear Weapons and Security in 21rst
Century Asia. Stanford: Stanford University Press, 2008, pp. 347-372.
39
Ross, Robert ' «Navigating the Taiwan strait». In International Security. Vol.
2, N.º 27, 2002, pp. 48-85; Christensen, Thomas ' «The
contemporary security dilemma. Deterring a Taiwan conflict». In International
Security. Vol. 27, N.º 4, 2002, pp. 7-21; Bush iii, Richard,
e O'HanLon, Michael ' A War like no Other. The Truth about China's Challenge to
America. Hoboken: John Wiley&Sons, 2007; Swaine, Michael (et al.) '
Assessing the Threat. The Chinese Military and Taiwan Security. Washington:
Carnegie Endowment for International Peace, 2007.
40
A fórmula chinesa foi reportada por Delpech, Thèrese ' L'ensauvagement du
monde. Le retour de la barbarie au XXIe siècle. Paris: Grasset, 2005.
41
Mearsheimer, John ' Why China's Rise Will Not Be Peaceful,2004; Mearsheimer, John ' «Gathering storm. China's challenge to us power
in Asia». In Chinese Journal of International Politics. N.º 3, 2010, pp. 381-
396; Bitzinger, Richard, e Desker, Barry ' «Why war is
unilekely in Asia: facing the challenge from China». In Survival. Vol. 50, N.º
6, 2008, pp. 105-108.
42
Buzan, Barry ' «China in international society: is peaceful rise possible?».
In Chinese Journal of International Politics. Vol. 3, N.º 1, pp. 5-56; Johnston, Alastair Iain ' «Is China a status quo power?». In
International Security. Vol. 27, N.º 4, 2003, pp. 5-56;
Gilboy, Georghe, e Heginbotham, Eric ' Chinese and Indian Strategic Behavior.
Cambridge: Cambridge University Press, 2012. Ver também os
capítulos de Wang Jisi e C. Raja Mohan sobre a ordem internacional em TeLLis,
Ashley, e Mirski, Sean (eds.) ' Crux of Asia.China, India, and the Emerging
Global Order, pp. 51-67.
43
Goldstein, Avery ' «First things first. The pressing danger of crisis
instability in US-China relations». In International Security. Vol. 37, N.º 4,
2013, pp. 48-89; Dobbins, James, Gompert, David, Shlapak,
David, e ScobeLL, Andrew ' Conflict with China. Santa Monica: Rand Corporation,
2011.
44
Buzan, Barry ' «Asie : une réconfiguration géopolitique». In Politique
Etrangère, 2012; SaaLman, Lora ' «Between China threat theory and Chindia:
Chinese responses to India's military modernization». In Chinese Journal of
International Politics. Vol. 4, N.º 1, 2011, pp. 87-114;
Godement, François ' China and India: Rivals Always, Partners Sometimes. Paris:
Asia Center, ecfr, 2009; Scott, David ' «Sino-Indian Security
Predicaments for the Twenty First Century. In Asian Security. Vol. 4, N.º 3,
2008, pp. 244-270.
45
Green, Michael ' «Japan, India and the strategic triangle with China». In
TeLLis, Ashley, Tanner, Travis, e Keough, Jessica (eds.) ' Strategic Asia 2011-
12: Asia Responds to Its Rising Powers ' China and India;
Green, Michael ' Japan's Reluctant Realism. Nova York: Council on Foreign
Relations, 2003; Pyle, Kenneth ' Japan Rising. Nova York:
PublicAffairs, 2007; Calder, Kent ' Pacific Alliance. New
Haven: Yale University Press, 2009.
46
Ganguly, Sumit ' «India's alliances in 2020». In Chambers, Michael (ed.) '
South Asia in 2020. Carlisle: Strategic Studies Institute, 2002. Ver também Pant, Harsh ' «India comes to terms with a rising China».
In TeLLis, Ashley, Tanner, Travis, e Keough, Jessica (eds.) ' Strategic Asia
2011-12: Asia Responds to Its Rising Powers - China and India. Ver ainda SaaLman, Lora ' «Divergence, similarity, and assimetry in
Sino-Indian threat perceptions». In Journal of International Affairs. Vol. 64,
N.º 2, 2011.
47
O «Quad» asiático terminou no ano seguinte, depois da eleição do Governo
trabalhista na Austrália. Posteriormente, a Austrália estabeleceu acordos de
segurança bilaterais com o Japão e a Índia, e os estados reforçaram a sua
presença militar na Austrália. CheLLaney, Brama ' «The Quad: Australia-India-
Japan-US strategic cooperation». In Asian Age, 3 de Julho de 2007; Sharma,
Ashok ' «The quadrilateral initiative: an evaluation». In South Asian Survey.
Vol. 17, N.º 2, 2010, pp. 237-253.
48
TeLLis, Ashley ' «The United States and Asia's rising giants». In TeLLis,
Ashley, Tanner, Travis, e Keough, Jessica (eds.) ' Strategic Asia 2011-12: Asia
Responds to Its Rising Powers ' China and India; O'HanLon, Micahel ' «America's
pacific power and pacific alliances in an age of austerity». In International
Journal of Korean Studies. Vol. 16, N.º 2, 2012, pp. 51.80.
49
Mohan, C. Raja ' «India's quest for continuity in the face of change». In
Washington Quarterly. Vol. 31, N.º 4, 2008, pp. 143-153;
Mohan, C. Raja ' Crossing the Rubicon: The Shaping of India's New Foreign
Policy. Londres: Penguin, 2004; Ganguly, Sumit, Shoup, Brian,
e ScobeLL, Andrew (eds.) ' US-Indian Strategic Cooperation into the 21rst
Century. Londres: Routledge, 2006. Ver também Ganguly, Sumit
(ed.) ' India's Foreign Policy: Retrospect and Prospect. Londres: Routledge,
2011.
50
Yan Xuetong defende uma aliança formal entre a China e a Rússia. Xuetong Yan '
«Why China diplomacy also needs the concept of reform». In China Pai, 19 de
Maio de 2012.