Relações internacionais como disciplina
Como entender as relações internacionais (RI)1 como uma área de estudo
independente? Será que é possível tal concessão? Estas inquietações guiaram
gerações de investigadores de relações internacionais em diversos países ' um
esforço liderado por países como os estados unidos2, Grã-Bretanha3, França4,
Alemanha5 ou os países nórdicos6. Este esforço tem vindo a ser expandido
noutros espaços com um interesse emergente na disciplina por questões de
cultura e particularidades nacionais7. Para responder a esta inquietação torna-
se importante começar por perceber o que ou como se constitui um ramo de saber
enquanto disciplina. Num artigo de 1948, Fredrick Dunn lucidamente traduz e
sintetiza o que implica começar por responder a esta dúvida. Seguindo uma
lógica que alguns caracterizariam por fundacionalista mas que serve para
elucidar o problema em questão, Dunn argumenta que «um investigador de relações
internacionais é aquele que pretende ter alguma capacidade em lidar com as
questões que surgem nas relações entre nações. [ ] Quando [o investigador] se
preocupa com assuntos relacionados, como a antropologia, a Demografia e a
Sociologia, é na medida em que estes assuntos lancem luz sobre as questões
internacionais»8.
Por outro lado, continua Dunn, torna-se importante ter técnicas e métodos
específicos que elucidam e dão consistência à desejada independência
disciplinar. Dunn desenvolve esta questão: «as técnicas e métodos de análise
incluem os dispositivos lógicos para chegar a hipóteses e para as testar e
verificar ou para as rejeitar.»9 Em suma, investigadores de RI têm-se esforçado
para alcançar um grau de independência e coerência disciplinar e a disciplina
em si mesma emergenos mais diferentes países desse esforço de criação de
independência. No centro desta empresa estão três processos: a necessidade de
perceber o estado e as relações internacionais; a necessidade de identificar um
objeto de estudo particular ' que diferencia as RI de outras disciplinas e que
implica realçar que investigar relações internacionais não pressupõe estudar
história, demografia, antropologia, direito internacional ou sociologia em si
mesmas, mas apenas na medida em que o estudo destas áreas esteja implicado num
qualquer assunto identificado como objeto de estudo de relações
internacionais10 ' e, terceiro, independência significa criar um conjuntos de
«técnicas» e métodos de análise para abordar este objeto de estudo particular.
Este artigo vai refletir sobre estas questões. O seu objetivo principal é
fornecer uma visão geral introdutória de como a disciplina, refletindo sobre o
papel do estado, conseguiu criar um objeto de estudo específico e um conjunto
de ferramentas, técnicas e métodos de análise que lhe permitiram ganhar um
espaço independente. O artigo vai ser dividido, deste modo, em quatro partes
onde as temáticas porquê, o quêe comoestudar relações internacionais vão ser
debatidas.
Para consolidar esta iniciativa, teoricamente o artigo vai centrar-se numa
perspetiva que pretende realçar o modo como devemos perceber as relações
internacionais nas disputas conceptuais geradas na e pela disciplina11. O que
resulta desta premissa é uma visão de que mais do que existirem como factos
consumados, as teorias são socialmente construídas. Neste processo há que
realçar o papel importante que deriva do confronto de ideias e da geração de
conhecimento num trabalho desenvolvido por académicos. É nessa criação de
ideias que está a base de entendimento. Mas essa criação de ideias não deve,
por outro lado, ser entendida hegemonicamente. O debate é entendido deste modo
como aberto e fluido, sujeito a contingências. Finalmente, esta perspetiva
elucida acerca da correspondência entre questões de facto e de valor. Grande
parte da trajetória histórica da disciplina tem sido dominada pela suposição de
que é possível separar teoria do mundo da prática12. O que vai ser defendido
aqui é que esta separação não pode ser feita. A sugestão é que ao invés de ver
a teoria como um reflexo do mundo devemos compreendê-la como estando
profundamente implicada na sua construção. Em suma, a criação de conhecimento
está profundamente implicada na construção do sujeito político e objeto de
política13.
PORQUÊ ESTUDAR RELAÇÕES INTERNACIONAIS? O PROBLEMA DO ESTADO
Se estudar relações internacionais deve ser considerado diferente de estudar
outras disciplinas, o que caracteriza o estudo particular das relações
internacionais? Por outras palavras, com o que é que académicos (ou não) de
relações internacionais estão preocupados? Num ensaio que abriu um importante
volume de reflexões sobre a problemática internacional no reino unido ' e que
em grande medida consolidou o trabalho de gerações passadas e abriu caminho a
um futuro mais consistente ' Martin Wight questiona-se «Porque não existe
teoria internacional?»14. Nesse texto, Wight alude àquilo que lhe parece ser um
problema que está na raiz dessa inexistência: a centralidade das relações
internacionais na problemática do estado, por um lado, e no desejo da
disciplina de viver obcecada com o progresso. A questão do porquê estudarmos
relações internacionais está intrinsecamente relacionada deste modo com a
questão do estado e a sua importância. A este nível parece importante discutir
o assunto sobre três aspetos: analiticamente, historicamente e
transcendentalmente.
Um dos elementos fundadores das relações internacionais modernas foi o processo
que levou à consolidação do estado soberano. A questão da soberania está na
base deste desenvolvimento ao reclamar e solidificar a ideia de que os estados
são independentes uns dos outros15. Este fenómeno conduziu a um esforço de
criar responsabilidades no próprio estado em relação ao resto da sua população
e à obrigatoriedade de pensar o lugar desta entidade num novo quadro de
relacionamento internacional.
O mais elementar problema do estado passou a ser, então, o da sua própria
sobrevivência16. O poder militar é geralmente considerado uma necessidade para
que os estados possam coexistir e lidar uns com os outros de modo a não serem
intimidados ou subjugados. Estados desarmados são extremamente raros na
história do sistema estatal. A maioria dos estados rege-se, deste modo, por um
conjunto de padrões de comportamento que os levam a entrar em alianças com
outros estados para aumentar a sua segurança nacional. Para garantir que nenhum
grande poder consiga alcançar uma posição hegemónica de dominação global,
baseado na intimidação, coerção, ou no uso imediato da força, também é
necessário manter um equilíbrio de poder militar. A segurança do estado é,
então, um aspeto importante nas relações internacionais. Mas o facto de estados
conduzirem as suas relações na base de pensamento securitário não quer dizer
que eles estejam isolados uns dos outros. Pelo contrário, os estados têm
permanentemente de encontrar maneiras de coexistir e de lidar com outros
estados. Isolamento completo não é geralmente uma opção.
Um segundo aspeto importante para o funcionamento do estado em relações
internacionais é a expectativa de que esta entidade se reja de forma a defender
a liberdade, tanto a liberdade pessoal como a liberdade nacional ou a
independência. Este tipo de aproximação que salienta o modo como o estado é
levado a interagir com o que o rodeia, de forma pacífica e progressiva, é uma
abordagem realçada pelo pensamento liberal em RI17. Este pensamento opera sobre
o pressuposto de que as relações internacionais podem ser melhor caracterizadas
como um mundo em que os estados cooperem entre si para manter a paz, a
liberdade e o progresso. Um outro aspeto importante nas relações entre estados
e que caracteriza esta entidade é a sua necessidade de manter a ordem
internacional. Esta ideia foi mais convictamente avançada pela escola
inglesa18. Em nome da estabilidade, certeza e previsibilidade, os estados devem
respeitar o direito internacional de forma a manter os seus compromissos,
observar regras, convenções e costumes da ordem jurídica internacional. Por
outro lado, do comportamento do estado é igualmente esperado que acompanhe as
práticas de diplomacia e de apoio a organizações internacionais. Direito
internacional, relações diplomáticas e organizações internacionais só podem
existir e operar com sucesso se essas expectativas forem geralmente cumpridas
pela maioria dos estados em grande parte do tempo.
Finalmente, o Estado vive rodeado por uma comunidade económica e deve, assim,
defender a riqueza socioeconómica da sua população e o seu bem-estar. Com a
emergência de uma maior sensibilização para estes problemas, teorias de
política económica internacional pretendem investigar o impacto que o sistema
de relações económicas pode ter no interior do estado19. Proeminente nestes
debates é o facto de se discutir até que ponto teorias de modernização
económica, ao longo do tempo e segundo diferentes padrões morais de
entendimento, podem beneficiar ou não estados particulares.
Mas se as funções do estado nas relações internacionais podem ser vistas à luz
de um conjunto de visões distintas, um segundo debate importante a ter é sobre
o modo como o sistema de estados evolui historicamente20. O sistema estatal é
uma instituição histórica. A população do mundo nem sempre viveu em estados
soberanos. Ao longo da história humana o modo de organização política que
prevaleceu não foi o da autoridade soberana. Durante a idade Média, a
autoridade política era caótica e dispersa. A maioria das pessoas estava
dependente de um diferente número de autoridades ' algumas delas políticas,
outras religiosas. No estado moderno, a autoridade passou, no entanto, a ser
centralizada num governo legalmente supremo, e as pessoas vivem sob uma
determinada lei padrão que regula as suas atividades nas mais diferentes áreas.
A consolidação do estado moderno demorou tempo mas progressivamente foram dados
passos para organizar a autoridade política e o poder sob a hegemonia de
orientações racionais e nacionais. Este sistema, por outro lado, demorou
igualmente tempo a expandir-se. Inicialmente europeu, durante a era do
imperialismo ocidental foi expandido para o resto do mundo. Dominado por
europeus, tanto política como economicamente, o sistema de estados modernos
alargou-se sobre um conjunto de padrões morais que ficaram conhecidos como o
standardcivilizacional21. No entanto, foi somente com a descolonização da ásia
e da áfrica, após a ii Guerra Mundial, que o sistema estatal se tornou uma
instituição global. Esta última expansão e globalização do sistema estatal
aumentou a variedade dos estados-membros e, consequentemente, a sua
diversidade. Mas o que é de realçar é que, contemporaneamente e alicerçado numa
teoria que privilegia o aspeto de permanência territorial e da não mutação de
fronteiras, muito dificilmente este mapa que parece ter sido fechado com a era
da descolonização se alterará. Salvo justificadas exceções, o princípio uti
possidetis jurisprevalece e restringe fronteiras.
Há, finalmente, um terceiro aspeto que deve ser realçado nesta procura mais
geral para responder à pergunta: porque devemos estudar relações
internacionais? De facto, se a existência de estados deve ser vista como algo
com que nos devermos preocupar do ponto de vista analítico e, por outro lado,
se nos devemos dedicar à compreensão da sua evolução ao longo do tempo, não
deixa de sobrar uma questão final: o que se pode sugerir quanto à sua
transcendência? Como entidades soberanas, os estados possuem autoridade final
sobre territórios delimitados e seus habitantes. Esta ideia aponta para a
capacidade que esta entidade tem de gerir os seus assuntos internamente e a
responsabilidade de outros estados de respeitarem o princípio da não
interferência. Deste modo, dada a sua hierarquia interna, é novamente razoável
tratar estados como atores unitários a interagir com outros estados
hierárquicos. Um pressuposto fundamental da soberania vestefália é que a
autoridade é indivisível e culmina num único vértice22. Cada estado poderá
diferir sobre como agrega os interesses dos seus cidadãos: uns haverá mais
autocráticos outros mais democráticos. Mas, independentemente do tipo de regime
que existe, os cidadãos são obrigados pelas políticas adotadas por uma
hierarquia que disciplina internamente. Ora toda esta conceção pode ser
colocada em causa quando os estados perdem o controlo sobre agentes privados
(não estatais), que se podem organizar e mover através das fronteiras nacionais
(sejam eles corporações multinacionais, redes transnacionais ou meros
movimentos globais de pessoas e processos de migração dos mais variados tipos).
Na medida em que esses atores transnacionais passam a ser importantes na
política mundial, a teoria estatocêntrica passa a ser gravemente questionada.
Durante a década de 1970, muito do assalto ao realismo passou a ser conduzido
nestes termos. O estudo destas transformações transnacionais passa a ser
relevante23. Apesar de alguns atores transnacionais, como a igreja Católica,
estarem presentes desde o nascimento do sistema de estados modernos, o aumento
de empresas multinacionais24 e o aumento paralelo de outras redes
transnacionais levou muitos a questionarem-se sobre a centralidade da
autoridade soberana. Em resposta a esta agenda, alguns teóricos simplesmente
reafirmaram a expectativa de que o estado mantém o seu poder explicativo em
nada perdendo no que respeita à sua autonomia25. Outros houve que, apesar de
reconheceram transformações, argumentaram que os estados permanecem soberanos e
que portanto ao invés de ser desafiado por atores não estatais, é através do
estado que estes atores existem. Deste modo, e em última análise, a política
controla estes movimentos26. Com o desenrolar do debate, estas duas posturas
radicais parecem ter sido suavizadas. Hoje torna-se claro que, por um lado, a
disputa deve ser contextualizada ' em determinadas sociedades, como as
liberais, o estado está empiricamente mais vulnerável27 ' e, por outro, existe
uma qualificação da alegação de que os estados conseguem reafirmar o controlo
sobre os agentes privados: a soberania interna passa em contextos mais
específicos a ter de ser negociada entre o estado e a sociedade28.
O QUE ESTUDAR? ESTADOS, INTERAÇÕES, OBJETOS
Oferecer uma perceção coerente do objeto de estudo das RI envolve responder a
um conjunto preliminar de questões que estão diretamente relacionadas com este
tema. Os limites da disciplina são, portanto, influenciados numa primeira
instância por pressupostos relativos aos atores que ocupam a política global e,
por outro lado, por perceções sobre a natureza de interações entre eles.
Partindo destes dois pressupostos chegaremos então à nossa desejada assunção do
que se constitui como objeto de estudo específico com o qual estamos
preocupados. Em si mesmas, estas três questões oferecem razões que justificam a
ênfase colocada sobre o tipo de ator que consideramos mais importante nas
relações internacionais e as suposições que fazemos sobre a natureza das
interações que ocorrem neste nível. O modo como percebemos atores e interações
terá um impacto sobre os tipos de questões de pesquisa que pretendemos
investigar e, logo, sobre o objeto de estudo. Por outras palavras, na sequência
da distinção facto-valor estabelecida, o modo como vemos a disciplina ' quem
são os atores e a natureza de suas interações ' vai refletir-se numa posição de
valor que determina o objeto da disciplina em si. Finalmente, esta parte do
artigo não pretende desenvolver uma análise exaustiva daquilo que preocupa a
disciplina de RI como um todo. Tais estudos, mais exaustivos, realçam
diferentes dinâmicas entre atores, segurança, economia e identidade29. O que se
pretende nesta parte é apenas identificar como o objeto de estudo das RI pode
ser identificado e, deste modo, responder à primeira parte da nossa pergunta
mais geral.
Poderíamos começar por afirmar que o estudo das relações internacionais se pode
reduzir a relações entre estados, entre nações ou povos, entre as culturas, ou
entre instituições internacionais como a União Europeia (UE) ou as Nações
Unidas. Podemos desejar incluir igualmente empresas e organizações humanitárias
nesta lista como outros elementos que estão envolvidos em interações globais.
Mas mesmo por mais vasta que possa ser essa lista, o que vemos como os atores
ou unidades de investigação enforma muito e distingue as diferentes perspetivas
que dominam a disciplina.
Uma conceção realista realçaria, deste modo, a necessidade de limitar as nossas
investigações a relações entre estados30. Uma tal perspetiva nega (ou resume a
muito pouca) a influência de atores não estatais, como a amnistia
internacional, e de instituições supranacionais, como a UE. Podemos concluir,
por outro lado, como muitos na disciplina têm feito, que a amnistia
internacional pode muito bem-estar envolvida em questões relativas a direitos
humanos, ou que a Comissão europeia pode muito bem pronunciar-se sobre questões
relativas a orçamentos da UE, mas o que importa em última análise, para os
realistas, é a assunção de que as decisões e deliberações são, em última
análise, tomadas por estados soberanos e são estes, por outro lado, os atores
com maior influência, com a maior capacidade de fazer a diferença31. Esta
tradição teórica realça que uma das competências da disciplina deve ser o
estudo das relações externas do estado, e o estado em si mesmo, numa conceção
contestada por alguns32, é visto como uma unidade estanque interagindo com
outras entidades sendo todas elas delimitadas territorialmente, definidas como
«soberanas» e independentes de qualquer autoridade externa. Finalmente, como
corolário desta linha teórica de reflexão, para os realistas a disciplina deve
centrar-se na perceção (e prevenção) da conflitualidade. O estudo da guerra
emerge assim como o principal objeto de estudo de uma disciplina centrada em
estados e em poder soberano33.
Mas se reconhecemos que a nossa experiência internacional é influenciada por
empresas globais ou instituições internacionais, ou se estamos envolvidos como
ativistas de grupos como a amnistia internacional ou uma qualquer outra
organização não-governamental, poderemos verificar que existem mais atores com
influência nas relações internacionais e outras formas de interação diferentes
das que parecem ser descritas por visões anteriormente realçadas34. Liberais
tendem a minar ou desfragmentar o poder do estado e pretendem igualmente
salientar a importância de grupos de pressão e movimentos sociais. A crítica,
no entanto, não se restringe apenas à desfragmentação do ator principal mas
igualmente à visão das interações entre diferentes atores. Neste sentido, a
maior parte do pensamento liberal promove uma perspetiva que nega a importância
das fronteiras do estado, ou filiações e lealdades prescritas pelo estado e de
quadros jurídicos internacionais35. Originalmente, David Mitrany abriu o
caminho para uma agenda de pesquisa ampla que tentou perceber o fenómeno único
da «integração». O fenómeno que se vivia na europa com a formação da Comunidade
europeia do Carvão e do aço e, mais tarde, com a constituição da Comunidade
económica europeia, deu o ímpeto para numerosos estudos que tentaram localizar
as fontes desta nova maneira de interação ao descrever como formas de interagir
em termos económicos poderiam levar a um processo total de integração
política36. Ao perceber estas dimensões de interação, este trabalho liderou
igualmente um processo de reconfiguração do objeto de estudo da disciplina:
solidificou o lugar da dimensão cooperativa da política internacional.
Comércio, institucionalização e «cultura», todas essas questões contribuíram
para a afirmação de que as ri podem ser, portanto, mais do que o estudo da
guerra e dos conflitos: fenómenos de cooperação internacional são possíveis de
investigar37. Para os liberais estudar relações internacionais pressupõe
igualmente perceber fenómenos de cooperação, benefício mútuo e oportunidade de
bem-estar económico.
Mas a resposta à pergunta «o que estudar?» não se ficou apenas por um debate
entre uma visão realista e liberal. Para a teoria da dependência ' centrada
numa tradição marxista ' a resposta foi encontrada com a necessidade de
investigar as fontes de subdesenvolvimento e as condições que o perpetuam.
Adotando uma perspetiva estatocêntrica, ambas as variáveis foram desenvolvidas
devido à necessidade de perceber o sistema capitalista global e as suas
dinâmicas38. Para esta teoria, o desenvolvimento das sociedades ocidentais
deveu-se à exploração do Sul subdesenvolvido e às estruturas económicas
construídas durante as eras de colonialismo e imperialismo. As interações neste
sistema privilegiam uma visão centrada em estruturas de dominação e exploração,
apoiadas por ajuda externa, assistência militar, publicidade e imperialismo
cultural. Deste modo, acompanhando o pensamento liberal, o estado não é uma
entidade estanque que controla tudo o que se passa à sua volta. Pode
internacionalizar as suas funções fundamentais e perder competências39. Mas
esta tradição teórica pretendeu ir para além da perceção de meras orgânicas de
cooperação. Desenvolveu um claro exercício de diagnóstico motivado por
preocupações normativas de equidade e justiça. Esse diagnóstico levou a sério
prescrições que desafiaram a perceções liberais sobre os benefícios recíprocos
do comércio, da interdependência e das relações transnacionais. Deste modo, a
prescrição pretendeu mover o objeto de estudo da disciplina, para além da
cooperação para se focar na centralidade de questões de justiça40.
O debate em RI, desde a sua criação após a Grande Guerra, foi deste modo
estruturado por afirmações relativas ao tema central sobre quem se constitui
como ator em parceria com questões relacionadas com o que constitui a política,
se podemos legitimamente supor uma separação do doméstico e do internacional e
de realmente confiar em conceitos como poder e soberania para delimitar as
fronteiras de um estado. O debate é muitas vezes enquadrado por dualismos que
se opõem, do domínio público ao privado, do doméstico ao internacional. Estes
debates, por seu turno, irão enformar preocupações empíricas na disciplina. O
campo das relações internacionais parece, portanto, ser caracterizado por três
conjuntos distintos de perspetivas: conflito, segurança e guerra; cooperação e
condições para a paz; equidade, justiça e fontes de desigualdade internacional.
Elaborando esta última ideia, segundo a primeira visão o sistema interestatal é
uma «comunidade de insegurança» em que a possibilidade de guerra está sempre
presente. Se esta premissa não se aplica universalmente tal é devido à
existência de um núcleo de práticas que produzem um mínimo de ordem
internacional: o direito internacional, o equilíbrio de poder, o medo da guerra
em si, o exercício da liderança responsável por potências hegemónicas. No
geral, no entanto, o resultado é um sistema internacional que opera de acordo
com uma hierarquia de poder e em que há uma tensão permanente entre as
preocupações e atividades de cada estado e as exigências securitárias do
sistema como um todo41 .
Pensar as relações internacionais por um outro prisma, levar-nos-ia a pensar o
«sistema» de maneira diferente: este é composto por um conjunto de «atores
mistos» caracterizados por um conjunto de coligações e contrapesos. Este
fenómeno conduz à ausência de uma hierarquia clara ou global unificada. A
condição resultante desta interdependência ' entre atores e estados ' aumenta a
vulnerabilidade mútua destas novas forças. A resposta a este cenário é a
necessidade que se ergue nas relações internacionais por apoiar mecanismos de
gestão e cooperação internacional e a construção de sistemas de comportamento
baseados em regras e normas. Deste modo, enquanto na primeira visão a
hierarquia e os imperativos de segurança nacional formam uma restrição
perpétua, nesta segunda ótica esses imperativos são substituídos por um
conjunto de crenças baseadas em práticas administrativas42. Finalmente, uma
última perspetiva realça a forma como os padrões sistémicos e estruturais de
domínio e dependência no sistema internacional definem o modo como as relações
internacionais funcionam. Dos processos pelos quais a estrutura é sustentada
resulta um desequilíbrio fundamental entre os elementos do sistema em que é
possível discernir a continuidade do domínio do centro em detrimento da
periferia. Um processo deste tipo, em casos específicos, é sustentado por uma
série de mecanismos: exploração, capacidade de penetração e fragmentação. Nesta
visão os ricos ficam mais ricos e os pobres, em termos relativos, só podem
ficar mais pobres quando as estruturas de dominação e dependência são
consolidadas. Modelos de cooperação, ao contrário de uma visão mais benigna,
neste caso só servem para consolidar dependência. Em última análise, a
contradição e conflitos de interesse produzida pela estrutura dominante só pode
ser resolvida pelo seu colapso e sua substituição por um sistema global mais
justo. Isto dá origem a ideias e práticas de resistência sob a forma de
movimentos transnacionais e cosmopolitismo internacional43.
Estas disputas sobre qual o objeto de estudo da disciplina devem, por sua vez,
ser justapostas a questões filosóficas que colocam estas visões sob escrutínio.
Questões que, para o propósito deste artigo, realçam uma segunda dimensão
fundamental necessária para a criação de uma disciplina: técnicas de
investigação que solidifiquem conceções distintas do que é um objeto de estudo.
A procura de criação destas técnicas distintas foi conquistada ' e reinventada
' com o tempo. No resto deste artigo estas disputas vão ser destacadas com uma
leitura da trajetória da história da disciplina e dos seus «grandes debates».
DEBATES DISCIPLINARES
Se na parte anterior o artigo pretendeu refletir sobre o modo como podemos
pensar o objeto de estudo da disciplina localizando esse objeto numa lógica que
visou igualmente debater o papel do estado e as suas interações, na presente
vamos um pouco além dessa narrativa e analisaremos o modo como debates
particulares caracterizaram momentos específicos da disciplina. Qualquer teoria
de relações internacionais sempre se preocupou com as bases filosóficas nas
quais pode alicerçar um conjunto de visões sobre o mundo; sobre questões
relativas à regulamentação das relações interestaduais ou com problemas
relativos à manutenção da ordem no sistema internacional44. O objetivo desta
parte é ilustrar como estas ferramentas podem mudar ao longo do tempo e como a
disciplina é entendida enquanto tal quando diferentes quadros teóricos são
elaborados e vêm a dominar uma qualquer fase da sua evolução. São estas
estruturas que fornecem os termos de referência para a disciplina e são essas
que funcionam como guardiões para o que é considerado como o seu objeto
legítimo45. O esforço desta parte vai ser o de traçar a transição até à
contemporaneidade e como este debate colocou como nunca questões
epistemológicas e filosóficas no centro da discussão. Teoricamente, mais do que
nunca, nesta parte tentaremos ser claros quanto ao modo como a criação de
conhecimento está profundamente implicada na construção do sujeito político e
objeto de política.
DO PRIMEIRO DEBATE À INCOMENSURABILIDADE INTERPARADIGMÁTICA
Nos primeiros anos, de 1919 a 1930, a disciplina foi dominada pelo que é
convencionalmente conhecido como internacionalismo liberal. Esta abordagem
pretendeu responder aos dilemas que derivaram da eclosão da I Guerra Mundial e
do desejo de que tal confrontação não voltasse a acontecer. A força motriz para
esta perspetiva reside, portanto, na orientação normativa e no pressuposto
subjacente de que o estudo académico de relações internacionais tem o potencial
de contribuir para a prevenção da guerra e o estabelecimento da paz. Centrando-
se no problema da guerra, e com bases no iluminismo do século xviii, o
internacionalismo liberal, como Scott Burchill destacou, sugeriu que «as
perspetivas para a eliminação da guerra estava com uma preferência entre a
democracia sobre a aristocracia, do comércio livre sobre a autarquia, e da
segurança coletiva sobre o balanço de sistema de poder»46.
A primeira ideia fundamental reside, então, na visão de que a democracia em
diferentes estados contribui para o estabelecimento da paz entre os estados.
Esta ideia, cujo principal expoente é Immanuel Kant, aparece pela primeira vez
expressa no seu «paz perpétua». Neste texto sobre as relações internacionais do
século xviii, Kant expressou a opinião de que as estruturas internas do governo
de um estado produzem efeitos profundos sobre a forma como este conduz as suas
relações com outros estados. O estabelecimento de uma «paz perpétua» está,
contudo, dependente de uma série de pré-requisitos que devem ser cumpridos para
que as condições que darão origem à guerra perpétua se verifiquem. Kant sugere
que enquanto a guerra pode beneficiar os governantes, não pode ser do interesse
de cidadãos livres de uma república, uma vez que esta população teria «grande
hesitação em iniciar um empreendimento tão perigoso»47. Assim como a razão é a
base de uma «constituição perfeita civil», que garante a liberdade, assim
também a razão, «como o mais alto do poder legislativo moral, condena
absolutamente a guerra como um teste dos direitos e estabelece a paz como um
dever imediato»48. A ordem democrática num Estado fornece uma cidadania livre
com capacidade para condenar a guerra conduzida no interesse de governantes e
estabelece a opinião pública como uma restrição primária na condução das
relações com outros estados. Para que a paz seja segura, no entanto, uma
«federação pacífica» teria que ser criada para garantir os direitos e deveres
das partes contratantes. Fundamentando-se em razões republicanas, comerciais,
institucionais e culturais, Kant abre caminho para um pensamento que viria a
caracterizar as relações internacionais desde então49.
Após 1914, esta forma de pensamento encontrou a sua aplicação prática na ordem
«wilsoniana» que se seguiu50. As duas ideias que emergem a partir de reflexões
de Kant sobre uma paz perpétua e que formaram os fundamentos básicos para o
internacionalismo liberal que dominou a disciplina de RI nos seus primeiros
dias de formação centraram-se, deste modo, na sugestão de uma governação
democrática e institucionalizada/legal para governar relações de cooperação
entre os estados. Estas são em si sustentadas pelas ideias gémeas de formação
do iluminismo, ou seja, a racionalidade humana e uma ordem cosmopolita moral
que vê a humanidade como um todo, como o domínio de um sistema de direitos e
obrigações51. Assim, os dois pilares de formação do internacionalismo liberal,
a democracia e o livre comércio, exigiram o estabelecimento de instituições
internacionais que promovem a aspiração coletivista no lugar das relações
conflituosas de forma a evitar a base do equilíbrio de poder que esteve na
origem da Guerra Mundial de 1914. O consenso intelectual na altura era
precisamente baseado na premissa de que as relações entre estados são
determinadas exclusivamente pela busca do poder, o que levou a violações do
direito internacional e, finalmente, ao início da guerra em 1914. Um sistema de
«segurança coletiva» foi defendido para substituir sistemas de alianças
antagónicas com uma ordem internacional baseada no estado de direito e
responsabilidade coletiva. A analogia doméstica de um contrato social foi,
deste modo, considerada transferível para o nível internacional.
Estas premissas liberais internacionalistas são, no entanto, lidas como estando
na base daquilo que levou, mais tarde, à eclosão da II Guerra Mundial. Ataques
à utopia do idealismo conduzem a afronta. Assim foi que o estudo de relações
internacionais aparece transformado numa agenda intelectual que colocou o poder
e autointeresse na vanguarda da preocupação52. O «idealismo» do período entre
guerras foi substituído pela nova realidade que, por si própria, exige mais
realismo. O livro Twenty Years Crisis, de E. H. Carr, publicado em 1939,
aparece como o panfleto deste novo estado de arte que reflete e transmite
noções de valor sobre a realidade. A realidade passa a ser lida, neste caso, à
luz de uma oposição entre utopismo e realismo53. O apelo de Carr é para uma
«ciência» das relações internacionais, uma que se afaste do que ele via como o
pensamento normativo do internacionalismo liberal. Ao apresentar em termos
dicotómicos a distinção facto-valor, e ao separar «o que é» daquilo «que
deveria ser», o texto de Carr promoveu um afastamento da doutrina utópica que,
segundo ele, foi baseada numa negação irrealista de poder e do seu impacto
sobre a política internacional. Como Carr afirma: «O excelente desempenho do
realismo moderno tem sido o de revelar não apenas os aspetos deterministas do
processo histórico, mas o caráter relativo e pragmático do próprio pensamento.
Nos últimos 50 anos... os princípios da escola histórica foram aplicados à
análise do pensamento, e as bases de uma nova ciência foram estabelecidas,
principalmente pelos pensadores alemães, sob o nome da sociologia do
conhecimento. O realista permite assim demonstrar que as teorias intelectuais
e padrões éticos da utopia, longe de serem a expressão de absoluto e de
princípios a priori, são historicamente condicionados, sendo ambos produtos das
circunstâncias e interesses e armas emolduradas pela promoção de interesses.»54
Este ponto leva à visão de que os valores são contexto-dependentes, que a
moralidade é determinada pelo interesse, e que as condições do presente são
determinadas por processos históricos. Em suma, onde o «idealismo» procurou uma
doutrina universalmente aplicável, Carr apela a uma análise histórica do quadro
contingente que determina a política.
A suposição do realismo como escola de pensamento centra-se, igualmente, na
visão de que o sistema internacional é «anárquico», no sentido em que é
desprovido de uma autoridade abrangente. Onde a sociedade nacional é governada
por um sistema único de governo, o sistema internacional de estados não tem
essa base e torna a lei internacional não vinculativa e, finalmente, ineficaz
na regulação das relações entre os estados. O conflito é, portanto, uma
característica inevitável e contínua das relações internacionais. Assim como o
internacionalismo liberal buscou fundamentos no iluminismo e no princípio da
razão, o realismo localiza as suas raízes ainda mais para trás, citando
Tucídides, Maquiavel e Hobbes como vozes fundadoras55.
Com o fim da II Guerra Mundial e com a entrada numa nova era de disputas, o
realismo aparece reinventado e consolidado com Hans Morgenthau. No seu Politics
Among Nations56, e apontando para uma linha de descendência que vem de
Tucídides, Morgenthau desenvolve a premissa fundamental de que «o realismo
assume que o seu conceito-chave de interesse definido como poder é uma
categoria objetiva que é universalmente válida»57. Em última análise, para
Morgenthau e outros realistas «política internacional, como toda política, é
uma luta pelo poder»58. Onde internacionalismo liberal tinha sido abertamente
normativo e prescritivo em orientação, o realismo de Morgenthau pretende ser
científico e explicativo. Teorias das relações internacionais devem, de acordo
com Morgenthau, ser coerentes com os factos e são estes que devem ser o teste
final da validade das declarações teóricas. Morgenthau, como outros realistas,
portanto, assume uma clara separação de fato e valor, entre teoria e prática.
No final dos anos 1950 e na década de 1960, vemos uma disciplina dominada por
conceções realistas das relações internacionais59. O apelo de Morgenthau para
uma «ciência» das relações internacionais foi atualizado na chamada revolução
behaviorista; uma mudança para um enfoque em questões metodológicas que
procuravam aplicar os métodos de testes rigorosos das ciências naturais para a
pesquisa em ciências sociais60. A ênfase na pesquisa quantitativa decreta que
qualquer teoria que não poderia ser sujeita à «operacionalização» fosse
considerada como sendo ' à semelhança do idealismo da pós-i Guerra Mundial '
baseada em opiniões e ideologia. Longe de contrariar pressupostos realistas,
argumentos behavioristasapenas reforçam a ortodoxia fundacional realista. Foi,
no entanto, a sua pretensão de supremacia metodológica que convidou a crítica
mais vigorosa: a ideia de que os métodos das ciências naturais poderiam ser
facilmente transpostos para as RI. Proeminente entre os críticos foi Hedley
Bull, que argumentou, com outros tradicionalistas61, que as maiores descobertas
em relações internacionais derivavam do pensamento clássico, de filosofia e
história62. A preocupação de Bull era a de argumentar que as relações entre
estados não poderiam ser reduzidas a atributos mensuráveis de poder ou de
modelos de tomada de decisão. Se os recursos de «sociedade» caracterizam as
relações entre os estados e se, de facto, poderíamos localizar códigos de
conduta que formaram uma sociedade, poderíamos legitimamente olhar para a
história e filosofia para conceituar a complexidade da política internacional.
Foi durante a década de 1960, no entanto, que outras perspetivas vieram a
constituir modos alternativos de concetualização das relações internacionais.
Com a descolonização, a retirada dos estados unidos do Vietname e a ascensão de
uma aliança de terceiro Mundo, que se fez sentir principalmente na ONU, as
relações internacionais e os seus debates foram expandidos e começaram a
abranger assuntos que pareciam longe da retórica da Guerra fria. Relações
económicas e financeiras, desenvolvimento, questões sociais e de integração
regional pareciam desafiar a primazia do estado como única unidade de análise e
poder como o determinante final de relações entre estados. Um dos principais
adversários para a ortodoxia foi John Burton, cujo trabalho passou a ser
fundamental na tentativa pluralista para reescrever a disciplina63. Fundamental
para a argumentação de Burton era a visão de que as relações globais eram
multiformes em conteúdo e envolvendo um número de diferentes tipos de atores,
de indivíduos para os estados, para organizações não estatais. Outros reforçam
este desafio com destaque principalmente para Robert Keohane e Joseph Nye e o
seu trabalho em «relações transnacionais»64 e «interdependência complexa»65. Se
o argumento do primeiro destaca como os estados não eram os atores únicos no
sistema internacional, este último, articulando conceitos de poder e
interdependência, vê a política global como sendo baseada numa variedade de
relacionamentos, em vez de força, e como, em última análise, sendo centrada em
questões que não foram hierarquicamente organizadas em torno dos interesses
estratégicos do mais poderoso. Tomando como base estes pressupostos, mais tarde
estas noções foram elaboradas tendo em vista a aplicação prática às novas
condições da realidade e agendas internacionais e foi isso que levou/contribuiu
para o surgimento da «teoria de regimes internacionais», que reconhece o lugar
do poder na política em torno de uma área temática mas que reconhece outras
dinâmicas, incluindo a legitimidade e regras de conduta66.
Fruto de novas vivênciasinternacionais, estes novos estudos expandem a leitura
das relações internacionais para dar valor a fenómenos institucionais. Mas o
que também é verdade é que, apesar de fornecer uma perspetiva mais ampla sobre
as interações globais, este pluralismo não desafiou a ortodoxia fundacionalista
realista. Ao passo que a trajetória de Burton concentrou-se em conflitos, a sua
resolução e o lugar do indivíduo nesta resolução, a escola de interdependência
ficou concentrada sobre o funcionamento das organizações internacionais, áreas
de formatação e criação de regimes. Em suma, se a identidade do pluralismo foi
baseada na sua oposição à ortodoxia realista, deve-se reconhecer igualmente que
os fundamentos teóricos do realismo, a sua derivação do pensamento clássico e a
sua dependência fundamental sobre a racionalidade essencial e soberania do
estado como ator principal não foram contestados. Mas existiu uma nova maneira
de ler o percurso das relações internacionais dos anos 1980. Uma terceira
teoria que emergiu como crítica do realismo e do pluralismo concentrou-se nas
desigualdades que existem dentro do sistema internacional, suas desigualdades
de distribuição de riqueza entre os estados ricos do «Norte» ou «Primeiro
Mundo» e os pobres do «Sul», ou o «Terceiro Mundo». Inspirados pelo trabalho de
Marx e Lenine, alguns académicos divulgavam aquilo que veio a ficar conhecido
como o paradigma estruturalista67. Este paradigma tinha como fundamento um
enfoque central em questões de dependência, exploração e salientar a divisão
internacional do trabalho que relegou a grande maioria da população mundial,
seguindo o argumento, para a pobreza, muitas vezes com a cumplicidade de grupos
de elites dentro dessas sociedades. Para esta visão, a base da desigualdade
manifestada na estrutura capitalista do sistema internacional acumulou
benefícios para alguns, causando, por meio de relações de troca desiguais, o
empobrecimento da grande maioria restante. O sistema de classes que predominou
internamente dentro das sociedades capitalistas teve igualmente uma repercussão
no mundo, produzindo as relações centro-periferia que permearam todos os
aspetos social, internacional, a vida económica e política nacional. Assim,
onde o pluralismo e as suas associações liberais tinham visto redes de
interdependência económica como base de uma maior cooperação internacional
fundada sobre o comércio e interações financeiras, teóricos neomarxistas
estruturalistas veem estes processos como a base da desigualdade, o peso da
dívida, a violência e a instabilidade68.
Mas apesar desta nova condição da situação internacional e de novos retratos
para a descrever, Kenneth Waltz, no seu Man, State and War69 e, mais tarde, no
seu Theory of International Politics70 solidifica a aspiração racionalista a
uma racionalidade do internacional. Nascido para caracterizar aquilo que por
vezes é descrito como o segundo período da Guerra fria, Waltz e a sua teoria
vêm igualmente consolidar a agenda fundacionalista. Waltz reforça um realismo
como uma abordagem dominante em relações internacionais e que situa a sua base
institucional e intelectual nos estados unidos da américa. Foi, portanto, neste
contexto que o trabalho de Kenneth Waltz estabeleceu o seu domínio na
disciplina71. O fim substantivo desta agenda já havia sido fixado no local por
teóricos realistas como Morgenthau. Onde o realismo de Morgenthau se concentra
nos atributos e comportamentos dos estados dentro do sistema internacional,
Waltz incide sobre o sistema internacional em si e procura fornecer uma
explicação estruturalista da sua dinâmica e as restrições que impõe sobre o
comportamento do estado. O sistema internacional é, para Waltz, anárquico e, em
consequência, perpetuamente ameaçador e conflituoso. O que é importante
realçar, portanto, não é o conjunto de motivos que podem determinar o
comportamento do estado, mas os imperativos do sistema internacional e da
distribuição de recursos nele.
O debate entre as três escolas de pensamento em destaque, ou seja, o
pluralismo, o estruturalismo e o realismo, foi descrito por Michael Banks, e
outros, como constituindo o «debate interparadigmático» nas relações
internacionais72, um debate baseado em imagens diferentes do sistema
internacional, suas partes constitutivas e as relações entre eles. Um debate
que, portanto, não discute tão aprofundadamente como viria a acontecer nas
fundações epistemológicas da disciplina. Nele, cada paradigma formou uma
perspetiva sobre a política global que era vista como mutuamente distinta e
incomensurável na sua agenda de pesquisa, conceitos e linguagem73.
Como o levantamento acima indica, a disciplina passou por uma série dos
chamados grandes debates, começando com o debate idealista-realista, movendo-se
através das controvérsias metodológicas que lançou o designado debate entre
behavioristas e «tradicionalistas» e culminando, no início de 1980, no debate
interparadigmático. Este desenvolvimento faseado da disciplina estruturou o
ensino das teorias das relações internacionais e formou a estrutura básica para
a grande maioria dos livros sobre o assunto74.
REFLEXIVISMO E O RETORNO DA EPISTEMOLOGIA E FILOSOFIA
Na sua busca por uma disciplinaridade absoluta, as RI foram entendidas como uma
disciplina com um mandato que é distinguível da teoria política. Martin Wight
apontou para essa suposição que tornou implícita ou explicitamente generalizada
a ideia de que a vida política nacional era essencialmente diferente da vida
internacional75. O pilar da teoria de relações internacionais, e em especial o
realismo como uma escola de pensamento dominante, passou a ser enquadrado por
um legado vestefaliano que colocou a soberania do estado e do sistema anárquico
interestadual no núcleo da disciplina. Embora o desafio pluralista tenha
conseguido alargar o âmbito das preocupações de pesquisa e tenha contribuído
para o desenvolvimento de áreas especializadas, como a economia política
internacional, estudos de conflitos e análise de política externa, este desafio
não questionou os fundamentos teórico-epistemológicos do realismo e
especificamente a sua dependência em construções de soberania, do estado e até
anarquia. A influência marxista na Escola Estruturalista começava, no entanto,
a levantar questões relativas ao estado e sua relação com o sistema capitalista
global76. O ressalvar da análise das relações de classe que transcendem as
fronteiras do estado e determinadas relações de troca ao nível global, levaram
a uma abordagem da historicidade inerente às relações internacionais e à ênfase
numa análise que aborda a disseminação global, sociologicamente informada, do
militarismo capitalista e do estado como formas predominantes de organização
humana. O Estado como unidade de análise não poderia mais ser dado como certo,
fixo e racional, nem tão-pouco o poderiam ser as relações entre estados.
Críticas reflexivas centradas na história e na sociologia de que nos falava
Bull e o seu tradicionalismo77, encontram assim aplicações práticas neste
trabalho desenvolvido pela teoria marxista. As relações internacionais são
descritas assim como práticas historicamente contingentes, situadas num
determinado tempo e em determinadas relações espaciais.
Estas críticas encobertas foram, no entanto, fulcrais para o desenvolvimento de
perspetivas construtivistas e críticas em relações internacionais. Questões
relacionadas com as relações entre conhecimento e poder, teoria e prática ou
todos os dilemas envolvidos na compreensão da função do conhecimento e da
linguagem assumem-se como palco de debate e discussão78. O que estas teorias
trazem de novo é a constatação de uma disciplina que já não podia assumir uma
distinção simples entre o mundo e a palavra, entre os factos e as narrativas
que construímos como académicos. A reflexividade inerente a este processo
serviu, por outro lado, para realçar uma disciplina baseada num discurso
ocidental que assume na institucionalização desse mundo ocidental algo de
legítimo. De um modo geral, o que caracteriza a «mudança crítica» na teoria de
relações internacionais é uma rejeição dos princípios positivistas que
dominaram a disciplina, bem como o pressuposto de que a teoria internacional
pode ser de alguma forma diferente do pensamento político e social79.
Uma série de perspetivas constituem esta mudança, e estas têm sido
convencionalmente rotuladas como construtivismo, teoria crítica, pós-
estruturalismoe feminismo. Cada uma destas teorias é por sua vez representada
internamente por um número de perspetivas diferentes, principalmente em
questões relacionadas com a epistemologia ou a natureza da crença justificada,
a ontologia ou modos de estar no mundo e a base da nossa subjetividade. o
construtivismo funda a sua base nos escritos de Weber, Durkheim ou
Wittgenstein, realçando a importância de assuntos como a construção social da
realidade: não tem, deste modo, um fim normativo em vista80. a teoria crítica
olha para a teoria social marxista, bem como para a escola de Frankfurt de 1920
e 1930, não apenas para fornecer uma crítica do racionalismo, mas para
desenvolver uma teoria social baseada na política emancipatória e da liberdade
humana81. O pós-estruturalismo, por outro lado, foca-se em filósofos como
Nietzsche e Heidegger, nos mais recentes filósofos franceses como Foucault e
Derrida para fornecer uma crítica do pensamento do iluminismo e suas
reificações da razão instrumental e contenções universalistas de verdade82.
Mais do que fornecer uma crítica pós-positivista das RI e seus discursos
dominantes, estas abordagens pretendem perceber as relações de poder que
determinam as suas exclusões, e as formas em que as teorias estão profundamente
implicadas na construção de conceitos naturalizados como soberania, anarquia ou
de segurança, economia e identidade. Em vez de considerar estes aspetos
fundadores como algo dado e inquestionável, estas abordagens passam a ver todos
os três como discursivamente construídos em práticas sociopolíticas que têm a
sua própria contingência no tempo e no lugar. Onde na ortodoxia neorrealista a
anarquia, por exemplo, era identificada como uma determinada condição do
sistema internacional, um relato crítico vê a anarquia como construída e
situada numa condição histórica específica83.
A crítica pós-positivista da disciplina trouxe assim para a agenda das RI
reflexões sobre ética, sobre questões de direitos, e sobre a natureza da
comunidade, política e da esfera pública internacional. Esta crítica ganhou uma
outra dimensão com a emergência de estudos de teoria política internacional84.
O debate destas teorias normativas internacionais é convencionalmente
emoldurado ao dividir premissas cosmopolitas e comunitaristas. Quando a
primeira perspetiva, o cosmopolitismo, defende uma única ordem moral que liga a
humanidade além das fronteiras da cultura e do estado, o comunitarismo confere
legitimidade moral para o estado e para a comunidade cultural da qual o
indivíduo faz parte.
COMO ESTUDAR? QUESTÕES DE EPISTEMOLOGIA E METODOLOGIA
Não poderíamos debater a disciplina de ri sem, finalmente, nos centrarmos em
questões de epistemologia e métodos de análise. Se até aqui este artigo esteve
preocupado em debater porquêe o queestudar, há uma necessidade de perceber
comopodemos estudar relações internacionais. Esta última secção irá debruçar-se
sobre estas problemáticas.
EPISTEMOLOGIA
Um dos debates importantes que emergiu com a expansão da teoria de relações
internacionais para novas correntes ' mais reflexivas ' de pensamento, focou-se
em disputas sobre o modo como podemos perceber o mundo que nos rodeia. Neste
sentido a própria noção do que pode ser entendido como teoria expandiu-se,
tendo surgido uma nova visão conceptual do entendimento sobre a mesma. Se no
passado era hegemonicamente assumido que a função da teoria era a de explicar
eventos sociais, parece emergir uma nova abordagem: mais do que explicativas as
diferentes teorias podem ser vistas como constitutivas da realidade social.
Fred Halliday resume sucintamente este movimento em três ideias principais:
«Primeiro, é preciso compreender quais os factos que são significativos e quais
não o são. Os factos são inúmeros e não falam por si. Para qualquer um,
académico ou não, tem de haver critérios de significância. Em segundo lugar,
qualquer conjunto de factos, mesmo que se aceite como verdadeiro e
significativo, pode produzir interpretações diferentes: o debate sobre as
lições da década de 1930 não é sobre o que aconteceu na década de 1930, mas
sobre como esses eventos podem ser interpretados. O mesmo se aplica para o fim
da Guerra fria, na década de 1980. Em terceiro lugar, nenhum agente humano,
novamente se académico ou não, pode contentar-se com os factos só: toda a
atividade social envolve questões morais, de certo e errado, e estas não podem,
por definição, ser decididas por factos.»85
Na base, este debate sobre teorias explicativas e teorias constitutivas resume-
se a uma diferença sobre o modo como podemos analisar o mundo social: está este
mundo diretamente imbricado no modo como os cientistas o pensam, ou seja, está
esse mundo fora das nossas teorias, ou, pelo contrário, será o mundo social o
que fazemos dele? Tentativas existem para tentar conciliar esta tensão. Por
exemplo, o realismo científico de Roy Bhaskar86 e a teoria da estruturação de
Anthony Giddens87 fazem um esforço nesse sentido. Para Giddens a teoria
constitutiva é capaz de abarcar os fatores estruturais e externos tratados pela
teoria explicativa; já na opinião de Bhaskar, a teoria explicativa consegue
integrar significados e entendimentos. Há, contudo, quem mantenha uma separação
entre estas duas leituras e que, por isso, mantenha uma forte divisão entre
questões de explicação e de compreensão88.
Estas disputas que decorrem no campo da filosofia e da teoria social tendem a
ter repercussão na teoria de relações internacionais. Com a década de 1980
surge um movimento intelectual claro que pretendeu mover a disciplina para além
do positivismo. A maioria do trabalho dos construtivistas, pós-modernos,
teóricos críticos, e de algumas feministas, começava a emergir e encaixava
nessa categoria ampla de teoria constitutiva89. Num artigo de 1988, Robert
Keohane90 definiu em traços gerais o debate que se seguiria quando sugeriu que
uma nova divisão emergia nas compreensões teóricas que podemos desenvolver
sobre relações internacionais. Nesse seu esforço de sintetizar o debate e «o
espírito do tempo», Keohane divide teoria em pressupostos explicativos e
constitutivos. Nesse sentido contrapõe praticamente todo o trabalho contido nos
três paradigmas dominantes da década de 1980 ' pluralismo, realismo e
neomarxismo ' e converte-os numa categoria ' racionalismo ' a qual contrasta o
trabalho que vinha a emergir em perspetivas pós-positivistas a que dá o nome de
reflexivas. O que surge desta reflexão é uma última ideia: Keohane convida os
académicos a um esforço de integração de esforços na análise da realidade
internacional por via de síntese e de diálogo entre as duas posições.
Um outro efeito de começarmos a pensar sobre teoria de relações internacionais
em termos desta divisão entre a teoria constitutiva e explicativa é que esta
divisão tornou possível uma maior consciência para disputas internas no seio de
teorias particulares. Por outras palavras, debates sobre o modo como podemos
criar teoria não se restringem a questões mais gerais do movimento que a
disciplina veio a ter em finais dos anos 1980 e com a emergência de correntes
pós-positivistas. Debates acerca do modo como podemos dar explicações sobre o
modo de ver o fenómeno social são transversais a teorias particulares. Por
exemplo, torna-se mais claro que o realismo pode ser assumido numa perspetiva
mais «prática» ou numa perspetiva mais «técnica». O movimento teórico que leva
à criação do neorrealismo, neste sentido, pretende fugir àquilo que considerava
ser a falta de capacidade explicativa de muita teoria do realismo neoclássico
como o trabalho de Reinhold Niebuhr91 ou E. H. Carr92. Para a escola inglesa a
questão é saber se os significados e interpretações da sociedade internacional
são constitutivos dessa mesma sociedade93, ou se são meras cifras para forças
estruturais94. Este mesmo debate pode ser conduzido dentro de diferentes
leituras do que é o construtivismo. Para uns, o construtivismo oferece
fundamentalmente uma nova visão ontológica do mundo e, neste sentido, o projeto
deve separar claramente questões de ontologia ' a natureza do que conhecemos '
e questões de epistemologia ' o modo como conhecemos o que conhecemos95. Outras
versões existem, no entanto, que salientam como na análise de um qualquer
objeto a natureza desse conhecimento não poder ser separada do modo como o
conhecimento é adquirido96. Em cada caso, estas disputas internas ilustram o
movimento mais geral que foi promovido na teoria de relações internacionais com
a nova problemática entre teorias explicativas e teorias constitutivas a gerar
debates mais particulares até então não suficientemente consolidados ou
inexistentes.
METODOLOGIA
A emergência de teorias reflexivas também contribuiu para expandir o debate
sobre o modo como as RI trabalham metodologicamente. Sintetizando este
contributo de maneira coerente, Roxanne Doty realça qual a principal
preocupação desta agenda. Esta pretende entender «como compreensões são
produzidas e assimiladas por vários objetos e sujeitos sociais, constituindo,
deste modo, disposições interpretativas particulares que criam determinadas
possibilidades ou supõem outras.»97
Para tentar decifrar o conteúdo desta frase, convém partir de uma distinção
mais geral que se reflete na separação entre métodos de pesquisa ' que
consistem em ferramentas concretas de investigação ' e metodologia ' um termo
abrangente referindo-se a «suposições básicas sobre o mundo que estudamos, que
são as técnicas específicas adotadas pela pesquisa do académico»98. Por outras
palavras, enquanto os mesmos métodos podem ser partilhados por várias
metodologias, uma metodologia compreende um conjunto de requisitos ontológicos
e epistemológicos ' um «estilo de raciocínio»99 ' que formula os seus de
raciocínio» que se constrói na base do racionalismo ou da escolha racional100,
com uma linguagem própria (por exemplo, cálculos de custo-benefício, utilidade
esperada, etc.), uma ontologia (um mundo composto de pré-dados, computadores-
como-indivíduos), bem como a sua própria epistemologia (positivismo); a crítica
reflexiva vem condicionar e afetar este conjunto de dados adquiridos.
Diferentes posições críticas concordam com a necessidade de interpretação para
compreender a natureza das instituições sociais e, deste modo, divergem
radicalmente do racionalismo que assume próprios padrões científicos e
condições. Na base, portanto, a crítica reflexiva da questão metodológica
esteve na origem de um debate que iria abrir a discussão sobre opções
metodológicas em RI. Encerrada a disciplina, sem esta discussão, num «estilo o
mundo como sendo estabelecido a priorie as teorias sujeitas a um mero processo
de validação/rejeição dos dados empíricos que apresentavam101. Ao invés, a nova
literatura metodológica que começa a surgir principalmente na década de
1990102, aponta para a necessidade de interpretarmos e contextualizarmos as
nossas posições. Assim, o mundo não deve ser dado como adquirido, porquanto
resulta da nossa interação com ele. Não obstante concordarem com esta posição
ontológica geral, as diferentes posições que emergem não coincidem quanto a
questões epistemológicas. Uma divisão pode ser estabelecida a este nível entre
posições «positivistas» e posições «pós-positivistas»103. As primeiras tendem a
ver entendimentos intersubjetivos como estáveis, permanecendo inalterados pela
perspetiva do intérprete. Analisam o mundo em termos multicausais, tratando
componentes de estrutura e agência como variáveis a serem testadas. As
segundas, em contraste, favorecem uma terminologia que capta a instabilidade
dos significados. Deste modo, insistem na crítica do denominado círculo
hermenêutico: menos preocupados com a generalização, evitam o objetivo de
explicação causal e rejeitam assim o vocabulário de «variáveis» a favor da
captura de «conjunturas históricas».
CONCLUSÃO
Este artigo começou por procurar a resposta a uma pergunta: o que pode dar às
RI diferenciação disciplinar? No esforço de perceber questões relacionadas com
o porquê, o quêe o comoestudar relações internacionais, o artigo debruçou-se
sobre o funcionamento do sistema de estados moderno, a identificação de um
objeto de estudo e a criação de técnicas e métodos de investigação. Este
trajeto foi lido segundo um enquadramento teórico que, por um lado, reconheceu
como é das lutas conceptuais entre académicos que a realidade nasce e, por
outro, como a criação de conhecimento está profundamente implicada na
construção do sujeito político e objeto de política.
Tendo como finalidade encontrar-se a si mesma, a disciplina moveu-se em muitos
países para além de um ensino baseado no estudo independente da história, do
direito internacional, da demografia, da antropologia, etc., e começou a
perguntar não o que estas disciplinas tratam em si mesmas mas como podem
contribuir para problemas específicos de relações internacionais. Na medida em
que o uso de outras disciplinas é feito, o argumento desenvolvido defende que
esse uso terá de ser conduzido de uma forma que esclareça problemas
particulares criados pelo objeto de estudo independente de relações
internacionais. No caminho para encontrar esse objeto de estudo, o artigo
realçou como debates sobre o papel do estado e das suas interações são
caracterizados por diferentes conceções de separação do doméstico e do
internacional e se podemos realmente confiar em conceitos como poder e
soberania para delimitar as fronteiras de um estado. Foi igualmente realçado
como estes debates irão enformar preocupações empíricas na disciplina. O campo
das relações internacionais parece, portanto, ser caracterizado por três
conjuntos distintos de preocupações: conflito, segurança e guerra; cooperação e
condições para a paz; equidade e justiça. O artigo preocupou-se, igualmente, em
traçar as transições teóricas que se verificaram nas RI. Neste sentido, traçou
o modo como se verificou um movimento para além do racionalismo com o retorno
de questões de ética às relações internacionais. O novo eixo do debate em RI é,
deste modo, caracterizado por uma disputa sobre problemas de epistemologia e de
filosofia.
Finalmente, o artigo debruçou-se sobre questões de epistemologia e metodologia.
Aqui foi mais uma fez realçado o trajeto da disciplina de uma fase em que a
predominância de um pensamento racional foi contrariada pelo advento de
correntes reflexivas. De salientar que, no primeiro caso, esta mudança
traduziu-se numa abordagem constitutiva de teoria que se refletiu num esforço
mais consistente em perceber como a realidade internacional é socialmente
construída e o papel da linguagem nesse processo; no segundo caso, a
reconstrução metodológica da disciplina conduziu a uma maior preocupação com
aspetos de interpretação que, por sua vez, levaram a debates sobre questões
contextuais, indutivas e «históricas». Um desafio importante para o futuro será
o de consolidar este conjunto de questões de forma a caminhar para um estudo
independente sobre a natureza, objeto, técnicas e métodos da disciplina de RI.
NOTAS
1
Como realçado por Chris Brown, «Relações Internacionais (com maiúscula) e o
estudo de relações internacionais (com minúscula)». Brown, Chris, e Ainley,
Kirsten ' Understanding International Relations. Nova York: Palgrave McMillan,
2009, p. 3.
2
Schmidt, Brian ' The Political Discourse of Anarchy: A Disciplinary History of
International Relations. Nova York: State University of New York Press, 1997.
3
Bull, Hedley ' «International Relations as an academic pursuit». In The
Australian Outlook. Vol. 26, N.º 3, 1972, pp. 251-265.
4
Aron, Raymond ' «qu'est-ce qu'une Theorie des Relations Internationales». In
Revue Française de Science Politique. Vol. 17, N.º 5, 1967, pp. 837-861.
5
Humrich, Christoph ' «Germany». InKnud-Erik, Jorgensen, e Knudsen, Tonny B.
(eds.) ' International Relations in Europe: Traditions, Perspectives and
Destination. Londres: Routledge, 2006.
6
Friedrichs, Jörg ' European Approaches to International Relations Theory: A
House with Many Mansions. Londres: Routledge, 2004, pp. 65-84.
7
Tickner, Arlene, e Wæver, Ole ' International Relations Scholarship Around the
World. Londres: Routledge, 009;Knud-Erik, Jorgensen, e Knudsen, Tonny B. (eds.)
' International Relations in Europe: Traditions, Perspectives and Destin ation.
Londres: Routledge, 2006. O caso português foi explorado em
Ferreira-Pereira, Laura, e Freire, Maria Raquel ' «International Relations in
Portugal: the state of the field and beyond». In Global Society. Vol. 23, N.º
1, pp. 79-96.
8
Ibidem, p. 143.
9
Ibidem.
10
A história interessa às RI, por exemplo, na capacidade de compreender
processos históricos de mudança sistémica e, particularmente, pelo contributo
que traz na definição das instituições políticas, económicas e culturais que
contribuem para mudanças temporais (sobre este assunto cf. Little, Richard '
«International Relations and large-scale historical change». In Contemporary
International Relations: A Guide to Theory. Londres: Pinter, 1994, pp.9-26). O
direito internacional interessa às RI, por exemplo, no modo como este serve
para compreender ou explicar melhor a estrutura interna e a função de
instituições internacionais (sobre este assunto cf. Slaughter, Anne-Marie '
«International law and international rela-tions theory: a new generation of
interdisciplinary research». In American Journal of International Law. Vol. 92,
N.º 3, 1998, pp. 367-397). A demografia interessa às RI, por exemplo, no modo
como processos de transformação de fluxos internacionais transformam processos
de identificação soberana identitária (sobre este assunto cf. Shapiro, Michael,
e Alker, Hayward ' Challenging Boundaries: Global Flows, Territorial
Identities. Minnenapolis: Minnesota University Press). A antropologia interessa
às RI, por exemplo, na análise de processos de reconstrução pós-conflito e, em
particular, nas lições que desta disciplina se podem tirar no modo como podemos
construir comu-nidades (sobre este assunto cf. Pouligny, Béatrice ' «Promoting
democratic institutions in post-conflict societies: giving diversity a chance».
In International Peacekeeping. Vol. 7, N.º 3, 2000, pp. 17-35). O que se torna
importante realçar, por-tanto, é que em todos estes casos as disciplinas são
trazidas para a investigação de problemáticas que interessam às RI e o seu
estudo não é conduzido de modo individual e independente da identificação
dessas mesmas problemáticas. Por outras palavras, as disciplinas não são
estudadas em si mesmas mas naquilo que contribuem para problemáticas em RI.
11
Um debate emergente tem surgido sobre como teorizar teorias de relações
internacionais. Para uma síntese cf. Schmidt, Brian ' «On the history and
historiography of International Relations». In Carlsnaes, et al. ' Handbook of
International Relations. Londres: Sage, 2002, pp. 3-22;
Holden, Gerald ' «Who contextualizes the contextualizers? Disciplinary history
and the discourse about ir dis-course». In Review of International Studies.Vol.
28, N.º 2, 2002, pp. 253-270.
12
Smith, Steve ' «Singing our world into existence: international relations
theory and September 11». In International Studies Quarterly.Vol. 48, N.º 3,
2004, pp. 499-515; Williams, Michael ' Realist Tradition and
the Limits of International Relations. Cambridge: Cambridge University Press,
2005.
13
George, Jim ' Discourses of Global Politics: A Critical Re-Introduction to
International Relations. Londres: Lynne Rienne, 1994.
14
Wight, Martin ' «Why is there no inter-national theory». In Diplomatic
Investigations. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1968.
15
Hoffman, John ' Sovereignty.Minneapolis: University of Minnesota Press, 1998.
16
Herz, John ' «Idealist internationalism and the security dilemma». In World
Politics.Vol. 2, N.º 2, 1950, pp. 157-180.
17
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Press, 1992. Para uma visão mais estatal do liberalismo ver a
mudança registada na obra de Keohane, Robert ' After Hegemony: Cooperation and
Discord in World Political Economy. Princeton, NJ: Princeton University Press,
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41
Sobre esta visão cf. Mearsheimer, John ' The Tragedy of Great Power Politics.
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42
Sobre esta visão cf. Keohane, Robert ' «Realism, neorealism and the study of
world politics». In Neorealism and its Critics. Nova York: Columbia University
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43
Sobre esta visão cf. Wallenstein, Immanuel ' «The inter-state structure of the
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diferentes escolas, cf. Smith, Steve ' «Six wishes for a more relevant
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Ibidem,p. 104.
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1939 e 1981; Nova York: Harper & Row, 1964. Este artigo
vai basear-se na edição de 1964.
54
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Thucydides to the Present. Oxford: Oxford University Press, pp. 47-169.
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57
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Para uma descrição mais detalhada e comparada de construtivismos cf. Rigueira,
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Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
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